Freud para historiadores



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riador est particularmente bem preparado para fazer essa psicologia

Y 8 ^;ãã
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#

social trabalhar para o estudo da cultura, de suas origens, de seu curso,



de seus conflitos irreprimíveis, um estudo ao qual Freud dedicou muita

energia e muitas horas de trabalho. Irei elaborar esses pontos em

alguma extensão. Mas uma exploração sobre o que precisamente o

psicanalista poderia aprender do historiador, tão fascinante quanto

possa ser, est fora do alcance deste trabalho. Nestas p ginas, quero

generalizar e retirar as implicações da observação freudiana sobre o

totemismo: sua explicação, escreveu, deveria ser "histórica e psicológica ao mesmo tempo, para dar informação sob que condições essa

instituição peculiar se desenvolveu, e a que necessidades humanas deu

expressão". Histórica e psicológica ao mesmo tempo: isto expõe o

meu programa com uma economia admir vel.


Pensei em encerrar o assunto aqui. Mas velhas controvérsias girando em torno de Freud, tão velhas quanto a própria psicanálise,

alcançaram um tal grau de excitação e de injúria nos meses em que

estava preparando este livro para publicação que não posso ignor Ias.' A tentativa de desacreditar a psicanálise, através do questionamento de seus usos como terapia, não é nova. Nem é o esforço para

arranhar a reputação de Freud. Mas desde o início dos anos 70 e,

mais ainda, no começo dos anos 80, ambos têm sido perseguidos com

um vigor sem precedentes e através de alguns subterfúgios imaginativos. A efic cia da psicanálise enquanto terapia, quando comparada

... ausência de tratamento, ou a de outras terapias ou placebos, permanece uma questão aberta a debates intensos. Obviamente, as curas

que a psicanálise pode alegar são altamente resistentes ... quantificação. Mas a evidência empírica e experimental não oferece nenhuma

boa razão para aceitar os veredictos devastadores dos oponentes mais

inflexíveis de Freud, não importa quão bem-vindos possam ser para

aqueles que estão ansiosos para erradicar as idéias freudianas de

nossa cultura. De fato, elas aparecem-me como sendo muito mais vulner veis do que as alegações freudianas que procuram desacreditar.

Mas, mesmo que se pudesse mostrar que o tratamento psicanalítico

não merece nenhum estatuto privilegiado, não se seguiria de nenhuma

maneira que os princípios centrais da teoria psicanalítica - o determinismo psicológico, o inconsciente dinâmico, a sexualidade infantil,

os trabalhos dos mecanismos de defesa - teriam sido assim compro

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metidos, muito menos refutados. (Tratarei dessa questão, em alguma

amplitude, no capítulo 2.)


0 mesmo e importante argumento vale para o car ter de Freud.

De certo modo, a presente onda de denúncia pode ser uma resposta

inevit vel, embora desagrad vel, ... idealização, e até ... idolatria, em

que incorreram os admiradores de Freud no passado (ver capítulo 2).

De acordo com os advers rios mais exagerados de Freud, ele era um

mentiroso, um covarde, uma fraude, um plagiador, um autorit rio,

um machista chauvinista, um pesquisador relapso, um adúltero, e (pelo

#


menos na sua mente suja) um pedófilo, embora provavelmente não

fosse um pederasta.1 Não reconheço Sigmund Freud nessa caricatura,

e em vista do que sabemos fidedignamente sobre ele, duvido que

algum dia ela possa vir a ser substanciada. Naturalmente, os polemistas mais engenhosos tentaram vincular o car ter de Freud com a sua

teoria e parecem acreditar que, se puderem arruinar o primeiro, arruinarão a segunda, Mas mesmo que Freud se transformasse no vilão

mais acabado e consistente, seu trabalho se manteria por si mesmo.

De qualquer modo, o programa que desenvolvo neste livro não depende da demonstração de que a psicanálise seja o melhor método de

cura para as desordens neuróticas, ou de que Freud fosse um cavalheiro impec vel.


P.G.
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#


1
0 argumento:

defesas contra a psicanã1ise


Historiadores gostam de rejeitar --- como uma disci a

Rlina au"xl'Toiãr com uma recusa radical e breve: _gão se pode psicanalisar---j -mortos, Tent -lo seria introduzúir tecnicas inapropriad s tia

pes4u-isa" =istorica, permitir que uma especulação infundada subverta

* processo explicativo que tem servido tão bem durante tanto tempo

* historiadores, e reduzir o buquê maravilhoso e multicolorido de

pensamento e ação a uma psicopatologia depressiva e cinzenta. Os

sujeitos históricos, os grupos, as classes, as nações não são pacientes

no divã, nem mesmo em um divã imagin rio. Outras acusações rodeiam essa recusa: os estudiosos do passado orientados pela psican lise violam o bom senso, exageram na credulidade, desconsideram o

peso das provas (ou não respeitam a sua ausência), atropelam devido

...s exigências de estilo. Alguns historiadores, ofendidos pelas alegações freudianas, têm até ultrapassado a sua esfera habitual para conjecturar em voz alta se, além da incapacidade de psicanalisar os mortos, pode-se realmente psicanalisar os vivos. Mas irrelevância, irresponsabilidade e vulgaridade permanecem sendo as ' principais denúncias

do acusatório contra o historiador psicanalítico.

Pretendo levar a sério essas defesas agressivas contra a psican lise e organiz -las numa seqüência que espero seja lógica e lúcida.

Estou imaginando as manobras defensivas do historiador como seis

anéis concêntricos de fortificações intelectuais mobilizadas contra o

assalto freudiano. Se ele for obrigado a render-se ao inimigo na muralha mais externa, pode recuar para um segundo conjunto de basfiões e oferecer uma nova resistência; se a segunda cair, a terceira

permanece, e assim por diante, até o centro da fortaleza, onde o his

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toriador espera trêmulo pelo invasor.' Por que, para iniciar, o historiador deveria se preocupar com qualquer tipo de psicologia formal

se, por séculos, o bom senso, a erudição honesta e a experiencia amadurecida têm sido suficientes e se, mais recentemente, algumas noções psicanalíticas se tornaram um lugar tão comum que se pode

pilh -las com segurança como se faz com um texto que caiu em domínio público? Então, se for reconhecida a necessidade de uma psicologia, e de alguma precisão no seu uso, por que o historiador deveria recorrer ...s noções freudianas, tecnicamente difíceis, e não se

valer de sistemas psicológicos concorrentes que parecem ser muito

mais plausíveis e digeríveis? Em seguida, suponha que as credenciais

do pensamento psicanalítico tenham sido aceitas. Não e a psicanalise na sua propria essencia a-histórica com seus postuWcio-ssoU-r-euma

at:u:ré2- averIquL--se o`poe ao coniF-fomisso do-Sist lador

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do7 E~esmo que eud tivesse sido defendido -ta-Mo nõWu" tratamento do interesse privado como na sua percepção sobre as questões humanas, a sua visão da humanidade, na melhor das hipóteses,

não é uma transcrição de um tipo puramente local - o da virada

do século em Viena?
Quarto, pressupondo que a psicanálise não é assim tão a-histórica, e que a história não é igualmente tão hostil ... idéia de natureza

humana, como supusemos durante tanto tempo, não permanece verdadeiro que a psicanálise, subjugada pelas suas preocupações clínicas,

pode no m ximo iluminar um estreito segmento da experiência histórica, aquele da conduta irracional ou da distorção neurótica? Quinto, suponha que a psicanálise tenha se revelado como uma psicologia geral, pouco menos instrutiva sobre a razão do que o é sobre o

irracional, o historiador não est justificado em restringir o seu eniprego, dado que a psicologia fretidiana é de todas a mais incuravelmente individualista? É apenas após o reconhecimento do historiador

pelo que a psicanálise tem de potencial para explicar o comporta#

mento grupal e a interação contínua entre mundo e mente, que ele

pode sentir-se pronto para incorpor -la aos seus Métodos de investi

1. Adotei neste livro o velho uso, genérico e padrão, de empregar os

pronomes "ele(s)" ou "seu(s)" e os substantivos "homem" ou "homens" para

denotar toda a humanidade.


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4
gação e integr -la ... sua visão do passado. Mesmo assim, ainda permanece uma defesa, aquela da impraticabilidade: não importa quão

crível, quão instrutiva a psicanálise possa ser, ela é realmente útil

pa rto=ssta-,

ra o historiador praticante? Pode-se psiçaUlisar os mojâ4.,~jã"

são as questoes-We-rradeiraS e difíceis a que olilgrei ri ~ me cânl"pr

e a que~retendo me dirigir-no m-eu úhi-mQ e PiMiU


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#


o
1
1
As necessidades
secretas do coracão
1 . Psicólogos sem psicologia
0 histo ador Drofissional tem sido sempre um
psicórõgo"a"=maor. Saiba isso ou não,--eTe opera com uma-rebria soS~re

~qa" =um na; atribui motivos, estuda paixões, analisa irracionalidades e constrói o seu trabalho a vartir dâ.&on

.ãiiiúg.ãiilLde

que os seres humanos eAip&m algumas caract rísticas est veig e díscerníveis, alguns modos predizívii- --- nejo menos Je tr v e

lidã cõm-as suas expe - cia- Descobre causas, e a sua descoberta

lien ias.

geraMIr -inclui os _~tos mentais---. Mesin-5-M truto-res de sistemas

que sujeitam indivíduos ...s pressões

inevit veis das condições históricas, admitem e declaram que entendem o papel desempenhado pela mente. Entre todas as ciências auxi ajuilante -BrincipaiJemBo a

nãQ reconhecida.


Mas, em geral, elapermanece não reconhecida; enquanto devo

tos do senso comum, os historiadores têm relutado em discut' r

da sicolo ia na sua dis -Na verdade, seu-Ue-s-CUirrõrto aumen ~j~colo~ia na

tiu-- vísiveIR`METe nas últi-mas-Mecadas, mais ainda a partir do momento em que a psicanálise insinuou-se na profissão e tornou-se a psicologia preferida para uma minoria impetuosa, isolada e censur vel,

Para a enorme maioria dos historiadores, a emergência de Freud

como um guia possível para os mistérios das mentes do passado ensejou a manifestação de um ceticismo ponderado, de uma ansiedade

mal disfarçada, ou de pura raiva. Uma t tica característica dos velhos

freudianos, tentadora mais ilícita, seria a de interpretar os atos de

rejeição carregados de afeto dos historiadores como resistências e feli

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cit -las distorcidamente enquanto demonstrações não tencionadas das

idéias freudianas. Certamente, as suas idéias precisam de argumentos

mais fortes do que este para que se possa recomend -las para o estudioso sério: foram-se os dias em que os seguidores de Freud podiam

desacreditar críticas racionais através de uma psicanálise do crítico.
No início da década de 40, re lo h assinalou a obrigação do

o

rc 1?e dades secretas



1(

UQL



historiador de explorar o que chamou e "ã"s"nectC,f(

do coração" dos homens. Mas a exploração qu"e"Tfe"relTMff"T"ol'rr~evista

par re~rm~o~a~rnã suYerfície da consciência: ele escreveu no seu

livro póstumo e inacabado Historían's craft que, "em última an lise,

a consciência humana é o objeto da história. As inter-relações, as confusões e as contaminações da consciência humana são, para a história,

a própria realidade".' Embora poucos historiadores pudessem preocupar-se em negar que o homem é o tema verdadeiro de sua disciplina,

sentem-se inquietos diante dessas "necessidades secretas do coração"

- llÁã secretas ainda do aue Bloch- havia i Tampouco o

1 - - guia para elas, oferecido por Freud, era o indicado para ressegur -los.

Muitos historiadores que saúdam Marc Bloch como um mestre acham

a sua proposta muito temer ria. Quero mostrar que, embora ela seja

formulada admiravelmente, é por demais prudente.


0 historiador trêmulo a que me referi e continuarei a fazê-lo é

uma construção, embora não seja um boneco de palha. É uma condensação de muitos praticantes ansiosos, e portanto hostis, que personificam. o consenso do ofício histórico. A maior parte dos historiadores profissionais não se compromete com a publicação de seus pontos

de vista sobre a psicologia em geral ou sobre Fretid. em particular.

Ainda assim me sinto seguro ao supor que mesmo aqueles que, nos

Estados Unidos e em outros lugares, poderiam reconhecer que lucrariam com uma psicologia sofisticada, rejeitariam o instrumental freudiano como sendo inadequado para fornecê-la. Stephen Gottschalk,

estudante de Christian Science, uma confissão cristã, observou, ao resenhar negativamente uma psicobiografia de Mary Baker Eddy, que

11 em geral, os historiadores tendem a ser extremamente céticos sobre a

aplicação de conceitos psicanalíticos ... história e ... biografia" .2 0 seu

parecer é o da minha profissão. Aqui e ali algum historiador destacado tem mostrado algum interesse e simpatia pela psicanálise, mas

seus elogios, em geral vagos e condescendentes, são provavelmente

mais danosos ...s alegações fretidianas do que a depreciação franca e

típica de seus colegas. 0 falecido E. H. Carr, no seu livro ampla

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mente lido, embora decididamente trivial, What is history?, atribuiu

a Freud uma dupla relevância para os historiadores: ele concentrou

a sua atenção sobre os nossos preconceitos e desconsiderou a "antiga

ilusão" de que os motivos ostensivos dos homens são "adequados

para explicar a sua ação". Isso dificilmente parece ser uma contribuição heróica para uma ciência do homem sobre a qual os historiadores poderiam apoiar-se; de forma bem apropriada ... sua perspectiva,

Carr avalia o trabalho freudiano como uma aquisição negativa de

alguma importância.'


Essa espécie de concessão relutante evidentemente parece ser

muito generosa para a maior parte dos historiadores. Refletindo a

respeito de como estudiosos do passado lidam com a influência de

impulsos irracionais sobre os atores históricos, G. R. UÁV...~ advertiu

em 1967 que "alguns historiadores, e principalmente os biógrafos",

passaram a acreditar "que um conhecimento de psicologia (especialmente de psicologia patológica) é indispens vel, com a conseqüência

de que com muita freqüência se encontram alguns fragmentos bastante ruins de lugares-comuns freudianos ou pós-fretidianos na an lise",

Isso parece ser bastante justo; afinal de contas, citarei alguns fragmentos bastante ruins desse tipo nas p ginas que se seguem. Entretanto Elton não é um fretidiano ansioso em proteger um legado precioso e delicado. Ele comenta: "Às vezes ainda nos pedem que recorramos a Freud quando estudamos


pessoas na história, no mesmo

momento em que os psicólogos afastam-se em massa de Fretid" confundindo, assim, os humores mut veis do público em geral com

as convicções sérias dos psicólogos acadêmicos que, além do mais,

têm se tornado um pouco mais receptivos ... psicanálise.


Na verdade, parece que quando a mente humana, especialmente

a sua mente inconsciente, est em questão, alguns historiadores procuram refugiar-se numa hipocrisia deliberadaniente cultivada, e ostentar a sua ignorância como um símbolo de sabedoria profissional. Kenneth S. Lynn, em 1978, recorda com aprovação que "Arthur M.

Schlesinger Sr. informou-me - com consider vel arrogância - que

nunca lera Freud e que não pretendia fazê-lo". De nenhuma forma ele

é o único, J. H. Hexter contou a seus leitores que "embora anos atr s

tenha lido a maior Parte das obras freudianas na velha edição da

Modern Library Giant, saltei sobre algumas e nunca voltei a elas".

Aquelas obras não identificadas na velha Modern Library Giant, na

versão defeituosa de A. A. Brill, h muito foram superadas por tra

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#


duções melhores, mas Hexter decididamente recusou-se a retornar a

elas porque achou o próprio Freud deficiente e não as traduções de

Brill. Ainda assim, se a história, como Elton colocou com justeza,

" est preocupada com todos os ditados, os pensamentos, os atos e os

sofrimentos humanos que ocorreram no passado e deixaram depósitos

no presente " ~4 o historiador é chamado, de fato obrigado, a pesquisar

como esses ditados, pensamentos, atos e sofrimentos podem ser investigados mais efetivamente e compreendidos com maior sensibilidade.

Mestres consagrados como Schlesinger e Hexter aparentemente se orgulham em desconhecer Freud, uma vez que se persuadiram de que ele

não tem nada para ensinar-lhes.


Talvez devêssemos agradecer a essa inocência obstinada; outros

historiadores, após uma r pida incursão pelo país de Freud, geralmente sem uma bússula e ignorando o idioma, têm sido os mais deletérios. Alguns alcançaram o que consideram, no mínimo, como sendo

as refutações definitivas de qualquer razão pela qual os historiadores

deveriam aprender psicanálise. Nos seus artigos presunçosos sobre

ciência histórica e psico-história, o historiador social alemão HansUlrich Wehler, em geral receptivo a inovações metodológicas, rejeita

a história psicanalítica como sendo "mais um beco sem saída do que

uma trilha promissora".' A incursão de David Hackett Fischer pelas

fal cias dos historiadores arrola "cinco fracassos substanciais" da teoria freudiaria, e julga que "os fracassos da historiografia freudiana"

provavelmente "decorrem, em alguma medida, das limitações do método psicanalítico". E, no mínimo, dois historiadores tentaram envergonhar a psicanálise tão completamente para que ela nunca mais mostrasse a sua face diante dos historiadores. Jacques Barzun, em um

ensaio divertido e vigoroso, Clio and the doctors, procura resgatar

Clio, sua musa, de charlatães de toda espécie; e, entre os grupos de

novidadeiros e tecnocratas, o "doutor em psicologia", ao prescrever

para a sua "paciente, a História", é uma figura ameaçadora quando

não est sendo ridícula. Por sua vez, David E. Starinard, em Shrinking

history, passa, com uma espécie de raiva imponente, dos fracassos

da psicanálise na historiogrpfia para os seus fracassos na terapia, em

lógica, em construção teórica e em percepção cultural, para concluir

que não h nada que recomende a psico-história porque não h nada

que recomende a psicanálise. Stannard convida o historiador a procurar em outro local: "Chegou a hora de mudar".'
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Embora os textos citados datem do final dos anos 60 para a

frente, minha própria experiência, de nenhuma maneira atípica, sugere

que a injeção da psicanálise na história suscitou uma oposição maciça

praticamente desde o seu início na década anterior ou pouco antes.

As palavras de abertura deste capítulo, em que chamei o historiador

de psicólogo amador, são uma par frase muito próxima das sentenças iniciais de um artigo que apresentei diante da Society of French

Historical Studies em 1960. Disse que o historiador, diante de "um

#


desfile de personagens históricos, pode ver os atos deles mas deve

inferir os seus motivos". Então passei a examinar como os historiadores da Revolução Francesa trataram os discursos de Robespierre, de

to

Dan 1 n e de seu contemporâneos de tribuna em uma época oratória,



e analisei brevemente as próprias falas. Meu artigo era uma tentativa

modesta de fundamentar as atividades expressivas dos jacobinos e de

seus rivais na realidade, na tradição retórica e na pressão dos eventos

mais do que nas convicções, nas idiossincrasias ou nas necessidades

inconscientes deles. A maior parte das minhas observações guiava-se

pela experiência manifesta: pela conduta verbal dos oradores e de sua

tradição retórica, pelas suas met foras religiosas, pelas alusões cl ssicas e pelas citações de Plutarco e de Rousseau, pela sua sinceridade

e pelo seu modo de falar bomb stico. Somente ao final, aventurei-me

a "brincar" nas guas profundas da psicologia. Especulei que a notória ansiedade e suspeição, apresentada por Robespierre na primavera

de 1794, poderia ter sido uma forma de atuação de uma sequencia

mortal na qual a frustração traduz-se em raiva e é mitigada pela vingança. E sugeri, rotulando-a de "mais especulativa ainda", que poderíamos ver a sucessão de eventos que levam da fuga do rei para Varennes ... sua execução como tendo os contornos e produzindo os sentimentos de culpa do parricídio. Para evitar equívocos, assinalei que

11 respostas a questões psicológicas como estas não podem ser encontradas apenas através da psicologia", mas também devem ser procura 11 7

das "na política, nos eventos cotidianos .
Minhas advertências não foram ouvidas e minhas precauções foram vãs. Um guarto de século mais tarde, o artigo parece-me coninleta e~

menteconvenrin-21nn-111-At-1 ---------Dres . 11L4W10

su=101

... pouca psicanálise nele. Eu pretendia que a minha frase concludente



suavizasse mais do que alarmasse: como Sigmund Freud disse certa

vez, falei para os meus ouvintes, "h épocas em que um homem

anseia por uni charuto simplesmente porque deseja fumar".' Ainda
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#


assim, a minha apresentação causou o que se poderia somente qualificar de um "motim bem-comportado". Um historiador eminente levantou-se para denunciar os historiadores como seres volúveis, sujeitos aos modismos, entre os quais, segundo ele, a psicanálise era apenas o mais recente. Disse: "Eu os vi vir e ir. Era a antropologia.

Depois foi a sociologia. Agora é a psicanálise. Mas isso também ir

passar". Outro, de forma indignada, queria saber se os historiadores

no futuro teriam que estudar psicologia como seu domínio conexo aparentemente uma perspectiva agourenta. 0 debate que provoquei

involuntariamente não foi sobre a substância de minha apresentação,

mas sobre a ameaça que uma disciplina alienígena e esotérica colocava para os estudos históricos. Senti-me como um bruxo que, por

alguma gafe social terrível, tivesse sido convidado para apresentar

uma comunicação em um encontro de uma sociedade médica.


Dois anos antes, em 1958, a psicanálise acabara de irromper na

profissão a partir de uma conjunção espetacular de eventos: a coincidência entre o discurso presidencial, amplamente citado, de William

Langer para a American Historical Association, e o livro Young Man

Luther, de Erik Erikson, que deu a Freud uma notoriedade grande

e instantânea entre os historiadores.' 0 discurso de Langer, que pedia

aos seus colegas que empregassem as idéias psicanalíticas na pesquisa

histórica, era ainda mais perturbador porque o seu autor fizera a sua

reputação através de obras sobre a história da diplomacia, impec veis

pela sua documentação e conservadoras pela sua técnica. 0 livro de

Erikson, que se apresentava como um "Estudo em Psican lise e História", gerou alguns debates apaixonados. Juntos resultaram em congressos regiamente financiados e em um clã fervoroso de imitadores.

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