Freud para historiadores



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Atualmente, como se sabe, a psico-história assegurou-se de todos os

estigmas de permanência na profissão histórica: participação no programa anual da American Historical Association e nas p ginas da

sua revista oficial, no mínimo em duas outras trimestrais e, certamente, o seu nome question vel. Em 1973, Fred Weinstein e Gerald

M. Platt, dois otimistas entre os estudiosos que deram boas-vindas ao

instrumental freudiano, consideraram como evidente que "tanto historiadores como sociólogos pretendem fazer um uso sistem tico da teoria psicanalítica"." Na verdade, a julgar pela ferocidade de Barzun

e a de Stannard, muitos historiadores competentes temem que o e£ uso

sistem tico da teoria psicanalítica" torne-se demasiadamente familiar

no trabalho do historiador.


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Acredito que, na realidade, muito pouco tenha ocorrido. Inevitavelmente, os mais hostis ... psicanálise têm sido os que se sentem

mais alarmados com a sco istóri . Para eles, é no mínimo algo

ZãO-- 4ist~ó ~i.

que desfigura, talvez uma epidemia incur vel que invadiu o seu ofício.

0 "psicologizar descuidado" de "homens e mulheres confusos que se

autodenominam psico-historiadores", escreveu Kenneth S. Lymi em

#

1978, cresceu como "um cancer que est em met stase por todo o



corpo da profissão histórica".` Contudo, três anos mais tarde, Marcus

Cunliffe avaliou, de uma forma mais cordial e muito mais perceptiva,

a situação. Ao resenhar duas biografias psicanalíticas, ele arrolou nomes previsíveis desde Erik Erikson até Christopher Lasch, como

exemplos da atividade psico-histórica, só para acrescentar que via um

recuo acentuado na "arrogancia sigmundiana". Os psico-historiadores

estavam começando a aceitar que o complexo de Édipo é, em ampla

medida, datado, que a reputação de Erikson estava em declínio, e

crentes proeminentes estavam publicamente se tornando apóstatas, e, o

mais esclarecedor de tudo, "historiadores respeit veis", como Jacques

Barzun e Geoffrey Stone, haviam expressado um "ceticismo acentuado", enquanto Lawrence Stone chamara a psico-história de " rea

de calamidade pública". A partir dessa perspectiva, Cunliffe concluiu,

soando um pouco, mas apenas um -pouco, como David Starinard, que

a 11 psico-história começa a aparecer como uma idéia que teve a sua

época e acabou"."


Isso define para mim, com bastante adequação, o humor dominante e permanente da profissão histórica. As publicações competentes, e ...s vezes impressionantes, de historiadores que reconhecem abertamente o seu débito para com a psicanálise têm causado pouco dano

... armadura de seus colegas. De fato, todos esses endossos ardorosos

e repúdios furiosos não conseguem esconder a inacessibilidade essencial do ofício ... psicologia freudiana, uma inacessibilidade ainda mais

marcante fora dos Estados Unidos entre os historiadores da Inglaterra,

França, Alemanha ou It lia. Em 1967, G. Kitson Clark j havia prevenido os seus colegas historiadores vidos em emprestar as idéias ou

os métodos de outras disciplinas que, enquanto em tempos passados

a zoologia e a antropologia haviam fornecido alguns "exemplos um

tanto desagrad veis" de "absurdos inqualific veis", agora "a psicologia, provavelmente, ocupara o seu lugar de ciência mais aberta a abusos"." Sem dúvida, ele estava pensando nos psico-historiadores.


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-1

#


A resposta ao livro de John Demos sobre bruxaria em Massachusetts no século XVII serve como um exemplo instrutivo de toda

essa defensiva triunfante. Entertaining Satan: witchcraft and the culture of early New England, um estudo ambicioso e bem-feito, que

procura apreender o seu fascinante tema recorrendo ...s fontes da biografia tradicional, da sociologia, da história social e da psicanálise,

teve uma acolhida muito favor vel - exceto em relação ... parte psicanalítica, um elemento constitutivo e indispens vel do argumento de

Demos, que os resenhistas acharam confusa ou infeliz.` Em poucas

palavras, a psico-história é bastante visível, mas principalmente como

alvo. Sem dúvida, algo de sua notoriedade é o resultado indesejado

dos defeitos que comprometem a maior parte do seu trabalho - a

sua tendência para um reducionismo, sua linguagem freqüentemente

b rbara, sua maneira descuidada em relação ...s provas. Críticos do

que ocorre na forma freudiaria de historiografia podem encontrar bastante material no modo como tem sido escrita. Mas quaisquer que

sejam o seu desempenho ou as suas possibilidades, a psicanálise permanece, na companhia dos historiadores, uma estranha, cercada de

desconfiança, como uma recém-chegada exótica e provavelmente contagiosa. A penetração freudiana nas fortificações defensivas do historiador permanece marginal; portanto, o ardor incans vel dos contraataques é mais um sintoma do que uma resposta necess ria. A invasão

freudiana foi contida.


Não compromete de nenhuma forma o meu argumento que o

vocabul rio freudiano tenha se tornado uma moeda corrente em nossa

época, mesmo entre os historiadores que se sentiriam chocados ao

descobrirem que de alguma forma devem algo a Freud. Pois a moeda

est adulterada. Os termos menos técnicos do vocabul rio psicanalítico - conflito, projeção, recalque, e mesmo ambivalência - tornaram-se quase lugares-comuns. Com isso, os entendimentos radicais, os

significados precisos, penetrantes que eles incorporavam foram aplainados ou convenientemente esquecidos. Ninguém pode questionar a

observação de Keith Thomas de que conceitos psicanalíticos "tornaram-se parte do discurso culto atual", e de que as idéias freudianas,

"freqüentemente vulgarizadas a ponto de não serem reconhecidas, entraram, sem dúvida, na consciência coletiva e tornaram-se parte do

que a maioria de nós vê como 'senso comum' ". Mesmo um historiador tão impaciente com qualquer tipo de teoria como Richard Cobb

pode falar do "desejo de morte" de Robespierre sem sentir a necessi 1


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dade de explicar o termo; mesmo G. R. Elton refere-se com candura

...s dúvidas, ...s atitudes e aos pressupostos "inconscientes" do historiadorY Certamente Freud não foi o primeiro a descobrir, nem possui

o monopólio das categorias psicológicas como a de desejo de morte

ou a de inconsciente dinâmico, mas o modo f cil, descuidado, com

que historiadores como Cobb e Elton utilizam a terminologia psicana#

lítica sugere quão seguro é o lugar deles no universo freudiano que

todos nós, com maior ou menor relutância, habitamos atualmente.
Essa conquista do discurso culto tem sido um ganho problem tico para a psicanálise. A posição freudiana no final do século XX

lembra de algum modo, embora não seja certamente idêntica, a de

Newton nos meados do século XVIII. Naquela época, d'Alambert,

provavelmente o newtoniano mais conceituado da França, queixava-se

da obtusidade de seus contemporâneos em relação ao maior cientista

que j existiu. Ele disse que quando Newton formulou as leis naturais sobre a gravitação nos seus Principia, os s bios franceses inicialmente zombaram dele porque recorria ...s qualidades ocultas, medievais, h muito ultrapassadas; meio século mais tarde, quando incorporaram as leis de Newton ao seu trabalho científico, a maioria achou

que elas eram tão óbvias e h tanto tempo estabelecidas que agora se

inclinavam a questionar a originalidade newtoniana. Newton, certamente, teve mais sorte do que Freud: não havia nenhum modo de

enfraquecer as suas descobertas formid veis. Aceit -las significa adot Ias completamente. A recepção - ou, melhor, a difusão - da psican lise tem sido menos inflexível. Freud profetizou uma vez que os

americanos tomariam conta da psicanálise e iriam arruin -la. Nenhuma dessas predições realizou-se completamente. Mas sua profecia permanece como um alerta. Se Freud nos obriga a todos, historiadores

ou não, a viver em seu mundo, a ver a mente e o seu funcionamento

a partir de uma nova visão, a descobrir coisas sobre nós mesmos que

provavelmente gostaríamos de ignorar, o pagamento recebido por ele

é o silêncio, a hostilidade, a apreensão err"nea, Pode-se argumentar

que a última tem sido a mais prejudicial.
i
o
2 Insultando Freud
0 fracasso da psicanálise em atrair a imaginação dos historiadores é suficientemente evidente, não apenas devido ao grande volume
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#


de historiografia feita sem o seu auxílio ou contra as tendências freudianas. ]É dramatizada, um pouco paradoxalmente, no trabalho de historiadores, alguns deles proeminentes e destacados, que parecem conhecer algo sobre o instrumental freudiano, a confissão de ach -lo

em parte relevante, embora o modelem voluntariamente de acordo

com os seus próprios objetivos. Considerem o estudo altamente apreciado e interessante de Randolph Trumbach sobre as relações de parentesco e domésticas dentro da aristocracia inglesa do século XVIII.

Trumbach, ao pretender decodificar os materiais mais íntimos, sentiuse compelido a discutir o tipo de psicologia sobre o qual iria basear-se,

e decidiu que "sempre que senti a necessidade de uma teoria p!

lógica, conscientemente ignorei os modelos freudiano, e psicanalítico .

Trumbach aceita que Freud tenha produzido "algumas informações

úteis sobre a história da i


nfância, mas", acrescenta, "penso que, em

geral, não devemos nos comprometer com uma estrela cadente" , A

teoria freudiana aparece a Trumbach como . especialmente inapropriada" para estudar a educação infantil "desde que é profundamente

indulgente na sua atitude em relação ...s crianças". Conclui que para

Freud a infância "é, pela sua própria natureza, uma doença". Em

vez dela, Trumbach prefere a "teoria do vínculo" de John Bowlby,

que recorre ... teoria das relações objetais e não se utiliza da noção

freudiaria de que a intimidade com os outros seres humanos surge

11 como uma conseqüência secund ria da satisfação das pulsões oral,

anal e sexual", Melhor ainda, Bowlby "nunca pressupõe que o estado

desordenado de um adulto é o reflexo de um estado anterior". Finalmente, as idéias de Bowlby gozam, para o historiador, "de certas vantagens técnicas". Antes de mais nada, Freud "interessava-se por pul

11

sões instintuais internas e não observ veis , enquanto, ao contr rio,



Bowlby "observa comportamento externo, aquilo que o historiador

encontrar descrito em suas fontes". Sem dúvida: "Para Freud o fundamental era a fisiologia, para Bowlby é o comportamento social", e,

acima de tudo, "o historiador é um sociólogo e não um biólogo"."
Tudo isso, para ser conciso, é puro absurdo. Deixando de lado

o floreio retórico de Trumbach de que Freud viu a infância como

uma doença, o que afronta uma argumentação séria, Freud, longe de

ser indulgente com o jovem, descobriu e celebrou a riqueza, a excitação e a diversidade freqüentemente dolorosa de sua vida interior.

Mais do que qualquer outro psicólogo na história, forneceu provas

científicas para o ditado poético, excessivamente citado de Words

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worth, de que a Criança é o pai do Adulto. Mas não é tudo. Tratar

Freud como um fisiólogo é desconsiderar o esforco que durou toda a

sua vida em encontrar explicações psicológicas para fen"menos psicológicos; e argumentar que Freud se interessou por pulsões inobserv veis sem acrescentar que passou anos descobrindo meios para torn #

Ias observ veis é recorrer a um enunciado verdadeiro com o objetivo

de distorcê-lo.
A compreensão de Trumbach a respeito de Bowlby não é melhor

do que a que tem sobre Freud. Ela violenta Bowlby ao desloc -lo do

seu contexto natural dentro do espectro do pensamento psicanalítico,

vendo-o praticamente como um comportamentalista. Ninguém poderia

ser mais preciso do que John Bowlby ao especificar os seus acordos

e desacordos com o freudistrio ortodoxo: ele rejeita principalmente o

modelo freudiano de energía psíquica e a sua teoria dos instintos,

mas insiste numerosas vezes, nas suas v rias obras sobre privação

materna, que "meu referencial ao longo desta pesquisa tem sido o

da psicanálise".` De fato, o referencial freudiano est patente em

todos os capítulos do seu trabalho. Além disso, Bowlby pressupõe explicitamente que um estado adulto de desordem é um reflexo de estados anteriores.` j é suficientemente ruim agredir Freud com fragmentos mal compreendidos de seus próprios escritos, mas é talvez

pior fazê-lo. a partir dos escritos daqueles que, não importa que idéias

11 não ortodoxas" possam ter, afirmam de forma infatig vel, sincera e

precisa o seu débito em relação a Sigmund Freud.


Esses erros são relevantes. Podem defender o historiador contra

as doutrinas desagrad veis da psicanálise, mas não contra a crítica

motivada pela sua falta de precisão. Fretid. e suas concepções tornaram-se propriedade da história moderna das idéias; o historiador que

as trata sem rigor suscita questões embaraçosas a respeito da sua

capacidade de obter outras corretamente. Quando lemos, na história

da percepção burguesa de Donald Lowe, que "Freud insistiu em que

não havia nada inconsciente além do id dentro da pessoa", esse erro

crasso, indubit vel - a maior parte do ego e do superego são também inconscientes para Freud - faz com que o leitor imagine se

Lowe era realmente o homem talhado para lidar com um tópico tão

difícil assim."


Às vezes a adulteração de Freud é visível, quase deliberada. Entre as instâncias mais reveladoras na literatura moderna, o estudo

#


monumental de Lawrence Stone sobre a vida familiar inglesa do século XVI ao XIX parece ser o caso mais ilustrativo para se explorar.

0 livro é particularmente pertinente, porque Stone é um historiador

social respeit vel e profícuo em uma rea em que a psicanálise presumivelmente poderia reivindicar um lugar, se é que o pode na literatura histórica. Para tornar o caso mais esclarecedor: não se trata

de um trabalho sobre o método histórico, mas sobre história social e

cultural, justamente sobre o mundo das pr ticas com o qual os historiadores sentem-se mais confort veis.
Ao lidar, como o faz, com a conduta social, a autoridade paterna

e a educação infantil, Stone descobre a impossibilidade de deixar

Freud de lado. E utiliza-se de proposições psicanalíticas em alguns

de seus argumentos. Stone, ao considerar os casamentos tardios e a

baixa taxa de uniões ilegítimas no século XVI na Inglaterra, observa

a título de tentativa que, "se alguém segue.as teorias freudianas", poderia argumentar que esses fen"menos "poderiam levar ...s neuroses

que tão freqüentemente se abateram sobre as tranqüilas universidades

de Oxford e de Cambridge naquele período; poderia ajudar a explicar

o alto grau de agressão grupal existente por baixo da violência extraordinariamente expansionista dos Estados-nações ocidentais daquela

época". Aqui Stone recruta Freud para servir como psicólogo social;

nas suas p ginas sobre James Boswell, usa Freud para escrever psicobiografia. Stone, ao reunir os artigos de Boswell em uma antologia

patética e imunda de 'pecadilhos sexuais cometidos por ele e ao contar o número de vezes que Boswell ficou fora de ação devido ... gonorréia, esforça-se bravamente para chegar a um esboço de diagnóstico. 0 pobre Boswell é transformado em um narcisista e em um

melancólico, oprimido por uma "psicose maníaco-depressiva heredit ria" e por sentimentos de culpa adquiridos, que duram treze anos,

entre os 16 e os 29 anos, ao lutar contra uma "crise de identidade

complexa", contra o jogo e a bebida?'
Poderíamos esperar que um historiador tão pródigo - para não

dizer impreciso - com o vocabul rio técnico fosse grato a Freud,

Mas não é o que ocorre. Stone trata a psicanálise com desdém, Cita,

na sua introdução, quatro teorias emprestadas das ciências sociais,

parcialmente err"neas ou aplicadas inadequadamente, que têm "paralisado" o "estudo histórico sério da família". Duas delas, o funcionalismo de Parsons e as extrapolações da biologia, não são relevantes

aqui. Mas, as outras duas são - pelo menos para Stone - teorias


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inconfundivelmente psicanalíticas. Uma delas é "o pressuposto freudiano de que as experiências orais, anais e sexuais da infância são

decisivas para modelar o car ter, que uma vez estabelecido só pode

com grande dificuldade ser mais tarde modificado". E esse pressuposto, Stone argumenta, "bloqueia qualquer estudo sobre o crescimento da personalidade e da evolução através da vida em resposta ...s

#


influências contínuas da cultura, da família e da sociedade".`
0 segundo pressuposto freudiano que obstrui uma história séria

da família, prossegue Stone, seria o de que 11 sexo - o id - é a

mais poderosa de todas as pulsões e que não se altera no tempo ...

0 drama freudiano, eternamente repetido, do conflito entre id, ego e

superego permanece fora da história e não é afetado por ela". Stone

acha f cil explorar essas noções a-históricas: "Mas de fato a pulsão

sexual não é em si mesma uniforme", uma vez que depende em grande parte de "uma dieta adequada de proteínas e do grau de exaustão

física e de tensão psíquica. Ela também varia enormemente de indivíduo para indivíduo". Além do mais, "sabemos que o superego ...s

vezes recalca, ...s vezes libera essa pulsão de acordo com os ditames

das convenções culturais, especialmente das convenções religiosas".21


Isso é uma leitura err"nea e problem tica. É, certamente, um

truísmo que Freud rastreava o car ter e a neurose do adulto até os

est gios sexuais do desenvolvimento mental e as constelações emocionais da infância. A sexualidade infantil é antes de tudo, apesar das

antecipações assistem ticas de outros pesquisadores, uma descoberta

decisiva da psicologia psicanalítica. Mas Freud não pretendia, ao enfatizar a experiência inicial, desconsiderar, de um lado, a constituição

biológica, e de outro, a experiência do adulto. Disse-o de forma articulada e com freqüência. Insistiu na constituição heredit ria e no

acaso que entendia como sendo praticamente tanto o mundo adulto

como o infantil: "0 acaso determina o destino do homem"." Freud

sempre esteve comprometido com uma espécie de compensação: para

ele, as teorias psicológicas e antropológicas existentes enfatizavam excessivamente o poder modelador do que é inato no homem, da sua

constituição heredit ria, e, contra tais visões que estavam na moda,

explorou as influências ambientais que atuavam sobre a criança, Pela

mesma razão, recorreu a essas mesmas influências, muito precoces,

para contrabalançar o que via como sendo a paixão intensa dos traumas de adolescentes ou adultos. Nunca abandonou a sua orientação

biológica: a sua ênfase sobre as principais pulsões - sexualidade e
37

#


agressão - atestam isso de forma suficiente. Mas, diante de teorias

dogrn ticas sobre características "raciais" inalter veis ou sobre as desordens preestabelecidas da adolescência, passou da natureza para a

formação.
Isso, repito, não significa que ele concebeu o desenvolvimento

sexual infantil como uma camisa-de-força da qual só os adultos poderiam escapar, se é que alguém podia, através de uma an lise longa

e sem dúvida dolorosa. Tão cedo quanto 1905, nos Three essays on

sexuality, que marcaram época, descreveu as novidades radicais que

a puberdade traz para a vida sexual, assinalando que, enquanto o

prazer preliminar na relação sexual é uma elaboração de impulsos

sexuais infantis, 41 o prazer terminal é algo novo", provavelmente Iigado a circunstâncias que não surgem até a puberdade". Nunca duvidou, de fato insistiu firmemente, que atividades mentais como o c lculo racional ou as angústias da consciência - o trabalho do ego e

do superego - estão sob a pressão contínua do que chama simplesmente de "exigências da realidade". Mesmo o recalque do complexo

de Édipo, ele coloca, o mais pessoal dos esforços, funciona, sob a

"influência da autoridade, do ensinamento religioso, da educação, das

leituras realizadas".` A criança est aberta, enquanto cresce, ... adaptação. Portanto, os pontos de vista freudianos, longe de inibirem,

estimulam intensamente "o estudo sobre o crescimento da personalidade". Dão ao adulto tanto a história como a abertura psicológica de

que precisa .25 0 que falta na descrição de Stone é a da psicanálise

como uma psicologia dinâmica do desenvolvimento.


A leitura de Stone sobre as teorias freudíanas das pulsões sexuais

não é menos imprecisa. Para começar, 11 sexo", na forma restrita, tirada do senso comum, utilizada por Stone, não é sin"nimo de energia

erótica, no início bastante difusa, que Freud apreendeu sob o nome

de libido. A libido também não é, na definição psicanalítica abrangente, sin"nimo de id, como Stone parece acreditar; enquanto organização mental mais primitiva da criança, o id abriga todas as pulsões, cuja família de impulsos, contrariamente ao que Stone pensa,

Freud considera como sendo tão potente quanto a sexualidade. Freud

nunca foi um pansexualista. Além do mais, viu as interações, freqüentemente não resolvidas, entre as pulsões ou entre elas e as defesas,

como não sendo de nenhuma maneira unilaterais; o seu resultado não

est de nenhuma forma predeterminado. Isso é o que torna o grande


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i,
psicodrama freudiano que é a civilização tão tenso, tão fascinante e

tão impredizível.


Certamente Freud pensou que algumas das pulsões, como a fome,

são muito mais imperiosas do que o anseio sexual, exigindo uma satis#


fação muito mais r pida e direta do que as necessidades eróticas. Era

apenas, por razões que acreditou que poderia explicar, o impulso

mais negligenciado por estudiosos da mente. Mas então, Stone vê-se

em dificuldades com a definição freudiana de sexo; pode falar, como

vimos, de "experiências orais, anais e sexuais", equiparando inadvertidamente "f lico" ou "genital" com "sexual", como se Freud não

tivesse incorporado firmemente a sexualidade pré-genital ao seu esquerna desenvolvimentista. Antes de mais nada, o narcisismo de Boswell, que Stone preza tanto, é uma desordem que se origina de uma

fase muito precoce, nitidamente, pré-genital da sexualidade.


Não estou assinalando esses pontos apenas para mostrar os seus

erros. Se Stone estivesse certo ao afirmar que Freud tratou o instinto

sexual como imut vel entre os diferentes indivíduos, classes e épocas,

então as teorias psicanalíticas não teriam nenhuma relevância para o

historiador; qualquer tentativa de especificar a possível contribuição

freudiana para a profissão histórica seria, muito simplesmente, um

absurdo. Mas Stone est errado. Enquanto médico que tratou,' na

sua pr tica clínica, de uma grande variedade de pacientes - homens

e mulheres, russos e americanos, princesas e donas-de-casa - não é

preciso contar para ele que as pulsões sexuais variam amplamente

entre os diversos indivíduos. Seus casos clínicos, cl ssicos, escritos

com vistas a detalhar o repertório das neuroses, documentam o reconhecimento freudiano, a própria celebração, da diversidade dos impulsos e comportamentos sexuais,

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