Freud para historiadores



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assinala aquele trabalho da cultura ao longo da trilha da maturação
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pessoal. Não é segredo que desde o momento do seu nascimento a

crianca est em interação contínua com o mundo dos outros, Pode

ser conveniente, e h muito tem sido usual, comparar a história da

vida humana a um rio que nasce como um fino filete, que se alarga

e se aprofunda na medida em que vai recebendo os tribut rios ao

longo do seu curso. Mas a met fora, embora atraente, não faz justiça

...s massas de experiência social que se chocam com a criança desde o

início. Corredeiras culturais caem torrencialmente sobre ela. A criança, inicialmente um mero feixe de necessidades, totalmenté devotada

ao sono, ... amamentação, ... eliminação, não tem nenhum modo de

libertar o seu pequeno self de seus protetores. Mas então o infante

pateticamente dependente transforma-se, mês a mês, ...s vezes, dia a

dia, em uma criança; aprende a separar-se de seus pais, irmãos, estranhos, algo como uma diminuição de suas fronteiras pessoais. De

forma relutante e com sucesso parcial, desiste do seu sentido quase

alucinatório de onipotência em favor de uma autopercepção que grosseiramente se assemelha ...s suas dimensões reais. Mas esse recuo da

fantasia para um certo realismo não implica uma diminuição da sua

ligação com as suas vizinhanças. Ao contr rio, o próprio progresso

da crianca em relação ... competência - sua aquisição gradual da

motilidade, da fala, da confiança na persistência das pessoas amadas,

das paixões tempestuosas pelos outros e as defesas contra a dor envolve-a com realidades externas mais irrevog veis do que nunca.

0 "ego", corno Freud resumiu o seu pensamento no seu último livro,

sofre um "desenvolvimento especial", e o faz "sobre a influência do

mundo externo ... nossa volta".'5 A extensão da amamentação, a severidade do desmame, o modo do treino de toalete, o estilo dos pais de

manifestarem aprovação e desaprovação, e uma série de pistas sutis,

são todos mensagens enérgicas do mundo externo, moldando materiais

vivos e male veis em formas reconhecíveis como pequenos aristocratas, protestantes ou espanhóis, Os pais da criança, afinal de contas,

em geral a influência dominante na construção do car ter, não são

eremitas, Sua maneira de educar os seus rebentos é, certamente, modelada sem consciência pelos seus i maior
h bitos e neuroses pessoas: a
parte da educação, como Freud insistiu, é a repercussão de um inconsciente sobre outro. Se os pais cantam para a sua criança ou ficam em

silêncio, lidam com ela de forma consistente ou ao acaso, admitem-na

em seu quarto ou a interditam, depende em grande parte das lições

que eles mesmos absorveram, bastante involuntariamente, quando por


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sua vez eram i~naturos. Ao mesmo tempo, o seu estilo de pedagogia

deve tanto, ou talvez mais, aos mundos religioso, social e cultural no

qual estiveram mergulhados durante toda a sua vida. Nos tempos

modernos, pelo menos, e com freqüência antes, a família nuclear

atuou como um agente preferencial da cultura; transmitiu e distorceu

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imperativos sociais, definiu os limites do permissível, ditou as normas

sociais. É a primeira, e normalmente a decisiva, cultura, escola, estado e religião da criança.


A fase edípica adequa-se perfeitamente a esse padrão. Representa

tanto o parentesco essencial a toda experiência humana privada como

a sua natureza essencialmente social. 0 triângulo familiar é uma pequena sociedade em ação, completa com afirmações de autoridade e

tentativas de rebelião; o modo pelo qual os pais lidam com as emoções imoderadas e freqüentemente intrigantes de seus filhos est no

fundo de uma decisão social feita em ampla medida por forças que

estão por tr s dela, E o superego emerge de uma interação ainda mais

visível entre um indivíduo em crescimento, aprendendo, e as forças

sociais que o pressionam sob a forma de substitutos adultos. A criança

absorve os comandos e as proibições paternas, seus desejos e ansiedades freqüentemente inconscientes, e os traduz em exigencias estritas

de conformidade e de padrões aceit veis de conduta, sem importar o

quão incompreensíveis ou mesmo injustas elas possam parecer. A
1 .

propna obediência torna-se um valor, uma fonte de recompensas e

uma proteção contra punições. Adequar a criança ... sua sociedade

através de diretivas autorit rias no lar, nos jogos, na igreja inicia-se

cedo e somente se intensifica quando os pais julgam que os seus rebentos estão prontos para o controle e a disciplina. Na época em que

as crianças entre um a três anos cornecarn a ir para a escola, a mais

jovem entre elas j est totalmente aclimatada ao espaço social que

ela, seus pais, vizinhos e companheiros de brincadeira ocupam naturalmente, sem se darem conta,


Freud pintou um quadro um tanto sombrio a respeito do preço

que custa ao jovem essa socialização. Poderia endossar cordialmente

o "protesto contra o louvor comum e excessivo da felicidade de nossos anos infantis, que se propaga com tanta afeição no mundo" "

de Gibbon. Sem dúvida, a infância tem os seus prazeres intensos:

a ternura do amor materno, a segurança dada pelo cuidado paternal, a

alegria da descoberta do poder efetivo e real, e não ilusório, sobre os

elementos do meio, Mas o principal é a sobriedade da escola da vida,
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cheia de desapontamentos, renúncias e conflitos. 0 Sim do seio materno que alimenta é insepar vel do Não da mão materna que pune.

As autoridades externas fazem exigências sobre a criança que se opoem

ao seu desejo natural por uma gratificação imediata e sem restrições,

Reter a urina e as fezes até que se chegue ao local apropriado que

uma vez atingido exige que não se retenha mais, adiar a alimentação

até o hor rio estabelecido para as refeições, abandonar a sensação prazerosa de tocar os próprios genitais, moderar a paixão por um dos

pais são apenas algumas, embora certamente as piores, das privações

que pais amorosos ou bab s são levados a impor e a fazer respeitar.

A exigência firme para a obediência, para ficar em silêncio quando os

adultos falam, para estudar quando se deseja brincar são derivados

.sofisticados de regras essenciais que cercam a criança quase que desde

o momento do seu nascimento, regras que ela aprende a assimilar,

embora não sem protestos. Para tornar sua realização ainda mais aborrecida e repulsiva, os adultos não pedem ... criança apenas que adie

ou fique sem gratificações acalentadas; insistem que aceite o seu cârion com boas maneiras, como justo e correto, e que veja a sua transgressão como uma ofensa, talvez como uma forma de ir para o inferno

e de se perder, o que, para a maioria das crianças, significa a perda

do amor dos pais. A criança é forçada a internalizar a cultura; aprende

muito cedo que o que mais anseia é proibido, provavelmente ruim.

Civilizar uma criança é constatar isso a cada momento. É por isso

que seus desejos, suas concupiscências e raivas são submersos no inconsciente; que ela os recalca e armazena, abrindo o caminho para as

suas dificuldades posteriores na sua vida erótica, profissional ou política.


Desenhei esse esboço do desenvolvimento para sublinhar a minha convicção de que uma sociologia do inconsciente é agora uma possibilidade realista. 17 Tal sociologia - e história - não negligenciar

aquelas seduções e terrores que bombardeiam o indivíduo quando se

confronta com seus pais, irmãos, colegas de escola, amigos de trabalho, para não dizer nada sobre'os padres e políticos, todos atuando

sobre ele. Meu esboço deveria confirmar que a cultura não é uma

roupagem superficial no homem, mas é parte integrante da própria

definição de sua humanidade."


Sem dúvida, os materiais de construção mais interessantes para

uma história desse tipo são o que Arma Freud chamou de mecanismos

de defesa. São interessantes assim porque, embora sejam manobras
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psicológicas profundamente pessoais, desenvolvem-se principalmente

corno uma resposta ...s realidades coletivas externas, e permanecem em

contato íntimo e contínuo com elas. Ubíquos, vers teis, inventivos,

esses estratagemas inconscientes tornam a civilização possível e suport vel." Localizadas no ego, aumentando em tamanho e em efetividade enquanto a criança vai crescendo na sua cultura, as defesas

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protegem contra a dor ou o perigo de fontes externas e mais ainda



das internas.` Atuam de modo a reduzir, ou a elidir, as ansiedades

eliciadas pelos outros, pelas situações ou eventos, que despertam ou melhor, despertam de novo - impulsos proibidos, memórias intoler veis, fantasias aterradoras ou sentimentos de culpa impiedosos. 0

repertório de estratégias defensivas evolui, após alguns anos, para

uma armadura quase impenetr vel. As defesas afastam da consciência

conflitos e desconfortos potenciais ou negam a sua existência, domesticam as ansias primitivas de modo que sirvam a atividades culturais

mais elevadas, convertem agressão em afeição, atribuem sentimentos

feios que não se ousa confessar a outros. Procuram garantir a integridade, a própria sobrevivência do indivíduo, e assim alcançar o

núcleo da experiência humana. Mas, embora protejam a vida e a integridade do sujeito, são também um aliado bastante inconveniente e

inconstante. Mais de uma vez, geram mais problemas do que resolvem:

a maior parte do sofrimento mental pode ser atribuída a defesas que

se tornaram selvagens .2' Ao responder a alarmas desnecess rios, ao

tratar impulsos eróticos normais ou agressivos como se fossem c-rimes

reais e horrendos, as defesas podem erigir muralhas protetoras que se

tornam prisões que confinam fobias, gestos obsessivos ou inibições

paralisantes,
As mesmas inconsistências problem ticas perseguem as defesas

que se desenvolvem na e através da cultura. Certamente, no sentido

exato da palavra, as defesas são mobilizadas pelos indivíduos e a

serviço deles. De fato, habitualmente, uma fonte de desconforto contra

a qual o indivíduo se defende são as exigências estritas da cultura,

que o pressionam a realizar tarefas desagrad veis e a adiar ou a desistir de seus desejos mais caros. Como Freud nunca se cansou de

dizer, "todo indivíduo é virtualmente um inimigo da cultura 11.22 Mas

as instituições, advers rias e opressoras do indivíduo, são também

planejadas e, com o passar do tempo, aperfeiçoadas para trabalhar

em seu benefício. Freud, como sabemos, postulou uma única "fonte

dinâmica" para as aquisições tanto individuais quanto sociais, e en

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i

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controu essa fonte no que considerou como a tarefa principal do



aparelho mental, a de "aliviar a pessoa das tensões criadas pelas suas

i -las é certamente

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necessidades" . o modo mais satisfatório de aliv



controlar o mundo, extrair dele as gratificações almejadas pelos indivíduos, através da criação de universidades e laboratórios, planejamento de sistemas banc rios e de leis de concessão de patentes. Outro

modo - e é esta a tarefa apropriada das defesas culturais - é obter

compromissos sustent veis, tréguas tempor rias mas renov veis, entre

desejos ininterruptos e os temores gerados por esses desejos, em si

mesmo e as defesas culturais constroem

códigos legais, injunções morais, ritos religiosos, costumes matrimoniais e forças policiais.


As instituições sociais são agentes de satisfação; mobilizam criei-gias para assegurar dominação e manter sob controle rivais queixosos.

Mas também fornecem uma cobertura defensiva para facilitar as vidas

dos que vivem sob a sua égide ao construir as fortificações proibidas

da honra e da indignação, inundando os rios da vergonha e da autoreprovação - um sem-número de estratagemas que servem para conter a invasão de paixões desordenadas possivelmente destrutivas. Mais

positivamente, essas instituições defensivas permitem paixões que poderiam, sem o seu benepl cito, ser grandes geradoras de ansiedade;

fornecem interpretações do mundo que lhe emprestam uma aparência

resseguradora de ordem e estabilidade; abrem espaço para excêntricos

que seus contemporaneos poderiam, na ausência de tal refúgio, estigmatizar como criminosos ou loucos. A instituição da guerra torna o

assassinato digno de mérito; a religião recompensa o êxtase, as cadeias

de comando simultaneamente controlam e liberam a ânsia de exercei

o poder sobre os outros. Inevitavelmente, como as defesas dos indivíduos, os sistemas defensivos sociais e culturais podem preencher a

sua atribuição demasiadamente bem e exacerbar as próprias ansiedades que p re sumivelrn ente foram criadas para desarmar. Mas, apropriadas ou inapropriadas, racionais ou irracionais, as defesas culturais

trabalham constantemente para definir e redefinir as reas de liberd;de dentro das quais os indivíduos encontram o seu caminho.2'
Aqui, suspeito fortemente, posso espreitar (para falar como

William Langer) a próxima atribuição do historiador. Poderia ser

uma tarefa nobre a de escrever uma história sobre as defesas, traçar

as suas origens, analisar as suas transformações pessoais e sociais,

alocar para cada época e classe as defesas que achou mais adequadas.
nos outros Com esse objetivo
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É impressionante ver quão poucos historiadores, sem serem psico-historiadores, têm de fato começado a discutir a atividade defensiva como

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pistas valiosas sobre o passado. Escolho, como o melhor exemplo que

conheço, o livro Man and the natural World, de Keíth Thomas, um

estudo sobre as mudanças nas atitudes inglesas em relação aos animais, aos seres humanos, as arvores e ... grama. Em meia dúzia de

capítulos fascinantes, maravilhosamente documentados, Thomas esboça uma mudança marcante de um estilo cultural para outro - da

postura arrogante de que o homem, possuidor privilegiado e dirigente

de toda a natureza, pode fazer com seres inferiores o que quiser, para

um sentido mais modesto e generoso de si mesmo enquanto administrador de tudo que examina. Essa mudança nos sistemas de defesa

social, em grande parte ocorrida entre os séculos XVII e XIX, significa uma ampliação progressiva da responsabilidade humana em relação ... natureza animada e inanimada, uma diminuição no limiar de

repulsa e um sentimento mais preciso de compaixão. As crueldades

mais devassas em relação aos animais, como Thomas demonstra, eram

bastante irrefletidas, permitidas não apenas pela convicção orgulhosa

de um domínio inquestion vel, mas também pela conveniente noção

de que animais e p ssaros não tinham sentimentos e assim não podiam

sofrer. Aos poucos, os ingleses aprenderam a discriminar as suas agressões legítimas contra animais: somente os que fazem parte da dieta

humana ou estão em galinheiros podem ser assassinados sem remorsos. A pr tica defendida anteriormente de torturar e matar animais por

esporte, como na luta de galo ou na caça de ursos com cães, tornou-se

gratuita, vulgar, indecente e inumana.
Thomas traça essa impressionante reorientação da sensibilidade

inglesa tradicional ao oferecer uma série de exemplos esclarecedores.

Também propõe uina série de causas: a difusão do conhecimento científico, a secularização incipiente das visões de inundo, a emergência

do culto aos sentimentos, originado no século XVIII. Esses impulsos

para o humanitarismo, que chegou a incluir animais ao lado de homens famintos, prisioneiros, crianças e nativos remotos, todos reunidos

em um abraco lacrimoso de simpatia, foram apoiados por desenvolvimentos pr ticos. A industrialização tornou mais desnecess rio do

que jamais havia ocorrido antes o trabalho animal: o aumento da

autoconfiança e da maturidade política da laboriosa classe média inglesa deu um forte impulso ... propaganda antiaristocr tíca dirigida

contra a caça, aquele esporte privilegiado e cruel de ricos indolentes.
1 -~ 7

#


No século XIX, a época dos bichos de estimação. dos refúgios de

vida selvagem, do vegetarianismo estava ... disposição mas - como

Thomas conclui - sem deixar de colocar para os ingleses um dilema

que ainda pesa sobre nós atualmente, "como reconciliar os requisitos

físicos da civilização com os novos sentimentos e valores que a mesma civilização havia gerado". A exploração moderna da natureza produziu uma civilização desconfort vel consigo mesma e com uma inventividade tecnológica que gera bens e difunde prosperidade. "Uma

mistura de compromisso e de ocultamento", observa Thomas, "tem

até agora impedido este conflito de ser totalmente resolvido, Mas não

se pode escapar completamente ... questão e pode-se estar certo de

que ela retornar " .2-,, Ao descrever a civilização corno um dilema

permanente no qual não h soluções definitivas e onde cada avanço

tem o seu preço, Keith Thomas parece-se demais com Sigmund Freud

0 livro de Thomas teria sido diferente se ele tivesse aceito Freud

mais explicitamente do que o fez? A questão transcende a si mesma,

e a resposta suscitar problemas mais amplos do que os deste capítulo.

É tentador sugerir que o ganho ao introduzir as categorias psicanalíticas nesse estudo solidamente construido seria no m ximo marginal

e provavelmente contrabalançado por urna certa perda de elegância

e clareza. Realmente (e acredito não estou sendo indulgente sobre

um trabalho histórico magistral), Thomas nessa obra esteve falando

de Freud sem conhecê-lo. Cita Freud apenas uma vez, e a sua ciência

auxiliar, sabemos, não é a psicanálise mas a antropologia, a qual j

tinha usado de forma inspirada no seu Religion and the decline oi

magic, publicado em 1971. Além disso, explicitamente negou que tivesse recorrido conscientemente ao instrumental p si canal ítiCO.26 Mas

h em Thomas evidências dispersas de que est muito familiarizado

com o domínio freudiano, Todos nós vivemos nesse domínio, mais

ou menos, como mostrei, mas Thomas sai-se muito bem nessa moradia

que não escolheu. Emprega conceitos psicanalíticos, como obsessividade e projeção, culpa e defesa; analisa o medo simbólico presente

na luta de galo ao reconhecer o double entendre sexual subjacente ...s

atrações manifestas dessa ave belicosa.1~`


Ainda assim, h uma diferença entre visitar o país psicanalítico

e tornar-se cidadão dele. 0 leitor atento não ter deixado de riotar

que o vocabul rio freudiano que introduzi possibilita uma série de

redescrições. Mas as descrições podem conter explicações, e as categorias freudianas podem servir como muitos outros indicadores para


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realizar diagnósticos em profundidade de indivíduos ou de grupos sociais; são pistas para dimensões ocultas de motivos inconscientes e

conflitos recalcados. Um historiador que se ocupa da psicanálise ao

trabalhar com os materiais que Keith Thomas revelou iria além ao

seguir a trilha analítica onde Thomas j deu os primeiros passos. Tal

historiador se questionaria e tentaria descobrir provas ao detalhar

#


fantasias como a de alunos jovens ingleses que atam um galo a uma

estaca, e o apedrejam até a morte, ou a de caçadores que abatem

veados domesticados que guarda-caças colocam ao alcance de suas

armas. Ele suspeitaria da posição cortês e indulgente com que os

ingleses bem-nascidos tratavam os povos coloniais como exibindo os

traços de estratagemas psicológicos primitivos. Descobriria, transposta

para o século XIX, a manobra defensiva da formação reativa recusa inconsciente e enérgica do sadismo através da pr tica exagerada do oposto - no antivivisseccionista virulento e intolerante. Poderia detectar (espera-se com prudência e com o devido respeito ...s

ambig üidades do desenvolvimento humano) as semelhanças significativas entre uma visão científica do mundo, cada vez mais influente,

que ve a natureza não como uma serva do homem mas como totalmente indiferente a ele, e o processo doloroso da maturaçao psicológica na qual a criança cresce ao aprender a separar-se dos seus

protetores e ao afastar-se do seu sentido de onipotência precioso e

totalmente fant stico. A idade da violência e da crueldade ingênua

assemelha-se ... fase na qual os impulsos agressivos são liberados em

parte porque muitos vivem ... margem da subsistência e assim não se

dão ao luxo de sublimar os seus ódios, enquanto poucos que vivem

soberbamente como guerreiros não precisam sublim -los. A época de

uma humanidade e de uma gentileza maiores, quando a afluência é

difundida e os valores aristocr ticos estão em questão, é uma época

na qual a sublimação torna-se tanto possível quanto necess ria."

Tais paralelos, sem dúvida, teriam encorajado o historiador psicanalista a refletir sobre a partilha das forças sociais nas representações

mentais, que Thomas explorou tão habilmente ... sua própria maneira

3 - 0 self obstinado
0 argumento que apregoa a natureza cultural do homem encerra

uma importante verdade, mas, como Freud afirmou mais de uma vez,

não contém toda a verdade. Os psicanalistas nunca desviaram sua
1 -5C)

#


atenção da singularidade do indivíduo, da sua brava luta pela integridade. Seus argumentos em defesa de um sell obstinado têm sido questionados energicamente em décadas recentes em alguns ensaios destacados, e eu os defendi na minha discussão sobre as pulsões e os seus

que os historiadores têm permanecido ... margem

destinos. Mas, desdeios, é apropriado repetir aqui a sua

do debate motivado por esses ensa- provocatíva - e para

argumentação. Provavelmente a abordagern mais

os historiadores, sumamente utiliz vel -- entre as que buscam uma

apreensão justa sobre a natureza humana na cultura " apareceu em um

artigo de 1961 do sociólogo Dermis Wrong sobre a concepção hipersocializada do homem" que ele constatou entre os seus colegas. Seu

título, que acrescentou um termo ao vocabul rio da ciência social

contemporânea, indica suficientemente o argumento que ele apresenta

de forma tão persuasiva: enquanto existiram alguns dissidentes com-

petentes da ortodoxia, a teoria sociológica reinante em nossa época,

melhor exemplificada pelos escritos de Talcott Parsons, procurou explicar a existência da ordem social através da capacidade do homem

para internalizar as normas da sua cultura, 0 homem, nessa visão,

é totalmente modelado pelas instituições que o cercam e o oprimem,

Naturalmente, responde ...s forças externas, a política de poder das

autoridades que lhe inspiram medo e o compelem para a submissão;

mas, mais do que isso, internaliza as regras sociais. Assim, se fosse

desobedecê-las, então se sentiria culpado."
Mas nessa concepção hipersocializada de homem, Wrong queixa-se de que o processo psicológico de "iriternalização foi igualado

sub-repticiamente ao de 'aprendizagem', ou mesmo ao de 'formação

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