Freud para historiadores



Baixar 1.67 Mb.
Página7/27
Encontro18.07.2016
Tamanho1.67 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   27

é a rejeição, através de uma projeção, de uma idéia que acabou de

emergir ... superfície. Ou: 'Você vai perguntar quem pode ser essa

pessoa no sonho. Não é a minha mãe'. Nós corrigimos: 'É a sua

mãe'. Na interpretação tomamos a liberdade de desconsiderar a

25

denegação e de selecionar o conteúdo puro da própria idéia",


Essa insensibilidade arrogante a respostas negativas, insistiram os

críticos de Freud, estende-se a toda a atividade interpretativa do psicanalista, assegurando aos seus pronunciamentos a dimensão invej vel

da irrefutabilidade absoluta. Se o analisando aceita a interpretação do

analista, isso garante a sua exatidão: mas se a rejeita, isso também é

uma garantia dela. Freud enfrenta essa acusação com honestidade,

"Se o paciente concorda conosco", escreveu em um artigo tardio sobre

interpretações, parafraseando algum cético an"nimo, "então ela est

correta; mas se ele nos contradiz, então isso é apenas um sinal da


67

#


sua resistência, o que faz com que acertemos de novo. Dessa forma,

estamos sempre certos contra um pobre indivíduo indefeso que estamos analisando, não importando a atitude que ele possa ter em

relação ...s nossas colocações". 26 Isso coloca a questão de Popper com

a lucidez costumeira de Freud. Profundamente educado nos métodos

e pressupostos da ciência positivista, dificilmente se precisaria contar

a Freud que as proferições dos analisandos oferecem obst culos tanto

empíricos quanto lógicos para sua comprovação.
Contudo, eram obst culos que Freud acreditava que a psicanálise

poderia superar. Sua refutação ...s objeções que ele próprio havia

colocado é bastante marcante tanto pela sua maneira pacífica como

pela apreensão aguda das preocupações do seu crítico. A recusa

freudiana em entregar-se a contra-argumentos prolixos ou ... pura irri - 1

taçao e uma medida da sua autoconfiança. A sua posição é, bastante

simplesmente, a de afirmar que todas essas depreciações plausíveis

distorcem drasticamente o procedimento psicanalítico. Os analistas,

observa, são tão céticos com as afirmações quanto o são com as

negações; uma discordância de um paciente em relação a uma interpretação não é sempre um material que confirma indiretamente a

conjectura do analista, mas pode perfeitamente ser uma refutação

v lida e convincente daquela conjectura. De fato, como os psicanalistas que escrevem sobre a técnica assinalaram repetidas vezes, o assim chamado "bom paciente" pode realmente ser o mais intrat vel dos

analisandos. 0 paciente que nunca perde uma sessão, sempre chega

na hora, oferece livres associações sem parar, preenche a hora com

sonhos significativos e, acima de tudo, aceita sem hesitação todas as

interpretações do analista pode estar defendendo a sua neurose mais

tenazmente, porque de forma muito mais sutil, do que a de um analisando cuja resistência se manifesta mais abertarnente."
Afinal de contas, o que o psicanalista est ouvindo não é uma

docilidade insinuante, mas mensagens, sem importar a forma que possam assumir, que conseguem se furtar ... censura inconsciente do

paciente e atingem o nível da proferição e, ele espera que, no término,

o da inteligibilidade. Podem tomar a forma de um lapso, de uma associação, de um gesto, de um sonho, de um atraso habitual, de um

erro ao preencher o cheque mensal - ou a maneira de aceitar ou

rejeitar as interpretações do analista. A partir das revelações fragment rias, geralmente involunt rias, o psicanalista progressivamente

constrói a sua compreensão sobre a neurose do paciente e decifra a
68
dinâmica do seu car ter. Como sabemos, a psicanálise é a ciência da

suspeição; vive da convicção de que as coisas não são o que parecem

ser. Mas reconhece com freqüência que, na sua forma confusa, as

coisas também são o que parecem ser. Como o historiador, o psicanalista deve admitir que a vida mental é excessivamente compli#


cada. 2'
Tudo isso significa, certamente, que o psicanalista, do mesmo

modo que o historiador, não deve julgar com precipitação. A situação

psicanalítica é simultaneamente um foro de franqueza e urna arena

de resistência. As raras intervenções do analista, e mesmo o seu tom,

aliados ... postura adotada pelo analisando e ...s suas revelações confidenciais, feitas no vazio, são planejados para favorecer o modo

confessional. Ao mesmo tempo, a relutância do paciente em revelar os

seus segredos e em desistir de sua doença interfere com a sua intenção

mais sincera e manifesta de revelar, sem hesitação e correções, tudo

o que lhe ocorrer. Portanto, o processo de descoberta psicanalítico é

uma aventura conjunta, mas sempre muito difícil e tortuosa. Tanto o

analista como o paciente, uma vez que ele tenha sido iniciado nos

mistérios, devem ler as pistas indefinidas e devem, durante longos

meses, permanecer atentos aos seus significados. É por isso que, nos

seus artigos sobre a técnica como nos seus casos clínicos, Freud

insistiu com propriedade que o psicanalista é capaz de tudo, menos

de se furtar a erros, e que a maior parte do tempo est longe de ter

certeza. "Às vezes", escreveu Freud no seu pequeno artigo contra o

que chamou de psicanálise "selvagem", "nós adivinhamos erradamente

e nunca estamos em posição de descobrir tudo". " A vida interior de

um analisando é tão rica, e a sua capacidade para disfarçar tão altamente desenvolvida, que o diagnóstico mais incontroverso pode estar

incompleto e revelar-se falso ao final. 0 consentimento do paciente

sobre uma interpretação pode mostrar que se alcançou o fundo, ou

que ele est sonegando informação problem tica; a sua negação, que

o psicanalista treinado resume como tendo tocado um ponto sensível

ou como estando longe de tê-lo feito, Uma interpretação é um pequeno

experimento, oferecido com toda a boa-fé - zombar não faz parte

do arsenal psicanalítico -, que, contudo, não se perde, e é geralmente sugestivo, mesmo quando fracassa. "Tudo isso", para citar o

clichê favorito do psicanalista, "é gua para o moinho".
Entre todas as habilidades do analista, a de ouvir é a mais valorizada, e aqui, como é tão freqüente, Freud h muito permaneceu
64

#


como modelo para sua profissão. Os próprios casos iniciais que

publicou com Breucr, em 1895 - os primeiros exercícios de psican lise -, j documentam a sua passividade produtiva. Frau Emmy

von N. e Frãulein Elisabeth vort R., entre outras, ensinaram-no a arte

de ouvir. Elas instruíram Freud em esperar os contos mais enfadonhos, menos coerentes, por parte de seus pacientes, a racionar as

suas intervenções, e, acima de tudo, a ter a suficiente liberdade interna

para se espantar com o que estavam lhe contando .30 Manter esse

sentido de espanto vivo é o ganho técnico mais valorizado pelo

psicanalista; serve como antídoto contra os ataques de infalibilidade.

Afinal de contas, a situação psicanalítica não é uma competição esportiva onde se visa marcar pontos, mas uma exploração conjunta

e planejada para fazer descobertas. A proferição denegativa ocupa um

lugar visível e inseguro na psicanálise, mas, contr ria ... sua reputação,

o psicanalista pode receber um não como resposta.


Pode recebê-lo porque o pensamento psicanalítico, apesar das

características que possa receber, aspira, dentro dos limites da psicologia profunda, a preencher as condições exigentes de uma comprovação fidedigna. Isto é verdadeiro a despeito de todas as aparências.

Considerem o artigo pequeno e importante de Freud sobre Xar ter

e Erotismo Anal", de 1908, no qual ele relata que descobriu que

muitos dos seus clientes eram simultaneamente metódicos, avarentos

e obstinados. Embora essa conjunção de característiças possa variar

em intensidade e em proporção relativa, Freud acreditou que

11 era incontest vel que de algum modo as três se relacionavam". Tomou essa constelação como prova de uma experiência infantil comum:

uma capacidade excessiva em manter a retenção anal ligada com um

prazer excessivamente incomum decorrente da retenção. "A constância

dessa tríade de propriedades em seu car ter", Freud suspeitou, "pode

estar relacionada com o enfraquecimento do seu erotismo anal": o

car ter do adulto era, então, o herdeiro de certas fixações infantis,

incompletamente superadas, Concluiu que "os traços permanentes de

car ter" desses pacientes eram "continuações inalteradas de pulsões

originais ou de sublimações ou de formações reativas contra elas". 31


Isso, admito, é uma asserção atordoante, uma capa vermelha diante

dos partid rios da falseabilidade. 0 diagnóstico freudiano de erotismo

anal. aplica-se a pacientes que exibem uma tríade de características

observ veís, a pacientes que exibem exatamente o oposto delas, e a

pacientes que exibem as suas transformações engenhosas. Freud parece
70
i
1
estar afirmando nada menos do que se o analisando é asseado, mesquinho e teimoso, isto indica uma fixação anal; se é sujo, generoso e

#


dócil, também vale o mesmo diagnóstico; e se é feliz o suficiente para

inscrever o seu padrão de car ter em esferas mais dignas de atividade

como se tornar um projetista dos hor rios das ferrovias, o presidente

de uma caixa econ"mica ou um corredor persistente da maratona de

Boston, todas essas adaptações adultas servem somente para documentar a sua incapacidade em superar os resíduos da sua resistência

infantil ao treino de toalete e o seu prazer excessivo em reter as

suas fezes. Nesta versão, o diagnóstico de erotismo anal nunca pode

estar errado. E se não o pode nunca, é sem sentido.


De fato, embora o diagnóstico cubra uma grande rea e se aPlique a um conglomerado de sintomas, não pretende ser nem universal

nem infalível. Freud não propoe que o car ter anal esteja presente

em todo mundo; diferente de alguns de seus discípulos mais entusiastas, principalmente fora do campo psicanalítico, nem mesmo est

de acordo com a honra duvidosa de que o car ter anal seja o traço

organizador do capitalismo moderno. A constelação é, para ele, uma

das possíveis estruturas de car ter. Muitos indivíduos superam adequadamente o seu erotismo anal no decurso de um desenvolvimento

mais ou menos saud vel; outros exibem apenas traços dele, que recuam

diante de outros mais proeminentes. 0 car ter é um resultado, algo

com múltiplas camadas, com uma história própria, muito mais variada

e menos óbvia do que uma doença definível como a tuberculose ou

a hipertensão. Pode-se entrar numa carreira banc ria ou tornar-se um

corredor fan tico pelas mais diversas razões. A lógica da caracteriologia freudiana, portanto, prevê muitas ocasiões em que um diagnóstico

de erotismo anal poderia ser por demais simplista ou err"neo. "Estamos acostumados", escreveu ele no seu famoso caso clínico sobre o

"homem dos lobos", "a rastrear o interesse por dinheiro, na medida

em que é libídinoso e irracional na sua natureza, no prazer fecaU,

e acrescentou, com aquele senso comum resoluto que lhe é freqüentemente negado: "Presumimos que as pessoas normais mantenham as

suas relações com dinheiro totalmente livres de influências libidinais,

e que as regulem de acordo com considerações realistas 11. 3' Freud

nunca negou as pressões exercidas pelas realidades externas.
Por outro lado, apesar da sua capacidade duvidosa de abarcar manifestações contraditórias, o diagnóstico de "erotismo anaV,

é false vel. Urna conjectura inicial no decurso de uma an lise, uma


71
!i

#


espécie de predição oculta de que este é o padrão que a an lise ir

revela~, pode mostrar-se simplesmente insustent vel ... luz da exposição

de mais material clínico. A pedra de toque desse diagnóstico, como

de Outros, é a medida das emoções presentes nos motivos, pensamentos

e ações do paciente. "Um curso normal de pensamento", como Freud

OxPÔs unia vez, "não importa quão intenso, pode ser dominado no

fim". Ele tem interesse para o diagnóstico somente se se for incapaz,

a despeito de todo esforço consciente e da vontade do pensamento",

de "dissolvê-lo ou de se desembaraçar dele". Se o pequeno Hans (para

explorar um dos casos mais conhecidos de Freud) é afeiçoado ao seu

pai, isto sozinho não é suficiente para despertar a suspeita do analista

de que o amor demonstrado pelo pequeno esconde um ódio que o

contradiz. É apenas "a medida excessiva e o car ter compulsivo da

ternura" que "nos revelam" que o amor e o ódio lutam pela primazia

no inQonsciente de Hans. " Onde h fumaça, nem sempre h fogo;

h lugar para uma indignação ou para uma admiração apaixonada. As

Pistas psicológicas de que o cheiro de fumaça possa de fato indicar

um fogo abafado são uma agitação intensa, uma irritabilidade inaproPriada, um fanatismo que a cultura em torno não autoriza. Um exemPIO nftido do que Freud chamou "a medida excessiva e o car ter

compulsivo" de uma emoção é a manobra defensiva da formação

reativi~t, na qual um desejo agressivo ou erótico proibido foi encoberto por uma conduta exagerada que aponta para a direção oposta.

É bastante inofensivo sentir compaixão pelos animais, mas o antivivissQccionista furioso desperta a suspeita de que alguma vez ele

abrigou o mais cruel sadismo infantil. 0 pacifista belicoso exibe, com

a sija sinceridade, os traços de um passado inicial muito similar. Tais

estratAgemas não são, para Freud, objeto de uma reprovação: sem

eles, -E~i limpeza ou a modéstia, dois h bitos culturais valiosos, dificilmente poderiam surgir. Mas se, ou com que força, esses estratagemas entram em operação vai depender da veemência e da obsessão

com que se sustentam tais crenças e se defendem tais convicções.

GOethe forçou-se seriamente a subir a espiral da catedral de Estrasbur90 e realizou a subida não para ter uma visão gloriosa e aprazível

da ciclade e de suas cercanias, mas, ao contr rio, para curar-se de

uma 'vertigem, uma aversão que pesava para ele como uma reprovação ... sua masculinidade e que diminuía a sua auto-estima. Assim

esse a-to manifesto esconde o que o psicanalista Otto Fenichel chamou

de atitude contrafóbica, um esboço de neurose escondida que poderia
72
despertar a atenção de um psicanalista ou de um historiador treinado

em psicanálise, precisamente porque Goethe ocupou-se nesse ato de

bravata com uma intensidade apaixonada e incompatível com uma

procura simples de prazer. A chave para essas questões, aberta ...

comprovação - e ... falsificação - como as observaçoes mais comuns,

est na presença ou ausência de excitação irracional, na qualidade e

na extensão com o que o sujeito se ocupa emocionalmente, na dimensão da diferença entre o gasto real de energia e o que seria racional#

mente necess rio. Essas não são medidas muito exatas, e os julgamentos

podem diferir. Mas são tão precisas e reveladoras como pode ocorrer

numa psicologia que trabalha com materiais mentais relevantes.


As descobertas da psicanálise falam diretamente ... paixão do historiador por complexidade. Isto é como as pessoas são: sacudidas por

conflitos, ambivalentes em suas emoções, procurando reduzir tensões

através de estratagemas defensivos, e na maior parte vagamente, ou

nada, conscientes do que sentem e de que agem como o fazem - de

por que sabotam as suas proprias carreiras, repetem casos desastrosos, amam e odeiam com uma paixão que nos momentos de sobriedade

simplesmente não compreendem. Os sentimentos e as ações humanas

são em grande medida sobredeterminados, inclinados a terem diversas

causas e a conterem diversos significados?` Como descobridores e

documentalistas da sobredeterminação, os psicanalistas e os historiadores, cada um ... sua maneira, são aliados na luta contra o reducíonismo, contra as explicações mortocausais ingenuas e pouco elaboradas.

Minha an lise da lógica da pesquisa psicanalítica e a minha exploração

dos estilos psicanalíticos de pensar objetivam, portanto, mais do que

a necessidade de corrigir as caricaturas sobre a teoria e os procedimentos fretidianos. 0 que est em questão é nada menos do que a

visão psicanalítica da experiência humana e, com ela, a sua relevância

para o trabalho do historiador. São precisamente a ausência aparente

de lógica nas observações psicanalíticas e a proeminência que dão ...s

tensões não resolvidas que transformaram Freud no geógrafo supremo

da mente. 0 homem, para ele, é uma criatura com contradições e

segredos. Amor e ódio, a ânsia de destruir e a necessidade de preocupar-se coexistem em todos. As posturas mais firmes e as convicções

mais doutrin rias mascaram dúvidas e ansiedades. Don Juan teme a

impotência, teme talvez o fato de ser um homossexual recalcado. "An It

títeses , como Freud disse, "estão sempre intimamente ligadas e

freqüentemente aparecem aos pares de tal forma que se um pensamento


7 ~)

#


é muito intensamente consciente, a sua contrapartida, coniudo, ser recalcada e inconsciente". :'- É esse encontroamento de contr rios, de

emoções irreconcili veis que torna o complexo de Édipo um paradigma da existência hurnaria. 0 menino ama e odeia o seu pai ao mesmo

tempo; a menina abraça ternamente, ... noite, a mãe que ela queria

ver morta a tarde.


Todos esses tributos ... complexidade, que desprezam a clareza e

parecem ofender o princípio da parcim"nia, são, repito, singularmente

apropriados para os historiadores, que devem lidar com pessoas -indivíduos ou grupos - em ação todos os dias de sua vida. "É, inconveniente que as pessoas devam abrigar conflitos, o que torna a

comprovação uma ocupação corajosa e arriscada, especialmente a partir da insistência dos psicanalistas sobre o fato de que as batalhas mais

interessantes ocorrem no inconsciente e que deixam apenas traços

fragment rios. Freud, o mensageiro das m s notícias, tem sido tratado

como freqüentemente ocorre com tais mensageiros, como se as tivesse

inventado. Mas isso é apenas urna defesa contra ter que lidar com o

entrelaçamento sutil de motivos e coerções, desejos conscientes

e obstruções inconscientes, realidades objetivas e representações mentais que constituem a vida menial daqueles que o historiador tem a

tarefa de compreender,
Muitos historiadores têni ouvido a música do passado mas a têm

transcrito para um simples assobio. Certamente, como j disse antes,

os profissionais mais realizados e com maior sensibilidade histórica

apreciaram e procuraram reter a enorme diversidade da conduta hurinana, os encontros do homem com o poder, a tecnologia, a natureza - e consigo mesmo. No m ximo, têm sido elegantes, comoventes e penetrantes. Mas a história pede explorações mais profundas

até do que a deles. 0 que a psicanálise pode trazer para a determinacão do passado é um conjunto de descobertas e um método - falível, testado de forma incompleta, ainda difícil de ser aplicado e ainda

assim, estou convencido, o melhor que temos no presente - para

registrar as superfícies fragmentadas e o som das profundezas ínexploradas da naturcía hurnana.
Natureza

humana na história


A
1 .
Contra os historicistas
Ao descobrir Sigmund Freud no final de sua vida, William Iames achou que ele era uni "hornern obsedado" com "idéias fixas ,

com uma teoria incompreensível sobre os sonhos, com noções perigosas sobre simbolismo e com uma incompreensão preconceituosa so#


bre religião. Mas, no seu modo de ser caracteristicamente aberto,

James desejou-lhe sucesso. `Espero que Freud e seus discípulos levem

as suas idéias até os seus limites mais extremos", escreveu, mais tarde, em 1909, "para que possamos apretidê-las. Certamente projetarão

alguma luz sobre a natureza humana".'
Os historiadores têm sido geralmente menos generosos. Eles concordariam que Freud era um homem obsedado, mas duvidariam que

a psicanálise pudesse projetar algurna luz sobre a natureza humana.

Na medida em que vêem alguma plausíbilidade nela, os historiadores

concedem ao instrumental freudiario um domínio confinado. cuidadosamente demarcado de validade. A psicanálise nascida e desenvolvida em Viena parece-lhes ser a quintessência vienense, bastante irrelevante fora da sua esfera definida e altamente restrítiva, suas teorias

valem (se é que são v lidas) para o paciente psiconcurótico arquetípico, a judia vienense Hausfrau, entedíada, rica e recalcada, e apenas

para ela - exceto talvez para a sua irmã americana "Freud", como

coloca Henri Ellenberger, o historiador da psicologia profunda, "era

vienense até a raiz dos seus cabelos". Outros historiadores têm retirado as implicações dessa percepção. A "dependência tem-,loral" do

11 mundo das idéias" freudianas tem sido freqüenternente "subestimada", segundo a queixa do historiador social alemão FlansUrich
i;
i

#


Wehler. Ele acredita que o "discurso científico" freudiang baseia-se

sobretudo nos "problemas altamente específicos da burguesia austriaca do fin-de-siècle". E para David Hackett Fischer, a primeira das

1. cinco falhas substanciais da teoria freudiana" é a de que "ela, na

sua condição origin ria, é estreitamente dependente da cultura". Lawrence Stone apenas na aparência é inenos severo; ele amplia a apreensão freudiana de Viena para a classe média européia no século XIX

apenas para quase suprimir totalmente a sua relutante concessão:

"Nada poderia ser mais falso", argumenta, "do que afirmar que as

experiências e as respostas sexuais dos europeus da classe média no

final do século XIX seriam típicas para toda a humanidade no passado, ou mesmo para os europeus nos três séculos anteriores, ou

ainda para todas as classes no final da sociedade vitoriana" 2 Para

esses historiadores - e eles falam em nome de um consenso - Freud

preside um território diminuto.
Não h nenhuma razão para ser conivente com a liquidação do

império freudiano. Embora os historiadores tenham aderido e propagado avidamente a lenda da judia vienense como a analisanda típica,

apesar do seu forte enraizamento, a sua relação com o estado de

coisas verdadeiro é tênue. Freud necessariamente, e em especial nos

primeiros anos de sua pr tica, alimentou o seu pensamento e a sua

teorização com as revelações dos pacientes que vinham consult -lo.

Só p"de ampliar a sua base de prova quando a sua reputação difundiu-se e ele passou a ter seguidores que, ao coletar material a partir

de seus casos, puderam contribuir para a rede do conhecimento psicanalítico. Mas desde o início, como j assinalei, Freud teve analisandos mais diferenciados do que os indicados pela lenda. Mais tarde,

os pacientes de que tratou, ou sobre os quais se instruiu, vieram a representar um corte razo vel das camadas média e alta da civilização

ocidental: os adultos em número não inferior ao de jovens, os homens

1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   27


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal