Freud para historiadores



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crédito, mais verdadeiramente humano

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es o os mais eruditos,
Outra biografia psicanalítica que pertence ao meu cat logo de

sucessos é o estudo de Frederick Crews sobre HawthornearTguhmeesnintos

,o,l the fathers, publicado em 1966. Crews explícita o seu

repreendendo" os biógrafos anteriores de Hawthorne por confiarem

em---umapsicologia simplista que olha apenas para a superfície", utilizada em grande medida para transformar Hawthorne em um moralista respeit vel, "chato" ou em um crente piedoso. Ele admite que

se possam citar passagens em apoio ao "que se poderia chamar de

cristianismo rudimentar". Mas, acrescenta, como um bom freudiano,

---obiógrafo é respons vel tanto pelas contradições de seu sujeito como

pelos seus enunciados elevados-. 0 Hawthorne de Crews é assaltado

pela "mania da dúvida" e perseguido pela -ambivalência". 0 que

torna Hawthorne interessante, ele argumenta, não é alguma explicação ímplausível e transcen dental, mas o fato de ele ser "meio dividido,

atormentado"." Crews lê o esmero e piedade, a aparente inocência

nas superfícies liter rias de Hawthorne como estratagemas defensivos,

simultaneamente culturais na forma e pessoais na origem,


0 ganho com essa forma de leitura é acentuado. Crews permanece fiel aos textos de fiawthorne e clarifica muito daquilo que intrigou outros estudiosos. Embora seja um escritor demasiadamente escrupuloso para cair no jargão e use a linguagern técnica parcimoniosamente," retira as suas armas intelectuais inteiramente do arsenal

psicanalítico, principalmente de Freud, e de Sandor Ferenezi, Karl

Abraham, e do Erik Erikson de Young Man Lulher. Isso é a biografia

freudíana no seu esplendor .2" Descobre precisamente o que ~thorne

tinha em mente quando chamou a si mesmo um escritor "que se refu

gia, no limite das suas capacidades, nas profundezas da nossa natu

reza comum, com os propósitos do romance psicológico". que pretende

11 alcançar o núcleo terrível do ser humario-.` É instrutivo constatar a

freqüência com que Crews proclama a sua intenção de levar a sério

os textos que explora,- ou as menores pistas que Hawthorne deixou

para os seus leitores refletirem. Esta é outra contribuição freudiana,

aplicada com sensibilidade: olhar de perto, sem desprezar nada.


Uma questão crítica que Crews não despreza é o fato de que

Hawthorne estava muito ansioso para poder realizar u seu programa

sem hesitações e prevaricações freqüentes. "Sua penetração na culpa

secreta e comprometida não apenas pelas suas ambigüidades célebres

em relação ... técnica mas pela sua relutância e desgosto.- Não poderia

ser de outra maneira: apoiando o seu trabalho "em ampla medida

na sua própria natureza" e "perturbado pelo que descobriti'*,'-"
1 ~) q
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Hawthorne sentia-se compelido a resistir, ou a suavizar, as suas descobertas aterradoras.
Assim equipado, levando "a sério as teorias psicológicas modernas", Crews reinterpreta o "The Maypole of Merry Mount", um "dos

contos mais familiares e aparentemente mais superficiais de Hawthorne". Longe de ser "banal" ou "óbvio", revela-se na an lise de Crews

como um conto erótico bastante inc"modo, no qual "o elemento negado reaparece sub-repticiamente em imagens e alusões", um conto inundado por "sugestões de impotência e castração", enquanto a -superfície narrativa permanece convencionalmente 'pura"'. Portanto, essa

estória bem-conhecida e inócua d acesso ... "configuração secreta"

que instrui as suas tramas, que explora quase todos ---osconflitos

, 22


definíveis de desejo, na verdade, cl ssicos' . Reconhecemos nesse

cl ssico conflito nada mais do que o drama familiar freudiano submerso no inconsciente, só que aflorado, reestilizado, e com as suas paixões

dísfarçadas, na ficção de Hawthorne.
Nos últimos capítulos, Crews trabalha esses discernimentos com

uma impressionante ousadia. Afasta a interpretação geralmente aceita

sobre Hawthorne como um celebrante, suavemente crítico mas em

grande medida chauvinista, de seus antepassados da Nova Inglaterra.

Sua preocupação com a Massachusetts colonial "é somente um caso

particular do seu interesse em pais e filhos, culpa e castigo, instinto e

inibição". 0 que permeia os seus contos históricos, Crews mostra, é

"o sentido de um conflito familiar simbólico escrito em maiúsculas".

Os "puritanos são o lado repressivo de Hawthorne"." Ao procurar

expor os seus ancestrais, Hawthorne acabou por expor principalmente

a si mesmo.
Crews investiga o ato constantemente repetido por Hawthorne

de expor-se em uma an lise cronologicamente aproximada de seus

contos e romances. Ele demonstra a preocupação dominante de Hawthorne com o incesto entre irmão e irmã assim como com o incesto com

conotações levemente lésbicas; com enredos sadornasoquistas, com a

procura de um pai idealizado; com o funcionamento compulsivo de

um superego vingativo, impiedoso, que pune desejos de morte ínipios. 25

Tudo isso em uma atmosfera de ambigüidade, de curiosidade sexual e

de anseios refreados pelo medo sexual.", Esses conflitos inconscientes,

certamente, não estão casualmente lado a lado. São ingredientes essenciais do triângulo edipiano, que Crews acha que é dominante nos perde Hawthorne durante toda a sua carreira liter ria.
sonagens
160
A Obra-prima duradoura de Hawthorne, The scarlet letter, permite uma leitura muito similar; Crews a vê como um romance em

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que o desejo libidinal, coexistindo com sentimentos de culpa, deve

combatê-los permanentemente até a M(rte.27 The scarlei letter "resultou, em grande parte, não da imposição de uma sociedade puritana

de ideais sociais falsos sobre os três personagens principais, mas do

seu próprio mundo interno de desejos frustrados-. Hawthorne deixa

os seus leitores "com um conto de paixão através do qual vislumbramos" uma verdade tr gica, "a terrível certeza de que, como Freud

colocou, o ego não é o mestre na sua própria casa". Isto não quer

dizer que Crews despreza o cultural em favor do mundo psicanalítico:

o que o interessa sobremaneira quando relata os elementos ocultos na

arte de Hawthorne é de fato ---aconjunção dos temas sexuais e sociais". Ele se move, durante todo o tempo, habilmente entre a biografia e a história, a mente e a cultura. A visão de Crews do homem

enquanto animal cultural equipado tanto com um potente inconsciente, quanto com uma capacidade igualmente potente para aprender

do mundo e tentar domin -lo, é congruente com a teoria psicanalítica

da mente que desenvolvi nestes capítulos?'


A tentativa mais sistem tica, mais qualificada intelectualmente,

para tornar convincente o uso da psicanálise na história, e que, ao

mesmo tempo, insiste na sua particularidade e na sua abrangência, é

provavelmente a obra Entertaining Satan, de John Putriam Demos, um

estudo sobre a bruxaria no século XVII na Nova Inglaterra. Os delírios das bruxas, de suas vítimas e de seus juízes estavam assentados

em bases sociais, em expressões intitucionalizadas, e baseavam-se em

crenças gerais e raramente questionadas. Ainda assim os conflitos

mentais que deram lugar a suspeitas, acusações, confissões, a atos de

vingança e expiação, foram experiências individuais, Demos trabalha

habilidosamente para separar, e simultaneamente combinar, esses domínios público e privado, as marcas respectivas da neurose particular

e das tensões comunit rias, que juntos constituem o seu tema. Para

exibir e dramatizar essa multiplicidade necess ria de perspectivas,

Demos dividiu o seu livro em quatro seções: biografia, psicologia,

sociologia, e, no final, história, para assinalar a cronologia dos eventos mentais e públicos como a ascensão e o declínio de uma curva

de perseguição."
0 estudo de Demos apóia-se solidamente no seu controle seguro

sobre as formas tradicionais de escrever a história colonial americana.


16 1

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Mas é, certamente, o seu comprometimento inovador com a psicanálise,

que alterna ecleticamente as diversas escolas psicanalíticas, que se

sobressai e que causou as discussões mais intensas, e elas são de

particular interesse para estas p ginas. Nunca se afastando do elenco

de seus personagens, Demos joga sobre eles os seus holofotes psicanalíticos, como histeria de conversão, conflitos adolescentes, tendências exibicionistas, raiva narcisista, projeção ou defesas correlatas

contra impulsos problem ticos, para dar conta do comportamento

que aparece aos contemporâneos como sendo desviante e muito perigoso. E, com grande efic cia, gira essas luzes para as vítimas das

bruxas e de seus perseguidores. Em um aspecto, ao conceder ... psicologia apenas uma seção em quatro, a estratégia imparcial de Demos

trabalha contra ele. Pode-se argumentar que ele poderia ter encontrado uma solução formalmente mais elegante, mas o que importa é

que a psicologia instrui todos os quatro aspectos da história antiga de

Massachusetts que ele escolheu para examinar. As duas primeiras

contêm perfis psicológicos substanciais e minuciosos das bruxas, e

nas duas últimas, devotadas ... experiência coletiva através do espaço

e do tempo, Demos conscientemente retorna aos casos individuais,

...queles fragmentos da cultura simultaneamente únicos e típicos. "Biografia, psicologia, sociologia, história", assim ele conclui suas observações program ticas, "os quatro lados da bússola do estudioso, quatro

perspectivas que examinam um único campo da experiência passada.

Cada um deles captura urna parte, porém de nenhuma maneira, o

todo", mas juntos, embora as conexões estejam longe de ser suaves

e a tarefa seja "penosa", a experiência da história total aparece no

horizonte: "Ver tudo isto a partir de lados diferentes é mover-se, pelo

menos, de alguma maneira rumo a uma compreensão completa e definitiva"." Isso, parece-me, são pistas atraentes e prudentes na direção

de uma ambição apropriada para a história psicanalítica, enquanto sua

contribuição potencial para a busca do historiador pelo todo.
3. A história total
ma história total é mais antiga, por v rios séculos,

A aspiração . a u ira forinulação expressa. os ingredientes de qualdo que a sua primei

quer programa para apoderar-se da essência completa do passado, que

sintetizasse as descobertas circunscritas de estudiosos a partir de

muitas monografias e muitos arquivos, naturalmente varia de acordo

com a definição que cada historiador d sobre o que ela é e sobre o

que . e mais relevante e que, ... sua luz, merece ser incluído no seu rico
162
cen rio. Se ele crê que o mundo é movido principalmente pela mão

da Providência, pela força da inovação tecriológica, pelas pressões do

inconsciente. estas irão determiriar os contornos da sua história total

e os materiais que, em última an lise, ele acha que merecerão ser

incluídos nela. Com certeza, o ideal não pode racionalmente implícar

#


uma apresentação exaustivamente detalhada de cada minuto que compoe um evento ou uma epoca, em todos os aspectos de seu meio e

em todas as suas precondições que recuam até as brumas de tempos

imemoriais. Uma história total da Batalha de Waterloo que registre os

sentimentos, as ações e os destínos de todos os soldados (mesmo pressupondo que tal descrição fosse fisicamente possível) cairia nos absurdos típicos de um colecionador obsessivo: um cat logo, não importa

quão exaustivo, não equivale a uma história abrangente, muito menos

a uma inteligível.


Ao contr rio, o pedido por uma história total tem sido, poi mais

de dois séculos, uma crítica da pr tica histórica oficial, um pedido

por luz e ar em uma atmosfera pedante e abafada, Voltaire. ao argu mentar que "uma eclusa em um canal que junta dois mares, uma

pintura de Poussin, uma ótima tragédia" são "um milhão de vezes

mais preciosos do que todos os anais da corte e todos os relatos de

campanha juntos", estava seguindo o seu 1 . nstinto para a substancia lidade da vida, enquanto instava os historiadores a se afastarem da

hagiografia. da genealogia e das fofocas de salão.:" Um século depois

dele, Jacob Burckhardt achou espaço no seu retrato exemplar da

It lia reriasceritista para o comportamento dos festivais, o reriascimen to da erudição, a posição das mulheres, as carreiras dos literatos, as

fantasias da personalidade, 0 seu contemporâneo próximo, Thomas

Babington Macaulay, ofereceu, no célebre terceiro capítulo da sua

History of England, uma pesquisa empolgante a respeito dos h bitos

culin rios e de viagem dos ingleses em 1685, da etiqueta, da saúde

pública, das atitudes em relação aos pobres, dos letreiros nas estala gens. 0 grito de guerra por uma história total, como viemos a us -lo,

expressa uma certa impaciência com os historiadores que conti 1 nuam

apegados ...s superfícies brilhantes e not veis dos eventos, ... política,

... diplomacia e ...s vidas dos grandes homens. Com certeza, us histo riadores sociais que dominaram a profissão por bem mais de um

quarto de século demonstraram forcosamente que o-, dias de concen tração exclusiva em datas e dinastias acabaram definitivamente. Mas

enquanto o seu trabalho tem forcado novos materiai-, ... atencãe séria

, dos seus colegas historiadores, seria um erro alegar que em consequen1 cia todos nós somos agora historiadoros totais Uma transferência


16-3

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nas preocupações não é o mesmo que a sua expansão. A procura por

uma história total prossegue, e nela a história psicanalítica tem muito

a realizar.

Em 1966, na sua exploração maciça sobre o Languedoc desde o

início do século XVI até o começo do século XVIII, Emmanuel Le

Roy Ladurie deu uma ampla circulação a esse grito program tico. Ele

"arriscou-se", escreveu, "a fazer a aventura de uma história total".

Sua trilha havia sido suavizada por dois poderosos exemplos, os de

Marc Bloch e Lucien Febvre, cuja influência sobreviveu a ambos

através de heranças admir veis como os trabalhos de Fernand Braudel

e os da revista, Annales, que haviam fundado três décadas antes. Le

Roy Ladurie pretendia que a sua tese expusesse "o referencial circunscrito de um grupo hurnano" em todos os seus mundos, sem esquecer

o clima prevalecente e as principais colheitas regionais, os padrões de

migração e as mudanças populacionais, a riqueza rara e a pobreza

endêmica, a resignação impassível e os momentos devastadores de

descontentamento explosivo. Em algumas p ginas inspiradas, em especial naquelas que ele devota ... rebelião sangüin ria de 1580, o

Carnaval de Romans, Le Roy Ladurie até chega a tocar, levemente,

1 32


na "psicanálise histórica' ~ ao aludir ...s fontes inconscientes da sel

vageria que ...s vezes irrompe entre os camponeses do Languedoc após

uma provocação prolongada. Ao guiar-se pela esplêndida Société Modale, de Marc Bloch, ele astuciosamente coloca em funcionamento o seu

cadre limité para delinear o seu relato de acordo com a série temporal. Certamente, pelo menos naqueles dias, Le Roy Ladurie não partilhava o desprezo dos seus colegas por Phistoire événementielle: a estrutura não exclui o desenvolvimento; a an lise é compatível com a

narrativa. Em Les paysans de Languedoc, um historiador total esboçou

uma ampla rede.


Se tivessem vivido para ler o seu livro, os pais intelectuais de Le

Roy Ladurie teriam achado que ele era a realização de seus desejos

mais caros. Afinal de contas, Marc Bloch j se havia aventurado em

domínios da experiência estreitamente an logos: em Les rois thauniaturges, havia transformado um tema especializado em mitologia me

dica, muito distante de ser promissor para uma monografia (presumiase que os reis ingleses e franceses tinham o poder de curar escrófula

ao tocarem o enfermo), em uma história absorvente sobre os estilos

mentais. Mais tarde, em La société léodale, essa síntese insuper vel,

deixou para tr s os medievalistas a respeito das convenções políticas

e legais ao reconstruir o mundo feudal em seus ensaios concisos acerca

do seu sistema, de parentesco, o seu sentido peculiar sobre a história


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e o tempo, o seu folclore como foi preservado na poesia épica, e

extraiu uma informação rica e ínsuspeitada a partir dos h bitos lingüísticos e dos nomes de lugares. Entrementes, Lucien Febvre, o par-

ceiro polêmico neste par harmonioso de historiadores criativos, in#

timidava os seus colegas com uma persistência admir vel, para que

desprezassem especialidades históricas paroquiais que, 'segundo ele, sé,

impediam a compreensão da experiência do passado. Lamentava o

fracasso de sua profissão em escrever histórias de amor e morte, de

piedade, crueldade e alegria. Emotivo, melodram tico, sempre um

lutador autoconsciente por uma nova história, Febvre queria que a

sua profissão se banhasse no passado," De acordo com o seu convite,

mais de um historiador poderia mergulhar aí.

Mas as guas, embora turbulentas e fortificantes, revelaram-se,

tudo dito, não serem tão profundas quanto os seguidores intrépidos de

Febvre haviam suposto. Afinal de contas, o que um historiador saúda

como uma realização admir vel da história total outro pode qualificar

de um exercício em prudência comparada. 0 historiador da historiografia deve registrar a sua gratidão em relação a Bloch e Febvre e ...

escola dos Annales que fundaram: após as suas expedições ousadas,

a nossa profissão nunca ser a mesma. Ainda assim, em suma, eles

não chegaram l . j citei Marc Bloch, que pediu ao historiador que

explore "as necessidades secretas do coração", mas definiu-as como

necessidades alojadas na "consciência humana"." Esse é o ponto onde

a história psicanalítica pode entrar para expandir a nossa definição de

história total decisivamente ao incluir o inconsciente, e o incessante

tr fico entre a mente e o mundo, no território legítimo de pesquisa

do historiador.
Uma das conseqüências mais infelizes do reducionismo que segue

os passos de muitíssimos psico-historiadores é a de ter obscurecido a

promessa inerente ... história freudiana. Pois eles têm, muito ... maneira

dos novos historiadores sociais, apenas alterado os horizontes da profissão sem ampli -los de forma apreci vel. Negligenciar o ego eni

favor do id é semelhante a negligenciar a burguesia pelo proletariado.

Nem se tem avançado a causa da história psicanalítica, dada a sua

reputação, quando se fornece um alívio emergencial em momentos

de perplexidade. H aqueles que vêem o historiador freudiano como

um especialista a que se recorre em último caso, chamado ... cabeceira

do passado apenas quando todos os outros diagnósticos revelaram sua

incapacidade em extrair um sentido do quadro clínico. Mesmo historiadores relutantes em reconhecer o valor da psicanálise como uma

disciplina auxiliar encontraram, usos para ela quando falliaram em


16i

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descobrir causas racionais para situações de pânico ou de motim, para

irrupções de preconceitos ou comportamentos autodestrutivos. Mas

enquanto o historiador que foi aprender com Freud poderia grosseiramente recusar assistência em adequar o que os seus colegas pensaram como algo confuso e impenetr vel, ele tem credenciais para

aspirar a coisas maiores do que a de sua posição apropriada de especialista. Os psico-historiadores têm sido criticados com justiça por

saltarem diretamente para as conclusões, mas, paradoxalmente, têm

sido menos culpados de arrogância do que de modéstia imerecida."

Precisamente por ligarem-se ... psicopatologia, por converterem seus

sujeitos em espécimes neuróticos, deixaram de lado a oportunidade

única, dada pelo trabalho freudiano, de caminharem em direçao a uma

psicologia geral.


Pois a maior ambição da teoria psicanalítica é ser uma orientação

e não uma especialidade. Nunca é demais reiterar que a psicanálise

não oferece um livro de receitas mas um estilo de ver o passado. É

por isso que a história fretidiana é compatível com todos os generos

tradicionais: militar, econ"mico, intelectual - assim como com a

maior parte de seus métodos. Inevitavelmente ir provocar conflitos

apenas com historiadores que abertamente desconfiam dos discernimentos freudianos ou que se comprometem com psicologias comportamentais. A psicanálise deveria instruir outras ciências auxiliares,

outras técnicas; deveria enriquecer, sem problemas, a paleografia, a

diplomacia, a estatística, a reconstrução familiar. Tampouco é preciso

ser reducionista. Mergulhar em Freud não obriga os historiadores a

verem somente a criança no homem; podem também observar o homem

desenvolver-se a partir da criança. 0 historiador que persiste em cri

fatizar o impacto causal dos motivos econ"micos, das inovações tecnológicas, ou das lutas de classe não precisa deixar de lado a ação dessas

influências objetivas pelo argumento duvidoso de que são fen"menos triviais e superficiais. A vida, como o historiador estuda seja no

indivíduo ou em grupo, em eventos singulares ou em longas extensoes de tempo, é uma série de compromissos nos quais as pulsões

irrecalc veis, os sinais indicativos de ansiedade, os estratagemas defensivos, as perseguições do superego, todos desempenham um papel

de lideranca sem serem exclusivos. A história é mais do que um

monólogo o inconsciente, mais do que uma dança de sintomas.


Ao dizer tudo isto, não proponho que se desconte ou de qualquer

maneira se minimize a qualidade radical da forma de pensar psicanalítica com a sua perspectiva única e subversiva. Qualquer tentativa

de assimil -la, ou, pior ainda, de misturar o mundo psicanalítico com
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o nistorico, so pocieria comprometer as contribuições características

que cada um tem para oferecer. Ao contr rio, a questão é facilitar

o trânsito entre eles, desfazer as barreiras de desconfianca e de ignorância auto-impostas que têm impedido o historiador e se sentir,

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senão confort vel, pelo menos razoavelmente seguro dentro dos domínios do analista. 0 historiador, escrevi em 1976, "coleta e no m ximo corrige a memória pública".'6 Nessa tarefa assustadora, a psican lise pode prestar uma ajuda monumental, pois não apenas analisa

o que as pessoas escolhem para recordar, mas revela o que elas

foram compelidas a distorcer, a esquecer.
Nada é mais sedutor do que fazer, sem garantias, analogias entre

a psicanálise e outras disciplinas, um pouco diferentes dela. Tanto a

história como a psicanálise são ciências da memória, ambas estão

profissionalmente comprometidas com o ceticismo, ambas rastreiam as

causas no passado, ambas procuram penetrar por tr s de confissões

piedosas e evasões sutis, A história e a psicanálise parecem, assim,

destinadas a colaborar em uma pesquisa fraternal pela verdade no

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