FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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Encontro29.07.2016
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O sangue acumulava-se como rubi em seu peito e manchava as penas de suas asas alvas de carmesim. Era muito belo, mesmo na morte.

Era de partir o coração.

Lúcifer dirigiu-me a palavra, então: 'Você deve encontrar quem foi o responsável, descobrir como isto aconteceu e levar a Vingança do Nome a quem quer que tenha provocado esta tragédia'.

Na verdade, ele não precisava ter dito coisa alguma. Eu já sabia. Caçar e castigar: era para isso que eu fora criado, no Princípio; era exatamente o que eu era.



'Tenho trabalho a fazer', disse-me o anjo Lúcifer.

Bateu suas asas mais uma vez, com determinação, e ascendeu; a lufada de vento varreu as penas soltas do anjo morto pela rua.

Inclinei-me para examinar o corpo. Àquela altura, todas as luminescências o haviam deixado. Era uma coisa escura, uma paródia de anjo. Tinha um rosto perfeito, assexuado, emoldurado por cabelos prateados. Uma das pálpebras estava aberta, revelando um plácido olho acinzentado; a outra estava fechada. Não havia mamilos no peito e apenas uma lisura entre as pernas.

Ergui o corpo.

As costas do anjo estavam em péssimo estado; as asas, quebradas e torcidas; a parte de trás da cabeça, perfurada. Havia uma frouxidão no corpo que me fez pensar que sua espinha também fora partida. O dorso era apenas sangue.

A única mancha de sangue na frente estava na região do peito. Examinei os coágulos com o indicador, penetrei o corpo sem dificuldades.



Ele caiu, pensei. E estava morto antes de tocar o chão.

Procurei as janelas que se enfileiravam pela rua. Olhei fixamente a Cidade Prateada.



Você que fez isto, pensei. Encontrarei você, seja quem for. E levarei a você a Vingança do Senhor.

O homem apanhou a bituca do cigarro de trás da orelha, acendeu-a com um fósforo. Por um breve instante, senti o cheiro de cinzeiro do cigarro moribundo, acre e desagradável. Baixou, então, aquele tabaco não queimado, exalando uma fumaça azul no ar da noite.

— O anjo que descobriu o corpo chamava-se Phanuel.

Falei com ele no Salão da Existência. Tratava-se da torre ao lado de onde jazia o anjo morto. No Salão, pendiam as... as plantas, talvez, do que viria a ser... tudo isso. — E fez um gesto com a mão que segurava a bituca de cigarro, apontando o céu da noite, os carros estacionados e o mundo. — Entende? O universo.

Phanuel era o projetista-chefe; sob seu comando, uma multidão de anjos trabalhava nos detalhes da Criação. Observei-o do chão do Salão. Ele pendia no ar abaixo do Plano, e anjos voavam até ele, esperando educadamente em turnos enquanto faziam perguntas, conferiam coisas, incitavam comentários acerca de seus trabalhos. Finalmente, ele os deixou e desceu até o chão.

'Você é Raguel', disse. Sua voz era alta e nervosa. 'O que quer de mim?’

'Você encontrou o corpo?'

'Pobre Carasel! Realmente, fui eu que encontrei. Eu estava deixando o Salão — há um grande número de conceitos que estamos construindo no momento, e eu desejava meditar sobre um deles, chamado Arrependimento. Eu pretendia me afastar um pouco da Cidade — sobrevoá-la, quero dizer, não ir até as Trevas externas, eu não faria isso, apesar de haver menções a ... pois bem. Eu estava prestes a alçar vôo e contemplar.

Deixei o Salão, e... — calou-se, Era pequeno para um anjo. Sua luz era suave, mas seus olhos eram vívidos e brilhantes. Realmente brilhantes. 'Pobre Carasel Como pôde fazer isso a si mesmo? Como?'

'Você acha que sua destruição foi auto-infligida?'

Ele pareceu intrigado, surpreso que pudesse haver qualquer outra explicação.



'Mas é claro. Carasel estava trabalhando sob minha tutela, desenvolvendo vários conceitos que deverão ser intrínsecos ao universo quando o Nome for Proferido. Seu grupo fez um trabalho notável em alguns dos conceitos básicos — Dimensão era um deles, e Sono, outro. Havia mais'.

'Trabalho magnífico. Algumas de suas sugestões referentes ao uso de pontos de vistas individuais para definir as dimensões foram verdadeiramente inventivas.

Não importa. Ele havia começado a trabalhar em um novo projeto. Trata-se realmente de um dos principais — um daqueles de que normalmente eu me ocuparia, ou possivelmente até mesmo Zephkiel'. Ele voltou o olhar para cima. 'Mas Carasel havia feito um excelente trabalho. E seu último projeto era tão notável. Algo aparentemente trivial que ele e Saraquael elevaram a...' Ele deu de ombros. 'Mas isso não importa. Foi esse projeto que o levou a não-existência. Nenhum de nós, no entanto, poderia ter previsto...'

'Qual era seu atual projeto?'

Phanuel olhou-me fixamente.



'Não sei ao certo se devo lhe contar. Todos os novos conceitos são considerados sensíveis até lhes darmos a forma final com a qual serão Proferidos'.

Eu me senti, então, em transformação. Não sei ao certo como posso lhe explicar isso, mas, súbito, eu não era mais eu... era algo maior. Eu estava transfigurado: havia me tornado minha função.

Phanuel foi incapaz de me fitar nos olhos.

'Eu sou Raguel, aquele que é a Vingança do Senhor', disse-lhe. 'Sirvo o Nome diretamente. É minha missão descobrir a natureza deste evento e levar a punição do Nome aos responsáveis. Minhas perguntas devem ser respondidas'.

O pequeno anjo tremeu, e falou rápido.



'Carasel e seu parceiro estavam pesquisando a Morte. O cessar da vida. Um fim para a existência física e animada. Estavam compondo o processo. Mas Carasel sempre ia longe demais no seu trabalho. Tivemos um grande problema com ele quando estava projetando a Agitação. Isso foi quando estava trabalhando nas Emoções...'

'Você acha que Carasel morreu para... para pesquisar o fenômeno?'

'Ou porque isso o intrigava. Ou porque levou muito longe sua pesquisa. Sim'. Phanuel flexionou seus dedos, contemplou-me com aqueles olhos brilhantes e reluzentes. 'Eu espero que você não repita nada disso a pessoas não-autorizadas, Raguel'.

'O que você fez quando encontrou o corpo?'

'Eu saí do Salão, como disse, e lá estava Carasel na calçada, olhando fixamente para cima. Perguntei-lhe o que estava fazendo, mas não respondeu. Então, reparei no fluído interno, e que Raguel parecia incapaz, mais do que não desejoso, de falar comigo.

Eu fiquei apavorado. Não sabia o que fazer.

O anjo Lúcifer apareceu atrás de mim. Perguntou-me se havia algum problema. Eu lhe disse. Mostrei-lhe o corpo. E então... então seu Aspecto dominou-o, e ele se comungou com o Nome. Ardia tão luminosamente.

Então disse que devia buscar aquele cuja função embarca eventos como este, e partiu... à sua procura, imagino.

Como já estavam se ocupando da morte de Carasel e seu destino não era realmente do meu interesse, retomei ao trabalho, tendo ganho uma nova — e creio eu, muito valiosa — perspectiva sobre os mecanismos do Arrependimento.

Estou considerando tirar a Morte da parceria de Carasel e Saraquael. Devo reincumbir dela Zephkiel, meu parceiro-sênior, se estiver disposto a assumi-la. Ele se sobressai em projetos contemplativos.'

A essa altura, havia uma fila de anjos aguardando para falar com Phanuel. Senti que já obtivera quase tudo que poderia extrair dele.



'Com quem Carasel trabalhava? Quem foi o último a vê-lo com vida?'

'Você deveria falar com Saraquael, presumo. Afinal de contas, ele era o seu parceiro. Agora, se me der licença...'

Ele voltou a seu enxame de auxiliares: aconselhando, corrigindo, sugerindo, vetando.

O homem fez uma pausa.

A rua estava silenciosa agora, lembro-me do sussurro baixo de sua voz e do zumbido dos grilos em algum lugar. Um animal pequeno — um gato talvez, ou algo mais exótico, um guaxinim, talvez um chacal — precipitava-se de sombra em sombra entre os carros estacionados no lado oposto da rua.

— Saraquael estava no mezanino mais alto das galerias que circundavam o Salão da Existência. Como disse, o universo encontrava-se no meio do Salão. Cintilava, brilhava e reluzia. Era um bocado grande também...

— O universo que você menciona era o quê? Um diagrama? — indaguei, interrompendo-o pela primeira vez,

— Não exatamente. Mais ou menos. Quase isso. Era uma planta; mas em tamanho natural, pendendo no Salão. Todos aqueles anjos o rodeavam e o manipulavam o tempo todo. Elaboravam coisas com a Gravidade, Música, Klar e tudo mais. Não era realmente o universo. Ainda não. Seria, quando estivesse concluído e chegasse a hora de ser propriamente Nomeado.

— Mas... — Procurei palavras para expressar minha confusão. O homem interrompeu-me,

— Não se preocupe. Pense nele como um modelo, se facilitar. Ou um mapa. Ou um... qual é a palavra? Protótipo. Isso mesmo. Um Ford modelo-T do universo, — Deu um largo sorriso. — Entenda: muitas das coisas que estou contando, já estou traduzindo, colocando numa forma que você possa compreender. De outro jeito, nunca poderia contar essa história. Ainda quer ouvir?

— Claro. — Não me importava se era verdade ou não. Era uma história que eu precisava escutar até o fim.

— Bom. Então, cale a boca e ouça. Por fim, encontrei Saraquael na galeria mais elevada. Não havia mais ninguém, somente ele, alguns papéis, e uns pequenos modelos brilhantes.

'Vim por causa de Carasel', disse-lhe.

Ele se voltou para mim.



'Carasel não está no momento', respondeu. 'Espero que retorne em breve’.

Meneei a cabeça.



'Carasel não retornará. Deixou de existir como uma entidade espiritual', expliquei-lhe.

Sua luz empalideceu e seu olhos se arregalaram.



'Ele está morto?’

'Foi o que eu disse. Você faz idéia do que aconteceu?'

'Eu... isto é tão repentino. Quero dizer, ele havia falado sobre... mas eu não fazia idéia de que iria...'

'Não tenha pressa.'

Saraquael assentiu com um gesto de cabeça.

Levantou-se e caminhou até a janela. Não havia vista para a Cidade Prateada dali — apenas o reflexo do brilho da Cidade e o céu atrás de nós, pendendo no ar; além disso, as Trevas. O vento das Trevas acariciava gentilmente os cabelos de Saraquael enquanto falava. Eu olhava fixamente suas costas.

'Carasel é... não, era. É isso, não? Era. Era sempre tão envolvido. Tão criativo. Mesmo assim, para ele, nunca era o suficiente. Sempre quis entender tudo, experimentar aquilo em que trabalhava. Não se satisfazia em apenas criar, compreender intelectualmente. Queria tudo.

Antes, quando trabalhávamos nas propriedades da matéria, isso não era um problema. No entanto, quando começamos a projetar algumas das emoções Nomeadas... ele se envolveu demais.

Nosso último projeto foi a Morte. É um dos difíceis, um dos maiores também, suponho. Possivelmente poderá até mesmo tornar-se o atributo que definirá a Criação para a Criatura: Se não fosse a Morte, eles ficariam satisfeitos apenas em existir, mas, com a Morte, bem, suas vidas terão sentido, uma fronteira além da qual os vivos não podem ir..'.

'Então você acha que ele se matou?'

'Eu tenho certeza de que ele fez isso', disse Saraquael.

Andei até a janela e olhei através dela, Muito abaixo, bem distante, eu podia ver um pequeno ponto branco. Era o corpo de Carasel. Eu teria de providenciar alguém para se encarregar dele. Não imaginava o que faríamos com aquilo, mas tinha de haver alguém que soubesse, alguém cuja função fosse remover coisas indesejáveis. Não era a minha função. Disso, eu sabia.



'Como?'

Ele deu de ombros.



'Simplesmente, sei. Nos últimos tempos, ele começara a fazer perguntas... questões sobre a Morte. Como poderíamos saber se era ou não correto fazer esse tipo de coisa, estipular regras, se não as experimentássemos nós mesmos. Ele vivia falando sobre isso!

'E você não se indagava a respeito?'

Saraquael voltou-se pela primeira vez para me fitar.



'Esta é a nossa função: discutir, improvisar, ajudar a Criação e a Criatura. Estamos avaliando tudo agora a fim de que, quando Começar, funcione com perfeição. Neste momento, estamos trabalhando na Morte. Portanto, obviamente é isto que estamos abordando. Os aspectos físicos, os aspectos emocionais, os aspectos filosóficos... e os padrões. Carasel tinha a idéia de que o que fazemos aqui no Salão da Existência gera padrões. Que existem estruturas e formas apropriadas aos seres e aos eventos que, uma vez iniciadas, deverão continuar até que encontrem o seu fim. Para nós, talvez, assim como para eles. Supostamente, ele sentia que este era um dos seus padrões.'

'Você conhecia bem Carasel?’

'Tão bem quanto qualquer um de nós conhece o outro. Nós nos víamos aqui, trabalhávamos lado a lado. Em certas ocasiões, eu me recolhia à minha cela no outro lado da Cidade. Outras, ele fazia o mesmo.'

'Fale-me a respeito de Phanuel'

Sua boca torceu-se num sorriso.



'Ele é subserviente. Não faz muito; administra tudo e fica com o crédito.' Ele abaixou o tom da voz, apesar de não haver outra alma na galeria. 'Se ouvi-lo falar, pode até pensar que o Amor foi todo obra dele. Seu crédito, porém, é certificar-se de que o trabalho se realize. Zephkiel é o verdadeiro pensador entre os dois projetistas-sêniores, mas ele não vem aqui. Fica contemplando em sua cela, na Cidade; resolve problemas à distância. Quem precisa falar com Zephkiel, procura Phanuel e ele transmite suas dúvidas...'

Eu o interrompi: 'E Lúcifer? Fale-me a respeito dele.'



'Lúcifer? O Capitão da Hoste? Ele não trabalha aqui... mas visitou o Salão umas duas vezes... inspecionando a Criação. Dizem que responde diretamente ao Nome. Nunca falei com ele.'

'Ele conhecia Carasel?'

'Duvido. Como disse, ele só veio aqui duas vezes, mas eu o vi em outras ocasiões. Daqui.' Ele tremulou a ponta de uma asa, indicando o mundo fora da janela. 'Em pleno vôo.'

'Para onde?'

Saraquael parecia estar prestes a dizer alguma coisa, quando mudou de idéia. 'Eu não sei.'

Olhei peia janela as Trevas além da Cidade Prateada.

'É possível que eu queira falar com você mais tarde', disse a Saraquael.

'Muito bem.' Virei-me para ir. 'Senhor? Já sabe se me destinarão outro parceiro? Para a Morte?’

'Não', disse. 'Lamento, mas não sei.'

No centro da Cidade Prateada, havia um parque, um lugar para recreação e descanso. Lá encontrei o Anjo Lúcifer, à margem de um rio. Estava parado, contemplando a água fluir.



'Lúcifer?'

Ele inclinou a cabeça.



'Raguel. Teve progressos?'

'Não sei. Talvez. Preciso lhe fazer algumas perguntas. Você se importa?'

'De forma alguma.'

'Como você chegou ao corpo?'

'Não cheguei. Não exatamente. Eu vi Phanuel na rua. Ele parecia perturbado. Questionei-o se havia algo errado e ele me mostrou o anjo morto. Então, fui buscar você.'

'Entendo.'

Ele se curvou para baixo, pôs uma das mãos na água fria do rio. O líquido salpicava e corria em volta dela.



'Isso é tudo?'

'Não. O que você estava fazendo naquela parte da Cidade?'

'Não sei por que isso seria de sua conta.'

'Isso é de minha conta, Lúcifer. O que você estava fazendo lá?'

'Eu estava... estava caminhando. Faço isso algumas vezes. Apenas caminhar e pensar. Tentar entender.' E deu de ombros.

'Você anda nos extremos da Cidade?'

Uma leve pancada na água.



'Sim.'

É tudo que quero saber. Por ora.'



'Com quem mais você já falou?'

Com o chefe de Carasel e seu parceiro. Ambos sentem que ele se matou, deu cabo da própria vida.'

Com quem mais pretende falar?'

Olhei para o alto. As torres da Cidade dos Anjos elevavam-se acima de nós.



'Talvez com todos.'

'Todos?'

'Se for preciso. Esta é a minha função. Não posso descansar até que compreenda o que aconteceu e até que a Vingança do Nome tenha sido levada a quem for o responsável. Mas lhe digo uma coisa que realmente sei!

'O que seria?' Gotas d'água caíram como diamantes dos dedos perfeitos do Anjo Lúcifer.

'Carasel não se matou.'

'Como você sabe?'

'Eu sou a Vingança, Se Carasel tivesse morrido pelas próprias mãos', expliquei ao Capitão da Hoste Celestial, 'não haveria nenhum chamado para mim. Haveria?'

Ele não respondeu.

Alcei vôo pela luz da eterna manhã.

Você tem outro cigarro?

Retirei desajeitadamente o maço vermelho e branco, e lhe dei um cigarro,

— Obrigado. A cela de Zephkiel era maior do que a minha.

Não era uma local de espera. Era um ambiente para se viver, trabalhar, e estar. Era repleta de pergaminhos e papéis enfileirados, e havia imagens e representações nas paredes: quadros. Eu nunca vira um quadro antes.

No centro da sala, havia uma grande cadeira, e Zephkiel estava sentado nela, seus olhos fechados, a cabeça para trás.

Quando me aproximei, ele abriu os olhos.

Eles não ardiam de maneira mais resplandecente do que os olhos de qualquer outro anjo que eu houvesse visto, mas, de alguma forma, pareciam ter enxergado muito mais. Era alguma coisa no jeito de ele olhar. Não tenho certeza se posso explicar. E ele não tinha asas.



'Bem-vindo, Raguel', disse. Soava cansado.

Você é Zephkiel?'

Não sei por que lhe perguntei isso. Afinal, eu sabia quem eram as pessoas. Era parte de minha função, eu acho. Reconhecimento. Eu sei quem você é.

O próprio. Você está me encarando, Raguel. Não tenho asas, é verdade, mas, de qualquer forma, minha função não requer que eu deixe esta cela. Permaneço aqui, meditando. Phanuel apresenta relatórios para mim, traz coisas novas para eu opinar. Ele vem com problemas, eu pondero a respeito e, ocasionalmente, sou útil fazendo algumas pequenas sugestões. Esta é a minha função. Assim como a sua é a vingança.’



'Sim.'

'Você está aqui por causa da morte do Anjo Carasel?’

'Sim'

'Eu não o matei.'

Quando ele disse isso, eu soube que era verdade.



'Você sabe quem o matou?'

'Esta é a sua função, não é? Descobrir quem matou o pobre e levar a Vingança do Nome até o responsável'.

'Sim.'

Ele assentiu com a cabeça.



'O que quer saber?'

Fiz uma pausa para refletir sobre o que eu havia escutado naquele dia.



'Você sabe o que Lúcifer estava fazendo naquela parte da Cidade antes de o corpo ser encontrado?'

O velho anjo me fitou.



'Posso arriscar um palpite?'

'Sim?'

'Ele eslava caminhando nas Trevas.’

Assenti com a cabeça. Eu tinha uma forma em minha mente agora. Algo que quase podia compreender. Fiz-lhe uma pergunta.



'O que você pode me dizer sobre o Amor?'

E ele me disse. Então, achei que já tinha tudo de que precisava.

Retornei ao local onde o corpo de Carasel fora encontrado. Os restos tinham sido removidos, o sangue limpo, as penas extraviadas recolhidas e removidas. Não existia nada na calçada prateada que indicasse que ele houvesse, ao menos, estado lá.

Ascendi com minhas asas, voei para o alto até me aproximar do topo da torre do Salão da Existência. Havia uma janela lá, e entrei.

Saraquael estava trabalhando, colocando um manequim sem asas numa caixa. Ao lado dela, havia uma representação de uma criatura pequena e marrom com oito pernas. Perto dali, estava a representação de uma flor alva.

'Saraquael?'

'Hm? Ah, é você. Olá. Veja isso. Caso fosse morrer e ficar, digamos, depositado no interior da terra dentro de uma caixa, o que você preferiria que repousasse sobre você — esta aranha ou o lírio.'

'O lírio, suponho.'

'Sim, é o que penso também. Mas, por quê? Quem me dera...' Levou uma mão ao queixo, olhou fixamente os dois modelos, experimentou colocar o primeiro no alto da caixa, depois o outro. 'Há tanto por fazer, Raguel. Tanto a ajustar. E só temos uma chance, sabia? Haverá apenas um Universo. Não poderemos corrigir depois até dar certo. Eu gostaria de saber por que tudo isso é tão importante para Ele...'

Você sabe onde fica a cela de Zephkiel?’, indaguei.



'Sei. Quer dizer, nunca estive lá. Mas sei onde fica.'

'Ótimo. Vã até lá. Ele estará à sua espera. Eu o encontrarei lá.'

Ele balançou a cabeça negativamente.



'Eu tenho trabalho a fazer. Não posso simplesmente...'

Senti minha função apoderando-se de mim. Baixei meus olhos nele e disse:



'Você estará lá. Agora vá.'

Ele não disse nada. Afastou-se de mim em direção à janela, fitando-me; então, virou-se e bateu as asas, e eu fiquei sozinho.

Caminhei até o poço central do Salão e me deixei cair, desabando através do modelo do universo: ele brilhava ao meu redor, cores e formas desconhecidas, ferviam e contorciam-se sem sentido.

Conforme me aproximei do fundo, bati minhas asas, desacelerando minha queda, e pisei delicadamente no piso prateado. Phanuel estava entre dois anjos que tentavam chamar sua atenção.



'Não interessa o quanto seria esteticamente agradável', ele explicava a um deles, 'Não podemos simplesmente colocá-lo no centro. A radiação de fundo impediria qualquer forma de vida de se desenvolver. Além do mais, é muito instável.'

Virou-se para o outro.



'Certo, vamos ver. Então, isso é o Verde, não? Não é exatamente o que imaginei, mas... Mm. Deixe comigo. Volto a falar com você.' Pegou um papel do anjo, dobrou-o decididamente.

Voltou-se para mim. Seus modos eram bruscos e evasivos.



'Sim.'

'Preciso falar com você.'

'Mm? Mas seja rápido. Tenho muito a fazer. Se é sobre a morte de Carasel, já lhe disse tudo o que sei.'

'É a respeito da morte de Carasel, mas não tratarei do assunto agora. Não aqui. Vá até a cela de Zephkiel: ele está à sua espera. Eu os encontrarei lá.'

Ele parecia prestes a dizer algo, mas apenas assentiu com a cabeça, e caminhou em direção à porta.

Voltei-me para partir quando algo me ocorreu. Parei o anjo que tinha o Verde.

'Diga-me uma coisa.'

'Se eu puder, senhor'

'Essa coisa', apontei para o universo, 'para que servirá?'

'Para quê?. Ora, é o Universo.'

'O nome, eu já sei, mas qual o seu propósito?'

Ele franziu a testa.



'Faz parte do plano. O Nome assim deseja. Ele requer isto e aquilo, nestas e naquelas dimensões e com tais e quais propriedades e ingredientes. É nossa função promover sua existência, de acordo com Seus desígnios. Com certeza, Ele sabe a função, mas não a revelou a mim.' Seu tom de voz era de uma repreensão gentil.

Assenti com a cabeça e deixei o local.

Bem no alto, acima da Cidade, uma falange de anjos rodopiava, circulava e mergulhava. Cada um empunhava uma espada flamejante que deixava um rastro de ardente resplendor, deslumbrante aos olhos. Moviam-se em uníssono pelo céu rosa-salmão. Eram muito bonitos. Sabe nas noites de verão, quando bandos de pássaros executam suas danças no céu? Entrelaçando-se, circulando, unindo-se e separando-se novamente, então, quando você pensa que entendeu o padrão, percebe que não entendeu e que nunca entenderá? Era desse jeito, mas melhor.




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