Fátima Nogueira Gonçalves de Sousa



Baixar 86.26 Kb.
Encontro27.07.2016
Tamanho86.26 Kb.
ANÁLISE DO NÍVEL DE ESTRESSE E DA ANSIEDADE EM BAILARINOS E BAILARINAS PROFISSIONAIS NA PRÉ-ESTRÉIA DE UM ESPETÁCULO DE DANÇA

Fátima Nogueira Gonçalves de Sousa

Mestre em Educação Física – Universidade Católica de Brasília – UCB. Professora do Curso de Graduação em Educação Física do UnilesteMG e Coordenadora do Curso de Educação Física do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais - UnilesteMG.




Myriam Evelyse Mariani


Doutora em Dança Educacional (University of Wisconsin, Madison, WI-USA). Mestre em Educação Física e Dança (Colorado University, Boulder, CO-USA). Coordenadora dos Programas de Iniciação Científica: PIC e PROBIC-FAPEMIG do Unileste-MG. Editora das Revistas: DOXA, Principium: iniciação científica no Unileste-MG, e Revista On Line Unileste-MG.

Dietmar Martin Samulski

Dr. Em Psicologia do Esporte (Universidade do Esporte de Colonia, Alemanha). Professor da Escola de Educação Física – UFMG, Coordenador do Laboratório de Psicologia do Esporte – LAPES, do Centro de Excelência – CENESP/UFMG. Presidente da Sociedade Brasileira de psicologia do Esporte (SOBRAPE).

RESUMO


O objetivo deste estudo foi avaliar o nível de estresse e ansiedade em bailarinos e bailarinas profissionais na pré-estréia de um espetáculo de dança. Para a coleta dos dados foi desenvolvido um questionário, específico para a área de dança, visando avaliar situações de estresse psíquico, utilizando-se de uma escala Likert. Este questionário foi constituído de dezessete perguntas que incluem a avaliação de sintomas psicológicos e fisiológicos e de um item que aborda um sintoma sociológico. Participaram do Projeto Principal da pesquisa, quatro grupos profissionais de dança de Belo Horizonte: Grupo Corpo, Companhia de Dança de MG, Primeiro Ato e Grupo Camaleão. Para análise dos dados coletados foi utilizado o software Statistical Package for Social Sciences. A análise estatística das respostas ao questionário permitiu concluir que tanto os bailarinos quanto as bailarinas apresentaram sintomas bem definidos que indicaram a presença de estresse e ansiedade por ocasião na pré-estréia de espetáculos de dança. As bailarinas apresentaram mais sintomas e maiores escores que aqueles dos bailarinos, conclui-se que os mesmos têm comportamento diferente no que diz respeito à ocorrência de estresse e ansiedade. Qualquer variação na freqüência cardíaca pode estar relacionada à ocorrência de estresse e ansiedade. Foram feitas medidas uma semana antes e no dia da pré-estréia, cerca de uma hora antes da apresentação do espetáculo. A análise estatística dos dados mostrou que, no caso das bailarinas, a freqüência cardíaca aumentou no dia da apresentação, quando comparada a medida da freqüência cardíaca tomada uma semana antes da apresentação. A freqüência cardíaca dos bailarinos não mostrou variação estatisticamente significativa. Não ficou evidenciado se o estresse e a ansiedade alterados irão interferir na freqüência cardíaca.

Palavras-chaves: Bailarino profissional, folclore, partner, escala likert, Estresse Psíquico.
ABSTRACT

The purpose of this study was to assess the occurrence of stress and anxiety at the moment of a dance performance preview. A specific questionnaire was developed for the data collecting in the dance are, aiming to evaluate situations of psychic stress, utilizing a Likert scale. The questionnaire contained seventeen questions to evaluate psychological and physiological symptoms and one item that evaluated a sociological symptom. For the Principal Project were invited four professional dance groups from the same city: Grupo Corpo, Companhia de Dança de Minas Gerais, Primeiro Ato e Grupo Camaleão. The software Statistical Package for Social Sciences, was used to carry out the statistical is data analysis. The questionnaire’s data analysis allowed the conclusion that both male and female dancers, showed well-defined symptoms related to the occurrence of stress and anxiety during the dance performance preview. The female dancers showed more symptoms and higher score values than those for the male dancers, their behavior is different, as far as the occurrence of stress and anxiety is concerned. Any change in the heartbeat may be related to stress and anxiety’s occurrence, the heartbeats for both male and female dancers were measured one week before the performance and, at the preview day, one hour before the performance, using the apparatus Polar Favor’s brand equipment. The statistical analysis showed that for the female dancers, the heartbeat had an increase at the preview day, as compared with the heartbeat measured one week before the dance performance. The data indicated that the heartbeat for the male dancers didn’t change. It was not well defined that the occurrence of stress and anxiety had any influence on the heartbeat change.



Key-words: Professional Dancer, Folklore, Partner, Likert Scale, Psychic Stress.

INTRODUÇÃO


A redução dos níveis de ansiedade, estresse e depressão através do exercício físico pode melhorar o humor; aumentando o bem-estar físico e psicológico das pessoas, sugerem os autores Samulski, et all (1996).

A relação do exercício com a saúde física do ser humano está, atualmente, bem fundamentada e se desenvolve sobre uma base firme criada pelas pesquisas na área da Medicina Esportiva. No entanto, sendo o ser humano biopsicossocial, não é possível desprezar a importância da obtenção de conhecimentos na área da saúde mental e da qualidade de vida para que se possam compreender os efeitos da atividade física sobre o homem.



Existe um considerável corpo de pesquisadores que estudam a relação entre a atividade física, saúde mental e a qualidade de vida. Esse grupo de estudiosos é constituído principalmente por psicólogos do esporte dos países europeus e norte-americanos, Loehr (1997), Singer (1984) e Spielberger (1979). Entretanto, ainda não existem estudos sistemáticos específicos sobre a relação entre a atividade de dança e a saúde psicológica. Por este motivo, as pesquisas nessa área precisam ser fomentadas e intensificadas. Com a necessidade de se ter hábitos saudáveis de vida, a dança tem sido considerada como meio de combater os danos causados pela vida moderna, por isso nota-se um crescente aumento de grupos de dança no Brasil e no mundo.

A dança é, inegavelmente, considerada como uma das artes mais antigas que o homem experimentou. Baseado em registros feitos pelo homem através de figuras humanas encontradas nas paredes e tetos das cavernas na era paleolítica, pode-se perceber que o homem já dançava desde aquela época. Durante a caça, a colheita, nos momentos de tristeza, durante um casamento ou em homenagem aos deuses, o homem dançava sempre em forma de um ritual. Através dessa forma de expressão, o homem e a dança evoluíram, caminharam juntos revelando através da história a sua relação com o mundo e seus diferentes modos de vida.

A dança foi e permanece sendo uma das formas de expressão de vários acontecimentos que marcaram e continuam marcando época. Ela deu um grande salto ao abandonar seus valores tradicionais em busca de uma dança mais contextualizada que faz críticas sociais, políticas e morais.

Segundo Verderi (1998), a dança é a arte do movimento e, a partir dela, o homem pode demonstrar papéis sociais e também desempenhar relações dentro de uma sociedade seja ela qual for.

Uma das formas mais harmônicas e prazerosas de desenvolver o corpo é através da dança. Dançar é conseguir satisfazer as necessidades do organismo, não só pelo fator fisiológico que o movimento propicia, desencadeando trocas energéticas e ativando reações orgânicas, como para o bom desenvolvimento da mente, visto que, com sua enigmática estrutura, precisa liberar muitos impulsos nervosos para o perfeito funcionamento do corpo. Dessa maneira, acredita-se que um bailarino deve possuir pelo menos esse conjunto de qualidades e habilidades para ser considerado um profissional.

De acordo com o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Dança –SATED (http://www.espetáculo.com/sated/index.html), para alcançar o título de profissional nessa área, o bailarino deve ter alto nível técnico e apresentar melhoria constante de desempenho com o objetivo de alcançar a perfeição do movimento. A manutenção de um alto nível de qualidade física torna-se, pois, imprescindível aos profissionais desse ramo. Para tanto, é necessário aliar um plano de trabalho de preparação física ao estudo das expressões dramáticas de modo a encontrar o equilíbrio entre o contraste da força e da leveza com que o bailarino tem que, incansavelmente, lidar.

A aplicação de um método de trabalho, associado à rotina diária das aulas e dos ensaios, faz-se necessário para obter um desempenho de alto nível nas apresentações de dança. Há que se levar em conta que, para se alcançar esses objetivos, o profissional deve ter uma bagagem de anos de aulas práticas e de realização de espetáculos e temporadas de dança.

Um outro aspecto que deve ser considerado para a formação do bailarino é a questão psicológica, pois a preparação física só apresentará resultados positivos se estiver associada a um bom desempenho emocional.

Apesar de o estresse não ser um sintoma descoberto recentemente e não ser considerado uma doença, só no início do século XX é que começaram as pesquisas de seus efeitos na saúde física e mental das pessoas. Atualmente, o estresse é citado por alguns autores (Couto - 1987, Molina -1996 e Rojas - 1997) como a “doença” dos tempos modernos. O estresse pode ser definido, segundo Molina (1996), como qualquer situação de tensão aguda ou crônica, que produz uma mudança no comportamento físico e/ou no estado emocional do indivíduo. Mediante isso, desencadeará adaptações psicofisiológicas que podem ser negativas ou positivas no organismo. Tanto o agente estressor como seus efeitos sobre o indivíduo podem ser descritos como situações

A ansiedade e o estresse, em muitas pesquisas realizadas, têm sido considerados como sinônimos. De acordo com Spielberger (1979) e Hackfort (1988), a ansiedade é uma reação emocional frente ao estresse. A psiquiatria tradicional, segundo o autor Rojas (1997), estuda a ansiedade através de duas variáveis básicas, quais sejam a vivencial e a física, as quais são consideradas como a sua principal causa sintomatológica.

A ansiedade é sempre um estado de alerta do organismo que produz um sentimento indefinido de insegurança, podendo atuar em dois planos imediatos: o físico e o psíquico, o que poderá gerar sintomas de inquietude interior (desassossego, insegurança, pressentimento do nada, medos difusos, expectativa do pior) e de tensão motora (tremores, dores musculares, espasmos, incapacidade de relaxamento, tiques nervosos, rosto contraído). O aumento ou a diminuição da ansiedade tem muito a ver com o nível de informação do indivíduo.

São muitos os métodos recomendados para se combater o estresse. Rojas (1997), recomenda a dança como meio de minimizar os efeitos do estresse nas pessoas. Para ele dançar é transmitir e exprimir um sentimento, utilizando o corpo como veiculo deste processo. Através da dança, o indivíduo pode atingir uma forma superior de vida, experimentando o equilíbrio corporal e psíquico a que as pessoas legitimamente aspiram.

Por outro lado, quando se trata da apresentação de um espetáculo de dança, principalmente a pré-estréia, deve-se levar em consideração a influência de determinados fatores incluindo, dentre outros, o medo de errar, o esquecimento da seqüência coreográfica, a presença da platéia e de críticos da área. Desta maneira, os bailarinos profissionais poderiam estar sujeitos a pressões psicológicas, que os levam ao estresse e à ansiedade.

O presente estudo objetiva verificar a ocorrência de estresse e ansiedade em bailarinos e bailarinas profissionais, na pré-estréia de um espetáculo de dança.

Verificar se freqüência cardíaca é alterada quando os bailarinos ou bailarinas estão ansiosos ou estressados.

METODOLOGIA

Para a realização desta pesquisa, do tipo qualitativa descritiva, escolheu-se a aplicação de um questionário padronizado, objetivando verificar a ocorrência de estresse e ansiedade em bailarinos e bailarinas profissionais. Este instrumento com dezessete perguntas, o qual utiliza a escala Likert, aborda itens que incluem a avaliação de sintomas psicológicos, fisiológicos e sociológicos, os quais estão relacionados com a ocorrência de estresse e ansiedade. Cada pergunta do referido questionário tem quatro possibilidades de respostas, com a seguinte pontuação: nunca (1), raramente (2), algumas vezes (3) e a maioria das vezes (4).

O outro instrumento utilizado no projeto principal foi o freqüencímetro, da marca Polar.

A Amostra para o Projeto Principal constituiu-se de trinta bailarinos com idade média de 30,9 anos (desvio padrão=5,0) e trinta e quatro bailarinas com idade média de 27,6 anos (desvio padrão=6,7), integrantes dos seguintes grupos de dança: Grupo Corpo, Companhia de Dança de Minas Gerais, Primeiro Ato e Grupo Camaleão. Setenta e oito por cento desses bailarinos são cadastrados no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Dança de Minas Gerais (SATED). Deve-se salientar que todos os bailarinos e bailarinas de cada um dos quatro grupos, sem exceção, participaram da Amostra.

A escolha desses grupos se justifica pela representatividade dos mesmos nos cenários estadual, nacional e internacional. Conforme critérios descritos por Levin (1985), a amostra escolhida é não-casual, do tipo julgamento ou conveniência.

Os bailarinos e bailarinas que participaram deste estudo foram solicitados pela pesquisadora a responder ao questionário no local da apresentação, após o término do espetáculo de dança.

Para a análise estatística dos dados, foi utilizado o software Statistical Package for Social Sciences - SPSS 11.0 de 2001.

Foram utilizadas estatísticas descritivas (média, desvio padrão e freqüências) e indutiva (Teste Coeficiente de Correlação de Spearman) adaptadas às condições específicas dos resultados obtidos.

Os pressupostos para aplicação dos procedimentos estatísticos paramétricos (teste t) foram verificados quanto ao controle da normalidade das distribuições bem como da homogeneidade das variâncias.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com base nos dados coletados através da aplicação do questionário, foram feitas análises estatísticas descritiva e indutiva adaptadas às condições específicas dos resultados obtidos, conforme descrito por Chagas (1995) e Noce (1999).

Foram avaliados sessenta e quatro profissionais de dança, sendo trinta e quatro do sexo feminino e trinta do sexo masculino. Os grupos Camaleão e Corpo mostraram maior percentagem de bailarinas do que bailarinos.

Cerca de 68% das bailarinas relataram a ocorrência de tensão pré-menstrual. No dia da apresentação somente cerca de 15% encontravam no período menstrual.

Aproximadamente 52% dos participantes que responderam ao questionário relataram a presença de algum sintoma de doença, sendo vinte e uma bailarinas e doze bailarinos. As bailarinas em sua maioria absoluta (90,5%) relataram sintomas relacionados a ocorrência de estresse e ansiedade. Também os bailarinos relataram os mesmos sintomas em 75,0% dos casos. Esta diferença entre bailarinas e bailarinos sugere que os mesmos têm comportamento diferente.

Os dados obtidos mostram que a grande maioria dos participantes deste estudo pratica dança há mais de dez anos. Esta observação permite assumir que, de acordo com os critérios do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Dança de Minas Gerais (SATED), os mesmos têm grande experiência profissional.

A análise estatística dos valores médios dos escores obtidos para as bailarinas e bailarinos indica que as amostras são independentes para o nível de significância menor que 0.01%. Portanto os resultados deste estudo devem ser analisados separadamente considerando que o sexo feminino apresenta comportamento diferente do sexo masculino. Esta consideração é corroborada pela presença de tensão pré-menstrual e pela maior presença de sintomas de doenças no caso das bailarinas, conforme Novaco s/d.
Análise dos resultados das bailarinas

Considerando que foram atribuídos valores de 1,00 a 4,00 para as opções contidas no questionário pode-se considerar que perguntas com escores maiores ou iguais a 2,50 indicam uma tendência de que o fator envolvido na referida pergunta seja significativo, conforme utilizado por Spielberger et all (1979).

No caso das bailarinas os escores de dez perguntas mostraram valores menores que 2,50, variando na faixa de 1,00 a 2,44. Destas dez perguntas cinco referem-se a fatores psicológicos, quatro a fatores fisiológicos e uma a fator social. Por outro lado, sete perguntas mostraram valores de escores acima de 2,50, variando na faixa de 2,62 a 3,56. Das sete perguntas com valores acima de 2,50 duas se referem a fatores psicológicos e cinco a fatores fisiológicos. Embora Nitsch (1981) apud Samulski (1999) afirme que os fatores relacionados a estresse e ansiedade podem ser relacionados a três fatores quais sejam: social, fisiológico e psíquico (fator tridimensional), o mesmo não foi verificado claramente neste estudo. Provavelmente isto se deve ao fato de que foi incluída somente uma pergunta relacionada ao fator social, cuja resposta não indicou a presença de estresse e ansiedade.

Pode-se observar que, para as bailarinas, os escores das perguntas a seguir e nesta ordem indicam a presença de estresse e ansiedade: “12 - Sente-se com vontade de urinar com maior freqüência do que o habitual?”, “01 - Apresenta sintomas de cansaço constante?”, “05 - Apresenta insônia ou sono exagerado?”, “04 - Apresenta perda ou excesso de apetite?”, “15 - Fica nervoso no inicio da apresentação?”, “13 - Fica preocupado com os erros que possa cometer durante o espetáculo?” e “14 - Sente o coração palpitar com mais intensidade antes do espetáculo?”. Os autores, Couto (1987), Singer (1984), Auriol (1999), Thomas (1983), Loehr (1997) e Samulski (1995) são unânimes em citar estes fatores avaliados pelas perguntas acima como indicadores de sintomas de estresse e ansiedade. Samulski (2002) analisa os conceitos biológicos, psicológicos e sociológicos de maneira conjunta, ou seja, considera-os interdependentes. Assim processos psíquicos e sociais são ligados, de certa forma, a processos biológicos. Também os processos sociais são influenciados por aspectos psicológicos, e, ambos podem tornar-se grandes influenciadores de respostas biológicas. Couto (1987) afirma que em situações de estresse e ansiedade podem acontecer varias reações, quais sejam: taquicardia, palpitações, pele fria, rubor facial, sudorese e aumento da quantidade de glicose no sangue. Thomas (1983) comenta que níveis de estresse e ansiedade prolongados dão origem a dores musculares podendo levar a cansaço constante e fadiga.

Quanto às medidas da freqüência cardíaca a análise dos dados mostrou que no dia da apresentação do espetáculo de dança houve um aumento estatisticamente significativo do número de batimentos cardíacos por minuto. A literatura não é unânime quando analisa a relação entre o aumento da freqüência cardíaca e a ocorrência e estresse e ansiedade. Spielberger (1979) comenta que variações na freqüência cardíaca podem ou não estar associadas a ocorrência de estresse e ansiedade. Por outro lado, Datti (1997) e Walter Cannon (apud Sabbatini,1996) observaram que situações de ameaças ou os fatores causadores de estresse exigem um ritmo mais intenso no funcionamento do sistema circulatório tendo como conseqüência o aumento da pressão sangüínea e dos batimentos cardíacos.
Análise dos resultados dos bailarinos

No caso dos bailarinos os escores de treze perguntas mostraram valores menores que 2,50, variando na faixa de 1,00 a 2,47. Destas treze perguntas quatro referem-se a fatores psicológicos, oito a fatores fisiológicos e uma a fator social. Por outro lado, quatro perguntas mostraram valores de escores iguais ou maiores que de 2,50, variando na faixa de 2,50 a 3,03. Das quatro perguntas com valor igual ou acima de 2,50 duas se referem a fatores psicológicos e duas a fatores fisiológicos.

Pode-se observar que, para os bailarinos, os escores das perguntas a seguir e nesta ordem indicam a presença de estresse e ansiedade: “05 - Apresenta insônia ou sono exagerado?”, “13 - Fica preocupado com os erros que possa cometer durante o espetáculo?” “15 - Fica nervoso no inicio da apresentação?” e “14 - Sente o coração palpitar com mais intensidade antes do espetáculo?”. Estes resultados mostram que os bailarinos em relação às bailarinas apresentaram um menor número de fatores, inclusive com menores escores, que indicam a ocorrência de estresse e ansiedade.

Quanto às medidas da freqüência cardíaca a análise dos dados mostrou que no dia da apresentação do espetáculo de dança não houve um aumento estatisticamente significativo do número de batimentos cardíacos por minuto.


Análise comparativa dos escores das bailarinas e dos bailarinos

A Tabela 01 e a Figura 01 mostram que os escores referentes às perguntas “04 - Apresenta perda ou excesso de apetite?”, “09 – Apresenta perda de interesse sexual?”, “11 – Apresenta desarranjos intestinais?”, “13 - Fica preocupado com os erros que possa cometer durante o espetáculo?”, “14 - Sente o coração palpitar com mais intensidade antes do espetáculo?”, e “15 - Fica nervoso no inicio da apresentação” apresentam diferenças bastante definidas para graus de significância maiores que 95%. Deve-se salientar que os valores absolutos dos escores para o gênero feminino são maiores que aqueles para o gênero masculino. Shigunov (1998), em estudos realizados com atletas de ambos os sexos, constatou que aqueles do sexo masculino apresentavam um nível de ansiedade de estado considerado médio. Por outro lado as atletas apresentavam um nível de ansiedade de estado considerado médio alto. Portanto o autor concluiu que as questões do sexo são importantes quando se avalia a ocorrência de ansiedade, o que foi também verificado no presente estudo. Deve-se salientar que os escores referentes às demais perguntas não apresentaram diferenças significativas, exceto para o caso das perguntas 12 (p=0,072) e 17 (p=0,055).

Em relação ao tempo de prática, é interessante ressaltar que a maioria dos bailarinos e bailarinas abrangidos pela pesquisa pratica dança há mais de 10 anos e uma minoria pratica por tempo entre 1 e 5 anos.

Com relação à idade cronológica deve-se salientar que a idade média das bailarinas, de 27,6 anos, é menor que a idade média dos bailarinos, de 30,9 anos. Considerando que não há diferença significativa no tempo de prática de dança, a idade cronológica pode ser considerada como um fator que poderia ter influenciado no comportamento das bailarinas, levando a escores mais altos. Shigunov (1998) também considera que atletas com menor idade são mais susceptíveis a ocorrência de ansiedade de estado que aqueles de maior idade. Esta constatação levou o autor a supor que ou não se valoriza esta questão ou então a ansiedade não é fator inteiramente explicado no desempenho dos atletas.

Outra explicação para a diferença de comportamento entre bailarinas e bailarinos é o fato de que a mulher é mais sensível, mais emotiva e mais exigente consigo mesma. Estas características, incluindo a ocorrência da tensão pré-menstrual, fazem com que as mulheres sejam mais susceptíveis a situações que levam ao estresse e ansiedade.

Outra observação importante é que ao serem perguntadas sobre sintomas de doença cerca de 90% das bailarinas relataram voluntariamente que sentiam sintomas relacionados a estresse e ansiedade. No caso dos bailarinos somente 75% relataram voluntariamente que sentiam sintomas relacionados ao estresse e ansiedade.


Tabela 01Teste t para comparar os escores de cada pergunta para os gêneros feminino e masculino

Pergunta

Valor Médio

Desvio Padrão

Valor de t

Valor de p

Feminino

Masculino

Feminino

Masculino

16

1,00

1,00

NA

NA

NA

NA

7

1,50

1,30

0,62

0,65

-1,26

0,21

17

1,59

1,20

0,93

0,61

-1,95

0,055

3

1,74

1,63

0,75

0,72

-0,55

0,58

8

1,76

1,67

0,82

0,80

-0,48

0,63

10

1,97

1,90

0,94

0,85

-0,32

0,75

6

2,12

1,87

0,73

0,73

-1,37

0,18

9*

2,21

1,33

0,88

0,61

-4,56

0,0001

11*

2,35

1,80

0,88

0,71

-2,73

0,008

2

2,44

2,47

0,70

0,86

0,13

0,90

12

2,62

2,17

1,01

0,95

-1,83

0,072

1

2,68

2,43

0,68

0,90

-1,23

0,23

5

2,76

2,50

0,85

0,94

-1,18

0,24

4*

2,85

2,20

0,96

0,85

2,87

0,006

15*

3,21

2,77

0,69

0,77

-2,40

0,019

13*

3,26

2,57

0,75

0,90

-3,39

0,001

14*

3,56

3,03

0,70

1,00

-2,45

0,017




Figura 01 – Valores t para cada pergunta do questionário aplicado aos quatro Grupos de Dança – gêneros feminino e masculino

01 - Apresenta sintomas de cansaço constante? / 02 – Apresenta sintomas de irritabilidade?

03 – Apresenta perda de memória? / 04 – Apresenta perda ou excesso de apetite?



05 – Apresenta insônia ou sono exagerado? / 06 – Apresenta dificuldade de concentração?

07 – Apresenta algum sintoma de fobia? / 08 – Apresenta perda de criatividade?

09 – Apresenta perda de interesse sexual? / 10 – Apresenta dores de cabeça?

11 – Apresenta desarranjos intestinais? / 12 – Sente-se com vontade de urinar com maior freqüência do

que o habitual?



13 – Fica preocupada com os erros que possa cometer durante o espetáculo?

14 – Sente o coração palpitar com mais intensidade antes do espetáculo?

15 – Fica nervoso no início da apresentação?

16 – Gosta de apresentar para um grande público?

17 - Apresenta algum sintoma de doença?

Se a resposta indicada estiver dentro da escala de 2 a 4, mencionar qual ou quais são estes sintomas.


CONCLUSÕES


Os dados obtidos permitem concluir que tanto os bailarinos quanto às bailarinas que participaram desta pesquisa apresentaram sintomas bem definidos que indicam a presença de estresse e ansiedade por ocasião da apresentação na pré-estréia de espetáculos de dança.

Outra observação importante é a diferença entre os escores relativos às perguntas do questionário, que foram sistematicamente maiores no caso das bailarinas.

Constatou-se que, no caso das bailarinas, a freqüência cardíaca aumentou no dia da apresentação da pré-estréia do espetáculo de dança. O mesmo não foi observado no caso dos bailarinos. Portanto, não ficou evidenciada claramente se a freqüência cardíaca dos bailarinos e das bailarinas quando estressados ou ansiosos apresentam alterações significativas.

Sugere-se apresentar os resultados deste estudo a dirigentes de grupos de dança para que os mesmos possam utilizá-los e evitar que os sintomas de estresse e ansiedade constatados influenciem negativamente no desempenho dos bailarinos e bailarinas em pré-estréias de espetáculos de dança

A literatura mostra que estudos sistemáticos sobre o estresse e a ansiedade em modalidades esportivas têm apresentado um crescimento significativo no mundo científico. Tendo em vista que o mesmo não ocorre na área da dança, sugere-se, para estudos futuros, o desenvolvimento de testes mais específicos para a área de dança. Através dos resultados obtidos a equipe de dirigentes dos grupos de dança poderá desenvolver técnicas com o objetivo de regular o nível de estresse e ansiedade dos bailarinos e das bailarinas de modo a otimizar o desempenho dos mesmos em pré-estréias de espetáculos de dança.

Sugere-se também esclarecer definitivamente, através de pesquisas sistemáticas, qual é o papel da variação da freqüência cardíaca na ocorrência de estresse e ansiedade.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Statistical Package for Social Sciences – SPSS 11.0 DE 2201


SAMULSKI, D.M. et all A importância da atividade Física para a Saúde e Qualidade de Vida. Artus – Ver. Ed. Física. Desp., v.17 n.1,p.60 – 70, 1996.
LOEHR, J. E. Stress for Success, the Proven Program for Transforming Stress into Positive Energy at Work. United States: Times Business, Random House, 1997. 260p. Bibliografia p. 46 -140. ISBN 0-8129-2675-7.
SINGER, R. N. Myths and Truths in Sports Psychology. Inc.: Harper & Row, Publishers;1984.
SPIELBERGER, C. D. et all. Inventário de Ansiedade Traço-Estado – IDATE. Rio de Janeiro: Centro Editor de Psicologia Aplicada, 1979.
VERDERI, E. B. L. P. Dança na Escola. Rio de Janeiro: Sprint; 1998. 120p. Bibliografia p. 35 – 45. ISBN 85-7332-066-4.

http://www.espetaculo.com/sated/index.html
COUTO, H. Stress e Qualidade de Vida do Executivo. Rio de Janeiro: COP;1987.
MOLINA, F. O. Estresse no Cotidiano. São Paulo: Pancast ed. Comércio e Representações Ltda; 1996.
ROJAS, E. A Ansiedade como Superar o Estresse, as Fobias e as Obsessões. São Paulo: Mandarim, Tradução Fábio Fernandes da Silva; 1997.
HACKFORT, D. et all. Anxiety in Sports: An International Perspective. United States of America, 1988. 275p. Bibliografia: p.4 – 53. ISBN 1-56032-143-1.
LEVIN,Jack. Estatística aplicada a Ciências Humanas, 2ª edição. São Paulo, Editora Harper & Row do Brasil Ltda, 1985. 392p. Bibliografia p. 120 – 145.
CHAGAS, M. H. Análise do Estresse Psíquico na Competição em Jogadores De Futebol de Campo das Categorias Juvenil e Júnior. 1995,225f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Esporte) - Escola de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
NOCE, F. Análise de Estresse Psíquico em Atletas de Voleibol de Alto Nível: Um estudo comparativo entre gêneros. 1999, 151f Dissertação (Mestrado em Treinamento Esportivo) - Escola de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
NOVACO, R. W. Preventing Dance Injuries: na interdisciplinary perspective.
SAMULSKI, D.M. Novos Conceitos em Treinamento Esportivo. Brasília (publicações INDESP – Série Ciência do Esporte) 1999.216p.Bibliografia: p 101 – 117. CDD 796.
AURIOL, B. Introdução aos Métodos de Relaxamento. São Paulo: Manole Ltda; 1999.
SAMULSKI, D.M. Psicologia do Esporte: Manual para a Educação Física, Psicologia e Fisioterapia. São Paulo: Manole Ltda. 2002.380p.Bibliografia: p 157 – 216. ISBN 85-204-1514-8.
THOMAS, A. Esporte Introdução à Psicologia. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico S/A, Indústria e Comércio; 1983.
DATTI, D. Mecanismo e Prevenção do Estresse, um Manual Educativo sobre o Estresse, sua Dinâmica e a Preservação da Saúde. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; 1997. 93p. Bibliografia p. 11 – 64. ISBN 85-01-04972-7
SABBATINI, R. M. E. Mente e Doença.
http://home.nib.unicamp.br/~sabbatin - 1996.
SHIGUNOV, V. – Idade, sexo e a modalidade esportiva como fatores influenciadores do nível de ansiedade-estado pré-competitiva. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. 19:71-77, 1998.


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal