Freud para historiadores



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versão simples e dominante do complexo mesmo entre os seus contemporâneos ou entre os seus compatriotas austríacos; e pensou, como

sabemos, que a forma em que é resolvido ou recalcado depende fortemente da "influência da autoridade, do ensinamento religioso, da

educação, das leituras feitas". Estendendo-se através das épocas e das

culturas, suas voltas e reviravoltas quase desconcertam pela sua engenhosidade. Em poucas palavras, o triângulo edípico que Diderot descreveu toscamente em Le neveu de Rameau (uma descrição que Freud


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citou mais de uma vez com prazer) pode ser o mais familiar, mas é

também a sua forma mais primitiva: "Se o pequeno selvagem" esta é a forma pitoresca com que Diderot se refere ao filho do primo

de Rameau - "fosse deixado a si mesmo, ao preservar toda a sua

tolice e ao acrescentar, ao pequeno sentimento de uma criança no

berco, as violentas paixões de um homem de trinta, estrangularia o

seu pai e dormiria com a sua mãe"."' Esse é o complexo de Êdipo


/~sobre o qual as pessoas ouvem falar: no curso do desenvolvimento

psicossexual, o menino descobre desejos apaixonados pela sua mãe e

um sentimento igualmente apaixonado de rivalidade em relação ao seu

pai. As conseqüências dessa irrupção na vida juvenil são monumentais, tanto no momento como nos anos seguintes. 0 superego do menino - a sua consciência e a panóplia de seus sentimentos de culpa

- é o herdeiro do complexo de Édipo; amedrontado pela veemência

de seus desejos e ameaçado pelas fantasias (e talvez pela realidade)

da retaliação adulta, desiste de buscar a mãe, internaliza o ódio e as

proibições do pai, e, quando crescer - se tiver sorte - vai procurar

objetos mais adequados, ou seja, não incestuosos, para gratificar as

suas necessidades eróticas.


A maioria dos não analistas que define o complexo de Édipo,

quer o aceite como um fato razo vel, quer o rejeite como uma ficção

extravagante, p ra por aqui. Para o freudiano profissional, contudo,

essa versão do complexo é somente o seu começo. Ao perquirir e ao

clarificar esse impressionante encontro doméstico, Freud expandiu e

tornou o seu funcionamento complicado em todas as direções. Não

o limitou aos meninos: as meninas também passam pela fase edipiana,

ao adorarem os seus pais e ao antipatizarem com as suas mães. Nem

duvidou que as diferentes classes e culturas o experienciavam de uma

forma distinta. Mencionou explicitamente que o "complexo de Édipo

simples" não é "de nenhum modo o mais freqüente"." Para ele, o

complexo é um exemplo poderoso da ambivalência fundamental e

inerradic vel do homem - a coexistência freqüentemente insolúvel

de amor e ódio. A criança não apenas odeia o seu rival sexual, mas

o ama ao mesmo tempo; esse é o esforco, tão difícil de ser manejado

pelos jovens, que leva a fase edipiana ... sua pungência. 0 complexo

de Édipo tem sido chamado de maneira sensível de uma escola para

o amor, 20 pode ser chamado, com igual pertinência, de uma escola

para o ódio. Ambas as formulações enfatizam apropriadamente a sua

função pedagógica: o complexo de Êdipo é no m ximo uma escola,


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uma fase do desenvolvimento que serve não apenas para gerar neuroses, mas também para domesticar emoções e canaliz -las para for#

mas legítimas. Simultaneamente expoe a criança as suas paixões e

ensina-a a lidar com elas. E ramifica-se pelo campo da vida mental

desde os anos da infância, ao deixar os seus traços de ambição e resignação, até os tabus mais energicamente protegidos pela cultura.


Não é f cil sentir a presença malcasada de desejos eróticos

veementes com desejos destrutivos. Sua energia, assim como seus

alvos, expõem a criança ...s dificuldades do destini humano desde um

marco muito precoce da sua vida, quando ela est mal preparada

para a violência de tais ataques. Tudo o que se sente, em uma caudal

de sentimentos prementes e conflitivos, é a probabilidade - o proprio desejo - da derrota. Pois se est vagamente consciente de que,

se os desejos forem satisfeitos, as conseqüências serão catastróficas;

se forem detectados, a punição ser terrível; se forem frustrados o resultado mais prov vel - o desapontamento ser agudo. 2om certeza, a criança na maioria das vezes exercita os seus violentos crimes

de paixão apenas na sua mente ou em gestos ocasionais e patéticos,

verbais ou físicos; demasiadamente pequenas e fracas, não podem

traduzir emoções incipientes em ações explícitas. Mas isso não diminui os riscos; para a criança, desejar e fazer são idênticos, e cometer

assassinato ou incesto em pensamento é tão imperdo vel quanto fazêlo na cama paterna. A fase edipiana pode ser uma escola, mas é

uma escola difícil, e suas lições podem nunca ser absorvidas de uma

forma completa ou feliz.


Um dos aspectos mais proeminentes e ainda assim menos considerados do complexo de ]Édipo é a sua interação contínua com a cultura: desde os primeiros anos de suas descobertas em diante, Freud

sublinhou a sua variabilidade através da sua comparação sugestiva

entre Oedipus Rex e Hamiet: "0 tratamento diferente do mesmo material" nessas duas peças, assinalou antes de 1900, "revela toda a

diferença na vida mental dessas duas épocas culturais tão amplamente separadas: o avanço secular do recalque na vida emocional da

humanidade". Enquanto que em Oedipus Rex "a fantasia desejante

fundamental da criança é trazida ... luz do dia e realizada como em

um sonho", em "Hamlet permanece recalcada; e só ficamos sabendo

da sua existência - semelhante ao que ocorreria em uma neurose a partir das operações inibidas que decorrem dela"." A leitura freudiana de Sófocles e de Shakespeare permanece aberta a discussões.2'


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Mas o ponto em questão aqui é que Freud, embora insista sobre a

persistência e a proeminência do complexo de Édipo através da experiência humana, nunca desprezou o seu possível campo de expressão ou as suas dimensões sociais. Assim, esse próprio complexo, contrariando a sua reputação de ser um ponto fixo ou rígido, um itiner rio invariante que todos os homens em todas as épocas devem

atravessar, testemunha a orientação essencialmente histórica de Freud.
Este r pido esboço sobre um dos discernimentos freudianos mais

controvertidos deve corrigir leituras familiares e inadequadas. Deve

afastar de uma vez por todas o mito popular de que ele é a encarnação da Viena do final do século XIX. Mas o registro das respostas

dos historiadores não d muita razão para ser otimista. Ao considerar

a proeminência que Freud deu ao complexo de Édipo, não é de se

espantar que ele tenha'gerado um debate veemente além de alguma

pesquisa sofisticada. Tampouco é espantoso que a controvérsia pública

tenha ocorrido com um completo desprezo pela literatura técnica. j

citei A. J. P. Taylor. De novo, o historiador popular americano Page

Smith deu precisamente o complexo de Édipo como "uma importante

razão pela qual a teoria psicanalítica é basicamente antitética com a

história". Sua objeção, como a entendo, parece ser não a de que se

tenha mostrado que o "conflito pai-filho" é incorreto, mas que é

deprimente. "Se tomado seriamente", escreve, o complexo de Êdipo

"destruiria a história", pois "a história escrita é em sua essência o

esforço para passar para os filhos a sabedoria dos pais, e assim preservar, mais do que destruir, a continuidade entre as gerações", dado

que Freud não oferece nada mais do que "um processo eterno e agonizante de rejeição". Realmente a experiência edipiana faz exatamente

o que Smith parece desejar: gera o tabu do incesto e as aflições da

consciência na criança, e assim passa para os filhos a sabedoria dos

pais. David Hackett Fischer tem uma objeção um pouco mais sólida;

no seu ataque sobre as fal cias de outros historiadores, descobre uma

falha no antropólogo inglês Geoffrey Gorer por ver "a relação histórica entre a Anglo-América e a Europa em termos de um complexo

de Êdipo nacional", e rejeita como excessivamente peculiares as tensões político-familiares que Gorer desenterrou." Ele tem razão, mas

tal reducionismo viola o espírito não apenas da história mas também

da psicanálise.
Reducionismo é sem dúvida uma das tentações constantes da psico-história, e terei oportunidade de coment -la mais tarde .24 Aqui
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quero apenas assinalar que a evidência predominante originada da

psicologia experimental, da sociologia e da antropologia sugere fortemente, embora não prove de forma conclusiva, uma boa adequação

entre a teoria freudiana e a experiência humana - em todos os lugares, 0 triângulo edipiano aparece em todas as culturas registradas,

mesmo nas ilhas Trobriand, esse esplêndido laboratório natural dos

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antropólogos no Sul do Pacífico e que gerou tanta controvérsia entre



os cientistas sociais, incluindo o alcance do drama doméstico ambivalente que Freud descobriu inicialmente em si mesmo.'5 0 complexo

de Édipo parece ser o destino do homem em todos os lugares, e deixa

suas marcas tanto nos locais esperados como nos exóticos: na política

e na religião, na educação e na literatura, mesmo no mercado. 0

impacto do amor ilícito e do ódio profundo no tabu do incesto tem

sido um tema proeminente nos mitos antigos e nos romances modernos, e testemunha a vitalidade das paixões meio enterradas da

criança em relação aos seus pais na vida posterior e no mundo em

geral. As met foras familiares que escritores têm utilizado durante

séculos para caracterizar a natureza da autoridade governamental, as

relações de Deus para com o homem, a responsabilidade dos donos

de f bricas para com os "seus" empregados e uma série de outras

misturas de poder, amor e crueldade são mais do que tropos liter rios. 0 debate sobre a onipresença e a centralidade do complexo de

]Édipo é tudo para o historiador, menos uma questão acadêmica, As

met foras podem tornar-se marcas lingüísticas aviltadas, gastas pela

passagem do tempo e depreciadas por desvalorizações freqüentes da

moeda retórica. Mas mesmo aí, talvez principalmente aí, são pistas

esplêndidas para um aspecto universal do funcionamento da natureza

humana.
3. Anatomia do interesse privado


Uma razão poderosa, estou convencido, para que os historiadores tenham resistido ... atração da versão psicanalítica da natureza

humana é o seu comprometimento com o domínio do interesse privado nas questões humanas. 0 interesse privado não invoca nada da

artilharia pesada do complexo de Êdipo, dos desejos inconscientes,

dos conflitos ocultos ou do resto do arsenal freudiano; nada disso

parece necess rio para explicar por que os industriais clamam por

tarifas mais altas, as companhias químicas sabotam os inspetores de


sq

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saúde, os especuladores imobili rios passam com o trator sobre lugares históricos, os editores de revistas são favor veis a tarifas postais

mais baratas ou os almirantes criam grupos de pressão para aumentar

o orçamento naval. 0 interesse privado explica, pelo menos para a

satisfação da maioria dos historiadores, o desempenho de diplomatas

durante negociações, o movimento de tropas através de fronteiras, as

manobras políticas de grupos que competem ferozmente entre si, conhecidos, de forma bastante significativa, como "grupos de interesse".

Explica por que os príncipes protegeram Lutero e Bismarck adulterou

despachos, os trabalhadores entram em greve e os do campo estabelecem padrões sazonais de migração: a sobrevivência também é um

interesse. Os historiadores sabem, e podem reunir exemplos impressionantes a qualquer momento de como os políticos querem ter poder,

os executivos empresariais ganhar dinheiro e os generais guerrear. Se,

para a psicanálise, o homem é um animal desejante, ele é, para o

historiador, um animal egoísta. Os dois não são idênticos: o primeiro

luta para reduzir as suas tensões sob a pressão contínua do seu inconsciente; o segundo vive sob o controle do egotismo consciente.
Certamente os historiadores, h muito, têm razões suficientes

para saber que o homem não vive apenas de um planejamento centrado sob ele mesmo. Eles encontraram e procuraram extrair o sentido da autoridade do costume e da lealdade, do fervor suicida do

fan tico e do ódio tenaz do sect rio. Ficaram intrigados com a força

dos sentimentos religiosos e nacionalistas. Georges Lefèbvre, com os

seus ciclos de pânico, ressentimento e vingança, não é um estranho

solit rio na sua profissão .26 Um historiador da economia, sofisticado

como Thomas Cochran, reconheceu que é precisamente enquanto historiador da economia que deve ultrapassar os limites tradicionais de

sua disciplina: "Cada cultura tem as suas próprias formas de irracionalidade ou inconsistência econ"mica. Em algumas, é uma responsabilidade excessiva para a família do empres rio. Em outras, como nos

Estados Unidos, uma forma pode ter sido a de um otimismo exagerado

e persistente". Segue-se, para Cochran, que "as decisões econ"micas ou

, orientadas pelo mercado' não dependem de uma reação autom tica,

mas da interpretação do empres rio sobre as forças e tendências do

mercado". A necessidade de uma psicologia est implícita nessas afirmações. Torna-se explícita nos ensaios originais de Richard Hofstadter, que se especializou sobre o lado apaixonado da política americana, mas que nunca esteve, ao mesmo tempo, disposto a ver a polí

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tica simplesmente como um teatro: "Em todas as épocas existem 11 ,

escreveu, "duas espécies de processo ocorrendo em íntima conexão

um com o outro: a política de interesses, o choque entre objetivos

materiais e necessidades dos diferentes grupos e blocos; e a política

de status, o choque entre as v rias racionalizações projetivas que surgem de aspirações a status e de outros motivos pessoais"."


#

Alguns historiadores estão agora aceitando, como ponto pacífico,

essa psicologia discriminativa. Em um ensaio esclarecedor a respeito

do desenvolvimento econ"mico durante a Monarquia de Julho, Christopher Johnson menciona, de passagem, a "pequena nobreza presunçosa 11 que, aversa a especulação, "procurou principalmente rendas

est veis e prestígio social a partir de suas propriedades fundi rias".

0 modo pelo qual a pequena nobreza definiu o seu interesse privado

estava longe de ser grosseiro; decidiu não arriscar nada e além do

mais reduzir a incerteza - o adjetivo "presunçosa" oculta uma variedade de manobras defensivas das quais não est ausente a ansíedade. De novo, Johnson descreve outra força social poderosa, "Ia

haute banque de Paris", como estando "dividida entre a defesa de

interesses corporativistas (acima de todos, o do Banco da França) e

os lucros a serem obtidos a partir de investimentos em transporte e

na indústria". Não estou propondo que nos sintamos tristes por esses

magnatas financistas atormentados, mas é marcante como, ao se defrontarem com sinais incertos e contraditórios, caem vítimas de um

conflito; suas estratégias de investimento não são simplesmente decisões racionais sobre a vantagem m xima -- embora também o fos

sem. São também o produto de debates privados nos quais a vontade

de jogar se opunha ao medo de fracassar. Podemos ler o ensaio de

Johnson como um psicodrama, no qual o assumir riscos triunfa no

final sobre a timidez: "Mais importante do que a forma de fazer política e legislação foi a imagem de uma monarquia burguesa". Em

poucas palavras, as percepções contam mais do que os fatos, embora

seja suficientemente óbvio que os fatos forçosamente impõem-se ...s

percepções. No final da década de 1840, "em toda a França, cantão

após cantão " , a maioria dos "empregadores como dos empregados,

tanto rurais como citadinos, iinham adotado a idéia de progresso econ"mico. Uma espécie de mania de melhorar parecia ter dominado a

nação". Sem dúvida foi por isso que Johnson escolheu como sua epígrafe uma observação do influente banqueiro Émile Péreire, "Le

crédit, c'est Ia confiance", que liga os sentimentos ...s finanças." Re

q 1


#

petidas vezes, o ensaio de Johnson recorre ... linguagem do interesse

privado, e é, certamente, verdadeiro que a confiança, pelo menos em

parte, é filha do c lculo. Mas é um efeito que se torna uma causa.

Dizer, como Johnson faz, que durante os anos de 1840 os financistas,

os investidores, os industriais e os comerciantes franceses redefiniram

o que percebiam como sendo do interesse deles é convidar a uma

an lise da motivação e da conduta que vai além do mero interesse

privado,
Certos historiadores, contudo, têm aperfeiçoado completamente

as suas idéias simplistas sobre o primado da motivação autocentrada

na história. Mas muitos, mesmo entre eles, para não falar dos outros,

acham irresistível o interesse privado, 0 que reforça o seu racionalismo é sem dúvida encontrarem uma influência mais imperiosa do

interesse privado naquelas esferas que assomam mais no seu trabalho: na política e na economia e, acima de tudo, naquela região

ampla e limite onde a política e a economia misturam-se e fundem-se.

Os mundos do comércio e da indústria, da diplomacia e da guerra

são, na maioria dos livros de história, selvas hobbesianas, onde gladiadores batem-se aberta e continuamente. Quanto mais altas as apostas em termos de lucros e poder, menos se oculta, aparentemente, a

dose de interesse privado em ação. E as apostas na verdade tornam-se

muito altas, em grande parte porque os recursos pelos quais os interesses competem são quase sempre escassos. 0 interesse privado, o

historiador é levado a reconhecer, altera as coisas, mesmo quando

se mostra, no seu julgamento, mal concebido, vicioso e possivelmenie

autodestrutivo.2'
Qualquer que seja a política do historiador, a sua an lise do interesse privado tem geralmente algo de ir"nico, de ilusório nela: numerosas vezes o interesse espreita, enquanto motivos torpes não reconhecidos que aparecem como preocupações elevadas. Os sentimentos manifestamente morais ou patrióticos não podem afastar - ao contr rio,

estimulam - a curiosidade crítica do historiador a respeito do seu

conteúdo latente: a paixão por levar vantagem. Assim, na sua dissecação célebre sobre os interesses que governavam os Pais da P tria,

Charles Beard argumentou que o nível elevado do debate a respeito

de um instrumento como a Constituição dos Estados Unidos era um

disfarce para proteger investimentos. "Diferentes níveis e espécies de

propriedades existem inevitavelmente na sociedade moderna", afirmou

Beard: "doutrinas partid rias e 'princípios' " - e Beard coloca "prin

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cípios" entre aspas para sublinhar a sua distância ir"nica em relação

aos heróis do folclore americano - "originam-se de sentimentos e

de pontos de vista que a posse de v rias espécies de propriedades

cria nas mentes dos propriet rios; divisões de classe e de grupo baseadas na propriedade estão na base do governo moderno; e a lei

política e a constitucional são inevitavelmente um reflexo destes inte#

resses em choque".30


De forma muito semelhante, o dissidente radical e historiador

alemão Eckart Kehr descobriu h mais de meio século as maquinações de interesses domésticos por tr s da campanha enérgica, desencadeada na década de 1890, para financiar a expansão da marinha

imperial. Esse programa ambicioso foi travestido na linguagem do patriotismo, do orgulho pelo lugar da Alemanha no mapa estratégico

e da preocupação com os esforços da Inglaterra para isolar o Imperio

Alemão. Mas, Kehr acusou, era na verdade uma série de manobras

sórdidas planejadas para ganhar dinheiro e influência. Franz Neurrianti,

na trilha de Kehr, resumiu o caso em Behemoth, seu estudo influente

a respeito da Alemanha nazista e de seus antecedentes: o Imperio

Alemão fundado em 1871 foi um projeto imperialista que mobilizou

suas forças ao expulsar os liberais da burocracia, ao transformar o

exército em uma "força reacion ria 11 e, finalmente, ao reconciliar os

interesses do "capital rural e do industrial". Propriet rios de terra

exigiam taxas alfandeg rias para melhorar a sua condição prec ria;

industriais exigiam um mercado livre para manter as matérias importadas baratas e os sal rios baixos. "Urn acordo histórico", conclui

Neumann, "acaba com o conflito. Os grupos industriais estavam impulsionando um grande programa naval e os terraterientes, que antes

tinham sido hostis ou indiferentes, concordaram através do seu orgão

principal, o Partido Conservador Prussiano, em votarem a favor do

orçamento naval em troca do apoio dos industriais a taxas alfandegarias protetoras 11.31


Essa postura crítica não é de nenhuma forma nova para os historiadores: dois séculos antes, Edward Gibbon teve o prazer indisfarç vel de desmascarar os motivos ocultos dos estadistas romanos,

a feia realidade política por tr s da retórica constitucionalY Essa gratificação levemente lasciva, quase voyeurista de descobrir o oculto

continua a desfrutar de uma prosperidade not vel entre os historiadores. Não e por acidente que gostam de ver o interesse privado,

uma vez que o tenham exibido, de forma nua." Ainda assim, apesar


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de toda a fascinacão pelo interesse privado, os historiadores raramente preocupam-se em analisar o seu estatuto psicológico ou investigar

a sua incidência real na vida humana.


Preciso acrescentar que, nessa questão crucial, os psicanalistas

têm sido de pouca valia. Em um dos seus artigos sobre a psicologia

do ego, Heinz Hartmann enumera os 11 esforços pelo que é 'útil', o

egoismo, a presunção" entre as "funções do ego", e sugere de passagem que são atividades importantes, especialmente relevantes para os

cientistas sociais, Ele est falando a respeito da busca pelo interesse

privado. Mas enquanto reconhece que "a importância dessas tendências tem sido uni pouco negligenciada", não faz nada, seja nesse arti 34 "

go ou em outro para repara Ia. Interesse" ou "interesse privado"

ou mesmo "interesse do ego" não aparecem no índice remissivo da

antologia de artigos de Hartinarin; nem a literatura psicanalítica revela mais do que algumas alusões perfunctórias ...quilo que o homem

comum, o moralista, o cientista político - e o historiador - têm

tratado como o mais potente dos impulsos humanos. Em alguns dos

seus artigos metapsicológicos, Freud refere-se de forma casual ao interesse, e o liga, quase o identifica, ... libido ou ao investimento de

energias mentais, mas nunca deu andamento a essa sugestão fértil."

0 interesse privado não tem sido algo negligenciado, como observou

Hartmann - tem sido totalmente negligenciado.
Uma exploração sobre como os historiadores podem legitimamente utilizar a idéia de interesse privado e como os psicanalistas

podem contribuir para ela com os seus estudos dos impulsos e conflitos inconscientes est , portanto, por fazer h muito tempo. Afinal

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