Freud para historiadores



Baixar 1.67 Mb.
Página16/27
Encontro18.07.2016
Tamanho1.67 Mb.
1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   ...   27

o investigador: procurar a simplicidade mas desconfiar dela. Freud

não estava persuadido como eles: ele objetivava submeter o car ter e

a conduta individuais a leis psicológicas que os subsuiniam e ao mesmo

tempo estabelecer a singularidade de cada pessoa. Longe de destruii

a celebração da variedade humana e da especificidade histórica, ele

teria trazido mais champanhe para contemor -la.
tê-lo-ia ieito em nome da sobredeterminação. Algumas vezes, os

críticos lêem este princípio psicanalítico fundamental como urna fuga

prudente ... responsabilidade. Mas então, aqueles que querem encontrar um defeito em Freud irão encontr -lo. Uma vez que eles não têm

escrúpulos em acus -lo de ser uma mente simples e unilateralmente

dogm tica que recomenda um agente causal predizivelmente ubíquo,

a sexualidade, e, ao mesmo tempo, de se refugiar, na sua confusão

sobre o drama humano, numa vaguidade resplandecente de uma causação múltipla. Sobredeterminação, de fato, não é nada mais do que
150
um reconhecimento sensato de que uma variedade de causas - uma

variedade e não uma infinidade - atua na construção de todos os

eventos históricos, e de que cada ingrediente na experiência histórica

pode ser contado como tendo uma variedade - e não uma infinidade

#

de funções.5 0 historiador, ao trabalhar com uma riqueza de agentes



causais sutis e grosseiros, imediatos e remotos, e ao pretender não

suprimir nenhum deles e ao sujeit -los a uma ordem, só pode colocarse de acordo e aplaudi-Ia. Procurar a complexidade, historiador e

psicanalista podem dizê-lo em uníssono, procurar a complexidade e

dom -la.
2. Modos e meios


Em momentos de autodepreciação, benevolente, os psicanalistas

algumas vezes maldosamente previnem-se contra fazer inferências

apressadas: "Não generalize a partir de um caso apenas", dirão, "ge neralize a partir de dois-, Felizmente, a literatura histórica recente

oferece mais do que dois exemplos de como as percepções psicana líticas podem atuar como auxiliares para descobrir e interpretar, 0

elenco de instrumentos freudianos tem, afinal de contas, uma gradua ção fina e uma versatilidade not vel. Aprendi em meu próprio traba lho que o historiador pode agrupar as percepções freudianas de modo

a descobrir temas sobre fatores críticos embora h muito marginali zados no estudo histórico - os programas escondidos que quase imper ceptivelmente dominam a infância, a família, e a cultura como um

todo, e os fluxos libidinosos e agressivos que em segredo mas irresis tivelmente invadem a vida social e política. Pode ficar atento ...s me t foras que colorem o discurso cultural. Pode observar os ódios apai xonados, seguidamente escondidos, que deixam seus traços nos jogos

e ngs festivais e que vão desde a hostilidade grosseira dos charivaris

até as mensagens oblíquas dos ritos de iniciação. Além disso, pode

analisar os silêncios reverberativos e reveladores da sociedade. Para o

historiador psicanalítico, como para Sherlock Holmes, o cachorro que

não ladra durante a noite pode ser chamado a depor enquanto teste munha relutante mas informada. A psicanálise oferece idéias e, na

situação adequada, com as suas próprias restrições auto-impostas, até

algumas técnicas que podem dar acesso inesperado a fantasias popu lares, a sonhos e lapsos e a outros atos sintom ticos, e a t ticas defen sivas que indivíduos e instituições utilizam de forma bastante invo lunt ria. Alerta o historiador para documentos que, na ausência de

i suas teorias, são inúteis, silenciosos e despidos de sentido

i
151

#

i
Ao analisar as campanhas ansiosas contra a prostituição para o



r na cultura do século XIX, fiquei impres

meu estudo sobre o amoundido de salvar as ,mulheres

sionado corri o desejo largamente dife respeit vel.. Foi

r para elas uma vida pura oria

e de reivindica , para a mai

decaídas"rometimento com essa reabilitação e de cornissoes de

intenso o COMI? consciente. Estimulou a formação

dos reformistas,cidades em toda a civilização ocidental no

especialistas nas grandesrido anteriormente com os orga

f inal do século XIX, corno havia oCor brigos para prostitutas arre

nizadores de casas de recuperação e de a

pendidas; monopolizou as simpatias imediatas de Charles Dickens e,

mais notoriamente, as de William Ewart Gladstone , que atravessava

as ruas noturnas de Londres para abordar jovens prostitutas com

panfletos, discursos bern-intencionados e convites para visitar a sua

esposa no lar. Todos esses esforços benevolentes estão de acordo com

a mentalidade mais assistencial das classes médias do século XIX,

tanto piedosas quanto leigas. Mas convenci-me de que elas tiraratri

muito da sua energia de uma idéia inconsciente, a fantasia de recuperação, o desejo de reabilitar estranhos, uni disfarce para uni desejo

bem mais potente de restaurar a pureza materna que, embora oficialmisteriosas e terríveis com o pai

mente fosse um anjo, fazia coisas

por tr s das portas trancadas do quarto de dormir. Se não tivesse

estudado Freud, não teria me dado conta da ação da fantasia de

recuperação, nem encontrado a sua altíssima utilização em urna cultura

pronta para ter compaixão.
Outros discernimentos e praticas psicanalíticas permitiram-nie

seguir pistas que não teria reconhecido, e confiar em interpretações

que não teria imaginado, sem o seu auxílio. AO.ler as referências em

di rios privados como se fossem cadeias de associações - urna espécie

de ziguezaguear desimpedido que se pede a todo analisando que realize

no divã - vi-me tratando os saltos abruptos de um terna para outro

não como uma digressão casual ou como desvios acidentais da atenção, mas COMO padrões de processos mentais coerentes, surpreendentemente legíveis. Manter um di rio e escrevê-lo, algo apreciado, especialmente no século XIX, por pais e professores, h muito tinha as

suas convenções; saúde, o clima e os pensamentos profundos sobre o

amor e a religião eram temas quase que obrigatórios. Eles, também,

podem tornar-se sintomas reveladores de uma sociedade preocupada

excessivamente corri o estado mental e do Corpo. Mas além disso, as

mudanças curiosas e freqüentes na sucessão das observações e confissões particulares revelaram até mais, através das suas conexões

inconscientes, do que o próprio escritor poderia revelar intencional

#


152
1
mente. De novo, ao estudar os sonhos que os memorialistas e os escritores de cartas pensaram que eram suficientemente interessantes para

registrarem e, a partir da sua própria maneira amadora, interpretarem, pude extrair dos seus sonhos latentes pensamentos eróticos bem

camuflados e material agressivo de que as superfícies suaves de outros

testemunhos que sobreviveram não deixaram qualquer traço. Além

disso, os conglomerados de símbolos no sonho manifesto ou de outros

detalhes que parecem ocorrer com maior freqüência em certas culturas em dados momentos deram-me pistas valiosas, em alguns casos

irreplic veis. para conflitos mais gerais mas pouco percebidos. De

modo similar, para dar um outro exemplo, tornei-me consciente de

como os documentos estéticos acessíveis em uma sociedade - seus

romances, poemas, ou pinturas - revelam, sob as lentes psicanalíticas,

a maneira pela qual aquela sociedade procura resolver, Ou recusa-se

a reconhecer, questões que acha muito delicadas para discutir francamente. A inclinacão demasiadamente humana para o incesto, os perigos e as promessas do corpo humano exposto, o medo subjacente dos

homens (enquanto diferente do manifesto) em relação ...s mulheres,

ou o medo das mulheres em relação aos homens, tudo gua para o

moinho do analista, pode tornar-se um material esclarecedor para

historiadores.'


Nas décadas mais recentes, alguns biógrafos e histuriadores integraram com sucesso esse modo de leitura aos seus métodos costumeiros, testados pelo tempo. Nem sempre mencionaram o nome de Freud:

por exemplo, Edmund Morgan sugeriu que, se não houvesse se utilizado de Freud enquanto escrevia a sua dissertação sobre a vida familiar puritana na Massachusetts do século XVII, teria escrito um livro

bastante diferente 7 Às vezes, contudo, o débito tem sido reconhecido

explicitamente. Nada é mais instrutivo de que o livro magistral de

E. R. Dodds The greeks and the irrational.' Vale a pena examinar

aqui tanto o seu procedimento quanto os seus resultados.


Dodds inicia o seu livro com uma descrição intrigante, algo tendenciosa, sobre o modo que o levou a escrevê-lo: uma exploração

sistem tica na qual as proposições freudianas não funcionam como

objetos decorativos e elegantes, mas são disponíveis para o pré-consciente, e servem para organizar as percepções sobre as experiências

passadas e trazer de novo ... vida conhecimentos eruditos empoeirados.

Um dia, Dodds recorda, ao olhar para as esculturas do Parterion no

Museu Britânico, encontrou por acaso um jovem que olhava para as

mesmas esculturas mas - ao contr rio de Dodds - não estava nada

inipressionado com elas. Os dois comecaram a conversar, e Dodds


1-53

#


perguntou ao jovem se ele podia explicar o seu desinteresse. "Bem",

ele aventurou-se, depo s d "é tudo tão terrivelmente racional, se você entende o que eu quero dizer". Dodds achou que

entendia. Levou-o a pensar: "Seriam os gregos assim tão cegos para

a importância dos fatores irracionais sobre a experiência e o comportamento humanos como supuseram tanto os seus apologistas como os

seus críticos?". Os mais eminentes estudiosos do classicismo, colegas

de Dodds, incluindo Gilbert Murray e Maurice Bowra, tendiam a

desconsiderar a irracionalidade dram tica da religião grega como uma

pura galhofa, como mera literatura. Assim, esse encontro ao acaso,

acrescido da recusa dos estudiosos de levar a sério a religião grega,

definiram para Dodds "a questão a partir da qual surgiu o livro"~ 0

livro foi a resposta que ele deu.
É sempre arriscado para os leitores substituírem as suposições

do autor a respeito da gênese pelas suas - ele, afinal de contas,

estava l . Mas sustento que o esplêndido estudo de Dodds sobre a

experiência grega não surgiu apenas a partir de uma questão - ou,

pelo menos, ela não se colocou no início da investigação. Existiu uma

história consider vel por tr s dela.'0 0 investigador profissional, afinal

de contas, aborda a tarefa escolhida com técnicas testadas, pontos de

vista articulados, informações abundantes, e algumas idéias sobre as

controvérsias de ponta na sua disciplina. Não importa quão provisoriamente possa coloc -la, mesmo para si próprio, ele ir fantasiar

sobre a descoberta de um novo fato, sobre o desenvolvimento de uma

nova linha de raciocínio, talvez criando uma nova teoria que lhe trar

senão fama, dinheiro e o amor de mulheres maravilhosas, pelo menos

a atenção de seus pares. 0 estímulo para a autodisciplina, o h bito de

colocar dúvidas vagas ...s suas noçoes mais valorizadas e aos seus epigramas mais meticulosamente afiados, e de confront -los com a evidência quando ela


A explicação de Dodds, como a formulou após o seu encontro

casual, acarretou algumas conclusões que ele desenvolveu, com a

paciência e a base informativa de um estudioso, após décadas de trabalho sobre textos antigos. Um dem"nio exigente, embora de nenhuma

forma malévolo, acompanhou a sua carreira: um fascínio pelo lado

irracional da experiência humana. Na sua maravilhosa autobiografia ,

publicada em 1977, dois anos antes de sua morte, ele descreve esse

"elemento recorrente" que governou a sua vida "por mais de sessenta

anos como um fio de cor distinta em um trabalho de remendo", como

"a tentativa de observar e, se possível, de compreender alguns dentro

daquele vasto campo de fen"menos peculiares que ocupam o terreno


i e reitetir um Pouk`
surge - tudo isto é posterior.
154
#

disputado entre a ciência e a superstição". Felizmente, ele aprendeu

a usar o oculto sem que o oculto o usasse; definiu-se corno um "investigador psíquico- cauteloso atraído por fatos inexplicados, porque

"acredita que podem e deveriam ser explicados como fazendo parte

da natureza tanto como quaisquer outros fatos-. 0 "objetivo a longo

prazo" do "irivestigador psíquico", assinalou Dodds, "não é o de glorificar o 'oculto', mas de aboli-lo ao trazer para a luz o seu verdadeiro

valor e ao ajust -lo ao seu lugar em uma visão coerente do mundo.

Longe de desejar derrubar o edifício imponente da ciência, a sua

ambição maior é construir um modesto anexo que servir , pelo menos

provisoriamente, para abrigar os seus novos fatos com um mínimo de

perturbação para a planta original da construção-.`
Essa passagem poderia ter sido escrita por Sigmund Freud. De

forma muito parecida com a dele, Dodds exibe um interesse apaixonado pelas crenças, pr ticas e modos de conduta que colegas racionalistas desconsideravam como superstições, como sintomas de perturbações ou como um jogo imaginativo que pitorescamente esconde

por baixo de si o pensamento racional. De forma muito parecida com

a de Freud. Dodds considerou seriamente os sonhos, a loucura e o

transe, e teve sucesso em revelar aspectos da mente grega que seus

antecessores de forma bastante literal não haviam visto. Permitiu que

ele reconhecesse o h bito grego de atribuir os seus estados mentais ...

intervenção divina, não como uma desculpa estereotipada ou uma

fuga ... responsabilidade, mas como um tipo de projeção, "a expressão

pictórica de uma advertência interna"; foi a partir de tais sentimentos internos, depositados nos deuses, que "se desenvolveu a maquinaria divina". Então, em algum ponto no final do século V a.C., essa

projeção, na qual "os impulsos não sistem ticos, não racionais, e os

atos resultantes deles, tenderam a ser excluídos do self e atribuídos

a uma origem alheia" gradualmente deu lugar a uma "exigência nascente de justiça social", a uma certa -íriternalização' da consciência".
0 fato de Dodds valer-se de uma terminologia técnica permitiulhe avançar duas teses intimamente relacionadas. Tomou a atividade

projetiva antiga como uma pista para estilos arcaicos de pensamento,

e não como um tique misterioso, fortuito. E, ao reconhecer a tradução de impulsos indesej veis em intervenções perniciosas de deidades

caprichosas como um mecanismo de defesa, pode colocar-se acima de

uma postura moralista. 0 que outros estudiosos, com menor treino

em formas psicanalíticas de pensar, teriam visto como uma peça arquitetada de sofística - se vissem algo - Dodds p"de interpretar como

uma atividade mental quase totalmente inconsciente na sua natureza,
15 _)

#


i
li

i
Com a sua prudência costumeira, ele não se aventurou a dar uma

completa explicação para essa mudança de uma "cultura da vergonha

para uma cultura da culpa". Citou a teoria de Malinowski segundo a

qual as crenças irracionais ocupam um espaço no qual o controle racional humano não se aventura, ou do qual ele se retira; e refere-se

...s sublevações sociais disseminadas que podem ter "encorajado a reaparição de velhos padrões culturais". Mas, como um bom freudiario,

acha que tais explicações são incompletas, e sugere que os historiadores considerem mais de perto a vida doméstica grega. "A situação

familiar na Grecia antiga" deu lugar ao "surgimento de conflitos infantis cujos ecos prolongam-se na mente inconsciente do adulto".

Afinal de contas, "os psicólogos nos ensinaram" - e por "os psicólogos" leia-se "Freud e seus seguidores" - "quão potente é a pressão

de desejos desconhecidos, enquanto fonte de sentimentos de culpa,

desejos excluídos da consciência exceto nos sonhos e nos devaneios,

e ainda assim capazes de produzir no self um sentido profundo de

1

desconforto moral". Completando o argumento, assinala como o



Zeus de Homero era 11 proximo" do "rnodelo dado pelo pater familias

homérico"."


"Os psicólogos" aguçaram, de outras maneiras decisivas, a percepção de Dodds sobre os gregos e o irracional. Ele vê os ritos dionisíacos e o culto a Apolo como opostos, um par onde um é igualmente

necessario ao outro: "cada um administra ... sua maneira as ansiedades

características de uma cultura da vergonha", pois, enquanto Apolo

,1 promete segurança", Dionísio "oferece liberade"." Por outro lado,

reconhece no Eros de Platão um "Precursor da libido freudiana", uma

14

filiação que Freud comentara antes. Ou interpreta tanto a razoabilidade dos sonhos relatados, como a espantosa impropriedade do sentimento recordado, com um vocabul rio e percepções retirados da Interpretação dos sonhos: a primeira, Dodds sugere, era um exemplo de



"elaboração secund ria", a segunda, um exemplo de "inversão de

afeto". Finalmente, explica a renovação de superstições antigas durante

o declínic, da era cl ssica, o recurso desesperado, novo embora tão

antigo, ... cura m gica, através da regressão, o que acarretou no final

regressões ainda mais primitivas, fórmulas encantatórias consistindo

em pragas m gicas planejadas para destruir inimigos.`

Regressão, certamente, envolve um retorno ...s fases iniciais da

organização mental, e Dodds aceita a met fora freudiana que descreve

a mente como um depósito geológico que preserva a camada mais

antiga sob as mais recentes, "Um padrão novo de crença", escreve

Dodds, fazendo eco tanto a Gilbert Murray como a Freud, "raramente
#

156
i


desfaz por completo o anterior: ou o antigo sobrevive como um

elemento do novo - ...s vezes um elemento inconfessado e meio

consciente - ou os dois persistem lado a lado, incompatíveis Jogicamente, mas aceitos contemporaneamente por indivíduos diversos ou

até pelo mesmo indivíduo-.` Portanto, seja através de exemplos concretos como de interpretações gerais, Freud deu a Dodds um modo de

ver e de fazer leituras surpreendentes a partir de textos familiares.
De vez em quando, a psicanálise não apenas tem solucionado m

térios históricos mas descoberto que o mistério é intrigante e ple

de possibilidades explicativas. A biografia de Ludwig van Beethov

por Maynard Solomon é um exemplo desse tipo de trabalho detetives

e imaginativo. Beethoven passou a sua vida acreditando obstinad

mente, e despendendo uma energia valiosa para tentar provar que nã

havia nascido em dezembro de 1770, mas em dezembro de 1772.

seu certificado de batismo, que ele pediu aos seus amigos que enco

trassem mais de uma vez, declarava inequivocadamente a data ant

rior, 1770, como sendo a correta. Mas Beethoven recusava-se a aceita


a evidência cabal posta diante dele. Ern 1977, Solomon, um music

logo totalmente treinado na forma freudiaria de pensar, resolveu

enigma através de um discernimento psicanalítico chamado romanc

familiar. Esta fantasia, amplamente difundida, em especial entre o

jovens, imagina um dos pais como sendo apenas um pai postico, o
o pai como sendo o padrasto, e o verdadeiro pai como alguém impor

tante e nobre. A função psicológica dessa ficção, parcialmente incons

ciente, é dar um aval aos impulsos agressivos da criança e, principal
mente quando a vítima é um dos pais, do mesmo sexo que a criança

permitir o acesso ao outro, que é adorado, mesmo que apenas ri

imaginação amplamente recalcada. Os biógrafos anteriores de Beetho

ven certamente não desconsideraram o seu empenho irracional em

estabelecer uma data de nascimento imagin ria para si mesmo, e

experimentaram uma série de explicações superficiais e implausíveis.

Solomon, equipado para a tarefa com instrumentos intelectuais mais
aguçados, ligou a defesa obstinada de Beethoven de sua fantasia a

uma infância desalentadora, arruinada pela irresponsabilidade, desoz

nestidade e alcoolismo de seu pai. Beethoven, pode-se pensar, tirilba
boas razões conscientes para detestar o seu pai. Mas sua fantasia, que

se tornou um ingrediente permanente e ativo em seu car ter, foi além

de urna crítica racional ou de um desapontamento, para ligar-se a

desejos e ódios ocultos que Beethoven nunca p"de satisfazer ou exorci#

i
157

#


zar. Assim, as percepções fretidianas de Solomon dão um sentido

agudo ao que havia parecido aos seus precursores um delírio estranho

ou uma mistificação egois ica.17

Com igual penetração, Solomon teve sucesso em solucionar um

drama doméstico desagrad vel, extremamente intrigante que obscureceu os últimos anos de Beethoven: os seus esforços infatig veis para

garantir a guarda, quase raptar o seu sobrinho Karl, filho do seu falecido irm5o Caspar. Ele difamou Johanna van Beethoven, a m5e do

menino, junto aos seus amigos e ...s autoridades; recorreu aos tribunais

diversas vezes, exp"s-se no processo a interrogatórios embaraçosos e

penosos, tudo para ganhar a guarda de Karl. Repetidamente, referia-se

a si mesmo como se fosse o pai do menino, como se através da repetição pudesse converter a verdade metafórica em literal. Johanna van

Beethoven, muito menos relacionada do que o seu famoso cunhado, e

...s vezes uma mulher impudica, vulner vel a acusações de uma morafidade que deixava um pouco a desejar, contra-atacou, tendo o seu

filho decididamente ao seu lado. Esse estranho duelo familiar arrastouse durante anos e foi pontuado pelas fugas de Karl do seu sufocante

tio até culminar, não muito antes da morte de Beethoven, numa tentativa de suicídio.


Esse caso desagrad vel gerou uma quantidade enorme de um

firme moralismo ao lado de um número não inferior de firmes apologias; tem sido visto corno uma prova da inadequação, de Johanna van

Beethoven como mae, ou, inversamente, como um sintoma tr gico do

colapso mental de Ludwig van Beethoven. Solomon, trabalhando a

partir do ditado psicanalítico de que uma paixão excessiva assinala

um conflito subjacente no qual urna paixão oposta est operando em

segredo, argumenta persuasivamente que Beethoven estava defendendo-se contra os seus fortes desejos eróticos em relação ... sua cunhada

e que mascarou a hostilidade em relação ao seu sobrinho. Essas

propostas, e outras que aparecem na biografia de Solomon, enriquecem consideravelmente o nosso sentido sobre a vida interior e tempestuosa de Beethoven, e habilmente vão além da sua surdez para

exibir algumas das causas obscuras que o tornaram impredizível, rude,

desorganizado, uma pessoa desleixada bastante familiar para os seus

contemporâneos indulgentes e atemorizados. Solomort é modesto o suficiente para nunca afirmar que fez mais do que tocar no segredo supremo de Beethoven, a sua genialidade enquanto compositor. Mas nos d

um Beethoven mais digno de

que os seus biógrafos que o idolatram, e

tinham dado antes dele.

1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   ...   27


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal