Freud para historiadores



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porque as estratégias públicas dos psicanalistas têm feito pouco para

revertê-las. A sua aparente certeza de que o conhecimento pode ser


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encontrado apenas na situação psicanalítica hermética, e de que os pronunciamentos de Freud gozam de uma autoridade privilegiada, transgridem as convicções mais caras da profissão histórica. A primeira é

lida como uma reminiscência daquela m xima tendenciosa e infeliz

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de que "é preciso ser um, para reconhecer outro", que, se aplicada,



acabaria com a atividade do historiador; afinal de contas, os historiadores comprometem-se com o mundo do outro, não importa quão

distante no tempo, no espaço ou nos h bitos culturais, e com trat -lo

nos termos do próprio indivíduo, seja ele ou ela. E enquanto a dependência servil dos psicanalistas em relação ...s citações do mestre possam

ser aceit veis numa disputa escol stica ou talmúdica, em um raciocínio

teológico, est totalmente deslocada em uma disciplina dedicada ...

procura científica da verdade. Pode recordar aos historiadores

o célebre aforismo de Alfred North Whitehead, "uma ciência que

hesita em esquecer os seus fundadores est perdida", ao levar ...

conclusão de que a psicanálise perdeu-se enquanto ciência quase que

desde o seu princípio, uma vez que a partir dos primeiros discípulos

de Freud criou-se o h bito de decidir debates pela recitação de uma

passagem relevante de seus textos,


Na realidade, o instrumental psicanalítico não tem sido nem tão

inacessível nem tão autorit rio, como essas afirmações e esses h bitos

retóricos poderiam implicar. H , afinal de contas, uma literatura maciça de popularização da psicanálise, para a qual o próprio Freud

contribuiu diligentemente durante toda a sua vida. Ele proferiu conferências acessíveis, animadas com descrições vivas e instâncias

reveladoras, sensível ...s questões e ...s dúvidas que os seus ouvintes

poderiam formular; elas são convites para refletir sobre problemas e

proposições da psicanálise na companhia genial, e nunca indulgente,

de seu descobridor. Como um sedutor benigno, ele podia iniciar as

suas exposições a partir de experiências comuns como lapsos da fala

ou esquecimento de nomes para estabelecer que a mente é governada

por leis e que o inconsciente exerce uma grande influência sobre a

atividade mental, antes de partir para a sua teoria das neuroses, mais

difícil. Não é por acaso que deu ...s suas apresentações mais populares

a forma do di logo. Ele sabia melhor do que qualquer um, pois havia

experienciado todas essas dúvidas em si mesmo, o que nas suas idéias

era ofensivo, improv vel, e mesmo inacredit vel. Ao mobilizar todos

os seus extensos recursos liter rios para ilustrar o funcionamento da

mente sem trair a sua complexidade e ao apresentar o lado desagra

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d vel da natureza humana sem perder a sua audiência, Freud encontrou tempo nos seus dias atarefados para escrever artigos lúcidos para

enciclopédias, pequenos livros de texto e apresentações abrangentes para um público maior. Seu último livro, que ele não viveu para terminar, era um esboço da psicanálise - uma coda adequada para os

trabalhos de uma vida. Ele não teria devotado tanto esforço a tais

exposições se tivesse pensado que a autoridade científica da situação

psicanalítica era tão exclusiva e conclusiva como algumas vezes ele

alegou que ela era.


Por outro lado, é grande a freqüência e a seriedade com que Freud

marcou seus artigos metapsicológicos e clínicos com infirmações,

chamando a atenção para as reas de incerteza e de pura ignorância.

Freud foi um argumentador not vel; as suas estratégias de persuasão

teriam dado fama ao advogado criminalista mais completo. Sem

dúvida, ele era um advogado de gênio, e dificilmente deixaria de notar

que a sua mistura altamente pessoal de sabedoria, eficiência e prudência científica era uma instância de recurso que não poderia

prejudicar a sua causa, não importando quão desagrad vel ou implausível as suas idéias Pudessem parecer ... primeira vista. Ainda

assim, enquanto as hesitações públicas e os pedidos de paciência freudianos tivessem seus usos na propagação de sua mensagem, eram mais

do que meros recursos t ticos de manipulação; registravam fielmente,

em cada instância, o estado da disciplina que ele passaria décadas

refinando e transformando.


A psicanálise tem sido submetida ...s críticas mais severas, entre

as quais a do dogmatismo e a da incoerência são as mais persistentes.

Mas a primeira delas é injusta e a segunda exagerada. A obra a que

Freud consagrou sua vida, lida cronologicamente, revela a psicanálise

como uma ciência jovem em fluxo, como um mapeamento feito e

refeito de um terreno pouco familiar. Tanto para o público culto,

homens e mulheres, que Freud sabia que permaneceriam afastados

do divã analítico, como para os seus colegas psicanalistas, ele dramatizou o espet culo de uma procura, de uma pesquisa contínua e

sedenta por novas descobertas e receptiva a uma revisão dr stica. A

literatura did tica psicanalítica, que Freud iniciou de uma forma poderosa, nunca poderia servir como um substituto completo da

experiência íntima e distinta de se submeter a uma psicanálise, mas

poderia colocar o historiador dentro dos limites de reconhecimento do

que Freud e seus seguidores pensaram sobre o funcionamento da
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mente humana. A sugestão cativante de H. Stuart Hughes de que

pelo menos alguns jovens historiadores se submetam a uma an lise

ou realizem algum trabalho em um instituto psicanalítico não tem,

como se poderia esperar, encontrado praticamente nenhuma ressonân#


cia na profissão. Mas, embora seja uma idéia imaginativa e muito

exigente, requerendo um investimento em tempo, dinheiro e energia

a que poucos historiadores estariam dispostos a se aventurar, é perfeitamente racional. "


No entanto, mesmo o historiador que aprende sobre a psicanálise

apenas a partir da literatura não pode deixar de constatar o espantoso

alcance da percepção freudiana, o seu dom sem paralelos para encontrar provas, fazer combinações e antecipar objeções. Portanto, é

obrigado a reconhecer que a posição ocupada por Freud na disciplina

que fundou é excepcional, como o são as técnicas que ela utiliza.

As condições sob as quais Freud fez as suas descobertas memor veis

são completamente diferentes e bastante inauspiciosas: um neurologista

ambicioso que falhou mais de uma vez em ficar famoso, um médico

respeit vel que tinha diversas curas para recomend -lo afastou-se, com

relutância, na verdade, com dor, para longe das suas perspectivas médicas de partida. Freud poderia ter testado o estratagema da resistência,

sobre o qual falaria tanto mais tarde nos seus artigos clínicos, em

si mesmo. Fortemente contra a sua vontade, desconsiderou as interpretações fisiológicas dominantes sobre os eventos mentais, o as

hipóteses aceitas sobre a doença mental em favor das suas proposições

escandalosas. H boas provas de que não se sentia bem nem com a

etiologia sexual das neuroses nem com a disposição sexual das

crianças. Encontrou o seu caminho pela observação intensa de seus

pacientes, que lhe ensinaram muito. 14 E atravessou a cortina de

fumaça das boas razões para olhar de relance para as razões reais

através de uma auto-an lise sem precedentes. Não dispunha de nenhum modelo para a exploração corajosa dos seus estados internos,

sonhos, associações, desejos e medos, mas tinha de invent -los e

prosseguir, e ao assimilar os seus resultados fez uma descoberta aterradora após outra.
É difícil para o mais frio dos historiadores defrontar-se com esses anos heróicos da vida de Freud sem cair em hipérboles. Ele retirou

muito dos outros, de poetas, romancistas, até de psicólogos. Mas a

arquitetura de sua teoria, e a maior parte dos materiais com que a

construiu, eram ampla e espantosamente dele mesmo, Os historiado

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res, treinados para reconhecer e respeitar o que é distinto em cada

indivíduo, finalmente se deram conta de que a estatura de Freud

difere daquela de outros gênios científicos. Freud uma vez disse a

Marie Bonaparte, não sem uma ponta de inveja, que Einstein era

afortunado: afinal de contas, Einstein havia feito o seu trabalho na

companhia de gigantes científicos que vinham desde Newton, enquanto ele fora obrigado a trabalhar nas trevas, solitariamente.'5 Como

sabemos agora, Siginund Freud superestimou um pouco o seu isolamento, tanto em relação aos seus colegas psicólogos como aos seus

precursores; o inconsciente, o recalque e mesmo a sexualidade infantil

haviam sido vislumbradas, mesmo que de uma forma rudimentar, por

alguns contemporâneos, tanto filósofos como psicólogos. Os vidos em

encontrar antecessores podem consultar o dr. Adolf Patze, um obscuro Wundarzt de primeira linha, de Grabow, perto de Stettin, que em

1845, em um panfleto a respeito dos bordéis, observou em uma nota

de rodapé que "a pulsão sexual j se manifesta entre as crianças de

menos de seis, quatro e até de três anos de idade"." Além disso, o

débito freudiano para com médicos luminares como Ernst Brücke

ou jean-Martin Charcot foi sempre óbvio - e sempre reconhecido.

Mas a atmosfera médica e psicológica da época, talvez mais caridosamente descrita como não inospitaleira ... germinação da psicanálise, não

altera em nada a posição de Freud como fundador solit rio de uma

ciência eminentemente subversiva.
Os biógrafos ansiosos em p"r fim ...s alegações freudianas têm

documentado a sua dependência em relação aos sexólogos de sua

época e ao seu amigo Fliess, mas têm sido incapazes de erradicar, ou

mesmo de comprometer, o "mito" de Freud como o fundador. 17 Na

verdade, Freud, mesmo que tenha se permitido alguns exageros question veis, antecipou-se a eles. Foi um leitor insuper vel da literatura

científica: o capítulo de abertura da Interpretation o] dreams é uma

revisão bibliogr fica abrangente, em todos os aspectos generosa, tanto

da antiga quanto da recente; o seu Three essays on sexuality arrola,

na primeira p gina, não menos do que nove estudiosos contemporâneos da sexualidade cujos escritos estudou; o seu livro sobre chistes

assinala quatro escritores sobre humor cujas publicações foram importantes para a sua própria, em particular o filósofo Theodor Lipps,

cujo estudo recente sobre o chiste lhe havia dado, 'ele reconhecia

generosamente, "a coragem e a possibilidade de comprometer-se com

este ensaio". " Nos seus artigos retrospectivos, nos próprios nomes
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que deu aos seus filhos, Freud com gratidão imortalizou esses débitos. " De fato, estava preparado para qualificar a sua reivindicação

de se intitular fundador da psicanálise; o crédito por tê-la concebido,

escreveu mais de uma vez, deveria ir para Josef Breucr. Freud era

um gigante apoiando-se sobre os ombros de homens altos. Sua originalidade foi, como sempre ocorre, um composto: incluiu reconhecer

as implicações do trabalho de seus predecessores e segui-Ias até o

#


fim - teve a coragem de suas descobertas. Colocou juntas, em uma

justaposição fértil, idéias que exploradores anteriores tinham vislumbrado apenas de forma vacilante e separadamente. E fez algumas

descobertas originais proprias.
A sua atitude também não foi a de um profeta religioso ou a de

um líder carism tico, apesar daquilo em que alguns dos seus epígonos

tentaram transform -lo. Como ouvia os seus pacientes, assim ouviu a

sua própria experiência e a de seus seguidores: a história da psicanálise

é, nas suas quatro primeiras décadas, em grande medida, a história de

Freud modificando os seus pontos de vista sobre a estrutura da mente,

sobre a ação terapêutica, sobre a natureza dos instintos, sobre a sexualidade feminina e sobre a ansiedade - a próprio cat logo da sua

suscetibilidade a materiais e a meios novos de ver materiais familiares,

0 tema amplo, imensamente importante, das relações objetais, essas

experiências primitivas anteriores ao advento da fase edipiana, floresceram, sem objeções por parte dos "ortodoxos", desde a morte de

Freud em 1939. Alguns dos psicanalistas reviram os pontos de vista

freudianos sobre a sexualidade feminina, outros questionaram a utilidade de se tratar a agressão como uma pulsão fundamental, mesmo

assim não foram excluídos do clube psicanalítico. ` É em ampla

medida a partir de uma visão externa e através do tom defensivo que

alguns psicanalistas adotam - uma defesa que condiz com a atitude

dos seus advers rios mais renitentes - que a psicanálise ganhou a

reputação imerecida de um culto múriolitico.
Também é verdade que ao mesmo tempo ela exibe uma continuidade inflexível. Isto não se deve apenas ao fato da persistência de

Freud em manter as mesmas idéias fundamentais da psicanálise durante

toda a sua vida; no corpus de seus escritos ele antecipou dificuldades

e sugeriu soluções que continuam a interessar psicanalistas cuidadosos

até hoje. Dou como exemplo os maravilhosos artigos sobre a técnica

que datam de antes da Primeira Guerra Mundial. Retornar e explorar

o trabalho de Freud é uma experiência memor vel. Isso não justifica
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#


o h bito dos psicanalistas de citarem Freud como a autoridade definitiva. Mas coloca o h bito dentro do seu contexto. 0 que eles devem

fazer com um pai assim, o gênio que parece ter inventado tudo? É

impossível esquecê-lo ou neg -lo como seria impossível mat -lo. Qualquer um desses atos, embora seja psicologicamente compreensível, seria

um sinal de ingratidão e uma pura estupidez do ponto de vista científico. A única solução possível foi entrar em acordo com ele e

reconhecer a sua importância. 0 historiador que observa esse espet culo comovente e repensa a posição freudiana deve reconhecer com

candura que na história da mente moderna, por improv vel que possa

parecer, ela é virtualmente única.
3. Uma teoria controvertida
A estatura monumental de Freud não é unia garantia da valida e

do seu sistema. As acusações de arrogância contra o fundador e e

subserviência contra os seus discípulos (os dois lados, diriam, de uma

mesma moeda viciada) são suficientemente graves. E, por outro lado,

potencialmente muito mais prejudiciais são as críticas que pairam no

ar, prontas para entrar em ação. Por mais de meio século, tem-se

negado ao sistema freudiano de idéias o estatuto de científico. A

teoria psicanalítica, insistem seus detratores, é meramente um conglomerado elegante de noções que se reforçam mutuamente, tão corruptas

e autom ticas quanto o é uma m quina política crivada de nepotismo;

é equivalente a proposições autovalidadas e imunes a teste, e proclama

as suas "descobertas" numa linguagem tão vaga, tão imprecisa

e nebulosa, que qualquer experiência humana se ajusta a ela. E dar

conta de tudo com facilidade é não dar conta de nada, É nesse sentido

depreciativo do termo que a psicanálise tem sido chamada de religião,

de um compêndio de mitos grandiosos e poéticos.
A julgar pelos pronunciamentos das décadas de 70 e 80, esse

argumento, embora esteja longe de ser novo, não perdeu nada do

seu apelo. Por exemplo, David Starmard avaliou "partes importantes"

da teoria psicanalítica como sendo "quase-míticas". De forma significativa, mas não surpreendente, quando esses críticos desembaraçamse de Freud, retiram as suas met foras mortíferas da religião. "A

história da psicanálise freudiana", escreve Jacques Barzun, com uma

especificidade af vel mas deslocada, "passou pelo menos por três fases

em oitenta anos, finalmente para ramificar-se em tantas seitas quantos

são os seus teóricos e praticantes" . 2 1 Essas censuras e recusas retro

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cedem até os dias um pouco posteriores ... Primeira Guerra Mundial,

quando o jovem filósofo austríaco Karl Popper - ele tinha então

dezessete anos - colocou a psicanálise entre as "pseudociências" para

chamar a atenção da Viena revolucion ria. 0 colapso do Império Austro-Húngaro e os levantes que convulsionavam a sua capital geraram

uma atmosfera de inovação intelectual, "0 ar", recordaria Popper mais

#


tarde, "estava cheio de slogans revolucion rios, de idéias e de teorias

novas e freqüentemente extravagantes"; na efervescência daquele

turbilhão, uma mente fria, crítica, exigindo provas aceit veis - uma

mente como a de Popper - era tão necess ria quanto rara. A construção intelectual mais impressionante sob discussão acalorada era

a da teoria da relatividade de Einstein, mas três outras teorias, todas

no campo das ciências humanas, também provocavam um grande entusiasmo: o marxismo, a "psicologia individual" de Adler e a psican lise. Ora, essas três, assinalava Popper, não tinham qualquer

carência de provas. Ao contr rio, para o iniciado, tinham um "poder

explicativo" not vel; a psicanálise, junto com as outras, parecia "ser

capaz de explicar qualquer coisa ocorrida". Uma vez que alguém havia se convertido, "via instâncias confirmadoras, em todos os lugares: o

mundo estava cheio de comprovações da teoria", Mas essa condição

afortunada desqualificava decisivamente as suas pretensões científicas,

"Confirmações deveriam contar apenas quando resultam de predições

arriscadas. Uma teoria que não é refut vel por qualquer evento concebível não é científica, A irrefutabilidade não é uma virtude da

teoria (como as pessoas geralmente pensam) mas um vício." Em

poucas palavras, a psicanálise violava o principio científico fundamental da falseabilidade. Popper concordava com prazer - alguns

dos seus admiradores não têm sido tão generosos - que Freud tinha

visto corretamente algumas questões importantes; além disso, ele

acreditava que as ciências verdadeiras originam-se precisamente de

mitos como os freudianos. Mas, entretanto, insistiu de forma bastante

severa que "as 'observações clínicas' que os analistas ingenuamente

tomam como confirmações da sua teoria não são melhores do que as

confirmações di rias que os astrólogos encontram na sua pr tica". No

mesmo ano, 1919, em que Popper chegou a essa conclusão fatal,

Sidney Hook leu Freud e formulou o seu próprio princípio de falseabilidade. Ele se dirigiu aos psicanalistas e perguntou-lhes sobre as

provas que tinham para isentar uma criança de ter um complexo de

Édipo. As respostas evasivas e indignadas que recebeu convenceram

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#


no de que a psicanálise é um " dogma monista ", e de que Freud est

entre os 11 m itólogoS poétiC(S". 2-1


Considerando o ceticismo que o critério de Popper para conhecimento fidedigno tem suscitado crescentemente entre os filósofos da

ciência, qualquer consideração sobre eles poderia parecer desnecess ria. 0 seu teste de falseabilidade, pelo menos na forma exigente que

Popper lhe deu, aparece agora como sendo logicamente question vel

e psicologicamente não convincente. '1 As ciências e os cientistas não

trabalham dessa maneira. Uma prova positiva e sólida, se obtida através de observação confi vel ou de experimentos controlados, continua

sendo o apoio mais qualificado que as alegações científicas podem ter.

Se acabo por me referir a Popper nas p ginas que se seguem, na

companhia de outras acusações contra as alegações dos psicanalistas

de que procuram fazer uma ciência humana, faço-o porque os historiadores que procuram argumentos contra Freud continuam a dar

muito valor ... argumentação popperiana que eles supõem devastadora.

Starmard recorre a ela com vontade e sem hesitação. E em 1984, ao

resenhar um estudo psicanalítico sobre Ronald Reagan feito pelo

historiador americano Robert Dallek, o jornalista político Robert

Sherril usou-a de novo: "0 que est errado na teoria de Dallek de

que a infância de Reagan modelou a presente administração? Talvez

nada. De qualquer maneira, não é uma teoria que se possa mostrar

11 24

que est errada . Pelo seu próprio vAlor, algumas das outras críticas



feitas aos procedimentos psicanalíticos - aproveitar-se da sugestionabilidade do paciente, recusar-se a submeter as conclusões analíticas a

um exame independente - são suficientemente sérias. Ao serem combinadas com as restrições popperianas, têm satisfeito a muitos críticos

de Freud como sendo definitivas.
É verdade que as asserções dos psicanalistas - leis da mente,

leituras em profundidade de novelas ou pinturas, interpretações oferecidas durante a sessão analítica - devem estar abertas ... crítica

racional, ... ratificação e ... revisão através de mais pesquisa experimental, experiência clínica e reflexão lógica. Por outro lado, se se

adequam sem dificuldades a todas as situações concebíveis e explicam

todas as condutas concebíveis, então deveriam elevar - ou degradar

- a psicanálise ... posição de uma profetisa inspirada. Popper então

poderia estar certo: o analista não seria melhor do que o astrólogo,

que se sente, de forma totalmente previsível, reforçado nas suas crenças pseildocientíficas em cada horóscopo que faz. A via real para o


66
1
e
1

#

conhecimento psicanalítico se transformaria em uma trilha traiçoeira



para superstições complacentes. Felizmente, não precisamos escolher

entre esses pontos em disputa através de pura adivinhação: o corpus

dos artigos fretidianos, o registro da pr tica analítica posterior e os

experimentos das últimas décadas oferecem oportunidades sem

igual para avaliar a caracterização de psicanálise como o papado da

psicologia.


A prova experimental que citei anteriormente serve para colocar

em dúvida essas apreciações que a desconsideram irrefletidamente.

Além disso, a sessão psicanalítica, como foi registrada nos casos

clínicos e em pequenas vinhetas, oferece um material adicional para

refut -las. Na verdade, a escuta de Freud das comunicações de seus

analisandos, longe de exemplificar ou de deixar de lado o problema

lógico da comprovação na psicanálise, acaba por exp"-lo explicitamente e oferece sugestões preciosas para a sua resolução. Aos olhos de

Popper ou de Starinard, as respostas do paciente só podern confirmar

as conjecturas do analista. 0 seu sim, para eles, significa sim, mas o

mesmo ocorre com o seu não - uma forn-ia conveniente de testemunhar o que Freud uma vez resumiu, dentro da sua precaução costumeira contra objeções, através de um ditado inglês mordaz: "Cara eu

ganho, coroa você perde". A maneira pela qual "nossos pacientes

expoem suas idéias durante o trabalho analítico", assim Freud descreve esse procedimento suspeito, "nos d a oportunidade de fazer

algumas observações interessantes. 'Agora você ir pensar que eu quero insult -lo, mas não tenho essa intenção'. Reconhecemos que isso

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