FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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Passaram-se seis longos meses antes que o projeto de Gordon para o Museu da Herança Britânica fosse anunciado como vencedor, embora tivesse sido ridicularizado no The Times como "agressivamente moderno", em várias revistas de arquitetura como muito antiquado, e descrito por um dos juízes, em uma entrevista ao Sunday Telegraph, como "uma espécie de candidato conciliatório — a segunda opção de lodo mundo".

Eles se mudaram para Londres, alugando sua casa em Preston para um artista e sua família, pois Belinda não deixou Gordon vendê-la.

Gordon trabalhava intensamente, feliz, no projeto do museu. Kevin estava com seis anos e Melanie, com oito. A menina achava Londres ameaçadora, mas Kevin adorava. De início, ambos ficaram angustiados por terem perdido seus amigos e a escola. Belinda arranjou um emprego de meio período numa pequena clínica em Camden, trabalhando três tardes por semana. Ela sentia falta das suas vacas.

Os dias em Londres viraram meses e então anos, e, a despeito de problemas orçamentários ocasionais, Gordon estava cada vez mais animado. Aproximava-se o dia em que o primeiro terreno seria remexido para a construção do museu.

Certa noite, Belinda acordou de madrugada, e fitou seu marido dormindo sob a iluminação amarelada das lâmpadas de sódio do poste de rua, além da janela do seu quarto. As entradas na testa dele acentuavam-se e o cabelo na parte de trás rareava. Belinda perguntou-se como seria quando estivesse casada com um homem calvo. Concluiu que seria o mesmo de sempre. A maior parte do tempo, feliz. A maior parte do tempo, bom.

Perguntou-se o que estaria acontecendo com os "eles" do envelope. Podia sentir sua presença, ressequido e meditativo, no canto de seu quarto, seguramente trancado longe de qualquer mal. Repentinamente, ela sentiu pena do Gordon e da Belinda aprisionados no envelope, no seu pedaço de papel, detestando-se mutuamente e tudo o mais.

Gordon começou a roncar. Ela o beijou delicadamente, no rosto, e disse:

— Shhh. — Ele se mexeu e ficou quieto, mas não acordou. Ela se aninhou a ele e logo adormeceu.

No dia seguinte, após o almoço, enquanto conversava com um importador de mármore da Toscana, Gordon viu-se tomado pela surpresa, levou a mão ao peito e disse:

— De repente, fiquei tão triste! — E então seus joelhos cederam e ele foi ao chão. Chamaram uma ambulância, mas Gordon já estava morto quando ela chegou. Tinha trinta e seis anos de idade.

Na investigação, o médico-legista declarou que a autópsia revelara que o coração de Gordon era fraco de nascença. Poderia ter parado a qualquer hora.

Nos três primeiros dias depois de sua morte, Belinda não sentiu nada, um profundo e terrível nada. Ela consolou as crianças, conversou com seus amigos e os amigos de Gordon, com sua família e com a família de Gordon, aceitando gentil e elegantemente suas condolências, como se aceitam presentes não pedidos. Ouviu as pessoas chorando por Gordon, o que ela própria ainda não tinha feito. Disse as coisas apropriadas e não sentiu absolutamente nada.

Melanie, que tinha onze anos, parecia estar lidando bem com a situação. Kevin abandonou seus livros e jogos de computador e sentou-se em sua cama, olhando fixamente pela janela, sem querer conversar.

No dia seguinte ao enterro, seus pais voltaram para o interior, levando ambas as crianças consigo, mas Belinda recusou-se a ir. Havia, disse ela, muito a fazer.

No quarto dia após o enterro, ela estava arrumando a cama de casal, que ela e Gordon tinham compartilhado, quando começou a chorar, os suspiros vindo em horríveis espasmos de pesar, lágrimas caíam do seu rosto na colcha e uma coriza clara escorria de seu nariz. Ela se sentou, de repente, no chão, como uma marionete cujas cordas haviam sido cortadas, e chorou por quase uma hora, pois sabia que jamais o veria de novo.

Enxugou, então, o rosto e destrancou a gaveta de jóias, tirou o envelope e o abriu. Puxou a folha amarelada de papel e correu os olhos pelas palavras caprichosamente datilografadas. A Belinda do papel, bêbada, havia trombado o carro e estava a ponto de perder sua carteira de motorista. Ela e Gordon não se falavam havia dias. Ele perdera seu emprego quase dezoito meses antes e agora passava a maior parte do tempo sentado num ou noutro canto da casa em Salford. O emprego de Belinda rendia o dinheiro do qual dispunham. Melanie estava fora de controle: Belinda, ao limpar o quarto da menina, havia encontrado um esconderijo com notas de cinco e dez libras. Melanie, que não dera explicações sobre como uma garota de onze anos arranjara tanto dinheiro, ao ser questionada, simplesmente retirou-se para o seu quarto, olhando furiosamente para eles, sem dizer palavra. Nem Gordon, nem Belinda investigaram mais a fundo com medo do que poderiam descobrir. A casa em Salford era encardida e úmida, tanto que o gesso estava caindo do teto em grandes pedaços que se esfarelavam, e os três tinham contraído tosses bronquiais horríveis.

Belinda sentiu pena deles.

Ela colocou o papel de volta no envelope. Perguntava-se como seria odiar Gordon, fazer com que ele a odiasse. Imaginava como seria não ter Kevin em sua vida, não ver seus desenhos de aviões ou ouvir suas versões tremendamente desafinadas das canções populares. Ela se perguntava onde a Melanie — a outra Melanie, não a sua Melanie, mas a Melanie que-estava-lá-pela-graça-de-Deus — poderia ter arranjado aquele dinheiro e ficou aliviada porque a sua própria Melanie parecia ter poucos interesses além de balé e dos livros de Enid Blyton.

Ela sentia tanta falta de Gordon. Era como se uma coisa afiada estivesse sendo martelada em seu peito, um cravo talvez, ou uma farpa de gelo feita de frio e solidão. Tinha também a consciência de que jamais o veria novamente neste mundo.

Ela levou, então, o envelope para baixo, para a sala de estar, onde a brasa de carvão queimava na lareira, porque Gordon amara o fogo. Ele dizia que dava vida à sala, Ela não gostava do fogo de carvão, mas o havia acendido aquela noite por rotina e por hábito e porque, se não o acendesse, seria admitir para si mesma, de modo absoluto, que ele jamais voltaria para casa.

Belinda fitou o fogo por algum tempo, pensando sobre o que possuía na vida e sobre o que tinha abandonado; e se seria pior amar alguém que já não estava lá, ou não amar alguém que estava.

E, no final, quase negligentemente, ela arremessou o envelope sobre as brasas, e o observou curvar-se, enegrecer e pegar fogo, vendo as chamas amarelas dançarem por entre as azuis.

Logo, o presente de casamento não era nada senão flocos negros de cinzas que bailavam sobre o ar quente e eram levadas, tal como uma carta de criança para o Papai Noel, pela chaminé acima e para fora, noite adentro.

Belinda recostou-se em sua cadeira, fechou os olhos e esperou que a cicatriz aflorasse em seu rosto.

E esta é a história que não escrevi para o casamento dos meus amigos. Apesar de, claro, não ser a história que não escrevi, ou nem mesmo a história que planejei escrever quando a comecei algumas páginas atrás. A história que planejei escrever era muito mais curta, muito mais parecida com uma fábula, e não terminava assim (não me lembro mais como ela acabava originalmente. Havia algum tipo de final, mas uma vez começada, o final real tornou-se inevitável).

Muitas das histórias deste livro têm isso em comum: o lugar a que chegam no final não era o lugar que eu esperava que fossem chegar quando as planejei. Algumas vezes, a única maneira de saber que uma história tinha acabado era quando não havia mais palavras a serem escritas.

Lendo as Entranhas: Um Rondel


Os editores que me pedem histórias sobre "... qualquer coisa que você queira. No duro. Qualquer coisa mesmo. Apenas escreva a história que você sempre quis escrever", dificilmente conseguem alguma coisa.

Neste caso, Lawrence Schimel escreveu-me pedindo um poema para apresentar sua antologia de histórias sobre previsão do futuro. Ele queria uma forma poética com versos que se repetissem, como um vilancete ou um pantume, que fizessem eco com a maneira pela qual inevitavelmente chegamos ao nosso futuro. Escrevi, então, para ele um rondel sobre os prazeres e perigos de predizer a sorte e o prefaciei com o gracejo mais desolador de Alice no país dos espelhos. De alguma forma, pareceu-me um ótimo ponto de partida para este livro.


Cavalaria
Eu estava tendo uma péssima semana. O roteiro que eu devia estar escrevendo simplesmente não acontecia e eu passava dias diante de uma tela em branco, ocasionalmente escrevendo uma palavra como "os" e a ficava olhando por uma hora ou mais; então, eu a deletava lentamente, letra por letra, e escrevia "e" ou "mas" em seu lugar. Daí, eu saía sem salvar o arquivo. Ed Kramer ligou-me lembrando que eu lhe devia um conto para uma antologia de histórias sobre o Santo Graal, que estava editando para o ubíquo Marty Greenberg. Vendo que nada mais estava acontecendo e que aquela história estava vivendo no fundo da minha mente, eu disse "claro",

Escrevi-a num fim de semana, uma dádiva dos deuses, fácil e encantadora como coisa alguma. De repente, eu era um autor transformado: ri na cara do perigo e cuspi nos sapatos do bloqueio de escritor. Daí, sentei-me e fitei taciturno a tela em branco por mais uma semana, pois os deuses têm senso de humor.

Alguns anos atrás, numa viagem de autógrafos, alguém me deu uma cópia de uma dissertação acadêmica sobre a teoria da linguagem feminista, que comparava e contrastava "Cavalaria", a "Senhora de Shallot" de Tennyson e uma canção da Madonna. Espero escrever um dia uma história chamada "O lobisomem do Sr. Whitaker"; pergunto-me que tipo de dissertações ela poderá provocar.

Quando faço leituras ao vivo, tendo a começar com este conto. É uma história bem simpática, que gosto muito de ler em voz alta.


Nicholas Era....
Todo Natal, recebo cartões de ilustradores, pintados ou desenhados por eles mesmos. São obras de beleza, monumentos à criatividade inspirada.

Todo Natal, sinto-me insignificante, desconcertado e sem talento.

Então, certo ano, escrevi este cartão, antes do Natal. Dave McKean caligrafou-o elegantemente e eu o enviei a todo mundo de quem pude me lembrar. Meu cartão.

Tem exatamente 100 palavras (102, com o título) e foi publicado pela primeira vez no Drabble II, uma coletânea de contos de 100 palavras. Continuo com o propósito de fazer outra história cartão de Natat, mas, sempre que me lembro, já é 15 de dezembro e acabo adiando para o ano seguinte.


O Preço
Minha agente literária, Srta. Merrilee Heifetz, de Nova Iorque, é uma das pessoas mais serenas do mundo e, se bem me lembro, apenas uma vez sugeriu que eu deveria escrever um livro específico. Isso foi há algum tempo. "Olha", disse ela, "anjos estão em alta hoje em dia e as pessoas sempre gostaram de livros sobre gatos, então pensei 'não seria legal se alguém fizesse um livro sobre um gato que fosse um anjo ou um anjo que fosse um gato ou algo assim?'".

Concordei que era uma idéia comercial excelente e que pensaria a respeito. Infelizmente, quando, por fim, tinha acabado de pensar sobre esta história, livros sobre anjos eram uma coisa de dois anos atrás. Mesmo assim, a idéia estava incutida e um dia escrevi o conto.

(Para os curiosos: posteriormente, uma jovem se apaixonou pelo Gato Preto, que com ela foi morar. A última vez que o vi, ele estava do tamanho de um pequeno leão da montanha e, até onde sei, continua crescendo. Duas semanas depois que o Gato Preto partiu, um gato malhado marrom chegou e tomou posse da varanda. Ao mesmo tempo que escrevo isto, ele está dormindo atrás do sofá, a uns poucos metros de mim.)

Enquanto penso no caso, gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer minha família por me permitir colocá-ía na história e, o que é mais importante, tanto por me deixar a sós para escrever quanto por, de vez em quando, insistir para que eu saia a fim de brincar.


A Ponte do Troll
Esta história foi indicada para o World Fantasy Award de 1994, embora não tenha ganho. Foi escrita para Branca de Neve, Sangue Vermelho de Ellen Datlow e Terri Windling, uma antologia de histórias de fadas refeitas para adultos. Escolhi o conto A grosseria dos três bodes. Se Gene Wolfe, um dos meus escritores favoritos (e, acaba de me ocorrer, outra pessoa que escondeu uma história numa introdução), não tivesse usado o título muitos anos atrás, eu a teria chamado de "Arapuca",
O Palhaço
Lisa Snellings é uma escultora notável. Esta história foi escrita sobre a primeira escultura sua que vi e pela qual me apaixonei: uma caixa de surpresas demoníaca. Ela me deu uma cópia da escultura e prometeu me deixar a original em seu testamento. Cada escultura sua é como uma história congelada em madeira ou gesso. (Há uma no meu consolo de lareira, uma menina alada numa gaiola oferecendo aos passantes uma pena das suas asas, enquanto seu captor dorme. Suponho que dê um romance. Veremos.)
O Lago dos Peixes Dourados e Outras Histórias
A mecânica do escrever me fascina. Esta história foi iniciada em 1991. Três páginas foram escritas e, então, sentindo-me perto demais do material, abandonei-a. Finalmente, em 1994, decidi acabá-la para uma antologia que seria editada por Janet Berlinder e David Copperfield. Escrevi-a desordenadamente num palmtop Atari Portfolio surrado, em aviões, carros e quartos de hotel, tudo fora de ordem, anotando conversas e encontros imaginários até estar quase certo de que havia sido totalmente escrita. Daí coloquei o material em ordem e fiquei espantado e encantado, porque havia dado certo. Algo nesta história é real.
Tríptico: Comido (Cenas de um Filme), A Estrada Branca, A Rainha das Facas
Em um período de vários meses, alguns anos atrás, escrevi três poemas narrativos. As histórias eram sobre violência, sobre homens e mulheres, e sobre o amor. O primeiro dos três a ser escrito era um tratamento para um filme pornográfico de terror, alinhavado em pentâmetro iâmbico, o qual chamei de Comido (Cenas de um filme). Era bem radical (e, lamento, mas não está incluso neste livro). O segundo era sobre algumas velhas lendas folclóricas inglesas recontadas, chamado de A estrada branca. Tão radical quanto as histórias nas quais era baseado. O último a ser escrito era um conto sobre meus avós matemos e sobre mágica de palco. Era menos radical, mas — espero — tão perturbador quantos os dois contos que o precedem na seqüência, Fiquei orgulhoso dos três. O capricho de publicá-los deve-se a que cada um deles foi, de fato, incluído numa antologia de melhores do ano (todos os três foram incluídos na antologia americana As melhores do ano de fantasia e terror, um na britânica O melhor terror do ano e um, para surpresa minha, foi solicitado para uma coletânea internacional dos melhores contos eróticos).
A Estrada Branca
Há duas histórias que me assombram e me perturbam por anos a fio; histórias que têm me atraído e repelido desde quando as conheci, ainda garoto. Uma delas é um conto de Sweeney Todd, "The Demon Barber of Fleet Street". A outra é um conto do Sr. Fox — um tipo de versão inglesa do Barba Azul.

As versões recontadas foram inspiradas em variações que encontrei no The Penguim Book of English Folktales, editado por Neil Philip: "A história do Sr. Fox" e as notas que a acompanham, bem como uma versão do conto chamado "Sr. Foster", onde encontrei a imagem da estrada branca e o caminho no qual o pretendente da garota marca a trilha, que vai desta estrada branca até sua casa horripilante.

Na história do Sr. Fox, o refrão — "Não é assim, não foi assim e Deus me livre que assim seja" — é repetido como uma litania a cada história de terror que a noiva do Sr. Fox afirma ter visto em um sonho. No final, ela joga o dedo ensangüentado, ou a mão, que pegou na casa dele e prova que tudo o que disse era verdade. E, então, sua história efetivamente acaba.

Também é sobre todos os estranhos contos folclóricos chineses e japoneses nos quais, em última análise, tudo acaba em Raposas1.


A Rainha das Facas
Esta história, como minha graphic novel Mr. Punch, é bem próxima da vontade que tive, numa ocasião, de explicar a alguns dos meus parentes que aquilo não acontecera realmente. Bom, pelo menos, não deste jeito.

Mudanças
Um dia, Lisa Tuttle ligou-me pedindo uma história para uma antologia que ela estava editando sobre sexo. Sempre adorei ficção científica como mídia, e, quando menino, tinha certeza de que, quando crescesse, seria um escritor de ficção científica. Na verdade, isso nunca aconteceu. Quando tive a idéia para esta história, há quase uma década, era um conjunto de contos interligados que formariam um romance que explorava a reflexão sobre o gênero. Mas nunca escrevi qualquer uma dessas histórias. Quando Lisa ligou, ocorreu-me que poderia apreender o mundo que eu tinha imaginado e escrever o conto da mesma forma que Eduardo Galeano narrara a história das Américas na sua trilogia Memórias de jogo. Uma vez acabado, mostrei-o a uma amiga que me disse parecer um esboço para um romance. Tudo o que pude fazer foi congratulá-la por sua perspicácia. Mas Lisa Tuttle gostou do conto, e eu também.


A Filha das Corujas
John Aubrey, o colecionador e historiador do século XVII, é um dos meus escritores favoritos. Seus escritos contém uma potente mistura de credulidade e erudição, de crônica, reminiscência e conjectura. Quando se lê o trabalho de Aubrey, tem-se a percepção instantânea de uma pessoa de verdade falando, a partir do passado, de um jeito que transcende os séculos: uma pessoa muito agradável e interessante. Também gosto da sua ortografia.

Tentei escrever esta história de duas formas diferentes e não fiquei satisfeito. Ocorreu-me, então, redigir a narrativa como se fosse de Aubrey.


Shoggoth's Old Peculiar2
O trem noturno de Londres para Glasgow é um carro-dormitório que chega mais ou menos às cinco da manhã. Quando desci do trem, fui direto para o hotel; ao entrar, tinha a intenção de passar pelo hall, ir até a recepção e conseguir um quarto; então, dormiria mais um pouco e, quando todo mundo já estivesse de pé e pronto, passaria os dois dias seguintes na convenção de ficção científica que estava acontecendo no hotel. Oficialmente, eu a estava cobrindo para um jornal nacional.

No caminho do hall para a recepção, passei pelo bar, vazio à exceção de um barman estupidificado e de um fã inglês chamado John Jarrod que, como o Fã Convidado de Honra da convenção, havia ganho uma conta aberta no bar, a qual estava usando enquanto os outros dormiam.

Parei para falar com John e, na verdade, jamais cheguei à recepção. Passamos as 48 horas seguintes batendo papo, contando piadas e histórias e, na madrugada do dia seguinte, quando o bar começou a esvaziar de novo, massacramos entusiasticamente tudo o que podíamos nos lembrar de Guys and Dolls. A uma certa altura, no bar, a conversa que tive com o finado Richard Evans, um editor de ficção científica inglês, seis anos mais tarde, começaria a se transformar em Neverwhere. Não me lembro mais por que eu e John começamos a falar sobre Cthulhu nas vozes de Peter Cook e Dudley Moore, nem por que decidi iniciar uma palestra para John sobre o estilo da prosa de H. P. Lovecraft. Suponho que teve a ver com a falta de sono.

Hoje em dia, John Jarrold é um editor respeitável e um baluarte da indústria editorial britânica. Alguns trechos desta história nasceram naquele bar, com John e eu imitando Pete e Dude como se fossem personagens de H. P. Lovecraft. Mike Ashley é o editor que me induziu a lhes dar uma história.


Vírus
Esta história foi escrita para Sonhos digitais de David Barret, uma antologia sobre ficção de informática. Não jogo mais no computador. Mas, quando jogava, percebi que os jogos ocupavam áreas da minha cabeça.

Blocos caíam ou homenzinhos pulavam por detrás das minhas pálpebras quando eu ia dormir. Quase sempre perdia, mesmo quando jogava com minha mente. Esta história surgiu disto.


Procurando a Garota
Esta história foi encomendada pela revista Penthouse para o seu vigésimo aniversário, em janeiro de 1985. Nos dois anos anteriores, eu havia sobrevivido como um jovem jornalista nas ruas de Londres, entrevistando celebridades para a Penthouse e Knave, duas revistas inglesas de "sexo" — muito mais comportadas do que suas contrapartes americanas. Considerando-se tudo, foi um aprendizado.

Uma vez, perguntei a uma modelo se ela se sentia explorada. "Eu?", disse ela. Seu nome era Marie. "Eu estou sendo bem paga por isso, amor. Além do mais, é melhor do que ter que fazer o turno da noite numa fábrica de biscoitos em Bradford. Mas vou lhe dizer quem está sendo explorado. Todos esses otários que compram isso. Masturbando-se em cima das minhas fotos todos os meses. Eles estão sendo explorados." Acho que o conto começou com essa conversa.

Fiquei satisfeito com a história quando a escrevi: foi minha primeira ficção que soava como algo meu e que não parecia uma tentativa de escrever como outra pessoa. Eu estava me aproximando de um estilo. A fim de pesquisar para o conto, sentei-me nos escritórios da Penthouse britânica, em Docklands, e folheei vinte anos de revistas encadernadas. Na primeira Penthouse, estava minha amiga Dean Smith, Dean fazia maquiagem para a Knave e, descobri, tinha sido a primeira Mascote do Ano da Penthouse, em 1965. Roubei o texto para a Charlotte da história, direto daquele, de 1965, sobre Dean, "individualista ressurgente" e tudo mais. A última coisa que ouvi foi que a Penthouse estava à caça da Dean para as comemorações do seu aniversário de vinte anos. Ela tinha sumido do mapa. Deu em todos os jornais.

Ocorreu-me, enquanto eu olhava duas décadas de Penthouse, que esta revista, e outras como ela, não tem nada a ver com mulheres e simplesmente tudo a ver com fotografias de mulheres. E este é o outro ponto onde a história começa.


Apenas o Fim do Mundo Novamente
Steve Jones e eu somos amigos há quinze anos. Até mesmo editamos um livro de poemas maldosos para crianças. O que significa que ele me liga e diz coisas do tipo; "estou fazendo uma antologia de contos que se passam na cidade fictícia de H. P. Lovecraft, Innsmouth. Escreva-me uma história".

Este conto surgiu de uma série de coisas que aconteceram juntas (que é de onde nós escritores Conseguimos Nossas Idéias, caso você esteja se perguntando). Uma delas foi o último livro de Roger Zelazny, A Night in the Lonesome October (Uma noite no outono solitário), onde há muita diversão com várias personagens do repertório do terror e fantasia; Roger tinha me dado um exemplar do seu livro alguns meses antes de eu escrever este conto, o qual apreciei muitíssimo. Mais ou menos na mesma época, eu estava lendo um relatório do julgamento de um lobisomem francês que acontecera há 300 anos. Percebi, enquanto lia o relato de uma testemunha, que o relatório desse julgamento tinha sido a inspiração do maravilhoso conto de Saki, "Gabriel Ernest", e também do romance de James Branch Cabell, O robe branco, mas tanto Saki quanto Cabell eram educados demais para usar o motivo dos dedos vomitados, uma peça-chave de evidência no julgamento. O que queria dizer que, agora, tudo cabia a mim.

Larry Talbot era o nome do lobisomem original, aquele que se encontrou com Abbott e Costello.
Bay Wolf3
E lá estava, de novo, aquele cara, Steve Jones. "Quero que você escreva um dos seus contos-poema para mim. Precisa ser uma história de detetive que se passa no futuro próximo. Talvez você possa usar a personagem Larry Talbot do “Apenas o fim do mundo novamente'".

Acontece que eu tinha recém-acabado uma adaptação para o cinema de Beowulf, o velho poema inglês, e fiquei um tanto surpreso pelo número de pessoas que, ouvindo mal o que eu dizia, pareciam achar que eu estava escrevendo um episódio de Baywatch. Então, comecei a recontar Beowulf como um episódio futurístico de Baywatch para uma antologia de contos de detetive. Pareceu a única coisa sensata a fazer.




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