FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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Acima de mim estava o céu. Abaixo, a Cidade fulgurante. Meu lar. E além dela, as Trevas.

Lúcifer flutuava um pouco abaixo da Hoste, assistindo às suas manobras.

'Lúcifer?'

'Sim, Raguel? Descobriu o malfeitor?'

'Acho que sim. Quer me acompanhar até a cela de Zephkieí? Há outros à nossa espera lá e eu explicarei tudo.'

Ele fez uma pausa. Então:



'Certamente.’

Ergueu sua face perfeita aos anjos que executavam uma lenta revolução no céu, cada um se movendo pelo ar em ritmo perfeito com o próximo. Nenhum deles jamais se tocava.



'Azazel!'

Um anjo deixou o círculo, os demais ajustaram-se quase imperceptivelmente à sua ausência, preenchendo o espaço, de forma que jamais se poderia dizer onde ele havia estado.



'Tenho de sair. Você está no comando, Azazel. Mantenha todos em exercício. Ainda há muito o que se aperfeiçoar!

'Sim, senhor.'

Azazel pairou onde Lúcifer estivera, fitando a revoada de anjos. Lúcifer e eu descemos rumo à Cidade.



'Para que você os treina?'

'Guerra.'

'Contra quem?'

'Como assim?'

'Contra quem vocês vão lutar? Quem mais está lá?'

Ele olhou para mim, seus olhos estavam claros e honestos.



'Não sei ao certo, mas Ele nos Nomeou para sermos Seu exército. Entãu, seremos perfeitos. Por Ele. O Nome é infalível, todo imparcial e todo sábio, Raguel. Haja o que houver, não pode ser de outra...'

Ele se interrompeu e desviou o olhar.



'Você estava para dizer?'

'Nada de importante.'

Nós não falamos mais pelo resto da descida até a cela de Zephkiel.

Olhei no meu relógio, eram quase três. Uma hrisa congelante começara a soprar na rua de Los Angeles e senti um calafrio. O homem percebeu, fez uma pausa em sua história.

— Você está bem? — perguntou ele.

— Estou. Por favor, continue. Estou fascinado.

Ele assentiu com a cabeça.

— Estavam esperando por nós na cela de Zephkiel: Phanuel, Saraquael e Zephkiel. Este estava sentado em sua cadeira. Lúcifer tomou posição ao lado da janela.

Andei até o centro da sala e comecei.



'Agradeço a todos por estarem aqui. Vocês sabem quem sou; conhecem minha função. Sou a Vingança do Nome, o braço do Senhor. Sou Raguel.

O anjo Carasel está morto. Foi-me incumbida a tarefa de descobrir por que foi morto e quem o matou. Foi o que fiz. O anjo Carasel foi um projetista do Salão da Existência. Era muito bom pelo que me disseram...

Lúcifer. Diga-me o que estava fazendo antes de chegar a Phanuel e ao corpo.'

'Já disse. Estava caminhando.'

'Onde você estava caminhando?'

'Não vejo por que isso seria de sua conta.'

'Diga-me.'

Ele fez uma pausa. Era mais alto do que qualquer um de nós, alto e orgulhoso.



'Muito bem. Eu estava andando pelas Trevas. Tenho caminhado pelas Trevas faz algum tempo. Isso me ajuda a ter uma perspectiva da Cidade — por estar fora. Vejo como é justa, como é perfeita. Não existe nada mais encantador do que o nosso lar. Nada mais completo. Nenhum lugar onde alguém jamais gostaria de estar.'

'E o que você faz nas Trevas, Lúcifer?'

Ele me fitou.



'Eu caminho. E... há vozes nas Trevas. Eu as ouço. Elas me prometem coisas, fazem perguntas, sussurram e suplicam. Eu as ignoro. Fortaleço-me mais e fito a Cidade. É a única maneira que tenho para me testar: colocar-me perante qualquer tipo de provação. Sou o Capilão da Hoste; sou o primeiro entre os Anjos e devo pôr-me à prova.'

Assenti com a cabeça.



'Por que não me disse isso antes?’

Ele olhou para baixo.



'Porque sou o único anjo que caminha pelas Trevas. Porque não quero que outros vagueiem por lá: sou forte o suficiente para desafiar as vozes, para me testar. Os outros não são tão fortes. Os demais podem pisar em falso ou cair.'

'Obrigado, Lúcifer. Por ora, é tudo'

Voltei-me para o próximo anjo.



'Phanuel há quanto tempo você leva crédito pelo trabalho de Carasel?’

Ele abriu a boca, mas não emitiu som algum.



'Responda!'

'Eu... Eu não assumiria o crédito pelo trabalho de outro.'

'Mas você fez isso com o Amor?'

Ele piscou.



'Sim, fiz mesmo.'

'Importa-se de nos explicar o que é o Amor?'

Ele olhou ao redor com certo desconforto.



'É um sentimento de profunda afeição e atração por outro ser, freqüentemente combinado com paixão ou desejo — uma necessidade de estar com o outro.'

Falou de forma seca e didática como se estivesse recitando uma fórmula matemática.



'O sentimento que temos pelo Nome, nosso Criador, isso é o Amor... entre outras coisas. O Amor será um impulso que inspirará e arruinará na mesma medida. Nós estamos...' Ele fez uma pausa, então começou a falar mais uma vez. 'Nós estamos muito orgulhosos.'

Ele estava proferindo as palavras. Não parecia mais ter qualquer esperança de que acreditássemos nelas.

Quem fez a maior parte do trabalho do Amor? Não, não responda. Deixe-me perguntar aos outros primeiro. Zephkiel? Quando Phanuel passou-lhe os detalhes sobre o Amor para sua aprovação, quem foi que ele disse ser responsável pelo trabalho?’

O anjo sem asas sorriu gentilmente.



'Ele me disse que o projeto era seu,'

'Obrigado, senhor. Agora, Saraquael: de quem era o Amor?’

'Meu. Meu e de Carasel. Talvez mais dele do que meu, mas nós trabalhamos juntos nisso.'

Você sabia que Phanuel estava reclamando crédito por ele?'



'... Sim.'

'E você permitiu?'

'Ele... ele prometeu que nos daria um bom projeto para realizarmos. Prometeu que, se nós não disséssemos nada, receberíamos projetos ainda maiores... e cumpriu com sua palavra. Ele nos deu a Morte.'

Voltei-me para Phanuel.



'Bem?'

'É verdade. Eu reivindiquei o Amor como meu.'

'Mas era de Carasel. E de Saraquael.'

'Sim.'

'O último projeto dos dois... antes da Morte?'

'Sim.'

'Isso é tudo.'

Caminhei até a janela, olhei para as torres prateadas, contemplei as Trevas e comecei a falar.



'Carasel era um projetista notável. Se tinha uma falha, esta era a de se atirar muito profundamente no trabalho.' Voltei-me a eles. O anjo Saraquael tinha calafrios, e luzes tremeluziam sob sua pele. 'Saraquael? Quem Carasel amava? Quem foi seu amante?'

Ele fitou o chão. Então, olhou para cima, tomado de um orgulho agressivo. E sorriu.



'Eu.'

'Quer me falar a respeito?'

'Não.' Deu de ombros. 'Mas suponho que deva. Que assim seja. Nós trabalhávamos juntos. E, quando começamos a trabalhar no Amor... nós nos tornamos amantes. Foi idéia dele. Nós íamos à sua cela sempre que conseguíamos um breve intervalo. Lá, nós nos tocávamos, nos abraçávamos, sussurrávamos palavras carinhosas e afirmações de eterna devoção. Seu bem-estar era mais importante do que o meu. Eu existia para ele. Quando estava só, repetia seu nome para mim mesmo e não pensava em nada mais a não ser nele. Quando estava com ele...'

Fez uma pausa. Olhou para baixo.



'Nada mais importava.'

Caminhei até onde Saraquae! estava, ergui seu queixo com minha mão, fitei seus olhos cinzentos.



'Então por que você o matou?'

'Porque ele não me amava mais. Quando começamos a trabalhar na Morte ele... ele perdeu o interesse. Não era mais meu. Pertencia à Morte. E, se eu não poderia tê-lo, então, seu novo amante o acolheria. Eu não podia suportar sua presença... nem tolerar tê-lo tão perto e saber que não sentia nada por mim. Era isso o mais sofrido. Pensei... tinha esperanças... de que, se desaparecesse, eu não me importaria mais com ele, que a dor cessaria.

Então, eu o matei. Apunhalei-o e joguei seu corpo de nossa janela no Salão da Existência. Mas a dor não cessou.' Sua voz era quase um lamento.

Saraquael levantou-se e tirou minha mão de seu queixo.



'E agora?'

Senti meu aspecto começar a me tomar; senti minha função possuir-me. Eu já não era mais um indivíduo era a Vingança do Senhor.

Movi-me para perto de Saraquael e o abracei. Pressionei meus lábios contra os de!e, forcei minha língua dentro de sua boca. Nós nos beijamos. Ele cerrou os olhos.

Senti brotar dentro de mim uma incandescência, um brilho. Do canto de meus olhos, pude ver Lúcifer e Phanuel desviando seus rostos da minha luz e sentir Zephkiel fitando-me. Minha luz tornou-se cada vez mais clara até que irrompeu... de meus olhos, de meu peito, de meus dedos, de meus lábios: um fogo branco cauterizante.

As chamas alvas consumiram Saraquael lentamente, e ele se agarrou a mim enquanto ardia.

Logo não restava mais nada dele. Absolutamente nada.

Senti a chama me deixar. Então, voltei a mim mesmo uma vez mais.

Phanuel soluçava. Lúcifer estava pálido. Zephkiel sentado em sua cadeira olhava-me silencioso. Voltei-me para Phanuel e Lúcifer,



'Vocês testemunharam a Vingança do Senhor', disse-lhes. 'Que seja um alerta para ambos.'

Phanuel assentiu com a cabeça.



'E foi. Oh, isso foi. Eu... Eu vou tomar meu rumo, senhor. Retornarei ao posto que me foi designado. Se estiver do seu agrado.'

'Vá.'

Trôpego, ele caminhou até a janela e saltou para a luz, suas asas batiam enfurecidas.

Lúcifer aproximou-se do local em que Saraquael estivera. Ajoelhou-se, fitou com desespero o chão como se tentasse encontrar algum resto do anjo que eu havia destruído, um fragmento de cinza, um osso ou uma pena chamuscada, mas não havia nada para se encontrar. Então, ergueu os olhos para mim.

'Isso não é certo’, disse. 'Não é justo.' Ele chorava; lágrimas grossas corriam pelo seu rosto. Talvez Saraquael tenha sido o primeiro a amar, mas Lúcifer foi o primeiro a derramar lágrimas. Nunca me esquecerei disso.

Fitei-o impassivo.



'Isto foi justiça. Ele matou outro ser. Foi morto por sua vez. Você me chamou para minha função, e eu a desempenhei.'

'Mas... ele amava. Deveria ter sido perdoado. Deveria ter sido ajudado. Não deveria ter sido destruído dessa forma. Isso é errado.'

'Foi a vontade Dele.'

Lúcifer parou.



'Pois, então, a vontade Dele é injusta. Talvez, afinal de contas, as vozes das Trevas digam a verdade. Como isso pode estar certo?’

'Está certo. É a vontade Dele. Eu simplesmente desempenhei minha função.'

O belo anjo enxugou as lágrimas com o dorso da mão.



'Não.' Disse categoricamente. Fez uma lenta negativa com a cabeça, de lado a lado. Então, disse: 'Devo pensar sobre isso. Irei agora'

Andou até a janela, deu um passo em direção ao céu e partiu. Zephkiel e eu estávamos a sós na cela. Fui até sua poltrona. Ele meneou a cabeça afirmativamente.



'Você exerceu bem sua função, Raguel. Não deveria voltar a sua cela e aguardar até que se faça necessário novamente?'

O homem no banco virou-se para mim: seus olhos procuraram os meus. Até agora parecia, na maior parte de sua narrativa, que mal me notava, fitava adiante, sussurrando seu conto num tom beirando a monotonia. Agora parecia haver-me descoberto. Falava agora só comigo e não ao léu ou à Cidade de Los Angeles. Então, disse:

— Eu sabia que ele estava certo, mas não poderia partir naquele momento, mesmo que quisesse. Meu aspecto não havia me deixado inteiramente, minha função não estava concluída. Então, tudo se encaixou; vi o quadro inteiro como um todo. Tal qual Lúcifer, ajoelhei-me. Levei minha testa ao chão de prata.

'Não, Senhor. Ainda não.'

Zephkiel levantou-se da poltrona.



'Levante-se. Não fica bem um anjo agir deste modo diante de outro. Não é correto. Levante-se!'

Fiz que não com a cabeça. 'Pai, o Senhor não é um anjo', sussurrei.

Zephkiel nada respondeu. Por um momento, meu coração ficou apreensivo. Tive medo.

Pai, fui incumbido de descobrir o responsável pela morte de Carasel. Agora sei.'

Você teve a sua Vingança, Raguel.'

'A Sua Vingança, Senhor.'

Então, suspirou e se sentou novamente.



'Ah, pequeno Raguel. O problema de se criar coisas é que elas funcionam melhor do que se havia planejado. Posso indagar como me reconheceu?'

'Eu... Eu não tenho certeza. O Senhor não tem asas. Permanece no centro da Cidade, supervisionando diretamente a Criação. Quando destruí Saraquael, não desviou o olhar. Sabe de muitas coisas. O Senhor...' Fiz uma pausa e pensei. 'Não, de fato, não sei como sei. Como disse, o Senhor me criou bem. Mas só compreendi quem o Senhor era e o significado desse drama que atuamos em seu Nome quando Lúcifer partiu.'

'O que você compreendeu, minha criança?'

'Quem matou Carasel. Ou, ao menos, quem manipulava as cordas. Por exemplo, quem arranjou para que Carasel e Saraquael trabalhassem juntos no Amor, sabendo das tendências de Carasel em se envolver profundamente com o trabalho?'

Ele falava comigo suavemente, quase zombeteiro, como se um adulto fingisse conversar a sério com uma criancinha.



'E por que alguém manipularia as cordas, Raguel?'

'Porque nada ocorre sem razão, e todas as razões são Suas. O Senhor controlou Saraquael. É verdade. Ele matou Carasel mas cometeu esse crime para que eu pudesse destruí-lo.'

'E você errou em destruí-lo?'

Eu fitei Seus olhos muito, muito velhos. 'Esta é minha função, mas realmente não achei justo. Acho que talvez isso fosse necessário — destruir Saraquael de forma a mostrar a Lúcifer a Injustiça do Senhor.'

Então, Ele sorriu. 'Qual motivo teria eu para fazer isso?'

'Eu... eu realmente não sei. Realmente não compreendo, não mais do que entendo porque o Senhor criou as Trevas e as Vozes das Trevas. Mas o Senhor o fez. E levou tudo a acontecer.'

Ele assentiu com a cabeça. 'Sim. Tem razão. Lúcifer terá de remoer a injustiça da destruição de Saraquael. Isto, entre outras coisas, deve incitá-lo a certas ações. Pobre e doce Lúcifer. Seu caminho será o mais difícil de todos os meus filhos; pois existe uma função que desempenhará no drama que está por vir, e é um grande papel!’

Permaneci ajoelhado diante do Criador de Todas as Coisas.

'O que fará agora, Raguel?’, indagou-me.

'Devo retornar à minha cela, Minha função foi cumprida. Levei a Vingança e revelei o perpetrador. Isso é o suficiente. Mas... Senhor... ?'

'Sim, minha criança.'

'Eu me sinto sujo. Sinto-me imundo. Maculado. Talvez seja verdade que tudo o que acontece está de acordo com a Sua vontade e, portanto, é bom. No entanto, em algumas ocasiões, o Senhor deixa sangue nos seus instrumentos.’

Ele meneou a cabeça afirmativamente, como se concordasse comigo.



'Se desejar, Raguel, poderá esquecer tudo. Refiro-me ao que aconteceu neste dia.' Então, disse: 'Entretanto, não poderá falar a respeito com qualquer outro anjo, quer opte por lembrar ou não.’

'Eu me lembrarei.’

A decisão é sua, mas haverá ocasiões em que você julgará mais fácil não se lembrar. O esquecimento, algumas vezes, concede, de certa forma, a liberdade.’



'Agora, se não se importa', Ele se curvou, tomou um arquivo de uma pilha no chão e abriu, 'tenho trabalho a fazer.’

Levantei-me e caminhei até a janela. Tive esperança de que Ele me chamasse de volta, explicasse todos os detalhes de Seu plano e, de alguma forma, fizesse a dor passar. Mas não. Ele não disse nada, e eu deixei Sua Presença sem olhar para trás.

O homem estava quieto, agora. E permaneceu em silêncio eu não podia nem ao menos ouvir sua respiração , por tanto tempo que comecei a ficar nervoso, pensando que talvez tivesse adormecido ou morrido. Então, levantou-se,

— E é isso aí, amigo. Esta foi a sua história. Acha que vale dois cigarros e uma carteia de fósforos? — fez a pergunta como se, sem ironia, realmente importasse.

— Claro — respondi. — Vale, sim. Mas o que aconteceu depois? Como você... quer dizer... — e, então, me calei.

Estava escuro na rua, à beira do amanhecer. Uma a uma, as lâmpadas de iluminação da rua começaram a tremeluzir, e ele tinha sua silhueta desenhada contra o brilho da aurora. Enfiou suas mãos nos bolsos.

— O que aconteceu? Saí de casa, perdi-me, e hoje em dia o lar está muito distante. Às vezes, a gente faz coisas de que se arrepende, mas não se pode fazer nada a respeito. Os tempos mudam. Portas se fecham. A gente prossegue. Entende? Por fim, acabei aqui. Outrora, diziam que ninguém era originalmente de Los Angeles. No meu caso, é a mais pura verdade.

Então, antes que eu pudesse compreender o que ele estava fazendo aproximou-se de mim e me beijou, com delicadeza, na face. Sua barba por fazer alfinetava, mas seu hálito era surpreendentemente doce. Sussurrou em meu ouvido:

— Eu jamais caí. Não me importa o que digam. Ainda estou fazendo meu trabalho pelo que eu entendo.

Minha face ardeu onde ele encostou os lábios. Pôs-se, então, de pé.

— Mas ainda quero ir para casa.

O homem afastou-se pela rua escura, sentei no banco e o observei partir. Senti-me como se ele tivesse tirado algo de mim, embora não pudesse mais lembrar o quê. E sentia que algo havia sido deixado no lugar absolvição, talvez, ou inocência, embora eu não possa mais dizer absolvição de quê.

Uma imagem de algum lugar: desenhos feitos com rabiscos de dois anjos em pleno vôo sobre uma cidade perfeita; e, sobre a imagem, a impressão perfeita da mão de uma criança, que mancha um papel alvo de vermelho-sangue. Isso veio à minha mente de modo irrestrito, e eu não sei mais o que significa.

Levantei-me.

Estava muito escuro para ver o meu relógio, mas eu sabia que não dormiria aquele dia. Caminhei de volta ao lugar onde estava hospedado, até a casa da palmeira atrofiada, para me lavar e esperar. Pensava em anjos e em Tink; pensava se amor e morte andam de mãos dadas.

No dia seguinte, os aviões para a Inglaterra estavam voando novamente.

Senti-me estranho. A falta de sono havia me arrastado àquele lastimável estado no qual tudo parece esmaecido e de igual valor, quando nada importa e a realidade apresenta-se tênue e puída. A viagem de táxi até o aeroporto foi um pesadelo. Eu estava com calor, cansado e incomodado. Vestia uma camiseta no calor de Los Angeles; meu casaco estava no fundo da bagagem, onde havia permanecido durante toda a minha estadia.

O avião estava cheio, mas nem percebi.

A aeromoça andava pelo corredor com um carrinho de jornais: o Herald Tribune, USA Today e o L.A. Times. Peguei um exemplar do Times, mas as palavras deixavam minha mente assim que meus olhos as abandonavam. Nada do que eu lia era retido. Não, eu minto. Em algum canto do jornal, havia a reportagem de um triplo assassinato: duas mulheres e uma criança pequena. Nenhum nome foi dado e não sei por que o artigo registrara o fato daquela maneira.

Logo adormeci. Sonhei que estava trepando com Tink, enquanto sangue escorria lentamente de seus olhos e lábios fechados. O sangue era frio e viscoso. Acordei com muito frio por causa do ar-condicionado do avião, tomado por um gosto desagradável na boca. Minha língua e lábios estavam secos. Olhei para fora da janela oval, fitei as nuvens e me ocorreu, então (não pela primeira vez), que as nuvens eram, na realidade, outro território, onde todos sabiam bem o que estavam procurando e como retornar ao lugar de onde vieram.

Fitar as nuvens é uma das coisas de que mais gosto quando vôo. Isto e a proximidade que se sente da morte.

Enrolei-me num cobertor e dormi um pouco mais, mas, se tive outros sonhos, não deixaram impressão alguma.

Uma nevasca caiu pouco depois que o avião pousou na Inglaterra, cortando o fornecimento de energia elétrica do aeroporto. Eu estava só num elevador, que escureceu e emperrou entre dois andares. Uma luz de emergência fraca tremeluziu. Pressionei o botão de alarme vermelho até que a bateria arriou e parou de soar. Tremi de frio, então, só com minha camiseta de Los Angeles, no canto da minha pequena sala prateada. Assisti à minha respiração formar vapor no ar e me abracei a fim de me aquecer.

Não havia nada ali além de mim, mas ainda assim, senti-me seguro e a salvo. Em breve, alguém apareceria e forçaria as portas. Por fim, alguém me permitiria sair; e eu sabia que logo estaria em casa.

NEVE, VIDRO E MAÇÃS
Eu realmente não sei que tipo de coisa ela é. Nenhum de nós sabe. Ela matou sua mãe no parto, mas isto não dá conta de descrevê-la.

Todos me consideram sábia, mas estou longe de corresponder a este perfil, apesar dos fragmentos que previ, dos momentos congelados em poças d'água ou no vidro frio do meu espelho. Se eu fosse sábia, não teria tentado alterar o que vi. Se fosse sábia, teria me matado antes mesmo de tê-la encontrado, antes mesmo de tê-lo atraído.

Sábia e feiticeira, era o que diziam. Eu havia visto sua face em sonhos e reflexos durante toda a minha vida: dezesseis anos sonhando com sua imagem antes de ele deter o passo de seu cavalo junto à ponte naquela manhã e perguntar meu nome. Ele me ajudou a subir em seu grande garanhão, e juntos cavalgamos até minha pequena choupana, meu rosto enterrado no dourado de seus cabelos. Ele pediu o melhor que eu tinha a oferecer; era o direito de um rei.

Sua barba era vermelho-bronze à luz da manhã, e eu o conhecia, não como um rei, pois nada sabia de reis então, mas como meu amor. Ele tomou tudo que quis de mim, o direito dos reis, mas voltou a mim no dia seguinte e na noite posterior: a barba tão vermelha, os cabelos tão dourados, os olhos do azul do céu de verão, a pele bronzeada do suave marrom do trigo maduro.

Sua filha era apenas uma criança: não mais do que cinco anos de idade quando cheguei ao palácio. O retrato da mãe morta pendia no quarto da princesa na torre: uma mulher alta, cabelos da escura cor da madeira, olhos castanhos amendoados. Ela era de uma estirpe diferente da de sua pálida filha.

A menina não comia conosco.

Eu não sei realmente onde ela comia.

Eu possuía meus próprios aposentos. Meu marido, o rei, também tinha os seus. Quando me desejava, mandava-me chamar. Eu ia a ele, e o satisfazia, e ele me satisfazia em troca.

Uma noite, vários meses após eu ter chegado ao palácio, ela veio aos meus aposentos. Tinha seis anos. Eu estava bordando perto da lamparina, forçando meus olhos contra a fumaça da lâmpada e da iluminação intermitente.

Quando ergui a cabeça, lá estava ela.

— Princesa?

Ela nada respondeu. Seus olhos eram negros como carvão, negros como seus cabelos; os lábios eram mais vermelhos do que sangue. Olhou para mim e sorriu. Seus dentes pareciam afiados, mesmo à luz dos lampiões.

— O que você está fazendo longe de seu quarto?

— Eu estou com fome — disse, como qualquer criança.

Era inverno, quando comida fresca é um sonho de calor e luz do sol, mas eu tinha meadas de maçãs inteiras, descaroçadas e secas, pendendo das vigas de meu aposento; apanhei uma para ela.

— Tome.


O outono é tempo de seca, de preservar, uma época de apanhar maçãs, derreter a gordura de ganso. O inverno é tempo de fome, de neve e de morte; e é a época da celebração de meados do inverno, quando esfregamos a banha de ganso na pele de um porco inteiro, forrado com as maçãs do outono, e, então, o assamos, no forno ou em espetos, e preparamo-nos para banquetear juntos ao crepitar das chamas.

Ela tomou a maçã seca de minhas mãos e se pôs a mastigá-la com seus dentes amarelos e afiados.




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