FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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Havia mais quartos na casa, mas ninguém os alugava. Ninguém com a cabeça no lugar viria para Innsmouth no inverno.

Fora da casa, o cheiro não era muito melhor. Estava mais frio, minha respiração vaporizava no ar marinho. A neve nas ruas era dura e imunda; as nuvens prometiam mais neve.

Um vento frio e salgado subia da baía. As gaivotas estavam gritando miseravelmente. Senti-me uma droga. Meu escritório também devia estar congelando. Na esquina da rua Marsh com a avenida Leng, havia um bar, The Opener, um edifício atarracado com pequenas janelas escuras, pelo qual eu tinha passado duas dúzias de vezes nas duas últimas semanas. Ainda não havia entrado, mas precisava mesmo de um trago e, além do mais, devia estar mais quente lá dentro. Abri a porta.

O bar estava realmente quente. Bati a neve das minhas botas e entrei. Estava quase vazio e cheirava a cinzeiros velhos e cerveja azeda. Dois homens idosos jogavam xadrez ao lado do balcão. O barman estava lendo uma edição puída encadernada de couro verde e dourado dos trabalhos poéticos de Alfred, Lord Tennyson.

— Ei, que tal um Jack Daniefs puro?

— Claro. Você é novo na cidade — disse ele colocando seu livro com a face virada no bar e servindo a bebida no copo.

— Pareço?

Ele sorriu, passou-me o Jack Daniel's. O copo estava imundo, com uma impressão digital engordurada na lateral. Eu dei de ombros e virei a bebida de qualquer jeito. Mal pude sentir seu gosto.

— Ressaca? — indagou.

— Pode-se dizer que sim.

— Há uma crença — disse o barman, cujo cabelo vermelho como pêlo de raposa estava penteado para trás com gel — de que os lykanthropoi podem voltar à forma natural quando lhes agradecemos, enquanto estiverem sob a forma de lobo, ou chamando-os por seus nomes de batismo.

— É? Não me diga!

Serviu outro trago sem que eu pedisse. Parecia um pouco com Peter Lorre, mas até aí, nada de novo. A maioria das pessoas em Innsmouth se parecia um pouco com Peter Lorre, inclusive minha senhoria.

Virei o Jack Daniel's, desta vez sentindo queimar no meu estômago, da maneira como devia ser.

— É o que dizem. Nunca disse que acreditava nisso.

— Em que você acredita?

— Queimar o cinto.

— Como?

— Os lykanthropoi têm cintos de pele humana dados a eles na sua primeira transformação pelos seus mestres no Inferno. Queime o cinto.



Um dos velhos enxadristras virou-se para mim, seus olhos enormes, cegos e protuberantes.

— Se você beber água da chuva de uma pegada de lobisomem, quando a lua estiver cheia, isso fará de você um lobo — disse ele. — A única cura é caçar o lobo que fez a pegada e lhe cortar a cabeça com uma faca forjada de prata virgem.

— Virgem, hein? — Eu sorri.

Seu parceiro de xadrez, careca e enrugado, balançou a cabeça e resmungou um som lúgubre. Daí, moveu sua rainha e resmungou novamente.

Havia pessoas como ele por toda Innsmouth.

Paguei pelas bebidas e deixei uma gorjeta de um dólar no bar. O barman estava lendo seu livro e a ignorou.

Do lado de fora do bar, flocos de neve grandes, molhados como beijos tinham começado a cair, fixavam-se nos meus cabelos e cílios. Odeio a neve. Odeio a Nova Inglaterra. Odeio Innsmouth: é um lugar para se estar só, mas, se há um bom lugar para se estar só, ainda não o encontrei. Mesmo assim, os negócios mantiveram-me em movimento por mais luas do que gosto de pensar Negócios e outras coisas.

Desci duas quadras pela rua Marsh — como a maioria das ruas de Innsmouth, uma mistura nada atraente de casas do século dezoito em estilo gótico americano, residências tolhidas com fachada de arenito pardo do final do século dezenove e moradias pré-fabricadas de bloco cinza do final do século vinte — até chegar a um restaurante de frango frito lacrado com tábuas. Subi, então, os degraus de pedra ao lado do restaurante e destranquei a porta de segurança enferrujada.

Havia uma loja de bebidas alcoólicas do outro lado da rua; uma quiromante estava atendendo no segundo andar.

Alguém tinha pichado o metal em preto: MORRA, dizia, Como se fosse fácil.

A escada era de madeira nua. O reboco estava manchado e descascado. Meu escritório de um cômodo era no alto da escadaria.

Não fico muito tempo em lugar algum para me dar o trabalho de pôr o meu nome em dourado no vidro. Estava escrito à mão em letra de forma num pedaço de cartolina rasgada que eu tinha pregado na porta.


Lawrence Talbot

Ajustador


Destranquei a porta do meu escritório e entrei.

Inspecionei o lugar enquanto adjetivos como andrajoso, repugnante e esquálido passavam pela minha cabeça, então desisti, incapaz de nomear as sensações desagradáveis. Era bem pouco atraente — uma mesa, uma cadeira de escritório, uma escrivaninha vazia, uma janela, que dava para a incrível vista da loja de bebidas alcoólicas e para a quiromante vazia. O cheiro de óleo velho permeava do restaurante. Indaguei-me há quanto tempo aquele restaurante de frango frito estava lacrado com tábuas; imaginei uma multidão de baratas negras, enxameando toda a superfície na escuridão abaixo dos meus pés.

— Essa é a forma do mundo que você está pensando — disse uma voz profunda e obscura, profunda o suficiente para que eu a sentisse na boca do estômago.

Havia uma velha poltrona num canto do escritório. Os restos de um padrão mostravam-se através da pátina do tempo e da gordura que os anos tinham lhe dado. Era da cor da poeira.

O homem sentado na poltrona, seus olhos ainda bem cerrados, continuou:

— Olhamos para o nosso mundo com perplexidade, com uma sensação de apreensão e desgosto. Pensamos em nós mesmos como eruditos em liturgias misteriosas, homens únicos presos em mundos que estão além do nosso legado. A verdade é muito mais simples: há coisas na escuridão, embaixo de nós, que nos querem mal.

Sua cabeça pendia para trás na poltrona e a ponta da sua língua mexia-se no canto da boca,

— Você leu minha mente?

O homem na poltrona sorveu o ar lenta e profundamente, o que produziu um ronco em sua garganta. Era de fato imensamente gordo, com dedos atarracados, como lingüiças descoradas. Vestia um velho casaco grosso, que já havia sido preto e agora era de um cinza indeterminado. A neve nas suas botas não havia derretido completamente.

— Talvez o fim do mundo seja um conceito estranho. O mundo está sempre acabando, e o fim está sempre sendo evitado, por amor, insensatez ou simplesmente pura sorte. Ah, bem, agora é tarde demais: os Velhos Deuses escolheram seus veículos. Quando a lua se erguer...

Uma fina baba escorreu do canto da sua boca, gotejando num fio de prata até o colarinho. Alguma coisa correu do seu colarinho para dentro da sombra do seu casaco,

— É? O que vai acontecer quando a lua se erguer?

O homem da poltrona mexeu-se, abriu dois olhinhos vermelhos e inchados e os piscou acordando.

— Sonhei que eu tinha muitas bocas — disse, sua nova voz estranhamente baixa e ofegante para um homem enorme. — Sonhei que cada boca se abria e se fechava independentemente. Algumas falavam, outras sussurravam, muitas comiam e outras tantas esperavam em silêncio.

Olhou ao redor, limpou a baba do canto da boca, recostou-se na cadeira piscando confuso.

— Quem é você?

— Sou o cara que aluga este escritório — disse-lhe. Arrotou alto, repentinamente.

— Sinto muito — disse com sua voz ofegante, e se ergueu pesadamente da poltrona. De pé, era menor do que eu, Olhou para baixo e para cima com a vista turva.

— Balas de prata — pronunciou depois de uma curta pausa. Remédio antiquado.

— É — disse-lhe. — É tão óbvio. Deve ser por essa razão que não pensei nisso. Nossa, eu sou mesmo tão distraído. Sou mesmo.

— Você está fazendo troça de um velho — disse-me.

— Não mesmo. Sinto muito. Agora, fora daqui. Alguns de nós têm que trabalhar.

Saiu andando trôpego. Sentei-me na cadeira giratória da mesa ao lado da janela e descobri, depois de alguns minutos, por tentativa e erro, que se eu a girasse para a esquerda, ela cairia da sua base.

Então, sentei-me imóvel e esperei que o telefone negro e empoeirado na minha mesa tocasse, enquanto a luz vagarosamente vertia do céu de inverno.

Trim.

Uma voz de homem: Será que eu havia pensado em tapumes de alumínio? Desliguei o telefone.



Não havia aquecimento no escritório. Perguntei-me quanto tempo o homem gordo tinha dormido na poltrona.

Vinte minutos depois, o telefone tocou novamente. Uma mulher chorando implorou-me para ajudá-la a encontrar sua filha de cinco anos, desaparecida desde a noite anterior, arrancada da sua cama. O cachorro da família também tinha sumido.



"Não trabalho com crianças desaparecidas", disse-lhe. "Sinto muito. Muitas lembranças más."

Desliguei o telefone, sentindo-me enjoado de novo.

Estava escurecendo e, pela primeira vez desde que eu tinha chegado a Innsmouth, a placa de néon do outro lado da rua acendeu. Dizia que MADAME EZEKIEL fazia LEITURAS DE TARÔ E QUIROMANCIA.

O néon vermelho manchou a neve que caía com a cor de sangue novo.

O Armagedon é evitado por pequenas ações. Era essa a maneira. Era essa a maneira que sempre teria de ser,

O telefone tocou uma terceira vez. Reconheci a voz; era o homem dos tapumes de alumínio de novo.

— Sabe — disse, loquaz —, transformação de homem em animal e em homem novamente é, por definição, impossível; precisamos procurar outras explicações. Despersonalização, sem dúvida, e, igualmente, alguma forma de projeção. Dano cerebral? Talvez. Esquizofrenia pseudoneurótica? Nem pensar. Alguns casos foram tratados com hidrocloreto de tioridazina endovenoso.

— Com sucesso?

Ele deu um risinho de satisfação.

— É disso que eu gosto. Um homem com senso de humor. Estou certo de que podemos fazer negócio.

— Já lhe disse. Não preciso de tapume de alumínio.

— Nosso negócio é mais digno de nota e muito mais importante. Você é novo na cidade, Sr. Talbot. Seria uma pena se nos encontrássemos em, digamos, desacordo.

— Pode falar o que quiser, amigo. No que me diz respeito, você é apenas outro ajuste, esperando para ser feito.

— Estamos dando cabo do mundo, Senhor Talbot. Os Profundos erguer-se-ão das suas tumbas oceânicas e comerão a lua como uma ameixa madura.

— Então, não vou ter de me preocupar com luas cheias nunca mais, não é?

— Não tente passar por cima de nós — começou ele, mas eu rosnei e se calou.

Do lado de fora da janela, a neve ainda caía.

Do outro lado da rua Marsh, na janela diretamente oposta à minha, a mais linda mulher que eu jamais vira estava de pé no clarão de rubi da sua placa de néon e me fitava.

Ela acenou com um dedo.

Desliguei o telefone na cara do homem do tapume de alumínio pela segunda vez naquela tarde. Desci as escadas e atravessei a rua quase correndo, mas olhei dos dois lados antes.

Ela vestia seda. O quarto estava iluminado apenas com velas e recendia a incenso e a óleo de patchuli.

Sorriu para mim quando entrei, fazendo um gesto para me aproximar da sua cadeira ao lado da janela. Estava jogando um jogo de cartas com um baralho de tarô, alguma versão de paciência. Quando cheguei até ela, uma mão elegante juntou as cartas, enrolou-as em um xale de seda e as colocou gentilmente numa caixa de madeira.

Os cheiros do quarto fizeram minha cabeça martelar. Não tinha comido nada o dia todo, percebi. Talvez fosse isso que estivesse me deixando tonto. Sentei-me na mesa, de frente para ela, à luz de velas.

Estendeu a mão e pôs a minha nas suas.

Fitou a palma da minha mão e a tocou, gentilmente, com seu indicador.

— Pêlo? — estava confusa,

— É, bem. Tenho estado muito só. — Sorri. Esperava que fosse um riso amigável, mas ela ergueu uma sobrancelha.

— Quando olho você — disse Madame Ezekiel —, isso é o que vejo: o olho de um homem. E também o olho de um lobo. No olho do homem, vejo honestidade, decência e inocência. Um homem justo que anda ereto. E, no olho do lobo, vejo um gemido e um rosnado, uivos noturnos e gritos, um monstro correndo com saliva salpicada de sangue, na escuridão dos limites da cidade.

— Como você pode ver um rosnado ou um grito?

Ela sorriu.

— Não é difícil — disse. Seu sotaque não era americano. Era russo, maltês ou, talvez, egípcio. — No olho da mente vemos muitas coisas.

Madame Ezekiel fechou os olhos verdes. Tinha cílios notavelmente longos; sua pele era pálida e seu cabelo negro nunca ficava parado — vagueava suavemente ao redor da sua cabeça, na seda das suas roupas, como se flutuasse em marés distantes.

— Há uma maneira tradicional — disse-me. — Uma maneira de lavar uma má forma. Você fica de pé em água corrente, na água clara de uma fonte, enquanto come pétalas de rosas brancas.

— E então?

— A forma da escuridão será lavada de você.

— Voltará — disse-lhe — com a próxima lua cheia.

— Então — disse Madame Ezekiel — uma vez que a sombra for lavada de você, abra suas veias na água corrente. Vai doer muito, é claro, mas o rio levará o sangue para longe.

Ela vestia sedas, xales e roupas de uma centena de cores diferentes, cada qual brilhante e viva, mesmo na luz diminuta das velas.

Seus olhos se abriram.

— Agora — disse — o tarô.

Desembrulhou seu baralho do xale de seda negra que o prendia e me deu as cartas para embaralhar. Eu as soprei, as espalhei e as juntei.

— Mais devagar, mais devagar — disse ela, — Deixe-as conhecerem você. Deixe-as amarem você, como... como uma mulher o teria amado.

Segurei as cartas firmemente e, então, eu as devolvi a ela. Virou a primeira carta. Chamava-se O Lobisomem. Mostrava escuridão e olhos de âmbar, um sorriso em branco e vermelho.

Seus olhos verdes mostraram confusão. Eram do verde das esmeraldas.

— Esta carta não é do meu baralho — disse e virou a próxima carta. — O que você fez com as minhas cartas?

— Nada, madame. Apenas as segurei. Só isso.

A carta que ela tinha virado era O Profundo. Mostrava algo verde e que lembrava vagamente um polvo. As bocas da coisa — se eram realmente bocas e não tentáculos — começaram a se retorcer na carta enquanto eu observava.

Ela a cobriu com outra carta, e outra, e outra. O resto delas ficou como papelão branco.

— Você fez isso? — Ela estava à beira das lágrimas.

— Não.


— Vá agora — disse.

— Mas...


— Vá. — Olhou para baixo como se estivesse tentando se convencer de que eu não existia mais.

Fiquei de pé, no quarto que cheirava a incenso e a cera de vela, e olhei pela sua janela o outro lado da rua. Uma luz brilhou brevemente na janela do meu escritório. Dois homens com lanternas andavam nele. Abriram o arquivo vazio, olharam em volta e, então, tomaram suas posições: um na poltrona e o outro atrás da porta, esperando que eu voltasse. Sorri para mim mesmo. Meu escritório era frio e inóspito e, com sorte, eles esperariam horas até acharem que eu não voltaria.

Assim, deixei Madame Ezekiel virando suas cartas, uma a uma, fitando-as, como se isso fizesse com que os desenhos voltassem. Desci a escada e andei de volta pela rua Marsh até chegar ao bar.

O lugar estava vazio agora. O barman fumava um cigarro que amassou no cinzeiro, quando entrei.

— Onde estão os viciados em xadrez?

— É uma grande noite para eles, hoje. Vão estar na baía. Vejamos. Você vai de Jack Daniel's, certo?

— Boa idéia.

Serviu-me. Reconheci a impressão digital da última vez que tinha usado o copo. Peguei o volume de poemas de Tennyson de cima do balcão.

— Livro bom?

O barman de cabelo cor de raposa pegou o livro de mim, abriu-o e leu:

"Abaixo dos trovões da profundeza superior;

Longe, longe, debaixo do mar abismai,

Seu antigo sono sem sonhos, inviolado,

O Kraken dorme..."

Acabei minha bebida.

— Então? Qual o significado?

Andou ao redor do balcão, levou-me até a janela.

— Vé? Lá fora?

Apontou em direção ao oeste da cidade, em direção aos penhascos. Enquanto eu olhava, uma grande fogueira foi acesa no alto do penhasco. Flamejou e começou a queimar com uma chama verde-cobre.

— Vão acordar os Profundos — disse o barman. — As estrelas, os planetas e a lua estão todos nos lugares certos, É hora. As terras secas afundarão e os mares hão de se erguer...

"Pois o mundo deverá ser limpo com gelo e inundações e eu agradecerei se você mantiver sua própria prateleira na geladeira" — disse eu.

— Como?


— Nada. Qual é o caminho mais rápido para se chegar ao alto daqueles penhascos?

— Pegue a rua Marsh de volta. Vire à esquerda na Igreja de Dagon até chegar à estrada Manuxet. Daí é só continuar.

Pegou um casaco de trás da porta e vestiu.

— Venha. Vou acompanhar você até lá. Eu detestaria perder a diversão.

— Tem certeza?

— Ninguém nesta cidade vai beber hoje à noite.

Saímos e ele trancou a porta do bar atrás de nós.

Estava gelado na rua e a neve que tinha caído era soprada pelo chão como bruma branca. Do nível do asfalto, não podia dizer se Madame Ezekiel estava em sua toca, acima da sua placa de néon, ou se meus convidados ainda me esperavam em meu escritório.

Baixamos nossas cabeças contra o vento e andamos.

Acima do barulho do vento, ouvi o barman falando consigo mesmo,

— "Agitar com braços gigantes a verde modorra" — dizia ele.

"Lá deitou-se por eras e se deitará

Golpeando enormes vermes marinhos em seu sono,

Até que o último fogo aqueça as profundezas;

Então, por anjos e por homens será visto,

Em rugido, erguer-se-á..."

Parou aí e continuamos a andar em silêncio com a neve soprada pelo vento ferroando nossos rostos.

E na superfície morrerá, pensei, mas não disse nada em voz alta.

Vinte minutos andando e estávamos fora de Innsmouth. A estrada Manuxet acabou quando saímos da cidade e tornou-se uma trilha estreita e suja, parcialmente coberta com gelo e neve. Nós escorregamos e deslizamos caminho acima na escuridão.

A lua ainda não tinha aparecido, mas as estrelas já começavam a sair. Havia muitas. Espargiam-se pelo céu da noite como pó de diamante e safiras moídas. Podem-se ver muitas estrelas da praia, muito mais do que na cidade.

No alto do penhasco, atrás da grande fogueira, duas pessoas estavam esperando — uma enorme e gorda, outra bem menor. O barman saiu do meu lado e foi até eles, encarando-me.

— Vejam — disse — o lobo sacrificial.

Havia agora uma estranha familiaridade em sua voz. Não disse nada. O fogo queimava com chamas verdes e iluminava os três por baixo: clássica iluminação fantasmagórica.

— Sabe por que eu trouxe você aqui em cima? — perguntou o barman, e então descobri porque sua voz era familiar: era a do homem que tinha tentado me vender tapume de alumínio.

— Para impedir o fim do mundo?

Ele riu de mim.

A segunda figura era o homem gordo que encontrei dormindo na cadeira do meu escritório.

— Bem, se você vai ficar escatológico sobre isso... — murmurou com uma voz profunda o suficiente para sacudir paredes. Seus olhos estavam fechados. Dormia profundamente.

A terceira figura estava envolta em sedas escuras e cheirava a óleo de patchuli. Segurava uma faca. Não disse nada.

— Nesta noite — disse o barman —, a lua é dos Profundos. Nesta noite, as estrelas estão configuradas nas formas e padrões dos velhos tempos sombrios. Nesta noite, se os chamarmos, eles virão. Se o nosso sacrifício for valioso. Se nossos gritos forem ouvidos.

A lua se ergueu, enorme, cor de âmbar e pesada, do outro lado da baía, e um coro de coaxados quase inaudíveis ergueu-se com ela do oceano, muito abaixo de nós.

O luar sobre neve e gelo não é a mesma coisa que a luz do dia, mas serve. E, meus olhos estavam se aguçando com a lua: nas águas frias, homens como sapos estavam emergindo e submergindo numa vagarosa dança aquática. Homens como sapos e mulheres também: pareceu-me que pude ver minha senhoria lá embaixo também, contorcendo-se e coaxando na baía com o resto.

Era muito cedo para outra transformação. Ainda estava exaurido da noite anterior, mas senti-me estranho debaixo daquela lua âmbar.

— Pobre homem-lobo — veio um sussurro das sedas. — Todos os seus sonhos acabaram nisso: uma morte solitária num penhasco distante.



Sonharei se quiser, disse eu, e minha morte é assumo meu. Mas não tinha certeza se havia dito em voz alla.

Os sentidos ficam mais apurados à luz da lua. Ainda ouvia o rugido do oceano, agora, porém, sobre ele, podia discernir cada onda erguer-se e quebrar; escutava as pancadas na água do povo-rã; os sussurros afogados dos mortos na baía; o rangido de naufrágios verdes muito abaixo do oceano.

O olfato melhora, também. O homem do tapume de alumínio era humano, enquanto o gordo tinha outro sangue.

E a figura vestindo seda...

Eu havia sentido seu perfume quando estava na forma humana. Agora podia sentir o cheiro de mais alguma coisa, menos inebriante, debaixo dela. Um cheiro de decadência, de carne em putrefação e matéria podre.

As sedas se agitavam. Ela estava se movendo na minha direção. Segurava a faca.

— Madame Ezekiel? — Minha voz estava ficando áspera e grossa. Logo eu a perderia completamente. Não entendia o que estava acontecendo, mas a lua se erguia mais e mais, perdendo sua cor de âmbar e enchendo minha cabeça com sua luz pálida.

— Madame Ezekiel?

— Você merece morrer — disse ela, sua voz era fria e baixa. — Nem que seja pelo que fez com minhas cartas. Eram antigas.

— Eu não morro — disse-lhe. — "Mesmo um homem que é puro de coração e faz suas orações à noite". Lembra-se?

— Isso é besteira — disse. — Você sabe qual é a maneira mais antiga de acabar com a maldição do lobisomem?

— Não.


A fogueira ardia com mais brilho agora. Ardia com o verde do mundo debaixo do mar, o verde das algas e das plantas que se mexiam vagarosamente. Queimava com a cor das esmeraldas.

— Você simplesmente espera até que ele esteja na forma humana, um mês inteiro antes de outra transformação. Então, pega a faca sacrificial e o mata. Isso é tudo.

Virei para correr, mas o barman estava atrás de mim, puxando meus braços, torcendo meus punhos nas minhas costas. A faca brilhou sua prata pálida ao luar. Madame Ezekiel sorriu.

Ela cortou minha garganta.

O sangue começou a jorrar e depois a fluir. Então diminuiu e parou...

...O martelar na parle da frente da minha cabeça, a pressão atrás. Tudo era uma transformação turva, uma transformação uou-ou-ou-uou, uma parede vermelha vindo da noile em minha direção.

...Senti o goslo de estrelas dissolvidas em salmoura, espumantes, distantes e salgadas

...meus dedos formigavam com alfinetes e minha pele era açoitada com línguas de fogo; meus olhos eram topázios; podia sentir o gosto da noite
Minha respiração fumegava e crescia no ar gelado.

Rosnei involuntariamente, do fundo de minha garganta. Minhas patas dianteiras tocavam a neve.

Recuei, retesei-me e saltei sobre ela,

Havia um sentido de corrupção narrando no ar, como bruma, envolvendo-me. No alto do meu salto, pareci hesitar e algo explodiu como uma bolha de sabão...


Eu estava no fundo, no fundo da escuridão sob o mar, de pé com minhas quatro patas sobre uma pedra coberta de limo na entrada de um tipo de cidadela construída de enormes pedras cortadas grosseiramente. As pedras emitiam um brilho pálido na luz escura; uma luminescência fantasmagórica, como os ponteiros de um relógio

Uma nuvem de sangue negro saía do meu pescoço.

Ela estava de pé na entrada à minha frente. Tinha agora mais de um metro e oitenta de altura, talvez dois. Havia carne nos ossos de seu esqueleto, esburacada e roída, mas as sedas eram algas, balançando na água fria, lá embaixo nas profundezas sem sonho. Escondiam seu rosto como um vagaroso véu verde.

Havia lapas crescendo nas superfícies superiores dos seus braços e na carne que pendia das suas costelas.

Senti-me como se estivesse sendo esmagado. Não consegui pensar mais.

Ela se moveu na minha direção. A alga que envolvia sua cabeça virou. Seu rosto era como as coisas que você não tem vontade de comer num balcão de sushi, toda rêmoras e espinhas e frondes de anêmonas balançando-se. E em algum lugar disso tudo, eu sabia que ela estava sorrindo.

Impulsionei-me com minhas pernas traseiras. Encontramo-nos lá, no fundo, e lutamos. Era tão frio, tão escuro. Fechei minhas mandíbulas no seu rosto e senti algo lacerar e rasgar.

Foi quase um beijo, lá na profundeza abismal...
Pousei suavemente na neve, um xale de seda entre minhas mandíbulas. As outras mantilhas estavam agitando-se no chão. Madame Ezekiel não estava em lugar algum.

A faca de prata jazia no chão, na neve. Esperei, de quatro, sob o luar, encharcado. Sacudi-me, borrifando salmoura ao meu redor. Ouvi o chiado, quando atingiu o fogo.

Estava tonto e fraco. Sorvi o ar profundamente em meus pulmões.

Lá, muito abaixo, na baía, pude ver o povo-rã parado na superfície do mar como coisas mortas; por vários segundos, vagueavam para a frente e para trás na maré, então se torciam e pulavam e, um a um, caíam chapinhando a água na baía e desapareciam debaixo do mar.

Houve um grito. Era o barman de cabelo cor de raposa, o homem de olhos saltados do tapume de alumínio, que estava fitando o céu noturno, as nuvens que se arrastavam cobrindo as estrelas, e gritando. Havia ódio e frustração naquele grito e ele me assustou.

Pegou a faca do chão, limpou a neve do punho com seus dedos e o sangue da lâmina com seu casaco. Depois olhou para mim. Gritava.

— Seu miserável — disse, — O que você fez a ela?

Eu lhe teria dito que não fiz nada a ela, que ela ainda estava de guarda muito abaixo no oceano, mas não podia falar mais, apenas rosnar, ganir e uivar.

Ele chorava. Fedia a insanidade e decepção. Ergueu a faca e correu até mim, e eu me esquivei para o lado.

Algumas pessoas não conseguem se adequar nem mesmo a mudanças minúsculas. O barman passou por mim, tropeçou, voou pelo penhasco e mergulhou no nada.

O sangue é negro, e não vermelho, sob o luar, e as marcas que deixou no flanco do penhasco enquanto caía, quicava e caía, eram nódoa; de negro e cinza escuro. Então, finalmente, ele se quedou imóvel nas pedras geladas na base do penhasco até que um braço estendeu-se do mar e o arrastou, tão devagar que quase doía olhar, para sob a água escura.

Uma mão acariciou minha cabeça. Senti-me bem.

— O que ela era? Apenas um avatar dos Profundos, senhor. Um espectro, uma manifestação, se preferir, a nós enviada das maiores profundezas para trazer o fim do mundo.

Ericei meu pêlo.

— Não, está acabado... por ora. Você a despedaçou, senhor, E o ritual é bem específico. Três de nós devem ficar de pé, juntos, e chamar os nomes sagrados enquanto sangue inocente coagula e pulsa aos nossos pés.

Olhei para cima, para o homem gordo, e gani uma pergunta. Ele acariciou minha nuca sonolentamente.

— É claro que ela não ama você, garoto. Ela mal existe neste plano em nenhum sentido material.

A neve começou a cair mais uma vez. A fogueira estava se apagando.

— A sua transformação hoje, incidentalmente, eu opinaria, é resultado direto das mesmas configurações celestiais e forças lunares que fizeram desta noite um momento perfeito para trazer de volta meus velho amigos do Inferior...

Continuou a falar com sua voz profunda e talvez estivesse me dizendo coisas importantes. Nunca saberei, pois o apetite crescia dentre de mim e suas palavras perderam todo o sentido, exceto pela sombra do seu significado. Eu não tinha mais interesse no mar, ou no alto do penhasco, ou no homem gordo.

Havia cervos correndo nos bosques além da pradaria: podia farejá-los no ar noturno de inverno.

E eu estava, acima de tudo, faminto.

Eu estava nu quando voltei a mim novamente, no começo da manhã seguinte, um cervo meio comido ao meu lado, na neve. Uma mosca andava no seu olho, e sua língua pendia da boca morta, tornando-o cômico e patético, como um animal de história em quadrinhos.

A neve estava manchada de um escarlate fluorescente onde a barriga do cervo tinha sido aberta.

Meu rosto e peito estavam pegajosos e vermelhos com aquele troço. Minha garganta tinha cascas de ferida, cicatrizes e ardia; na próxima lua cheia, estaria curada novamente.

O sol estava longe, pequeno e amarelo, mas o céu azul e sem nuvens. Não havia brisa. Podia ouvir o rugir do mar um pouco distante dali.

Eu estava com frio, nu, coberto de sangue e só. Ah, bom, pensei, acontece com todos nós no começo. Comigo é só uma vez por mês.

Estava exaurido a ponto de sentir dor, mas iria me esconder até encontrar um celeiro deserto ou uma caverna e então dormiria por duas semanas.

Um gavião voou baixo sobre a neve em minha direção com alguma coisa pendendo de suas garras. Pairou sobre mim por um segundo, então deixou cair uma pequena lula cinza na neve, aos meus pés, e voou para cima. A coisa flácida ficou lá, parada, silenciosa e tentacular na neve sangrenta.

Tomei isso como um presságio, mas, se bom ou ruim, não poderia dizer e realmente não me importava mais; dei as costas para o mar, em direção à sombria Innsmouth e comecei a andar rumo à cidade.


BAY WOLF
Ouça, Talbot. Alguém está matando o meu pessoal,

Disse Roth, rosnando ao telefone como o mar numa concha.

Descubra quem são, o porquê e detenha esses caras.
Deter como?, perguntei.
Do jeito que for, disse ele. Mas não quero essa gente se safando

depois que você detiver, se é que me entende.

E eu entendi. E estava contratado.


Agora ouça: isso foi nos anos dois mil e vinte

em Los Angeles, em Venice Beach.

Gar Roth era o dono do negócio naquela parte do mundo,

lidava com estimulantes, bombas e esteróides,

recreativos, estabeleceu uma grande comitiva.

Todos os sarados, garotos vestindo tiras de couro, malhados,

garotas detonando curvas, feromonas e seduzomonas,

todos adoravam Roth. Ele tinha o bagulho.


A polícia pegava sua grana para fazer vista grossa;

ele era o dono da praia, de Laguna Beach até Malibu,

construiu uma mansão na praia onde os sarados e as curvilíneas

ficavam, chupavam e se mostravam.


Ah, mas aquela cidade venerava a carne; e carne era com eles.

Havia festas. Todos iam às festas,

cheirados, bêbados, abalados,

a música era tão alta que você podia senti-la em seus ossos,

e foi então que alguém os pegou, silenciosamente,

o que quer que fosse. Quebrou suas cabeças.

[Rasgou até só restarem vísceras.

Ninguém ouviu os berros acima do estrondo das

[velhas músicas e da arrebentação.

Foi o ano do renascimento do death metal.

Levou, talvez, doze deles, arrastou-os para o mar,

morte de manhã cedo.

Roth disse que acreditava ser um cartel de drogas rival,

colocou mais guardas, helicópteros circulando, barcos vigiando

para quando voltasse. Como voltou outra vez e mais outra.

Mas as câmaras e os vídeos não mostraram nada.


Não tinham idéia do que fosse, mesmo assim,

decepava membros de membros e cabeças de pescoços,

rasgava sacos de silicone de seios inflados,

deixava testículos atrofiados por esteróide na praia

como criaturas minúsculas, em forma de mundo, na areia.

Roth tinha sido atingido: a praia não era a mesma,

e foi aí que ele me ligou.
Andei por cima de várias gracinhas adormecidas de todos os sexos,

bati no ombro do Roth. Antes

que eu pudesse piscar, uma dúzia de armas enormes

estava apontada para o meu peito e cabeça,

Então, eu disse: Ei, não sou um monstro

Bom, não sou seu monstro, de qualquer forma.

Não ainda.
Dei-lhe meu cartão. Talbot, disse ele.

Você é o ajustador com quem falei?

Isso mesmo, disse-lhe, papo durão à tarde,

e você tem coisas que precisam ser ajustadas.

O trato é o seguinte, disse eu.

Resolvo seu problema. E você paga, paga e paga.
Roth disse: Claro, como combinamos. O que quer que seja. Fechado.

Eu? Estou achando que é a Máfia euroisraelense

ou os Chinos. Você tem medo deles?
Não, disse-lhe. Não tenho.
Eu meio que desejava estar lá nos dias de glória:

Agora a bela gente de Roth estava ficando meio magra,

nenhum deles, de perto,

era tão grande ou curvilíneo quanto parecia de longe.


Ao anoitecer, a festa começa.

Digo a Roth que odiei death metal da primeira vez que foi moda.

Ele me diz que devo ser mais velho do que pareço.

Tocam realmente alto. Os alto-falantes fazem a praia pulsar e latejar.


Então desnudo-me para a ação e espero

de quatro patas na cavidade de uma duna.

E noites e dias espero. E espero. E espero.
Em que merda de lugar você e seu pessoal se meteram?

perguntou Roth no terceiro dia. Pra que merda estou pagando você?



Nada na praia na noite passada a não ser um grande cão.

Mas eu apenas sorri. Não há sinal de problema até agora, o que quer que seja,

disse eu.

E eu estive aqui o tempo todo.



Pra mim, é a Máfia de Israel, disse ele.

Nunca confiei nesses europeus.
A terceira noite chega.

A lua está enorme e de um vermelho químico.

Dois deles estão brincando na arrebentação.

Garoto e garota brincam,

os hormônios ainda um pouco à frente das drogas. Ela está rindo

e a arrebentação quebra vagarosamente.

Seria suicídio se o inimigo viesse todas as noites.

Mas o inimigo não vem todas as noites,

assim eles correm pela arrebentação,

salpicando a água, gritando de prazer. Tenho ouvidos aguçados



(pra ouvi-los melhor) e bons olhos

(pra vê-los melhor)

e são tão jovens e felizes fodendo tanto que eu podia cuspir.


A coisa mais difícil para alguém como eu:

o dom da morte vai para gente como eles.

Ela gritou primeiro. A lua vermelha estava alta

e cheia havia apenas um dia.

Observei-a cambalear pela arrebentação, como se

o mar tivesse seis metros de profundidade e não meio,

como se ela estivesse sendo chupada para baixo.

[O garoto simplesmente correu,

um jorro de mijo claro salpicando da ponta dos seus Shorts Speedo.

Aos tropeços, lamuriava para longe.


A coisa saiu da água vagarosamente, como um homem

[com maquiagem de monstro

de filme de terceira.
Carregava a garota bronzeada nos braços. Bocejei,

como grandes cães bocejam, e lambi meus flancos.


A criatura arrancou o rosto da menina com mordidas e largou o que sobrou

na areia,

e eu pensei: carne e produtos químicos, como eles

se transformam rapidamente em carne e produtos químicos,

[só uma mordida e são

carne e produtos químicos...

Os homens de Roth desceram com medo nos olhos,

armas automáticas nas mãos. Ele os pegou

e os retalhou, largando-os na areia sob o luar.


A coisa andou rigidamente praia acima, areia branca aderindo

nos seus pés verde acinzentados, palmados e com garras.



No topo do mundo, mãe, rosnou.

Que tipo de mãe, pensei, dá a luz uma coisa como essa?

E do alto da praia podia ouvir Roth berrando, Talbot,



Talbot, seu babaca. Onde está você?
Levantei-me, estiquei-me e galopei nu pela praia.

Olá, disse eu.

Oi, totó, disse ele.

Vou decepar sua perna cabeluda c enfiar pela sua garganta abaixo.

Isso não é jeito de se falar, oi, eu lhe disse.

Sou o Grand Al, disse ele.

E quem é você? Jojo, o garoto com cara de cachorro vira-lata?

Vou fustigar, rasgar e lacerar até você virar merda.
Avante, besta fétida, disse eu.

Ele me fitou com olhos que brilhavam como cachimbos de crack.



Avante? Caceta, guri. Quem é que vai me obrigar?

Eu, gracejei. Eu vou.

Eu sou um dos avante-guardas.
Ele pareceu perplexo, machucado, um pouco confuso e,

por um instante, quase senti pena.


Então, a lua saiu de trás de uma nuvem,

e comecei a uivar.


Sua pele era pálida como escama de peixe,

seus dentes agudos como os de tubarão,

seu dedos eram palmados e com garras,

e, rosnando, ele investiu sobre meu pescoço.


E ele disse: O que é você?

Ele disse: Oh, não, oh.

Ele disse: Ei, merda, isso não é justo.

Então, não disse mais nada, nenhuma palavra, agora,

sem mais palavras,

porque eu tinha arrancado seu braço

e largado,

dedos espásticos agarrando o nada,

na praia.
Grand Al correu para as ondas e eu galopei atrás dele.

As ondas eram sal: seu sangue fedia.

Podia sentir o gosto dele, negro na minha boca.
Ele nadou, e eu o segui, para baixo e para baixo,

E, quando senti meus pulmões explodindo,

o mundo esmagando minha garganta, cabeça, mente e peito,

a poucos segundos de me sufocar,

chegamos às ruínas tombadas de uma plataforma de petróleo,

era onde Grand Al tinha ido morrer.


Esse devia ser o lugar onde ele tinha nascido,

a estação que enferrujava abandonada no mar.


Ele estava três quartos morto quando cheguei.

Eu o abandonei à morte: um estranho fait o do mar teria sido,

um prato de príons desgarrados. Carne perigosa. Mesmo assim,

chutei-lhe a mandíbula, roubei um dente de tubarão,

que arranquei, para me dar sorte.

Então ela veio para cima de mim, toda dentes e garras.


Por que seria tão estranho que a fera tivesse uma mãe?

Muitos de nós temos mães.

Volte cinqüenta anos e todos tinham uma mãe.
Ela lamentava pelo seu filho, lamentava e lamuriava.

Perguntou-me como eu podia ter sido tão cruel.

Agachou-se, acariciou seu rosto e, então, gemeu.

Depois, falamos, lutando por um lugar comum.


O que fizemos não é problema seu.

Não é mais do que você ou eu já tenhamos feito antes,

e se eu a amei ou a matei, seu filho estava morto como

o golfo.
RoIando, pêlo e escamas,

seu pescoço entre meus dentes,

minhas garras arranhando suas costas

Lalalalalala. Essa é a mais velha canção.
Mais tarde, saí da arrebentação.

Roth estava esperando no amanhecer.

Larguei a cabeça de Grand Al na praia,

fina areia branca grudada em grumos nos olhos molhados.


Este era seu problema, disse-lhe.

É, está morto, completei.

E agora? Perguntou.

Dinheiro, disse-lhe.
Você acha que ele eslava trabalhando para os Chinos?, perguntou.

Ou a Máfia euroisraeiense? Ou quem?

Ele era um vizinho, disse eu. Queria que você deixasse o som mais baixo.

Você acha?, disse ele.

Eu sei, disse-lhe olhando para a cabeça.

De onde ele veio?, perguntou Roth.

Vesti minhas roupas, cansado da transformação.



Carne e produtos químicos, sussurrei.
Ele sabia que eu mentia, mas lobos nasceram para mentir.

Sentei-me na praia para olhar a baía,

fitei o céu enquanto o amanhecer virava dia,

e sonhei com o dia em que eu poderia morrer.


ARREMATE POR ATACADO


Peter Pinter nunca tinha ouvido falar de Aristipo de Cirenaica, um seguidor menos conhecido de Sócrates que afirmava que evitar problemas era o maior bem a ser atingido. Entretanto, ele tinha vivido sua monótona vida de acordo com esse preceito. Em todos os aspectos, exceto um (uma falta de habilidade para rejeitar uma pechincha, e qual de nós está completamente livre disso?), era um homem muito moderado. Não fazia nada radical. Sua conversa era apropriada e reservada; raramente comia demais; bebia o suficiente para ser social e nada mais; estava longe de ser rico, mas de forma alguma era pobre. Gostava das pessoas e as pessoas gostavam dele. Tendo tudo isso em mente, você esperaria encontrá-lo num pub de baixo nível na pior parte do East End de Londres, fechando o que se conhece coloquialmente como "contrato" para dar cabo de alguém que ele mal conhecia? Não, você não esperaria. Nem mesmo esperaria encontrá-lo no pub.

E, até uma certa sexta-feira à tarde, você teria toda a razão. Mas o amor de uma mulher pode fazer coisas estranhas a um homem, até mesmo a um tão sem sal quanto Peter Pinter, e a descoberta de que a senhorita Gwendolyn Thorpe, vinte e três anos, residente no Oaktree Terrace, 9, em Purley, estava de enrosco (como diria o populacho) com um afável e jovem mancebo do departamento de contabilidade — depois, note bem, de ela ter consentido em usar um anel de noivado, feito de rubis verdadeiros, ouro de nove quilates e alguma coisa que poderia muito bem ser um diamante (37 libras e cinqüenta pence), cuja escolha tomou quase toda a hora do almoço de Peter — pode fazer coisas realmente estranhas a um homem.

Depois de fazer essa descoberta chocante, Peter passou a noite de sexta-feira insone, agitando-se e virando-se com visões de Gwendolyn e Archie Gibbons (o Don Juan do departamento de contabilidade da Clamages), dançando e nadando frente a seus olhos — fazendo atos que até mesmo Peter, se pressionado, teria de admitir serem muito improváveis. Mas a bile do ciúme tinha emergido dentro dele e, de manhã, havia resolvido que seu rival deveria ser aniquilado.

A manhã de sábado foi despendida indagando-se como alguém entrava em contato com um assassino, pois, até onde Peter sabia, nenhum era empregado pela Clamages (a loja de departamentos que empregava os três membros do nosso eterno triângulo e que, incidentalmente, forneceu o anel) e ele era cauteloso com relação a perguntar a alguém abertamente por temer atrair atenção sobre si.

Assim, o sábado à tarde encontrou-o caçando petas Páginas amarelas.

ASSASSINOS, descobriu, não estava entre ASPIRADORES DE PÓ (CONSERTO) e ASSESSORIA (QUANTIDADE); MATADORES não estava entre MASSAS ALIMENTÍCIAS e MATADOUROS; HOMICIDAS não estava entre HOMEOPATIA e HOSPEDARIAS. CONTROLE DE PRAGAS pareceu promissor; entretanto, uma investigação mais minuciosa dos anúncios revelou-os quase que somente envolvidos com "ratos, camundongos, pulgas, baratas, coelhos, toupeiras e ratos" (para citar um que Peter achou ser um tanto duro com os ratos) e não o que realmente tinha em mente. Mesmo assim, sendo de natureza cuidadosa, ele zelosamente inspecionou os itens daquela categoria e, no fim da segunda página, em letras pequenas, encontrou uma firma que parecia ser promissora.



"Completa e discreta remoção de mamíferos etc, indesejáveis e maçantes", dizia o anúncio, "Ketch, Hare, Burke e Ketch. A Velha Firma", Não dava o endereço, apenas o número do telefone.

Peter discou o número, surpreendendo-se ao fazê-lo. Seu coração martelava no peito e tentou parecer indiferente. O telefone tocou uma, duas, três vezes. Peter estava começando a ter esperanças de que não seria atendido e que ele poderia esquecer tudo, quando houve um clique e a voz enérgica de uma jovem disse:

— Ketch, Hare, Burke e Ketch. Em que posso ajudá-lo?

Cuidadosamente, não dando o seu nome, Peter disse:

— Hã, qual o tamanho, quero dizer, até que tamanho de mamíferos vocês... digo... hã... removem?

— Bom, isso depende de que tamanho o senhor precisa.

Ele criou coragem.

— Uma pessoa?

A voz dela continuou enérgica e tranqüila.

— Entendo. O senhor tem caneta e papel à mão? Bom. Esteja no pub Burro Sujo, na rua Little Courtney, E3, hoje à noite às oito horas. Traga um exemplar enrolado do Financial Times — aquele cor de rosa, senhor — e lá o nosso operador o abordará.

Então, ela desligou o telefone.

Peter estava exultante. Tinha sido muito mais fácil do que havia imaginado. Desceu até a banca de jornal e comprou um exemplar do Financial Times, encontrou a rua Little Courtney no seu guia Londres de A-Z, e passou o resto da tarde assistindo ao futebol na televisão e imaginando o funeral do afável e jovem mancebo da contabilidade.

Peter demorou um pouco para achar o pub. Finalmente, viu a placa do pub, que mostrava um burro e, sim, ele era impressionantemente sujo.

O Burro Sujo era um pub pequeno e mais ou menos imundo, pobremente iluminado, no qual grupos de pessoas com barba por fazer, vestindo casacos cor de burro e empoeirados ficavam olhando uns aos outros desconfiadamente, comendo salgadinhos e bebendo quartilhos de Guinness, uma bebida com que Peter nunca se importou.

Ele segurava seu Financial Times sob um braço, tão visível quanto podia, mas ninguém se aproximou. Então, comprou meio shandy e retirou-se para uma mesa de canto. Incapaz de pensar em nada mais para fazer enquanto esperava, tentou ler o jornal, porém, perdido e confuso com um labirinto de mercado futuro de grãos e uma empresa de borracha que estava vendendo alguma coisa ou outra que estava desprovida (de que coisas estava desprovida ele não pôde dizer), desistiu e encarou a porta.

Tinha esperado quase dez minutos quando um pequeno homem de negócios forçou seu caminho pub adentro e olhou rapidamente à sua volta. Então, foi direto até a mesa de Peter e se sentou.

Estendeu sua mão.

— Kemble. Burton Kemble da Ketch, Hare, Burk e Ketch. Disseram-me que o senhor tem um trabalho pra nós.

Não parecia um matador. Peter disse isso.

— Oh, não, Deus me livre, não, Eu não faço realmente parte da nossa força de trabalho, senhor. Estou em vendas.

Peter assentiu com a cabeça. Aquilo certamente fazia sentido.

— Podemos, hã, falar abertamente aqui?

— Claro, ninguém está interessado. Bom, quantas pessoas o senhor gostaria de remover.

— Apenas uma. Seu nome é Archibald Gibbons e ele trabalha no departamento de contabilidade da Clamages. Seu endereço é...

Kemble interrompeu.

— Podemos ver isso tudo depois, senhor, se não se importar. Vamos rapidamente ver o lado financeiro. Primeiro, o contrato vai lhe custar quinhentas libras...

Peter concordou balançando a cabeça. Podia pagar aquela soma e, de fato, achou que custaria um pouco mais.

— ...apesar de sempre haver a oferta especial — concluiu Kemble afavelmente.

Os olhos de Peter brilharam. Conforme mencionei antes, ele adorava uma pechincha e freqüentemente comprava coisas que não imaginava usar em liquidações e ofertas especiais. Fora esse defeito (o qual muitos de nós compartilham), ele era um jovem muito moderado.

— Oferta especial?

— Dois pelo preço de um, senhor.

Mmm. Peter pensou a respeito. Aquilo dava apenas 250 libras cada um, o que não poderia ser mal, não importa como você veja. Havia apenas um empecilho.

— Creio que não tenha ninguém mais que eu queira que morra.

Kemble pareceu desapontado.

— É uma pena, senhor. Por dois, provavelmente poderíamos até abaixar o preço, digamos 450 libras por ambos.

— Sério?


— Bom, isso daria aos nossos operadores algo que fazer, senhor. O senhor deve saber — e aqui ele baixou sua voz — que não há, de fato, muito trabalho nesse ramo em particular para mantê-los ocupados. Não como nos velhos tempos. Não há só mais uma pessoa que o senhor gostaria de ver morta?

Peter ponderou. Odiava perder uma pechincha, mas não conseguia, pela sua vida, pensar em mais alguém. Gostava das pessoas. Mesmo assim, uma pechincha era uma pechincha...

— Ouça — disse Peter. — Posso pensar nisso e ver você amanhã à noite?

O vendedor pareceu satisfeito.

— Claro, senhor — disse. — Eu estou certo de que o senhor pensará em alguém.

A resposta — a resposta óbvia — veio a Peter quando ele estava vagueando entre o acordado e o dormindo, naquela noite. Sentou-se na cama, acendeu desajeitadamente a luz do criado-mudo e escreveu um nome nas costas de um envelope, caso viesse a se esquecer. Para dizer a verdade, ele achou que não conseguiria esquecer, pois era dolorosamente óbvio, mas você nunca pode confiar nesses pensamentos da madrugada.

O nome que tinha escrito nas costas do envelope era o seguinte: Gwendolyn Thorpe.

Desligou a luz, virou-se para o lado e logo estava dormindo, sonhando sonhos pacíficos que notavelmente nada tinham a ver com assassinatos.


Kemble esperava por ele quando chegou ao Burro Sujo no domingo à noite. Peter pegou uma bebida e sentou-se ao seu lado.

— Estou aceitando a oferta especial — disse como cumprimento, Kemble assentiu vigorosamente com a cabeça.

— Uma decisão muito sábia, se o senhor não se importa com meu comentário.

Peter Pinter sorriu modestamente, da maneira como sorri alguém que lê o Financial Times e toma sábias decisões de negócios.

— Serão quatrocentas e cinqüenta libras, creio.

— Eu disse quatrocentas e cinqüenta libras, senhor? Meu Deus, me desculpe, por favor. Eu estava pensando na nossa taxa para grandes quantidades. Seriam quatrocentas e setenta e cinco libras para duas pessoas.

— Taxa para grandes quantidades?

— Claro, mas duvido que o senhor esteja interessado nisso.

— Não, estou sim. Fale-me a respeito.

— Muito bem, senhor. Taxa para grandes quantidades seria para um trabalho grande, dez pessoas.

Peter perguntou-se se havia entendido direito.

— Dez pessoas? Mas é só quarenta e cinco libras por pessoa.

— Sim, senhor. São os pedidos grandes que tornam o negócio lucrativo.

— Entendo — disse Peter. — Mmm, você poderia estar aqui amanhã à noite na mesma hora?

— Claro, senhor.

Ao chegar em casa, Peter pegou um pedaço de papel e uma caneta. Escreveu os números de um a dez em um lado e depois os completou da seguinte maneira:

1..........Archie G.

2..........Gwennie.

3..........

E assim por diante.

Tendo preenchido os dois primeiros, sentou-se chupando sua caneta, caçando afrontas feitas a ele e pessoas sem as quais o mundo seria melhor.

Fumou um cigarro. Andou pelo quarto.

Ahá! Havia um professor de física na escola que freqüentara que adorava tornar sua vida miserável. Qual era seu nome mesmo? E, a propósito, ainda estaria vivo? Peter não tinha certeza, mas escreveu O Professor de Física, Escola Secundária da Rua Abbot, ao lado do número três. O próximo veio mais facilmente — o chefe do seu departamento tinha recusado aumentar seu salário dois meses atrás; o fato de o aumento ter finalmente vindo não importava. Sr. Hunterson era o número quatro.

Quando tinha cinco anos de idade, um garoto chamado Simon Ellis derramou tinta na sua cabeça enquanto outro menino chamado James Fulano ou Sicrano o segurava e uma menina chamada Sharon Hartsharpe ria. Eram números cinco a sete respectivamente.

Quem mais?

Havia o homem da televisão com risinho irritante que lia as notícias. Entrou na lista. E a mulher do apartamento vizinho com o cachorrinho vira-latas que cagou no saguão? Colocou-a e o cachorro no número nove. Coçou a cabeça e foi até a cozinha tomar uma xícara de café, depois voltou correndo e escreveu Meu tio-avô Mervyn no décimo lugar. Havia rumores de que o velho era bem influente e havia a possibilidade (se bem que um tanto exígua) de que pudesse deixar algum dinheiro para Peter.

Com a satisfação de uma noite de trabalho bem feito, foi para a cama.

A segunda-feira na Clamages foi rotineira. Peter era um assistente de vendas sênior no departamento de livros, um trabalho que realmente acarretava muito pouca responsabilidade. Agarrou sua lista, apertando-a na mão, no fundo do bolso, rejubilando-se pelo sentimento de poder que ela lhe dava. Passou uma hora de almoço muito agradável na cantina com a jovem Gwendolyn (que não sabia que ele a tinha visto entrar junto com Archie na sala de estoque) e até mesmo sorriu para o jovem afável do departamento de contabilidade quando se cruzaram no corredor.

Ele mostrou orgulhosamente a lista a Kemble naquela noite.

O rosto do pequeno vendedor caiu.

— Receio que não sejam dez pessoas, Sr. Pinter — explicou. — O senhor contou a mulher do apartamento vizinho e seu cachorro como uma pessoa. Isso dá onze, o que seria um extra — sua calculadora de bolso foi rapidamente colocada em ação — um extra de setenta libras. E se esquecermos o cachorro?

Peter balançou a cabeça negativamente.

— O cachorro é tão mau quanto a mulher. Ou pior.

— Então, receio que temos um pequeno problema. A não ser que...

— O quê?

— A não ser que o senhor utilize as vantagens da nossa taxa de venda por atacado. Mas é claro que o senhor não estaria...

Há palavras que fazem coisas com as pessoas, palavras que levam rostos a se ruborizarem de prazer, entusiasmo ou paixão. Ambiental pode ser uma; oculto é outra. Atacado era a palavra de Peter. Ele se recostou na sua cadeira.

— Fale-me a respeito — disse com a certeza ensaiada de um lojista experiente.

— Bom, senhor — disse Kemble permitindo-se um risinho —, podemos, hã, arrematar todos para o senhor por atacado, dezessete libras e cinqüenta cada para toda vítima além das cinqüenta primeiras, ou dez libras cada acima de duzentas.

— Suponho que você abaixaria para cinco se eu quisesse despachar mil pessoas?

— Oh não, senhor. — Kemble pareceu chocado. — Se o senhor fala de um número assim, podemos fazer por uma libra cada.

— Uma libra?

— Isso mesmo, senhor. Não há uma grande margem de lucro, mas a alta quantia de dinheiro movimentado no negócio e a maior produtividade mais do que justificam.

Kemble levantou-se.

— A mesma hora amanhã, senhor?

Peter assentiu com a cabeça.

Mil libras, Mil pessoas. Peter Pinter nem mesmo conhecia mil pessoas. Mesmo assim... havia o Parlamento. Não gostava dos políticos; eles discutiam, disputavam e se comportavam mal.

E para aquela questão...

Uma idéia, chocante pela audácia. Corajosa. Ousada. Ainda assim, a idéia estava lá e não iria embora. Uma prima sua distante tinha se casado com o irmão mais novo de um conde, ou um barão, ou coisa assim.

No caminho do trabalho para casa, naquela tarde, ele parou numa lojinha pela qual tinha passado mil vezes sem entrar. Uma grande placa na janela garantia traçar-lhe a linhagem e até mesmo desenhar um brasão, caso tivesse perdido o seu por descuido. Havia também um mapa heráldico impressionante.

Eles foram de grande auxilio e lhe telefonaram logo depois das sete para lhe dar a notícia.

Se aproximadamente quatorze milhões, setenta e duas mil, oitocentas e onze pessoas morressem, ele, Peter Pinter, seria o Rei da Inglaterra.

Peter não tinha quatorze milhões, setenta e duas mil, oitocentas e onze libras, mas suspeitava de que, quando se falasse dessa cifra, o Senhor Kemble teria um dos seus descontos especiais.
E o Sr. Kemble tinha.

Ele nem mesmo ergueu a sobrancelha.

— Na verdade — explicou —, funciona bem barato; veja bem, não teríamos de lidar com todos individualmente. Armas nucleares de pequena escala, alguns bombardeios criteriosos, ataque com gás, praga, jogar isótopos radiativos em piscinas e, então, efetuar operação de limpeza. Digamos, quatro mil libras.

— Quatro mi...? Isso é inacreditável!

O vendedor pareceu satisfeito consigo mesmo.

— Nossos operadores ficarão contentes com o trabalho, senhor — Ele sorriu. — Temos orgulho de servir nossos clientes por atacado.

O vento soprava frio quando Peter saiu do pub, fazendo a velha placa balançar. Não parecia muito com um burro sujo, pensou Peter. Lembrava mais um cavalo branco.

Peter estava vagueando entre o dormindo e o acordado naquela noite, ensaiando mentalmente o discurso da sua coroação, quando um pensamento entrou e se fixou em sua mente. Não saía de lá. Será que ele podia — seria possível que estivesse deixando passar uma economia ainda maior do que a que já havia conseguido? Será que podia estar perdendo uma pechincha?

Peter arrastou-se para fora da cama e andou até o telefone. Era quase três da manhã, mas mesmo assim...

Sua Páginas amarelas estava aberta onde havia deixado, no sábado anterior, e ele discou o número,

O telefone parecia tocar eternamente. Houve um clique e uma voz entediada disse:

— Burke Hare Ketch. Em que posso ajudar?

— Espero não estar ligando muito tarde — começou ele...

— Em absoluto, senhor.

— Será que eu poderia falar com o Sr. Kemble?

— O senhor pode aguardar? Verei se ele está disponível.

Peter esperou alguns minutos, ouvindo os estalos e sussurros fantasmagóricos que sempre ecoam pelas linhas telefônicas em silêncio.

— O senhor ainda está aí?

— Sim, estou aqui.

— Estou passando. — Houve um zumbido e então:

— Kemble falando.

— Ah, Sr. Kemble. Olá. Sinto se o tirei da cama ou coisa assim. Aqui é, hmm, Peter Pinter.

— Sim, Senhor Pinter?

— Bom, sinto muito que seja tão tarde. É só que, eu queria... Quanto custaria para matar todo mundo? Todas as pessoas do mundo?

— Todo mundo? Todas as pessoas?

— Sim. Quanto? Quer dizer, para um pedido como este vocês teriam algum tipo de desconto grande, não? Quanto seria? Para todo mundo?

— Nada, Sr. Pinter.

— Quer dizer que vocês não fariam isso?

— Quero dizer que faríamos isso de graça, Sr. Pinter. Temos apenas de ser solicitados, veja bem. Sempre temos de ser solicitados.

Peter estava confuso.

— Mas... quando vocês começam?

— Quando começamos? Agora mesmo. Agora. Estamos prontos já faz bastante tempo. Mas temos de ser solicitados, Sr. Pinter. Boa noite. Foi um prazer fazer negócio com o senhor.

A linha ficou muda.

Peter sentiu-se estranho. Tudo parecia muito distante. Queria se sentar. O que diabos o homem queria dizer? "Sempre temos de ser solicitados". Era sem dúvida estranho. Ninguém faz nada de graça neste mundo; ele decidiu ligar de volta para Kemble e cancelar a coisa toda. Talvez tenha reagido de forma muito dura. Quem sabe houvesse um motivo perfeitamente inocente para Archie e Gwendolyn entrarem no estoque juntos. Ele falaria com ela; era o que faria. Falaria com Gwendolyn, a primeira coisa na manhã seguinte...

Foi quando os barulhos começaram.

Gritos estranhos do outro lado da rua. Uma briga de gatos? Raposas, provavelmente. Esperava que alguém jogasse um sapato neles. Então, do corredor do lado de fora do seu apartamento, ouviu um som abafado de passos pesados, como se alguém estivesse arrastando algo muito pesado pelo chão. Parou. Alguém bateu na sua porta, duas vezes, muito suavemente,

Do lado de fora da janela, os gritos ficavam mais altos. Peter sentou-se na sua poltrona sabendo que de alguma forma, em algum lugar, ele havia cometido um equívoco. Alguma coisa importante. As batidas na porta redobraram. Ele estava grato por sempre trancar e passar a corrente à noite.

Eles já estavam prontos havia muito tempo, mas tinham de ser solicitados...

Quando a coisa passou pela porta, Peter começou a gritar, mas, na verdade, não por muito tempo.


UMA VIDA, GESTADA NOS PRIMEIROS TRABALHOS

DE MOORCOCK


O pálido príncipe albino ergueu sua grande espada negra:

Esta é Aquela Que Traz a Tempestade — disse ele ~ e ela sugará lua alma.



A Princesa suspirou.

Muito bem — disse ela. — Se é o que necessitas para obter a energia de que precisas para combater os Guerreiros Dragões, então deves me matar e permitir à tua larga espada alimentar-se da minha alma.

Não quero fazer isso — lamentou.

Está tudo bem — garantiu a princesa e rasgou seu frágil vestido, desnudando o peito para ele, — Este é meu coração — disse, apontando-o com seu dedo. — E é onde deves imergir tua espada.

Ele nunca tinha ido além disso. Aconteceu no dia em que tinha sido informado que seria transferido para um ano letivo acima na escola, e não havia muito sentido continuar lendo depois disso. Tinha aprendido a não tentar continuar histórias de um ano para outro. Agora, tinha doze anos.

Apesar disso, era uma pena.

O título da redação tinha sido Encontrando minha personagem literária favorita, e ele havia escolhido Elric. Cogitara Corum, Jerry Cornelius, ou até mesmo Conan, o Bárbaro, mas Elric de Melnibone ganhou, com a mão nas costas, como sempre fazia.

Richard tinha lido Aquela que Traz a Tempestade, três anos antes, quando estava com nove. Tinha economizado para comprar um exemplar de A cidadela que canta (achou um logro quando acabou: apenas uma história de Elric) e, então, emprestou dinheiro do pai para comprar A feiticeira adormecida, Elric encontrara Erikose e Corum, dois outros aspectos do Eterno Campeão, e se uniram.

Isso significava, percebeu quando acabou de ler o livro, que as histórias de Corum e Erikose, e até mesmo as de Dorian Hawkmoon, eram na verdade histórias de EIric, também. Então, começou a comprá-las e a gostar delas.

Mesmo assim, não eram tão boas quanto as de Elric. Elric era o melhor.

Algumas vezes, sentava-se e desenhava Elric, tentando fazê-lo bem. Nenhuma das ilustrações do Elric nas capas dos livros parecia com o Elric que vivia em sua mente. Desenhava os Elrics com uma caneta tinteiro em livros de exercícios não preenchidos da escola que tinha obtido trapaceando. Na capa, escrevia seu nome: RICHARD GREY. NÃO ROUBE.

Às vezes, achava que deveria acabar sua história sobre Elric. Talvez até pudesse vendê-la para uma revista. Mas e se o Moorcock descobrisse? E se ele se metesse em encrenca?

A sala de aula era grande, cheia de carteiras de madeira. Cada carteira estava gravada, marcada e manchada com tinta pelo seu ocupante, um processo importante. Havia uma lousa na parede com um desenho de giz: uma retratação razoavelmente precisa de um pênis apontando para uma forma de Y, cuja intenção era representar a genitália feminina.

A porta bateu no andar de baixo, e alguém subiu a escada correndo,

— Grey, seu retardado, o que você está fazendo aqui? Era pra gente estar em campo. Você joga futebol hoje.

— Era pra gente estar? Eu?

— Foi anunciado na assembléia desta manhã. E a lista está no quadro de aviso de jogos.

J. B. C. MacBride tinha cabelo cor de areia, usava óculos e era, em geral, mais organizado do que Richard Grey. Havia dois J. MacRrides, por isso ele era chamado por todas as suas iniciais.

— Ah.

Grey pegou um livro (Tarzan no coração da Terra) e foi atrás dele. As nuvens estavam cinza-escuras, prometendo chuva ou neve.



As pessoas sempre anunciavam coisas que ele não percebia. O menino costumava chegar em aulas vazias, perder jogos organizados, ir para a escola em dias que todo mundo tinha ido para casa. Às vezes, sentia que vivia num mundo diferente de todo o resto.

Foi jogar futebol, Tarzan no coração da Terra saindo do fundo do seu mal-acabado calção azul.


Ele odiava duchas e banhos. Não entendia porque tinha de fazer ambos, mas era assim que as coisas funcionavam.

Estava congelando e não era bom em jogos. Já estava se tornando uma questão de honra perversa o fato de que, em todos os seus anos de escola, nunca tivesse marcado um gol, ganho uma corrida, posto alguém para fora no boliche, ou feito qualquer coisa, exceto ser a última pessoa escolhida quando escalavam os times.

Elric, o orgulhoso príncipe dos melnibonianos, jamais teria de ficar num campo de futebol no meio do inverno, desejando que o jogo terminasse.

Vapor dos chuveiros do vestiário e a parte interna das suas coxas estavam rachadas e vermelhas. Os meninos permaneciam nus e tremendo numa fila, esperando para tomar uma ducha e depois entrar nas banheiras.

O Senhor Mulchison, olhos selvagens, rosto coriáceo e enrugado, velho e quase careca, ficava no vestiário orientando os meninos nus para irem ao chuveiro e às banheiras.

— Você, menino. Seu tonto. Jamieson. Pro chuveiro, Jamieson. Atkinson, seu moleque, fique debaixo do chuveiro direito. Smiggins, pra banheira. Goring, tome o lugar dele no chuveiro...

Os chuveiros eram quentes demais. As banheiras geladas e barrentas.

Quando o senhor Mulchison não estava por perto, os garotos golpeavam-se uns aos outros com toalhas, faziam piadas sobre seus pênis, sobre quem tinha pêlos púbicos ou não.

— Não seja idiota — sibilou alguém perto de Richard, — Se o Murch voltar, ele te mata. Alguns meninos riam nervosos.

Richard virou-se e olhou. Um garoto mais velho tinha tido uma ereção e esfregava sua mão para baixo e para cima vagarosamente sob o chuveiro, mostrando orgulhosamente aquilo para o vestiário.

Richard virou-se para o outro lado.
Falsificar era fácil demais.

Richard podia fazer uma imitação passável da assinatura do Murch, por exemplo, e uma excelente versão da caligrafia e assinatura do diretor do seu colégio interno. Seu diretor era uma homem alto, careca, seco, chamado Trellis. Eles não gostavam um do outro havia anos.

Richard usava as assinaturas para conseguir livros de exercício em branco da papelaria, que distribuía papel, lápis, canetas e réguas mediante apresentação de nota assinada por um professor.

Richard escrevia histórias, poemas e fazia desenhos nos livros de exercício.

Depois do banho, Richard enxugou-se e vestiu-se apressadamente; tinha de voltar a um livro, um mundo perdido a retomar.

Saiu do prédio vagarosamente, gravata torta, camisa para fora da calça, lendo sobre Lord Greystoke, perguntando a si mesmo se realmente havia um mundo dentro da Terra, onde dinossauros voavam e nunca anoitecia.

A luz do dia começava a sumir, mas ainda havia alguns meninos fora da escola, brincando com bolas de tênis: dois jogavam conkers ao lado do banco. Richard recostou-se na parede de tijolos vermelhos e começou a ler; o mundo exterior foi bloqueado, as indignações dos vestiários esquecidas.

— Você é uma vergonha, Grey.

Eu?

— Olhe pra você. Sua gravata está toda torta. Você é uma vergonha pra escola. Isso sim.

O nome do menino era Lindfield, dois anos letivos acima dele, mas já tão grande quanto um adulto. Lindfield puxou a gravata verde de Richard, apertou-a com força, fazendo um pequeno nó.

— Patético.

Lindfield e seus amigos afastaram-se.

Elric de Melnibone estava de pé ao lado das paredes de tijolo vermelho, fitando-o. Richard puxou o nó da sua gravata, tentando afrouxá-lo. Estava cortando sua garganta.

Suas mãos tateavam desajeitadamente o pescoço.

Não conseguia respirar, mas não estava preocupado em respirar. Estava preocupado em ficar de pé. Richard tinha repentinamente esquecido do que fazer para ficar de pé. Foi um alívio descobrir o quanto o caminho de tijolo onde estava tinha ficado macio, subindo vagarosamente para abraçá-lo.

Estavam juntos, de pé sob um céu noturno onde brilhavam mil estrelas enormes, ao lado das ruínas do que devia ter sido um antigo templo.

Os olhos de rubi de Elric fitavam-no. Pareciam, pensou Richard, os olhos de um perverso coelho branco que tivera, antes de o animalzinho roer o arame da gaiola e fugir para os campos de Sussex a fim de aterrorizar raposas inocentes.

Sua pele era imaculadamente branca, sua armadura, enfeitada e elegante, ornada com padrões intrincados, perfeitamente negra. Seu belo cabelo branco balançava nos ombros como se tocado pela brisa, mas o ar estava parado.

Então você quer ser um dos companheiros dos heróis? — perguntou. Sua voz era mais suave do que Richard havia imaginado.

Richard assentiu com a cabeça.

Elric colocou um dedo comprido debaixo do queixo de Richard, levantou sua cabeça. Olhos de sangue, pensou Richard. Olhos de sangue.

Você não é um companheiro, garoto — disse na Alta Fala de Melnibone.

Richard sempre soube que entenderia a Alta Fala quando a ouvisse, mesmo que o seu latim e francês fossem fracos.

Bem, quem sou eu, então? — indagou. — Por favor, me diga. Por favor!

Elric não respondeu. Afastou-se de Richard, andando em direção às ruínas do templo.

O menino correu atrás dele.

Dentro do templo, Richard encontrou uma vida à sua espera, pronta para ser vestida e vivida, e dentro dessa vida, uma outra. Cada vida que vestia, deslizando para dentro dela, levava-o para mais longe, mais longe do mundo de onde tinha vindo. Uma a uma, existência após existência. Rios de sonhos e campos de estrelas; um gavião com um pardal preso nas garras voa baixo sobre a relva, e aqui estão pessoas minúsculas e intrincadas à sua espera a fim de encher suas cabeças com vida, e milhares de anos passam e ele está comprometido num trabalho de grande importância e beleza intensa, e é amado e honrado e, então, um puxão, um puxão abrupto e é...

... era como se emergisse do lado mais fundo de uma piscina. Estrelas apareceram acima dele e se afastaram, dissolvendo-se em azuis e cinzas. Foi com uma grande sensação de desapontamento que se tornou Richard Grey e voltou a si uma vez mais, sentindo uma emoção estranha. A emoção era específica, tão específica que, mais tarde, surpreendeu-se ao perceber que não tinha um nome: um sentimento de repulsa e pesar por ter de voltar a algo que tinha pensado que, há muito, fora posto de lado, abandonado, esquecido e morto.

Richard estava deitado no chão, e Lindfield puxava o minúsculo nó da sua gravata. Havia outros garotos ao redor; rostos fitando-o de cima, preocupados, ansiosos, amedrontados.

Lindfield afrouxou a gravata. Richard lutou para puxar o ar, arquejou, agarrou-o com os pulmões.

— A gente achou que você estivesse fingindo. Caiu assim, de repente — disse alguém.

— Cale a boca — disse Lindfield. — Você está bem? Sinto muito. Sinto muito mesmo. Meu Deus. Sinto muito.

Por um momento, Richard pensou que ele se desculpava por trazê-lo de volta do mundo além do templo.

Lindfield estava aterrorizado, solícito, desesperadamente preocupado. Sem dúvida, nunca havia antes quase matado alguém. Enquanto ajudava Richard a subir os degraus de pedra até a sala da enfermeira-chefe, explicava que tinha voltado da cantina da escola, encontrado Richard inconsciente no caminho, cercado de meninos curiosos e percebera o que estava errado. Richard descansou um pouco na sala da enfermeira-chefe, onde lhe foi dada uma aspirina solúvel e amarga. Depois, foi levado ao gabinete do diretor.

— Minha nossa, você está todo amarrotado, Grey! — disse o diretor, tragando seu cachimbo de maneira irritadiça. — Não culpo totalmente o jovem Lindfield. De qualquer forma, ele salvou sua vida. Não quero ouvir outra palavra sobre isso.

— Sinto muito — disse Grey.

— Isso acaba aqui — ordenou o diretor na sua nuvem de fumaça aromática.


— Você já escolheu sua religião? — perguntou o capelão da escola, Sr. Aliquid.

Richard balançou a cabeça negativamente.

— Tive poucas para escolher — admitiu.

O capelão da escola também era o professor de biologia de Richard. Recentemente, ele tinha levado a turma de biologia de Richard, meninos de quinze, treze anos e Richard, com apenas doze, à sua casa, do outro lado da estrada, em frente a escola. No jardim, o Sr. Aliquid matou, esfolou e desmembrou um coelho com uma faquinha afiada. Então, pegou uma bomba de bicicleta e encheu a bexiga do coelho como um balão até que ela explodiu, salpicando os garotos com sangue, Richard vomitou, mas foi o único.

— Hmm — disse o capelão.

O gabinete do capelão estava cheio de livros enfileirados. Era um dos poucos estúdios dos professores que, de alguma forma, era confortável.

— E masturbação? Você está se masturbando excessivamente? — Os olhos do Senhor Aliquid brilharam.

— O que é excessivamente?

— Ah. Mais do que três ou quatro vezes por dia, acho.

— Não — garantiu Richard. — Não excessivamente.

Ele era um ano mais novo do que qualquer um na classe e, algumas vezes, as pessoas esqueciam-se disso.
Todo fim de semana, ele viajava para North London, a fim de ficar com os primos e ter aulas para o bar mitzvah, dadas por um magro chazan ascético, mais frum impossível, um cabalista e guardião de mistérios ocultos para os quais ele podia ser dirigido com uma pergunta bem colocada. Richard era um especialista em perguntas bem colocadas.

Frum era judeu ortodoxo, linha-dura. Não admitia leite com carne e exigia duas máquinas de lavar para os dois jogos de pratos e talheres,

Não verás um rebento no leite da sua mãe.

Os primos de Richard em North London eram frum, apesar de ambos terem o hábito de comprar cheeseburgers em segredo depois da escola e de se gabarem, um ao outro, disso.

Richard suspeitava que seu corpo já estava irremediavelmente poluído. O que ele não fazia mesmo era comer coelho. Tinha comido coelho, sem gostar, por anos até descobrir o que era. Toda quinta-feira, havia o que acreditava ser um ensopado de galinha com gosto ruim. Numa dessas quintas-feiras, descobriu uma pata de coelho flutuando no seu ensopado e a ficha caiu. Depois disso, às quintas-feiras, enchia-se de pão com manteiga,

No trem de metrô para North London, sondava os rostos dos passageiros, perguntando a si mesmo se algum deles seria Michael Moorcock.

Se encontrasse Moorcock, perguntaria como voltar ao templo em ruínas.

Se encontrasse Moorcock, ficaria desconcertado demais para falar.


Algumas noites, quando seus pais saíam, ele tentava telefonar para Michael Moorcock.

Ligava para o auxílio à lista e pedia o número de Moorcock.

— Não posso dar a você, meu bem. Não está na lista.

Ele engabelava, adulava e nunca conseguia, para seu alívio. Não sabia o que diria a Moorcock se conseguisse telefonar.


Ticava os romances de Moorcock que já tinha lido, na página que indicava obras Do mesmo amor.

Naquele ano, parecia haver um novo livro de Moorcock toda semana. Ele os pegava na estação Victoria, a caminho das aulas de bar mitzvah.

Havia alguns que simplesmente não conseguia achar — Ladrão de almas e Café da manhã nas ruínas — e finalmente, nervoso, encomendou-os ao endereço que havia no fim dos livros. Pediu para o seu pai emitir um cheque.

Quando os livros chegaram, continham uma conta de vinte e cinco pence: os preços eram mais altos do que os originalmente informados. Ainda assim, agora ele tinha um exemplar do Ladrão de almas e do Café da manhã nas ruínas.

No fim de Café da manhã nas ruínas, havia uma biografia de Moorcock dizendo que o autor morrera de câncer no pulmão, no ano anterior.

Richard ficou abalado semanas a fio. Aquilo queria dizer que não haveria mais livros. Nunca mais.


Aquela porra de biografia. Logo depois que saiu, eu estava num show em Hawkwind, totalmente chapado, e as pessoas vinham até mim, e eu achei que estivesse morto. Ficavam dizendo "você está morto, você está morto". Mais tarde, percebi que estavam dizendo: "mas pensamos que você estivesse morto",

— Michael Moorcock, in conversa, Notting Hill, 1976


Havia o Eterno Campeão e os Companheiros dos Campeões. Moonglum era o companheiro de Elric, sempre alegre, o contraste perfeito para o pálido príncipe, que era presa de humores e depressões.

Existia um multiverso lá fora, brilhante e mágico. Havia os agentes do equilíbrio, os Deuses do Caos e os Senhores da Ordem. Havia as raças mais velhas, alias, pálidas e élficas, bem como os reinos jovens, cheios de gente como ele. Pessoas estúpidas, enfadonhas, normais.

Às vezes, ele esperava que Elric pudesse achar paz longe da espada negra. Mas não funcionava daquele jeito. Tinha de haver ambos — o príncipe branco e a espada negra.

Uma vez desembainhada, a espada ansiava por sangue, precisava ser enfiada na carne palpitante. Então, drenava a alma da vítima, alimentando com sua energia a frágil constituição de Elric.


Richard estava ficando obcecado com sexo; tinha até tido um sonho no qual fazia sexo com uma garota. Imediatamente antes de acordar, sonhou com o que deveria ser um orgasmo — era um sentimento intenso e mágico de amor, centrado no seu coração; era assim, no seu sonho.

Um sentimento de profunda e transcendente felicidade espiritual.

Nada que havia experimentado igualava-se a esse sonho.

Nada nem mesmo chegava perto.


O Karl Glogauer do Veja o homem não era o Karl Glogauer do Café da manhã nas ruínas, concluiu Richard. Mesmo assim, deu-lhe um orgulho estranho, blasfemo, ler Café da manhã nas ruínas na capela da escola, na galeria do coral. Desde que fosse discreto, ninguém parecia ligar.

Era o garoto com o livro. Sempre e para sempre.

Sua cabeça girava com religião. O fim de semana era agora dedicado aos intrincados padrões e à língua do judaísmo. Todas as manhãs durante a semana eram dadas às solenidades da Igreja da Inglaterra, que cheirava a madeira, iluminada com vitrais; e as noites pertenciam à sua própria religião, a que ele inventara para si mesmo, um panteão multicolorido no qual os Senhores do Caos (Arioch, Xiombarg e o resto) andavam lado a lado com o Vingador Fantasma da DC Comics; Sam, o Buda trapaceiro do Senhor da luz, de Zeiazny, vampiros, gatos falantes, ogros e todas as coisas dos livros coloridos de fadas de Lang, no qual todas as mitologias existiam simultaneamente numa magnífica anarquia de crenças.

Richard, entretanto, finalmente desistira (com um pouco, deve-se admitir, de arrependimento) da sua crença em Narnia. Desde os seis anos de idade — pela metade da sua vida — acreditara nas coisas de Narnia com devoção. Até que, no ano anterior, ao reler A viagem do andarilho do amanhecer, talvez pela centésima vez, ocorreu-lhe que a transformação do desagradável Eustace Scrub num dragão e sua subseqüente conversão à crença de Aslan, o leão, era terrivelmente semelhante à conversão de São Paulo na estrada para Damasco. Se sua cegueira fosse um dragão...

Tendo lhe ocorrido isso, Richard encontrou correlações em toda a parte, muitas para serem simples coincidências.

Richard pôs os livros de Narnia de lado, tristemente convencido de que eram alegorias; de que o autor (em quem ele tinha confiado) estivera tentando esconder alguma coisa dele. Tivera o mesmo desgosto com as histórias do Professor Challenger, quando o velho professor com pescoço de touro converteu-se ao espiritismo. Não que Richard tivesse qualquer problema em acreditar em espíritos — ele acreditava, sem problemas ou contradições, em tudo — mas Conan Doyle estava pregando, e isso ficava evidente nas palavras que empregava.

Richard era jovem e inocente à sua maneira e acreditava que se devia confiar nos escritores e que não deveria haver nada oculto abaixo da superfície de uma história.

Ao menos as histórias de Elric eram honestas. Lá, não havia nada acontecendo abaixo da superfície: Elric era o príncipe estiolado de uma raça morta, ardendo de autopiedade, agarrando Aquela Que Traz a Tempestade, sua espada de lâmina negra — uma lâmina que cantava por vidas, que devorava almas humanas e que dava a força destas ao albino fraco e condenado.

Richard lia e relia as histórias de Elric e sentia prazer a cada vez que Aquela Que Traz a Tempestade cravava-se no peito de um inimigo. Sentia, de alguma forma, uma satisfação solidária enquanto Elric retirava sua força da espada-alma, como um viciado em heroína, num livro policial, com um novo suprimento da droga.

Richard estava convencido de que, um dia, as pessoas da Mayflower Books viriam atrás dele por causa dos 25 pence. Ele nunca mais ousou comprar outro livro pelo correio.


J. B. C. MacBride tinha um segredo.

— Você nâo deve contar pra ninguém.

— Certo.

Richard não tinha problema em guardar segredos. Nos últimos anos, percebera que era um repositório ambulante de velhos segredos, segredos que seus confidentes originais tinham provavelmente esquecido há muito tempo.

Estavam andando, com seus braços nos ombros um do outro, até o bosque nos fundos da escola.

A Richard tinha sido, sem que ele tivesse pedido, confiado outro segredo neste bosque: era aqui que três de seus amigos encontravam-se com garotas do vilarejo e onde, tinham-lhe contado, mostravam suas genitálias uns aos outros.

— Não posso dizer quem me disse isso.

— Certo. — disse Richard.

— É sério, cara. E é um segredo mortal,

— Tudo bem.

MacBride passava, recentemente, muito tempo com o Senhor Aliquid, 0 capelão da escola.

— Bom, todo mundo tem dois anjos. Deus dá um pra gente e Satanás dá outro. Assim, quando você é hipnotizado, o anjo de Satanás assume o controle. E é assim que os tabuleiros de Ouija funcionam. É o anjo de Satanás. E você pode implorar ao seu anjo de Deus pra falar através de você. Mas a iluminação real só acontece quando você pode conversar com o seu anjo. Ele conta segredos.

Essa foi a primeira vez que ocorreu a Grey que a Igreja da Inglaterra poderia ter seus próprios conhecimentos esotéricos, sua própria cabala oculta.

O outro garoto piscou como uma coruja.

— Você não deve contar isso a ninguém. Eu iria ter problemas se descobrissem que abri o jogo.

— Tudo bem.

Houve uma pausa.

— Você já bateu uma punheta pra um adulto? — perguntou MacBride.

— Não.

O segredo de Richard era que ele ainda não tinha começado a se masturbar. Todos os seus amigos se masturbavam, continuamente, sozinhos, em pares ou em grupos, ele era um ano mais novo e não conseguia entender o porquê daquele estardalhaço. A idéia deixava-o desconfortável.



— Espirra pra todo o lado. É espesso e grudento. Eles tentam colocar os pintos na boca da gente quando gozam.

— Eca.


— Não é tão ruim. — Houve uma pausa. — Sabe, o Sr. Aliquid acha que você é muito esperto. Se quisesse se unir ao seu grupo de discussão religiosa particular, talvez ele aceitasse.

O grupo de discussão particular reunia-se na pequena casa do Sr. Aliquid, em frente à escola, do outro lado da estrada, à noite, duas vezes por semana depois da aula preparatória.

— Eu não sou cristão.

— E daí? Você é o melhor da aula de Religião, judeuzinho.

— Não, obrigado. Ei; tenho um novo Moorcock. Um que você ainda não leu. É um livro do Elric.

— Mentira. Não tem nenhum novo.

— Tem sim. Chama-se Os olhos do homem de jade. E impresso com tinta verde. Achei numa livraria em Brighton.

— Posso pegar emprestado depois que você ler?

— Claro.

Estava ficando frio e eles voltaram, de braços dados. Como Elric e Moonglum, pensou Richard, e fazia tanto sentido quanto os anjos de MacBride.


Richard sonhava acordado que raptava Michael Moorcock e o fazia contar-lhe o segredo.

Se pressionado, Richard não seria capaz de dizer que tipo de coisa era o segredo. Tinha a ver com escrever; algo a ver com os deuses.

Richard perguntava-se de onde Moorcock tirava suas idéias.

Provavelmente do templo em ruínas, concluiu no final, apesar de não se lembrar mais de como o templo era.

Lembrava-se de uma sombra, estrelas e da sensação de dor ao retornar para uma coisa que pensava há muito ter acabado.

Perguntava a si mesmo se aquele era o lugar de onde todos os escritores tiravam suas idéias ou apenas Michael Moorcock.

Se lhe tivessem dito que simplesmente inventam tudo, das suas cabeças, ele jamais teria acreditado. Tinha de haver um lugar de onde vinha a mágica.

Não tinha?


Um cara me telefonou da América, numa noite dessas, e disse: "Ouça, cara, eu tenho de falar com você sobre sua religíão". Eu disse: "Não sei do quês você está falando. Eu não tenho porra de religião nenhuma".

— Michael Moorcock, in conversation, Notting Hill, 1976


Seis meses mais tarde. Richard já tinha feito seu bar mitzvah e logo estaria mudando de escola. Ele e J. B. C. MacBride estavam sentados no gramado, do lado de fora da escola no começo da noite, lendo livros. Os pais de Richard estavam atrasados para pegá-ío.

Richard estava lendo O assassino inglês. MacBride estava absorvido em O diabo resiste.

Richard viu-se entrecerrando os olhos na página. Ainda não estava totalmente escuro, mas ele não conseguia mais ler. Tudo estava ficando cinza.

— Mac? O que você quer ser quando crescer?

A noite estava quente e a grama seca e confortável.

— Sei lá. Um escritor, talvez. Como Michael Moorcock. Ou T. H. White. E você?

Richard sentou-se e pensou. O céu estava cinza violáceo e uma lua fantasmagórica pendurava-se no alto, como uma lasca de sonho. Ele arrancou um talo de grama e vagarosamente rasgou-o com seus dedos, pedacinho por pedacinho. Não podia dizer "um escritor" agora. Pareceria que o estava imitando. E ele não queria ser um escritor. Não de fato. Havia outras coisas para ser.

— Quando eu crescer — por fim, disse pensativo — quero ser um lobo.

— Isso nunca vai acontecer — disse MacBride.

— Talvez não — disse Richard. — Veremos.

As luzes acenderam-se nas janelas da escola, uma a uma, fazendo com que o céu violeta parecesse mais escuro do que antes, e a noite de verão estava suave e serena. Nesta época do ano, o dia dura para sempre e a noite nunca vem.

— Gostaria de ser um lobo. Não o tempo todo. Só algumas vezes. Na escuridão. Eu correria pelas florestas como um lobo na noite — disse Richard, mais para si mesmo. — Nunca machucaria ninguém. Não esse tipo de lobo. Apenas correria e correria pra sempre sob o luar, pelas árvores e nunca me cansaria, ou ficaria sem fôlego, e nunca teria de parar. É isso que quero ser quando crescer...

Arrancou outro talo comprido de grama, tirou as folhas dele com destreza e, vagarosamente, começou a mascar o talo.

E as duas crianças sentadas sozinhas no lusco-fusco cinza, lado a lado, esperavam o futuro começar.


CORES FRIAS





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