Freud para historiadores



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que c'est la 'mentalité collective révolutionnaire'?". Parece ser uma

pergunta v lida, se não for também generosa, pois embora Lefèbvre

não consiga rastrear o comportamento da multidão revolucion ria até

as raízes inconscientes, e embora fracasse em explicar a ligação que

converte indivíduos em famílias em celebração e em estado de inocência coletiva, no meio de uma agressividade assassina, pelo menos

ofereceu observações que servem como preliminares indispens veis

pata tal explicação,


Como j sugeri, h provas, dispersas mas encorajadoras - pelo

menos para aqueles historiadores que dão boas-vindas e abraçam a

psicanálise -, de que agora se tornou possível ir além dessas preliminares. Estudiosos que se utilizam de Freud não produzem sempre
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grandes desastres, E um deles, E. R. Dodds, produziu uma obra-prima,

The greeks and the ir!-a.'.,*Onal, um modelo de como pode ser uma história psicanalítica; peWicado inicialmente em 1951, manteve a sua

autoridade durante décadas. A emergência de Freud como um guia

possível do passado gerou diversos tipos de pesquisa histórica: psicobiografias altamente densas, an lises de situações e de personagens

excepcionais - as devastações produzidas por revoltas, pragas, e psicóticos em escala mundial. Mas, como Dodds demonstrou adequada#

mente, a psicanálise pode instruir sobre o estudo dos imperativos

morais dominantes, das convicções religiosas difundidas, dos estilos

culturais mut veis, em poucas palavras, sobre o passado 11 no~mal ".

Assim convidou os historiadores a continuarem a escrever a história,

mas de uma perspectiva mais ampla e recompensadora do que a

anterior.

0 uso por Dodds de Freud totalmente bem-informado e astutamente simp tico é também, de forma previsível, completamente adoutrin rio. A partir da sua an lise sugestiva de como a cultura grega

moveu-se da vergonha para a culpa, Dodds enfaticamente declara

sua independência em relação ... psicanálise. 'São espero que essa

chave particular, ou qualquer outra, abra todas as portas. A evolução

de uma cultura é uma coisa muito complexa para ser explicada sem

resíduos em termos de qualquer fórmula simples, seja econ"mica ou

psicológica, guiada por Marx ou por Freud. Devemos resistir ... tentação de simplificar o que não é simples." '7 Ainda assim, esse comprometimento com um pluralismo tanto metodológico quanto explicativo não impede Dodds de adotar, ousadamente, as idéias do psicólogo, que a maioria dos outros historiadores considera intrag veis,

irrelevantes, assustadoras. Não muito antes de sua morte em 1979,

escrevi-lhe perguntando se ele pretendia redigir algo a respeito da

influência que Freud tivera sobre o seu trabalho, e Dodds respondeu

que não tinha a intenção de fazê-lo, mas acrescentou: "Ele ajudou-me

muito a compreender a mim mesmo e um pouco mais ...s outras pessoas, mas isto é um benefício que partilho com milhões de outras pessoas". É um benefício que os historiadores em geral preferiram rejeitar: pelo menos, até agora.
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As alegações freudianas
1 . Uma aparência de convencimento
Admitindo-se que a história possa tirar proveito da psicologia,

por que se deveria aceitar Freud como guia? A resposta para esta

questão inconveniente é muito mais problem tica do que os devotos

da psicanálise estão dispostos a reconhecer. 0 trabalho de E. R. Dodds

e de alguns outros tem a força persuasiva do exemplo, mas a alegação sobre o que a psicanálise pode fazer pelo historiador merece tanto

uma exploração teórica quanto exemplos concretos. Para o psicana-

lista, mergulhado no seu treino, na apresentação de seus casos, na

sua pr tica, nas suas leituras e releituras de casos can"nicos, o instrumental freudiano é totalmente convincente. Ele descobrir provas corroborativas por todos os lados, mesmo no lugar e no momento em

que não estiver procurando por elas: nos seus filhos, na conduta dos

políticos, mas acima de tudo nos seus analisandos a partir de seus

sonhos e associações, silêncios e atos falhos. Ao ouvir os seus pacientes com a atenção livremente flutuante, esse modo cuidadosamente

ref inado de absorver mensagens e de combin -las, o psicanalista tem

acesso a experiências que, uma apos outra, ressaltam o conhecimento

prévio e documentam o gênio do fundador. Pode corrigir detalhes

marginais na teoria psicanalítica, elaborar as suas próprias descobertas, cujo prenúncio est certo de detectar nos artigos freudianos, ou

completar um ponto ou outro na agenda que o mestre prop"s mas

deixou somente assinalado. Pode voltar-se para problemas, como o

das relações objetais primitivas, que Freud só sugeriu. Afinal de contas, a sua ciência, como gosta de dizer, é ainda muito jovem. Mas nos

seus contornos essenciais, o mapa mental dado pelo psicanalista per

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manece muito semelhante ao que Freud desenhou e redesenhou. Vê os



termos da sua ocupação, como regressão, recalque, projeção, recusa,

anibivalência e transferência e o resto do seu vocabul rio profissional,

enquanto descrições precisas dos próprios atos mentais reais. Assim

é tentado a tratar os céticos como ignorantes ou obtusos, certamente

como pessoas que se defendem. As exigencias por mais provas do que

aquelas que têm sido tão freqüentemente dadas atingem-no como perversões, como uma forma de obsessão e angústia. Não est tudo na

Standard edition of the complete psychological works of Sigmund

Freud com ligeiras emendas feitas aqui e ali por comentadores?

0 historiador, de algum modo, para espanto e desalento do psicanalista, raramente est preparado para aceitar essas alegações de

grande alcance. Provavelmente achar as pr ticas psicanalíticas esotéricas, a sua linguagem deplor vel, e suas proposições, para colocar

numa forma caridosa, afastadas de suas pesquisas sobre o passado.

No m ximo, parecem ser codificações do óbvio; em geral, atingem-no

como uma seqüência bizarra de especulações artificiais e profecias

autojustificadoras. Lê a literatura psicanalítica, se chegar a fazê-lo,

com a suspeita crescente de que os freudianos não são melhores do

que religiosos fan ticos, uma tribo de verdadeiros crentes.'

A irrupção da psicanálise no campo de visão do historiador fez

com que o seu embaraço diante da psicologia se tornasse mais agudo.

Jacques Barzun observou que 11 a questão 'Sim, mas que psicologia?' é

importante" - mas, segundo ele, irrespondível.1 Mesmo que o historiador admita para a psicologia um lugar proeminente entre as suas

vias de acesso ... compreensão, ele não est preparado para optar pela

psicanálise como sua psicologia favorita. Por que Freud? Por que não

Jung, que se propõe a explicar as fantasias coletivas e os mitos umversais? Por que não o batalhão de revisionistas - Karen Horney,

Erich Fromiti, Harry Stack Sullivan - que, com suas psiquiatrias

sociais, estão numa posição conveniente, numa proximidade quase

tranqüilizadora com o mundo que os historiadores gostam de pensar

que eles habitam? Por que não os comportamentalistas ou os teóricos da aprendizagem, cujas psicologias se alimentam de experimentação e geram a espécie de informação quantificada que os historiadores passaram a apreciar ou com a qual pelo menos aprenderam a

conviver?

Essas não são questões neutras ou inocentes. Todas as disciplinas a que os historiadores modernos recorrem - antropologia, socio

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logia, economia - estão atoladas em controvérsias; todas levam o

historiador a escolher uma escola em detrimento de outras. 0 historiador que estuda industrialização no século XIX compromete-se com

um tipo de explicação em voga na economia e rejeita as alternativas;

seu colega que investiga a ascensão do protestantismo posiciona-se

em relação ... sociologia da religião de Max Weber. Mas a hesitação

do historiador em relação ... psicologia é muito mais tensa do que a

indecisão normal do estudioso que enfrenta uma disciplina que não

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lhe é familiar; a sua escolha é fortemente carregada de emoção. Ele



exige da psicologia um consenso e uma precisão que nenhuma outra

ciência do homem pode dar, e exige provas que os psicanalistas relutam em fornecer:


A relutância deles, não importa quão bem fundamentada, reduziu acentuadamente a escolha da psicanálise pelo historiador. Eles

podem não estar totalmente conscientes disso, mas freqüentemente os

psicanalistas aparecem como sendo especialmente não cooperativos, ou

pelo menos ambivalentes a respeito do uso da psicanálise por não

iniciados que se aventuram a desvend -la ou adot -la. 0 historiador

que impõe Freud a seus colegas deve concordar desde o início que as

apresentações psicanalíticas são tudo menos acessíveis, mesmo para o

amador mais benevolente. As provas empíricas e experimentais que

apoiam. as proposições psicanalíticas são impressionantes, mas não

alcançam, muito menos persuadem, o historiador profissional, pois

normalmente aparecem em periódicos técnicos altamente especializados, e raramente fazem concessões ao discurso culto em geral. Algo

mais problem tico ainda, que se inicia com o próprio Freud, é que os

psicanalistas têm sido qualquer coisa menos receptivos ... espécie de

comprovação pública que as outras disciplinas admitem como algo

pacífico. Ao escrever para o psicólogo americano Saul Rosenzweig

em 1934, Freud reconheceu, com polidez, algum interesse nos testes

experimentais das asserções psicanalíticas, mas então bruscamente

abandonou a sua cortesia ao acrescentar que via pouco valor neles,

desde que "a riqueza de observações sobre as quais se baseavam essas

asserções tornava-as independentes de comprovação experimental. Mesmo assim, eles não podiam prejudic -las".' Essas milhares de incont veis horas que Freud passou ouvindo os registros de analisandos, esses

brilhantes casos clínicos e as vinhetas iluminadoras que comunicava em seus artigos, os inúmeros discernimentos que seus partid rios publicaram em periódicos analíticos soaram-lhe como demonstra

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ções satisfatórias dos princípios psicanalíticos. Na sua grande maioria,

os analistas posteriores concordaram com ele: acharam que a confirmação experimental era simultaneamente gratificante e desnecess ria.

Com o passar dos anos, o material clínico empilhou-se nas revistas,

monografias e conferências psicanalíticas que enriqueceram ainda

mais a estrutura do apoio empírico. Assim, a maior parte dos analistas permaneceu confortavelmente satisfeita com a sessão analítica enquanto a situação mais apropriada, e totalmente adequada, para testar

as proposições freudianas que eles aplicam diariamente.
Freud tinha algumas razões para o seu ceticismo: mais de um

experimentador, um pouco ingênuo em relação ... psicanálise, realizou

investigações, eliciou respostas e ofereceu interpretações que tinham,

não importa o que pudesse concluir, apenas uma relevância muito

tênue com respeito ...s proposições psicanalíticas.' Mesmo assim, a

carta de Freud para Rosenzweig, freqüentemente citada, prejudicou

em muito a causa freudiaria. Mas Freud não era consistente em suas

reservas. Nas últimas edições da sua Traunideutung, d boas-vindas a

11 observações feitas com sensibilidade" e aos 11 exemplos felizes", em

poucas palavras, ...s "contribuições importantes" que o misterioso esportista, balonista, místico, o psicólogo austríaco Herbert Silberer,

havia feito para uma interpretação científica dos sonhos. Silberer,

impressionado pelas descobertas freudianas memor veis, treinou sistematicamente a si mesmo em auto-observação e posteriormente sujeitou outros ... hipnose de modo a estimar - e afirmar - a validade

da teoria freudiana sobre os sonhos. Isso foi antes da Primeira Guerra

Mundial, bem antes de Freud ter atingido uma notoriedade geral.

Um pouco mais tarde, em 1919, Freud citou com aprovaçao um artigo, agora cl ssico, publicado dois anos antes, de Otto Põtzl, um destacado psicólogo acadêmico de Viena, ao observar que a li nova maneira de estudar experimentalmente a formação dos sonhos" de Põtzl

diferia decisivamente da "técnica anterior, que era grosseira11,5 Sua

desconfiança em relação ao laboratório era certamente a posição freudiana característica, mas as passagens que acabei de citar, ainda que

pouco mencionadas, são significativas e mostram que ele estava longe

de ser antip tico a psicólogos experimentais arrojados, bem-informados e interessados nas suas descobertas.
1 Agora, por diversas décadas, um número consider vel desses experimentadores, junto com alguns psicanalistas, decidiram seguir esse

Freud, um Freud relativamente disposto e aberto aos procedimentos


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da psicologia acadêmica. Eles têm realizado alguns experimentos fascinantes e"descobriram que o trabalho é recompensador, embora seja

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muito difícil. As proposições que se aventuram a examinar lidam

com fen"menos mentais tão inteinos, tão distantes de uma manipulação grosseira, de medições quantitativas e mesmo de observação direta, que suas comprovações - Ou infirmações - têm permanecido

necessariamente como tentativas e têm feito com que os seus veredictos não sejam completamente unânimes. Os experimentos pioneiros

de Silberer e de outros não foram, certamente, muito esotéricos. Fixaram-se sobre a manifestação mental mais espetacular para a qual

Freud havia chamado a atenção: a apariçãe de símbolos sexuais nos

sonhos. Na sua Trautndeutung, Freud tinha atribuído aos símbolos um

lugar secund rio no trabalho de interpretação, mas os primeiros experimentadores acharam que eles seriam mais acessíveis a teste do

que algumas das teorias freudíanas mais intrincadas sobre a mente.

Conseqüentemente, planejaram sessões de hipnose na qual uma mulher era instruída a sonhar que o seu empregador tinha ido vê-la e a

violara, após o que ela relatou, depois de ter despertado, que sonhara

com uma visita inesperada de seu patrão, que abrira uma mala que

estava carregando para retirar uma banana - ou, numa versão um

pouco diferente, saíra da mala uma cobra serpeante. Experimentos posteriores foram muito menos primitivos do que esse, mas aqueles que

mostravam o trabalho do sonho que torna idéias inaceit veis em aceit veis ofereceram, no mínimo, demonstrações anedóticas de que havia

algo, afinal de contas, nas idéias estranhas e subversivas de Freud.

Algo, mas o quê? 0 corpus freudiano não é uma teoria abrangente, solidamente ligada, na qual leis gerais podem ser deduzidas a


partir de proposições empíricas, e onde um experimento essencial

ossa test -la de forma conclusiva.' É, mais, uma família de alegações

intimamente concatenadas que freqüentemente se apóiam entre si e

variam desde enunciados empíricos até teorias globais sobre a mente,

passando por generalizações limitadas, 0 todo da teoria psicanalítica

é algo como um castelo imponente, esparramado, projetado por um

arquiteto de tamanha estatura que os seus sucessores, ao acrescentarem alas ou ao escorarem paredes inseguras, adaptaram refletidamente

suas inovações ao estilo anterior. Esse respeito excessivo pela autoridade obscureceu o fato de que algumas alas e anexos gozam de uma

certa independência em relação ao resto, de modo que um incêndio

que causasse danos em uma seção desse complexo poderia deixar o


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resto incólume. Em suma, o teste experimental das proposições freudianas nunca é definitivo para nenhum dos lados. Ainda assim, após

literalmente centenas de experimentos engenhosos, de sofisticação

crescente, que empregam sugestão pós-hipnótica, testes projetivos, entrevistas controladas e instrumentos de precisão, somos levados a algumas conclusões de grande alcance, embora provisórias. 0 edifício que

Freud construiu ainda est de pé.


É prov vel que algumas das especulações metapsicológicas mais

radicais, como a sua teoria sombria e posterior das pulsões, não importa quão sugestivas, irão sempre se furtar ao escrutínio experimental. E é certo que grandes reas da teoria psicanalítica requerem uma

atenção maior e melhor por parte dos experimentadores do que a que

têm recebido até agora. Mas os fundamentos da sua estrutura teórica

- o determinismo psicológico, a ubiqüidade dos desejos, o inconsciente dinâmico - receberam um apoio experimental bastante impressionante. De modo similar, as provas experimentais têm sustentado a descoberta freudiana da sexualidade infantil , na época altamente escandalosa e ainda hoje algo controvertida, assim como os

mecanismos de defesa inconscientes, especialmente o trabalho do recalque. É de fato no domínio das defesas inconscientes que os psicólogos experimentais realizam algumas investigações elegantes e conhecidas, desde que Jerome Bruner e Leo Postman a batizaram em 1947,

como estudos em defesa perceptual. 0 experimentador (trabalhando

com um taquistoscópio, que pode expor palavras e medir o tempo de

exposição até uma fração de segundo) mostra aos sujeitos um conjunto de palavras escolhidas, tão cuidadosamente quanto for possível,

com igual comprimento e com a mesma familiaridade. Algumas delas,

como "pente" ou "garfo", provavelmente estão livres de conotações

emocionais, enquanto outras, como "veado" ou "corno", estão carregadas de afeto, possivelmente incitam ou provocam ansiedade, ou

ambos. Uma variante desse procedimento parte de uma palavra ambígua como "boneca" e a coloca em dois contextos lingüísticos bastante

distintos, um sugerindo homossexualidade e o outro os irmãos Grinim.

De acordo com a teoria do recalque, o sujeito deveria ser capaz de

ler as palavras inócuas mais rapidamente, exigindo uma menor exposição pelo taquistoscópio do que aquelas que evocam sentimentos eróticos, agressivos ou de culpa. Freqüentemente, esses experimentos têm

sido, a partir da perspectiva psicanalítica, um sucesso, embora, dada

a ousadia dos pressupostos subjacentes, os seus resultados não pos

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sam reivindicar um estatuto de degma. Esta poderia ser a natureza

do raciocínio a partir do teste experimental das proposições psicanalíticas: amplamente indireto, fortemente inferencial, e algumas vezes

question vel.
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Outros aspectos do corpus freudiano - o trabalho da fRntasia,

a transferência e a ansiedade - ou têm sido beneficiados com o teste

experimental ou têm gozado de uma certa plausibilidade enquanto

subprodutos de experimentos que testam outras coisas. Os psicólogos

até descobriram traços do excessivamente mencionado complexo de

Êdipo em alguns experimentos elegantes que delinearam o seu contorno tão amplamente quanto a teoria de Freud poderia prever. ' Um

historiador seria ingênuo e crédulo se alegasse que toda essa atividade

intensa e ainda fragment ria constitui uma prova segura da psicanálise

como sistema. Mas seria, para o historiador, algo manifestamente anticientífico minimiz -la ou ignorã-la.


Ora, como j sugeri, os psicanalistas também a ignoram. A sua

crença jovial, aparentemente tão convencida, de que o seu divã é o

seu laboratório, tem irritado os observadores da psicanálise, incluindo

aí muitos historiadores. Modéstia, eles sugerem, seria uma posição

mais conveniente do que a de auto-satisf ação. "Em v rios cultos da

psicologia profunda, começando com Freud", escreveu o historiador

Paul K. Conkin, "os; homens tentaram isolar a estrutura geral da psique, importando para essas guas escuras pelo menos a forma dos conceitos físicos. Mas os seus termos são indefinidos, as estruturas que

afirmam muito imprecisas e muito especulativas para um teste sem

ambigüidades, e os seus conceitos muito metafóricos, muito liter rios

e muito fenomenológicos para outros usos além dos vagamente clínicos ou especulativamente sugestivos". Para esse historiador, pelo

menos, os sentimentos de dúvida resultam em conselhos de desesperança: ao lastimar o que chama de apelo aos "freudismos metafóricos", ele sugere firmemente que "mais do que oferecer ingenuidade

anunciada como sofisticação, o historiador estar melhor servido se

permanecer leal ... sabedoria do senso comum, por paroquial e ambígua que ela seja". ' Conkin parece achar preferível explorar as

cavernas do passado com a luz tremulante de uma vela, em lugar da

ofuscante lanterna de uma psicologia profissional que alega possuir

uma iluminação que realmente não possui. Na sua impaciência, que

Marcus Cunliffe chamou de "arrogância sigmundiana", Conkin tem o

apoio da maioria de seus colegas.


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2. Recordando o fundador
Os descrentes acham que o estilo da argumentação psicanalítica

não é menos suspeito do que a sua substância. A maior parte das

pessoas cultas que não foram analisadas (o que inclui a quase totalidade dos historiadores) vê a psicanálise como a guardiã de mistérios

enigm ticos presidida por um sumo sacerdote autorit rio, o Fundador

Freud, ou pelos seus acólitos escolhidos que falam em seu nome. 0

acesso aos seus ritos é ciosamente restrito: os psicanalistas têm a


postura autoprotetora e abusiva de que o único caminho possível para

a compreensão do seu sistema é a própria experiência psicanalítica.

Através da sua carreira profissional, Freud sugeriu que, de fato, não

havia outra possibilidade. É "difícil", escreveu em 1932, "dar a alguém que não seja psicanalista um discernimento a respeito da psican lise. Você pode acreditar em mim", acrescentou, quase mas não

de forma completamente apologética, "nós não gostamos de dar a

impressão de que somos uma sociedade secreta, praticando uma ciência

oculta". Mas continuou impenitente. "Ninguém tem o direito de se

intrometer com a psicanálise se não tiver passado por certas experiências", e ele queria dizer experiências no divã. " Se não se podia ser

um analista, pelo menos se deveria ser analisado para poder falar com

alguma autoridade.
É totalmente consistente com essa postura de exclusividade, o

estigma de pedantismo profissional invencível, o fato de os artigos e

monografias psicanalíticos invocarem, quase invariavelmente, as palavras do fundador - não para embelezar um argumento ou para

acrescentar uma dimensão histórica, mas para servir como um apoio

poderoso, se não for como uma prova conclusiva.` Como um historiador das idéias, Gerhard Masur uma vez disse, ao denunciar o

egotismo intelectual de Freud: "Quando em 1914 ele escreveu a história do movimento psicanalítico, afirmou taxativamente que tinha

mais direito do que qualquer um para saber o que era a psicanálise.

'La psychoanalyse (SiC) CIeSt Moi, 11.12

não confirmaram a sua megalomania para ele?
E os discípulos servis de Freud
A alusão de Masur a Luís XIV é tão inapropriada quanto a sua

caracterização da presumível ascendência de Freud sobre os seus discípulos é incendi ria. Mas permanece plausível, em grande parte

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