Freud para historiadores



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de desejos desconhecidos, enquanto fonte de sentimentos de culpa,

desejos excluídos da consciência exceto nos sonhos e nos devaneios,

e ainda assim capazes de produzir no self um sentido profundo de

1

desconforto moral". Completando o argumento, assinala como o



Zeus de Homero era 11 proximo" do "rnodelo dado pelo pater familias

homérico"."


"Os psicólogos" aguçaram, de outras maneiras decisivas, a percepção de Dodds sobre os gregos e o irracional. Ele vê os ritos dionisíacos e o culto a Apolo como opostos, um par onde um é igualmente

necessario ao outro: "cada um administra ... sua maneira as ansiedades

características de uma cultura da vergonha", pois, enquanto Apolo

,1 promete segurança", Dionísio "oferece liberade"." Por outro lado,

reconhece no Eros de Platão um "Precursor da libido freudiana", uma

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filiação que Freud comentara antes. Ou interpreta tanto a razoabilidade dos sonhos relatados, como a espantosa impropriedade do sentimento recordado, com um vocabul rio e percepções retirados da Interpretação dos sonhos: a primeira, Dodds sugere, era um exemplo de



"elaboração secund ria", a segunda, um exemplo de "inversão de

afeto". Finalmente, explica a renovação de superstições antigas durante

o declínic, da era cl ssica, o recurso desesperado, novo embora tão

antigo, ... cura m gica, através da regressão, o que acarretou no final

regressões ainda mais primitivas, fórmulas encantatórias consistindo

em pragas m gicas planejadas para destruir inimigos.`

Regressão, certamente, envolve um retorno ...s fases iniciais da

organização mental, e Dodds aceita a met fora freudiana que descreve

a mente como um depósito geológico que preserva a camada mais

antiga sob as mais recentes, "Um padrão novo de crença", escreve

Dodds, fazendo eco tanto a Gilbert Murray como a Freud, "raramente
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desfaz por completo o anterior: ou o antigo sobrevive como um

elemento do novo - ...s vezes um elemento inconfessado e meio

consciente - ou os dois persistem lado a lado, incompatíveis Jogicamente, mas aceitos contemporaneamente por indivíduos diversos ou

até pelo mesmo indivíduo-.` Portanto, seja através de exemplos concretos como de interpretações gerais, Freud deu a Dodds um modo de

ver e de fazer leituras surpreendentes a partir de textos familiares.
De vez em quando, a psicanálise não apenas tem solucionado m

térios históricos mas descoberto que o mistério é intrigante e ple

de possibilidades explicativas. A biografia de Ludwig van Beethov

por Maynard Solomon é um exemplo desse tipo de trabalho detetives

e imaginativo. Beethoven passou a sua vida acreditando obstinad

mente, e despendendo uma energia valiosa para tentar provar que nã

havia nascido em dezembro de 1770, mas em dezembro de 1772.

seu certificado de batismo, que ele pediu aos seus amigos que enco

trassem mais de uma vez, declarava inequivocadamente a data ant

rior, 1770, como sendo a correta. Mas Beethoven recusava-se a aceita


a evidência cabal posta diante dele. Ern 1977, Solomon, um music

logo totalmente treinado na forma freudiaria de pensar, resolveu

enigma através de um discernimento psicanalítico chamado romanc

familiar. Esta fantasia, amplamente difundida, em especial entre o

jovens, imagina um dos pais como sendo apenas um pai postico, o
o pai como sendo o padrasto, e o verdadeiro pai como alguém impor

tante e nobre. A função psicológica dessa ficção, parcialmente incons

ciente, é dar um aval aos impulsos agressivos da criança e, principal
mente quando a vítima é um dos pais, do mesmo sexo que a criança

permitir o acesso ao outro, que é adorado, mesmo que apenas ri

imaginação amplamente recalcada. Os biógrafos anteriores de Beetho

ven certamente não desconsideraram o seu empenho irracional em

estabelecer uma data de nascimento imagin ria para si mesmo, e

experimentaram uma série de explicações superficiais e implausíveis.

Solomon, equipado para a tarefa com instrumentos intelectuais mais
aguçados, ligou a defesa obstinada de Beethoven de sua fantasia a

uma infância desalentadora, arruinada pela irresponsabilidade, desoz

nestidade e alcoolismo de seu pai. Beethoven, pode-se pensar, tirilba
boas razões conscientes para detestar o seu pai. Mas sua fantasia, que

se tornou um ingrediente permanente e ativo em seu car ter, foi além

de urna crítica racional ou de um desapontamento, para ligar-se a

desejos e ódios ocultos que Beethoven nunca p"de satisfazer ou exorci#

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zar. Assim, as percepções fretidianas de Solomon dão um sentido

agudo ao que havia parecido aos seus precursores um delírio estranho

ou uma mistificação egois ica.17

Com igual penetração, Solomon teve sucesso em solucionar um

drama doméstico desagrad vel, extremamente intrigante que obscureceu os últimos anos de Beethoven: os seus esforços infatig veis para

garantir a guarda, quase raptar o seu sobrinho Karl, filho do seu falecido irm5o Caspar. Ele difamou Johanna van Beethoven, a m5e do

menino, junto aos seus amigos e ...s autoridades; recorreu aos tribunais

diversas vezes, exp"s-se no processo a interrogatórios embaraçosos e

penosos, tudo para ganhar a guarda de Karl. Repetidamente, referia-se

a si mesmo como se fosse o pai do menino, como se através da repetição pudesse converter a verdade metafórica em literal. Johanna van

Beethoven, muito menos relacionada do que o seu famoso cunhado, e

...s vezes uma mulher impudica, vulner vel a acusações de uma morafidade que deixava um pouco a desejar, contra-atacou, tendo o seu

filho decididamente ao seu lado. Esse estranho duelo familiar arrastouse durante anos e foi pontuado pelas fugas de Karl do seu sufocante

tio até culminar, não muito antes da morte de Beethoven, numa tentativa de suicídio.


Esse caso desagrad vel gerou uma quantidade enorme de um

firme moralismo ao lado de um número não inferior de firmes apologias; tem sido visto corno uma prova da inadequação, de Johanna van

Beethoven como mae, ou, inversamente, como um sintoma tr gico do

colapso mental de Ludwig van Beethoven. Solomon, trabalhando a

partir do ditado psicanalítico de que uma paixão excessiva assinala

um conflito subjacente no qual urna paixão oposta est operando em

segredo, argumenta persuasivamente que Beethoven estava defendendo-se contra os seus fortes desejos eróticos em relação ... sua cunhada

e que mascarou a hostilidade em relação ao seu sobrinho. Essas

propostas, e outras que aparecem na biografia de Solomon, enriquecem consideravelmente o nosso sentido sobre a vida interior e tempestuosa de Beethoven, e habilmente vão além da sua surdez para

exibir algumas das causas obscuras que o tornaram impredizível, rude,

desorganizado, uma pessoa desleixada bastante familiar para os seus

contemporâneos indulgentes e atemorizados. Solomort é modesto o suficiente para nunca afirmar que fez mais do que tocar no segredo supremo de Beethoven, a sua genialidade enquanto compositor. Mas nos d

um Beethoven mais digno de

que os seus biógrafos que o idolatram, e

tinham dado antes dele.
li!
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crédito, mais verdadeiramente humano

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es o os mais eruditos,
Outra biografia psicanalítica que pertence ao meu cat logo de

sucessos é o estudo de Frederick Crews sobre HawthornearTguhmeesnintos

,o,l the fathers, publicado em 1966. Crews explícita o seu

repreendendo" os biógrafos anteriores de Hawthorne por confiarem

em---umapsicologia simplista que olha apenas para a superfície", utilizada em grande medida para transformar Hawthorne em um moralista respeit vel, "chato" ou em um crente piedoso. Ele admite que

se possam citar passagens em apoio ao "que se poderia chamar de

cristianismo rudimentar". Mas, acrescenta, como um bom freudiano,

---obiógrafo é respons vel tanto pelas contradições de seu sujeito como

pelos seus enunciados elevados-. 0 Hawthorne de Crews é assaltado

pela "mania da dúvida" e perseguido pela -ambivalência". 0 que

torna Hawthorne interessante, ele argumenta, não é alguma explicação ímplausível e transcen dental, mas o fato de ele ser "meio dividido,

atormentado"." Crews lê o esmero e piedade, a aparente inocência

nas superfícies liter rias de Hawthorne como estratagemas defensivos,

simultaneamente culturais na forma e pessoais na origem,


0 ganho com essa forma de leitura é acentuado. Crews permanece fiel aos textos de fiawthorne e clarifica muito daquilo que intrigou outros estudiosos. Embora seja um escritor demasiadamente escrupuloso para cair no jargão e use a linguagern técnica parcimoniosamente," retira as suas armas intelectuais inteiramente do arsenal

psicanalítico, principalmente de Freud, e de Sandor Ferenezi, Karl

Abraham, e do Erik Erikson de Young Man Lulher. Isso é a biografia

freudíana no seu esplendor .2" Descobre precisamente o que ~thorne

tinha em mente quando chamou a si mesmo um escritor "que se refu

gia, no limite das suas capacidades, nas profundezas da nossa natu

reza comum, com os propósitos do romance psicológico". que pretende

11 alcançar o núcleo terrível do ser humario-.` É instrutivo constatar a

freqüência com que Crews proclama a sua intenção de levar a sério

os textos que explora,- ou as menores pistas que Hawthorne deixou

para os seus leitores refletirem. Esta é outra contribuição freudiana,

aplicada com sensibilidade: olhar de perto, sem desprezar nada.


Uma questão crítica que Crews não despreza é o fato de que

Hawthorne estava muito ansioso para poder realizar u seu programa

sem hesitações e prevaricações freqüentes. "Sua penetração na culpa

secreta e comprometida não apenas pelas suas ambigüidades célebres

em relação ... técnica mas pela sua relutância e desgosto.- Não poderia

ser de outra maneira: apoiando o seu trabalho "em ampla medida

na sua própria natureza" e "perturbado pelo que descobriti'*,'-"
1 ~) q
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Hawthorne sentia-se compelido a resistir, ou a suavizar, as suas descobertas aterradoras.
Assim equipado, levando "a sério as teorias psicológicas modernas", Crews reinterpreta o "The Maypole of Merry Mount", um "dos

contos mais familiares e aparentemente mais superficiais de Hawthorne". Longe de ser "banal" ou "óbvio", revela-se na an lise de Crews

como um conto erótico bastante inc"modo, no qual "o elemento negado reaparece sub-repticiamente em imagens e alusões", um conto inundado por "sugestões de impotência e castração", enquanto a -superfície narrativa permanece convencionalmente 'pura"'. Portanto, essa

estória bem-conhecida e inócua d acesso ... "configuração secreta"

que instrui as suas tramas, que explora quase todos ---osconflitos

, 22


definíveis de desejo, na verdade, cl ssicos' . Reconhecemos nesse

cl ssico conflito nada mais do que o drama familiar freudiano submerso no inconsciente, só que aflorado, reestilizado, e com as suas paixões

dísfarçadas, na ficção de Hawthorne.
Nos últimos capítulos, Crews trabalha esses discernimentos com

uma impressionante ousadia. Afasta a interpretação geralmente aceita

sobre Hawthorne como um celebrante, suavemente crítico mas em

grande medida chauvinista, de seus antepassados da Nova Inglaterra.

Sua preocupação com a Massachusetts colonial "é somente um caso

particular do seu interesse em pais e filhos, culpa e castigo, instinto e

inibição". 0 que permeia os seus contos históricos, Crews mostra, é

"o sentido de um conflito familiar simbólico escrito em maiúsculas".

Os "puritanos são o lado repressivo de Hawthorne"." Ao procurar

expor os seus ancestrais, Hawthorne acabou por expor principalmente

a si mesmo.
Crews investiga o ato constantemente repetido por Hawthorne

de expor-se em uma an lise cronologicamente aproximada de seus

contos e romances. Ele demonstra a preocupação dominante de Hawthorne com o incesto entre irmão e irmã assim como com o incesto com

conotações levemente lésbicas; com enredos sadornasoquistas, com a

procura de um pai idealizado; com o funcionamento compulsivo de

um superego vingativo, impiedoso, que pune desejos de morte ínipios. 25

Tudo isso em uma atmosfera de ambigüidade, de curiosidade sexual e

de anseios refreados pelo medo sexual.", Esses conflitos inconscientes,

certamente, não estão casualmente lado a lado. São ingredientes essenciais do triângulo edipiano, que Crews acha que é dominante nos perde Hawthorne durante toda a sua carreira liter ria.
sonagens
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A Obra-prima duradoura de Hawthorne, The scarlet letter, permite uma leitura muito similar; Crews a vê como um romance em

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que o desejo libidinal, coexistindo com sentimentos de culpa, deve

combatê-los permanentemente até a M(rte.27 The scarlei letter "resultou, em grande parte, não da imposição de uma sociedade puritana

de ideais sociais falsos sobre os três personagens principais, mas do

seu próprio mundo interno de desejos frustrados-. Hawthorne deixa

os seus leitores "com um conto de paixão através do qual vislumbramos" uma verdade tr gica, "a terrível certeza de que, como Freud

colocou, o ego não é o mestre na sua própria casa". Isto não quer

dizer que Crews despreza o cultural em favor do mundo psicanalítico:

o que o interessa sobremaneira quando relata os elementos ocultos na

arte de Hawthorne é de fato ---aconjunção dos temas sexuais e sociais". Ele se move, durante todo o tempo, habilmente entre a biografia e a história, a mente e a cultura. A visão de Crews do homem

enquanto animal cultural equipado tanto com um potente inconsciente, quanto com uma capacidade igualmente potente para aprender

do mundo e tentar domin -lo, é congruente com a teoria psicanalítica

da mente que desenvolvi nestes capítulos?'


A tentativa mais sistem tica, mais qualificada intelectualmente,

para tornar convincente o uso da psicanálise na história, e que, ao

mesmo tempo, insiste na sua particularidade e na sua abrangência, é

provavelmente a obra Entertaining Satan, de John Putriam Demos, um

estudo sobre a bruxaria no século XVII na Nova Inglaterra. Os delírios das bruxas, de suas vítimas e de seus juízes estavam assentados

em bases sociais, em expressões intitucionalizadas, e baseavam-se em

crenças gerais e raramente questionadas. Ainda assim os conflitos

mentais que deram lugar a suspeitas, acusações, confissões, a atos de

vingança e expiação, foram experiências individuais, Demos trabalha

habilidosamente para separar, e simultaneamente combinar, esses domínios público e privado, as marcas respectivas da neurose particular

e das tensões comunit rias, que juntos constituem o seu tema. Para

exibir e dramatizar essa multiplicidade necess ria de perspectivas,

Demos dividiu o seu livro em quatro seções: biografia, psicologia,

sociologia, e, no final, história, para assinalar a cronologia dos eventos mentais e públicos como a ascensão e o declínio de uma curva

de perseguição."
0 estudo de Demos apóia-se solidamente no seu controle seguro

sobre as formas tradicionais de escrever a história colonial americana.


16 1

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Mas é, certamente, o seu comprometimento inovador com a psicanálise,

que alterna ecleticamente as diversas escolas psicanalíticas, que se

sobressai e que causou as discussões mais intensas, e elas são de

particular interesse para estas p ginas. Nunca se afastando do elenco

de seus personagens, Demos joga sobre eles os seus holofotes psicanalíticos, como histeria de conversão, conflitos adolescentes, tendências exibicionistas, raiva narcisista, projeção ou defesas correlatas

contra impulsos problem ticos, para dar conta do comportamento

que aparece aos contemporâneos como sendo desviante e muito perigoso. E, com grande efic cia, gira essas luzes para as vítimas das

bruxas e de seus perseguidores. Em um aspecto, ao conceder ... psicologia apenas uma seção em quatro, a estratégia imparcial de Demos

trabalha contra ele. Pode-se argumentar que ele poderia ter encontrado uma solução formalmente mais elegante, mas o que importa é

que a psicologia instrui todos os quatro aspectos da história antiga de

Massachusetts que ele escolheu para examinar. As duas primeiras

contêm perfis psicológicos substanciais e minuciosos das bruxas, e

nas duas últimas, devotadas ... experiência coletiva através do espaço

e do tempo, Demos conscientemente retorna aos casos individuais,

...queles fragmentos da cultura simultaneamente únicos e típicos. "Biografia, psicologia, sociologia, história", assim ele conclui suas observações program ticas, "os quatro lados da bússola do estudioso, quatro

perspectivas que examinam um único campo da experiência passada.

Cada um deles captura urna parte, porém de nenhuma maneira, o

todo", mas juntos, embora as conexões estejam longe de ser suaves

e a tarefa seja "penosa", a experiência da história total aparece no

horizonte: "Ver tudo isto a partir de lados diferentes é mover-se, pelo

menos, de alguma maneira rumo a uma compreensão completa e definitiva"." Isso, parece-me, são pistas atraentes e prudentes na direção

de uma ambição apropriada para a história psicanalítica, enquanto sua

contribuição potencial para a busca do historiador pelo todo.
3. A história total
ma história total é mais antiga, por v rios séculos,

A aspiração . a u ira forinulação expressa. os ingredientes de qualdo que a sua primei

quer programa para apoderar-se da essência completa do passado, que

sintetizasse as descobertas circunscritas de estudiosos a partir de

muitas monografias e muitos arquivos, naturalmente varia de acordo

com a definição que cada historiador d sobre o que ela é e sobre o

que . e mais relevante e que, ... sua luz, merece ser incluído no seu rico
162
cen rio. Se ele crê que o mundo é movido principalmente pela mão

da Providência, pela força da inovação tecriológica, pelas pressões do

inconsciente. estas irão determiriar os contornos da sua história total

e os materiais que, em última an lise, ele acha que merecerão ser

incluídos nela. Com certeza, o ideal não pode racionalmente implícar

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uma apresentação exaustivamente detalhada de cada minuto que compoe um evento ou uma epoca, em todos os aspectos de seu meio e

em todas as suas precondições que recuam até as brumas de tempos

imemoriais. Uma história total da Batalha de Waterloo que registre os

sentimentos, as ações e os destínos de todos os soldados (mesmo pressupondo que tal descrição fosse fisicamente possível) cairia nos absurdos típicos de um colecionador obsessivo: um cat logo, não importa

quão exaustivo, não equivale a uma história abrangente, muito menos

a uma inteligível.


Ao contr rio, o pedido por uma história total tem sido, poi mais

de dois séculos, uma crítica da pr tica histórica oficial, um pedido

por luz e ar em uma atmosfera pedante e abafada, Voltaire. ao argu mentar que "uma eclusa em um canal que junta dois mares, uma

pintura de Poussin, uma ótima tragédia" são "um milhão de vezes

mais preciosos do que todos os anais da corte e todos os relatos de

campanha juntos", estava seguindo o seu 1 . nstinto para a substancia lidade da vida, enquanto instava os historiadores a se afastarem da

hagiografia. da genealogia e das fofocas de salão.:" Um século depois

dele, Jacob Burckhardt achou espaço no seu retrato exemplar da

It lia reriasceritista para o comportamento dos festivais, o reriascimen to da erudição, a posição das mulheres, as carreiras dos literatos, as

fantasias da personalidade, 0 seu contemporâneo próximo, Thomas

Babington Macaulay, ofereceu, no célebre terceiro capítulo da sua

History of England, uma pesquisa empolgante a respeito dos h bitos

culin rios e de viagem dos ingleses em 1685, da etiqueta, da saúde

pública, das atitudes em relação aos pobres, dos letreiros nas estala gens. 0 grito de guerra por uma história total, como viemos a us -lo,

expressa uma certa impaciência com os historiadores que conti 1 nuam

apegados ...s superfícies brilhantes e not veis dos eventos, ... política,

... diplomacia e ...s vidas dos grandes homens. Com certeza, us histo riadores sociais que dominaram a profissão por bem mais de um

quarto de século demonstraram forcosamente que o-, dias de concen tração exclusiva em datas e dinastias acabaram definitivamente. Mas

enquanto o seu trabalho tem forcado novos materiai-, ... atencãe séria

, dos seus colegas historiadores, seria um erro alegar que em consequen1 cia todos nós somos agora historiadoros totais Uma transferência


16-3

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nas preocupações não é o mesmo que a sua expansão. A procura por

uma história total prossegue, e nela a história psicanalítica tem muito

a realizar.

Em 1966, na sua exploração maciça sobre o Languedoc desde o

início do século XVI até o começo do século XVIII, Emmanuel Le

Roy Ladurie deu uma ampla circulação a esse grito program tico. Ele

"arriscou-se", escreveu, "a fazer a aventura de uma história total".

Sua trilha havia sido suavizada por dois poderosos exemplos, os de

Marc Bloch e Lucien Febvre, cuja influência sobreviveu a ambos

através de heranças admir veis como os trabalhos de Fernand Braudel

e os da revista, Annales, que haviam fundado três décadas antes. Le

Roy Ladurie pretendia que a sua tese expusesse "o referencial circunscrito de um grupo hurnano" em todos os seus mundos, sem esquecer

o clima prevalecente e as principais colheitas regionais, os padrões de

migração e as mudanças populacionais, a riqueza rara e a pobreza

endêmica, a resignação impassível e os momentos devastadores de

descontentamento explosivo. Em algumas p ginas inspiradas, em especial naquelas que ele devota ... rebelião sangüin ria de 1580, o

Carnaval de Romans, Le Roy Ladurie até chega a tocar, levemente,

1 32


na "psicanálise histórica' ~ ao aludir ...s fontes inconscientes da sel

vageria que ...s vezes irrompe entre os camponeses do Languedoc após

uma provocação prolongada. Ao guiar-se pela esplêndida Société Modale, de Marc Bloch, ele astuciosamente coloca em funcionamento o seu

cadre limité para delinear o seu relato de acordo com a série temporal. Certamente, pelo menos naqueles dias, Le Roy Ladurie não partilhava o desprezo dos seus colegas por Phistoire événementielle: a estrutura não exclui o desenvolvimento; a an lise é compatível com a

narrativa. Em Les paysans de Languedoc, um historiador total esboçou

uma ampla rede.


Se tivessem vivido para ler o seu livro, os pais intelectuais de Le

Roy Ladurie teriam achado que ele era a realização de seus desejos

mais caros. Afinal de contas, Marc Bloch j se havia aventurado em

domínios da experiência estreitamente an logos: em Les rois thauniaturges, havia transformado um tema especializado em mitologia me

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