Freud para historiadores



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tanto quanto as mulheres, os gentios igual ao de judeus, os leigos

ingleses e os médicos americanos. Infelizmente, não temos nada parecido com um cat logo exaustivo dos pacientes em an lise com Freud,

mas os seus casos mais citados demarcam os horizontes amplos da

miséria mental: o pequeno Hans era um menino de cinco anos, o

homem dos lobos um aristocrata russo, Schreber um juiz alemão,

H.D. um põeta americano, Marie Bonaparte uma princesa francesa,

Dora a irmã de um amigo, e Sigmund Freud - certamente o seu paciente mais instrutivo --- não era nem entediado, nem rico, nem uma
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mulher nem muito judeu. Após a Primeira Guerra Mundial, como

Hans Sachs relatou, Freud analisou mais em inglês do que em alernão.3


Embora a nossa informação a respeito da pr tica freudiana seja

fragment ria, sabemos o suficiente para dizer que ele p"de basear-se,

para as suas idéias, em um repertório relativamente grande, Apenas

isto, certamente, não é por si só uma garantia ou uma segurança da

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aplicabilidade do instrumental psicanalítico ...s diversas culturas e epocas. Mas Freud acreditava que poderia fazer inferencias justas, a partir da sua experiência clínica, sobre seres humanos afastados no tempo



e no espaço, e isso por duas razões: os neuróticos, como os entendeu,

são, na maioria dos seus aspectos, pessoas normais - tão semelhantes a elas que certamente pode-se duvidar da própria noção de normalidade, Eles exageram, distorcem e selecionam tendenciosamente características que todo ser humano possui, de modo que através disso

dramatizam de forma conveniente as suas operações. Além do que,

essas características são, para Freud, casos especiais, ou derivados, de

disposições universais bastante est veis que se poderiam apreender

sob a rubrica muito usada e abusada de natureza humana.


Obviamente, uma psicologia v lida apenas para alguns vienenses da virada deste século seria interessante só para alguns poucos

especialistas que estivessem escrevendo histórias sobre como era a

cidade por volta de 1900. Uma psicologia que alega iluminar a natureza humana deve ter relevância para toda a profissão histórica. Mas

a idéia de natureza humana não é, para os historiadores, de nenhuma

maneira uma idéia satisfatória. H muito tempo eles descobriram que

era necess rio refletir sobre a questão de como poderiam defini-Ia; se,

de fato, existe algo assim. A questão pode parecer abstrata, mas tem

sido totalmente familiar ... profissão histórica. Eu disse no início que

os historiadores trabalham com urna teoria sobre a natureza humana,

mas que muito do seu funcionamento é secreto - mesmo para eles.

Certamente, a questão se a natureza humana existe foi uma que a

escola historicista, Ranke e seus seguidores, colocou durante todo o

século XIX, menos como uma interrogação, inocente e mais-como um

ato agressivo e polêmico contra os filósofos, seus antecessores do

século XVIII. Nos seus escritos históricos, de acordo com a argumentação dos rankeanos, os filósofos tinham recontado aquela suprema

ficção que chamavam de natureza humana, um conjunto fixo de paixões e motivos que declaravam que tinham observado em funcionamento em todas as épocas e em todas as civilizações. Essa invenção,


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os hístoricistas insinuaram sombriamente, tinha causado ... historiografia um prejuízo significativo ao frustrar qualquer percepção verdadeiramente histórica do passado. Aquelas obras que tinham sido

famosas, as de Gibbon, Voltaire e Hume, apareceram-lhes como bidimensionais, carecendo, de imediato, de uma distância necess ria e de

uma identificação igualmente necess ria com os seus materiais humanos. The decline and lall of the Roman Empire, ou Le siècle de

Louis XIV, ou History of England não eram para eles histórias mas

(como diríamos atualmente) exercícios de sociologia retrospectiva.
Essa denúncia aos historiadores do Iluminismo mostrou ser mais

do que apenas uma plataforma do século XIX em defesa de um novo

início para uma velha disciplina. Foi um ato necess rio de parricídio

intelectual, mas que sobreviveu, enquanto crítica e postulado, até o

nosso século. R. G. Collingwood na Inglaterra, Benedetto Croce na

It lia, Ortega y Gasset na Espanha, Lucien Febvre na França, todos

difundiram a mesma boa nova: ~o homem (para recordar Ortega) não

tem natureza; o que ele tem é história. "Sei que a natureza essencial

do homem é imut vel no tempo e no espaço", escreveu sarcasticamente Lucien Febvre em 1925, com aquela veemência que o caracterizava. "Conheço essa ladainha. Mas isso é um pressuposto, e posso

acrescentar, sem valor para o historiador. Para ele, como para o geógrafo ... o homem não existe, só h homens." ' A história cl ssica

dessa postura, a obra Entstehung des Historismus, de Friedrich Meinecke, publicada em 1936, era qualquer coisa menos uma avaliação

desvinculada e neutra; era um repúdio categórico ... própria idéia de

natureza humana que, Meinecke tinha certeza, havia obstruído h

muito tempo o pensamento histórico.


Os dois princípios históricos que Meinecke consagrava na visão

e no pensamento historicista, fatalmente ausentes de todas as histórias que trabalham com uma teoria sobre a natureza humana, eram

os de individualidade e de desenvolvimento. Meinecke admitia "um

núcleo de verdade" no que chamou de "ponto de vista generalizador

das forças histórico-humanas" dos filósofos. Mas insistiu que esse ponto de vista "fracassou em compreender as transformações profundas e

a multiplicidade de formas a que são submetidas a vida mental e espiritual de indivíduos e comunidades, apesar da persistência das qualidades humanas b sicas". Para exibir os vieses anti-históricos do Iluminismo em todo o seu nivelamento funesto, Meinecke lançou mão de

duas declarações de David Hume: "A humanidade é de tal forma a
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mesma, em todos os lugares e em todas as épocas, que a história nãU

nos informa sobre nada de novo ou de estranho nesse particular". E

de novo: "0 Reno vai para o norte, o Ródano para o sul, ainda assim

ambos originam-se na mesma montanha, e atua também sobre eles,

nas suas direções opostas, o mesmo princípio da gravidade, As diferentes inclinações no terreno, sobre o qual correm, causam todas as

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diferenças entre os seus cursos". Essa mentalidade tinha de ser vencida antes que a disciplina histórica pudesse realmente se estabelecer. E foi conquistada, naturalmente pelos pensadores alemães, que

atingiram "o est gio mais alto na compreensão das questões humanas

que j havia sido alcançado".`
Em essência, o sistema historícista é um coment rio da célebre

m xima de Ranke: Toda época relaciona-se imediatamente com Deus.'

0 que Ranke quis dizer foi que o historiador deve tratar cada evento

e cada epoca como Índuplic vel e deve permitir a cada uma os seus

próprios valores, julgando não a partir do ponto de vista superior da

posteridade, mas como deveria ter sido julgada a partir dela mesma.

De forma ir"nica, o próprio Meinecke, no seu orgulho, virou as costas para essa injunção por tolerância em momentos críticos, Ele menosprezou os filósofos, quase literalmente, a partir de "um est gio

mais elevado de compreensão" que, um tanto complacentemente, acreditou que havia atingido: a época deles não estava, afinal de contas,

tão próxima de Deus quanto a sua própria. Certamente a justificativa

de Meinecke do historicismo documenta involuntariamente algumas

de suas promessas não cumpridas, pois, de forma bastante curiosa,

enquanto os hístoricistas elevaram-a- conexão entre imparcialidade e

empatia a seu priA(lplo supremo, livremente o transgrediram. Ao contr...rio, os filósofos, embora fossern Èe~Iiiens dotados com uma missão,

algumas vezes realizaram exatamente aquele princípio. Voltaire recomendava insistentemente que "devemos estar em guarda contra o h bito de julgar tudo de acorde com os nossos costumes", Gibbon acre

ditava que o "espírito filosófico", que ele entendia no sentido de

espírito histórico, podia ser cultivado pelo "h bito de se tornar alternadamente grego, romano, o discípulo de Zenão ou de Epicuto". E

David Hume, o mesmo filósofo que insistiu em ligar o Reno e o

Ródano, perguntou: "Você julgaria um grego ou um romano de acordo com a lei consuetudin ria da Inglaterra?", e respondeu: "Ouçarnno defender-se a si mesmo com as suas próprias m ximas; e então

dêem o veredicto".-, Uma leitura dos escritos históricos dos filósofos
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ÑZfreud2.txtrevelar que tais manifestos não eram meramente uma fala piedosa

ou simples boas inten‡ões.
Meu prop¢sito não ‚ promover a reputa‡ão dos historiadores que

trabalharam no s‚culo XVIII, em detrimento daqueles do s‚culo XIX.

Os historicistas, apesar da ingratidão, de toda sua auto-satisfa‡ão,

fizeram avan‡os profissionais substantivos no m‚todo e na pr tica hist¢rica em relação aos do Iluminismo. A paixão deles pelos arquivos

era uma que não era partilhada com os filósofos. Os homens do Iluminismo festejaram o drama cl ssico e instrutivo que, para eles, constituía o passado, e assim falharam em fazer justiça ... variedade completa da experiência humana. A Voltaire, como diz Stendhal, "faltou

a alma compreensiva, uma qualidade necessaria em qualquer poeta. É

por isso que todos os seus personagens assemelham-se entre Si". 8 Ele

estava referindo-se ...s tragédias de Voltaire; poderia ter dirigido a

mesma crítica ...s histórias de Voltaire. Mas o compromisso profisãonal do historiador com a mudança não precisa ceg -lo para a universalidade da estrutura - que de qualquer maneira progride de uma

forma regular - mais do que o seu culto pela individualidade pode

eliminar a necessidade de fazer comparações ou generalizações. 0 historiador que iguala o seu ofício ao de contador de estorias e um praticante tão unilateral quanto o historiador impaciente com o que ele

chama de Phistoire événementielle. Soa quase banal dizê-lo, mas é

preciso que se diga mais uma vez: as agitadas correntes da mudança

recobrem, algumas vezes até a invisibilidade, as mudanças lentas e

profundas dos desejes, gratificações e frustrações persistentes do ser

humano. "0 sentido histórico", como T. S. Elliot uma vez colocou

de forma conveniente, é "urn sentido tão atemporal quanto temporal".' Mesmo Meinecke, o sumo sacerdote historicista do desenvolvimento e da singularidade, sentiu-se impelido, afinal de contas, a reconhecer algo semelhante em suas concessões um tanto relutantes a um

11 núcleo verdadeiro" na concepção do Iluminismo sobre o passado,

e assim a uma certa "persistência" das "qualidades humanas b sicas",

H uma justiça poética no fato de Goethe, que os historicistas consideram como o seu santo padroeiro, algumas vezes ter dado apoio

eloqüente a uma postura anti-historicísta. Na Noite Cl ssica de Valpúrgia, no Fausto, ele faz com que Mefistófeles queixe-se de que tinha

ido ...s fantasias noturnas para encontrar estranhos e só tinha, que

tristeza, se defrontado com parentes próximos. Era, disse, uma velha
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estória das Montanhas Harz na Alemanha para a Grécia distante nada além de primos:
Hier dacht ich lauter Unbekannte

Und finde ich leider Nahverwandte;

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Es ist ein altes Buch zu bldtiern:



Von Harz bis Hellas immer Vettern!
0 porta-voz de Goethe aí, é claro, é um dem"nio, entediado,

cansado deste mundo, sarc stico." Mas sua observação, induzida por

um desfile sedutor de vampiros eróticos e dem"nios femininos, sugere

uma verdade geral que os estudiosos da humanidade, de Goethe até

Freud, têm estado bastante conscientes: as manifestações prementes

e insaci veis das fantasias sexuais, apesar de suas formas individuais,

constituem uma família de desejo. Os historicistas tendem a iluminar

essas semelhanças fundamentais.


0 mais enf tico dos historiadores sociológicos certamente não

negara a realidade do movimento; nem o mais devoto dos discípulos

de Ranke negar a realidade da permanência: o clichê gasto, "conti,,nuidade e mudança", geralmente usado para funcionar como um cesto

/que abriga coleções de ensaios heterogêneos, atesta isso. H lugar na

profissão histórica seja para aqueles que como Namier ou Braudel

analisam estruturas, seja para a maioria que narra seqüências, A

maior parte dos historiadores não pode deixar de fazer ambos. Certa ente, a questão é de ênfase, Mas enfatizar produz uma diferença.

Afinal de contas, o historiador que admite abertamente que est tra balhando com a idéia de natureza humana invoca entre a maioria dos


PI

apil


mm
seus colegas a visão intrag vel de classificações anêmicas, e de reiterações est ticas e monótonas que violam a experiência do passado

como algo diversificado, em desenvolvimento e intermin vel. Mas de

fato a natureza humana tem a sua própria história; a mudança é um

conjunto de variações sutis que o mundo executa de acordo com

temas indefinidos e persistentes.
Se é a mudança, portanto, que torna a história possível, é a persistência que fundamenta a compreensão histórica. Como o jogo de

xadrez, a natureza humana constrói uma variedade dram tica e inesgot vel a partir de poucos elementos e regras. Ainda assim as discriminações devem ser feitas e são possíveis. A asserção de David Hume

de que "a história não nos informa sobre nada de novo ou de estra

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nho" a respeito das paixões e das condutas humanas parece ser

indevidã`Me-nte---pessimista:para o pra ticante experiente como para

o psicanalista tarimbado - ..._Ei-sí~ó ias de vida retêm a sua capacidade para gerar o novo e o esfranh~õ-. Mas ela-s se movem ao longo

...e í~i-IÉas--farí~i-liares,--õc-orréii-dõ em - momentos mais ou menos antecip veis. É por isso que a história - como a psicanálise - é parcialmente previsível e ainda assim invariavelmente fascinante. A natureza humana faz muito a partir de pouco.


2. As pulsões e suas vicissitudes
As experiências do historiador e do psicanalista com os seus

materiais humanos convergem e se sobrepõem; ainda assim a percepção do psicanalista da natureza humana, obviamente, não parece ser

útil para as preocupações do historiador. Sua relevância tem de ser,

como se poderia dizer, insistentemente destrinchada. A base sobre a

1 qual a teoria psicanalítica se apóia para afirmar a continuidade da

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experiência é a alegação de que todos os homens partilham de algumas precondições inevitavelmente universais, 0 homem entra na vida



como o mais incompleto dos animais, necessitando pateticamente de

alimentação e proteção por parte dos outros; nasce com poucas pulsões instintuais cuja plasticidade, com toda a sua tenacidade, é educ vel para o bem ou para o mal. 0 inconsciente, Freud escreveu no

seu grande artigo de 1915 sobre o tema, "est vivo, e é capaz de

desenvolvimento". A aprendizagem realiza o trabalho sobre instintos

programados com precisão, parte do legado partilhado com outros

seres sensiveis - e e por isso que o homem é um animal preponderantemente cultural, Muito da informação que outros animais-trazem

E-sorve ( --em seus genes, a criança a sorve te---seuíã-e-UO-.Coíhd todos nós sabemos, os modos alimentares e de treinamento variam drasticamente

entre culturas, regiões, classes e mesmo, embora menos acentuadamente, entre famílias. Mas a necessidade de cuidados e de tutela durante anos é comum a todos os homens. 0 que Freud chama de "a

longa dependência e desamparo da infância" ` é uma realidade biológica inescap vel com conseqüências psicológicas variadas mas previsíveis. Transforma o historiador moderno, o egípcio antigo, o indígeria kwakiut], para retornar ao mundo de Goethe, em primos.
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Mas, embora seja muito mais livre do que outros animais nas

adaptações que ele possa construir e nas defesas que possa desenvol#


ver, o homem não é um todo sem as pulsões instintuais, e estas, male veis como são, assinalam as semelhanças de família que a sua tutelagem prolongada acabou por impor a ele em primeiro lugar. Entre

essas pulsões, a sexualidade e a agressão ocupam um lugar central

para o psicanalista. E essas duas pulsões, arnadurecidas, combinadas,

disfarçadas, servem como combustível para a ação humana. Elas fazem a história.
Seria ocioso alegar que a teoria freudiaria dos instintos est totalmente livre de obscuridades. 0 próprio Freud nunca se satisfez com

ela, e atribui algumas de suas dificuldades ... posição prec ria que as

pulsões instintuais ocupavam na biologia e na psicologia de sua época.

A região dos instintos, afirmou em 1932, é uma região "na qual lutamos laboriosamente por discernimentos e direções"; para ele, a teoria dos instintos era a "nossa mitologia". Pulsões, disse, "são entidades místicas, esplêndidas na sua indefinição" .12 Ele escreveu isso uma

década após ter exposto a sua teoria estrutural na qual revisou a sua

concepção sobre as pulsões e deu ao seu dualismo final uma forma

tão decisiva que muitos psicanalistas recusaram-se a segui-lo em todas

as suas conseqüências. Nos anos iniciais, Freud postulara dois conjuntos de instintos - sexuais e egóicos - um a serviço da perpetuação da raça humana, o outro, da do indivíduo. A seguir, no início

da década de 20, confrontou as poderosas eneregias criadoras de Eros

com energias igualmente poderosas e destrutivas, as do instinto de

morte. Mas de nenhuma maneira a confusão foi feita por ele. j citei

Lawrence Stone, que assinalou, numa crítica severa ... pretensa rigidez

freudiana, que "a pulsão sexual não é uniforme", mas "var ia enormemente de indivíduo para indivíduo". Na realidade, Freud disse o

mesmo e melhor.


De fato, disse-o com freqüência e com clareza." Freud reconheceu que a constituição biológica varia de criança para criança: suas

dotações inatas de força pulsional. ou sensibilidade ... estimulação, ou

sua predisposição ... ansiedade, são peculiares a cada uma. Não é

um problema para a teoria psicanalítica que existam bebês serenos e

bebês agitados: analistas infantis j exploraram muito esse fato. Além

do mais, os psicanalistas consideram que as pulsões não são simples,

meros impulsos manifestando uma necessidade simples e única, mas

conglomerados, feitos a partir de desejos freqüentemente discordan

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tes que lutam por satisfação. Situados na linha limítrofe " entre o

mental e o som tico", as pulsões instintuais diferem de acordo com a

sua origem, sua pressão, seu objetivo e, acima de tudo, seus objetos.

De fato, o objeto, Freud argumenta enfaticamente, "é a coisa mais

vari vel a respeito de uma pulsão; na sua origem ele não est ligado

a ela, mas lhe é atribuído na medida em que se mostra adequado

para tornar possível a satisfação". No curso da sua história de vida,

11 pode freqüentemente ser alterado ... vontade"." Assim, a atribuição

de objetos eróticos, como suas vicissitudes - o amor por si mesmo

ou pela mãe, por um colega ou pela esposa -, é em larga medida o

trabalho da cultura traduzido em representações mentais no indivíduo. 0 que eu disse anteriormente sobre a natureza humana em geral

aplica-se ...s pulsões em particular, e pela mesma razão: elas têm a

sua história.
Neste ponto a teoria psicanalítica e a experiência do historiador

sobre a natureza humana podem convergir de maneira proveitosa. 0

ponto de vista psicanalítico das pulsões d conta tanto da sua uniformidade como da sua variedade; a proposição de que as pulsões formam um conglomerado unido em uma família de impulsos que busca

satisfação oferece boas razões para que o historiador reconheça e analise motivos humanos de indivíduos e sociedades longínquas sem os

reduzir a cópias p lidas de seus próprios traços culturais. 0 grupo

de pulsões conhecido coletivamente como agressão - um termo um

pouco menos solene através do qual a maioria dos psicanalistas traduziu o instinto de morte freudiano - revela um repertório ainda

mais amplo de campos possíveis para ação do que a pulsão sexual,

sem ocultar completamente a sua origem comum.
A mesma mistura de plasticidade e similaridade caracteriza os

mecanismos de defesa. É uma constante da vida humana - outra

experiência comum articulada em uma variedade impressionante de

formas embora não ilimitada - que a criança veja pelo menos

alguns de seus desejos como ameaças ... boa opinião que ela tem

de si mesma ...s suas necessidades de amor e de aprovação pelos

outros, e, nos casos mais extremos, ... sua própria sobrevivência. 0

psicanalista, ao refletir sobre o funcionamento da mente, vê a fuga,

a atenuação de conflitos que nunca são completamente dominados,

e inclina-se a tratar a vida como uma tragicomédia de desejos insatisfeitos e realizações arriscadas, de advertências ansiosas e restrições


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defensivas problem ticas. A natureza humana em ação parece con#

vidar, de fato impor, compromissos inst veis que estabelecem repetidamente e, quase com a mesma freqüência, se evadem a acomodações

fr geis entre as facções em luta na mente. "Se não existisse uma coisa

o a-le(


como natureza humana (uma doutrina que f leci-Jõ-p~rofessor Col.

lingWoOd esFaVrmuito---PrUdimo de-endossar~)_", eÍcréveu uma vez o

historiador i_ngI:U Ri-c-hãr"ares e 1 M um ensaio criterioso sobre a profissão histórica,_ _"não se poderiam estabelecer com segurança quaisquer leis gerais, nada poderia ser previsto, nem se poderia até mesmo

chegar ...~-&e-te-c-tar algo na história. Ainda assim a próp~ia _natureza

hum fia varia no teffipd, como resultado d-o-pro-cesso histórico, e não

trat -lardess---a f"rma torna a história sem vida"." Variedade na uniformid de-,-u-niformidade-por tr s da variedade - não h nada no enunciado de Pares que constitua uma exceção para o psicanalista.


A instância mais reveladora (e a mais problem tica) sobre o funcionamento da natureza humana é provavelmente a do complexo de

Édipo." Com um convencimento perdo vel, Freud alegou que se sen-

tia orgulhoso pela descoberta, pois exibia com força excepcional as

vicissitudes das pulsões, a atividade propositada das defesas e o drama do desenvolvimento. Psicanalistas posteriores não prezaram menos esse triângulo. Aquela incredulidade que Sidney Hook encontrou

quando pedira a psicanalistas que imaginassem uma criança sem o

complexo, e que o tinha irritado tanto, é altamente instrutiva: o complexo de Édipo é, para eles, a experiência crítica do desenvolvimento,

a que torna o homem humano. Ainda assim historiadores não hesitam em ridiculariz -lo. Para A, 1. P. Taylor, por exemplo, que imagina em voz alta "Como alguém pode levar Freud a sério?", o complexo de Édipo foi somente uma das idéias "brilhantes" de Freud, o

que significa para ele uma idéia ridícula .17


Contudo, embora fosse uma idéia brilhante, não tinha nada de

ridícula. Era apenas bastante complicada. Freud não viu nenhuma

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