FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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— Está gostoso?

Ela assentiu com a cabeça. Sempre tive medo da pequena princesa, mas, naquele momento, senti afeição por ela e, com meus dedos, gentilmente, toquei-lhe as faces. Ela olhou para mim e sorriu ela sorria, mas raramente então, afundou seus dentes na base de meu polegar, no Monte de Vênus, e arrancou sangue.

Comecei a gritar de dor e de surpresa. Todavia, ela olhou para mim e me calei.

A pequena princesa firmou sua boca em minha mão e, então, lambeu, sugou e bebeu. Quando terminou, deixou meu aposento. Ante meu olhar, o corte que ela fizera começou a se fechar, formar casca e cicatrizar. No dia seguinte, já era uma antiga cicatriz: podia ter cortado minha mão com um canivete na infância.

Eu havia sido congelada por ela, possuída e dominada. Aquilo me aterrorizou, mais do que o sangue de que a menina havia se alimentado. Após aquela noite, eu trancava a porta de meus aposentos ao entardecer, obstruindo-a com um mastro de carvalho. Ordenei, também, ao ferreiro que forjasse barras de ferro, que ele fixou em minhas janelas.

Meu marido, meu amor, meu rei, convocava-me cada vez menos, e, quando eu comparecia, ele estava aturdido, apático e confuso. Já não podia mais fazer amor como um homem e não me permitia satisfazê-lo com a boca: a única vez que tentei, ele se sobressaltou violentamente e pôs-se a chorar. Afastei minha boca e o abracei com firmeza até que tivesse parado de soluçar. Então, ele adormeceu como uma criança.

Corri meus dedos por sua pele enquanto dormia. Ela estava coberta por uma infinidade de antigas cicatrizes. No entanto, eu não podia me lembrar de nenhuma delas desde os dias em que me fez a corte, salvo uma, nos flancos, onde um javali o ferira ainda jovem.

Logo, tornou-se a sombra do homem que eu conhecera e amara junto à ponte. Seus ossos agora estavam à mostra, azuis e brancos, por baixo da pele. Eu permaneci ao seu lado no fim: suas mãos frias como pedra, seus olhos azul-leitosos, seus cabelos e barba escassos e sem lustro. Morreu sem tremer, sua pele mordiscada e tomada da cabeça aos pés por pequeninas e antigas cicatrizes.

Ele pesava quase nada. O chão estava congelado e duro. Não pudemos lhe cavar uma sepultura. Então, fizemos um marco com rochas e pedras sobre seu corpo, como um memorial apenas, pois havia muito pouco de seu organismo para proteger da fome das feras e dos pássaros.

Então, eu me tornei rainha.

E eu era tão tola e jovem dezoito primaveras haviam se passado desde a primeira vez que o sol me banhou — e não fiz o que faria agora.

Se fosse hoje, faria com que o coração dela fosse arrancado, acredite. Mas depois ordenaria que decepassem sua cabeça, braços e pernas.

Teria exigido que a estripassem. Só então, assistiria, em praça pública, ao carrasco atiçar as chamas com fole, a fim de acompanhar sem piscar cada porção de seu corpo arder no fogo. Ainda posicionaria arqueiros ao redor da praça, para que alvejassem qualquer pássaro ou animal que se acercasse das labaredas, qualquer corvo, cachorro, gavião ou rato, E não cerraria meus olhos até que a princesa fosse reduzida a cinzas, e um vento suave a espalhasse como neve.

Eu não fiz isto, e nós pagamos por nossos erros.

Dizem que fui enganada; que aquele não era seu coração. Que era o coração de um animal — um cervo, talvez, ou um javali. Dizem, e estão enganados.

Outros afirmam (mas trata-se de mentira dela, não minha) que me foi dado o coração, e que eu o devorei. Mentiras e meias-verdades precipitam como neve, cobrindo as coisas de que me lembro, aquilo que eu vi; uma paisagem, irreconhecível depois de uma nevasca. Eis o que ela fez de minha vida.

Havia cicatrizes em meu amor, nas coxas de seu pai e no membro viril dele, quando morreu.

Eu não os acompanhei. Ela foi apanhada de dia, enquanto dormia e estava enfraquecida. Levaram-na ao coração da floresta, lá abriram sua blusa, cortaram seu coração e a deixaram morta, num barranco, para que a floresta a tragasse.

A floresta é um lugar sombrio, a fronteira de muitos reinos. Ninguém seria tolo o bastante para reclamar posse sobre ela. Foras-da-lei vivem lá. Ladrões habitam a floresta, bem como os lobos. Pode-se cavalgar através de suas trilhas uma dúzia de dias e, em momento algum, ver vivalma; mas há olhares atentos o tempo todo.

Trouxeram-me seu coração. Sei que lhe pertencia — nenhum coração de porca ou corça continuaria a bater e pulsar após ter sido arrancado, como aquele fazia.

Levei-o até meus aposentos.

Não o comi. Pendurei-o na viga acima de minha cama. Coloquei-o num cordel onde esticava sorvas, alaranjadas como o peito de um estorninho, com bulbos de alho.

Lá fora, a neve caía, cobrindo as pegadas dos meus caçadores, revestindo seu pequenino corpo na floresta onde jazia.

Ordenei ao ferreiro que removesse as barras de ferro das janelas e passei algum tempo no meu quarto nas tardes dos breves dias de inverno, fitando a floresta, até a escuridão cair.

Havia, como declarei, pessoas na floresta. Algumas emergiam de seu seio para a Feira da Primavera: criaturas gananciosas, bravias, perigosas; muitas eram atrofiadas: anões, anãs e corcundas; outras tinham dentes enormes e olhares vazios de idiotas; um tanto portava dedos como barbatanas ou garras de caranguejos. Esgueiravam-se para fora da floresta a cada ano a fim de tomar parte da Feira da Primavera, realizada quando a neve se derretia.

Quando jovem, eu trabalhara na feira, e essa gente da floresta me assustava. Eu lia a sorte dos freqüentadores, contemplando o futuro numa poça de águas tranqüilas; mais tarde, quando mais velha, num disco de vidro polido, de revés inteiramente prateado. Tratava-se do presente de um mercador cujo cavalo extraviado eu vira numa poça de tinta.

Os proprietários das barracas tinham medo da gente da floresta. Pregavam suas mercadorias nas tábuas nuas das suas bancas — grossas fatias de pão de gengibre ou cintos de couro eram afixados com enormes cravos de ferro na madeira. Caso seus produtos não fossem cravados, diziam, as criaturas da floresta tomariam-nos e fugiriam, mastigando o pão de gengibre roubado, protegidos pelos golpes das chibatas.

Entretanto, o povo da floresta tinha dinheiro: uma moeda aqui, outra acolá, algumas esverdeadas pelo tempo ou pela terra, suas efígies desconhecidas até mesmo dos mais velhos de nós. Também traziam coisas para comerciar, e assim a feira continuava, servindo a párias e anões, acolhendo ladrões (caso fossem discretos) dispostos a saquear os raros viajantes das terras além da floresta, os ciganos ou os cervos. (Aos olhos da lei, isto também era roubo. Os cervos pertenciam à rainha.)

Os anos avançaram lentamente, e meu povo afirmava que eu reinava com sabedoria. O coração ainda pendia acima da minha cama, pulsando suavemente à noite. Se houve alguém que chorou pela criança, não vi evidência alguma. Ela era algo de aterrador e todos deram graças por se verem livres da ameaça.

Uma Feira da Primavera seguiu-se à outra; cinco delas, cada uma mais triste, lamentável e de pior qualidade do que a anterior. Cada vez menos habitantes da floresta vinham fazer compras. Aqueles que davam o ar da graça pareciam indiferentes e apáticos. Os feirantes deixaram de pregar suas mercadorias nas tábuas das suas bancas. No quinto ano, um punhado de pessoas emergiu da floresta — uma mixórdia assustada de pequenos homens peludos, e ninguém mais.

O Mestre da Feira e sua pajem vieram a mim quando a feira encerrou-se. Eu o havia conhecido, antes de ser rainha.

— Eu não venho à sua presença por ser rainha — disse ele. Nada falei. Ouvi.

— Venho porque a senhora é sábia — prosseguiu. — Quando criança, encontrou um potro extraviado ao fitar uma poça de tinta; quando donzela, achou uma criança que havia se desgarrado de sua mãe ao contemplar aquele seu espelho. A senhora conhece segredos e pode localizar coisas perdidas. Minha rainha — indagou ele — o que está afugentando o povo da floresta? No próximo ano, não haverá Feira da Primavera. Os viajantes de outros reinos tornaram-se escassos e infreqüentes, a gente da floresta está quase desaparecida. Outro ano como este e todos morreremos de fome.

Eu ordenei à minha criada que trouxesse meu espelho. Era um objeto singelo, um disco de vidro com o fundo prateado, que eu mantinha embrulhado numa pele de corça, dentro do baú, em meus aposentos.

Trouxeram-no a mim, e contemplei seu interior.

Ela tinha agora doze anos e não era mais uma criança. Sua pele ainda era pálida, seus olhos e cabelos carvão-escuro, os lábios vermelho-sangue. Trajava as vestes que tinha quando deixara o palácio pela última vez — a blusa, a saia —, embora estivessem muito puídas e remendadas. Sobre elas, usava um manto de couro e, no lugar das botas, calçava bolsas de couro, amarradas com tiras, em volta de seus pequeninos pés.

Estava em pé na floresta, ao lado de uma árvore.

Enquanto assistia a tudo pelo olho da minha mente, eu a via se esgueirar, saltitar, saracotear e avançar de árvore em árvore, como um animal: um morcego ou um lobo. Estava seguindo alguém.

Era um monge. Vestia um hábito, seus pés estavam descalços, corroídos e duros. Sua barba e tonsura estavam compridas, crescidas e sem cortar.

Ela o observava por detrás das árvores. Finalmente, ele parou para passar a noite e se pôs a acender o fogo, depositando galhos, quebrando um ninho de estorninho como apara de lenha. Possuía uma caixa de pavio em seu manto, então golpeou a pedra de encontro ao aço até que a fagulha atingiu o material inflamável e o fogo se deflagrou. Havia dois ovos no ninho que encontrara, e os comeu crus. Não poderiam constituir uma refeição para um homem tão grande.

Ele se sentou à luz da chama, e ela deixou seu esconderijo. Agachou-se do outro lado do fogo e o fitou. O homem deu um largo sorriso, como se tivesse passado um longo período desde que vira outro ser humano. Chamou-a, então, com um gesto, para si.

Ela se levantou e andou ao redor do fogo. Esperou a um braço de distância. Ele puxou seu manto até encontrar uma moeda, um pequenino vintém de cobre. Arremessou-a para a jovem. Ela a tomou, assentiu com a cabeça e se aproximou. O monge puxou a corda ao redor da cintura, abrindo o manto. Seu corpo era peludo como o de um urso. Ela o empurrou sobre o musgo. Uma mão deslizava como uma aranha pelo emaranhado de pêlos até que se fechou sobre sua masculinidade. A outra traçava um círculo sobre o bico do peito esquerdo. O homem fechou os olhos e tateou desajeitadamente com a mão enorme por debaixo da saia. Ela levou a boca até o mamilo com o qual brincava, sua pele macia e branca roçava o corpo peludo e castanho.

Ela enterrou os dentes no peito volumoso. Ele abriu os olhos, fechou-os novamente e dali ela bebeu.

Escarranchou-se sobre ele, alimentou-se. Enquanto o fazia, um líquido fino e escuro começou a gotejar entre suas pernas...

— A senhora sabe o que impede os viajantes de virem à nossa vila? O que está acontecendo ao povo da floresta? — indagou o Mestre da Feira.

Cobri o espelho com a pele de corça e lhe disse que eu mesma iria me encarregar de mais uma vez tornar a floresta segura.

Eu tinha de fazê-lo, embora isso me aterrorizasse. Afinal, eu era a rainha.

Uma mulher tola teria ido à floresta e tentado capturar a criatura; mas eu já havia sido ingênua uma vez e não desejava sê-lo novamente.

Passei muito tempo em meio a velhos livros. Passei tempo com ciganas (que viajavam por nosso país através das montanhas rumo ao sui, em vez de cruzar a floresta em direção ao norte e ao oeste).

Preparei-me e obtive os objetos de que precisava, e, quando a primeira nevasca principiou a cair, eu estava pronta.

Nua, estava eu, e sozinha na torre mais alta do palácio, um lugar aberto aos céus. O vento resinava meu corpo; arrepios deslizavam pelos meus braços, coxas e seios. Carregava uma bacia de prata e uma cesta na qual colocara uma faca também de prata, um alfinete do mesmo metal, pinças, um manto cinzento e três maçãs verdes.

Eu as depositei e permaneci ali, despida, na torre, humilde perante o céu da noite e do vento. Tivesse algum homem me visto, eu arrancaria seus olhos; mas não havia ninguém para espionar. Nuvens deslizavam pelo firmamento, ocultando e desvelando a lua quarto-minguante.

Tomei a faca e cortei meu braço — uma, duas, três vezes. O sangue gotejou dentro da bacia escarlate, aparentando negro ao luar.

Adicionei o conteúdo do pequeno frasco que pendia ao redor de meu pescoço. Era um pó marrom extraído de ervas secas, da pele de um determinado sapo, e de outras coisas. Ele engrossou o sangue, enquanto o impedia de coagular.

Tomei as três maçãs, uma a uma, e espetei suas cascas gentilmente com meu alfinete de prata. Então, depositei as maçãs dentro da tigela e as deixei repousar ali enquanto os primeiros e pequeninos flocos de neve do ano caíam lentamente sobre minha pele, sobre as maçãs e sobre o sangue.

Quando o alvorecer começou a clarear o céu, cobri-me com meu manto cinzento, peguei as maçãs vermelhas da tigela de prata, uma a uma, pondo-as dentro da minha cesta com as pinças de prata, tomando a precaução de não as tocar. Nada havia restado de meu sangue ou do pó marrom na tigela de prata, nada a não ser um resíduo escuro, como um verdete, no interior.

Enterrei a tigela na terra. Então, lancei um encanto sobre as maçãs (como fiz uma vez, anos antes, junto a uma ponte, lançando um encanto sobre mim mesma), a fim de que fossem, sem sombra de dúvida, as maçãs mais bonitas do mundo; o rubor carmim de suas cascas era da cor quente do sangue fresco.

Vesti o capuz da capa sobre meu rosto, tomei fitas e graciosos ornamentos de cabelo comigo, coloquei-os por cima das maçãs dentro da cesta de junco, e caminhei sozinha para a floresta até chegar à sua morada: um penhasco alto de granito, cercado de profundas cavernas que penetravam na muralha de rocha.

Havia plantas e pedras ao redor da face do penhasco. Eu caminhava silenciosa e suavemente de árvore em árvore sem perturbar qualquer ramo ou folha. Finalmente, encontrei meu esconderijo e aguardei, à espreita.

Após algumas horas, um bando de anões engatinhou para fora da abertura da caverna — feios, disformes, pequenos homens peludos, os velhos habitantes desse território. Agora, raramente são vistos.

O grupo desapareceu na mata, e nenhum deles avistou-me, embora um dos pequeninos tenha parado e urinado contra a rocha onde eu me escondia.

Esperei. Mais nenhum saiu.

Fui até a entrada da caverna e saudei, numa voz velha e rouca.

A cicatriz no meu Monte de Vênus latejou e pulsou à medida que ela vinha em minha direção, emergindo das trevas, nua e solitária.

Tinha treze anos de idade, minha enteada. Nada maculava a alvura de sua pele, salvo uma cicatriz lívida no seio esquerdo, de onde seu coração fora arrancado muito tempo atrás.

A parte interna das coxas estava manchada com uma sujeira úmida e escura.

Ela me fitou, e eu oculta estava sob minha capa. Olhou-me esfomeada.

— Fitas, dona de casa — grasnei. — Graciosas fitas para seus cabelos...

Ela sorriu e me chamou com um gesto. Um puxão; a cicatriz de minha mão me arrastava ao seu encontro. Eu fiz o que havia planejado, mas o fiz mais rapidamente do que imaginara: derrubei a cesta e berrei como a velha mascate desanimada que fingia ser. Então, corri.

Minha capa cinzenta era da cor da floresta, e eu era veloz. Ela não me alcançou.

Retornei ao palácio.

Não vi o que se seguiu. Imaginemos, entretanto, a garota retornando, frustrada e faminta, à sua caverna, deparando-se com minha cesta caída no chão.

O que ela faz?

Gosto de pensar que primeiro brincou com as fitas, amarrou-as nos seus cabelos negros como um corvo e as girou ao redor de seu pescoço ou de sua pequenina cintura.

Então, curiosa, removeu o pano para ver o que mais havia na cesta, e contemplou as maçãs de um vermelho tão vivo.

Evidentemente, exalavam o aroma de pomos frescos; mas também cheiravam a sangue. Ela estava com fome. Eu a imagino apanhando uma fruta, pressionando-a contra as faces, sentindo sua fria maciez de encontro à pele.

Então, abriu a boca e mordeu profundamente...

Assim que cheguei aos meus aposentos, o coração que pendia da viga do teto, com maçãs, presunto e salsichas secas, havia cessado de bater. Dependurado estava, silencioso, sem movimento ou vida. Uma vez mais, senti-me segura.

Naquele inverno, a neve foi alta e profunda. Tardou muito a derreter. Estávamos todos famintos quando da chegada da nova estação.

A Feira de Primavera foi um pouco melhor naquele ano. As pessoas da floresta eram poucas, mas vieram, e havia viajantes das terras além da mata.

Vi os pequenos homens peludos da caverna da floresta comprando e barganhando peças de vidro, pedaços de cristal e nacos de quartzo. Pagaram pelo vidro com moedas de prata — os espólios da pilhagem de minha enteada, não tenho dúvidas. Quando se espalhou o que os anões estavam comprando, a gente da vila correu às suas casas e retornou com cristais da sorte e, em alguns casos, com lâminas de vidro inteiras.

Pensei por um momento em ordenar a execução dos pequenos homens, mas não o fiz. Enquanto o coração pendesse silencioso, imóvel e frio, da viga de meu aposento, eu estaria a salvo. O mesmo poderia ser dito do povo da floresta e, conseqüentemente, da gente da cidade.

Meu vigésimo quinto ano chegou, e minha enteada comera a fruta envenenada dois invernos antes. Foi, então, que o príncipe veio ao meu palácio. Ele era alto, muito alto, com olhos verdes frios e a pele morena dos que habitam além das montanhas.

O rapaz cavalgava em companhia de uma pequena comitiva: grande o suficiente para defendê-lo, pequena o bastante para que outro monarca, no caso eu, por exemplo, não o visse como uma ameaça em potencial.

Eu fui muito pragmática. Pensei numa aliança entre nossas terras, imaginei um reino estendendo-se das florestas até o sul rumo ao mar. Lembrava-me do meu amor barbado de cabelos dourados, morto oito anos antes. À noite, fui ao quarto do príncipe.

Eu não sou inocente, embora meu falecido marido, que outrora fora meu rei, fosse meu verdadeiro amor, não importa o que digam.

De início, o príncipe parecia excitado. Ordenou que eu tirasse minhas vestes, fez com que ficasse diante de uma janela aberta, longe do fogo, até que minha pele eriçasse de tão gelada e fria. Então, pediu-me para deitar de costas, com as mãos cruzadas sobre os seios, meus olhos arregalados, apenas fitando as vigas acima. Disse-me para não me mover, e respirar o menos possível. Implorou-me para que nada falasse. Abriu minhas pernas.

Foi então que me penetrou.

Conforme começou a estocar dentro de mim, senti meu quadril erguer-se, meu corpo parear-se ao seu, atrito após atrito, impulso após impulso. Gemi. Não pude evitar.

Sua masculinidade escorregou para fora de mim. Estendi a mão e a toquei, uma coisa pequenina e resvaladiça.

— Por favor — disse-me suavemente —, você não deve se mover nem falar. Deite-se ali nas pedras, fria e bela.

Eu tentei, mas ele havia perdido toda força que o fizera viril. Pouco tempo depois, deixei os aposentos do príncipe, suas maldições e lágrimas ressoando em meus ouvidos.

Partiu cedo na manhã seguinte, com todos os seus homens, cavalgando em direção à floresta.

Eu imagino seu membro, agora, enquanto cavalgava, um nó de frustração na base da sua virilidade. Imagino seus lábios pálidos comprimidos com firmeza. Imagino, então, sua pequena escolta atravessando a floresta a cavalo, alcançando por fim o túmulo de cristal e vidro da minha enteada. Tão pálida. Tão fria. Nua sob o vidro, pouco mais do que uma menina, e morta.

Na minha fantasia, quase posso sentir a repentina solidez de sua masculinidade dentro de suas vestes, pressinto o desejo ardente que o acometeu então, as orações que murmurou em meio à respiraçã entrecortada, agradecendo a boa ventura. Imagino-o negociando com pequenos homens peludos, oferecendo-lhes ouro e especiarias em troca do adorável corpo sob o túmulo de cristal.

Terão aceito seu ouro espontaneamente? Ou levantaram os olhos para ver seus homens a cavalo, com suas espadas afiadas e lanças, percebendo que não tinham escolha?

Realmente não sei. Eu não estava lá. Não estava vendo no espelho. Só posso imaginar...

Mãos removendo os pedaços de vidro e quartzo de seu corpo gelado. Mãos gentilmente acariciando suas faces gélidas, movendo seus braços frios, regozijando-se por encontrar o cadáver ainda fresco e maleável.

Tê-la-á ele tomado lá, diante de todos? Ou ordenado que a carregassem até um canto recluso antes de possuí-la?

Não sei dizer.

Terá deslocado o naco de maçã de sua garganta? Ou terão seus olhos se aberto conforme ele desferia estocadas dentro de seu corpo? Terá sua boca se escancarado, os lábios se afastado, os dentes amarelos e pontiagudos se fechado no pescoço moreno do rapaz, enquanto o sangue, que é vida, vertia-se pela garganta da maldita, arrastando o pedaço da maçã, que me pertencia, meu veneno?

Imagino; realmente, não sei.

Uma coisa com certeza sei: fui despertada aquela noite por seu coração pulsando e batendo uma vez mais. O sangue salgado gotejou sobre meu rosto. Eu me sentei. Minha mão ardeu e latejou, como se eu tivesse golpeado a base do meu polegar com uma rocha.

Esmurraram a porta. Senti medo, mas eu era a rainha e não podia demonstrar. Abri a porta.

Primeiro, seus homens entraram no meu aposento e se perfilaram ao meu redor, empunhando espadas afiadas e longas lanças.

Então, ele entrou e cuspiu em meu rosto.

Finalmente, ela adentrou meu aposento, como eu o fizera quando era uma rainha recém-coroada e ela, uma criança de seis anos. A menina não havia mudado. Não mesmo.

Ela puxou para baixo o barbante em que pendia seu coração. Tirou as sorvas, uma a uma. Arrancou o bulbo de alho, agora ressecado após tantos anos e, então, tomou seu próprio coração pulsante — uma coisa diminuta, não maior do que o de uma pequena cabra ou ursa — enquanto ele transbordava e bombeava sangue em sua mão.

Suas unhas deviam ser tão afiadas quanto vidro. Com elas, abriu o peito, fazendo-as percorrer a cicatriz púrpura. Seu tórax abriu-se numa fenda, rasgada e destituída de sangue. Lambeu seu coração uma vez enquanto o sangue escorria por seus dedos, e empurrou o órgão para dentro da cavidade.

Eu a vi fazer isto. Vi fechar a carne de seu peito uma vez mais. Vi a cicatriz púrpura começar a se desvanecer.

Seu príncipe pareceu brevemente preocupado, mas, mesmo assim, colocou seu braço ao redor dela. Ambos, então, ficaram lado a lado e esperaram.

A menina continuou gélida e a exuberância da morte permaneceu em seus lábios, e, de forma alguma, o desejo do rapaz diminuíra.

O dois disseram-me que se casariam e certamente seus reinos seriam unidos. Afirmaram que eu estaria presente no dia do casamento.

Está começando a ficar quente.

Disseram coisas ruins a meu respeito para as pessoas. Um pouco de verdade para adicionar sabor ao prato, mas mesclado a muitas mentiras.

Eu fui amarrada e aprisionada em uma pequenina cela de pedra debaixo do palácio e lá permaneci durante todo o outono. Hoje, arrancaram-me da cela. Despiram os trapos que eu vestia e lavaram minha sujeira. Então, rasparam minha cabeça e virilha antes de esfregar minha pele com banha de ganso.

A neve caía enquanto me carregavam — dois homens segurando cada mão, dois outros, cada perna — irremediavelmente exposta e humilhada por entre a multidão invernal. Fui levada a este forno.

Minha enteada assistiu a tudo ao lado de seu príncipe. Ela acompanhou minha indignação e nada disse.

Enquanto me empurravam para dentro, zombando e caçoando da minha desgraça, eu vi um floco de neve pousar sobre sua face, e lá permanecer sem se derreter.

Eles selaram a porta do forno em seguida. Está ficando mais quente aqui. Lá fora, cantam e dão vivas, batendo nas laterais.

Ela não estava rindo, zombando ou falando. De forma alguma escarneceu de mim ou desviou o olhar. Na verdade, encarou-me o tempo todo; e, por um momento, eu me vi refletida em seus olhos.

Eu não gritarei. Não lhes darei esta satisfação. Terão meu corpo, mas minha alma e minha história a mim pertencem, e comigo morrerão.

A banha de ganso começa a derreter e brilhar sobre minha pele. Não devo emitir um só pio. Não devo pensar mais nisto.

Na verdade, pensarei no floco de neve em sua face.

Penso em seus cabelos negros como carvão, seus lábios, rubros como sangue, sua pele branca de neve.


http://groups-beta.google.com/group/digitalsource



1 Foxes, em inglês (N. da T. )

2 Marca de uma cerveja (N. daT.)

3 Poema baseado no épico saxão Beowulf, escrito em aproximadamente 700 d.C. Corno "Bay Wolf" soa quase com "Heowull", preteri deixar o titulo conforme do original. (N.daT.)

4 As corujas devoram suas vítimas por inteiro: pele, ossos, dentes etc. e depois vomitam uma pelota com o conteúdo não-digerível. (N. da T.)

5 Espécie de brinquedo musical. (N. daT.)

6 Wriat You See is What Ynu Get (O que você vê é o que você leva) - imagens geradas em tela que correspondem com exatidão à imagem impressa. (N. da T.)


7 Peruca arquejame. (N. daT.)


8 Whig - partido político inglês que surgiu em cerca de 1688 que pretendia subordinar o poder da Coroa ao do Parlamento (N. da T.)


9 Outra tradução é aqui poisível, resultando em interpretação diferente:

As dificuldades se acumulam.

O cavalo e a carroça mudam de direção.

Se o malfeitor não estivesse lá,

o pretendente viria.

A donzela é fiel, ela não se compromete.

Dez anos e então ela se compromete.


10 Quando, no decorrer da luta da vida, o homem chega a um ponto em que não avança, um suspiro escapa de seu peito — como naquele famoso trecho da Sinfonia em Dó menor de Beethoven, — essa situação não deve perdurar. Ele deve atrelar os cavalos de seu pensamento positivo, uma vez mais, e conduzir a luta até o fim.

"Aquele que nunca descansa,

aquele cujo pensamento almeja de

corpo e alma ao impossível,



esse é o vencedor."



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