FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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Estava vindo com tudo agora, estocando pausadamente para dentro e para fora.

As mãos dela repousavam em seus ombros. Encostou-se, beijou-o nos lábios.

— Bem, também funciona com sexo. Normalmente, eu sei como estou indo. Na cama. Com mulheres. Sei o que fazer. Não tenho que perguntar. Eu sei. Se ela quer fazer por cima ou por baixo, se precisa de um mestre ou de um escravo. Se quer que eu sussurre "eu te amo" várias vezes enquanto fodo e nos estendemos lado a lado, ou apenas quer que eu mije dentro da sua boca. Viro o que ela quiser. Por isso que... meu Deus. Eu não posso acreditar que estou contando isso pra você. Quer dizer, foi assim que comecei a fazer isso pra viver.

— É, A Natalie confia muito em você. Ela me deu o seu número.

— Ela é muito legal. Natalie. E em boa forma pra idade.

— E o que a Natalie gosta de fazer, então?

Ele sorriu para ela.

— Segredos do ofício — disse ele. — Jurei manter sigilo. Palavra de Escoteiro.

— Espere — disse ela. Saiu de cima dele, virou-se de lado. — Por trás. Eu gosto que foda por irás.

— Eu deveria saber — disse ele, soando quase irritado. Levantou, posicionou-se atrás dela, correu um dedo de cima a baixo na pele macia que cobria sua espinha. Colocou sua mão entre suas pernas, então agarrou o pênis e o enfiou na vagina.

— Bem devagar — disse ela.

Ele empurrou o quadril, deslizando seu pênis para dentro dela. Ela ofegou.

— Está bom assim? — perguntou ele.

— Não — disse ela. — Dói um pouquinho quando entra inteiro. Não tão fundo da próxima vez. Então, você sabe coisas sobre as mulheres quando transa com elas. O que sabe sobre mim?

— Nada de especial. Sou um grande fã seu.

— Me poupe.

Um de seus braços cruzava sobre os seios dela. Sua outra mão tocava seus lábios. Ela chupou seu dedo indicador, lambendo-o.

— Bem, não um grande fã. Mas eu vi sua entrevista no Letterman, e achei você maravilhosa. Bem divertida.

— Obrigada.

— Eu não posso acreditar que a gente está fazendo isso.

— Fodendo?

— Não. Falando enquanto fademos.

— Eu gosto de falar enquanto fodo. Basta desse jeito. Meus joelhos estão cansados.

Ele tirou e se sentou na cama.

— Então, você sabe o que as mulheres pensam, e o que elas querem? Hmm. Isso funciona com homens?

— Não sei. Nunca fiz amor com um homem.

Ela o olhou fixamente Colocou seu dedo na testa dele, e o correu lentamente até o queixo, traçando a linha dos ossos da sua face.

— Mas você e tão bonito.

— Obrigado.

— E você é um michê.

— Um acompanhante.

— E vaidoso também,

— Talvez. E você não é?

Ela deu um largo sorriso.

— Touché. Então, você não sabe o que eu quero agora?

— Não.


Ela se deitou de lado.

— Coloque uma camisinha e me foda no cú.

— Você tem lubrificante?

— No criado-mudo.

Ele pegou a camisinha e o gel da gaveta, e desenrolou-a ao redor do pênis.

— Odeio camisinha — disse enquanto vestia. Elas me dão coceira. E tenho ficha de saúde limpa. Mostrei o certificado a você.

— Não me importo.

— Só achei que tinha mencionado isso. É só.

Ele espalhou lubrificante dentro e em volta do seu ânus, e então escorregou a cabeça do pênis para dentro. Ela gemeu. Ele fez uma pausa.

— Está... Tá tudo bem?

— Sim.

Ele mexeu para frente e para trás, colocando mais fundo. Ela grunhia de modo cadenciado a cada movimento. Após alguns minutos, disse:



— Já é o bastante.

Ele tirou. Ela rolou de costa e tirou a camisinha borrada do pênis, deixando-a cair no carpete.

— Pode gozar agora.

— Eu não estou pronto. E nós ainda podemos transar por horas.

— Não me importo. Goze na minha barriga. — Sorriu para ele. — Masturbe-se até gozar.

Ele assentiu com a cabeça, mas sua mão já estava segurando desajeitadamente o pênis, movendo-o para frente e para trás até que esguichou um rastro brilhante por toda sua barriga e seios.

— Acho que já pode ir embora — disse ela.

— Mas você não gozou ainda. Não quer que eu faça você gozar?

— Já consegui o que queria.

Ele sacudiu a cabeça, confuso. Seu pênis estava flácido e encolhido.

— Eu deveria saber — disse intrigado. — Eu não... Eu não sei. Eu não sei nada.

— Vista-se — disse ela. — Vá embora.

Ele vestiu as roupas rápido, começando pelas meias. Então, inclinou-se para beijá-la.

Ela moveu a cabeça evitando seus lábios.

— Não — disse ela.

— Posso ver você novamente?

Ela sacudiu a cabeça.

— Acho que não.

Ele estava tremendo.

— E o dinheiro? — perguntou.

— Já paguei — disse ela. — Paguei quando você entrou. Não se lembra?

Ele fez que sim com a cabeça, nervoso, como se não pudesse lembrar, mas não ousasse admitir. Então, apalpou seus bolsos até que encontrou um envelope com dinheiro dentro, e mais uma vez, fez sinal com a cabeça.

— Sinto-me vazio — disse melancólico. Ela mal notou quando ele saiu.

Permaneceu na cama com a mão sobre a barriga, o fluido do esperma secando e esfriando em sua pele, e experimentou o rapaz em sua mente.

Degustou cada mulher com quem ele dormira. Experimentou o que fez com sua amiga, rindo das pequenas perversões de Natalie. Saboreou o dia em que perdeu seu último trabalho. Provou a manhã em que acordara, ainda bêbado, no carro, no meio de um milharal, quando, aterrorizado, renunciou solenemente à bebida para sempre. Ela soube seu verdadeiro nome. Lembrou-se do nome que havia, uma vez, sido tatuado no seu braço e sabia o porquê de não poder mais continuar lá. Provou a cor de seus olhos por dentro, e teve calafrios com o pesadelo que o atormentava, no qual era forçado a carregar peixes espinhosos com a boca, o que o fazia acordar engasgando, noite após noite. Saboreou seu apetite por comida e ficção, e descobriu um céu escuro quando, ele ainda garotinho, olhava fixamente para estrelas, admirado por sua vastidão e imensidão; algo que até o rapaz já esquecera.

Mesmo no material mais insignificante, menos promissor, ela havia descoberto que se encontravam verdadeiros tesouros, E ele tinha um pouco desse talento, embora nunca tivesse entendido, ou usado para outro propósito a não ser sexo. Ela se perguntava, enquanto nadava em suas memórias e sonhos, se o coitado sentiria falta deles, se algum dia notaria que haviam desaparecido. E então, estremeceu, estática, gozou, em lampejos luminosos, que a aqueceram e a tiraram de si, levando-a à perfeição extrema da pequena morte.

Houve um estrondo no beco, lá embaixo. Alguém havia tropeçado numa lata de lixo.

Sentou-se e esfregou o melado da pele. Então, sem se lavar, começou a se vestir mais uma vez, começando pela calcinha branca de algodão e terminando com seus brincos elaborados de prata.

BOLINHOS DE BEBÊ
Alguns anos atrás, todos os animais foram embora.

Acordamos uma manhã e eles simplesmente não estavam mais lá. Nem mesmo nos deixaram um bilhete ou disseram adeus. Nunca conseguimos saber ao certo para onde foram.

Sentimos sua falta.

Alguns de nós pensaram que o mundo tinha se acabado, mas não tinha.

Só que não havia mais animais. Não havia gatos ou coelhos, cachorros ou baleias, não havia peixes nos mares, nem pássaros nos céus.

Estávamos sós.

Não sabíamos o que fazer.

Vagueamos por aí, perdidos por um tempo, e então alguém observou que, só porque não tínhamos mais animais, não havia motivo para mudar nossas vidas. Não havia razão para mudar nossa dieta ou parar de testar produtos que podem nos fazer mal.

Afinal de contas, ainda havia os bebês.

Bebês não falam. Mal podem se mexer. O bebê não é uma criatura racional, pensante.

Fizemos bebês.

E os usamos.

Alguns deles, comemos. Carne de bebê é tenra e suculenta.

Esfolamos suas peles e nos enfeitamos com elas. Couro de bebê é macio e confortável.

Alguns deles, usamos em testes.

Mantínhamos seus olhos abertos com fitas adesivas e pingávamos detergentes e shampoos neles, uma gola de cada vez.

Nós os marcamos e os escaldamos. Nós os queimamos. Nós os prendemos com braçadeiras e plantamos eletrodos em seus cérebros. Enxertamos, congelamos e irradiamos.

Os bebês respiravam nossa fumaça e, na veias dos bebês, fluíam nossos remédios e drogas, até eles pararem de respirar ou até o sangue deles não correr mais.

Era duro, é claro, mas necessário.

Ninguém podia negar isso.

Com a partida dos animais, o que mais podíamos fazer?

Algumas pessoas reclamaram, claro. Mas elas sempre fazem isso.

E tudo voltou ao normal.

Só que...

Ontem, todos os bebês se foram.

Não sabemos para onde. Nem mesmo os vimos partir.

Não sabemos o que vamos fazer sem eles.

Mas pensaremos em algo. Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês.

Vamos bolar alguma coisa.

MISTÉRIOS DE ASSASSINATOS


O Quarto Anjo diz:

Desta ordem sou feito um,

Da humanidade guardar este lugar,

Que por causa da sua Culpa renunciaram,

Pois perderam o direito à Sua Graça;

Portanto, de tudo isso devem eles se afastar

Ou de outra forma minha Espada deverão abraçar

£ serei eu seu próprio inimigo

a incendiar-lhes a Face,

- CHESTER MYSTERY CYCLE,



THE CREATION AND ADAM AND EVE, 1 461

Isto é verdade.

Dez anos atrás, ou um ano a mais ou a menos, encontrei-me numa parada forçada em Los Angeles, longe de casa. Era dezembro, e o tempo na Califórnia era quente e agradável. A Inglaterra, entretanto, estava envolta por neblina e tempestades de neve, e avião algum pousava lá. Todo dia eu ligava para o aeroporto, e todo dia diziam-me para esperar pelo dia seguinte.

Isso perdurou por quase uma semana.

Estava quase saindo da minha adolescência. Vendo hoje os trechos da minha vida passados naquela época, sinto-me incomodado, como se tivesse recebido, sem pedir, um presente de alguém: uma casa, uma esposa, crianças, uma vocação. Nada a ver comigo, poderia dizer inocentemente. Se for verdade que, a cada sete anos, toda célula de seu corpo morre e é substituída, então, eu de fato herdei a vida de um homem morto — as más ações daqueles tempos foram perdoadas, e estão enterradas com seus ossos.

Eu estava em Los Angeles. Sim.

No sexto dia, recebi uma mensagem de uma espécie de antiga namorada de Seattle: ela estava em Los Angeles também e tinha ouvido dizer, por uma rede de amigo que conta para amigo, que eu estava por ali. Será que iria vê-la?

Deixei uma mensagem na sua secretária eletrônica. Claro,

Naquela noite, uma mulher baixinha e loira aproximou-se de mim quando eu saía do lugar em que estava hospedado,

Ela olhou fixamente para mim, como se tentasse me encaixar numa descrição e, então, hesitantemente, disse meu nome.

— Sou eu. Você é amiga da Tink?

— Sou. O carro está lá fora. Vamos. Ela está mesmo ansiosa pra ver você.

O carro da mulher era uma dessas barcas que só se vêem na Califórnia. Cheirava a estofamento de couro rachado e descamado. Nós nos dirigimos de um lugar qualquer para qualquer lugar.

Los Angeles era, naquele tempo, um total mistério para mim. Não posso dizer que a entenda melhor agora. Compreendo Londres, Nova Iorque e Paris — você pode dar um giro, ter noção de onde estão as coisas em apenas uma manhã de perambulação, talvez pegar o metrô. Mas Los Angeles é para carros. Naquela época, eu não dirigia; mesmo hoje, eu não guiaria nos Estados Unidos. Para mim, as lembranças de Los Angeles são ligadas a voltas nos carros dos outros, sem nenhum senso do desenho da cidade ou da relação entre as pessoas e o lugar. A regularidade das ruas, a repetição de estrutura e forma significam que, quando tento lembrar dela como uma entidade, tudo o que tenho é uma profusão sem limites das pequenas luzes que avistei da colina do Parque Griffith uma noite, na minha primeira viagem à cidade. Foi uma das coisas mais bonitas que já vi, daquela distância.

— Vê aquele prédio? — disse a motorista loira, amiga de Tink. Era uma casa em estilo Art Déco de tijolos vermelhos, charmosa mas bem feia.

— Sim.


— Foi construída na década de trinta — disse com respeito e orgulho.

Falei algo educado, tentando compreender a cidade na qual cinqüenta anos poderiam ser considerados muito tempo.

— Tink está entusiasmada de verdade. Quando soube que você estava na cidade, ficou muito animada.

— Estou esperando ansiosamente para revê-la.

O nome real de Tink é Tinkerbell Richmond. Não é mentira.

Ela estava morando provisoriamente com amigos num apartamento pequeno, em algum lugar a uma hora de carro de Los Angeles.

O que você precisa saber da Tink: era dez anos mais velha do que eu, trinta e poucos anos, tinha cabelo preto brilhante, lábios vermelhos e intrigantes e pele muito branca, como a da Branca de Neve dos contos de fadas. A primeira vez que a encontrei, achei que fosse a mulher mais bonita do mundo.

Tink fora casada por um tempo, em alguma fase da sua vida, e tinha uma filha de cinco anos de idade chamada Susan. Eu nunca havia encontrado Susan — quando Tink foi para a Inglaterra, Susan ficou em Seattle, com o pai.

Pessoas com o nome de Tinkerbell chamam suas filhas de Susan.

A memória é uma grande trapaceira. Talvez haja pessoas nas quais as lembranças agem como uma fita de gravação, registros diários de suas vidas completas em cada detalhe, mas eu não sou uma delas. Minhas recordações são uma colcha de retalhos de ocorrências, eventos desconexos costurados toscamente. As partes de que me lembro são precisas, enquanto outras seções parecem ter desaparecido por completo.

Eu não me recordo de ter chegado à casa da Tink, nem aonde seus colegas haviam ido.

A próxima coisa de que me lembro é estar sentado na sala da Tink, à meia-luz, os dois próximos um do outro, em seu sofá.

Conversamos um pouco. Um ano se passara desde a última vez que nos tínhamos visto. No entanto, um menino de vinte e um anos de idade tem pouco a dizer a uma mulher de trinta e um. Logo, não tendo nada em comum, puxei-a pra mim.

Ela se aninhou com uma espécie de suspiro, e apresentou seus lábios para serem beijados. À meia-luz, eles eram negros. Nós nos beijamos um pouco no sofá, segurei seus seios através da blusa, então ela disse:

— Não podemos transar. Estou menstruada.

— Tá bom.

— Posso te fazer um boquete, se quiser.

Fiz sinal com a cabeça que sim, ela abriu o zíper dos meus jeans e abaixou a cabeça sobre meu colo.

Após eu ter gozado, ela se levantou e correu até a cozinha. Escutei-a cuspindo na pia, o som da água correndo. Lembro-me de ter imaginado porque tinha feito aquilo, se odiava tanto o gosto.

Daí, voltou e sentamos perto um do outro no sofá.

— A Susan está no andar de cima, dormindo — disse Tink. — Ela é a razão da minha vida. Gostaria de vê-la?

— Tudo bem.

Subimos. Tink guiou-me pelo quarto escuro. Havia rabiscos de crianças por todas as paredes — desenhos de fadas aladas e pequenos palácios em giz de cera — e uma fadinha dormindo na cama.

— Ela é linda — disse Tink, e me beijou. Seus lábios ainda estavam um pouco pegajosos.

— Parece com o pai.

Descemos. Não tínhamos nada mais a falar, e nada mais a fazer. Tink acendeu a luz principal. Pela primeira vez, reparei os pequenos pés de galinha no canto de seus olhos, incongruentes em seu rosto de boneca Barbie,

— Te amo — disse ela.

— Obrigado.

— Quer uma carona de volta?

— Se você não se importar de deixar Susan sozinha...?

Ela deu com os ombros, e eu a puxei para mim pela última vez.

De noite, Los Angeles é toda luzes. E sombras.

Um vazio, aqui, em minha mente. Simplesmente não me lembro do que aconteceu depois. Ela deve ter me levado de volta ao lugar em que eu estava hospedado — afinal, como teria eu chegado lá? Nem mesmo lembro se dei um beijo de adeus. Talvez tenha simplesmente esperado na calçada e observado quando partiu.

Talvez.


O que realmente sei, contudo, é que cheguei ao lugar em que estava morando e por lá fiquei, incapaz de entrar, de me lavar e dormir, sem vontade de fazer nada.

Não tinha fome. Não queria álcool. Não queria ler nem falar. Tinha medo de andar para muito longe, caso me perdesse, enfeitiçado pelos ornamentos repetitivos de Los Angeles, girando sem parar, e me ferrar por não poder mais encontrar o caminho de casa. A região central de Los Angeles parece-me, algumas vezes, ser nada mais do que um padrão, como um conjunto de quadras que se repetem; um posto de gasolina, algumas casas, um mini-shopping (loja de rosquinhas, laboratório de revelação de fotos, tinturaria e pratos rápidos), que se sucedem até hipnotizar; e as pequenas diferenças servem apenas para reforçar essa estrutura.

Pensei nos lábios de Tink. Então, enfiei a mão desajeitadamente no bolso da minha jaqueta e puxei um maço de cigarros.

Acendi um, traguei, soprei a fumaça azul no ar quente da noite. Havia uma palmeira atrofiada plantada do lado de fora do lugar onde me hospedava. Resolvi caminhar, mantendo a árvore à minha vista, a fim de firmar meu cigarro, talvez até pensar, mas sentia-me muito fatigado para pensar. Sentia-me assexuado e solitário.

A uma quadra, ou mais ou menos isso, descendo a rua, havia um banco. Caminhei até lá e me sentei. Joguei a bituca do cigarro na calçada e assisti à chuva de faíscas alaranjadas.

Alguém disse:

— Eu te compro um cigarro, amigo. Toma.

A mão na frente de meu rosto segurava vinte e cinco centavos. Ergui a cabeça. Ele não parecia velho, embora eu não estivesse em condição de dizer sua idade. Quase quarenta, talvez. Quarenta e poucos. Vestia uma longa capa surrada, sem cor sob a luz amarelada dos postes de iluminação; seus olhos eram escuros.

— Toma. Vinte e cinco centavos. É um bom preço.

Meneei a cabeça, peguei o maço de Marlboro e lhe ofereci.

— Guarde seu dinheiro. É de graça. Pegue.

Pegou o cigarro. Passei-lhe uma carteia de fósforos (com o anúncio de tele-sexo, lembro-me disso), e ele o acendeu. Devolveu-me os fósforos, fiz que não com a cabeça.

— Fique com eles. Sempre acabo juntando essas cartelas de fósforo nos Estados Unidos.

— Anh-hãm. Sentou-se próximo a mim e fumou o cigarro. Quando tinha fumado metade, deu uma leve batida na extremidade acesa sobre o concreto, apagou a brasa e colocou o toco do cigano atrás da orelha.

— Eu não fumo muito — disse. — Mesmo assim, acho uma pena desperdiçar.

Um carro passou a toda velocidade pela rua, virando de um lado para o outro. Havia quatro rapazes em seu interior, os dois da frente puxavam a direção e riam. As janelas estavam abaixadas e pude escutar as risadas dos dois de trás (Gaary, seu cuzão! Mas que porra é essa que você está fazendo, cara?), e a batida pulsante de uma canção de rock. Não um que eu reconhecesse. O carro virou a esquina, saindo de vista. Logo os sons se foram também.

— Estou em débito — disse o homem no banco.

— Corno?


— Te devo uma. Pelo cigarro. E os fósforos. Você não quis o dinheiro. Te devo uma.

Dei de ombros constrangido.

— Sério, é só um cigarro. Imagino que, se der cigarros para as pessoas, quando eu ficar sem, talvez elas me dêem alguns. — Ri para mostrar que não queria realmente dizer aquilo, embora o tivesse dito. — Não se preocupe.

— Hmmm. Quer ouvir uma história? Uma história real? Histórias sempre foram um bom pagamento. Nos dias de hoje... — deu de ombros — ... nem tanto.

Sentei-me no banco, a noite estava quente, olhei no relógio: era quase uma da manhã. Na Inglaterra, um novo dia enregelado já estava começando. Um novo dia de labuta iniciava-se para aqueles que vencessem a neve e conseguissem chegar ao trabalho; uma porção de velhos e sem-teto teriam morrido à noite, de frio.

— Claro — eu disse ao homem. — Claro. Conte-me a história.

Ele tossiu, deu um largo sorriso branco, um clarão na noite, e começou.

— A primeira coisa de que me lembro foi o Verbo. E o Verbo era Deus. Algumas vezes, quando estou deprimido mesmo, lembro-me do som do Verbo em minha mente, dando-me forma, moldando-me, dando-me vida.

O Verbo deu-me corpo, deu-me olhos. Abri meus olhos e então vi a luz da Cidade Prateada.

Eu estava em meu quarto — um quarto prateado — e não havia nada no seu interior, a não ser eu mesmo. Na minha frente, uma janela que ia do piso até o teto, aberta para o céu, e, através dela, podia ver as torres da Cidade e, nos limites da Cidade, as Trevas.

Não sei quanto tempo esperei ali. Eu não estava impaciente ou coisa parecida. Lembro que era como se esperasse até que fosse chamado, e sabia que, em algum momento, o seria. E se tivesse que esperar até o fim de tudo e nunca fosse chamado, não teria o menor problema. Mas eu seria chamado, tinha certeza disso. Então, saberia meu nome e minha função.

Pela janela, eu podia ver torres prateadas e, em muitas das delas, havia janelas; e nas janelas, podia ver outros como eu. Foi assim que soube com o que me parecia.

Você pode não acreditar, vendo-me agora, mas eu era bonito. Eu decaí demais desde então.

Eu era mais alto e tinha asas.

Eram asas enormes e poderosas, com penas da cor de madrepérola. Saíam bem do meio dos meus ombros. Eram tão boas... minhas asas.

Algumas vezes, via outros como eu, aqueles que tinham deixado seus quartos, que já estavam cumprindo seus deveres. Observava-os alçarem vôo pelo céu de janela a janela, com incumbências que eu mal podia imaginar.

O céu acima da Cidade era uma coisa maravilhosa. Estava sempre claro, embora nenhum sol o iluminasse. Talvez fosse iluminado pela própria Cidade; mas a qualidade da luz estava eternamente mudando. Ora cor de estanho, depois acobreada, mais tarde um dourado delicado ou ametista, suave e tranqüila...

O homem parou de falar. Olhou para mim, sua cabeça pendendo para o lado. Havia um brilho em seus olhos que me assustou,

— Você sabe o que é ametista? Um tipo de pedra púrpura?

Fiz que sim com a cabeça.

Senti um desconforto na minha virilha.

Ocorreu-me que talvez ele não fosse louco. Achei essa idéia muito mais perturbadora do que a outra alternativa. O homem começou a falar mais uma vez.

— Não sei por quanto tempo esperei naquele quarto. Mas o tempo não significava nada. Não naquela época. Tínhamos todo o tempo do mundo.

Algo de diferente só me aconteceu quando o anjo Lúcifer entrou na minha cela. Ele era mais alto do que eu, e suas asas eram imponentes, sua plumagem perfeita e aqueles olhos acinzentados maravilhosos...

Eu digo ele, mas compreenda que nenhum de nós tinha sexo, por assim dizer. — Fez um gesto em direção ao seu colo. — Liso e vazio. Nada aqui. Sabe como é.

Lúcifer brilhava, eu juro. Ele cintilava de dentro para fora. Todos os anjos fazem isso. São iluminados nas entranhas, e em minha cela Lúcifer ardia como uma tempestade de relâmpagos.

Ele olhou para mim. E deu-me um nome. "Você é Rague”', disse ele. 'A Vingança do Senhor'. Curvei minha cabeça, pois sabia que era verdade.

Aquele era meu nome. Aquela era minha função. 'Houve... um erro', disse. 'O primeiro dessa natureza. Você se faz necessário'.

Virou-se e lançou-se ao espaço, e eu o segui, voei atrás dele pela Cidade Prateada até seus arredores, onde a Cidade acaba e forneçam as Trevas; e lá estava, debaixo de uma vasta torre prateada pela qual descemos até a rua... lá estava o anjo morto.

O corpo repousava retorcido e quebrado, sobre a calçada de prata. Suas asas estavam amassadas debaixo dele e algumas penas soltas já haviam sido sopradas para a sarjeta prateada. O corpo estava quase escuro. Vez ou outra, uma luz brilhava em seu interior, uma tremulação ocasional do fogo frio vinda de dentro do peito, dos olhos, ou da virilha assexuada, como se o último fulgor de vida o deixasse para todo o sempre.




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