FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



Baixar 1.33 Mb.
Página3/16
Encontro29.07.2016
Tamanho1.33 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16

Não me olhe assim. Eu não faço objeções sobre de onde você extrai suas idéias.
Arremate por Atacado
Se os contos deste livro fossem arranjados cronologicamente, em vez da ordem estranha e acidental do tipo onde-parece-que-fica-bem que eu os coloquei, este seria o primeiro. Cochilei uma noite, em 1983, ouvindo rádio. Quando adormeci, estava escutando um comercial sobre compras por atacado; ao acordar, falavam sobre assassinos contratados. É daí que veio essa história,

Eu eslava lendo muitos contos de John Collier antes de escrevê-la. Relendo-a, alguns anos depois, percebi que era uma história de John Collier. Não tão boa quanto as do próprio, nem tão bem escrita; mas ainda assim uma história de Collier, e eu não havia notado enquanto a escrevia.


Uma Vida Gestada nos Primeiros Trabalhos de Moorcock
Quando me pediram uma história para a antologia de contos de Elric, de Michael Moorcock, decidi escrever uma sobre um garoto bem parecido comigo quando menino e sua relação com a ficção. Duvidei que pudesse dizer qualquer coisa sobre Elric que não fosse pastiche, mas, quando eu tinha doze anos, as personagens de Moorcock eram tão reais para mim quanto qualquer outra coisa na minha vida e bem mais do que... bem... lições de geografia.

"De todos os contos da antologia, achei que o seu e o de Tad Williams foram os melhores", disse-me Moorcock quando o encontrei em Nova Orleans alguns meses depois de ter acabado meu conto. "E gostei mais do dele do que do seu, porque Jimi Hendrix estava na história."

O título foi roubado de um conto de Harlan EIlison.


Cores Frias
Ao longo dos anos, eu trabalhei em várias mídias diferentes. Algumas vezes, perguntam-me como sei a que veículo pertence uma idéia. Na maioria das vezes, surgem como HQs, filmes, poemas, prosas, romances, contos ou o que quer que seja. Você sabe o que está escrevendo antecipadamente.

Esta história, por outro lado, era apenas uma idéia. Eu queria falar alguma coisa sobre essas máquinas infernais, os computadores, magia negra e algo sobre a Londres que observei na final dos anos oitenta — um período de excesso financeiro e falência moral. Não parecia ser um conto ou um romance. Então, tentei como um poema e ficou bom.

Eu o reformatei em prosa para o The Time Out Book of London Short Stories e deixei muitos leitores perplexos.
O Varredor de Sonhos
Esta história começou com uma estátua de Lisa Snelling de um homem apoiado numa vassoura. Ele era, obviamente, um tipo de faxineiro. Eu me perguntei de que tipo, e foi daí que surgiu a história.
Partes Estrangeiras
Esta é outra das minhas primeiras histórias. Eu a escrevi em 1984 e fiz o rascunho final (uma rápida demão de tinta e um pouco de argamassa nas piores rachaduras) em 1989. Não consegui vendê-la em 1984 (as revistas de ficção científica não gostaram do sexo e as revistas de sexo não gostaram da doença). Em 1987, indagaram-me se eu a venderia para uma antologia de contos sexuais de ficção científica, mas declinei. Em 1984, eu tinha escrito uma história sobre uma doença venérea. A mesma história parecia dizer coisas diferentes em 1987. O conto pode não ter mudado, mas a paisagem ao seu redor mudou extremamente: estou falando da aids, e a história, quer eu tenha tencionado ou não, também falava sobre isso. Se reescrevesse este conto, teria de levar a aids em consideração e eu não conseguiria. Era grande demais, desconhecida demais, difícil demais para se apreender. Mas, por volta de 1989, a paisagem cultural tinha mudado mais uma vez. Mudado até o ponto de me sentir — se não totalmente confortável — menos desconfortável de tirar minha história da gaveta, limpá-la, remover as manchas do seu rosto e enviá-la ao encontro das pessoas corretas. Assim, quando o editor Steve Niles me perguntou se eu não tinha alguma coisa inédita para sua antologia Words Without Pictures (Palavras sem imagens), dei-lhe este conto.

Poderia ter dito que não era uma história sobre a AIDS. Mas estaria mentindo, pelo menos em parte. E, hoje em dia, a AIDS parece ter se tornado, por bem ou por mal, apenas mais uma doença no arsenal de Vênus.

Penso, realmente, que este conto seja, principalmente, sobre solidão, identidade e, talvez, sobre as alegrias de trilhar seu próprio caminho no mundo.
Sestina do Vampiro
Minha única sestina bem-sucedida (um tipo de verso onde a última palavra de cada uma das seis primeiras linhas é repetida numa seqüência alternada nos versos seguintes e nas três linhas finais). Publicada pela primeira vez em Fantasy Tales (Contos de fantasia) e reiinpressa no Mammoth Book of Vampires (O livro monumental de vampiros) de Steve Jones, foi, durante anos, minha única obra de ficção sobre vampiros.
Camundongo
Esta história foi escrita para a edição de Pete Crowther, Touch Wood (Bata na madeira), uma antologia sobre superstições. Eu sempre quis escrever um conto do tipo dos de Raymond Carver; ele fazia parecer tão fácil. Escrever esta história me mostrou que não era.

Infelizmente, eu ouvi mesmo a transmissão de rádio mencionada no texto.


A Mudança do Mar
Escrevi este aqui no andar superior de uma minúscula casa escondida em Earls Court. Foi inspirado numa estátua de Lisa Snellings e numa lembrança da praia em Portsmouth, quando eu era menino: o chocalhar que o mar faz quando as ondas se arrastam sobre os seixos. Nessa época, eu estava escrevendo a última parte de Sandman, chamada de A tempestade, e trechos da peça de Shakespeare também chocalham por ela, exatamente como, então, chocalhavam pela minha mente,
Quando Fomos Assistir ao Fim do Mundo

Pon Dawnie Morningside, Idade: 11 e 3 Meses


Alan Moore (que é um dos escritores mais refinados e uma das melhores pessoas que conheço) é eu nos sentamos um dia em Northampton e começamos a falar sobre criar um lugar onde desejaríamos que as histórias se passassem. Um dia, a boa e honesta gente de Northampton queimará Alan como um feiticeiro e será uma grande perda para o mundo.
Vento do Deserto
Um dia, chegou uma fita cassete enviada por Robin Anders, mais conhecido como baterista do Boiled in Lead, com uma mensagem dizendo que ele queria que eu escrevesse algo sobre uma das músicas da fita. Chamava-se Desert Wind (Vento do deserto). Isto é o que escrevi.
Gostos
Levei quatro anos para escrever este conto. Não foi porque fiquei ajustando e polindo cada adjetivo, mas porque me senti constrangido. Escrevia um parágrafo e deixava o conto de lado até que o vermelho do rubor deixasse meu rosto. Então, quatro ou cinco meses depois, eu voltava e escrevia outro parágrafo. Comecei a redigir a história para Off Limits: Tales of Alien Sex (Fora dos limites: Contos de sexo alienígena) de Ellen Datlow, uma antologia de sexo e ficção científica. Perdi o prazo para a antologia, mas continuei a escrever para a próxima. Consegui fazer um pouco mais do que uma página e, de novo, perdi o prazo. Nessa época, liguei para Ellen Datlow e lhe avisei que, no caso da minha morte prematura, haveria um conto pornográfico quase terminado no meu disco rígido, num arquivo chamado Datlow e que não se tratava de nada pessoal. Mais dois prazos para antologias vieram e se foram e, quatro anos depois que escrevi o primeiro parágrafo, terminei o conto. Ellen Datlow e seu parceiro no crime, Terri Windling, incluíram-no em Sirens (Sereias), uma coleção de contos eróticos de fantasia.

A maior parte do conto surgiu de me perguntar o porquê de as pessoas, nas histórias de ficção, nunca parecerem falar enquanto fazem amor, ou nem mesmo quando transam. Não acho que o conto seja erótico, mas uma vez que estava, finalmente, terminado, parti de achá-lo constrangedor.


Bolinhos de Bebê
Uma fábula em benefício da PTEA (Pessoas em prol do Tratamento Ético dos Animais). Acho que passa a mensagem. É a única coisa que escrevi que me perturba. No ano passado, desci do meu quarto e encontrei meu filho Michael ouvindo Warning: Contains Language, meu CD falado. "Bolinhos de bebê" começou quando entrei na sala e me pegou de surpresa ao ouvir uma voz que mal reconheci como a minha lendo o texto em voz alta.

Para registro: eu uso casaco de couro e como carne, mas sou muito bom para com os bebês.


Mistério de Assassinato
Quando tive a idéia para este conto, chamava-se "Cidade dos anjos". Mas, na época que comecei de fato a escrevê-lo, estreou um show na Broadway com o mesmo título; então, quando a história estava concluída, dei-lhe um novo nome.

"Mistérios de assassinato" foi escrito para Jessie Horsting da revista Midnight Graffiti, a fim de fazer parte de sua antologia de bolso, também, coincidentemente, chamada de Midnight Graffiti. Pete Atkins, para quem mandei rascunho após rascunho por fax, à medida que escrevia e reescrevia o conto, foi de um auxílio inestimável ao me permitir sondar suas reações em relação ao projeto e um exemplo de paciência e bom humor.

Tentei jogar limpo com a parte de detetive do conto. Há pistas em toda parte. Há até uma no título.
Neve, Vidro e Maçãs
Esta é outra história que nasceu do livro de Neil Philip, The Penguin Book of English Folktales. Eu o lia na banheira quando me deparei com um conto que devo ter lido umas mil vezes antes (ainda tenho a versão ilustrada da história que ganhei quando tinha três anos). No entanto, aquela milésima primeira leitura foi a que me enfeitiçou e comecei a pensar na história, de trás para frente e do lado avesso. Fixou-se na minha cabeça por algumas semanas, e, então, num avião, comecei a escrevê-la à mão. Quando o avião aterrissou, eu já havia escrito três quartos do conto; assim que cheguei ao meu hotel, sentei-me numa cadeira num canto do quarto e continuei escrevendo até terminá-lo.

A narrativa foi publicada pela DreamHaven Press numa brochura de tiragem limitada em benefício do Comic Book Legal Defense Fund (Fundo Jurídico de Defesa dos Quadrinhos) — uma organização que defende os direitos da Primeira Emenda da constituição dos Estados Unidos de criadores, editores e revendedores de HQ. Poppy Z. Brite republicou-a na sua antologia Love in Vein II (Amar em vão II).

Gosto de pensar nesta história como um vírus. Uma vez que a tiver lido, você nunca mais conseguirá ler o conto original da mesma forma de novo.

Eu gostaria de agradecer a Greg Ketter, cuja editora DreamHaven Press publicou vários destes contos em Angels and Visitatiom (Anjos e visitações), uma coletânea de ficção, crítica de livros, jornalismo e outras coisas que escrevi, e que publicou ainda outras como dois livretos em benefício do Comic Book Legal Defense Fund.

Quero agradecer à multidão de editores que encomendaram, aceitaram e republicaram vários contos deste livro e a todos os leitores-cobaias (vocês sabem quem são) que me agüentaram entregando-lhes histórias, passando-lhes por fax ou e-mail e que as leram e me disseram, quase sempre de forma direta, o que precisava ser arrumado. Meus agradecimentos a todos. Jennifer Hershey acompanhou este livro como uma pastora, desde a idéia até a realização; com paciência, charme e conhecimento editorial. Eu não poderia agradecê-la o suficiente.

Cada um desses contos é uma reflexão sobre algo, que não é mais sólido do que um sopro de fumaça. São mensagens do País dos Espelhos e imagens em nuvens que mudam de forma: fumaça e espelhos, é tudo o que eles são. Mas eu gostei de escrevê-los e eles, por sua vez — gosto de imaginar —, apreciam ser lidos.

Bem-vindo.

— Neil Gaiman

dezembro de 1997
CAVALARIA
A Sra. Whitaker encontrou o Santo Graal; estava debaixo de um casaco de pele.

Toda quinta-feira à tarde, a Sra. Whitaker caminhava até a agência do correio para receber sua pensão, embora suas pernas não fossem mais as mesmas, e, no caminho de volta, costumava parar na Loja Oxfam e comprar alguma coisinha para si.

A Loja Oxfam vendia roupas usadas, quinquilharias, retalhos, bugigangas e uma grande quantidade de brochuras, tudo doado; despojos de segunda mão vindos, quase sempre, da faxina da casa de mortos. Todos os lucros iam para instituições de caridade.

A loja era administrada por voluntários. A voluntária de serviço naquela tarde era Marie, dezessete anos, um pouco acima do peso, vestindo um largo blusão cor de malva que parecia ter sido comprado na loja.

Marie estava sentada no caixa com um exemplar da revista Mulher Moderna, preenchendo um questionário "Revele Sua Personalidade Escondida". De vez em quando, ela dava uma olhada no final da revista e verificava os pontos dados à resposta A., B. ou C. antes de se decidir sobre como responder aquela pergunta.

A Sra. Whitaker andava indolentemente pela loja.

Ela notou que ainda não tinham vendido a naja empalhada. Já estava lá havia seis meses juntando poeira; seus olhos de vidro fitando malignamente os cabides de roupas e a estante repleta de porcelana lascada e de brinquedos mastigados.

A Sra. Whitaker acariciou sua cabeça quando passou por ela.

Ela pegou dois romances da Mills & Boon da prateleira — Sua alma trovejante e Seu coração turbulento, um xelim cada — e considerou cuidadosamente comprar a garrafa vazia de Mateus Rosé com uma cúpula de abajur decorativa antes de resolver que não tinha nenhum lugar para colocá-la. Pôs de lado um casaco de pele puído que recendia a naftalina. Debaixo dele, havia uma bengala e um exemplar manchado de água do Romance e lenda da cavalaria de A. R. Hope Moncrieff, que custava cinco pence. Próximo do livro, ao seu lado, estava o Santo Graal. Ele tinha uma pequena etiqueta redonda de papel na sua base, onde estava escrito, com caneta hidrocor, o preço: 30p.

A Sra. Whitaker pegou a empoeirada taça prateada e a avaliou através das grossas lentes dos seus óculos.

— Isto é de bom gosto — comentou com Marie, que, por sua vez, deu de ombros. — Vai ficar simpático no meu consolo de lareira.

Marie deu de ombros novamente.

A Sra. Whitaker deu 50 pence a Marie, que lhe devolveu 10 pence de troco e um saco de papel marrom para colocar os livros e o Santo Graal. Então, ela foi até o açougue, vizinho à loja, e comprou um belo pedaço de fígado. Daí, foi para casa.

A parle de dentro da taça estava coberta de uma densa poeira marrom-avermelhada. A Sra. Whitaker lavou-a com muito cuidado e a deixou de molho em água morna com uma pitada de vinagre por uma hora. Então, poliu-a com lustrador de metais até ficar brilhando e a colocou no consolo da lareira em sua sala de estar, onde ficou ao lado de um comovente cãozinho basset chinês e uma fotografia do seu finado marido, Henry, na praia em Frinton, em 1953.

Ela tinha razão: ficou muito simpático.

No jantar daquela noite, ela comeu o fígado frito com pedacinhos de pão e cebola. Estava muito bom.

O dia seguinte era sexta-feira. Em sextas-feiras alternadas, a Sra. Whitaker e a Sra. Greenberg visitavam-se. Hoje era a vez de a Sra. Greenberg Visitar a Sra. Whitaker. Sentaram-se na sala de estar e comeram biscoito de amêndoas e tomaram chá. A Sra, Whitaker pôs um torrão de açúcar no seu chá, mas a Sra. Greenberg usou adoçante, que ela sempre trazia na bolsa, numa caixinha de plástico.

— Aquilo ali é bonito — disse a Sra. Greenberg, apontando o Cálice, — O que é?

— É o Santo Graal — disse a Senhora Whitaker. — É o cálice do qual Jesus bebeu na Última Ceia. Depois, na Crucificação, ele recolheu Seu precioso sangue quando a lança do centurião perfurou Seu flanco.

A Sra. Greenberg fungou. Ela era pequena e judia e não aprovava coisas anti-higiênicas.

— Eu não sabia disso — disse ela —, mas é muito bonito. Nosso Myron ganhou um igualzinho quando venceu o torneio de natação, só que tinha o seu nome na lateral.

— Ele ainda está com aquela moça simpática? A cabeleireira?

— Bernice? Ah, sim. Estão até pensando em ficar noivos — disse a Sra. Greennberg.

— Que bom — disse a Sra. Whitaker e pegou outro biscoito de amêndoa.

A Sra. Greenberg fazia seus próprios biscoitos de amêndoa e os trazia toda sexta-feira alternada: pequenos biscoitos doces, marrom-claros com uma amêndoa em cima.

Falaram sobre Myron e Bernice, sobre o sobrinho da Sra. Whitaker, Ronald (ela não tinha tido filhos), e sobre a amiga de ambas, a Sra. Perkins, que estava no hospital descadeirada, coitadinha.

Ao meio-dia, a Sra. Greenberg foi para casa, e a Sra. Whitaker fez torradas com queijo para o almoço e, depois de comer, tomou suas pílulas: a branca, a vermelha e duas pequenas cor de laranja.

A campainha tocou.

A Sra. Whitaker atendeu. Era um jovem com cabelo pela altura do ombro, tão loiro que era quase branco, vestindo uma brilhante armadura prateada e uma sobreveste alva.

— Olá — disse ele.

— Olá — respondeu a Sra. Whitaker.

— Estou a procurar.

— Isso é bom — disse a Sra. Whitaker um tanto evasiva.

— Posso entrar? — perguntou.

A Sra. Whitaker meneou a cabeça negativamente.

— Sinto muito, creio que não — disse ela.

— Estou a procurar o Santo Graal — esclareceu o jovem. — Ele está aqui?

— Você tem alguma identificação? — indagou a Sra. Whitaker. Ela sabia que não era prudente deixar estranhos não identificados entrarem em sua casa quando se tem idade e se vive só. Bolsas são esvaziadas e podem acontecer coisas ainda piores.

O jovem voltou até o jardim da entrada. Seu cavalo, um enorme tordilho de assalto, tão grande quanto um percheron, de cabeça alta e olhos inteligentes, estava amarrado no portão do jardim da Sra. Whitaker. O cavaleiro remexeu no alforje e voltou com um rolo de pergaminho. Estava assinado pelo rei Artur, rei de todos os bretões, e exortava todas as pessoas de qualquer condição ou posição social a saber que ali estava Galaad, Cavaleiro da Távola Redonda, e que ele estava numa Busca Justa, Altiva e Nobre. Havia um desenho do rapaz debaixo do texto. A semelhança não era pequena.

A Sra. Whitaker assentiu com a cabeça. Ela estava esperando um cartãozinho com uma fotografia, mas aquilo era muito mais impressionante.

— Creio que seja melhor você entrar — disse ela.

Foram, então, para a cozinha, Ela preparou uma xícara de chã para Galaad e, depois, levou-o para a sala de estar.

Galaad viu o Cálice no consolo da lareira e se ajoelhou sobre uma perna. Colocou cuidadosamente a xícara no tapete castanho avermelhado. Uma haste de luz entrou através da cortina de filó e pintou seu rosto, pleno de reverência, com o dourado do sol, transformando seu cabelo num halo de prata.

— É verdadeiramente o Santo Graal — disse ele muito pausadamente. Piscou os olhos claros três vezes, bem rápido, como que para reter as lágrimas, e baixou a cabeça como se estivesse orando em silêncio.

Galaad levantou-se novamente e se dirigiu à Sra. Whitaker:

— Bondosa dama, Guardiã do Mais Sagrado dos Sagrados, permite-me deixar este lugar com o Cálice Abençoado, findando assim minha jornada e cumprindo minha missão.

— Como? — disse a Sra. Whitaker.

Galaad caminhou até ela e colocou suas velhas mãos nas suas:

— Minha busca terminou — explicou. — O Cálice Sagrado está finalmente ao meu alcance.

A Sra. Whitaker franziu os lábios:

— Você pode pegar a xícara e o pires do chão, por favor? — disse ela. Galaad recolheu a porcelana caída, desculpando-se.

— Não, acho que não — disse a Sra. Whitaker. — Gosto dele onde está, entre o cachorro e a fotografia do meu Henry.

— É ouro que tu queres? É isso? Posso trazer-te ouro...

— Não — disse a Sra. Whitaker. — Não quero ouro algum, obrigada. Simplesmente não estou interessada.

Ela acompanhou Galaad até a porta da frente.

— Prazer em conhecê-lo — disse ela.

O cavalo do jovem estava com a cabeça inclinada sobre a cerca do jardim, mordiscando as palmas-de-santa-rita da senhora. Algumas crianças da vizinhança observavam-no da calçada.

Galaad pegou alguns torrões de açúcar do alforje e mostrou às crianças mais corajosas como alimentar o cavalo, com as mãos espalmadas para oferecer o açúcar. As crianças riram. Uma das meninas mais velhas acariciou o focinho do animal.

Galaad saltou sobre a sela num movimento fluídico. Então, cavalo e cavaleiro afastaram-se a trote, descendo a Rua Hawthorne Crescent.

A Sra. Whitaker observou-os até sumirem de vista, deu um suspiro e voltou para casa.

O fim de semana foi tranqüilo.

No sábado, ela foi de ônibus até Maresfield visitar seu sobrinho Ronald, sua esposa Euphonia e as filhas deles, Clarissa e Dillian. Levou-lhes um bolo de groselha que ela mesma havia preparado.

No domingo de manhã, a Sra. Whitaker foi à igreja. Sua paróquia era a de São Jaime Menor, que era um pouco "não pense nela como uma igreja, mas como um lugar onde pessoas com as mesmas idéias se encontram e são felizes" demais para que a Sra. Whitaker se sentisse completamente à vontade, mas gostava do vigário, o Reverendo Bartholomew, desde que ele não cismasse de tocar violão.

Após o serviço, pensou em contar-lhe que ela possuía o Santo Graal na sua sala de estar, mas resolveu não dizer nada.

Na segunda-feira de manhã, a Sra. Whitaker estava trabalhando no jardim dos fundos. Ela tinha uma pequena horta de ervas da qual muito se orgulhava: endro, verbena, hortelã, alecrim, tomilho e um grande canteiro com salsa.

Ela estava ajoelhada, calçando grossas luvas verdes de jardinagem, arrancando ervas daninhas e pegando lesmas, as quais colocava num saco plástico. A Sra. Whitaker era muito compassiva quando se tratava de lesmas. Costumava levá-las até a parte de trás da sua horta, que fazia divisa com a linha do trem, e as jogava por cima da cerca.

Ela colheu um pouco de salsa para a salada. Ouviu, então, alguém tossir às suas costas. Galaad estava lá, de pé, alto e belo, sua armadura brilhando no sol da manhã. Segurava em seus braços um embrulho comprido, envolto em couro untado com óleo.

— Estou de volta — disse ele.

— Bom — respondeu ela, erguendo-se com certa lentidão —, já que está aqui, você bem que podia me ajudar.

Ela lhe deu o saco cheio de lesmas e disse-lhe que as jogasse atrás da cerca. Ele as jogou. Depois, foram para a cozinha.

— Chá ou limonada? — perguntou ela.

— O que quer que tu estiveres tomando — disse Galaad.

A Sra. Whitaker pegou uma jarra da sua limonada caseira da geladeira e mandou Galaad ir buscar um ramo de hortelã no quintal. Escolheu dois copos longos, lavou a hortelã cuidadosamente e colocou algumas folhas em cada recipiente. Então, serviu a limonada.

— Seu cavalo está lá fora? — perguntou ela.

— Sim, seu nome é Grizzel.

— E suponho que você tenha feito uma longa viagem.

— Sim, muito longa.

— Sei — disse a Sra. Whitaker. Ela pegou uma vasilha de plástico azul debaixo da pia e a encheu de água até a metade. Galaad levou-a para fora, até Grizzel. Ele esperou enquanto o cavalo bebia e trouxe a vasilha vazia de volta à Sra. Whitaker.

— Bom — disse ela —, suponho que você ainda esteja a procura do Graal.

— Deveras, ainda estou a procurar o Cálice Sagrado — disse ele. Pegou o embrulho de couro do chão, colocou-o sobre a toalha de mesa e o desembrulhou. — Por ele, ofereço-te isto.

— É muito linda — disse a Sra. Whitaker ambíguamente.

— Esta — disse Galaad — é a espada Balmung, forjada por Wayland, o Ferreiro, no amanhecer dos tempos. Sua gêmea é Flamberge. Quem a possui não pode ser conquistado na guerra e é invencível em batalha. Quem a empunha é incapaz de atos covardes ou ignóbeis. No botão do seu punho, está colocada a sardônica Bircone, que protege o dono de veneno derramado no vinho, ou na cerveja, e da traição de amigos.

A Sra. Whitaker examinou a espada,

— Deve ser muito afiada — disse ela depois de um tempo.

— É capaz de cortar em dois um fio de cabelo que está a cair. Na verdade, poderia cortar um raio de sol — proferiu Galaad orgulhoso.

— Bom, então talvez você devesse guardá-la — disse a Sra. Whitaker.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal