Freud para historiadores



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de h bito' no sentido mais trivial". Essa simplificação excessiva e

desastrosa desconsidera "a ênfase completa" da psicanálise 11 nos conflitos internos - a tensão entre impulsos poderosos e controles do

superego". Para Freud, argumenta Wrong, esse conflito é de importância crucial, e mostrou-se muito mais sutil, muito mais próximo da

experiência humana do que a defendida pelos sociólogos criticados

por Wrong. Eles vêem o indivíduo que se conforma sentindo-se bem;

mas os psicanalistas demonstraram que tal indivíduo pode sofrer muito

mais fortemente do que o dissidente não conformista, contestador.

"Segundo Freud, é precisamente o homem que tem o superego mais

severo, o que internalizou mais completamente e que se conformou

...s normas societ rias, o mais torturado pela culpa e pela ansiedade. 11 30


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Essa realidade sociológica sombria, ir"nica é inacessível para os

cientistas sociais que se impressionam indevidamente com a capacidade da cultura para integrar os seus diversos componentes. Por esta

razão a ubiqüidade do conflito tanto na sociedade como no indivíduo

deve permanecer um mistério para eles, ser negada ou deixada de

lado. Na verdade, o que Freud viu, e o que aqueles sociólogos não

vêem, é que o conflito é a norma, e não a anomalia. Eles fecham os

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olhos, quase que voluntariamente, ...s pressões das necessidades inconscientes, ...s impertinências do princípio do prazer. 0 "discernimento mais fundamental" da psicanálise é o de "que o desejo, a emoção e a fantasia são tão importantes quanto os atos na experiencia



dos homens". Ao insistir sobre a maleabilidade humana, na sua fome

por aprovação dos outros, a maior parte dos cientistas sociais desconsiderou o self obstinado. E assim, Wrong conclui, "quando Fretid

definiu a psicanálise como o estudo das 'vicissitudes dos instintos',

estava confirmando, e não negando, a 'plasticidade' da natureza humana sobre a qual os cientistas sociais insistem. As pulsões ou 'ins


tintos' da psicanálise não são disposições fixas para comportar-se de

uma forma particular; são totalmente sujeitos a serem canalizados e

transformados socialmente, e não se revelariam no comportamento

sem a moldura social". Não h dúvida de que para a "psicanálise o

homem é na verdade um animal social; sua natureza social est

profundamente refletida ria sua estrutura corporal". Mas as diferenças

entre a concepção freudiana e a da maioria dos sociólogos permanece

profunda. "Para Freud o homem é um animal social sem ser um animal inteiramente socialiZado. A sua natureza social é em si mesma a

fonte de conflitos e antagonismos que criam resistências ... socialização

através de normas de qualquer sociedade que possa ter existido no

curso da história humana." '1 0 que torna a leitura sociológica da

natureza humana err"nea e tão particularmente irritante é o fato de

ela fazer uma leitura err"nea da psicanálise, uma violação de Freud

em nome dele, que a maioria desses cientistas sociais acha que estudou

com cuidado e proveito.
Cerca de seis anos antes de Dennis Wrong publicar o seu protesto argumentado e altamente eficaz contra uma teoria do hornem

que simplesmente mergulhava o indivíduo no seu ambiente social,

Liortel. Trilling chegou ...s mesmas conclusões por via liter ria. Ao

meditar sobre o papel destacado de Freud na definição da idéia moderna de cultura, Trilling aplaudiu o comprometimento de Sigmund


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como um conjunto
Freud com a biologia, que ele vê como algo que oferece uma ajuda

incompar vel ao indivíduo ameaçado. Com certeza, Trilling escreve,

Freud "deixou claro como a cultura difunde-se até as partes mais

remotas da mente individual, sendo considerada quase literalmente

como o leite materno". Mas, enquanto Freud descreve a pessoa como

invadida pela sua cultura até os ossos, "h no que diz sobre a cultura

um acento firme de exasperação e resistência". Sua "concepção de

cultura é marcada" por uma "consciência adversa" poderosa, uma

11 percepção indignada", por um "tr gico arrependimento". Embora o

self para Freud seja "formado pela cultura", ele "também vê o se11

contra a cultura, lutando contra ela, relutante

desde o início em entrar nela".3' Em poucas palavras, a cultura é

indispens vel e sufocante ao mesmo tempo. 0 que pode resgatar o

indivíduo do seu abraço fatal são os impulsos instintuais; a insistência

freudiana na procura ininterrupta de prazer, ancorada na sua constituição essencial, "longe de ser unia idéia reacion ria, é realmente uma

idéia libertadora. Propõe para nós que a cultura não é totalmente

poderosa. Sugere que h um resíduo da qualidade humana para além

do controle cultural". A sede pela comunidade que fascina até as

pessoas cultas, a sua necessidade consurnista de sermos "todos juntos

não conformistas , deve ser corrigida por uma resistência firme a essa

onipotência cultural".
Essa resistência retira a sua força da reflexão freudiana de que,

"ern algum lugar na criança, em algum lugar no adulto, h um núcleo

duro, írredutível, obstinado de razão biológica, que a cultura não pode

alcançar e que se reserva o direito, e o exercer mais cedo ou mais

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tarde, de julgar a cultura, de resistir e de revis -la". Isso é algo



mais do que elegante e enf tico; enquanto uma exposição sobre as

convicções firmes de Freud a respeito da interação dialética entre

indivíduo e sua cultura, est totalmente correta. Basta ler os casos

clínicos freudianos para reconhecer a legitimidade das avaliações de

Lionel Trilling e de Dennis Wrong sobre o pensamento freudiano

a respeito da natureza humana: para todos os seus analisandos, Freud

achou que valia a pena escrever igualmente sobre as experiências que

eram deles mesmos e sobre as que eram amplamente partilhadas; eles

eram ao mesmo tempo vítimas dos outros e de si mesmos.
Precisamente como os psicanalistas, embora por razões profissionais próprias, os historiadores encontram-se traçando o fio da individualídade na tapeçaria da sociedade, Não importa quão incerto um
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historicista da história moderna possa ser, ele tende a comprometer-se

com o individualismo, a procurar o que é único em cada personagem

histórico, em cada evento histórico, em cada época histórica. Tudo

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mais, dir , é sociologia. Mas o seu individualismo est sob um desafio

permanente; a sua necessidade de generalizar, de supor e de exibir

a realidade de entidades mais amplas - clãs, profissões, classes pesa continuamente sobre ele. É neste momento que as experiências

partilhadas sobre as quais falei exigem ser reconhecidas e descritas

coletivamente.` Mesmo o historiador da história comparada, amoldando o seu olhar abrangente e treinado sobre os diversos materiais

diante de si, deve estar tão preocupado com o que os v rios elementos em comparação têm em comum quanto com o mostrar o que os

diferencia. Sem dúvida, o historiador considera as generalizações uma

conveniência; poupam trabalho na pesquisa e facilitam a comunicação

dos resultados. Mas se são mais do que artifícios retóricos, devem

estar baseados na convicção de que capturam similaridades substantivas, mesmo identidades parciais, e, ao mesmo tempo, uma interação

contínua - e passível de ser descoberta - entre os indivíduos que

constroem a coletividade e a própria coletividade.


Seria muito tentador desconsiderar essas preocupações historiogr ficas como uma brincadeira com questões banais que todo historiador resolve quase intuitivamente consigo mesmo ao recorrer ... sua

experiência profissional. Mas os problemas são suficientemente genuínos, e não menos prementes para serem ignorados em geral. Surgem com particular insistência na an lise das crenças comuns ou dos

ideais prevalecentes. Com certeza, a realidade difundida pelas noções

dominantes sobre homem, natureza e destino, e o seu impacto transgressivo sobre os homens que as têm absorvido enquanto disposições

culturais desde os primeiros momentos que as sentiram, parece estar

além de qualquer desmentido: a voga atual do termo francês mentalité,

que é apenas o ZeUgeist atualizado, testemunha isso. A contribuição

peculiar da psicanálise ao estudo da mentalité - uma generalização

notavelmente abrangente - é a sua descoberta de conflitos ocultos

e de pressões invisíveis na construção das mentes humanas. Crenças

compart ilhadas, o psicanalista dir , são no mínimo, em parte, ilusões

e fantasias compartilhadas."


As questões que essa discussão suscita são tão delicadas e tão

importantes, que quero passar em revista os modos através do quais

os cientistas humanos e sociais podem -realizar com vantagem o ir
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e vir entre a psicologia social e a individual. 0 historiador pode

elaborar e clarificar a psicologia social freudiana, um tanto rudimentar, que explica a coerência e as ações grupais através de identificações mútuas, pelo efeito liberad 1 or que a pura existencia coletiva tem

sobre os impulsos normalmente colocados em xeque, e pelo modo que

os grupos liberam-se de seus propósitos originais para perseguir objetivos próprios. Pode, em seguida, recorrer ... perspectiva psicanalítica

sobre a natureza humana que vê a natureza como oferecendo um

repertório impressionantemente variado mas estritamente limitado de

desejos, sentimentos e ansiedades possíveis, assim permitindo ao historiador predizer - prudentemente, sempre alerta em relação aos

desvios - como as coletividades estão propensas a pensar e a agir

em conjunto. Pode, também, seguindo o esquema desenvolvimentista

freudiano que analisa como o indivíduo internaliza os costumes, as

crenças e as proibições sociais, e como a sua cultura, agindo principalmente através da mediação do que lhe é mais próximo, fornece

direções para as suas pulsões cruas, desejos ocultos e ansiedades flutuantes. Pode, além disso, seguir os procedimentos inicialmente delineados e popularizados por Erik Erikson no seu Young Man Luther:

concentrar-se no car ter e acasos de um personagem influente que, o

autor pressupor , reflete e articula as tensões mais profundas de sua

época e do temperamento subjacen(e de seus contemporâneos com

uma lucidez exemplar ou com uma intensidade neurótica porém ins

trutiva.
Esse estilo eriksoniano de an lise, no qual o historiador lê a

cultura através de um indivíduo, tem seus riscos e suas vantagens;

sua efic cia depende muito mais de uma exploração histórica cuidadosa do mundo social de grandes personagens do que do diagnóstico

de sua estrutura de car ter. Uma das perspectivas mais arrojadas é,

no meu julgamento, a de Arthur Mitzman em Iron cage, que realiza

uma interpretação histórica e psicanalítica de Max Weber. De acordo

com a leitura de Mitzman sobre a vida psíquica atormentada de Weber,

que inclui uma dolorosa rebelião contra o seu pai e um surto psicótico

duradouro, seus dilemas mais internos refletem os dilemas da sua

cultura rígida e repressora que, pelo menos para um intelecto incans vel e inquisitivo como o de Weber, convida imediatamente a uma

desobediência radical ... autoridade que o pune sem piedade. Finalmente, o historiador psicanalítico ... procura de uma psicologia social

pode rastrear a cultura do indivíduo e o indivíduo em sua cultura, ao


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explorar as defesas que o ajudam, e a sua cultura, a atravessar a
vida.36
Citei Freud, confiante de que as suas descobertas abrem o caminho para uma compreensão da sociedade ao oferecerem explicações

#


sobre o funcionamento das mentes individuais. Disse-o de novo perto

do final da sua vida, no pós-escrito que acrescentou em 1935 ... sua

pequena autobiografia, publicada dez anos antes. Tinha quase oitenta

anos, e podia olhar retrospectivamente para quase meio século de

pensamento original sobre o homem na sua cultura. "Depois de um

desvio ao longo de uma vida através das ciências naturais, da medicina e da psicoterapia", escreveu, "meu interesse retornou ...queles

problemas culturais que haviam fascinado o jovem apenas despertado

para o pensamento". Tão cedo quanto 1912, recordou, investigara as

origens da religião em Totem and Taboo a partir de uma perspectiva

psicanalítica; nos anos 1920, prosseguira o seu trabalho em The future

of a illusion e Civilization and its discontents. Tinha sido ajudado

pelo "reconhecimento, cada vez maior, de que os eventos da história

humana, as interações entre a natureza humana, o desenvolvimento

cultural e os precipitados das experiências primevas - a partir de

cujos representantes a própria religião é impulsionada para a frente

- são apenas o espelho de conflitos dinâmicos entre o ego, o id e o

superego que a psicanálise estuda no indivíduo, os mesmos eventos

repetidos em uma escala mais ampla".'-, Freud nunca duvidou de que

a estrada que leva do divã para a cultura est aberta. 0 historiador

simpatizante, ao refazer os passos freudianos, concordar , mas est

obrigado a acrescentar que a psicanálise o deixou com muito trabalho

para ser feito. Sua estrada não est completamente pavimentada nem

mapeada adequadamente. 0 que o historiador tem ... sua disposição

é um esboço sugestivo que deve ser preenchido com as suas próprias

pesquisas, usando as suas próprias habilidades. Talvez seja suficiente

para a sua moral saber que o instrumental freudiano forneceu-lhe o

mapa e os meios e que, na difícil rea fronteiriça onde se encontram

a psicologia individual e a social, a psicanálise preocupou-se em manter um balanceamento saud vel entre a parte social da mente do

indivíduo, de um lado, e o sell único e obstinado, do outro.
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0 PrOgrama em pr tica
1 .
Pensamentos acerca de registros
Ainda é preciso disparar, no assalto freudiano, sobre um bravo

bolsão de resistência, após terem sido vencidas todas as fortificações

defensivas dos historiadores e invadida a sua fortaleza do senso comum.- a proposta de inserir a psicanálise na pesquisa e na interpretação

histórica pode ser, no fim das contas, impratic vel. Mesmo o historiador que se confessa totalmente persuadido pelos capítulos anteriores

tem boas razões para ter reservas em relação a esta dúvida derradeira.

Ele pode reconhecer que a sua disciplina pode lucrar com uma psicologia fidedigna; que a percepção psicanalítica da natureza humana é

em última an lise compatível em grande medida com os seus próprios

pontos de vista t citos, que a psicanálise pode aguçar a sua sensibilidade não apenas em relação ao pensamento e ... conduta ligados ...


tradição e ao irracional, mas também ao egoísmo racional; e que o

individualismo proverbial da psicanálise, longe de ser frustrante, pode

instruir a investigação histórica a respeito de fen"menos coletivos.

Ainda assim, tendo concedido tudo isso, ele pode persistir ao recordar

mais uma vez a sua reserva favorita e (segundo ele) devastadora: não

se pode, afinal de contas, psicanalisar os mortos.


Desde o início acreditei que isso é mais do que apenas uma

objeção perspicaz e obstrutiva. 0 passado, individual ou coletivo, não

e um paciente, Clio no divã não responde ...s interpretações nem de

senvolve transferências em relação ao seu analista. Ela est apenas ali.

Nó d passividade

obstinada, frustrante, espalhadas pelas p ginas dos escritos psico-históricos. Certamente, é ineg vel que os registros que os historiadores

freudianos, a começar pelo próprio Freud, têm compilado não inspi

a escOI)rimos as implicações desalentadoras da sua


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#


ram muita confiança, David Starmard astutamente devotou o capítulo

de abertura do seu ataque ... psico-história - e ... psicanálise - ao

ensaio de Freud sobre Leonardo da Vinci. Os defeitos desse artigo

explicitamente exploratório j foram expostos: ao analisar uma memória única e aflitiva da primeira infância de Leonardo narrada por ele

em suas anotações, Freud fez mais do que traduzir erroneamente uma

palavra-chave. 0 p ssaro que, Leonardo recordou muitos anos mais

tarde, viera até ele quando era ainda uma criança de berço, abrira a

sua boca com a cauda, batendo nos seus l bios repetidas vezes, não

era um abutre, como Freud sup"s, mas um milhafre. Esta parte isolada do intrincado novelo do raciocínio freudiano sobre o desenvolvimento psicológico de Leonardo: o abutre, um p ssaro associado na

mitologia egípcia ... maternidade e ... androginia, levou Freud a algumas

especulações de longo alcance; o milhafre era somente um p ssaro. E

ao fazer inferências biogr ficas íntimas da aparência jovem de Santa

Ana na célebre pintura da Virgem com a mae e a criança, ele não

levou em conta a convenção artística da época de Leonardo de rejuvenescer Santa Ana.

Tudo isso forneceu aos críticos da psico-história uma munição

muito bem-vinda. Mas, enquanto Freud tinha a sua curiosidade despertada para escrever um artigo sobre Leonardo devido ... história

interna, fascinante e misteriosa de um artista que ele admirava muito,

seus impulsos originais decorrem do seu interesse sobre a formação

do car ter e sobre as origens da homossexualidade. "Leonardo da

Vinci e uma Memória Infantil" não se propõe a ser uma psicobiografia, e assim est longe de poder ser um teste conclusivo sobre os

usos que o historiador pode dar ... psicanálise.' Entretanto, não é um

começo promissor,

Tampouco as últimas aventuras feitas pelos psicanalistas são indicadas para silenciar todas as dúvidas. A psicobiografia de Lutero por

Erik Erikson, que serviu como modelo, e como observei antes, realmente estabeleceu a psico-história nos meados da década de 50, é

uma obra comovedora de erudição liter ria; Erikson ofereceu reflexõe s maduras sobre um adolescente, o jovem Lutero, a partir da perspectiva de um analista profissional culto e dedicado que procura

aliviar os tormentos e inspirar uma série de jovens dotados e profundamente perturbados. Certamente o programa para uma aliança que

funcione entre o psicanalista e o historiador é um modelo do tipo

que Erikson propõe no seu capítulo de abertura. Ao mesmo tempo,

Martinho Lutero era uma escolha pouco feliz, embora atraente, para

exemplificar o programa: não podemos ter certeza de que os episódios


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críticos de Lutero, sobre os quais principalmente se baseou o seu

biógrafo psicanalítico, aconteceram do modo como foram registrados

posteriormente, ou mesmo se realmente ocorreram .2 Além disso, faltou

aos inúmeros epígonos de Erikson, na sua maior parte, a energia inte

lectual e o seu dom para uma exposição elegante.
#

Para tornar o trabalho dos historiadores freudiatios ainda mais

problem tico, e manter o ceticismo dos historiadores céticos, as expedições não convincentes dos psicanalistas na história psicanalítica forarn

combinadas com as incursões dos historiadores no mesmo terreno

sombrio e perigoso. Não h grande proveito em se fazer uma crítica

dos escritos psicanalíticos desde os meados da década de 50, eles

somam realizações muito variadas e não são, em suma, completamen=

te desanimadoras. Aludir, mesmo rapidamente, aos fiascos da psicohistória não é ceder, mas limpar o terreno. Por sua vez, os historiadores deleitam-se em achar essa literatura suficientemente provocadora

para manter viva a sua resistência. Na sua leitura preconceituosa, os
psico-historiadores são culpados de interpretar teorias políticas cuidadosamente organizadas como reflexos puros de identificações sexuais

ambíguas, ou de degradar mudanças significativas nas relações familiares a orgias do combate edipiano. Na realidade, essas psico-histórias

raramente são tão espalhafatosas, tão vulgares como os seus resenhis

tas irritados e impacientes gostam de se queixar. Mesmo quando os

psico-historiadores desaprovam seriamente qualquer comprometimento

com o reducionismo,1 suas monografias e sínteses freqüentemente

acabam por sucumbir a essa tentação. 0 reducionismo parece ser um
defeito tão constante dos psico-historiadores que os historiadores o

vêem entrelaçados com a sua própria estrutura, como uma falha

inerradic vel e fatal.
Mas o reducionismo é mais um acidente da história psíceraensalíntiteas

do que a sua essência. É a mais palp vel entre as aflições

de uma disciplina que tem sido jovem j h algum tempo mas que

pode continuar a solicitar a tolerância devida a uma disciplina que

est ainda numa fase exploratória, Reconhecidamente, a história psicanalítica é singularmente suscetível aos flagelos dos entusiastas. Os seus

produtos mais infelizes têm muitas causas, como aquelas perpetradas

em outros domínios da história. Mas, como os críticos têm insistido

com justiça mas não sem malícia, um numero exagerado de psico-historiadores tem cedido ...s atrações da simplicidade e da simetria a

seduções que historiadores que lidam com um instrumento interpretativo novo e excitante têm achado peculiarmente irresistíveis. Entre

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1

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tanto, temos antídotos teóricos e pr ticos para imunizar o historiador


contra tais engodos. er indulgente) exige

Essa afirmação confiante (alguns poderiam diz

alguma qualificação. "Reducionisnio" é, como sabemos, um termo

ofensivo. Embora a redução, uma forma racional de dissolver uma

teoria em uma outra mais ampla, abrangente, seja um procedimento

científico totalmente respeit vel.' Ele deriva sua legitimidade de uma

regra de parcim"nia, a navalha de Occam, que ensina ao cientista que

ele não deve multiplicar as leis e as teorias sem necessidade. Na medida em que os pensamentos conscientes e os eventos palp veis podem

ser exaustivamente explicados através de vontades ou conflitos em

grande parte inconscientes, a redução psicanalítica não é um reducionismo. A questão é totalmente concreta: na pr tica histórica, so

podemos decidir se uma interpretação cruzou a linha que separa uma

economia aceit vel do terreno proibido da ingenuidade depois que a

elaboramos, e caso a caso. Não h nada que seja inerentemente implausível em uma explicação histórica que dê primazia aos fatores

psicológicos. Como outros cientistas , o historiador anseia por oferecer

urna explicação no lugar onde antes existiam duas, e isso apesar do

comprometimento do historiador, cuidadosamente cultivado, pela diversidade. Tem sido a sua procura por um esquema explanatório preciso

e claro que dirige os psico-historiadores para uma psicologia do id,

deliberadamente primitiva, e insensível ao trabalho, feito pelo ego, de

testar a realidade, e para degradar os atores históricos adultos a um

feixe de sintomas infantis não resolvidos e persistentes. Em poucas

palavras, eles têm atuado contra o s bio conselho de Whitchead para

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