Freud para historiadores



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a escOI)rimos as implicações desalentadoras da sua


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ram muita confiança, David Starmard astutamente devotou o capítulo

de abertura do seu ataque ... psico-história - e ... psicanálise - ao

ensaio de Freud sobre Leonardo da Vinci. Os defeitos desse artigo

explicitamente exploratório j foram expostos: ao analisar uma memória única e aflitiva da primeira infância de Leonardo narrada por ele

em suas anotações, Freud fez mais do que traduzir erroneamente uma

palavra-chave. 0 p ssaro que, Leonardo recordou muitos anos mais

tarde, viera até ele quando era ainda uma criança de berço, abrira a

sua boca com a cauda, batendo nos seus l bios repetidas vezes, não

era um abutre, como Freud sup"s, mas um milhafre. Esta parte isolada do intrincado novelo do raciocínio freudiano sobre o desenvolvimento psicológico de Leonardo: o abutre, um p ssaro associado na

mitologia egípcia ... maternidade e ... androginia, levou Freud a algumas

especulações de longo alcance; o milhafre era somente um p ssaro. E

ao fazer inferências biogr ficas íntimas da aparência jovem de Santa

Ana na célebre pintura da Virgem com a mae e a criança, ele não

levou em conta a convenção artística da época de Leonardo de rejuvenescer Santa Ana.

Tudo isso forneceu aos críticos da psico-história uma munição

muito bem-vinda. Mas, enquanto Freud tinha a sua curiosidade despertada para escrever um artigo sobre Leonardo devido ... história

interna, fascinante e misteriosa de um artista que ele admirava muito,

seus impulsos originais decorrem do seu interesse sobre a formação

do car ter e sobre as origens da homossexualidade. "Leonardo da

Vinci e uma Memória Infantil" não se propõe a ser uma psicobiografia, e assim est longe de poder ser um teste conclusivo sobre os

usos que o historiador pode dar ... psicanálise.' Entretanto, não é um

começo promissor,

Tampouco as últimas aventuras feitas pelos psicanalistas são indicadas para silenciar todas as dúvidas. A psicobiografia de Lutero por

Erik Erikson, que serviu como modelo, e como observei antes, realmente estabeleceu a psico-história nos meados da década de 50, é

uma obra comovedora de erudição liter ria; Erikson ofereceu reflexõe s maduras sobre um adolescente, o jovem Lutero, a partir da perspectiva de um analista profissional culto e dedicado que procura

aliviar os tormentos e inspirar uma série de jovens dotados e profundamente perturbados. Certamente o programa para uma aliança que

funcione entre o psicanalista e o historiador é um modelo do tipo

que Erikson propõe no seu capítulo de abertura. Ao mesmo tempo,

Martinho Lutero era uma escolha pouco feliz, embora atraente, para

exemplificar o programa: não podemos ter certeza de que os episódios


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críticos de Lutero, sobre os quais principalmente se baseou o seu

biógrafo psicanalítico, aconteceram do modo como foram registrados

posteriormente, ou mesmo se realmente ocorreram .2 Além disso, faltou

aos inúmeros epígonos de Erikson, na sua maior parte, a energia inte

lectual e o seu dom para uma exposição elegante.
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Para tornar o trabalho dos historiadores freudiatios ainda mais

problem tico, e manter o ceticismo dos historiadores céticos, as expedições não convincentes dos psicanalistas na história psicanalítica forarn

combinadas com as incursões dos historiadores no mesmo terreno

sombrio e perigoso. Não h grande proveito em se fazer uma crítica

dos escritos psicanalíticos desde os meados da década de 50, eles

somam realizações muito variadas e não são, em suma, completamen=

te desanimadoras. Aludir, mesmo rapidamente, aos fiascos da psicohistória não é ceder, mas limpar o terreno. Por sua vez, os historiadores deleitam-se em achar essa literatura suficientemente provocadora

para manter viva a sua resistência. Na sua leitura preconceituosa, os
psico-historiadores são culpados de interpretar teorias políticas cuidadosamente organizadas como reflexos puros de identificações sexuais

ambíguas, ou de degradar mudanças significativas nas relações familiares a orgias do combate edipiano. Na realidade, essas psico-histórias

raramente são tão espalhafatosas, tão vulgares como os seus resenhis

tas irritados e impacientes gostam de se queixar. Mesmo quando os

psico-historiadores desaprovam seriamente qualquer comprometimento

com o reducionismo,1 suas monografias e sínteses freqüentemente

acabam por sucumbir a essa tentação. 0 reducionismo parece ser um
defeito tão constante dos psico-historiadores que os historiadores o

vêem entrelaçados com a sua própria estrutura, como uma falha

inerradic vel e fatal.
Mas o reducionismo é mais um acidente da história psíceraensalíntiteas

do que a sua essência. É a mais palp vel entre as aflições

de uma disciplina que tem sido jovem j h algum tempo mas que

pode continuar a solicitar a tolerância devida a uma disciplina que

est ainda numa fase exploratória, Reconhecidamente, a história psicanalítica é singularmente suscetível aos flagelos dos entusiastas. Os seus

produtos mais infelizes têm muitas causas, como aquelas perpetradas

em outros domínios da história. Mas, como os críticos têm insistido

com justiça mas não sem malícia, um numero exagerado de psico-historiadores tem cedido ...s atrações da simplicidade e da simetria a

seduções que historiadores que lidam com um instrumento interpretativo novo e excitante têm achado peculiarmente irresistíveis. Entre

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tanto, temos antídotos teóricos e pr ticos para imunizar o historiador


contra tais engodos. er indulgente) exige

Essa afirmação confiante (alguns poderiam diz

alguma qualificação. "Reducionisnio" é, como sabemos, um termo

ofensivo. Embora a redução, uma forma racional de dissolver uma

teoria em uma outra mais ampla, abrangente, seja um procedimento

científico totalmente respeit vel.' Ele deriva sua legitimidade de uma

regra de parcim"nia, a navalha de Occam, que ensina ao cientista que

ele não deve multiplicar as leis e as teorias sem necessidade. Na medida em que os pensamentos conscientes e os eventos palp veis podem

ser exaustivamente explicados através de vontades ou conflitos em

grande parte inconscientes, a redução psicanalítica não é um reducionismo. A questão é totalmente concreta: na pr tica histórica, so

podemos decidir se uma interpretação cruzou a linha que separa uma

economia aceit vel do terreno proibido da ingenuidade depois que a

elaboramos, e caso a caso. Não h nada que seja inerentemente implausível em uma explicação histórica que dê primazia aos fatores

psicológicos. Como outros cientistas , o historiador anseia por oferecer

urna explicação no lugar onde antes existiam duas, e isso apesar do

comprometimento do historiador, cuidadosamente cultivado, pela diversidade. Tem sido a sua procura por um esquema explanatório preciso

e claro que dirige os psico-historiadores para uma psicologia do id,

deliberadamente primitiva, e insensível ao trabalho, feito pelo ego, de

testar a realidade, e para degradar os atores históricos adultos a um

feixe de sintomas infantis não resolvidos e persistentes. Em poucas

palavras, eles têm atuado contra o s bio conselho de Whitchead para

o investigador: procurar a simplicidade mas desconfiar dela. Freud

não estava persuadido como eles: ele objetivava submeter o car ter e

a conduta individuais a leis psicológicas que os subsuiniam e ao mesmo

tempo estabelecer a singularidade de cada pessoa. Longe de destruii

a celebração da variedade humana e da especificidade histórica, ele

teria trazido mais champanhe para contemor -la.
tê-lo-ia ieito em nome da sobredeterminação. Algumas vezes, os

críticos lêem este princípio psicanalítico fundamental como urna fuga

prudente ... responsabilidade. Mas então, aqueles que querem encontrar um defeito em Freud irão encontr -lo. Uma vez que eles não têm

escrúpulos em acus -lo de ser uma mente simples e unilateralmente

dogm tica que recomenda um agente causal predizivelmente ubíquo,

a sexualidade, e, ao mesmo tempo, de se refugiar, na sua confusão

sobre o drama humano, numa vaguidade resplandecente de uma causação múltipla. Sobredeterminação, de fato, não é nada mais do que
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um reconhecimento sensato de que uma variedade de causas - uma

variedade e não uma infinidade - atua na construção de todos os

eventos históricos, e de que cada ingrediente na experiência histórica

pode ser contado como tendo uma variedade - e não uma infinidade

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de funções.5 0 historiador, ao trabalhar com uma riqueza de agentes



causais sutis e grosseiros, imediatos e remotos, e ao pretender não

suprimir nenhum deles e ao sujeit -los a uma ordem, só pode colocarse de acordo e aplaudi-Ia. Procurar a complexidade, historiador e

psicanalista podem dizê-lo em uníssono, procurar a complexidade e

dom -la.
2. Modos e meios


Em momentos de autodepreciação, benevolente, os psicanalistas

algumas vezes maldosamente previnem-se contra fazer inferências

apressadas: "Não generalize a partir de um caso apenas", dirão, "ge neralize a partir de dois-, Felizmente, a literatura histórica recente

oferece mais do que dois exemplos de como as percepções psicana líticas podem atuar como auxiliares para descobrir e interpretar, 0

elenco de instrumentos freudianos tem, afinal de contas, uma gradua ção fina e uma versatilidade not vel. Aprendi em meu próprio traba lho que o historiador pode agrupar as percepções freudianas de modo

a descobrir temas sobre fatores críticos embora h muito marginali zados no estudo histórico - os programas escondidos que quase imper ceptivelmente dominam a infância, a família, e a cultura como um

todo, e os fluxos libidinosos e agressivos que em segredo mas irresis tivelmente invadem a vida social e política. Pode ficar atento ...s me t foras que colorem o discurso cultural. Pode observar os ódios apai xonados, seguidamente escondidos, que deixam seus traços nos jogos

e ngs festivais e que vão desde a hostilidade grosseira dos charivaris

até as mensagens oblíquas dos ritos de iniciação. Além disso, pode

analisar os silêncios reverberativos e reveladores da sociedade. Para o

historiador psicanalítico, como para Sherlock Holmes, o cachorro que

não ladra durante a noite pode ser chamado a depor enquanto teste munha relutante mas informada. A psicanálise oferece idéias e, na

situação adequada, com as suas próprias restrições auto-impostas, até

algumas técnicas que podem dar acesso inesperado a fantasias popu lares, a sonhos e lapsos e a outros atos sintom ticos, e a t ticas defen sivas que indivíduos e instituições utilizam de forma bastante invo lunt ria. Alerta o historiador para documentos que, na ausência de

i suas teorias, são inúteis, silenciosos e despidos de sentido

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Ao analisar as campanhas ansiosas contra a prostituição para o



r na cultura do século XIX, fiquei impres

meu estudo sobre o amoundido de salvar as ,mulheres

sionado corri o desejo largamente dife respeit vel.. Foi

r para elas uma vida pura oria

e de reivindica , para a mai

decaídas"rometimento com essa reabilitação e de cornissoes de

intenso o COMI? consciente. Estimulou a formação

dos reformistas,cidades em toda a civilização ocidental no

especialistas nas grandesrido anteriormente com os orga

f inal do século XIX, corno havia oCor brigos para prostitutas arre

nizadores de casas de recuperação e de a

pendidas; monopolizou as simpatias imediatas de Charles Dickens e,

mais notoriamente, as de William Ewart Gladstone , que atravessava

as ruas noturnas de Londres para abordar jovens prostitutas com

panfletos, discursos bern-intencionados e convites para visitar a sua

esposa no lar. Todos esses esforços benevolentes estão de acordo com

a mentalidade mais assistencial das classes médias do século XIX,

tanto piedosas quanto leigas. Mas convenci-me de que elas tiraratri

muito da sua energia de uma idéia inconsciente, a fantasia de recuperação, o desejo de reabilitar estranhos, uni disfarce para uni desejo

bem mais potente de restaurar a pureza materna que, embora oficialmisteriosas e terríveis com o pai

mente fosse um anjo, fazia coisas

por tr s das portas trancadas do quarto de dormir. Se não tivesse

estudado Freud, não teria me dado conta da ação da fantasia de

recuperação, nem encontrado a sua altíssima utilização em urna cultura

pronta para ter compaixão.
Outros discernimentos e praticas psicanalíticas permitiram-nie

seguir pistas que não teria reconhecido, e confiar em interpretações

que não teria imaginado, sem o seu auxílio. AO.ler as referências em

di rios privados como se fossem cadeias de associações - urna espécie

de ziguezaguear desimpedido que se pede a todo analisando que realize

no divã - vi-me tratando os saltos abruptos de um terna para outro

não como uma digressão casual ou como desvios acidentais da atenção, mas COMO padrões de processos mentais coerentes, surpreendentemente legíveis. Manter um di rio e escrevê-lo, algo apreciado, especialmente no século XIX, por pais e professores, h muito tinha as

suas convenções; saúde, o clima e os pensamentos profundos sobre o

amor e a religião eram temas quase que obrigatórios. Eles, também,

podem tornar-se sintomas reveladores de uma sociedade preocupada

excessivamente corri o estado mental e do Corpo. Mas além disso, as

mudanças curiosas e freqüentes na sucessão das observações e confissões particulares revelaram até mais, através das suas conexões

inconscientes, do que o próprio escritor poderia revelar intencional

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mente. De novo, ao estudar os sonhos que os memorialistas e os escritores de cartas pensaram que eram suficientemente interessantes para

registrarem e, a partir da sua própria maneira amadora, interpretarem, pude extrair dos seus sonhos latentes pensamentos eróticos bem

camuflados e material agressivo de que as superfícies suaves de outros

testemunhos que sobreviveram não deixaram qualquer traço. Além

disso, os conglomerados de símbolos no sonho manifesto ou de outros

detalhes que parecem ocorrer com maior freqüência em certas culturas em dados momentos deram-me pistas valiosas, em alguns casos

irreplic veis. para conflitos mais gerais mas pouco percebidos. De

modo similar, para dar um outro exemplo, tornei-me consciente de

como os documentos estéticos acessíveis em uma sociedade - seus

romances, poemas, ou pinturas - revelam, sob as lentes psicanalíticas,

a maneira pela qual aquela sociedade procura resolver, Ou recusa-se

a reconhecer, questões que acha muito delicadas para discutir francamente. A inclinacão demasiadamente humana para o incesto, os perigos e as promessas do corpo humano exposto, o medo subjacente dos

homens (enquanto diferente do manifesto) em relação ...s mulheres,

ou o medo das mulheres em relação aos homens, tudo gua para o

moinho do analista, pode tornar-se um material esclarecedor para

historiadores.'


Nas décadas mais recentes, alguns biógrafos e histuriadores integraram com sucesso esse modo de leitura aos seus métodos costumeiros, testados pelo tempo. Nem sempre mencionaram o nome de Freud:

por exemplo, Edmund Morgan sugeriu que, se não houvesse se utilizado de Freud enquanto escrevia a sua dissertação sobre a vida familiar puritana na Massachusetts do século XVII, teria escrito um livro

bastante diferente 7 Às vezes, contudo, o débito tem sido reconhecido

explicitamente. Nada é mais instrutivo de que o livro magistral de

E. R. Dodds The greeks and the irrational.' Vale a pena examinar

aqui tanto o seu procedimento quanto os seus resultados.


Dodds inicia o seu livro com uma descrição intrigante, algo tendenciosa, sobre o modo que o levou a escrevê-lo: uma exploração

sistem tica na qual as proposições freudianas não funcionam como

objetos decorativos e elegantes, mas são disponíveis para o pré-consciente, e servem para organizar as percepções sobre as experiências

passadas e trazer de novo ... vida conhecimentos eruditos empoeirados.

Um dia, Dodds recorda, ao olhar para as esculturas do Parterion no

Museu Britânico, encontrou por acaso um jovem que olhava para as

mesmas esculturas mas - ao contr rio de Dodds - não estava nada

inipressionado com elas. Os dois comecaram a conversar, e Dodds


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perguntou ao jovem se ele podia explicar o seu desinteresse. "Bem",

ele aventurou-se, depo s d "é tudo tão terrivelmente racional, se você entende o que eu quero dizer". Dodds achou que

entendia. Levou-o a pensar: "Seriam os gregos assim tão cegos para

a importância dos fatores irracionais sobre a experiência e o comportamento humanos como supuseram tanto os seus apologistas como os

seus críticos?". Os mais eminentes estudiosos do classicismo, colegas

de Dodds, incluindo Gilbert Murray e Maurice Bowra, tendiam a

desconsiderar a irracionalidade dram tica da religião grega como uma

pura galhofa, como mera literatura. Assim, esse encontro ao acaso,

acrescido da recusa dos estudiosos de levar a sério a religião grega,

definiram para Dodds "a questão a partir da qual surgiu o livro"~ 0

livro foi a resposta que ele deu.
É sempre arriscado para os leitores substituírem as suposições

do autor a respeito da gênese pelas suas - ele, afinal de contas,

estava l . Mas sustento que o esplêndido estudo de Dodds sobre a

experiência grega não surgiu apenas a partir de uma questão - ou,

pelo menos, ela não se colocou no início da investigação. Existiu uma

história consider vel por tr s dela.'0 0 investigador profissional, afinal

de contas, aborda a tarefa escolhida com técnicas testadas, pontos de

vista articulados, informações abundantes, e algumas idéias sobre as

controvérsias de ponta na sua disciplina. Não importa quão provisoriamente possa coloc -la, mesmo para si próprio, ele ir fantasiar

sobre a descoberta de um novo fato, sobre o desenvolvimento de uma

nova linha de raciocínio, talvez criando uma nova teoria que lhe trar

senão fama, dinheiro e o amor de mulheres maravilhosas, pelo menos

a atenção de seus pares. 0 estímulo para a autodisciplina, o h bito de

colocar dúvidas vagas ...s suas noçoes mais valorizadas e aos seus epigramas mais meticulosamente afiados, e de confront -los com a evidência quando ela


A explicação de Dodds, como a formulou após o seu encontro

casual, acarretou algumas conclusões que ele desenvolveu, com a

paciência e a base informativa de um estudioso, após décadas de trabalho sobre textos antigos. Um dem"nio exigente, embora de nenhuma

forma malévolo, acompanhou a sua carreira: um fascínio pelo lado

irracional da experiência humana. Na sua maravilhosa autobiografia ,

publicada em 1977, dois anos antes de sua morte, ele descreve esse

"elemento recorrente" que governou a sua vida "por mais de sessenta

anos como um fio de cor distinta em um trabalho de remendo", como

"a tentativa de observar e, se possível, de compreender alguns dentro

daquele vasto campo de fen"menos peculiares que ocupam o terreno


i e reitetir um Pouk`
surge - tudo isto é posterior.
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disputado entre a ciência e a superstição". Felizmente, ele aprendeu

a usar o oculto sem que o oculto o usasse; definiu-se corno um "investigador psíquico- cauteloso atraído por fatos inexplicados, porque

"acredita que podem e deveriam ser explicados como fazendo parte

da natureza tanto como quaisquer outros fatos-. 0 "objetivo a longo

prazo" do "irivestigador psíquico", assinalou Dodds, "não é o de glorificar o 'oculto', mas de aboli-lo ao trazer para a luz o seu verdadeiro

valor e ao ajust -lo ao seu lugar em uma visão coerente do mundo.

Longe de desejar derrubar o edifício imponente da ciência, a sua

ambição maior é construir um modesto anexo que servir , pelo menos

provisoriamente, para abrigar os seus novos fatos com um mínimo de

perturbação para a planta original da construção-.`
Essa passagem poderia ter sido escrita por Sigmund Freud. De

forma muito parecida com a dele, Dodds exibe um interesse apaixonado pelas crenças, pr ticas e modos de conduta que colegas racionalistas desconsideravam como superstições, como sintomas de perturbações ou como um jogo imaginativo que pitorescamente esconde

por baixo de si o pensamento racional. De forma muito parecida com

a de Freud. Dodds considerou seriamente os sonhos, a loucura e o

transe, e teve sucesso em revelar aspectos da mente grega que seus

antecessores de forma bastante literal não haviam visto. Permitiu que

ele reconhecesse o h bito grego de atribuir os seus estados mentais ...

intervenção divina, não como uma desculpa estereotipada ou uma

fuga ... responsabilidade, mas como um tipo de projeção, "a expressão

pictórica de uma advertência interna"; foi a partir de tais sentimentos internos, depositados nos deuses, que "se desenvolveu a maquinaria divina". Então, em algum ponto no final do século V a.C., essa

projeção, na qual "os impulsos não sistem ticos, não racionais, e os

atos resultantes deles, tenderam a ser excluídos do self e atribuídos

a uma origem alheia" gradualmente deu lugar a uma "exigência nascente de justiça social", a uma certa -íriternalização' da consciência".
0 fato de Dodds valer-se de uma terminologia técnica permitiulhe avançar duas teses intimamente relacionadas. Tomou a atividade

projetiva antiga como uma pista para estilos arcaicos de pensamento,

e não como um tique misterioso, fortuito. E, ao reconhecer a tradução de impulsos indesej veis em intervenções perniciosas de deidades

caprichosas como um mecanismo de defesa, pode colocar-se acima de

uma postura moralista. 0 que outros estudiosos, com menor treino

em formas psicanalíticas de pensar, teriam visto como uma peça arquitetada de sofística - se vissem algo - Dodds p"de interpretar como

uma atividade mental quase totalmente inconsciente na sua natureza,
15 _)

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i
li

i
Com a sua prudência costumeira, ele não se aventurou a dar uma

completa explicação para essa mudança de uma "cultura da vergonha

para uma cultura da culpa". Citou a teoria de Malinowski segundo a

qual as crenças irracionais ocupam um espaço no qual o controle racional humano não se aventura, ou do qual ele se retira; e refere-se

...s sublevações sociais disseminadas que podem ter "encorajado a reaparição de velhos padrões culturais". Mas, como um bom freudiario,

acha que tais explicações são incompletas, e sugere que os historiadores considerem mais de perto a vida doméstica grega. "A situação

familiar na Grecia antiga" deu lugar ao "surgimento de conflitos infantis cujos ecos prolongam-se na mente inconsciente do adulto".

Afinal de contas, "os psicólogos nos ensinaram" - e por "os psicólogos" leia-se "Freud e seus seguidores" - "quão potente é a pressão

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