Freud para historiadores



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passado. Ainda assim, fraternidade, é necess rio insistir, não é identidade. A ansiedade que invade os historiadores que se vêem de frente

com a presença fretidiana é perfeitamente justific vel. Eles têm exce--lentes razoes para suspeitar que abraçar as idéias psicanalíticas é

mergulhar em um mundo estranho. É um mundo de ambivalências,

recalques e conflitos, onde se tem pouca certeza, onde ainda se é

menos seguro e tudo é imune a uma prova conclusiva e é aberto a

interpretações contraditórias. Ser persuadido por Freud necessariamente forçar os historiadores a mudarem, freqüentemente, de forma

dr stica, o modo pelo qual fazem a história, ir forç -los a abandonar

convicções estimadas e a revisar as suas conclusões preferidas. Os

riscos são imensos, as perspectivas de fracasso agourentas, as promessas de recompensa incertas. Mas o que acena ao final da jornada

perigosa pode revelar-se merecedor de tudo: uma apreensão, mais

sólida do que nunca, da totalidade da experiência humana.


167

#


2.
Notas
Pref cio
o -fernoso por virtualmente afogar

W o .. lho de Wehler sobre Freud


^torical thought

~-1 0, 11 5o ' -nto-history

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1 .Gostaria de assinalar enfaticamente, desde o início, que por "psicanálise"

entendo mais do' que o conjunto de trabalhos realizados apenas por Sigmund

Freud e por seus discípulos imediatos. Incluo também o dos seus sucessores

que, embora tomando, em alguns aspectos, um caminho próprio e tendo

experiências clínicas não disponíveis para Freud, certamente fazem parte

do seu campo. Enfatizo isso aqui porque alguém poderia enganar-se devido

ao título do meu livro e ao enfoque necess rio sobre as idéias freudianas

durante todo o texto. Certamente, os psicanalistas do ego, como Heinz

Hartmann, Ernest Kris e Rudolph Loewenstein, nunca pensaram que esti vessem fazendo outra coisa além de elaborarem aquelas idéias sobre a

estrutura mental que Freud começara a explorar no início dos anos 20.

Sua auto-avaliação parece-me ser essencialmente correta. A escola inglesa das

relações objetais, mais notoriamente W. R. D. Fairbairn e D. W. Winnicoti,

representam um caso menos nítido. Especialmente Fairbairn, que diverge

de algumas das formulações freudiarias. Mas ao se concentrar sobre as

relações pré-edipianas da criança com o seu mundo íntimo, particularmente

com a sua mãe, ampliou a an lise das relações objetais, e assim complicou

sem alterar materialmente o campo de visão freudiano. Não tenho nenhuma

intenção de excluir uma historiadora psicanalítica como Judith Hue es,

que se apóia fortemente na escola- inglesa, OU um btõ-2-rarõ -RUe-in COMO

Phyllis Gmsskurth. Deixando de lado os princípios sobre os qüuais não é

pos=ve transigi-r, a psicanálise não é uma coleção fixa de doutrinas, mas

uma disciplina que evolui em pesquisa e em teorização.


Em alguma medida, o alvoroço dos meados da década de 80 é "culpa"

de alguns ensaios brilhantes de Janet Malcolm em The Neu~ Yorker, mais

tarde transformados em livros (Psychoanalysis: The impossible profession

E 19811, e In the Freud arcídves [ 19841 ). No primeiro, Malcolm combinou

#

uma introdução lúcida e informal sobre a teoria e a técnica psicanalítica



com um perfil penetrante, que est longe de ser antip tico, sobre a política

no New York Psychoanalytic Institute; no segundo, tornou um amplo público


169

#


familiarizado com duas personalidades extravagantes, ambas admiradoras

desapontadas com Freud: primeira, a de Jeffrey Moussaieff Masson, por

um período breve e tumultuado, diretor de projetos do Freud Archives,

a segunda, a de Peter Swales, um pesquisador amador realizando apaixonadamente um trabalho detetivesco sobre Freud e o seu mundo, e seu

encontro com Kurt Eissler, o guardião dos papéis de Freud. 0 tratamento

de Malcolrn da psicanálise e das suas espetaculares vicissitudes é tão genial

quanto informativo, mas despertou a matilha, pouco adormecida, do contingente antifreudiano.
3.Ver Malcolm, In the Freud archives, op. cit., relate, sobre Masson e Swales;

e especialmente Jeffrey Moussaief Masson, The assault on truth: Freud's

supression of the seduction theory (1984); Frederick Crews, "The Freudian

way of knowledge", The new criterion (jun. 1984), 7-25; Frank Cioffi, "The

cradle of neurosis", The Times Literary Supplement, n.1 4240 (6-7-1984),

743-4. "H uma relutância compreensível", conclui Cioffi em sua resenha.

"em se dar crédito ... extensão do oportunismo freudiano, portanto ser

necess rio que passe algum tempo para que paremos de ouvir 'Freud, o

infatig vel investigador ... procura da verdade'. (Embora alguns de seus

mais sofisticados admiradores j estejam preparando um'abrigo mais ade quado e alternativo - Freud, um perjuro justificado por uma causa nobre.)

Os que não acreditam nem na integridade frendiana nem na nobreza de

sua causa podem consolar-se pela futilidade de curta duração de suas tenta tivas de colocar as coisas em ordem a partir de uma reflexão do próprio

Mestre: 'A voz da razão é suave mas é insistente- (p. 744).
Capítulo 1
1.Bloch, The historian's craft (1949, trad. Peter Putnam, 1954 (org.), 1964),

151. Curiosamente, um historiador um tanto diferente, Richard Cobb,

utilizou de urna met fora admiravelmente semelhante. "Deve existir uma

grande parte de adivinhação na história social, É como tornar seguro

o que é inseguro e penetrar nos segredos do coração humano," Paris

and its provinces, 1792-1802 (1975), 117,


2 ."Mrs. Eddy through a distorted lense", resenha de Julius Silberger, Jr.,

Mary Baker Eddy, no Christian Science Monitor (2-7-1980), 17.


3. Carr, What is history? (1961), 185,
4.Elton, The practice of history (1967), 81, 25; Lynn, "History's reckless

psychologizing, The Chronicle of Higher Education (16-1-1978), 48;

Hexter, The history primer (1971), 5; Elton, Practice of history, 24.
5.
170
Wehler, "Geschichtswissenschaft und 'Psychohistorie"', lnnsbrucker Historische Studien, 1 (1978), 213; ver também seu "Zum Verhãitnis von

#


Geschichtswissenschaft und Psychoanalyse", Historische Zeitschrift, CCV11

(1969), 529-54, um pouco revisado no Geschichte als Historische Sozial

wissenschaft (1973), 85-123. Embora seja famoso por virtualmente afogar

os seus leitores com notas de rodapé, o trabalho de Wehler sobre Freud

é bastante discutível.
6.Fischer, Historian's fallacies: Toward a logical of historical thought

(1970), 189; Barzun, Clio and the doctors: Psycho-history, quanto-history

& history (1974), 2; Stannard, Shrinking history: On Freud and the

failure of psychohistory (1980), 156. Para mais detalhes a respeitc, de

Stannard, ver bibliografia, pp 193-4.
7."Rhetoric and politics in the French Revolution", American Historical

Review, LXVI, 3 (abr. 1961), 64, 674-5.


8. "Rhetoric and politics", 676.
9.William L. Langer, "Ihe next assignment", American Historical Review,

LXIII, 2 (jan. 1958), 283-304; Erik Erikson, Young Man Luther: A study

in psychoanalysis and history (1958).
10.Fred Weinstein e Gerald M. Platt, Psychoanalytic sociology: An essay on

the interpretation of historical data and the phenomena of collective behavior

(1973), 1.
11."History's reckless psychologizing", The Chronicie of Higher Education

(16-1-1978), 48. Podemos julgar a profundidade do comprometimento

afetivo de Lynn pela sua met fora desagrad vel e pelo ataque intempestivo

que ele lança numa mesma e única p gina de diatribe contra o historiador

americano Richard Hofstadter, que tinha, de acordo com Lynn, descido por

volta dos meados da década de 60 a manipulações "irrespons veis" do

"jargão psicológico", embora se aventurasse a esperar que Hofstadter final mente iria livrar-se de todos esses absurdos - isto contra um dos estilistas

mais perceptivos e sensíveis do ofício histórico. 0 que despertou particular mente o desprazer de Lynn foi a aplicação por parte de Hofstadter do

termo "estilo paranóico" para descrever as convicções e a retórica de alguns

homens irados da política americana, uma cunhagem viva e esclarecedora

que Hofstadter desde o início cercou com as mais elaboradas precauções.

Isso, de acordo com Lynn, não fez mais do que "empanar as reputações

de certos grupos de americanos de que ele desconfiava ou que temia".
12."From the Facts to the Feelings", resenha de Joseph F. Byrnes, de The

Virgin of Chartres: An intellectual and psychological hisiory of the work

of Henry Adams, e de Charles K. Hofling, Custer and the Little Big

Horn: A psychobiographical inquiry, em The Times Lilerary Supplement

(23-10-1981), 1241.
. G. Kitson Clark, The critical historian (1967), 21.
#

Assim Alan Macfariane, ao resenhar Entertaíning Satan em The Times

Literary Supplement (13-5-1983), 493, chama-o "de um livro interegante,

provocante e legível", mas imagina se o fato de Demos "falar de afetos

e defesas, de analidade e oralidade, de narcisismo e projeção realmente

tintos' da psicanálise não são disposições fixas para comportar-se de

uma forma particular; são totalmente sujeitos a serem canalizados e

transformados socialmente, e não se revelariam no comportamento

sem a moldura social". Não h dúvida de que para a "psicanálise o

homem é na verdade um animal social; sua natureza social est

profundamente refletida ria sua estrutura corporal". Mas as diferenças

entre a concepção freudiana e a da maioria dos sociólogos permanece

profunda. "Para Freud o homem é um animal social sem ser um animal inteiramente socialiZado. A sua natureza social é em si mesma a

fonte de conflitos e antagonismos que criam resistências ... socialização

através de normas de qualquer sociedade que possa ter existido no

curso da história humana." '1 0 que torna a leitura sociológica da

natureza humana err"nea e tão particularmente irritante é o fato de

ela fazer uma leitura err"nea da psicanálise, uma violação de Freud

em nome dele, que a maioria desses cientistas sociais acha que estudou

com cuidado e proveito.


Cerca de seis anos antes de Dennis Wrong publicar o seu protesto argumentado e altamente eficaz contra uma teoria do hornem

que simplesmente mergulhava o indivíduo no seu ambiente social,

Liortel. Trilling chegou ...s mesmas conclusões por via liter ria. Ao

meditar sobre o papel destacado de Freud na definição da idéia moderna de cultura, Trilling aplaudiu o comprometimento de Sigmund


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#


como um conjunto
Freud com a biologia, que ele vê como algo que oferece uma ajuda

incompar vel ao indivíduo ameaçado. Com certeza, Trilling escreve,

Freud "deixou claro como a cultura difunde-se até as partes mais

remotas da mente individual, sendo considerada quase literalmente

como o leite materno". Mas, enquanto Freud descreve a pessoa como

invadida pela sua cultura até os ossos, "h no que diz sobre a cultura

um acento firme de exasperação e resistência". Sua "concepção de

cultura é marcada" por uma "consciência adversa" poderosa, uma

11 percepção indignada", por um "tr gico arrependimento". Embora o

self para Freud seja "formado pela cultura", ele "também vê o se11

contra a cultura, lutando contra ela, relutante

desde o início em entrar nela".3' Em poucas palavras, a cultura é

indispens vel e sufocante ao mesmo tempo. 0 que pode resgatar o

indivíduo do seu abraço fatal são os impulsos instintuais; a insistência

freudiana na procura ininterrupta de prazer, ancorada na sua constituição essencial, "longe de ser unia idéia reacion ria, é realmente uma

idéia libertadora. Propõe para nós que a cultura não é totalmente

poderosa. Sugere que h um resíduo da qualidade humana para além

do controle cultural". A sede pela comunidade que fascina até as

pessoas cultas, a sua necessidade consurnista de sermos "todos juntos

não conformistas , deve ser corrigida por uma resistência firme a essa

onipotência cultural".
Essa resistência retira a sua força da reflexão freudiana de que,

"ern algum lugar na criança, em algum lugar no adulto, h um núcleo

duro, írredutível, obstinado de razão biológica, que a cultura não pode

alcançar e que se reserva o direito, e o exercer mais cedo ou mais

33

tarde, de julgar a cultura, de resistir e de revis -la". Isso é algo



mais do que elegante e enf tico; enquanto uma exposição sobre as

convicções firmes de Freud a respeito da interação dialética entre

indivíduo e sua cultura, est totalmente correta. Basta ler os casos

clínicos freudianos para reconhecer a legitimidade das avaliações de

Lionel Trilling e de Dennis Wrong sobre o pensamento freudiano

a respeito da natureza humana: para todos os seus analisandos, Freud

achou que valia a pena escrever igualmente sobre as experiências que

eram deles mesmos e sobre as que eram amplamente partilhadas; eles

eram ao mesmo tempo vítimas dos outros e de si mesmos.
Precisamente como os psicanalistas, embora por razões profissionais próprias, os historiadores encontram-se traçando o fio da individualídade na tapeçaria da sociedade, Não importa quão incerto um
142
historicista da história moderna possa ser, ele tende a comprometer-se

com o individualismo, a procurar o que é único em cada personagem

histórico, em cada evento histórico, em cada época histórica. Tudo

#


mais, dir , é sociologia. Mas o seu individualismo est sob um desafio

permanente; a sua necessidade de generalizar, de supor e de exibir

a realidade de entidades mais amplas - clãs, profissões, classes pesa continuamente sobre ele. É neste momento que as experiências

partilhadas sobre as quais falei exigem ser reconhecidas e descritas

coletivamente.` Mesmo o historiador da história comparada, amoldando o seu olhar abrangente e treinado sobre os diversos materiais

diante de si, deve estar tão preocupado com o que os v rios elementos em comparação têm em comum quanto com o mostrar o que os

diferencia. Sem dúvida, o historiador considera as generalizações uma

conveniência; poupam trabalho na pesquisa e facilitam a comunicação

dos resultados. Mas se são mais do que artifícios retóricos, devem

estar baseados na convicção de que capturam similaridades substantivas, mesmo identidades parciais, e, ao mesmo tempo, uma interação

contínua - e passível de ser descoberta - entre os indivíduos que

constroem a coletividade e a própria coletividade.


Seria muito tentador desconsiderar essas preocupações historiogr ficas como uma brincadeira com questões banais que todo historiador resolve quase intuitivamente consigo mesmo ao recorrer ... sua

experiência profissional. Mas os problemas são suficientemente genuínos, e não menos prementes para serem ignorados em geral. Surgem com particular insistência na an lise das crenças comuns ou dos

ideais prevalecentes. Com certeza, a realidade difundida pelas noções

dominantes sobre homem, natureza e destino, e o seu impacto transgressivo sobre os homens que as têm absorvido enquanto disposições

culturais desde os primeiros momentos que as sentiram, parece estar

além de qualquer desmentido: a voga atual do termo francês mentalité,

que é apenas o ZeUgeist atualizado, testemunha isso. A contribuição

peculiar da psicanálise ao estudo da mentalité - uma generalização

notavelmente abrangente - é a sua descoberta de conflitos ocultos

e de pressões invisíveis na construção das mentes humanas. Crenças

compart ilhadas, o psicanalista dir , são no mínimo, em parte, ilusões

e fantasias compartilhadas."


As questões que essa discussão suscita são tão delicadas e tão

importantes, que quero passar em revista os modos através do quais

os cientistas humanos e sociais podem -realizar com vantagem o ir
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i
i

#


e vir entre a psicologia social e a individual. 0 historiador pode

elaborar e clarificar a psicologia social freudiana, um tanto rudimentar, que explica a coerência e as ações grupais através de identificações mútuas, pelo efeito liberad 1 or que a pura existencia coletiva tem

sobre os impulsos normalmente colocados em xeque, e pelo modo que

os grupos liberam-se de seus propósitos originais para perseguir objetivos próprios. Pode, em seguida, recorrer ... perspectiva psicanalítica

sobre a natureza humana que vê a natureza como oferecendo um

repertório impressionantemente variado mas estritamente limitado de

desejos, sentimentos e ansiedades possíveis, assim permitindo ao historiador predizer - prudentemente, sempre alerta em relação aos

desvios - como as coletividades estão propensas a pensar e a agir

em conjunto. Pode, também, seguindo o esquema desenvolvimentista

freudiano que analisa como o indivíduo internaliza os costumes, as

crenças e as proibições sociais, e como a sua cultura, agindo principalmente através da mediação do que lhe é mais próximo, fornece

direções para as suas pulsões cruas, desejos ocultos e ansiedades flutuantes. Pode, além disso, seguir os procedimentos inicialmente delineados e popularizados por Erik Erikson no seu Young Man Luther:

concentrar-se no car ter e acasos de um personagem influente que, o

autor pressupor , reflete e articula as tensões mais profundas de sua

época e do temperamento subjacen(e de seus contemporâneos com

uma lucidez exemplar ou com uma intensidade neurótica porém ins

trutiva.
Esse estilo eriksoniano de an lise, no qual o historiador lê a

cultura através de um indivíduo, tem seus riscos e suas vantagens;

sua efic cia depende muito mais de uma exploração histórica cuidadosa do mundo social de grandes personagens do que do diagnóstico

de sua estrutura de car ter. Uma das perspectivas mais arrojadas é,

no meu julgamento, a de Arthur Mitzman em Iron cage, que realiza

uma interpretação histórica e psicanalítica de Max Weber. De acordo

com a leitura de Mitzman sobre a vida psíquica atormentada de Weber,

que inclui uma dolorosa rebelião contra o seu pai e um surto psicótico

duradouro, seus dilemas mais internos refletem os dilemas da sua

cultura rígida e repressora que, pelo menos para um intelecto incans vel e inquisitivo como o de Weber, convida imediatamente a uma

desobediência radical ... autoridade que o pune sem piedade. Finalmente, o historiador psicanalítico ... procura de uma psicologia social

pode rastrear a cultura do indivíduo e o indivíduo em sua cultura, ao


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explorar as defesas que o ajudam, e a sua cultura, a atravessar a
vida.36
Citei Freud, confiante de que as suas descobertas abrem o caminho para uma compreensão da sociedade ao oferecerem explicações

#


sobre o funcionamento das mentes individuais. Disse-o de novo perto

do final da sua vida, no pós-escrito que acrescentou em 1935 ... sua

pequena autobiografia, publicada dez anos antes. Tinha quase oitenta

anos, e podia olhar retrospectivamente para quase meio século de

pensamento original sobre o homem na sua cultura. "Depois de um

desvio ao longo de uma vida através das ciências naturais, da medicina e da psicoterapia", escreveu, "meu interesse retornou ...queles

problemas culturais que haviam fascinado o jovem apenas despertado

para o pensamento". Tão cedo quanto 1912, recordou, investigara as

origens da religião em Totem and Taboo a partir de uma perspectiva

psicanalítica; nos anos 1920, prosseguira o seu trabalho em The future

of a illusion e Civilization and its discontents. Tinha sido ajudado

pelo "reconhecimento, cada vez maior, de que os eventos da história

humana, as interações entre a natureza humana, o desenvolvimento

cultural e os precipitados das experiências primevas - a partir de

cujos representantes a própria religião é impulsionada para a frente

- são apenas o espelho de conflitos dinâmicos entre o ego, o id e o

superego que a psicanálise estuda no indivíduo, os mesmos eventos

repetidos em uma escala mais ampla".'-, Freud nunca duvidou de que

a estrada que leva do divã para a cultura est aberta. 0 historiador

simpatizante, ao refazer os passos freudianos, concordar , mas est

obrigado a acrescentar que a psicanálise o deixou com muito trabalho

para ser feito. Sua estrada não est completamente pavimentada nem

mapeada adequadamente. 0 que o historiador tem ... sua disposição

é um esboço sugestivo que deve ser preenchido com as suas próprias

pesquisas, usando as suas próprias habilidades. Talvez seja suficiente

para a sua moral saber que o instrumental freudiano forneceu-lhe o

mapa e os meios e que, na difícil rea fronteiriça onde se encontram

a psicologia individual e a social, a psicanálise preocupou-se em manter um balanceamento saud vel entre a parte social da mente do

indivíduo, de um lado, e o sell único e obstinado, do outro.
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~I
145

#


0 PrOgrama em pr tica
1 .
Pensamentos acerca de registros
Ainda é preciso disparar, no assalto freudiano, sobre um bravo

bolsão de resistência, após terem sido vencidas todas as fortificações

defensivas dos historiadores e invadida a sua fortaleza do senso comum.- a proposta de inserir a psicanálise na pesquisa e na interpretação

histórica pode ser, no fim das contas, impratic vel. Mesmo o historiador que se confessa totalmente persuadido pelos capítulos anteriores

tem boas razões para ter reservas em relação a esta dúvida derradeira.

Ele pode reconhecer que a sua disciplina pode lucrar com uma psicologia fidedigna; que a percepção psicanalítica da natureza humana é

em última an lise compatível em grande medida com os seus próprios

pontos de vista t citos, que a psicanálise pode aguçar a sua sensibilidade não apenas em relação ao pensamento e ... conduta ligados ...


tradição e ao irracional, mas também ao egoísmo racional; e que o

individualismo proverbial da psicanálise, longe de ser frustrante, pode

instruir a investigação histórica a respeito de fen"menos coletivos.

Ainda assim, tendo concedido tudo isso, ele pode persistir ao recordar

mais uma vez a sua reserva favorita e (segundo ele) devastadora: não

se pode, afinal de contas, psicanalisar os mortos.


Desde o início acreditei que isso é mais do que apenas uma

objeção perspicaz e obstrutiva. 0 passado, individual ou coletivo, não

e um paciente, Clio no divã não responde ...s interpretações nem de

senvolve transferências em relação ao seu analista. Ela est apenas ali.

Nó d passividade

obstinada, frustrante, espalhadas pelas p ginas dos escritos psico-históricos. Certamente, é ineg vel que os registros que os historiadores

freudianos, a começar pelo próprio Freud, têm compilado não inspi

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