FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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— Tu não a queres? — Galaad parecia desapontado.

— Não, obrigada — disse a Sra. Whitaker. Ocorreu-lhe que o seu finado marido, Henry, teria gostado muito dela. Ele a penduraria na parede do seu estúdio ao lado da carpa empalhada que havia pescado na Escócia e a mostraria às visitas.

Galaad enrolou o couro untado com óleo ao redor da espada Balmung e o amarrou com uma corda branca.

E ficou sentado lá, desconsolado.

A Sra. Whitaker fez sanduíches de requeijão com pepino para ele levar na sua jornada de volta e os embrulhou em papel à prova de gordura. Deu-lhe também uma maçã para Grizzel. Ele deu a impressão de estar muito agradecido com as duas oferendas.

Ela se despediu deles com acenos.

Naquela tarde, foi de ônibus ao hospital ver a Sra. Perkins, que ainda estava descadeirada, coitada. A Sra. Whitaker levou-lhe bolo de frutas caseiro, apesar de ter deixado de lado as amêndoas da receita, pois os dentes da Sra. Perkins não eram mais o que costumavam ser.

Assistiu a um pouco de televisão aquela noite e foi cedo para a cama.

Na terça-feira, o carteiro tocou a campainha. A Sra. Whitaker estava em cima, no quarto de despejo, fazendo faxina e, descendo cada degrau vagarosa e cuidadosamente, não chegou em baixo a tempo. O carteiro tinha deixado uma mensagem dizendo que tentara entregar um pacote, mas não havia ninguém em casa.

A Sra. Whitaker suspirou.

Ela colocou a mensagem na sua bolsa e foi até o correio,

O pacote era da sua sobrinha Shirelle, de Sidnei, Austrália. Continha fotografias do marido dela, Wallace e das duas filhas, Dixie e Violet, e uma concha enrolada em lã de algodão.

A Sra. Whitaker tinha várias conchas ornamentais no seu quarto. A sua preferida tinha uma vista das Bahamas pintada em esmalte. Era um presente da sua irmã, Ethel, que morrera em 1983.

Colocou as fotografias e a concha na sua sacola de compras. Então, aproveitando que estava naquela área, parou na Loja Oxfam a caminho de casa.

— Oi, Sra. W. — disse Marie.

A Sra. Whitaker fitou-a. Marie estava usando batom (provavelmente não o melhor tom para ela, nem particularmente bem aplicado, mas, pensou a Sra. Whitaker, isso viria com o tempo) e uma saia bem elegante. Era, sem dúvida, um grande progresso.

— Olá, querida — disse a Sra. Whitaker.

— Um homem veio aqui a semana passada, perguntando sobre aquela coisa que a senhora comprou. Aquela pequena taça de metal. Eu lhe disse onde achá-la. A senhora não se importou, né?

— Não, querida — disse a Sra. Whitaker. — Ele me encontrou.

— Ele era mesmo um sonho. Um sonho de verdade — suspirou Marie, tristonha. — Eu poderia fazer qualquer coisa por ele. E tinha um cavalo grande e tudo o mais — concluiu Marie. Ela estava de pé com as costas retas, notou a Sra. Whitaker, aprovando.

Na estante, a Sra. Whitaker encontrou um novo romance da Mills & Boon — Sua paixão majestosa — apesar de não ter acabado de ler os dois que ela comprara na sua última visita.

Pegou o exemplar do Romance e lenda da cavalaria e abriu. Cheirava a mofo. No alto da primeira página, estava caprichosamente escrito à mão com tinta vermelha EX LIBRIS FISHER.

Ela o colocou de volta onde o tinha encontrado.

Quando chegou em casa, Galaad a estava esperando. Ele dava voltas em Grizzel com as crianças da vizinhança na garupa, rua acima e abaixo.

— Estou feliz que você esteja aqui — disse ela. — Tenho algumas malas que preciso mudar de lugar.

Ela o levou ao quarto de despejo, no alto da casa. Ele tirou todas as velhas malas, assim a senhora conseguiu alcançar o guarda-louças que jazia no fundo. Estava tudo muito empoeirado. Ela o manteve lá em cima a maior parte da tarde, tirando coisas do lugar, enquanto espanava o pó.

Galaad tinha um corte no rosto e um dos seus braços estava um pouco teso.

Conversaram um pouco enquanto ela tirava o pó e faxinava. A Sra. Whitaker contou-lhe sobre seu finado marido, Henry; sobre como o seguro de vida tinha pago o saldo da casa; sobre como tinha conseguido todas aquelas coisas, mas não tinha ninguém para deixá-las, ninguém exceto Ronald, cuja esposa só gostava de coisas modernas. Contou como conhecera Henry durante a guerra, quando ele estava no ARP e ela não tinha fechado as cortinas de defesa antiaérea da cozinha; sobre os bailes de seis pence a que iam na cidade; sobre a mudança do casal para Londres quando a guerra acabou e onde ela bebera vinho pela primeira vez.

Galaad contou à Sra. Whitaker sobre sua mãe, Elaine, que era leviana e não tão boa quanto deveria ter sido e alguma coisa sobre uma bruxa a expulsar; sobre seu avô, o Rei Pelles, que era bem-intencionado, mas um tanto confuso; sobre sua adolescência no Castelo de Bliant, na Ilha Jubilosa; sobre seu pai, a quem ele conhecia como "Le Chevalier Mal Fet", que, em maior ou menor grau, era completamente louco e que, na verdade, era Lancelot du Lac, o maior de todos os cavaleiros, disfarçado e destituído de suas faculdades mentais; e sobre seus dias como um jovem escudeiro em Camelot.

Às cinco horas, a Sra. Whitaker examinou o quarto de despejo e decidiu que estava como queria. Então, ela abriu a janela do quarto para arejar e eles desceram para a cozinha, onde pôs água numa chaleira para ferver.

Galaad sentou-se à mesa da cozinha. Abriu a algibeira de couro que trazia na cintura e tirou de dentro uma pedra redonda e branca. Era mais ou menos do tamanho de uma bola de críquete.

— Minha dama — disse ele —, isto é para ti em troca do Cálice.

A Sra. Whitaker pegou a pedra, que era mais pesada do que parecia, e a colocou contra a luz. Era de uma cor láctea translúcida e, por dentro, salpicada de prata rutilante; ela lampejava na luz do sol de fim de tarde. Era quente ao toque.

Então, enquanto a segurava, uma estranha sensação subiu pelo seu corpo — lá no fundo, sentiu calma e paz. Serenidade, era esta a palavra para a sensação. Sentiu-se serena. Relutantemente, colocou a pedra sobre a mesa.

— É muito bonita — disse.

— Esta é a Pedra Filosofal, que o nosso antepassado Noé pendurou na Arca para que houvesse luz, quando luz não havia. Pode transformar metais não-preciosos em ouro e certamente possui outras propriedades — Gaalad narrou orgulhoso. — E não é tudo. Veja. — Ele tirou um ovo da bolsa de couro e lhe deu.

Era do tamanho de um ovo de ganso, de uma cor negra brilhante, mosqueado de escarlate e branco. Quando a Sra. Whitaker o tocou, o cabelo da sua nuca se eriçou. Sua primeira impressão foi de um calor e de uma liberdade inacreditáveis. Ela ouviu o estalar de fogueiras distantes e, por uma fração de segundo, pareceu se sentir muito acima do mundo, precipitando-se e mergulhando com asas de chama. Ela colocou o ovo na mesa, ao lado da Pedra Filosofal.

— Este é o ovo da Fênix — disse Galaad. — Vem da distante Arábia. Um dia, eclodirá no próprio Pássaro Fênix; e, quando isso acontecer, a ave fará um ninho de fogo, botará seu ovo e morrerá para renascer das chamas, numa era posterior deste mundo.

— Achei que fosse isso — disse a Sra. Whitaker.

— E, por último, senhora — anunciou Galaad —, trouxe-lhe isto.

Ele tirou algo da bolsa e lhe deu. Era uma maçã, aparentemente esculpida de um único rubi, num pedúnculo de âmbar.

Um pouco tensa, ela a pegou. Era macia de se tocar — enganosamente —, seu dedos a machucaram e um suco cor de rubi escorreu da maçã pela mão da Sra. Whitaker.

A cozinha encheu-se — quase imperceptível e magicamente — do aroma de frutas do verão, de framboesas, pêssegos, morangos e groselhas. De um lugar muito longe, ela ouviu vozes distantes que se elevavam no ar em canções e músicas longínquas.

— É uma das maças das Espérides — disse Galaad em voz serena. — Uma mordida cura qualquer doença ou ferida, não importa a gravidade. Uma segunda restaura a beleza e a juventude; e uma terceira concede a vida eterna.

A Sra. Whitaker lambeu o líquido viscoso da sua mão. Tinha gosto de vinho refinado.

Então, súbito, tudo voltou a ela — como era ser jovem: ter um corpo firme e esbelto que faria tudo o que desejasse; descer correndo uma alameda campestre pela simples alegria de correr como uma menina mal-comportada; de ter homens lhe sorrindo apenas por ser ela mesma e estar feliz por isso.

A Sra. Whitaker olhou para Sir Galaad, o mais gracioso entre todos os cavaleiros, sentado belo e nobre na sua pequena cozinha.

Ela prendeu a respiração.

— E isto é tudo o que eu te trouxe — disse Galaad. Também não foi fácil consegui-los.

A Sra. Whitaker colocou a fruta de rubi sobre a mesa da cozinha. Ela olhou a Pedra Filosofal, o Ovo da Fênix e a Maçã da Vida. Então, foi para a sala de estar e olhou o consolo da lareira — o cãozinho basset chinês, o Santo Graal e a fotografia em preto branco do seu finado marido, Henry, sem camisa, sorrindo e tomando um sorvete, quase quarenta anos antes.

Ela voltou para a cozinha. A chaleira tinha começado a apitar. Pôs um pouco de água fervente no bule de chá, fê-la girar lá dentro e jogou-a fora. Depois colocou três colheres cheias de chá no bule e o resto da água. Fez tudo isso em silêncio.

Então voltou-se para Galaad e olhou para ele.

— Guarde essa maçã — disse a Galaad com firmeza. — Você não deveria oferecer uma coisa dessas a senhoras de idade. Não é adequado.

Ela fez uma pausa.

— Mas ficarei com os outros dois — prosseguiu após um momento de reflexão. — Eles ficarão bem no consolo da lareira. E dois por um é justo, ou eu não sei o que é ser justo.

Galaad sorriu exultante. Ele colocou a maçã de rubi na sua algibeira de couro. Dai, ajoelhou-se e beijou a mão da Sra. Whitaker.

— Pare com isso — disse a Sra. Whitaker. Ela serviu duas xícaras de chá, retiradas da sua melhor porcelana chinesa, usada só em ocasiões especiais.

Eles se sentaram e tomaram o chá em silêncio.

Quando acabaram, foram até a sala de estar.

Galaad fez o sinal-da-cruz e pegou o Graal.

A Sra. Whitaker arrumou o Ovo e a Pedra onde o Graal tinha estado. O Ovo ficava caindo para um lado, e ela o apoiou no cachorrinho de porcelana chinesa.

— Ficou muito bom — disse a Sra. Whitaker.

— Sim — concordou Galaad, — Ficou muito bom.

— Posso dar alguma coisa para você comer antes de partir? — perguntou ela.

Ele fez que não, com a cabeça,

— Um bolo de frutas — disse ela. — Pode ser que você não queira agora, mas vai me agradecer daqui a algumas horas. E talvez seja melhor ir ao banheiro. Agora, dê-me isso aí que eu embrulho.

Disse-lhe onde era o pequeno toalete, no fim do corredor, e foi até a cozinha, com o Graal. Ela tinha algum papel de embrulho de Natal na despensa e embrulhou o Cálice nele, amarrando o pacote com barbante. Então, cortou um grande pedaço de bolo de frutas e o colocou num saco de papel marrom, junto com uma banana e um pedaço de queijo fundido, enrolado em papel alumínio.

Galaad voltou do banheiro. Ela lhe deu o saco de papel e o Santo Graal. Daí, ficou nas pontas dos pés e o beijou no rosto.

— Você é um bom moço — disse ela. — Cuide-se.

Ele a abraçou e ela o enxotou para fora da cozinha até a porta dos fundos e a fechou atrás dele. Em seguida, serviu-se de outra xícara de chá e chorou mansamente num Kleenex, enquanto ouvia o som dos cascos ecoando pela Hawthorne Crescent.

Na quarta-feira, a Sra. Whitaker ficou em casa o dia inteiro.

Na quinta-feira, foi até a agência do correio receber sua pensão. Depois, parou na Loja Oxfam.

A mulher no caixa era outra, que ela não conhecia.

— Onde está a Marie? — perguntou a Sra. Whitaker.

A mulher do caixa, que tinha cabelos grisalhos azulados de tintura e usava óculos de aro de ouro, sacudiu a cabeça e deu de omhros.

— Foi embora com um jovem — disse —, a cavalo. Tsc, tsc. Veja só. Era para eu estar na loja Heathfield esta tarde. Tive de pedir ao meu Johnny para me trazer aqui, enquanto procuramos outra pessoa.

— Ah — disse a Sra. Whitaker. — Bem, que bom que ela encontrou um rapaz para si.

— Talvez seja bom para ela — disse a senhora do caixa. — Mas era para alguém estar na Heathfield esta tarde.

Na prateleira dos fundos da loja, a Sra. Whitaker encontrou um velho recipiente de prata sem lustro, com um bico comprido. Custava 60 pence, de acordo com a pequena etiqueta de papel colada ao lado. Parecia um pouco com um bule de chá comprido e achatado.

Ela apanhou um romance da Mills & Boon que ainda não tinha lido. Chamava-se Seu amor singular. Levou o livro e o recipiente de prata até a mulher do caixa.

— Sessenta e cinco pence, querida — disse a mulher pegando o objeto de prata e observando-o, — Velharia curiosa, não? Chegou esta manhã. — Havia uma inscrição entalhada do lado em letras chinesas e uma elegante alça em forma de arco, — Algum tipo de lata de óleo, suponho.

— Não, não é uma lata de óleo — disse a Sra. Whitaker, que sabia exatamente o que era. — É uma lâmpada.

Havia um pequeno anel de metal, sem ornamentos, amarrado na alça com barbante marrom.

— Na verdade — disse a Sra. Whitaker —, pensando bem, acho que vou comprar só o livro.

Ela pagou os cinco pence pelo romance e colocou a lâmpada de volta onde a tinha achado, nos fundos da loja. Afinal de contas, pensou a Sra. Whitaker enquanto voltava a pé para casa, não havia mesmo onde colocar aquela lâmpada.

NICHOLAS ERA...


mais velho que o pecado e sua barba não podia ficar mais branca. Ele queria morrer.

Os anões nativos das cavernas do Ártico não falavam sua língua, mas chilreavam na deles e realizavam rituais incompreensíveis quando não estavam trabalhando nas fábricas.

Uma vez por ano, forçavam-no, aos prantos e sob protestos, pela Noite Sem Fim. Durante a jornada, permaneceria ao lado de cada criança do mundo, deixando um dos presentes invisíveis dos anões ao pé da cama.

As crianças dormiam, congeladas no tempo.

Ele invejava Prometeu e Loki, Sísifo e Judas. Seu castigo era mais sombrio.

Ho.


Ho.

Ho.


O PREÇO
Andarilhos e vagabundos têm marcas que fazem nos mourões, árvores e portas para informar aos da sua laia um pouco sobre as pessoas que vivem nas casas e fazendas por onde passam em suas viagens. Acho que os gatos devem deixar sinais semelhantes. De que outra forma explicar os gatos que aparecem na nossa porta no decorrer do ano, famintos, infestados de pulgas e abandonados?

Nós os acolhemos, os livramos das pulgas e dos carrapatos, os alimentamos e os levamos ao veterinário. Pagamos para que eles sejam cuidados e, afronta das afrontas, para que sejam castrados ou tenham seus ovários retirados.

E então ficam conosco: por alguns meses, por um ano ou para sempre.

A maioria deles chega no verão. Nós moramos no campo, longe da cidade, na distância exata para que seus moradores abandonem seus gatos perto de nós.

Acho que nunca tivemos mais de oito gatos; raramente temos menos de três. No momento, a população felina da minha casa é a seguinte: Hermione e Vagem, malhada e preta, respectivamente, as irmãs malucas que vivem no meu escritório do sótão e não se misturam; Floco de Neve, a gata de olhos azuis e pêlo branco e comprido que viveu livre no mato por anos até trocar seus modos selvagens por camas e sofás; e por último, porém maior que todas, Bola de Pêlo, a filha mosqueada de pêlo comprido da Floco de Neve, amarela, preta e branca, que um dia descobri filhote minúsculo, na garagem, estrangulada e quase morta, com a cabeça metida numa velha rede de badminton, e que surpreendeu a todos nós por não ter morrido, pelo contrário, por ter crescido e se tornado a gata de melhor índole que já encontrei.

E há o gato preto, que não tem outro nome além de Gato Preto e que apareceu há quase um mês. Não achávamos que fosse morar aqui: parecia muito bem alimentado para ser um gato de rua; velho e vistoso demais para ter sido abandonado. Lembrava uma pequena pantera e se movia como um fragmento da noite.

Um dia, no verão, ele estava à espreita na nossa varanda em ruínas: oito ou nove anos — num bom palpite — macho, olhos amarelo-esverdeados, muito amistoso, imperturbável. Achei que pertencia a algum fazendeiro vizinho ou a seu empregado.

Viajei por algumas semanas, para acabar de escrever um livro, e quando voltei ele ainda estava na nossa varanda, morando numa velha cama de gatos que uma das crianças lhe arranjara. Estava, entretanto, quase irreconhecível. Pedaços de pêlo tinham caído e havia arranhões fundos na sua pele cinza. A ponta de uma orelha tinha sido decepada a mordidas. Havia um talho debaixo de um olho e um pedaço do lábio tinha sido arrancado. Ele parecia fraco e extenuado.

Levamos o Gato Preto ao veterinário, que lhe prescreveu antibióticos, que eram dados todas as noites, misturados com uma comida mole de gato. Ficamos nos perguntando com quem ele havia brigado. Floco de Neve, nossa feroz e linda rainha branca? Guaxinins? Um gambá com presas afiadas?

Os arranhões pioravam a cada noite — certa madrugada, ele apareceu com a ilharga mordida; na seguinte, foi sua barriga, lanhada, com marcas de garras, que sangrava quando tocada.

Quando chegou nesse ponto, levei-o ao porão para que se recuperasse ao lado da fornalha e de uma pilha de caixas. O Gato Preto era surpreendentemente pesado; eu o carreguei lá para baixo, junto com o cesto, com a caixa de areia e com um pouco de água e comida. Fechei a porta atrás de mim. Tive de lavar o sangue das minhas mãos quando saí do porão.

Ele ficou lá embaixo por três ou quatro dias. À primeira vista, parecia fraco demais para se alimentar sozinho: um corte debaixo do olho tinha-o deixado quase caolho e o animal mancava e se reclinava fracamente, o pus amarelo vertendo do corte no seu lábio.

Eu descia lá todas as manhãs e todas as noites para alimentá-lo; dava antibióticos, que eu misturava com sua comida em lata, limpava muito cuidadosamente seus piores cortes e falava com ele. O pobrezinho estava com diarréia e, apesar de eu trocar sua caixa de areia diariamente, o porão exalava um forte mau cheiro.

Os quatro dias que o Gato Preto ficou no porão foram péssimos na minha casa. O bebê escorregou na banheira, bateu a cabeça e quase se afogou. Soube que um projeto meu, a que eu me dedicara de corpo e alma — a adaptação do romance de Hope Mirrlees, Lud na neblina para a BBC —, não ia mais acontecer, e percebi que não tinha mais energia para recomeçar a partir do zero, vendendo-o para outras emissoras ou para outras mídias. Minha filha foi para um acampamento de verão e imediatamente começou a mandar para casa um excesso de cartas e postais de cortar o coração, implorando-nos para trazê-la de volta. Meu filho brigou com seu melhor amigo a ponto de não estarem mais se falando. E minha esposa, voltando para casa numa noite, atropelou um veado que surgiu na frente do carro. A criatura morreu, o carro ficou sem poder mais rodar e minha mulher sofreu um pequeno corte na sobrancelha.

No quarto dia, o gato rondava pelo porão, andando hesitante porém impacientemente entre as pilhas de livros e revistas em quadrinhos, das caixas de correspondência e de fitas cassete, de fotografias, de presentes e outras quinquilharias. Ele miou para mim a fim de que eu o deixasse sair e, relutantemente, foi o que fiz.

Ele voltou para a varanda e dormiu lá pelo resto do dia.

Na manhã seguinte, havia novos e profundos cortes nos seus flancos e chumaços de pêlo preto de gato — seu pêlo — cobriam as tábuas da varanda.

Chegaram cartas da nossa filha naquele dia, dizendo que o acampamento estava melhor e que ela podia agüentar mais alguns dias; meu filho e seu amigo resolveram suas desavenças, apesar de eu nunca ter sabido — figurinhas, jogos de computador, Guerra nas estrelas ou uma garota — qual fora o motivo da briga. Soube-se que o executivo da BBC que tinha vetado Lud na neblina estava recebendo propina (bem, "empréstimos questionáveis") de uma produtora independente e tinha sido mandado para casa numa licença permanente: sua sucessora, fiquei feliz em saber quando ela me mandou um fax, era a mulher que tinha inicialmente me proposto o projeto antes de sair da BBC.

Pensei em levar o Gato Preto de volta ao porão, mas resolvi que não. Em vez disso, decidi tentar descobrir que tipo de animal estava vindo à nossa casa e; a partir do que descobrisse, formular um plano de ação — capturá-lo com uma armadilha, talvez.

Minha família costuma me dar de presente de aniversário e de Natal engenhocas e geringonças, brinquedos caros que excitam minha imaginação, mas que, em última análise, raramente saem de suas caixas. Há um desidratador de alimentos e uma faca de trinchar elétrica, uma máquina de fazer pães e, no ano passado, ganhei um binóculo para ver no escuro. No dia de Natal, coloquei pilhas no binóculo e andei pelo porão no escuro, impaciente demais até mesmo para esperar anoitecer, espreitando um bando imaginário de estorninhos (Advertem para que não seja ligado com a luz acesa: isso pode danificar o binóculo e possivelmente seus olhos). Depois, coloquei o aparelho de volta na sua caixa, onde continua quieto, no meu escritório, ao lado da caixa de cabos do computador e de bugigangas esquecidas.

Talvez, pensei eu, a criatura — cão, gato, guaxinim, ou o que quer que fosse — não viesse se me visse sentado na varanda. Então, levei uma cadeira para o quarto de vestir, que é apenas um pouco maior do que um guarda-roupas, do qual se avista a varanda e, quando todo mundo na casa já estava dormindo, fui até lá e dei boa-noite ao Gato Preto.

O gato, disse minha mulher a primeira vez que ele chegou em casa, é uma pessoa. E havia algo muito humano na sua enorme cara leonina; seu largo nariz negro, seus olhos amarelo-esverdeados, sua boca amável, mas cheia de presas (de onde ainda pingava pus cor de âmbar do lábio inferior direito).

Acariciei sua cabeça e cocei seu pescoço, debaixo do queixo, e desejei-lhe boa sorte. Daí, entrei e apaguei a luz da varanda.

Sentei-me na minha cadeira dentro de casa, na escuridão, com o binóculo de ver no escuro no colo. Liguei o binóculo e um fio de luz esverdeada saiu das lentes,

O tempo passava, no escuro.

Eu experimentei o binóculo olhando as trevas, aprendendo a focar, a ver o mundo em tons de verde. Fiquei horrorizado pela quantidade de insetos que pude enxergar infestando o ar noturno: era como se a noite fosse algum tipo de pesadelo, uma sopa inundada de vida. Então, tirei o binóculo dos meus olhos e observei os ricos negros e azuis da noite, vazia, pacífica e calma.

O tempo passava. Eu lutava para me manter acordado, sentindo muito a falta de cigarros e café, meus dois vícios esquecidos. Qualquer um deles teria mantido meus olhos abertos. Mas, antes de eu ter caído muito fundo no mundo do sono e dos sonhos, um uivo vindo do jardim me acordou totalmente. Desajeitado, levei o binóculo aos meus olhos e decepcionei-me ao ver que era apenas Floco de Neve, a gata branca, riscando o jardim da frente corno uma mancha de luz branco-esverdeada. Ela desapareceu na mata à esquerda da casa e não voltou mais.

Eu estava quase me sentando de novo, quando me ocorreu que deveria tentar descobrir o que exatamente tinha assustado Floco de Neve. Então, comecei a rastrear as proximidades com o binóculo, procurando um guaxinim, um cão ou um gambá feroz. E havia, realmente, alguma coisa indo pela entrada da garagem em direção à casa. Eu podia ver com o binóculo, claro como água.

Era o Diabo.

Eu nunca tinha visto o Diabo antes e, apesar de ter escrito sobre ele no passado, se me pressionassem, teria confessado que não acreditava nele, a não ser como uma figura imaginária, trágica e miltoniana. A figura que vinha pela entrada da garagem não era o Lúcifer de Milton. Era o Diabo.

Meu coração começou a golpear o peito, a esmurrar tão forte que doeu. Tive esperança de que ele não me visse; que, na casa escura, atrás do vidro da janela, eu estivesse escondido.

A figura esvoaçava e se transformava enquanto andava pela entrada da casa. Num momento, era escura, com a forma de um touro, ou de um minotauro; noutro, era esbelta e feminina e, logo em seguida, era um gato, enorme, um gato selvagem cinza-esverdeado, coberto de cicatrizes, com a cara contorcida de ódio.




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