FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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FumaçA e EspelhoS


CONTOS E ILUSÕES

Neil Gaiman


Tradução de Cláudio Blanc

1998 by Neil Gaiman

1ª edição: abril de 2002

2ª edição: junho de 2004

Equipe de Realização

Ilustração da Capa Kipper

Capa Ediara Rios Revisão Fernando Lopes

Editores Jotapê Martins e Monica Seincman

Tradução Cláudio Blanc
Para Ellen Datlow e Steve Jones
SUMÁRIO
Lendo as entranhas: um rondel

Uma introdução

Cavalaria

Nicholas era...

O preço

A ponte do troll

O palhaço

O lago dos peixes dourados e outras histórias

A estrada branca

A rainha das facas

Mudanças

A filha das corujas

Shoggoth's old peculiar

Vírus


Procurando a garota

Apenas o fim do mundo novamente

Bay wolf

Arremate por atacado

Uma vida gestada nos primeiros trabalhos de moorcock

Cores frias

O varredor de sonhos

Partes estrangeiras

Sestina do vampiro

Camundongo

A mudança do mar

Quando fomos assistir ao fim do mundo

Por dawnie morninside, idade: 11 anos e 3 meses

Vento do deserto

Gostos

Bolinhos de bebê



Mistérios de assassinato

Neve, vidro, maçãs

Mas onde há um monstro, há um milagre.

— OGDEN NASH, DRAGÕES SÃO MUITO RAROS

Lendo as Entranhas:

Um Rondel

— Quero dizer — disse ela — que ninguém pode fazer nada para não envelhecer.

— Uma pessoa não pode — retrucou Humpty Dumpty —, mas duas podem. Com a adequada assistência, você pode parar aos sete anos.

LEWIS CARROLL, ALICE NO PAÍS DOS ESPELHOS

Chamam de acaso, ou sorte, ou chamam de Destino —

As cartas e estrelas que tombam por vontade própria.

O amanhã se manifesta e traz a conta

Para cada beijo e morte, as pequenas e as grandes.

Queres saber o futuro, amor? Então espera:

Responderei tuas impacientes perguntas. Ainda —

Chamam de acaso, ou sorte, ou chamam de Destino,

As cartas e estrelas que tombam por vontade própria.
Irei até ti esta noite, meu bem, quando for tarde,

Não me verás; talvez te arrepies.

Esperarei até que durmas, então tomarei o que é meu,

E será teu futuro numa bandeja.

Chamam de acaso, ou sorte, ou chamam de Destino.
Uma Introdução

Escrever é voar em sonhos.

Quando você se lembra. Quando pode. Quando dá certo.

É muito fácil.

— CADERNO DE NOTAS DO AUTOR, FEVEREIRO DE 1992.

É um truque com espelhos. Trata-se de um clichê, não há dúvida, mas não deixa de ser verdade. Os mágicos empregam espelhos, via de regra posicionados em ângulos de quarenta e cinco graus desde que os ingleses vitorianos começaram a produzir superfícies nítidas e confiáveis em quantidade, há mais de cem anos. John Nevil Maskelyne deu início à técnica, em 1862, com um guarda-roupas que, graças a um espelho posicionado com astúcia, ocultava mais do que revelava.

Espelhos são coisas maravilhosas. Parecem dizer a verdade, refletir toda a nossa vida; mas posicione um deles da maneira correta e sua superfície mentirá de modo tão convincente que você acreditará que algo desapareceu no ar, que uma caixa cheia de pombos, bandeirolas e aranhas está realmente vazia; que pessoas escondidas nos bastidores, ou no fosso, são fantasmas flutuando sobre o palco. Deixado no ângulo correto, um espelho torna-se uma janela mágica; capaz de lhe mostrar qualquer coisa que possa imaginar e, talvez, algumas que não possa.

(A fumaça borra os contornos das coisas.)

Histórias são, de um modo ou de outro, espelhos. Nós as usamos para explicar como funciona ou não o mundo. Tal qual espelhos, elas nos preparam para os dias que virão. Afastam nossa atenção das coisas que se ocultam nas trevas.

A fantasia — e toda ficção é fantasia de uma espécie ou de outra — é um espelho. Um espelho distorcido, não há dúvida, do tipo que oculta, posicionado a quarenta e cinco graus da realidade, mas ainda assim um espelho que podemos empregar para nos revelar coisas que, de outra forma, poderíamos não ver. (Contos de fadas, como G. K. Chesterton disse certa feita, são mais do que a verdade; não porque nos contam que dragões existem, mas porque nos dizem que dragões podem ser vencidos.)

O inverno começou hoje. O céu ganhou tons de cinza e a neve pôs-se a cair e não parou até bem depois de escurecer. Sentei-me no escuro e observei o branco tomar conta de tudo. Os flocos cintilavam e bruxuleavam rodopiando indecisos entre a luz e as trevas, e eu quis saber de onde vinham as histórias.

Este é o tipo de pergunta que você se faz quando inventa coisas para viver. Ainda não estou convencido de que esta seja uma ocupação adequada para um adulto, mas agora é tarde demais: tenho uma carreira de que gosto e que não envolve levantar muito cedo pela manhã. (Quando eu era criança, os adultos diziam-me para não inventar coisas, alertando-me sobre o que aconteceria caso não obedecesse. Até agora, o que posso dizer é que isto significou inúmeras viagens ao exterior e não ter de levantar cedo demais pela manhã.)

A maioria das histórias deste livro foram escritas para atender aos muitos editores que me pediram contos para determinadas antologias ("É para uma antologia de histórias sobre o Santo Graal", "... sobre sexo", "... de contos de fadas refeitos para adultos", "... sobre sexo e terror", "... de histórias de vingança", "... sobre superstição", "... sobre mais sexo"). Algumas delas foram escritas para meu divertimento ou, mais precisamente, para tirar uma idéia ou imagem da minha mente e atá-la com segurança ao papel; o que é, para mim, uma boa razão para escrever: soltar os demônios, deixá-los voar. Algumas das histórias começaram na indolência: fantasias e curiosidades que escaparam das minhas mãos.

Certa vez, inventei uma história que serviria de presente de casamento para amigos meus. Era a respeito de um casal ao qual fora dada uma história como presente de casamento. Não se tratava de uma história encorajadora. Depois de tê-la imaginado, supus que os dois provavelmente prefeririam uma torradeira. Então, foi o que ganharam, e, até o momento, não deitei o conto sobre o papel. Está até hoje alojado no fundo da minha mente, esperando que alguém prestes a se casar venha a apreciá-la.

Agora me ocorre (escrevendo esta introdução com a tinta negro-azulada de uma caneta tinteiro, em um caderno de anotações de capa preta, caso você esteja se perguntando) que, de uma maneira ou de outra, embora a maioria das histórias deste livro seja sobre o amor, deste ou daquele tipo, poucas são contos felizes de amor correspondido, capazes de fazer frente às demais que se encontram nestas páginas; e que, na verdade, há pessoas que não lêem introduções. Neste caso, muitos de vocês podem, algum dia, estar diante de casamentos. Assim, para todos que realmente lêem introduções, eis aqui a história que eu não escrevi. (E, se eu não gostar dela uma vez escrita, posso, a qualquer momento, riscar este parágrafo, e vocês jamais saberão que deixei de redigir a introdução para dar início a um conto.)

O Presente de Casamento


Depois de todas as alegrias e dores de cabeça do casamento, depois da loucura e da magia de tudo aquilo (para não mencionar o constrangedor discurso, ao fim do jantar, proferido pelo pai de Belinda, coroado pelo show de slides da família), depois de a lua-de-mel ter literalmente (embora ainda não metaforicamente) chegado ao fim, e antes que suas peles recém-bronzeadas tivessem a chance de desbotar no outono inglês, Belinda e Gordon lançaram-se à empreitada de desembrulhar os presentes de casamento e escrever as cartas de agradecimento — muito-obrigados por todas as toalhas e torradeiras, pelo espremedor de sucos e pela máquina de fazer pães, pelos talheres, pela louça, pela chaleira e pelas cortinas.

— Pronto — disse Gordon. — Já agradecemos os objetos maiores. O que está faltando?

— As coisas em envelopes — disse Belinda. — Cheques, eu espero. Havia muitos cheques, alguns vale-presentes, e até um vale-livro de 10 libras da tia de Gordon, Marie, que era pobre como um rato de igreja, explicou ele a Belinda, mas muito querida, e que enviava, até onde ele se lembrava, um vale-livro a cada aniversário. E então, no finalzinho da pilha, havia um enorme envelope marrom, desses do tipo comercial.

— O que é isto? — indagou Belinda.

Gordon abriu a aba do envelope e tirou uma folha de papel amarelado, rota em cima e embaixo, datilografada em um dos versos. As palavras haviam sido impressas com uma máquina de escrever manual, algo que Gordon não via há muitos anos. Ele leu a página lentamente.

— O que é isso? — quis saber Belinda. — Quem mandou?

— Eu não sei — disse Gordon. — Alguém que ainda tem máquina de escrever. Não está assinado.

— É uma carta?

— Não exatamente — disse ele e coçou o nariz antes de ler o texto de novo.

— E então? — disse ela em tom irritado. (Mas não estava realmente irritada; estava feliz. Ela acordava de manhã e via se ainda estava tão feliz quanto ao se deitar na noite anterior, ou quando Gordon a acordava durante a noite esfregando-se em seu corpo, ou quando ela o acordava. Belinda estava mesmo feliz.) — E então? O que é?

— Parece ser uma descrição de nosso casamento — disse ele. — Está muito bem redigida. Veja — e entregou à mulher.

Ela a examinou.



Era um dia claro de outubro quando Gordon Robert Johnson e Belinda Karen Abingdon juraram que se amariam, se apoiariam e se honrariam até que a morte os separasse. A noiva estava radiante e adorável, o noivo nervoso, mas obviamente orgulhoso, decidido e muito satisfeito.

Era assim que começava. Continuava descrevendo de maneira clara, simples e engraçada, a cerimônia e a recepção.

— Muito gentil — disse ela. — O que diz no envelope?

— O casamento de Gordon e Belinda — leu ele.

— Sem nome? Nada que indique quem mandou?

— Nada.


— Bom, muito gentil e atencioso — disse ela. — Seja lá de quem for. Ela olhou dentro do envelope para ver se havia algo mais que não tinham notado, um bilhete que um dos amigos dela (ou dele, ou de ambos) tivesse escrito, mas não havia; então, ligeiramente aliviada por ter um agradecimento a menos a fazer, devolveu o papel amarelado ao envelope, que guardou em uma caixa de arquivo, junto a uma cópia do menu do banquete de casamento, aos convites, às folhas colantes para as fotos da cerimônia e a uma rosa branca do buquê da noiva.

Gordon era arquiteto e Belinda, veterinária. Para ambos, o que faziam era uma vocação, não um trabalho. Beiravam os vinte e poucos anos.

Nenhum deles havia se casado antes, e nem mesmo se envolvido seriamente com outra pessoa. Conheceram-se quando Gordon levara sua labradora de treze anos, Coldie, focinho acinzentado e semiparalisada, ao consultório de Belinda para ser sacrificada. Possuía a cadela desde pequeno e insistiu em ficar ao seu lado até o fim. Belinda segurou sua mão enquanto ele chorava, e então, de repente e de maneira nada profissional, abraçou-o com força, como se pudesse arrancar a dor, a perda e a tristeza, Um dos dois perguntou ao outro se poderiam se encontrar naquela noite, no pub local, para um drinque e, depois, nenhum deles teve mais certeza de quem fizera o convite.

A coisa mais importante a se saber a respeito dos dois primeiros anos do casamento é a seguinte: eles foram muito felizes. De vez em quando, tinham algumas rixas e, ocasionalmente, brigas inflamadas sobre algo sem importância que terminavam em reconciliações lacrimosas; então, faziam amor e enxugavam suas lágrimas com beijos, sussurrando desculpas sinceras no ouvido um do outro. No final do segundo ano, seis meses após parar com a pílula, Belinda viu-se grávida.

Gordon trouxe-lhe um bracelete cravejado de pequenos rubis, e transformou o cômodo vago em um quarto de crianças, colocando ele mesmo o papel de parede, coberto de personagens de cantigas infantis, como Little Bo Peep, Humpty Dumpty e o Prato Fugindo com a Colher, que iam se repetindo e se repetindo.

Belinda chegou em casa vinda do hospital com a pequena Melanie em seu moisés, e a mãe de Belinda apareceu para ficar com eles uma semana, dormindo no sofá da sala de estar.

Foi no terceiro dia que Belinda abriu a caixa de arquivo para mostrar à mãe as lembranças do casamento e rememorar. Parecia que o casamento já tinha sido muito tempo atrás. Elas riram daquela coisa seca e marrom que fora uma rosa branca e tagarelaram sobre o menu e o convite. No fundo da caixa, havia um grande envelope marrom,

— O casamento de Gordon e Belinda — leu a mãe de Belinda.

— É uma descrição de nosso casamento — disse Belinda. — É muito meiga. Tem até mesmo um trecho sobre o show de slides do papai.

Belinda abriu o envelope e puxou a folha de papel amarelado. Ela leu o que estava datilografado e fez uma careta. Então, guardou-a sem dizer nada.

— Não posso ver, querida? — perguntou a mãe.

— Acho que é uma brincadeira do Gordon — disse Belinda. — E de mau gosto.

Naquela noite, Belinda estava sentada na cama amamentando Melanie quando disse a Gordon, que fitava sua esposa e a filhinha com um sorriso bobo na cara:

— Querido, por que você escreveu aquelas coisas?

— Que coisas?

— Na carta. Aquela do casamento. Você sabe.

— Não sei.

— Não foi engraçado.

Ele suspirou.

— Do que você está falando?

Belinda apontou para a caixa de arquivo, que havia trazido para cima e colocado sobre a penteadeira. Gordon abriu-a e puxou o envelope.

— Isto sempre esteve escrito no envelope? — perguntou. — Pensei que dizia algo sobre nosso o casamento.

Então, ele abriu e leu a folha de bordas puídas e sua testa franziu.

— Eu não escrevi isto.

Ele virou o papel, olhando o lado em branco como se esperasse ver algo mais escrito ali.

— Você não escreveu? — indagou ela. — Não escreveu mesmo?

Gordon balançou a cabeça. Belinda secou um resto de leite do queixo do bebê.

— Eu acredito em você — disse ela. — Pensei que tivesse escrito, mas não escreveu.

— Não.

— Deixe-me ver de novo — disse ela. Ele passou a folha. — Isto é muito estranho. Quer dizer, não é engraçado e nem mesmo verdadeiro.



Datilografada no papel, havia uma breve descrição dos dois últimos anos de Gordon e Belinda, que, de acordo com a folha, não foram felizes. Seis meses após o casamento, Belinda levara, de um pequinês, uma mordida na face, tão grave que teve de receber vários pontos. O resultado foi uma cicatriz muito feia. Pior do que isso, os nervos foram lesados, e ela começara a beber, talvez para aplacar a dor. A pobrezinha desconfiava que Gordon tivesse nojo de seu rosto, ao passo que o bebê, assim dizia a folha, fora uma tentativa desesperada de reaproximar o casal.

— Por que estão dizendo isso? — ela quis saber.

— Quem?

— Quem quer que tenha escrito esta coisa horrenda. — Correu o dedo pela face: não havia marca, nem cicatriz. Ela era uma jovem muito atraente, embora agora estivesse cansada e fragilizada.



— Como é que você sabe que se trata deles?

— Não sei — disse ela, mudando o bebê para o seio esquerdo. — Parece algo do tipo "foram eles...". Escrever isto, trocar o papel novo pelo velho e esperar até que um de nós lesse... Calma, Melanie, isso, lindinha...

— Jogo fora?

— Sim. Não. Não sei. Acho... — Ela acariciou a testa do bebê. — Guarde. Talvez precisemos disto como prova. Será que não é alguma coisa que o Al tramou.

Al era o irmão caçula de Gordon.

Gordon colocou o papel de volta no envelope e o depositou novamente na caixa de arquivo, que foi empurrada para baixo da cama e, mais ou menos, esquecida.

Nenhum dos dois dormiu muito nos meses seguintes, por causa das mamadas noturnas e do choro contínuo, pois Melanie era um bebê cheio de cólicas. A caixa de arquivo ficou debaixo da cama. Ofereceram um emprego a Gordon em Preston, algumas centenas de milhas ao norte e, como Belinda estava de licença do emprego e não tinha planos imediatos de voltar ao trabalho, achou a idéia muito convidativa. Então, eles se mudaram.

Encontraram uma casa avarandada, alta, velha e recuada, numa rua pavimentada com paralelepípedos. Belinda dava plantões de quando em quando na clínica veterinária local, cuidando de pequenos animais e bichos de estimação. Quando Melanie estava com dezoito meses, Belinda deu à luz um menino a quem chamaram de Kevin em homenagem ao falecido avô de Gordon.

Gordon foi promovido a sócio na firma de arquitetura. Quando Kevin foi para o jardim de infância, Belinda voltou a trabalhar.

A caixa de arquivo jamais foi perdida. Estava em um dos quartos vagos no andar de cima da casa, debaixo de uma pilha de exemplares da Gazeta do Arquiteto e da Revista Arquitetônica. De vez em quando, Belinda pensava na caixa e no que ela continha; e, numa noite em que Gordon estava fora, na Escócia, dando consultoria sobre a reforma de uma casa antiga, ela fez mais do que pensar.

As crianças estavam dormindo. Belinda subiu as escadas até a parte não mobiliada da casa, afastou as revistas e abriu a caixa, a qual (onde não tinha sido coberta por revistas) estava revestida por dois anos de poeira intocada. O envelope ainda dizia O casamento de Gordon e Belinda, e Belinda não sabia, sinceramente, se já houvera algo diferente escrito nele.

Ela tirou o papel do envelope e leu. Colocou-o de volta e sentou-se lá, na parte de cima da casa, sentindo-se mal e transtornada.

De acordo com a mensagem, caprichosamente datilografada, Kevin, seu segundo filho, ainda não havia nascido; o bebê tinha sido abortado aos cinco meses. Desde então, Belinda sofria de freqüentes ataques de depressão profunda. Raramente, Gordon vinha para casa, dizia o papel, pois estava tendo um caso desprezível com uma sócia sênior de sua firma, uma mulher notável, mas nervosa, dez anos mais velha do que ele. Belinda estava bebendo mais, e usando golas altas e cachecóis para esconder a cicatriz em forma de teia no seu rosto. Ela e Gordon pouco se falavam, exceto para brigar pelas diferenças pequenas e insignificantes daqueles que evitam os grandes conflitos, tendo consciência de que as únicas coisas que evitavam falar eram aquelas árduas demais para serem ditas sem que destruíssem suas vidas.

Belinda nada comentou com Gordon a respeito da última versão de O casamento de Gordon e Belinda. Entretanto, ele próprio a leu, ou mais ou menos isso, alguns meses depois, quando a mãe de Belinda adoeceu e Belinda foi para o sul por uma semana a fim de cuidar dela.

Na folha de papel que Gordon tirou do envelope, havia uma descrição do casamento semelhante àquela que Belinda lera, embora, agora, seu caso com a chefe houvesse acabado mal e seu emprego estivesse ameaçado.

Gordon gostava da chefe, mas jamais poderia se imaginar envolvido sentimentalmente com ela. Estava gostando do trabalho, embora quisesse algo que o desafiasse ainda mais.

A mãe de Belinda melhorou, e ela voltou para casa em uma semana. O marido e as crianças ficaram aliviados e adoraram revê-la.

Foi só na véspera de Natal que Gordon falou com Belinda sobre o envelope.

— Você deu uma olhada, não deu? — Eles haviam entrado sorrateiramente no quarto das crianças naquela noite e posto os presentes nas meias de Natal dependuradas. Gordon sentira-se eufórico enquanto andava pela casa e parava diante das camas das crianças, mas era uma euforia com um quê dê profunda tristeza: a de saber que tais momentos de alegria total não seriam duradouros; que ninguém podia parar o Tempo.

Belinda sabia do que se tratava.

— Sim — disse ela. — Eu li.

— O que você acha?

— Bom — disse ela —, não acho mais que seja uma piada. Nem mesmo uma piada de mau gosto.

— Mm — disse ele. — Então, o que é?

Sentaram-se na sala de estar da frente da casa, à meia-luz e com um nó de pinho ardendo no braseiro lançando luzes bruxuleantes, alaranjadas e amarelas, pela sala.

— Acho que é realmente um presente de casamento — comentou ela — É o casamento que nós não estamos tendo. As coisas ruins estão acontecendo lá, naquela página, não aqui, em nossas vidas. Em vez de vivê-las, estamos sabendo que poderia ter sido daquele jeito e também que jamais foi assim.

— Então, você está dizendo que é magia? — Ele não diria isto em voz alta, mas era véspera de Natal e havia pouca luz.

— Não acredito em magia — disse ela categórica. — É um presente de casamento. E acho que devemos guardá-lo com cuidado.

No dia 26 de dezembro, ela mudou o envelope da caixa de arquivo para a gaveta de jóias, que mantinha trancada, debaixo de seus colares e anéis, braceletes e broches.

A primavera tornou-se verão; o inverno, primavera.

Gordon estava exausto. Durante o dia, trabalhava para os clientes, fazendo projetos, encontrando-se com construtores e incorporadores; de noite, trabalhava para si mesmo até tarde, projetando museus, galerias e prédios públicos para concursos. Às vezes, seus projetos recebiam menções honrosas, e eram reproduzidos nas revistas de arquitetura.

Belinda estava trabalhando com animais maiores, coisa de que ela gostava, visitando fazendeiros, examinando e tratando de cavalos, carneiros e vacas. Às vezes, ela levava as crianças em suas visitas.

Seu celular tocou quando ela estava em um curral, tentando examinar uma cabra prenhe que, tal como se revelou, não tinha desejo algum de ser capturada, muito menos examinada. Ela saiu do campo de batalha, deixou a cabra, que a olhava furiosa, e atendeu ao telefone.

— Sim?


— Adivinhe...

— Oi, querido. Hm. Você ganhou na loteria?

— Não! Quase. Meu projeto para o Museu da Herança Britânica está na final. De qualquer forma, tenho alguns concorrentes duríssimos. Mas estou na final.

— Isso é maravilhoso!

— Conversei com a Sra. Fulbright e ela vai pegar a Sonja para ficar de babá hoje à noite. Vamos comemorar.

— Fantástico. Eu te amo — disse ela. — Agora, tenho de voltar para a cabra.

Eles tomaram muita champanhe em um requintado jantar de comemoração. Naquela noite no quarto, enquanto tirava seus brincos, Belinda disse:

— Vamos ver o que diz o presente de casamento?

Ele a olhou da cama com severidade. Estava só de meias.

— Não, acho que não. É uma noite especial. Por que estragá-la?

Ela colocou seus brincos na gaveta de jóias e a trancou. Então, tirou suas meias,

— Acho que você tem razão. De qualquer forma, posso imaginar o que diz. Sou uma bêbada e deprimida e você é um fracassado miserável. E enquanto isso... bem, na verdade eu estou meio alta, mas não é isso o que quero dizer. Fica lá, simplesmente, no fundo da gaveta, como O retrato de Dorian Gray fica no sótão.

— E foi só por causa dos seus brincos que eles conseguiram reconhecê-la. Sim. Eu me lembro. Eu li o livro na escola.

— É exatamente isso o que me assusta — disse ela, colocando uma camisola —, que aquela coisa no papel seja o verdadeiro retrato do nosso casamento, e o que estamos vivendo seja apenas um lindo quadro. Que aquilo seja real e nós não. Quer dizer — ela falava seriamente agora, com a austeridade de uma ligeira embriaguez —, você nunca pensou que é bom demais para ser verdade?

Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— Às vezes. Hoje à noite, com certeza. — Ela estremeceu.

— Talvez eu seja mesmo uma bêbada com uma mordida de cachorro na face, você trepa com qualquer coisa que se mexa, Kevin jamais nasceu e... e toda aquela coisa horrível.

Ele se levantou, caminhou até ela, colocou os braços ao seu redor.

— Mas não é verdade — salientou. — Isto é real. Você é real. Eu sou real. Aquela coisa do casamento é somente ficção. Apenas palavras. — E ele a beijou, a apertou forte, e pouco além disso foi dito naquela noite.




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