FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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I.
Acordado às nove horas pelo carteiro,

que se revelou não ser carteiro, mas um vendedor itinerante

[de pombos, gritando,

"Pombos gordos, pombos puros, pombos brancos, cinza azulados,

vivos, pombos respirando,

aqui não há nada de porcaria reanimada, senhor".


Tenho pombos de sobra, digo-lhe.

Ele me diz que é novo nesse negócio,

fazia parte de uma empresa de anáSise de títulos financeiros

moderadamente bem-sucedida,

mas foi despedido, substituído por um computador RS232

[com esfera de quartzo.


"Ainda assim, não devo resmungar, uma porta se abre, outra se fecha,

temos de nos adaptar à época, senhor, temos de nos adaptar à época”.


Empurra-me um pombo de graça

(para atrair novos fregueses, senhor,

uma vez que tiver experimentado um dos nossos pombos,

nunca mais vai olhar pra outro)

e desce a escada marchando, cantando,

"Pombos vivooos, vivos vivooos".


Dez horas depois de tomar banho e me barbear

(ungüentos de juventude eterna e de certa atração sexual

[aplicada de vasos plásticos)

Levo o pombo ao meu estúdio;

renovo o círculo de giz ao redor do meu velho Dell 310,

que pende em direção a cada canto do monitor,


e faço o que é necessário com o pombo.
Então, ligo o computador: ele faz ruídos e zune,

dentro, seu ventilador sopra como uma tempestade de

[ventos sobre velhos oceanos

pronto para afogar pobres mercadores.

Autoexec completada, ele bipa:

Consigo, consigo, consigo...


II.
Duas horas e caminhando pela Londres familiar

- ou o que era a Londres familiar antes de o cursor ter

[deletado algumas certezas —

observo um homem de terno e gravata amamentando

o Organizador Psion acomodado no bolso do seu peito,

sua interface serial como uma boca fria caçando seu peito

[para encontrar sustento,

sentimento familiar, e observo meu peito lançar vapor no ar.


Londres é fria como as tetas de uma bruxa nestes dias,

Nem parece que era novembro,

e do metrô os sons dos trens roncam.

Misterioso: trens de metrô são quase lendários nesta época,

parando apenas para virgens e puros de coração,

primeira parada Avalon, Lyonesse, ou as Ilhas dos Abençoados. Talvez

você receba um cartão postal, talvez não.

De qualquer forma, olhar para qualquer fenda demonstra

[conclusivamente

que não há mais lugar embaixo de Londres para caminhos

[subterrâneos;

Aqueço minhas mãos num fosso.

Chamas lambem, de baixo para cima.
Muito abaixo um demônio sorridente me olha, acena, mexe a

[boca cuidadosamente,

como se faz com os surdos, os distantes ou os estrangeiros.

Seu desempenho de vendas é imaculado: imita com mímica

[um clone Dwarrow,

arremeda softwares como não fariam meus sonhos mais loucos,

Albertus Magnus ARQuivado em três disquetes,

Claviculae Solomom para VGA, CGA, quatro cores ou monocromia,

Mímica


e mímica

e mímica.


Os turistas inclinam-se sobre as brechas que dão no Inferno,

fitando os condenados

(talvez a pior parte da condenação eterna;

tortura eterna é tolerável em nobre silêncio, a sós,

mas uma platéia, comendo salgadinhos, batatas fritas e castanhas,

uma platéia que nem mesmo está tào interessada...

devem sentir-se como alguma coisa no zoológico,

os condenados).


Pombos esvoaçam ao redor do Inferno, dançando nas correntes de ar,

a memória da trajetória talvez lhes dizendo

que, em algum lugar por aqui, deve haver quatro leões,

água descongelada, um homem de pedra no alto;

os turistas agrupam-se ao redor.

Um deles faz um pacto com o demônio: uma caixa de dez

[disquetes virgens por sua alma.

Um outro reconheceu um parente nas chamas e está acenando:



Eeeil Eeeei! Tio Joseph! Olha, Nerissa, é o seu tio-avô Joe

que morreu antes de você nascer,

é ele lá embaixo, no Lamaçal, enfiado até os olhos

[em espuma fervente,

com os vermes rastejando pra dentro e pra fora do seu rosto.

Um homem adorável.

Todos choramos no seu enterro.

Acene pro titio, Nerissa, acene pro titio.


O homem dos pombos coloca galhos com visgo nas pedras

[rachadas do pavimento,

depois polvilha migalhas de pão e espera.

Levanta seu boné para mim.

"O pombo desta manhã, senhor, creio que estava satisfatório?"

Dou a entender que sim e arremesso-lhe um xelim de ouro

(que ele toca sorrateiramente para o ferro da sua manopla,

verificando se é ouro mágico, e então escamoteia).


Terças-feiras, digo-lhe. Venha às terças-feiras.
III.
Chalés e cabanas com pernas de pássaros enchem as ruas de Londres,

espigados, caminhando sobre táxis, cagando brasas nos ciclistas,

fazendo filas nas ruas, atrás dos ônibus,

chuckchuckchuckchuckchuurck, murmuram.

Velhas com dentaduras de ferro olham pela janela,

então retomam ao seus espelhos mágicos,

ou a seus afazeres domésticos,

flutuando através da neblina e do ar imundo.


IV.
Quatro horas em Soho Velho

rapidamente tornando-se um remanso de tecnologia perdida,

A lingüeta da catraca da grade de encantamentos, que se dá corda

com chaves prateadas mecânicas,

é fabricada com enfado em toda ruela de Relojoeiros,

Abortadores, Vendedores de Filtro & Tabaco.


Está chovendo.
Garotos do BBS guiam caftenmóveis com floppy-chapéus,

modems alcoviteiros

garotos-reis de japonas de relação sinal/ruído;

e todos os seus estábulos iluminados com pontilhados de

[néon flertando e virando sob as luzes,

súcubos e íncubos com datas de venda e olhos de SmartCard,

todos seus, se você tiver seu número,

souber sua data de expiração, tudo isso.

Um deles pisca para mim

(acende, acende-apaga, apaga-apaga-acende),

o ruído engole o sinal numa felação desajeitada

(cruzo dois dedos,

uma precaução binaria contra feitiçaria,

eficaz como supercondutor ou simples superstição.)

Dois poltergeists dividem uma comida para viagem.

[Soho Velho sempre me

deixa nervoso.
Brewer Street. Um silvo de um beco: Mefistófeles abre seu

[casaco marrom,

fazendo brilhar o forro para mim (velhas invocações de base de dados,

Magos fazem surgir fantasmas — com diagramas), maldições e começos:

Arruinar um inimigo?

Murchar uma colheita?

Fazer um consorte estéril?

Degradar um inocente?

Arruinar uma festa?

Para o senhor? Não, senhor? Reconsidere, eu lhe peço.

Só um pouco do seu sangue borrado nesta impressão

e o senhor poderá ser o orgulhoso dono de um novo

[sintetizador de voz, ouça...

Ele põe de pé um Zenith portátil numa mesa que monta a

[partir de uma modesta pasta,

atraindo uma pequena platéia ao fazer isto, liga as caixas de voz,

[digita no

C:> Prompt: GO

E o Zenith recita numa voz exata e bela:

Oriemis princeps Beëlzebub, inferni irredentista menarche et

[demigorgon, propitiamus votos...
Corro para diante, corro rua abaixo

enquanto fantasmas de papel, velhos printouts,

[mordem meus calcanhares,

e ouço-o tagarelando como um mercador:

Não vinte

não dezoito

não quinze

Custou-me quinze, moça, que Satã me ajude, mas, pra você,

[preço especial

Porque gosto do seu rosto lindo

porque quero levantar o seu astral.
Cinco.

Está bem.


Cinco.
Vendido para a moça de olhos adoráveis.
V.
O arcebispo curva-se glauco, cego na escuridão à beira da

[Catedral de São Paulo,

pequeno, como um pássaro, luminoso, Zunindo l/O, l/O, l/O.

São quase seis da tarde e o trânsito da hora do rush em

[sonhos roubados

e memórias expandidas acotovelam-se na calçada abaixo de nós.


Dou ao homem meu jarro.

Ele o pega, cuidadosamente, e arrasta os pés de volta às

[sombras da catedral que esperam.

Quando volta o jarra está cheio mais uma vez.

Eu tiro um sarro: "Garantia sagrada?".

Ele traça uma palavra na sujeira congelada: WYSIWYG6

e não sorri de volta.

(Wheezy wig7. Whisky whig8)

Ele expectora uma fleuma cinza-leitosa,

cospe nos degraus.


O que vejo no jarro: parece bastante sagrado,

[mas não dá pra se saber ao certo,

a não ser que você seja uma sereia ou um encanto,

coagulando de um bocal de telecomunicação, cavalgando o bip,

uma invocação, um Número Errado; então você pode

[confirmar o que é sagrado.

Já joguei telefones em baldes da coisa antes,

observei formas surgirem

então borbulharem e silvarem quando a água os alcança:

purificados, a Sanção Final.

Uma tarde

havia uma fila delas, capturadas na fita da minha secretária eletrônica:

copiei num disquete e arquivei.

Você quer?

Ouça, tudo está à venda.
O sacerdote precisa barbear-se e tem tremores

Suas vestes manchadas de vinho pouco fazem para mantê-lo aquecido.

Não lhe dou dinheiro,

(Não muito. No fim das contas,

é só água, algumas criaturas são tão burras

Que lhe fazem um Savini dissolvido,

se você lhes borrifar Perrier

queixando-se, pelo amor de Deus, o tempo todo,



Todo o meu mau, meu lindo mau.)
O velho sacerdote põe a moeda no bolso, dá-me

um saco de migalhas de brinde,

senta-se nos degraus, abraçando a si mesmo.
Sinto necessidade de dizer algo antes de partir.

Olha, digo-lhe, não é culpa sua.

É só um sistema multiuso.

Não era para você saber.

Se orações pudessem ser rezadas em rede,

se santosware estivessem prontos e rodando,

se você pudesse fazer o seu lado tão confiável quanto

[eles fizeram o deles...

"O que você vê", murmura desolado,

"O que você vê é o que você leva". Ele esmigalha uma hóstia e

a joga aos pombos,

não tenta pegar nem o pássaro mais vagaroso.


Guerras frias produzem maus perdedores.

Vou para casa.


VI.
Notícias às dez. E aqui está Abel Drugger, lendo-as:
VII.
Os cantos dos meus olhos capturam um movimento rápido,

[sem sangue —

um mouse?

Bem, com certeza algum tipo de periférico.


VIII.
É hora de dormir. Alimento os pombos,

Então, dispo-me.

Contemplo o downloading de um súcubo do tabuleiro,

talvez apenas evocar um companheiro

(há uma coisa de domínio público, caftinas e cafetinas,

shareware, não precisa pagar uma fortuna,

até mesmo coisas com cópia protegida podem ser copiadas,

[passadas adiante,

tudo tem um preço, qualquer um de nós).

Secoware, molhadoware, hardware, software,

negroware, escuroware,

noiteware, pesadeloware...

O modem está convidativo ao lado do telefone,

olhos vermelhos.

Deixo-o parado —

não se pode confiar em qualquer um hoje em dia.

Você faz um download, diabos, e não sabe mais de onde vem o quê,

Quem o teve da última vez.

Bem, você não tem? Não tem medo de vírus

Até mesmo os melhores arquivos se corrompem,

e os mais bem protegidos corrompem-se absolutamente.
Na cozinha, ouço os pombos cobrando e fazendo fila,

sonhando com facas canhotas,

com athanores e espelhos
Sangue de pombo mancha o chão do meu estúdio.
Sozinho durmo. E sozinho sonho.
IX.
Talvez eu tenha acordado à noite, repentinamente,

[compreendendo alguma coisa;

estendo o braço,

rabisco nas costas de uma velha nota

minha revelação, minha recém-descoberta compreensão,

sabendo que a manhã vai renderizá-la prosaica,

sabendo que a mágica é uma coisa da noite,

e, então, lembrando-me quando ainda era...

A revelação retrocede ao clichê, ouça:

As coisas pareciam mais simples antes de termos computadores.


X.
Acordando ou sonhando, ouço do lado de fora

sabás selvagens, ventos que uivam, zunido de fita,

[música de máquina de metal;

bruxas montadas que explodem guetos, aglomeram-se na lua,

então, pousam na charneca seus brilhantes flancos nus.

Ninguém paga nada para ir à reunião, cada um

[cuidou disso de antemão,

ossos de bebês com gordura ainda presa;

estas coisas são por débito automático, ordem de pagamento,

e vejo


ou penso que vejo

um rosto que reconheço e todos fazem fila para beijar o seu rabo,

vamos rodear o Diabo, meninos, semente fria,

e, na escuridão, ele se vira e olha para mim:

uma porta se abre, outra se fecha,

espero que tudo esteja satisfatório.

Fazemos o que podemos, todo mundo tem o direito de

[ganhar um honesto;

estamos todos falidos, senhor,

somos todos redundantes,

mas tiramos proveito disso, assobiamos pela Blitze,

isso é negócio. Comércio honesto não é roubo.

Terça-feira de manhã, então, senhor, com os pombos?
Concordo com um sinal de cabeça e puxo as cortinas.

[Junk-mail em toda a parte.

Acaba chegando em você,

de uma forma ou de outra, chega até você; algum dia

encontrarei meu trem de metrô, não pagarei a passagem

apenas "isto é o inferno e quero sair daqui",

e, então, as coisas serão simples uma vez mais.
Virá até a mim como um dragão, num túnel escuro.

O VARREDOR DE SONHOS


Depois que os sonhos acabam, depois que você acorda e troca um mundo de loucura e glória pelo trabalho diário, maçante e mundano, iluminado pelo dia, pelas ruínas das suas fantasias abandonadas, vem o varredor de sonhos.

Quem sabe o que era quando estava vivo? Ou se, a propósito, já esteve vivo alguma vez? Certamente, ele não responderá suas perguntas. O varredor fala pouco, com sua voz áspera e lúgubre, e, quando fala, é quase sempre sobre o tempo e sobre as perspectivas, vitórias e derrotas de certos times esportivos. Ele despreza todo mundo exceto a si próprio.

Assim que você acorda, ele se aproxima e varre reinos e castelos, anjos e corujas, montanhas e oceanos. Varre a lascívia, o amor e os amantes, os sábios que não são borboletas, as flores de carne, o galope dos gamos e o naufrágio do Lusitânia. Ele varre tudo deixado para trás nos seus sonhos, a vida que você vestiu, os olhos pelos quais viu, o papel do exame que nunca foi capaz de encontrar. Um a um, varre-os para longe; a mulher de dentes afiados que os afunda no seu rosto; as freiras na floresta; o braço morto que fendeu pela tépida água do banho; os vermes escarlates que rastejavam no seu peito quando você abriu a camisa.

Ele varrerá tudo — tudo o que você deixou para trás quando acordou. E, então, queimará o que acumulou, deixando o palco limpo para os seus próximos sonhos.

Trate-o bem, se você o vir. Seja educado. Não lhe faça perguntas. Aplauda as vitórias dos seus times, compadeça-se pelas suas derrotas, concorde com ele sobre o tempo. Dê-lhe o respeito que o varredor acha que lhe é devido.

Pois há pessoas que ele, o varredor de sonhos, com seus cigarros enrolados à mão e sua tatuagem de dragão, não visita mais.

Você já as viu. Elas têm bocas crispadas e olhos que fitam enquanto balbuciam, choramingam e se lamuriam. Algumas andam pela cidade vestindo molambos, seus pertences debaixo dos braços. Outras estão trancadas na escuridão, em lugares onde não podem causar dano a si mesmos nem aos outros. Não são loucos, ou melhor, a perda da sua sanidade é o menor dos seus problemas. É pior do que a loucura. Elas lhe dirão, se você lhes permitir: são aquelas que vivem, a cada dia, na ruína dos próprios sonhos.

E, se o varredor de sonhos abandonar você, ele nunca mais voltará.

PARTES ESTRANGEIRAS
A DOENÇA VENÉREA é doença contraída como conseqüência de conexão impuro. As temíveis conseqüências constitucionais que podem resultar dessa afecção - conseqüências cujo temor pode assombrar a mente por anos, que podem contaminar todas as fontes de saúde e ser transmitidos para a circulação do sangue jovem de filhos inocentes - são considerações deveras terríveis, terríveis demais para não combater a doença daqueles que, sem hesitação, devem ser colocado sob cuidado médico.

— SPENCER THOMAS, M.D., L.R.C.S. (EDIN.)



DICTIONARY OF DOMESTIC MEDICINE AND HOUSEHOLD SURGERY, 1882
Simon Powers não gostava de sexo. Não mesmo.

Não gostava de ter outra pessoa na mesma cama. Tinha suspeitas de que gozava rápido demais. Incomodava-se sempre com que seu desempenho estivesse sendo avaliado, como um teste de motorista ou um exame prático.

Tinha transado na faculdade umas poucas vezes e uma outra, três anos atrás, depois da festa de Ano Novo do escritório. Mas isso tinha sido tudo e, até onde lhe dizia respeito, Simon queria estar fora disso.

Ocorreu-lhe uma vez, durante uma hora de folga no escritório, que teria gostado de viver nos dias da Rainha Vitória, quando mulheres bem-educadas não eram mais do que bonecas sexuais ressentidas na alcova: desamarravam seus espartilhos, soltavam suas anáguas (revelando a carne branco-rosada) e, então, deitavam-se para sofrer as indignações do ato carnal — uma indignação da qual nunca lhes ocorreu pensar que deveriam desfrutar.

Ele arquivou essa idéia para mais tarde; outra fantasia masturbatória.

Simon masturbava-se bastante. Todas as noites — às vezes mais do que isso, se não conseguia dormir. Poderia demorar ou ir rápido, o quanto queria, para atingir o clímax. E, na sua mente, tinha tido todas. Estrelas do cinema e da televisão; mulheres do escritório; colegiais; as modelos nuas que faziam beicinhos nas páginas amarrotadas da Fiesta; escravas sem rosto acorrentadas; garotos bronzeados com corpos iguais aos dos deuses gregos...

Noite após noite, elas desfilavam na sua frente.

Era mais seguro desse jeito.

Na sua mente.

E, depois disso, ele caía no sono, confortável e seguro num mundo que controlava, e dormia sem sonhar. Ou, pelo menos, nunca se lembrava dos sonhos de manhã.

Na manhã que começou, ele foi acordado pelo rádio ("Duzentos mortos e acredita-se que muitos outros estejam feridos; e agora passamos para o Jack com a previsão do tempo e as notícias do trânsito..."), arrastou-se para fora da cama e, trôpego, a bexiga doendo, foi ao banheiro.

Levantou o assento do vaso e urinou. Sentiu como se estivesse mijando agulhas.

Precisou urinar de novo depois do café da manhã — menos dolorosamente, já que o fluxo não estava tão forte — e três vezes mais antes do almoço.

Todas as vezes, doeu.

Disse a si mesmo que não poderia ser uma doença venérea. Isso era uma coisa que os outros pegavam, e algo (pensou sobre seu último encontro sexual, três anos antes) que se contrai de outra pessoa. Não se pode, na verdade, pegar de assentos de privada, pode? Isso era só brincadeira, não?

Simon Powers tinha vinte e seis anos e trabalhava num grande banco de Londres, na divisão de títulos. Tinha poucas amizades no trabalho. Seu único amigo de verdade, Nick Lawrence, um canadense solitário, tinha sido transferido recentemente para outra agência, e Simon sentou-se só na cantina dos empregados, fitando a paisagem em forma de Lego de Docklands, beliscando uma salada verde.

Alguém bateu-lhe no ombro.

— Simon, ouvi uma boa hoje. Quer ouvir?

Jim Jones era o palhaço do escritório, um jovem de cabelos escuros, intenso, que afirmava que tinha um bolso especial na sua cueca para guardar preservativos.

— Mm. Claro.

— Aqui vai. Quem não tem mão é...?

— Maneta?

— Quem não tem perna é...?

— Perneta.

Jim começou a rir antecipando o final.

— Quem não tem punho é...?

— Sei lá...

— Punheta, Simon. Pu-nhe-ta. Meu Deus, como você é devagar... Então, vendo um grupo de moças numa mesa distante, Jim ajeitou a gravata e foi até lá, levando consigo sua bandeja.

Ele pôde ouvir Jim contando sua piada às mulheres, dessa vez com gestos adicionais.

Todas entenderam a piada imediatamente.

Simon deixou sua salada na mesa e voltou ao trabalho.

Naquela noite, sentou-se na poltrona em seu apartamento, com a televisão desligada, e tentou lembrar o que sabia sobre doenças venéreas.

Havia a sífilis, que formava pústulas no rosto e que enlouqueceu os reis da Inglaterra; gonorréia — pingadeira — uma gosma verde e mais loucura; chato, pequenos piolhos que se aninhavam e que provocavam coceira (ele inspecionou seus pêlos pubianos com uma lente de aumento, mas nada se mexeu); aids, a praga dos anos oitenta, um apelo por agulhas limpas e hábitos sexuais mais seguros (mas o que poderia ser mais seguro do que uma punheta limpa num punhado de lenços de papel brancos e novos?); herpes, que tinha algo a ver com feridas frias (verificou seus lábios no espelho; pareciam bem), isso era tudo o que ele sabia.

E foi para a cama e agitou-se para dormir, sem ousar se masturbar.

Aquela noite sonhou com mulheres minúsculas de rostos vagos andando em filas intermináveis entre enormes blocos de escritório, como um exército de formigas guerreiras.

Simon não fez nada a respeito da dor por dois dias. Tinha esperança de que ela fosse embora, ou melhorasse por si só. Não melhorou. Piorou. Continuava por até uma hora após urinar; seu pênis parecia queimar por dentro.

E, no terceiro dia, ligou para o consultório do seu médico a fim de marcar uma hora. Temia ter de contar à mulher que atendeu ao telefone qual era o problema, mas ficou aliviado, e talvez um pouco desapontado, quando ela não perguntou e simplesmente marcou uma hora para o dia seguinte.

Ele disse à sua supervisora no banco que estava com dor de garganta e que precisaria, por isso, ir ao médico. Pôde sentir suas faces queimando enquanto dizia isso, mas ela não fez observação alguma a respeito, dizendo apenas que tudo bem.

Quando saiu do escritório da superiora, percebeu que estava tremendo.

Foi num dia cinza e molhado que chegou ao consultório. Não havia espera e ele foi direto ver o médico. Não o seu médico, Simon descobriu aliviado. Quem o atendeu foi um jovem paquistanês, mais ou menos da sua idade, que interrompeu sua recriação gaguejada dos sintomas para perguntar:

— O senhor está urinando mais do que de costume?

Simon balançou a cabeça afirmativamente.

— Alguma emissão de líquido?

Simon balançou a cabeça negativamente.

— Certo. Gostaria que baixasse suas calças, se não se importa.

Simon baixou-as. O médico espiou o seu pênis.

— O senhor realmente tem sim uma emissão de líquido, sabia? — disse ele.

Simon arrumou-se novamente.

— Agora, Sr. Powers, diga-me, acha possível que tenha pego de alguém uma... hã... doença venérea?

Simon balançou vigorosamente a cabeça.

— Não tenho feito sexo com ninguém — ele quase disse "ninguém mais" — por quase três anos.

— Não? — obviamente o médico não acreditava nele. Tinha cheiro de temperos exóticos e os dentes mais brancos que Simon já havia visto.

— Bom, o senhor contraiu ou uma gonorréia ou uma une. Provavelmente uma une: uretrite não-específica, que é menos famosa e menos dolorida do que a gonorréia, mas que pode ser um saco para tratar. Pode-se livrar da gonorréia com uma grande dose de antibióticos. Mata os patifes... — bateu suas mãos duas vezes. Alto. — Num piscar de olhos.

— Você não sabe, então?

— Qual das duas é? Meu Deus, não. Nem vou tentar descobrir. Estou mandando o senhor para uma clínica especial que cuida de todas essas coisas. Vou lhe dar um bilhete para levar. — Tirou um bloco de receituário com cabeçalho de uma gaveta.

— Qual é a sua profissão, Sr. Powers?

— Trabalho num banco.

— Um caixa?

— Não — meneou a cabeça. — Estou em títulos. Sou auxiliar de dois gerentes assistentes. — Ocorreu-lhe um pensamento. — Eles não precisam saber disso, precisam?

O médico pareceu chocado:

— Meu Deus, não.

Ele escreveu uma nota com uma caligrafia cuidadosa, redonda, afirmando que Simon Powers, idade vinte e seis, contraíra algo que provavelmente era une. Havia emissão de líquido. Disse, aparentando desconforto, que não tivera relacionamentos sexuais havia três anos. Eles poderiam, por favor, informá-lo dos resultados dos exames? Assinou com um rabisco. Então, deu a Simon um cartão com o endereço e o telefone da clínica especial.

— Aqui está. É aqui que o senhor deve ir. Não se preocupe. Acontece com muita gente. Vê todos os cartões que tenho aqui? Não se preocupe, logo vai estar novo em folha. Telefone para eles quando chegar em casa e marque uma consulta.

Simon pegou o cartão e se levantou para ir.

— Não se preocupe — disse o médico. — Não será difícil tratar.

Simon assentiu com a cabeça e tentou sorrir.

Abriu a porta para sair.

— E de maneira alguma é grave como sífilis — disse o médico.

As duas senhoras sentadas na sala de espera ergueram as cabeças prazerosamente por terem ouvido aquilo e fitaram Simon um tanto gulosas, enquanto o rapaz deixava a sala.

Ele queria morrer.

Na calçada, do lado de fora, esperando pelo ônibus para ir para casa, Simon pensou: eu tenho uma doença venérea. Eu tenho uma doença venérea. Eu tenho uma doença venévea. Sem parar, como um mantra.

Deveria tocar um sino, enquanto andava.

No ônibus, tentou não ficar perto demais dos outros passageiros. Estava certo de que sabiam (não podiam ler as marcas da praga no seu rosto?) e ao mesmo tempo envergonhado de ser forçado a manter isso em segredo.

Voltou para o apartamento e foi direto para o banheiro, esperando ver, no espelho, um rosto de filme de terror decompondo-se, um crânio apodrecendo esfiapado de bolor azul, fitando de volta. Em vez disso, viu um auxiliar de banco de bochechas rosadas, com vinte e poucos anos, de cabelos claros e pele perfeita.

Puxou desajeitadamente seu pênis para fora da calça e o examinou com cuidado. Não era nem de um verde gangrenoso nem de um branco leproso, parecendo perfeitamente normal, exceto pela ponta um pouco inchada e a emissão de líquido claro que lubrificava o buraco. Percebeu que sua cueca branca tinha sido manchada pelo líquido na virilha.

Simon ficou bravo consigo e mais bravo ainda com Deus por lhe ter dado uma (digamos) (dose da pingadeira) obviamente dirigida a alguém que não ele.

Masturbou-se aquela noite pela primeira vez em quatro dias.

Fantasiou uma colegial de calcinha de algodão azul que se transformou numa policial, então duas policiais e depois três.

Não doeu até chegar ao clímax; daí sentiu como se alguém estivesse enfiando uma navalha no seu pau. Como se estivesse ejaculando uma almofada de alfinetes.

Ele começou a gritar na escuridão — por dor ou por outra razão, menos fácil de se identificar, até mesmo Simon estava incerto.

Essa foi a última vez que se masturbou.

A clínica localizava-se em um austero hospital vitoriano na região central de Londres. Um jovem de avental branco olhou o cartão de Simon, pegou a nota do seu médico e lhe disse para sentar.

Simon sentou-se numa cadeira de plástico laranja, coberta de queimaduras marrons de cigarros.

Fitou o chão por alguns minutos. Então, tendo exaurido essa forma de entretenimento, fitou as paredes e, finalmente, não tendo outra opção, as outras pessoas.

Eram todos homens, graças a Deus — as mulheres estavam no andar de cima — e havia mais de uma dúzia deles.

Os que se sentiam mais confortáveis eram os do tipo macho, que estavam ali pela décima sétima ou septuagésima vez, parecendo satisfeitos com eles mesmos, como se o que quer que tivessem pego fosse prova da sua virilidade. Havia uns poucos cavalheiros urbanos de terno e gravata. Um deles parecia relaxado; tinha um telefone celular. Outro, escondido atrás do Daily Telegraph, corava, constrangido por estar lá; havia homenzinhos de bigodes finos e capas de chuva espalhafatosas — vendedores de jornal, talvez, ou professores aposen- tados; um cavalheiro malaio rotundo, que fumava cigarros sem filtro um atrás do outro, acendendo cada cigarro na bituca do anterior, assim a chama nunca se apagava, mas era transmitida de um cigarro que apagava ao outro. Em um canto, estava sentado um casal de gays assustados. Nenhum deles parecia ter mais de dezoito anos. Aquela era, obviamente, sua primeira consulta, pela maneira como ficavam olhando ao redor. Estavam de mãos dadas, nós dos dedos brancos, discretamente. Estavam apavorados.

Simon sentiu-se confortado. Sentiu-se menos só.

— Sr. Powers, por favor — disse o homem sentado à mesa. Simon levantou-se, consciente de que todos os olhos estavam sobre ele, que tinha sido identificado e chamado pelo nome na frente de todas essas pessoas. Um médico alegre, de cabelos vermelhos e avental branco estava à sua espera.

— Siga-me — disse ele.

Desceram alguns corredores, passaram por uma porta (onde estava escrito DR. J. BENHAM com caneta hidrocor numa folha de papel branco pregada com durex no vidro fosco) e entraram no consultório do médico.

— Eu sou o Dr. Benham — disse o médico. Não deu sua mão para cumprimentar. — Você tem um relatório do seu médico?

— Deixei com o homem da mesa.

— Ah. — O Dr. Benham abriu um arquivo na mesa à sua frente. Havia uma etiqueta impressa por computador ao lado. Dizia:

REG’D 2 JUL. 90 HOMEM. 90/00666.L

POWERS, SIMON, SR.

NASCIDO 12 OUT. 63. SOLTEIRO.


Benham leu a nota, olhou para o pênis de Simon e lhe deu uma folha de papel azul do arquivo. Tinha a mesma etiqueta colada no alto.

— Sente-se no corredor — disse-lhe. — Lima enfermeira vai chamá-lo. Simon esperou no corredor.

— São muito frágeis — disse o homem bronzeado sentado ao seu lado; um sul-africano, pelo sotaque, ou talvez do Zimbábue. Sotaque colonial, de qualquer forma.

— Desculpe?

— Muito frágeis. As doenças venéreas. Pense bem. Você pode pegar um resfriado ou uma gripe simplesmente por estar na mesma sala com alguém infectado. Doenças venéreas precisam de calor, umidade e contato íntimo.

Não a minha, pensou Simon, mas não disse nada.

— Sabe o que me apavora? — disse o sul-africano.

Simon fez que não com a cabeça.

— Contar para a minha esposa — disse o homem e calou-se.

Uma enfermeira veio e levou Simon consigo. Era jovem e bonita e ele a seguiu para dentro de um cubículo. Ela pegou o papel azul.

— Tire o seu casaco e enrole a manga direita.

— Meu casaco?

Ela suspirou.

— Para o exame de sangue.

— Ah.


O exame de sangue foi quase agradável em comparação ao que veio depois.

— Abaixe suas calças — disse-lhe ela com um sotaque australiano marcante. Seu pênis tinha encolhido, empurrado firmemente contra si mesmo, de encontro ao púbis; parecia cinza e enrugado, Ele se viu querendo dizer à enfermeira que, normalmente, era muito maior, mas, então, ela pegou um instrumento de metal com uma alça de arame na ponta e Simon desejou que seu membro fosse ainda menor.

— Aperte seu pênis na base e empurre para frente algumas vezes. — Assim fez ele. Ela enfiou a alça na cabeça do seu órgão sexual e torceu lá dentro. O rapaz estremeceu de dor. A enfermeira espalhou o liquido numa lâmina de vidro. Depois apontou para um frasco numa prateleira.

— Você pode urinar naquilo para mim, por favor?

— O quê? Daqui?

Ela franziu os lábios. Simon suspeitou que ela devia ouvir aquela piada trinta vezes por dia desde que começara a trabalhar ali.

Ela saiu do cubículo, deixando-o só para urinar.

Simon achava difícil urinar em banheiros públicos na maior parte das vezes, sempre tendo de esperar até que todas as pessoas saíssem. Invejava os homens que podiam entrar casualmente nos banheiros, abrir o zíper e conversar alegremente com seus vizinhos nos urinóis ao lado, enquanto jorrava urina amarela sobre a porcelana branca. Quase nunca conseguia fazer isso.

Não conseguiu fazer agora.

A enfermeira entrou de novo.

— Não teve sorte? Nada para se preocupar. Sente-se na sala de espera e o doutor vai chamá-lo num minuto,

— Bom — disse o Dr. Benham —, o senhor tem UNE. Uretrite não-específica.

Simon concordou com a cabeça e então disse:

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que não tem gonorréia, Sr. Powers.;

— Mas eu não faço sexo com, com ninguém, há....

— Ah, não há nada com que se preocupar. Pode ser uma doença bastante espontânea; o senhor não precisa, hã, entregar-se para pegá-la, — Benham abriu uma gaveta da mesa e retirou um frasco de comprimidos. — Tome um destes quatro vezes ao dia antes das refeições. Não beba álcool, não faça sexo e não beba leite por algumas horas depois de tomá-los. Entendeu?

Simon sorriu nervoso.

— Vejo o senhor semana que vem. Marque uma consulta no andar de baixo.

No andar de baixo, deram-lhe um cartão vermelho com seu nome e a hora da sua consulta. Também havia um número: 90/00666.L

Andando na chuva de volta para casa, Simon parou em frente a uma agência de viagens. O pôster na vitrine mostrava uma praia ensolarada com três mulheres bronzeadas de biquíni bebericando em copos longos.

Simon nunca tinha viajado para fora do país.

Lugares do exterior deixavam-no nervoso.

Com o passar do tempo, a dor se foi e, quatro dias mais tarde, Simon viu-se capaz de urinar sem vacilar

Entretanto, algo mais estava acontecendo.

Começou como uma semente minúscula que se enraizou na sua mente e cresceu.

Ele contou ao Dr. Benham na consulta seguinte.

Benham ficou confuso.

— Então, está dizendo que não sente mais o seu pênis como sendo seu, Sr. Powers?

— Isso mesmo, doutor.

— Receio que eu não esteja entendendo. É algum tipo de perda de sensação?

Simon podia sentir seu pênis dentro da calça, reconhecia a sensação do pano contra a carne. No escuro, começou a mexer.

— Nada disso. Eu posso sentir tudo como sempre. Só que sinto... bem, diferente, acho. Como se não fosse mais parte de mim. Como se... — Ele fez uma pausa. Como se pertencesse a uma outra pessoa.

O Doutor Benham balançou a cabeça.

— Respondendo sua pergunta, Sr. Powers, isso não é um sintoma de UNE — apesar de ser uma reação psicológica perfeitamente válida para alguém que contraiu a doença. Um, hã, sentimento de repulsa consigo mesmo, talvez, o qual o senhor esteja externando como uma rejeição à sua genitália.

Isso soa correto, pensou o Doutor Benham. Esperava ter usado os jargões apropriados. Nunca tinha prestado muita atenção nas aulas ou livros de psicologia, o que poderia explicar, assim afirmava sua esposa, por que tinha um emprego mixuruca numa clínica de doenças venéreas em Londres.

Simon parecia um pouco mais calmo.

— Eu estava só um pouco preocupado, doutor, isso é tudo. — Mordeu seu lábio inferior. — Mmm, o que exatamente é UNE?

Benham sorriu, tranqüilizadoramente.

— Pode ser qualquer uma entre várias coisas, UNE é apenas a nossa maneira de dizer que não sabemos exatamente do que se trata. Não é gonorréia. Não é clamídia. "Não-específico", veja bem. É uma infecção e responde a antibióticos. O que me lembra... — Ele abriu a gaveta da mesa e tirou um novo suprimento para a semana.

— Marque uma consulta para a próxima semana. Nada de sexo. Nada de álcool.



Nada de sexo? — pensou Simon. — Nada mesmo.

Mas, quando cruzou com a bela enfermeira australiana no corredor, sentiu seu pênis mexer-se de novo, ficar quente e endurecer.


Benham viu Simon na semana seguinte. Os exames mostravam que ele ainda estava com a doença. Benham deu de ombros.

— Não é incomum que a doença continue por tanto tempo. O senhor diz que não sente desconforto.

— Não, nenhum. E também não vi nenhuma emissão de líquido.

Benham estava cansado e uma dor imprecisa latejava por trás do seu olho esquerdo. Olhou os exames na pasta.

— Infelizmente, o senhor ainda tem a doença.

Simon Powers mudou de posição na cadeira. Tinha grandes olhos azuis lacrimejantes e um rosto pálido e infeliz.

— E sobre a outra coisa, doutor?

O médico balançou a cabeça.

— Que outra coisa?

— Eu lhe contei — disse Simon. — A semana passada. Eu lhe contei. A sensação de que o meu, hmm, pênis não era, não é mais meu pênis.



É claro, pensou Benham, é aquele paciente. Nunca havia jeito de ele se lembrar da procissão de nomes, rostos e pênis, com seus constrangimentos, suas fanfarronices, seus cheiros suarentos, nervosos e suas doencinhas tristes.

— Mm. O que tem isso?

— Está se espalhando, doutor. Sinto toda a parte inferior do meu corpo como se fosse de outra pessoa. Minhas pernas e tudo o mais. Posso sentir, sem problemas, e elas vão onde quero que vão, mas, às vezes, tenho a sensação de que se quisessem ir a um outro lugar — se quisessem cair no mundo — seriam capazes disso e me levariam junto. Eu nada poderia fazer para impedir.

Benham sacudiu a cabeça. Não tinha, de fato, escutado.

— Vamos mudar seu antibiótico. Se o anterior ainda não acabou com a doença, estou certo de que esse acabará. Provavelmente, também vai se livrar dessa outra sensação. Talvez seja apenas um efeito colateral do antibiótico.

O jovem apenas o fitou.

Benham sentiu que devia dizer alguma coisa mais.

— Quem sabe o senhor deva sair mais.

O jovem levantou-se.

— A mesma hora na semana que vem. Nada de sexo, nada de birita, nada de leite depois dos comprimidos. — O médico recitou sua litania.

O jovem retirou-se. Benham observou-o cuidadosamente, mas não pôde ver nada de estranho na maneira como ele andava.

Na noite de sábado, o Dr. Jeremy Benham e sua esposa, Célia, foram a um jantar oferecido por um colega de profissão. Benham sentou-se ao lado de um psiquiatra estrangeiro.

Começaram a falar, enquanto se serviam das entradas.

— O problema de contar às pessoas que você é psiquiatra — disse o psiquiatra, que era americano, enorme, com uma cabeça em forma de bala e parecia um marinheiro mercante — é que você tem de agüentar todas elas tentando agir de maneira normal pelo resto da noite. — Ele riu exultante, baixo e de um jeito sujo.

Benham também riu e, como estava sentado ao lado de um psiquiatra, passou o resto da noite tentando agir de maneira normal.

Bebeu muito vinho no jantar.

Depois do café, quando não conseguia pensar em mais nada para dizer, contou ao psiquiatra (cujo nome era Marshall, apesar de ter dito a Benham para chamá-lo de Mike) o que podia se lembrar dos delírios de Simon Powers.

Mike riu.

— Soa engraçado. Talvez um pouco fantasmagórico, mas nada com que se preocupar. Provavelmente apenas uma alucinação causada por uma reação aos antibióticos. Parece um pouco com a Síndrome de Capgras. Já ouviu falar sobre ela por aqui?

Benham assentiu com a cabeça, então pensou e disse "não". Serviu-se de mais uma taça de vinho, ignorando os lábios franzidos da sua esposa e o balançar quase imperceptível da sua cabeça.

— Bom, a Síndrome de Capgras — disse Mike — é um delírio apavorante. Houve um artigo inteiro sobre ela em The Journal of American Psychiatry, uns cinco anos atrás. Basicamente, é quando alguém acredita que as pessoas importantes na sua vida... membros da família, colegas de trabalho, pais, entes queridos, o que quer que seja... foram substituídos por... veja só!... duplicatas exatas. Não se aplica a todos que conhece. Apenas a pessoas selecionadas. Freqüentemente só uma pessoa. Não há outros delírios também. Apenas esse. Um transtorno agudo, com tendências paranóides.

O psiquiatra cutucou seu nariz com a unha do polegar.

— Eu mesmo topei com um caso desses dois, três anos atrás.

— E você conseguiu curar?

O psiquiatra deu uma olhada de canto de olho em Benham e sorriu um riso arreganhado, mostrando todos os dentes.

— Em psiquiatria, doutor, ao contrário, talvez, do mundo da clínica de doenças sexualmente transmissíveis, não há algo como cura. Há apenas ajustamento.

Benham bebericou o vinho tinto. Mais tarde ocorreu-lhe que nunca teria dito o que disse a seguir, não fosse pelo vinho. Não em voz alta, pelo menos.

— Suponho... — Fez uma pausa lembrando-se de um filme que tinha visto quando adolescente (alguma coisa sobre invasores de corpos?). Suponho que ninguém jamais checou se essas pessoas foram mesmo removidas e substituídas por réplicas exatas...?

Mike, Marshall ou quem quer que fosse, lançou um olhar muito engraçado para Benham e se virou na cadeira para conversar com o seu vizinho do outro lado.

Benham, por sua vez, continuou tentando agir de maneira normal (o que quer que fosse isso) e fracassou completamente. Ficou, de fato, muito bêbado e começou a resmungar sobre "colonos de merda" e teve uma briga flamejante com sua esposa depois que o jantar acabou, nenhuma dessas ocorrências foi particularmente normal.

A esposa de Benham trancou-o do lado de fora do quarto depois da briga.

Ele se deitou no sofá no andar de baixo, envolto por um cobertor amarrotado, e se masturbou na sua cueca, sua semente quente jorrando no seu abdome.

De madrugada, foi acordado por uma sensação fria ao redor dos quadris.

Limpou-se com a fralda da camisa e voltou a dormir.


Simon não conseguia se masturbar.

Ele queria, mas sua mão não se mexia. Estava ao seu lado, saudável, boa, mas era como se tivesse se esquecido de como fazê-la responder. O que era ridículo, não era?

Não era?

Começou a suar. Pingava do seu rosto e testa sobre os lençóis de algodão branco, mas o resto do seu corpo eslava seco.

Célula após célula, alguma coisa estava se espalhando dentro dele. Roçava seu rosto suavemente, como o beijo de uma amante; estava lambendo seu pescoço, respirando nas suas faces. Tocando-o.

Tinha de sair da cama. Não conseguia se levantar. Tentou gritar, mas sua boca não abriu. Sua laringe recusava-se a vibrar.

Simon ainda podia ver o teto, iluminado pelas luzes dos carros que passavam. A imagem ficou borrada: os olhos ainda eram seus e lágrimas saíam deles, correndo pelo rosto, encharcando o travesseiro.

Eles não sabem o que eu tenho, pensou. Disseram que eu tinha o que todo mundo tem. Mas eu não peguei isso. Peguei uma coisa diferente.

Ou talvez, pensou enquanto sua visão nublava-se e a escuridão engolia a última parte de Simon Powers, uma coisa tenha me pegado.

Logo depois disso, Simon levantou-se, lavou-se e inspecionou-se cuidadosamente na frente do espelho do banheiro. Então sorriu, como se estivesse gostando do que via.


Benham sorriu.

— Estou satisfeito em dizer — falou ele — que posso lhe dar um atestado de saúde perfeita.

Simon Powers esticou-se na cadeira, preguiçosamente, e assentiu com a cabeça.

— Eu me sinto muito bem — disse.

Ele realmente parecia bem, pensou Benham. Brilhando de saúde. Parecia mais alto também. Um jovem muito atraente, concluiu o médico.

— E, então, aquelas sensações acabaram?

— Sensações?

— Aquelas sensações sobre as quais o senhor me falou. Que o seu corpo não era mais seu.

Simon movimentou uma mão suavemente, abanando seu rosto. O tempo frio tinha se encerrado e Londres estava cozinhando numa repentina onda de calor. Não parecia mais a Inglaterra.

Simon parecia se divertir com a idéia.

— Todo este corpo pertence a mim, doutor. Eu estou certo disso. Simon Powers (90/00666.L SOLTEIRO.HOMEM) riu como se o mundo também lhe pertencesse.

O médico observou-o enquanto ele saía do consultório. Parecia mais forte agora, menos frágil.

O próximo paciente da agenda de Benham era um garoto de vinte e dois anos. Benham teria de lhe informar que era HIV positivo. Odeio este trabalho, pensou. Preciso de umas férias.

Desceu o corredor para chamar o menino e passou por Simon Powers que conversava animadamente com a bela enfermeira australiana.

— Deve ser um lugar adorável — estava lhe dizendo. — Quero conhecer. Quero ir a todos os lugares. Quero encontrar todo mundo. — Ele tinha uma das mãos no braço da moça e ela não fazia nenhum movimento para retirá-la.

O doutor Benham parou ao lado deles. Tocou Simon no ombro.

— Jovem — disse ele. — Não quero ver você de novo por aqui.

Simon Powers sorriu.

— O senhor não vai me ver aqui de novo, doutor — disse ele. — Não mesmo. Estou deixando o meu trabalho. Vou sair pelo mundo.

Apertaram-se as mãos. A de Powers estava quente, confortável e seca. Benham afastou-se, mas não pôde evitar de ouvir Simon Powers ainda conversando com a enfermeira,

— Vai ser muito legal — dizia-lhe. Benham se perguntou se estava falando de sexo, viagem pelo mundo ou, possivelmente, de uma forma ou outra, sobre as duas coisas.

— Vou me divertir muito — disse Simon. — Já estou adorando.

SESTINA DO VAMPIRO
Espero aqui, nas fronteiras do sonho,

todo envolto em sombra. O ar escuro tem gosto de noite,

tão frio e vivificante, e espero pelo meu amor.

A lua alveja a cor da sua lápide.

Ela virá e, então, difundiremos neste belo mundo

vivo a escuridão e o ressaibo de sangue.


É um jogo solitário, a procura de sangue,

mesmo assim, um corpo tem o direito ao sonho

e não desistiria por todo o mundo.

A lua sangrou a escuridão da noite.

Permaneço nas sombras, fitando sua lápide:

Ressuscita, meu amor.. Oh, ressuscita, meu amor?
Sonhei com você enquanto hoje dormia e o amor

significou mais para mim do que a vida - significou mais

[do que sangue.

A luz do sol buscou-me, fundo sob minha lápide,

mais morto do que qualquer cadáver, mas ainda um sonho

até eu acordar feito vapor na noite

e o pôr-do-sol me forçar a sair pelo mundo.
Por muitos séculos ando pelo mundo

repartindo algo que se assemelha ao amor —

um beijo roubado e, então, de volta na noite,

contente pela vida e pelo sangue.

E vem a manhã e eu era só um sonho,

corpo frio congelando debaixo de uma lápide.

Disse que não iria machucá-la. Seria eu uma lápide

para deixá-la vítima do tempo e do mundo?

Ofereci-lhe a verdade além de seu maior sonho

enquanto tudo o que você tinha a oferecer era o seu amor.

Disse-lhe para não se preocupar e que o sangue

tem gosto mais doce na asa e tarde da noite.


Algumas vezes, minhas amantes erguem-se para caminhar à noite...

algumas vezes, deitam-se, cadáver frio debaixo de uma lápide,

e nunca conhecem as alegrias da cama e do sangue,

de andar peias sombras do mundo;

em vez disso, apodrecem aos vermes. Oh, meu amor,

sussurram que você se ergueu, em meu sonho.


Esperei ao lado da sua lápide metade de noite,

mas você não deixou seu sonho para caçar sangue.

Boa noite, meu amor. Ofereci-lhe o mundo.

CAMUNDONGO


Eles tinham vários dispositivos que matavam o camundongo rapidamente, outros que o matavam mais lentamente. Havia dúzias de variações da ratoeira tradicional, uma que Regan imaginava como a ratoeira do Tom e Jerry: uma armadilha com mola de metal que era disparada a um toque, quebrando as costas do camundongo; havia outras engenhocas nas prateleiras — algumas que sufocavam o camundongo, outras que o eletrocutavam, ou até mesmo o afogavam, cada qual guardada em sua embalagem multicolorida de cartolina.

— Não são exatamente o que eu estava procurando — disse Regan.

— Bem, isso é tudo o que temos em termos de ratoeiras — disse a mulher, que usava um grande crachá plástico que dizia que seu nome era Becky e que ela adorava trabalhar PARA VOCÊ na loja de RAÇÃO E ESPECIALIDADES ANIMAIS MACREA.

— Mas ali... — ela apontou uma gôndola de exibição isolada de sachês de veneno para ratos gato-famyn-to. Havia um pequeno camundongo de borracha deitado no alto da gôndola com as pernas para o ar.

Regan experimentou um repentino lampejo de memória espontânea: Gwen estendendo uma elegante mão rosada, seus dedos voltados para cima:

— O que é aquilo? — perguntara ela. Foi na semana anterior da partida dele para os Estados Unidos.

— Não sei — respondera Regan. Estavam no bar de um pequeno hotel no West Country com tapetes cor de Burgundy, papéis de parede castanho-claros. Ele acalentava uma gin-tônica; ela bebericava sua segunda taça de Chablis. Uma vez, Gwen tinha dito a Regan que as loiras deviam beber apenas vinho branco; combinava mais. Ele riu, até perceber que ela falava sério.

— É um daqueles, morto — disse ela virando sua mão, e os dedos ficaram pendurados como as pernas de um pequeno animal rosa. Ele sorriu. Mais tarde, pagou a conta e os dois subiram ao quarto de Regan...

— Não, veneno não. Olha, eu não quero matar — disse à vendedora, Becky.

Ela o olhou com curiosidade, como se ele tivesse começado a falar numa língua estrangeira.

— Mas você disse que queria ratoeiras...?

— O que eu quero é uma ratoeira humanitária. É tipo um corredor. O camundongo entra, a porta se fecha atrás e ele não pode sair.

— Mas aí como você mata?

— Não mato. Eu pego o carro e guio por alguns quilômetros e solto o camundongo. E ele não volta para me incomodar.

Becky sorria, agora, examinando-o como se fosse a criatura mais querida, a mais doce, tola e bela criaturinha.

— Fique aqui — disse ela. — Vou ver lá trás.

Passou por uma porta em que se lia APENAS EMPREGADOS. Ela tinha uma bela bunda e era atraente, de um jeito lânguido do meio-oeste americano.

Ele olhou pela janela. Janice estava no carro, lendo sua revista: uma ruiva num roupão desmazelado. Acenou-lhe, mas ela não estava olhando para ele.

Becky colocou sua cabeça na porta:

— Bingo! — disse ela. — Quantas você quer?

— Duas?

— Sem problema. Entrou de novo e voltou com dois pequenos recipientes plásticos verdes. Ela marcou a venda na caixa registradora e, enquanto ele manuseava desajeitadamente notas e moedas, ainda sem familiaridade, tentando pegar o troco certo, a jovem examinou as ratoeiras, sorrindo, revirando os pacotes nas mãos.



— Meu Deus — disse ela —, o que vão inventar depois?

O calor golpeou Regan quando ele saiu da loja.

Apressou-se até o carro. O trinco de metal da porta estava quente; o motor funcionava em marcha lenta. Entrou no carro.

— Comprei duas — disse ele. O ar condicionado no carro estava fresco e agradável.

— Cinto de segurança — lembrou Janice. — Você tem mesmo de aprender a dirigir por aqui.

Ela abaixou sua revista.

— Eu aprendo — disse ele —, um dia.

Regan tinha medo de guiar nos Estados Unidos: era como se estivesse dirigindo do outro lado do espelho.

Não disseram mais nada, e Regan leu as instruções nas costas das caixas de ratoeira. De acordo com o texto, a principal atração desse tipo de ratoeira era que você não precisava ver, tocar ou manusear o camundongo. A porta se fechava atrás dele e isso era tudo. As instruções não diziam nada sobre não matar o camundongo.

Quando chegaram em casa, ele tirou as ratoeiras de dentro das caixas, colocou um pouco de creme de amendoim no fundo de uma delas, e um pedaço de chocolate no da outra e as colocou no chão da copa, uma contra a parede, a outra perto do buraco que o camundongo parecia estar usando como acesso à copa.

As ratoeiras eram apenas corredores — uma porta em uma extremidade, uma parede na outra.
Na cama, aquela noite, Regan estendeu a mão e tocou os seios de Janice enquanto ela dormia, tocou-os suavemente, sem querer acordá-la. Estavam perceptivelmente maiores. Desejou achar seios grandes eróticos. Viu-se perguntando a si mesmo como seria sugar os seios de uma mulher enquanto ela estivesse amamentando. Pôde imaginar a doçura, mas nenhum gosto específico.

Janice dormia profundamente. Mesmo assim, moveu-se em sua direção. Ele se afastou vagarosamente; deitado na escuridão, tentando se lembrar de como fazer para dormir, caçando alternativas na sua mente. Estava tão quente, tão abafado. Quando moravam em Ealing, ele adormecia instantaneamente, estava certo disso.

Um grito agudo veio do jardim. Janice mexeu-se e rolou para longe dele. Tinha soado quase humano. As raposas podem parecer crianças pequenas sentindo dor — Regan tinha ouvido isso há muito tempo. Ou talvez fosse um gato. Ou algum tipo de pássaro noturno.

De qualquer maneira, alguma coisa tinha morrido na noite. Não havia dúvida.

Na manhã seguinte, uma das ratoeiras tinha sido acionada, muito embora, quando Regan abriu-a cuidadosamente, ela se mostrou vazia. A isca de chocolate tinha sido mordiscada. Ele abriu a porta da ratoeira uma vez mais e a substituiu, próxima da parede.

Janice estava chorando na saleta. Regan ficou ao seu lado, ela estendeu sua mão e ele a segurou firmemente. Seus dedos estavam gelados. Ela ainda vestia a camisola e estava sem maquiagem.

Mais tarde, ela deu um telefonema.

Um pacote chegou para Regan um pouco antes do meio-dia, pela Federal Express, contendo um dúzia de disquetes, cada um recheado de números para ele inspecionar, arranjar e classificar.

Ele trabalhou no computador até às seis, sentado na frente de um pequeno ventilador de metal que zumbia, chocalhava e movia o ar quente ao redor.

Ela ligou o rádio naquela noite, enquanto ele cozinhava.

— ... o que meu livro diz a todos. O que os liberais não querem que saibamos. — A voz era alta, nervosa, arrogante.

— É. Tinha alguma coisa em que, bem, era meio difícil acreditar. — O locutor era encorajador: uma voz profunda de rádio, tranqüilizadora e fácil nos ouvidos.

— É claro que é difícil acreditar. Vai contra tudo aquilo em que eles querem que você acredite. Os liberais e os ho-mos-se-xuais, na mídia, não deixam você saber a verdade.

— Bom, todos sabemos disso, amigo. Voltamos já, já, depois dessa canção.

Era uma música country. Regan mantinha o rádio sintonizado na estação National Public Radio local. Às vezes, transmitiam o serviço de notícias internacionais da BBC. Alguém deve ter mudado a sintonia, achou ele, apesar de não conseguir imaginar quem.

Ele pegou uma faca afiada e cortou o peito de frango com cuidado, dividindo a carne rosada, fatiando-a em tiras prontas para serem fritas, ouvindo a música.

O coração de alguém estava partido; alguém não ligava mais. A canção acabou, Houve um comercial de cerveja. Então, o homem começou a falar de novo.

— Acontece que ninguém acredita nisso na primeira vez. Mas eu tenho os documentos. Eu tenho as fotografias. Leia meu livro. Você vai ver. É uma aliança pecaminosa, e quero realmente dizer pecaminosa, entre o chamado lobby pró-aborto, a comunidade médica e os ho-mos-se-xuais. Os ho-mos precisam desses assassinatos porque é daí que eles conseguem as criancinhas que usam nas experiências para encontrar a cura da AIDS. O que quero dizer é que esses liberais falam das atrocidades dos nazistas, mas nada do que os nazistas fizeram chega, sequer, perto do que estão fazendo, neste exato momento, enquanto falamos. Eles pegam esses fetos humanos e enxertam pedaços em camundongos para criar umas criaturas híbridas de humanos e ratos para suas experiências. Então, eles injetam AIDS nos monstrinhos...

Regan viu-se pensando na parede de Mengele com olhos enfileirados. Olhos azuis, olhos verdes, castanho-esverdeados...

— Merda! — ele cortou o dedo. Enfiou-o na boca, mordeu-o para estancar o sangue, correu até o banheiro e começou a caçar um Band-Aid.

— Lembre-se, amanhã, precisarei sair de casa às dez.

Janice estava de pé atrás dele. Regan fitou seus olhos azuis no espelho do banheiro. Ela parecia calma.

— Tudo bem. — Ele grudou o Band-Aid no dedo, escondendo e atando o corte, e virou-se para encará-la.

— Vi um gato no jardim, hoje — disse ela. — Grande, cinza. Talvez esteja perdido.

— Talvez.

— Já pensou de novo sobre ter um animal de estimação?

— Não de verdade. Seria só uma coisa a mais com que se preocupar. Pensei que já estava combinado: nada de animais de estimação.

Ela deu de ombros.

Eles voltaram para a cozinha. Ele despejou óleo na frigideira e acendeu o gás. Colocou as tiras de carne rosada na panela e as observou encolher, descorar e mudar.

Janice dirigiu até a estação de ônibus bem cedo, na manhã seguinte. Era um longo caminho até a cidade e ela não estaria em condições de guiar quando estivesse pronta para voltar. Levou quinhentos dólares com ela, em dinheiro.

Regan verificou as ratoeiras. Nenhuma delas tinha sido tocada. Então, rondou os corredores da casa.

Finalmente, telefonou para Gwen. A primeira vez, discou errado, seus dedos escorregando nos botões do telefone, os muitos dígitos confundindo-o. Tentou de novo.

O tom de chamada e, então, a voz dela na linha:

— Associação de Contabilidade Aliada, Boa tarde.

— Gwennie? Sou eu.

— Regan? É você, não é? Eu estava esperando mesmo que telefonasse. Senti sua falta. — A voz dela estava distante. Os estalos e zumbidos transatlânticos tornando-a mais distante.

— É claro.

— Você tem pensado em voltar?

— Não sei.

— E como está a esposa?

— Janice está... — Ele fez uma pausa. Suspirou. — Janice está bem.

— Comecei a trepar com o nosso novo diretor de vendas — disse Gwen. — Não é do seu tempo. Você não conhece. Faz seis meses que você foi embora. Quer dizer, o que uma garota pode fazer?

Ocorreu a Regan que isso era o que ele mais odiava nas mulheres: a praticidade. Gwen sempre o fizera usar preservativo, apesar de ele não apreciar a idéia, enquanto ela também usava diafragma e creme espermicida. Regan sentia que, em algum lugar no meio disso tudo, um nível de espontaneidade, de romance e de paixão havia se perdido. Ele queria que sexo fosse algo que simplesmente acontecesse, metade na sua cabeça, metade fora dela. Algo repentino, sujo e poderoso.

Sua testa começou a latejar.

— E então, como está o tempo aí? — perguntou Gwen calorosamente.

— Está quente — disse Regan,

— Queria que aqui também estivesse quente. Está chovendo há semanas.

Ele disse algo sobre como tinha sido bom ouvir a voz dela de novo. Então, desligou.

Regan checou as ratoeiras. Ainda vazias. Vagueou até o escritório e ligou a TV.

— ...este é um pequenino. É o que feto quer dizer. E, um dia, ele vai crescer e se tornar grande. Tem dedinhos, pezinhos — tem até mesmo unhinhas.

Uma imagem na tela: vermelha, pulsante e indistinta. Cortou e entrou uma mulher com um sorriso enorme, acariciando um bebê.

— Alguns dos pequeninos crescerão para se tornar enfermeiras, professores ou músicos. Um dia, um deles poderá até mesmo ser Presidente.

De volta à coisa rosada, preenchendo a tela.

— Mas este pequenino nunca será grande. Ele será morto amanhã. E sua mãe diz que não é assassinato.

Ele mudou de canal até achar I Love Lucy, o fundo perfeito para o nada. Então, ligou o computador e começou a trabalhar.

Depois de duas horas despendidas atrás de um erro de menos de cem dólares por colunas de números que pareciam intermináveis, sua cabeça começou a doer. Levantou-se e andou até o jardim.

Sentia falta de ter um jardim de verdade. Sentia falta dos gramados genuinamente ingleses com grama genuinamente inglesa. A grama ali era seca, marrom e esparsa, as árvores barbadas com musgo espanhol lembrando alguma coisa de filme de ficção científica, ele seguiu um caminho que dava num bosque atrás da casa. Uma coisa cinza e macia escorregou detrás de uma árvore para outra.

— Aqui, gatinho, gatinho — chamou Regan. — Aqui, bichano, bichano.

Caminhou até a árvore e olhou atrás dela. O gato — ou o que quer que fosse — tinha ido embora.

Algo ferroou sua bochecha. Ele bateu nela sem pensar, baixou sua mão e a viu manchada de sangue e um mosquito, meio esmagado, ainda se contorcendo na palma.

Voltou à cozinha e se serviu de uma xícara de café. Sentia falta de chá, mas não tinha o mesmo gosto aqui.

Janice chegou em casa por volta das seis.

— Como foi?

Ela deu de ombros.

— Tudo bem.

— É?


— É.

— Tenho de voltar na semana que vem — disse ela. — Para um exame.

— Para ter certeza de que não deixaram nenhum instrumento dentro de você?

— Vai saber — respondeu.

— Fiz espaguete à bolonhesa — disse Regan.

— Não estou com fome — justificou Janice. — Vou para a cama.

Ela subiu a escada.

Regan trabalhou até que os números deixaram de fazer sentido. Subiu a escada e entrou no quarto escuro sem fazer barulho. Tirou as roupas ao luar, largou-as no tapete e escorregou para dentro dos lençóis.

Podia sentir Janice próxima dele. Seu corpo tremia e o travesseiro estava molhado.

— Jan?


Ela estava de costas para ele.

— Foi horrível — sussurrou ela no travesseiro. — Doeu tanto. E não me deram o anestésico apropriado ou coisa que o valha. Disseram que eu poderia tomar um Valium se quisesse, mas que não tem mais anestesista lá. A moça disse que ela não agüentou a pressão. De qualquer forma, custava mais duzentos dólares, e ninguém queria pagar...

— Doeu tanto — ela estava soluçando agora, dizendo as palavras de forma entrecortada, como se estivessem sendo arrastadas para fora. — Doeu tanto.

Regan levantou-se da cama.

— Aonde você vai?

— Eu não tenho de ouvir isso — disse Regan. — Não tenho mesmo.

Estava quente demais na casa. Regan desceu a escada só de cueca. Foi até a cozinha, descalço, seus pés faziam barulhos grudentos no vinil.

Uma das portas da ratoeira estava fechada.

Ele pegou a ratoeira. Sentiu-a insignificantemente mais pesada do que antes. Abriu a porta com cuidado, só um pouco. Dois olhos com aparência de contas o fitavam. Pêlo marrom claro. Fechou a porta de novo e ouviu barulho de unhas arranhando vindo de dentro da ratoeira.

E agora?


Ele não podia matá-lo. Não podia matar coisa alguma.

A ratoeira verde tinha um cheiro acre e seu fundo estava pegajoso com o mijo do camundongo. Regan levou-a cautelosamente para fora, para o jardim.

Uma brisa suave começou a soprar. A lua estava quase cheia. Ele se ajoelhou no chão e colocou a ratoeira cuidadosamente na grama seca. Abriu a porta do pequeno corredor verde.

— Fuja — sussurrou ele, sentindo-se constrangido ao ouvir o som da sua voz ao ar livre. — Fuja, ratinho.

O camundongo não se moveu. Regan pôde ver seu nariz na porta da ratoeira.

— Vamos — disse Regan. Luar brilhante, ele podia ver tudo, iluminado e sombreado de modo penetrante, mesmo não havendo cor.

Ele cutucou a ratoeira com o pé.

O camundongo arremeteu, então. Correu para fora da ratoeira, daí parou, virou e começou a pular para o bosque. Então, parou de novo. O roedor olhou na direção de seu libertador. Regan estava convencido de que ele o fitava. Tinha minúsculas mãozinhas cor-de-rosa. Regan sentiu-se quase paternal. Sorriu com tristeza.

Um risco cinza na noite e o camundongo estava pendendo, lutando inutilmente, da boca de um grande gato cinza, seus olhos ardendo verdes na noite. Então, o gato saltou para a macega.

Ele pensou brevemente em perseguir o felino, em libertar o camundongo das suas mandíbulas...

Um grito agudo veio do bosque; somente um som noturno, mas, por um momento, Regan pensou que fosse quase humano, como uma mulher sofrendo dores.

Ele jogou a pequena ratoeira de plástico para tão longe quanto possível. Esperava ouvir o ruído da peça se quebrando quando batesse em alguma coisa, mas caiu nos arbustos sem som algum.

Então, Regan entrou novamente e fechou a porta da casa atrás de si.

A MUDANÇA DO MAR


Agora é uma boa hora para escrever isso,

agora, com o chocalhar dos seixos revolvidos pelas ondas,

e a oblíqua chuva fria, fria, tamborilando e salpicando

o telhado do zinco até eu mal poder ouvir meus pensamentos

e, acima disso tudo, o uivo baixo do vento. Acredite-me,

eu poderia rastejar para baixo das ondas negras agora,

sob a nuvem escura, mas isso seria tolice.
"Senhor, ouvi-nos clamar

Por aqueles em perigo no mar".,..
O velho hino paira nos meus lábios, espontâneo;

talvez eu o esteja cantando em voz alta. Não posso dizer.

Não sou velho, mas quando acordo estou uma ruína de dor,

um velho náufrago. Veja minhas mãos.

Quebradas pelas ondas e pelo mar: e torcidas,

parecem com alguma coisa que encontrei na praia, após uma tempestade.

Seguro minha caneta como um velho.
Meu pai chamava um mar desses de "um fazedor de viúvas".

Minha mãe dizia que o mar era sempre um fazedor-de-viúvas,

mesmo quando estava cinza e liso como o céu. E ela estava certa.

Meu pai afogou-se com tempo bom.

Às vezes, pergunto-me se seus ossos vieram a dar na praia,

ou se eu os reconheceria se tivessem vindo dar,

torcidos e alisados pelo mar como estariam.
Eu era um rapaz de dezessete anos, petulante como qualquer jovem

que pensa que pode fazer do mar sua amante,

e tinha prometido à minha mãe que não iria para o mar.

Ela me mandou como aprendiz a um papeleiro, e meus dias

[eram passados

entres resmas e cadernos; mas, quando ela morreu, eu peguei

[suas economias

e comprei um pequeno barco. Peguei as redes empoeiradas do

[meu pai e as lagosteiras,

formei uma tripulação de três homens, todos mais velhos do que eu,

e larguei os tinteiros e as penas para sempre.
Houve bons e maus meses.

Frio, frio, o mar era amargo e salgado, as redes cortavam minhas mãos,

as linhas eram manhosas, coisas perigosas. Ainda assim,

não teria desistido disso por nada no mundo. Não naquele tempo.

O cheiro salgado do meu mundo fez-me ter certeza de que eu

[viveria para sempre.

De vento em popa sobre as ondas com uma brisa boa,

o sol atrás de mim, mais rápido do que uma dúzia de cavalos

[cortando o alto das ondas brancas,

aquilo era viver, deveras.


O mar tem humores. Você aprende isso rápido.

No dia sobre o qual escrevo agora, ele estava matreiro, mal-humorado,

o vento vinha e voltava de todos os quatro cantos da bússola,

as ondas inconstantes. Não pude medi-lo.

A terra estava fora da vista quando vi uma mão,

vi alguma coisa, estendendo-se do mar cinza.

Lembrando do meu pai, corri para a proa e chamei alto.
Não houve resposta a não ser o lamento solitário das gaivotas.

E o ar estava cheio com o farfalhar de asas brancas, e então

o balanço da retranca de madeira, que me acertou na base do crânio:

lembro-me do jeito vagaroso com que o mar frio veio até mim,

envolveu-me, engoliu-me, pegou-me para si.
Senti o gosto do sal. Somos feitos de água do mar e osso:

foi o que o papeleiro me disse quando eu era um garoto.

Isto me ocorreu uma vez que a água vaza para

[anunciar todo nascimento —

e estou certo de que essas águas devem ter gosto de sal —

lembrando-me, talvez, do meu próprio nascimento.

O mundo debaixo do mar era borrado. Frio, frio, frio...
Não acredito que eu a vi verdadeiramente. Não posso crer.

Um sonho, ou loucura, a falta de ar,

a pancada na cabeça: era tudo o que ela era.

Mas quando a vejo em sonhos, como de fato a vejo, nunca duvido dela.

Velha como o mar era ela e jovem como uma onda

[recém-formada ou uma vaga.

Seus olhos de duende haviam me espiado. E eu sabia que ela me queria.

Dizem que o povo do mar não tem alma: talvez

o mar seja uma alma enorme de onde eles respiram, bebem e vivem.

Ela me queria. E teria me possuído, não podia haver dúvida.

Porém...
Puxaram-me do mar e pressionaram meu peito

até eu vomitar a rica água do oceano sobre os seixos batidos de ondas.

Frio, frio, frio estava eu, tremendo, arrepiado e doente.

Minhas mãos estavam quebradas e minhas pernas torcidas,

como se eu tivesse acabado de subir de águas profundas,

meus ossos são entalhes de marfim e madeira arrastada pelo mar,

mensagens gravadas, escondidas debaixo da minha carne.
O barco nunca voltou. A tripulação nunca mais foi vista.

Vivo da caridade da aldeia:

para lá, a não ser pela misericórdia do mar, dizem, vamos nós.

Alguns anos se passaram: quase uma era.

E as mulheres sadias me vêem com piedade ou com desdém.
Fora da minha cabana, o uivo do vento tornou-se um grito,

chocalhando a chuva contra as paredes de zinco,

esmigalhando as telhas pétreas, pedra contra pedra
"Senhor, ouvi-nos clamar

por aqueles em perigo no mar"
Creia-me, eu poderia descer ao mar esta noite,

arrastar-me sobre minhas mãos e joelhos lá para baixo

Dar-me para a água e a escuridão.

E para a moça.

Deixá-la chupar a carne desses ossos emaranhados,

transformar-me em algo incorruptível e de marfim:

em algo rico e estranho. Mas isso seria tolice.
A voz da tempestade está sussurrando para mim.

A voz da praia está sussurrando para mim.

A voz das ondas está sussurrando para mim.


3. CHUN / DIFICULDADE INICIAL




Acima K'AN, O ABISMAL, ÁGUA.

Abaixo CHÊN, O INCITAR, TROVÃO.
O nome do hexagrama, Chun, representa propriamente um talo de grama que, no seu esforço de crescimento, encontra um obstáculo. Disso resulta o significado de Dificuldade Inicial. O hexagrama indica a maneira como o céu E a terra dão origem aos seres individuais. Esse primeiro encontro entre o céu e a terra é cercado por dificuldades. O trigrama inferior Chen é o Incitar, seu movimento tende para o alto, sua imagem é o trovão. O trigrama superior Iwn é o Abismai, o perigoso; seu movimento Tende para baixo, sua imagem ê a chuva. A situação é, portanto, de um denso caos. A atmosfera está carregada de trovão e chuva. Porém, o caos se dissolve. Enquanto o Abismai desce, o movimento que tende para o alto ultrapassa o perigo. A tempestade traz alívio de tensão e todos os seres respiram aliviados.




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