Freud para historiadores



Baixar 1.67 Mb.
Página4/27
Encontro18.07.2016
Tamanho1.67 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   27

Essa sensibilidade receptiva ... variedade humana também revela

o tratamento freudiano para com o arsenal das defesas psicológicas

que o homem utiliza para repelir os desejos irresistíveis ou as ansiedades intoler veis: os mecanismos de defesa são, dentro do instrumental psicanalítico, flexíveis, male veis, tudo menos imut veis. Freud

não era um historiador, mas sabia que as mentes humanas, mesmo as

suas mentes inconscientes, modificavam-se ao longo do tempo e diferem de acordo com a classe."' A preocupação com a individualidade, que distingue o historiador, domina todos os escritos freudianos,

tanto os seus artigos metodológicos como os seus casos clínicos. "Re

39

#


calque",' nos conta, "atua de uma forma altamente individualizada".

Assim também o fazem as outras defesas; assim agem as pulsões contra as quais se defendem. Assim, também, a ambivalência, que est

no fundo da maior parte da atividade mental: "A experiencia mostra

que a ambivalência exibida varia enormemente entre os indivíduos,

os grupos ou as raças". A linha de desenvolvimento de uma pessoa

equipara-se a todas as outras apenas naquilo que cada uma delas partilha da constituição geral que chamamos de natureza humana. Cada

indivíduo permanece, em todas as semelhanças inevit veis de família,

para com os seus pares, exatamente isto: individual, unico, impossivel de ser duplicado, e assim, nesta forma particular, interessante.

Freud pretendeu ter descoberto os determinantes psicológicos gerais;

enquanto cientista da mente não podia aspirar a menos. Mas, como

nos advertiu em Civilization and its discontents, qualquer generalização coloca o pesquisador "em perigo de esquecer a coloração multivariada - Buntheit - do mundo humano e de sua vida mental" .27

Um historiador não poderia ter dito melhor.


A forma com que Lawrence Stone lida com as idéias psicanalíticas no seu Family, sex and marriage in England não resultou de

alguma irrupção repentina, invulgar, de um ânimo antifreudiano.

i

Numa coleção de artigos que reunia quase duas décadas de resenhas,



retornou ao ataque: "Nada no registro histórico infirma a teoria freudiana'a respeito de como os diferentes est gios do desenvolvimento

infantil das diferentes zonas erógenas tornam-se focos da estimulaçao

sexual", nem h qualquer tipo de registro que "diminua a importância da sublimação, ou do funcionamento inconsciente através da dinâmica secreta que lhe é própria". Pode-se ler isso como um esforço

significativo e sincero em aproximar a história da psicanálise. Mas

Stone enfraquece, quase que anula completamente tal possibilidade.

Ele acredita que Freud era a-histórico porque alegou que quatro traumas - o desmame, o treino de toalete, a masturbação e o conflito de

gerações na adolescência - eram decisivos para toda a humanidade,

e que sempre o foram. Procurou esses traumas e os descobriu "entre

os seus pacientes, e daí pressup"s que eram universais". Ainda assim,

na realidade, "dependem de experiências particulares que não ocorrem

na grande maioria das pessoas na maior parte do que registramos

sobre o passado, mas foram peculiares ... classe média urbana e culta

da Europa no final da época vitoriana". Os traumas freudianos são,
40
28

portanto, "inapropriados historicamente". 0 anseio em ensinar a

Freud o que ele j sabe parece ser algo difícil de ser contido.
Quando o livro de Stone sobre a família inglesa apareceu em

1977, foi rapidamente alvo de controvérsias, embora eu não tenha

visto nenhuma resenha que tenha optado por criticar esse aspecto

#


particular do seu método. Nem mesmo Alan Macfarlane, que em uma

resenha extensa, cerca de trinta p ginas, procurou demoli-lo, usou

qualquer uma das inúmeras p ginas de que dispunha para comentar

a forma pela qual Stone tratou Freud. Um olhar sobre o próprio

estudo, fascinante e meticuloso, de Macfarlane, sobre o mundo externo e interno do clérigo inglês do século XVII revela que essa omissão

um tanto marcante deve ter resultado de sua perplexidade em relação

a Freud. Ao analisar o "mundo rnental" do seu homem, Macfarlane

tenta apreender o sentido de seus sonhos, anotados fielmente pelo

reverendo Ralph Josselin no seu di rio. Sonhos, Macfarlane observa,

com bastante ousadia, "apontam para as preocupações da mente, e

uma discussão sobre eles parece ser v lida". Mas qual a teoria onírica

que se deveria adotar? Macfarlane é agnóstico sobre o assunto. "Os

estudos modernos sobre o tema dos sonhos sugerem que não são,

como Freud sustentava, sintomas de estados ansiosos subconscientes

ou desejos subliminares, mas o resultado de um tipo de computador

que 'processa' as atividades mentais de modo a descarregar o supérfluo." '9 É verdade que, em anos recentes, psicólogos formularam algumas alternativas possíveis ... teoria freudiana sobre os sonhos, mas

a descrição de Macfarlane dela est errada em todos os seus pontos.

Os sonhos, segundo Freud, não são sintomas, mas um esforço mental para se manter dormindo. Não são a expressão de estados de

ansiedade, uma vez que mesmo esses sonhos conforniam-se ... regra

fundamental freudiana de que os sonhos são condensações disfarçadas e distorcidas de desejos e experiências recentes. Além do mais,

eles não têm nada a ver com a sublimação. Evidentemente, longe de

experimentar a teoria freudiana e ach -la deficiente, Macfarlane descobriu que Freud era um tratante e decidiu evit -lo.


Todos estes exemplos - e eu poderia multiplic -los facilmente

resultam numa enorme recusa. Uma coisa é rejeitar um instrumental metodológico porque não se tem a oportunidade de conhecê-lo.

Uma outra, bastante diferente, é rejeit -lo depois de distorcê-lo. Esses

historiadores tornam as coisas f ceis para eles: ao transformarem

Freud em algo absurdo, não têm nenhuma dificuldade para demons

41
i

#

trar que Freud est dizendo coisas absurdas. Estou longe de pedir



que todas as histórias sejam psicanalíticas. A historiografia é uma atividade social, coletiva, freqüentemente aberta a discussões e ainda

assim a cooperações. Um mero olhar para uma estante de trabalhos

históricos revela uma lista exaustiva de temas e tratamentos. E todos

nós admiramos alguns historiadores - Elie Halévy, Mare Bloch, e

mais uns poucos - para os quais poderia parecer impertinente, no

mínimo absurdo, imaginar que teriam realizado mais na sua profissão se tivessem tido a boa sorte de se submeter a uma an lise ou

a um treinamento psicanalítico.
Por conseguinte, não estou questionando ou de alguma maneira

minimizando a capacidade de um historiador competente, não analisado, em apreender a ambigüidade e as complexidades das situaçoes

históricas ou os motivos mistos e misteriosos dos atores históricos. 0

trabalho deles possui luz própria; seus escritos permanecem mais como

modelos a serem imitados do que como esforços a serem vistos com

condescendência. Mas as percepções de tais historiadores são, por

assim dizer, intransitivas, dependem mais do acaso do talento individual do que do auxílio de uma psicologia fidedigna. E, freqüentemente, mais de um historiador consagrado encolhe os ombros, em

resignação, quando um mapa psicanalítico poderia ter permitido que

prosseguissem. Ao procurar solucionar as controvérsias malévolas que

embaraçavam Woodrow Wilson, quando era presidente da Princeton

University, coin Dean West a respeito da Princeton Graduate School,

Arthur Link, provavelmente o estudioso que mais sabe a respeito de

Wilson no mundo, admite a sua derrota: "As divagações da sua mente ... são impenetr veis". Mas Alexander e Juliette George, que citaram essa observação no seu "estudo da personalidade" de Woodrow

Wilson e o Coronel House, prosseguem e perguntam: "A batalha

frenética de Wilson com Dan West não se torna mais penetr vel se

ela é considerada em termos de uma busca pelo poder e pela liberdade em relação ... dominação posta em funcionamento na sua infância? Poderia parecer que Wilson tomou a insistência de West sobre

a validade de seu próprio ponto de vista como um desafio irritante

... sua autoridade; em algum nível West evocou em Wilson a imagem

paterna; ele experienciou as atividades de West como uma tentativa de domin -)o, e resistiu a elas com toda a violência que havia

sentido uma vez, mas que nunca havia se aventurado a expressar em

resposta ... dominação massacrante de seu pai".-" Essas sentenças con

42
duzem o leitor de volta aos capítulos iniciais do estudo deles, e evocam mais uma vez a raiva impotente da criança edípica, carregada

de culpa pelo seu ódio, e repetindo sempre, inconscientemente, velhas

batalhas e traumas não resolvidos. Aqui, e em seções posteriores e

analíticas do livro dos George, as divagações de Wilson tornam-se

penetr veis. A psicanálise, nunca é demais enfatizar, não é um remédio milagroso ou uma senha m gica; é um estilo instruído de pes#


quisa, que fornece respostas que antes se pensava que não eram disponíveis ou - o que é mais importante ainda -, sugere questões,

que ninguem havia pensado em formular.
3. Uma arena para amadores
É interessante, embora um pouco desalentador, ver como poucos

historiadores têm se ocupado com Freud. É igualmente interessante,

embora um pouco mais consolador, ver o quanto conseguem sem se

ocupar com ele. Pois, repito, não estou dizendo que os historiadores

fracassem em formular questões pertinentes ou profundas antes, ou

na ausencia, da psicanálise. Mas a forma de lidar com motivações ou

causas psicológicas em geral tem sido freqüente e notavelmente descuidada. ExplicaçOes psicológicas cruciais surgem como uma espécie

de último recurso, depois que todas as outras se revelaram desapontadoras. Ao refletir sobre os triunfos da marinha inglesa sobre Napoleão, Elie Halévy rejeita, em sucessão, uma série de explicações disponíveis: o projeto melhor dos navios ingleses, uma disciplina mais

estrita entre os marinheiros ingleses, a superioridade numérica da frota inglesa. De fato, nenhuma delas tem nada a ver com Trafalgar e

com as batalhas gloriosas que a antecederam. Pois, conclui Halévy,

apos a sua pesquisa, que foi uma coisa intangível, a moral, apenas a

moral, que deu aos ingleses as suas vitórias. Os oficiais da marinha

e as suas tripulações desfrutavam de uma "popularidade universal"

no seu país. Protegiam a segurança de todos, e não ameaçavam a

liberdade de ninguém. Apesar de toda a incompetência dos oficiais,

da brutalidade do recrutamento forçado e da espantosa freqüência dos

motins, "na hora da batalha, almirantes, oficiais, e homens reconciliavam-se e caíam sobre os navios inimigos 'como um falcão sobre a

sua presa'. Por que era assim? Qual era o segredo de sua força?

Era que tinham o país atr s de si e sabiam disso"." Elie Halévy,

esse francês conhecedor consumado da Inglaterra do século XIX, atri#


bui dessa forma um resultado material sólido - a vitória no mar a um par de sentimentos e ... sua interação: confiança por parte da

população inglesa, orgulho por parte da sua marinha. Halévy não se

detém em analisar as origens desses sentimentos. Registra-os e prossegue. Mas eles constituem a sua explicação.


De novo, ao falar das atitudes públicas em relação ... pobreza

dos camponeses franceses no final do século XIX, Eugen Weber

assinala: "A sensibilidade pública aumentou junto com o crescimentó do nível de vida, Em um mundo onde ricos e pobres parecem

prescritos por uma ordem predeterminada e inalter vel, a principal

questão para a maioria tem sido a da sobrevivência, e a injustiça

econ"mica no sentido moderno não afeta a consciência coletiva. Uma

vez que as necessidades elementares começam a ser satisfeitas, surge

o tempo de reivindicar-se mais: melhores condições em geilal e de

trabalho. Tempo, sobretudo, para considerar possibilidades até então

insuspeitadas, que começam a ser sugeridas pela cidade, pela escolaridade e, certamente, pelos partidos polítiCOS11.3' Essas generalizações

parecem ser suficientemente plausíveis, mas os processos psicológicos

implícitos na descrição de Weber não são de nenhuma maneira

evidentes por si sós. Ele parece pressupor que h uma certa quantidade de energia que um ser humano pode investir em suas fantasias,

desde que as circunstâncias as tornem disponíveis. Uma vida de trabalho penoso, sem descanso, raramente d lugar seja a um radicalismo

1 .

realista, seja a esquemas utópicos. Sonhos de melhorar a propna sorte



não surgem automaticamente, vindos do nada. Requerem um fundamento otimista, um sentido de abertura, ou pelo menos de uma abertura futura, e alguma corporificação verbal concreta - urna especie

de divisa ou programa em torno do qual as fantasias desejantes

possam ser aglomeradas - antes que uma mudança dr stica para

melhor possa ser até acolhida. Não estou sugerindo que Weber esteja

errado, ao contr rio, acredito que esteja, no geral, certo. 0 século

sobre o qual Weber escreve viu um aumento crescente no exercício

público dos sentimentos de culpa, naquilo que veio a ser conhecido

como consciência social, tanto na sua formulação religiosa como

secular, um superego cultural traduzido em criticismo cultural, pesquisa sociológica e legislação reformadoraP A mobilização da esperança, descrita por Weber, foi parte de um fen"meno mais amplo,

uma mistura de uma responsabilidade recentemente sentida e de expectativas solidamente fundamentadas. Um ponto de vista influen

44
ciado pela psicanálise, sobre esse fen"meno provavelmente não teria

alterado as conclusões de Weber, mas poderia ter aguçado as suas

percepções e tornado seu argumento devidamente mais complexo. A

maior parte do que chamei de mobilização da esperança funcionou

fora do domínio da consciência.
#

Naturalmente, nem todos os historiadores são completamente

inconscientes sobre os motivos e sentimentos dos atores históricos;

pelo menos, algumas das suas formas de psícologizar exibem um grau

de an lise informal. Um exemplo instrutivo é o livro de Malcolm 1.

Thomis sobre as respostas ... Revolução Industrial. Ele escreve, ao

discutir a convicção presente entre os manufatureiros ingleses de que

os problemas gerados pelo sistema industrial poderiam ser resolvidos

através de um hurrianismo paternalista: Isto foi uma idéia ou ideal

que continuou a perseguir a imaginação e a sugerir um modo possível

de sair do dilema da disputa trabalho-capital. Os empregadores poderiam ter gestos mais gentis em relação aos seus trabalhadores e de

um modo ou de outro estabelecerem com sucesso uma relação de

trabalho tão harmoniosa que todos os problemas poderiam ser solucionados no local, informalmente, e o Estado nunca precisaria intervir.

Foi uma noção" - aqui Thomis insere sua an lise - "que se apoiou

firmemente para a sua realização em uma visão otimista sobre a natureza humana e na boa vontade e no altruísmo dos indivíduos para

agirem generosamente sem coerção legal. Tal -visão" - e aqui est

34

o veredicto de Thomis - "não era justificada".


Supondo por um momento que essa generalização seja adequada,

o que ela exibe é a psicologia de senso comum funcionando na história; a an lise baseia-se em pressupostos não testados. 0 otimismo

resoluto, infundado, detectado por Thomis, parece-me ter sido um

composto formado por desejos e ansiedades parcialmente inconscientes: por noções auto-indulgentes que desfilam como expectativas complacentes, ligadas a uma boa porção de denegação - ambas são defesas contra as realidades diaflemente presentes diante dos próprios

olhos dos industriais, defesas mobilizadas não apenas para engordar

as suas bolsas mas também para aliviar as suas consciências.


Sem dúvida, a psicologia é um instrumento inseguro, tão perigoso para o historiador que o manipula quanto o é para o desaventurado tema histórico sobre o qual é testado. Esta dupla face aparece

na descrição de Donald 1. Olsen sobre os subúrbios de Londres, no


45
li

#


século XIX. "0 que os vitorianos desejavam era privacidade para a

classe média, publicidade para as classes trabalhadoras e segregação

entre ambas. 0 meio ideal para a privacidade individual e familiar

era a vila suburbana ocupada por uma única classe. Ali a respeitabilidade burguesa podia florescer ao m ximo." Era a espécie costumeira de respeitabilidade: um espet culo desalentador. "Os subúrbios que

tiveram maior sucesso foram aqueles que eram mais suburbanos, isto

é, mais-insípidos, mais uniformes, com o menor número de instituições culturais ou sociais, uma vez que assim ofereciam as menores

oposições para aqueles ligados ao lar." A conclusão de Olsen é dificilmente inesperada: "Tédio era o preço que se pagava de boa vontade por uma suspensão das tensões urbanas. A segregação social simplificava os problemas de comportamento, gasto e crenças: fazia-se

simplesmente o que os vizinhos estavam fazendo"."


Isso é psicologia como s tira; espirituosa e, como o resto do

livro de Olsen, instrutiva. Mas a inter-relação entre a an lise histórica

e as implicações polêmicas torna-se um duelo no qual a polêmica deixa

de lado a an lise. Olsen d -se conta de um contraste entre o alvoroço

da cidade e a quietude do subúrbio, um conflito entre as exigências

culturais e o relaxamento doméstico, que gera uma disposição para

pagar o preço do conformismo a fim de se ter a recompensa da segurança. Certamente, este retrato é esclarecedor e pelo menos em parte

verdadeiro. Mas uma psicologia mais penetrante poderia ter moderado, de fato suprimido, em grande parte as suas características satíricas. Pois poderia ter levado Olsen a preocupar-se com a desordem

subterrânea dessas pessoas medianas, medíocres: poderia ter sido o

alto preço a ser pago pelo funcionamento de sua rotina, o patético,

amplamente oculto deles próprios, de procurarem segurança entre os

que pensavam de forma igual, a concentração quase fan tica sobre os

prazeres familiares em relação aos quais o entretenimento público

ou a vinculação de qualquer espécie eram apenas uma distração se

não fossem um perigo - em poucas palavras, a ansiedade que espreitava por tr s dessas escolhas filistéias aparentemente livres. Talvez seja uma pena para a s tira. Ainda assim: enquanto visão psicanalítica desses burgueses, desesperadamente respeit veis, poderia ter

tornado a descrição de Olsen menos divertida, mas poderia tê-la feito

literalmente mais humana.
Isso não significa que todos os historiadores tenham sido ingenuos ou inconscientes sobre a sua psicologia. Georges Lefèbvre, um
46
1
dos autodidatas mais not veis entre os historiadores e um dos mais

destacados estudiosos sobre a Revolução Francesa, elabora a sua percepção dos motivos e das conduías humanas a partir de sociólogos

como Émile Durkheim e Maurice Halbwachs, e de uma leitura dili#

gente, introspectiva, das massas de testemunhos que deixaram camponeses, multidões e líderes da França revolucion ria, testemunhos que

Lefèbvre conhecia tão intimamente como ninguém o fizera antes. Simpatizante da esquerda, relutante em denegrir os atores mais debochados e excêntricos do est gio revolucion rio, mergulhado nas riquezas

empoeiradas e escondidas dos arquivos das províncias, Lefèbvre construiu uma sequencia invariante de incentivos para a ação, que se

assemelha em muito com o conhecido esquema frustração-ódio. Inseriu-o adequadamente nas suas an lises sobre os motivos que impulsionaram os parisienses a tomarem a Bastilha, os camponeses a saquearem os castelos, os provincianos exaltados a difundirem boatos sobre

uma invasão ameaçadora de salteadores. Lefèbvre certamente viu esses

atores mais viva e perfeitamente do que qualquer um dos seus precursores, cujo trabalho muito freqilentemente replicou as supersimplificações e as caricaturas que o período revolucion rio tão facilmente

provoca. Embora a sua visão não fosse completamente imparcial, dada

a sua posicão política e os votos concedidos ... Terceira República

deixarem traços na sua forma de lidar com os construtores da Primeira, o ganho inerente para a psicologia histórica foi marcante na

sua visão emp tica e esclarecida.
Mas foi incompleta. Aquela sucessão de impulsos que Lefèbvre

descobriu era uma progressão simples, predestinada, de atitudes mentais. Ela começou com o medo, que gerou uma reação defensiva, que

por sua vez despertou uma necessidade irresistível de se vingar nos

11 outros". Foi apenas em um artigo famoso sobre as multidões revolucion rias que Lefèbvre refinou essa seqüência e introduziu algumas

nuances observadas agudamente; aqui e ali, no artigo, reverberam

ecos fracos que poderiam ter-se originado do instrumental fretidiano.

Na procura da "mentalidade revolucion ria coletiva" Lefèbvre notou

que ela era formada inicialmente por atos mentais de generalização,

de abstraçao ou - o que é equivalente - de simplificação da expe 11

riência. 0 produto necess rio foi o "tipo humano , uma figura p lida

e esquem tica que, especialmente, em épocas de ebulição emocional,

serve como um substituto para a própria percepção. Os revolucion rios construíram heróis e vilões, idealizaram uns e os dotaram de


47

#


todas as virtudes, vilipendiaram outros e os transformaram em exploradores desavergonhados. Os psicanalistas chamam essa modificação

tão dr stica e conveniente de "cisão" e a vêem como um afastamento

de modos mais adultos de se perceber o mundo. Era o que ocorria

aqui: o humor que Lefèbvre detectou e um composto de esperança,

de idealismo e de uma grande dose de ansiedade - inquiétude; d

origem a comportamentos que parecem inconsistentes mas que obedecem a sua lógica interna, própria e rígida. Grandes expectativas

são insepar veis do jugo de convicções apaixonadas que, se chegarem

a traduzir os seus desejos em realidades, então o inimigo deve ser

destruído: "Para alcançar o bem-estar social e assegurar a felicidade

da humanidade, precisa-se apenas suprimir a classe opositora". Longe

de sentimentalizar a mentalidade da multidão, Lefèbvre reconheceu

que um otimismo e um idealismo tão impetuosos produzem o "desejo

de punir, onde se amalgamam o ódio e a fome de vingança"." Os

grupos, não importa quão justa seja a sua causa, são vítimas de suas

paixões.
Essas proposições confi veis sugerem uma explicação psicológica

abrangente. Mas, no final, Lefèbvre confessou que ele mesmo estava

perplexo com o fen"meno da mentalité collective. Não é, perguntou

um pouco desamparado, pelo menos parcialmente, um produto "de

uma espécie de magnetismo fisiológico"? Não é de se admirar que

os leitores de Lefèbvre também tenham ficado perplexos. Na margem

do seu ensaio sobre "Foules révolutionnaires" na Yale Library, alguém escreveu uma pergunta queixosa e impaciente: "Mais, qu'est-ce

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   27


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal