FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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As crianças não brincavam com ela. Ficava no fundo da velha arca de madeira onde guardavam brinquedos, que era do mesmo tamanho e idade da arca de tesouro do pirata, ou, ao menos, era isso que as crianças achavam. A caixa de surpresas estava enterrada debaixo de bonecas e trens, palhaços e estrelas de papel, velhos truques de mágica e marionetes aleijadas com seus fios irremediavelmente embaraçados, roupas elegantes (aqui os farrapos do vestido de uni antigo casamento, lá um chapéu negro de seda, coberto com as crostas de tempos e eras) e bijuterias, armações para saias-balão, peões e cavalinhos de pau quebrados. Debaixo de todos eles, ficava a caixa de surpresas.

Os pequenos não brincavam com ela. Sussurravam entre si, sozinhos no quarto de criança do sótão. Nos dias cinzas, quando o vento uivava ao redor da casa e a chuva retinia nas telhas de ardósia e tamborilava no beiral do telhado, as crianças contavam histórias umas às outras sobre o palhaço da caixa, apesar de nunca o terem visto. Uma afirmava que o palhaço era um mago mau, colocado na caixa como punição por crimes horríveis demais para serem descritos; outra (estou certo de que devia ser uma das meninas) dizia que o recipiente era a Caixa de Pandora e que o palhaço havia sido colocado ali como guardião para evitar que as coisas más que estavam lá dentro escapassem novamente. Elas nem mesmo tocavam na caixa, se pudessem evitar, apesar de, como acontecia vez ou outra, quando algum adulto dava pela falta da velha e encantadora caixa de surpresas e a tirava da arca, colocando-a numa posição de honra sobre o consolo da lareira, a meninada criar, então, coragem e, mais tarde, a esconder de novo na escuridão.

As crianças não brincavam com a caixa de surpresas. Quando cresceram e deixaram a grande casa, o quarto de brincar do sótão foi fechado e quase esquecido.

Quase, mas não inteiramente. Afinal, cada uma delas lembrava-se de andar sozinha sob a luz azul da lua, descalça, subindo até lá. Era quase um sonambulismo, pés silenciosos sobre a madeira das escadas, sobre o tapete puído do quarto de criança. Lembravam-se de abrir a arca do tesouro, tateando através das bonecas e roupas e de lá tirar a caixa.

Então, a criança tocava o trinco e a tampa se abria, devagar como um pôr-do-sol, a música começava a tocar e o palhaço saía. Não com um estalo e um pulo: não era um palhaço com mola. Mas, deliberada e intencionalmente, ele se erguia da caixa, acenando para que a criança chegasse mais perto, mais perto e sorrisse.

E, sob a luz da lua, ele contava a cada uma delas coisas de que nunca conseguiriam se lembrar por completo; coisas que nunca seriam capazes de esquecer inteiramente.

O menino mais velho morreu na Grande Guerra. O mais novo, depois que os pais morreram, herdou a casa, apesar de a terem tomado dele quando, uma noite, foi encontrado no porão com panos, parafina e fósforos, tentando incendiar a mansão. Foi internado no hospício, e talvez ainda esteja lá.

As outras crianças, que outrora foram meninas e agora eram mulheres, declinaram, cada uma delas, voltar para a casa na qual haviam crescido. Tábuas foram pregadas nas janelas e as portas trancadas com enormes chaves de ferro; as irmãs visitavam-na com tanta freqüência quanto visitavam o túmulo do seu irmão mais velho, ou o triste ser que uma vez fora seu irmão mais novo, o que equivale a dizer nunca.

Os anos passaram e as meninas são velhas; corujas e morcegos fizeram suas casas no velho quarto de criança do sótão. Os ratos fazem seus ninhos entre brinquedos esquecidos. As criaturas fitam sem curiosidade as figuras desbotadas da parede e mancham os restos do tapete com seus excrementos.

E, no fundo da caixa dentro da arca, o palhaço espera e sorri, guardando seus segredos. Ele espera pelas crianças. Ele pode esperar para sempre.


O LAGO DOS PEIXES DOURADOS

e

Outras Histórias


Estava chovendo quando cheguei a Los Angeles e me senti cercado por centenas de velhos filmes.

Havia um motorista de limusine de uniforme preto, esperando por mim no aeroporto, segurando uma folha de cartolina branca com meu nome escrito errado em tetras elegantes.

— Vou levar o senhor direto pro hotel — disse o motorista. Pareceu um pouco desapontado por eu não ter malas para ele carregar, apenas uma surrada sacola de mão cheia de camisetas, cuecas e meias.

— É longe?

Ele sacudiu a cabeça.

— Vinte e cinco, talvez trinta minutos. Já esteve em Los Angeles antes?

— Não.

— Bom, eu sempre digo que Los Angeles é uma cidade de trinta minutos. Aonde quer que você queira ir, leva trinta minutos. Não mais do que isso.



Ele jogou minha sacola de mão no porta-malas, que chamava de bagageiro, e abriu a porta para eu entrar atrás.

— Então, de onde o senhor vem? — perguntou enquanto saíamos do aeroporto em direção às ruas molhadas e brilhantes, salpicadas de néon.

— Inglaterra.

— Inglaterra, é?

— Sim. Já esteve lá?

— Não, senhor, Vi em filmes. O senhor é ator?

— Sou um escritor.

Ele perdeu o interesse. Vez ou outra, xingava os outros motoristas entre dentes. Virou repentinamente, mudando de pista. Passamos por quatro carros batidos na pista onde estivéramos.

— Chove um pouco nesta cidade e, de repente, todo mundo desaprende a dirigir — disse-me ele. Recostei-me ainda mais no assento traseiro.

— Ouvi dizer que vocês têm muita chuva na Inglaterra.

Foi uma afirmação, não uma pergunta.

— Um pouco.

— Mais do que um pouco. Chove todo dia na Inglaterra. — Ele riu — E neblina espessa. Muito, muito espessa.

— Não exatamente.

— Como assim, não? — perguntou confuso, na defensiva. — Eu vi filmes.

Ficamos em silêncio, então, indo pela chuva de Hollywood, mas, depois de um tempo, ele disse:

— Pergunte-lhes sobre o quarto onde Belushi morreu.

— Como?


— Belushi. John Belushi. Foi no seu hotel que ele morreu. Drogas. O senhor ouviu falar sobre isso?

— Ah, sim.

— Fizeram um filme sobre a sua morte. Com um cara gordo que não parecia nada com ele. Mas ninguém fala a verdade sobre a morte do Belushi. Tinha dois outros caras junto. Os estúdios não queriam que desse merda. Mas quando você é um motorista de limusine, você ouve histórias.

— É mesmo?

— Robin Williams e Robert De Niro. Estavam lá com ele. Todo mundo ficando maluco com o pó feliz.

O hotel era a imitação de um castelo gótico branco. Eu disse adeus ao chofer e fiz o registro de entrada. Não perguntei a respeito do quarto onde Belushi morrera.

Fui para o meu chalé pela chuva, segurando minha sacola de mão, apertando o chaveiro que, conforme dissera o recepcionista, abriria as várias portas e portões. O ar cheirava a poeira molhada e, curiosamente, a xarope para tosse. Estava anoitecendo, quase escuro.

A água caía em jorros por todo o lugar. Corria em regatos e riachos pelo átrio. Seguia para um pequeno lago de peixes que se projetava do lado de um muro no vestíbulo.

Subi as escadas e entrei num quarto pequeno e úmido. Parecia um lugar pobre para um astro morrer.

A cama parecia um pouco pegajosa e a chuva tamborilava uma batida enlouquecedora no sistema de ar-condicionado.

Assisti a um pouco de televisão — a reprise do refugo: Cheers transformou-se imperceptivelmente em Taxi, que bruxuleou para o preto e branco e se tornou I Love Lucy — e caí no sono.

Sonhei com bateristas tocando seus tambores intermitentemente, a apenas trinta minutos de distância.

O telefone acordou-me.

— Oba, oba, oba. Então, você chegou bem?

— Quem é?

— É Jacob... do estúdio.

— Você vem para o café da manhã, né?

— Café...?

— Não se preocupe. Pego você no seu hotel em trinta minutos. As reservas já estão feitas. Você pegou meus recados?

— Eu...


— Passei por fax a noite passada. Até já.

A chuva tinha parado. O brilho do sol era quente e luminoso: a luz característica de Holiywood.

Subi até o edifício principal, caminhando sobre um tapete de folhas esmagadas de eucalipto — o cheiro de remédio para tosse da noite anterior.

Deram-me um envelope com um fax dentro — minha programação para os próximos dias, com mensagens encorajadoras e garatujas escritas à mão nas margens, dizendo coisas como: "Vai ser um estouro!" e "Vai ser um gmnde filme!". O fax estava assinado por Jacob Klein, obviamente a voz ao telefone. Nunca houvera tratativa alguma com esse tal Jacob Klein.

Um pequeno carro esporte vermelho parou do lado de fora do hotel. O motorista saiu e acenou para mim. Fui até ele. Tinha uma barba curta, grisalha, um sorriso que, num banco, é quase negociável e uma corrente de ouro em volta do pescoço. Mostrou-me um exemplar do Filhos do homem (Sons of Man). Era Jacob. Apertamos as mãos.

— David está por aqui? David Gambol?

David Gambol era o homem com quem eu havia falado antes, quando estava organizando a viagem. Não era o produtor. Eu não tinha muita certeza do que era. Ele se descrevera como "vinculado ao projeto".

— David não esta mais no estúdio. Eu estou meio que conduzindo o projeto e quero que saiba que estou nele de corpo e alma.

— Isso é bom?

Entramos no carro.

— Onde é a reunião? — perguntei.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não é reunião — disse. — É um café da manhã.

Fiz cara de confuso. Ele teve pena de mim.

— É um tipo de pré-reunião da reunião — explicou.

Fomos do hotel a um shopping center em algum lugar a meia hora de distância, enquanto Jacob me dizia o quanto tinha gostado do meu livro e como estava encantado, tanto que tinha se vinculado ao projeto. Disse que tinha sido idéia sua colocar-me no hotel.

— Quis propiciar o tipo de sensação de Hollywood que você nunca teria no Four Seasons ou no Ma Maison, certo? — e me perguntou se estava no chalé onde John Belushi morrera. Disse-lhe que não sabia, mas que duvidava.

— Você sabe com quem ele estava quando morreu? Os estúdios encobriram.

— Não, quem?

— Meryl e Dustin,

— Você está falando de Meryl Streep e Dustin Hoffman?

— Claro.


— Como você sabe disso?

— As pessoas comentam. É Hollywood. Sabe como é.

Acenei com a cabeça como se soubesse, mas não sabia.
As pessoas falam de livros que se escrevem por si mesmos, mas isso é mentira. Livros não se escrevem por si mesmos. É preciso reflexão, pesquisa, dor nas costas, anotações e mais tempo e trabalho do que você poderia imaginar.

Com exceção de Filhos do homem que, de forma considerável, se escreveu por si mesmo.

A pergunta irritante que nos fazem — a nós, escritores — é:

— De onde você tira suas idéias?

E a resposta é: confluência. As coisas se juntam. Os ingredientes certos e, de repente: Abracadabra!

Começou com um documentário sobre Charles Manson a que assisti mais ou menos por acidente (estava numa fita de vídeo que um amigo me emprestou, depois de algumas coisas a que eu queria realmente assistir): havia um curta-metragem de Manson quando ele foi preso pela primeira vez, quando as pessoas acreditavam que era inocente e que o governo estava azucrinando os hippies. E, na tela, estava Manson — um orador carismático, messiânico e de boa aparência. Alguém por quem você rastejaria descalço até o inferno. Alguém por quem você mataria.

O julgamento começara e, poucas semanas depois, o líder havia desaparecido, substituído por um orador trôpego que balbuciava coisas incoerentes como um macaco, com uma cruz talhada na testa. Qualquer que fosse o gênio, não estava mais lá. Tinha sumido. Mas estivera lá.

O documentário continuava: um ex-prisioneiro de olhar duro, que tinha estado na cadeia com Manson, explicou:

— Charlie Manson? Ouça aqui, Charlie era uma piada. Não era nada. A gente ria dele, sabia? Ele não era nada!

Eu concordei com a cabeça. Houve um tempo, antes disso, que Manson fora o rei do carisma. Pensei numa graça divina, algo que lhe tinha sido dado e que fora subtraído.

Assisti ao resto do documentário obsessivamente. Então, sobre uma fotografia em preto e branco, o narrador disse algo. Voltei a fita e ele disse novamente.

Eu tive uma idéia. Tinha um livro que se escreveu por si mesmo.

O que o narrador havia dito foi isso: que os filhos que Manson tivera com as mulheres da Família foram enviados a uma série de orfanatos para adoção, com sobrenomes dados pelo tribunal que, com certeza, não eram Manson.

Pensei sobre uma dúzia de Manson com vinte e cinco anos de idade. Pensei na coisa carismática descendo sobre eles ao mesmo tempo. Doze Manson, no esplendor da sua glória, atraídos em direção a Los Angeles de todas as partes do mundo e uma filha de Manson tentando desesperadamente impedi-los de se reunirem e de, como nos diz a contracapa, "perceber seu aterrorizante destino".

Escrevi Filhos do homem num estado de grande excitação: estava acabado em um mês. Enviei-o à minha agente, que se surpreendeu com ele (“Bom, não é como suas outras obras, querido", disse-me prestimosamente) e o vendeu depois de um leilão — meu primeiro — por mais dinheiro do que eu pensei ser possível. (Meus outros livros, três coleções de histórias de fantasmas, elegantes, alusivas e evasivas, mal haviam pago o computador onde foram escritas.)

E então foi comprado — pré-publicação — por Hollywood, de novo após um leilão. Havia três ou quatro estúdios interessados: fui com aquele que queria que eu escrevesse o script. Sabia que nunca aconteceria, que nunca levariam adiante. Mas, então, faxes começaram a ser vomitados pelo meu aparelho, tarde da noite — a maioria assinada entusiasticamente por um Dave Gambol. Uma manhã, assinei cinco vias de um contrato tão real quanto um tijolo. Algumas semanas depois, minha agente avisou-me que o primeiro cheque caíra e que tinham chegado passagens para Hollywood, para termos "conversas preliminares". Parecia um sonho.

As passagens eram da classe executiva. Foi no momento em que vi que as passagens eram da classe executiva que soube que o sonho era real.

Fui para Hollywood na pequena bolha no alto do Jumbo, beliscando salmão defumado e segurando um exemplar de capa dura de Filhos do homem recém-saído da gráfica.


Então, café da manhã.

Disseram-me o quanto haviam adorado o livro. Não consegui entender o nome de ninguém. Os homens tinham barbas ou usavam bonés de baseball, ou ambos; as mulheres eram surpreendentemente atraentes, de um jeito meio asséptico.

Jacob pediu nosso café da manhã e pagou-o. Explicou que a reunião que viria depois era uma formalidade.

— É o seu livro que adoramos — disse. — Por que teríamos comprado o seu livro se não quiséssemos fazê-lo? Por que teríamos contratado você para escrever se não quiséssemos a particularidade que você traz ao projeto? Sua voceidade.

Concordei com a cabeça, muito sério, como se literalmente euidade fosse alguma coisa sobre a qual eu tivesse passado muitas horas ponderando.

— Uma idéia como essa. Um livro como esse. Você é bem único,

— Um dos mais únicos — disse uma mulher chamada Dina, ou Tina, ou possivelmente Deanna.

Ergui uma sobrancelha.

— Então, o que devo fazer na reunião?

— Seja receptivo — disse Jacob. — Seja positivo.

Levamos meia hora no carrinho vermelho de Jacob para chegar ao estúdio. Paramos no portão de segurança, onde ele teve uma discussão com o guarda. Deduzi que era novo no estúdio e que ainda não tinha recebido uma autorização permanente de entrada. Nem me pareceu, assim que entramos, que tivesse uma vaga permanente no estacionamento. Ainda não entendo as ramificações disso: pelo que ele me disse, vagas de estacionamento tinham tanto a ver com o status no estúdio, quanto os presentes do imperador, que determinavam o status de alguém na corte da antiga China.

Passamos pelas ruas de uma Nova Iorque estranhamente plana e estacionamos em frente de um velho e enorme banco.

Dez minutos de caminhada e estava numa sala de conferência, com Jacob e todas as pessoas do café da manhã, esperando alguém entrar. Na agitação, preferi não entender quem era esse alguém e o que ele ou ela fazia. Peguei o exemplar do meu livro e coloquei na minha frente, um talismã de diversas qualidades.

Alguém entrou. Era alto, com nariz e queixo pontudos e seu cabelo era comprido demais — como se tivesse raptado alguém muito mais jovem e roubado seu cabelo. Era australiano, o que me surpreendeu.

Sentou-se.

Olhou-me.

— Manda ver — disse.

Olhei para as pessoas do café da manhã, mas nenhuma delas estava olhando para mim — não pude ver os olhos de ninguém. Então, comecei a falar: sobre o livro, sobre a trama, sobre o final, a revelação dos planos na boate em Los Angeles, onde a boa Manson faz com que os outros fracassem, ou acha que faz; sobre minha idéia de ter um único ator representando todos os Manson homens.

— Você acredita nesse troço? — foi a primeira pergunta do Alguém. Essa era fácil. Eu já a havia respondido a pelo menos vinte e cinco jornalistas britânicos.

— Se acredito que um poder sobrenatural possuiu Charles Manson por um tempo e agora possui seus muitos filhos? Não. Se acredito que algo estranho estava acontecendo? Suponho que sim. Talvez o que houve foi simplesmente que, por um breve momento, sua loucura estava no mesmo ritmo da loucura do mundo. Não sei.

— Mm. Esse garoto Manson. Poderia ser Keanu Reaves?

Meu Deus, não, pensei. Jacob capturou meu olhar e fez que sim com a cabeça desesperadamente.

— Não vejo porque não — respondi. Afinal, era tudo imaginação. Nada daquilo era real.

— Estamos acertando um acordo com seu pessoal — disse Alguém, acenando pensativamente com a cabeça.

Despacharam-me para dar um tratamento ao texto a fim de que eles aprovassem. Por eles, entendi que queriam dizer o Alguém Australiano, apesar de não ter certeza absoluta.

Antes de sair, alguém me deu 700 dólares e me fez assinar pelo recebimento: duas semanas per diem.

Passei dois dias trabalhando nesse esboço. Tentava esquecer o livro e estruturar a história como um filme. O trabalho ia bem. Sentava-me no quarto de hotel, digitava no notebook que o estúdio havia me mandado e imprimia as páginas na impressora jato de tinta que viera com o computador. Comia no meu quarto.

Toda tarde, dava uma caminhada pelo Sunset Boulevard. Andava até a livraria "quase-vinte-e-quatro-horas", onde comprava um jornal. Então, sentava-me no átrio do hotel por meia hora, lendo o jornal. Depois, tendo recebido minha ração de sol e ar, voltava ao escuro e transformava meu livro em alguma outra coisa,

Havia um negro muito velho, um empregado do hotel, que andava pelo átrio, numa lentidão quase dolorosa, regando as plantas e inspecionando os peixes. Ele sorria quando passava por mim, e eu o cumprimentava com a cabeça.

No terceiro dia, levantei-me e fui até ele, que estava ao lado do lago de peixes, pegando lixo com as mãos: duas moedas e um maço de cigarros,

— Olá — disse eu.

— Sinhô — disse o velho.

Pensei em lhe dizer para não me chamar de senhor, mas não consegui pensar num modo de colocar isso sem causar ofensa.

— Belos peixes.

Ele assentiu com a cabeça e sorriu.

— Carpas ornamentais, trazidas da China pra cá.

Observamos os peixes nadando no pequeno lago.

— Será que eles ficam entediados?

Ele sacudiu a cabeça negativamente.

— Meu neto é ictiologista. Sabe o que é isso?

— Estuda os peixes.

— Hum-hum. Ele diz que os peixes têm uma memória que dura trinta segundos. Nadam em volta do laguinho e é sempre uma surpresa para eles, tipo "nunca estive aqui". Encontram outro peixe que conhecem há cem anos e dizem "quem é você, estranho?"'.

— Você perguntaria uma coisa ao seu neto por mim? — O velho assentiu com a cabeça. — Li uma vez que as carpas não têm um tempo de vida. Não envelhecem como nós. Morrem se forem pegas por gente, ou predadores, ou de doença, mas não ficam velhas e morrem. Teoricamente, poderiam viver para sempre.

Ele fez que sim com a cabeça.

— Vou perguntar a ele. Parece interessante. Estas três... bom, este aqui eu chamo de fantasma. Ele tem só quatro ou cinco anos, mas as outras duas vieram da China quando eu cheguei aqui pela primeira vez.

— E quando foi isso?

— Isso foi no ano do Nosso Senhor de 1924. Quantos anos você acha que eu tenho?

Não pude dizer. Ele parecia ser entalhado em madeira velha. Mais de cinqüenta e mais jovem que Matusalém. Disse-lhe isso.

— Nasci em 1906. Juro por Deus.

— Você nasceu aqui em Los Angeles?

Ele sacudiu a cabeça.

— Quando eu nasci, Los Angeles não era nada além de um laranjal, muito longe de Nova Iorque.

Polvilhou ração de peixe na superfície da água. As três criaturas emergiram subitamente, carpas fantasmas de um prateado pálido, esbranquiçado, fitando-nos, ou parecendo nos fitar, os Ós das suas bocas abrindo e fechando continuamente, como se estivessem falando conosco numa língua silenciosa e secreta, que só elas conheciam.

Apontei aquele que havia indicado.

— Então, este é o Fantasma, não?

— É o Fantasma. É isso. Aquele ali debaixo do lírio... você consegue ver seu rabo, ali, vê?... se chama Buster, por causa do Buster Keaton. Keaíon estava hospedado aqui quando recebemos as duas carpas mais velhas. E esta aqui é a Princesa.

Princesa era a mais fácil de reconhecer das carpas brancas. Tinha uma cor de creme claro com um borrão de escarlate forte que descia pelas suas costas, distinguindo-a das outras.

— Ela é linda.

— É mesmo. Ela é mesmo uma beleza.

Respirou fundo e começou a tossir uma tosse chiada que sacudia sua fraca constituição. Pela primeira vez, eu o vi como um homem de noventa anos.

— Você está bem?

Ele assentiu com a cabeça.

— Bem, bem, bem. Ossos velhos — disse. — Ossos velhos.

Apertamos as mãos e voltei para o meu trabalho e para a escuridão.

Imprimi todo o texto e o passei por fax para Jacob, no estúdio. No dia seguinte, ele veio ao meu chalé. Parecia aborrecido.

— Está tudo bem? Há algum problema com o esboço?

— É só merda rolando. Fizemos um filme com ... — e ele disse o nome de uma conhecida atriz que havia atuado em alguns filmes de sucesso uns dois anos antes.

— Tem tudo pra dar certo, hein? Só que não é tão jovem quanto já foi e insiste em fazer suas próprias cenas de nudismo e não é um corpo que alguém queira ver, acredite. Bom, o enredo é sobre um fotógrafo que convence mulheres a tirarem a roupa para ele. Então, o sujeito aprisiona as coitadas. Só que ninguém acredita que o cara esteja fazendo isso. Daí, a chefe de polícia — representada pela dona Deixe-Eu-Mostrar-Minha-Bunda-Pelada-Pro-Mundo — percebe que o único jeito de prender o safado é fingindo ser uma das mulheres. Então, ela dorme com ele. Mas tem uma guinada...

— Ela se apaixona por ele?

— Isso mesmo. E percebe que as mulheres serão sempre aprisionadas pelas imagens que os homens fazem delas e, para provar seu amor por ele, quando a polícia chega para prender os dois, põe fogo em todas as fotografias e morre no incêndio. Suas roupas se queimam primeiro. O que você acha disso?

— Bobo.

— Foi o que achamos quando vimos. Daí, despedimos o diretor e montamos o filme novamente. Até fizemos um dia extra de filmagem. Agora, ela está com escuta quando eles transam. E, quando ela começa a se apaixonar, descobre que ele matou seu irmão, ela tem um sonho no qual suas roupas se queimam e, então, sai com a equipe da swat para tentar prender o bandido. Mas ele é morto pela irmã mais nova dela, que também tinha sido aprisionada.



— E ficou melhor?

Ele meneou a cabeça.

— É lixo. Se ela tivesse deixado a gente usar uma duble para as cenas de nudismo, talvez a situação fosse melhor.

— O que você achou da adaptação?

— O quê?

— Da minha adaptação? O material que lhe mandei por fax?

— Claro. Aquele material. Adoramos. Nós todos adoramos. Está muito bom. Realmente formidável. Estamos todos entusiasmados.

— E agora?

— Bom, tão logo todos tenham uma chance de examinar, a gente se encontra e fala sobre isso.

Deu uns tapinhas na minhas costas e foi embora, deixando-me sem nada a fazer em Hollywood.

Decidi escrever um conto. Havia uma idéia que eu tinha tido na Inglaterra antes de viajar. Algo sobre um pequeno teatro no fim do cais. Mágica de palco enquanto chovia. Uma platéia que não conseguia distinguir magia de ilusão e para quem não faria diferença se toda a ilusão fosse real.

Naquela tarde, na minha caminhada, comprei dois livros sobre mágica de palco e ilusões da época vitoriana na livraria "quase-vinte-e-quatro-horas".

Uma história, ou a semente dela, estava na minha cabeça e eu queria explorá-la. Sentei-me em um banco no átrio e folheei os livros. Havia, eu decidi, uma atmosfera específica que buscava.

Lia sobre os Homens dos Bolsos, que tinham os bolsos cheios de todos os pequenos objetos que se possa imaginar e faziam aparecer qualquer coisa que se pedisse. Não havia ilusão, apenas uma extraordinária proeza de organização e memória. Uma sombra caiu sobre a página. Olhei para cima.

— Olá de novo — disse ao velho negro.

— Sinhô — disse ele.

— Por favor, não me chame assim. Faz-me sentir como se eu devesse usar um terno ou coisa parecida. — Disse-lhe meu nome. Ele me disse o seu.

— Piedoso Dundas.

— Piedoso? — Eu não tinha certeza de ter ouvido corretamente. Ele assentiu com a cabeça, orgulhoso.

— Às vezes sou, às vezes não. Era como minha mãe me chamava e é um bom nome.

— Sim.

— Então, o que faz aqui, sinhô.



— Não tenho certeza. Era para estar escrevendo um filme, acho. Ou, pelo menos, esperando que me digam para começar a escrever um.

Ele coçou seu nariz.

— Se começasse agora a contar sobre todas as pessoas do cinema que se hospedaram aqui, poderia ficar uma semana falando e não teria falado sobre a metade delas.

— Quem foram seus favoritos?

— Harry Langdon. Era um cavalheiro. George Sanders. Inglês como você. Ele me disse uma vez: "Ah, Piedoso. Você deve rezar pela minha alma". E eu disse: "sua alma é da sua própria conta, Sr. Sanders", mas rezei por ele da mesma forma. E June Lincoln.

— June Lincoln?

Seus olhos faiscaram, e ele sorriu.

— Era a rainha da tela de prata. Mais bela do que qualquer outra: Mary Pickford, Lillian Gish, Theda Bara ou Louise Brooks... era a mais refinada. Tinha "aquilo" Sabe o que é "aquilo"?

— Sensualidade?

— Mais do que isso. Era tudo com o que você já sonhou. Se visse o retrato de June Lincoln, você ia querer... — Ele não completou, movimentando sua mão em pequenos círculos, como se quisesse capturar as palavras que faltavam.

— Não sei, ajoelhar-se, talvez, como um cavaleiro de armadura brilhante faz para a rainha, June Lincoln era a melhor de todas. Contei para o meu neto sobre ela e ele tentou achar alguma coisa em vídeo. Já não tem mais nada. Ela vive apenas na cabeça de velhos como eu. — Ele deu uns tapinhas na testa.

— Deve ter sido uma mulher e tanto.

Ele fez que sim com a cabeça.

— O que houve com ela?

— Enforcou-se. Alguns dizem que foi porque não ia conseguir se dar bem no cinema falado, mas não é verdade: tinha uma voz que a gente lembrava só de ouvir uma única vez. Macia e sombria, era a voz dela, como um Irish coffee. Alguns dizem que um homem, ou uma mulher, partiu seu coração, ou foi jogo, ou gângsteres, ou álcool. Quem sabe? Aqueles eram tempos loucos.

— Parece que você a ouviu falar.

Ele sorriu, mostrando os dentes.

— Ela disse: "garoto, você pode descobrir o que fizeram com meu xale?", e quando eu voltei com o xale, disse: "você é notável, rapaz". E o homem que estava com ela disse: "June, não provoque o ajudante", e ela sorriu para mim, deu-me cinco dólares e disse: "ele não se importa, não é, rapaz?". Eu só balancei a cabeça. Daí, fez aquela coisa com seus lábios, você sabe?

— Um beicinho?

— Algo assim. Senti aqui. — Ele bateu no peito. — Que lábios. Podiam desmontar um homem.

Mordeu seu lábio inferior e fitou a eternidade. Eu me indaguei em que lugar e em que tempo ele estaria. Então, olhou para mim de novo.

— Você quer ver seus lábios?

— Como assim?

— Venha até aqui. Siga-me.

— O que vamos...? — Imaginei um lábio no cimento, como as impressões de mãos na calçada do Teatro Chinês de Grauman.

Ele sacudiu a cabeça e levou o velho dedo à sua boca. Silêncio. Fechei os livros. Atravessamos o átrio. Quando chegamos ao pequeno lago de peixes, ele parou.

— Olhe a Princesa — disse-me.

— Aquela com a mancha vermelha, não?

Ele assentiu com a cabeça. O peixe me lembrava um dragão chinês: sábio e lívido. Um peixe-fantasma, branco como osso velho, exceto pelo borrão escarlate — uma polegada de comprimento em forma de arco duplo — nas costas. Flutuava no lago, vagueando e pensando.

— Ali está — disse. — Nas costas dela. Vê?

— Não estou entendendo.

Ele fez uma pausa e fitou o peixe.

— Você quer se sentar? — Senti-me muito cônscio da idade do Sr. Dundas.

— Não me pagam para sentar — disse-me muito sério. Então falou, como se estivesse explicando algo para uma criança pequena.

— Eram como deuses, naquele tempo. Hoje, é tudo televisão: heroizinhos. Pessoinhas nas caixas. Eu vejo alguns deles aqui. Pessoinhas. As estrelas dos velhos tempos: eram gigantes pintados de luz prateada, grandes como casas... então a gente dava de cara com elas e, ainda assim, eram grandes. As pessoas acreditavam nelas. Davam festas aqui. Trabalhando aqui, você via o que acontecia. Tinha bebida, erva e coisas que você dificilmente acreditaria. Teve uma festa... o filme se chamava Corações do deserto. Já ouviu falar dele?

Fiz que não com a cabeça.

— Um dos maiores filmes de 1926, lado a lado com Glória a qualquer preço, com Victor McLaglen e Dolores Del Rio, e Ella Cinders, estrelado por Colleen Moore. Ouviu falar deles?

Fiz que não com a cabeça novamente.

— Já ouviu falar de Warner Baxter? Belle Bennet?

— Quem eram?

— Grandes, grandes estrelas em 1926. — Fez uma pausa. — Corações do deserto. Deram uma festa aqui no hotel quando acabaram de rodar. Havia vinho, cerveja e gin. Eram os dias da Lei Seca, mas os estúdios meio que possuíam a polícia. Por isso, ela fazia vistas grossas; e havia comida e um pouco de loucura. Ronald Colman estava lá e Douglas Fairbanks — o pai, não o filho — e todo o elenco e pessoal de set. Uma banda de jazz tocava ali, onde hoje estão aqueles chalés.

Hollywood brindava June Lincoln naquela noite. Ela era a princesa árabe do filme. Naquele tempo, árabe queria dizer paixão e sensualidade. Naquele tempo... bom, as coisas mudam.

Não sei quem começou com aquilo. Ouvi dizer que foi um desafio ou uma aposta. Talvez ela só estivesse bêbada. De qualquer forma, levantou-se enquanto a banda tocava suave e lentamente, andou até aqui, onde estou agora, e mergulhou suas mãos nesse lago. Ela ria, ria, ria...

A Srta. Lincoln pegou o peixe... alcançou e tomou o bichinho com as duas mãos... e o tirou da água. Então, segurou Princesa em frente do rosto.

Fiquei preocupado, porque tinham acabado de trazer estes peixes da China e eles custaram duzentos dólares cada. Isso foi antes de eu tomar conta deles, claro. Não era eu que iria ter de pagar o peixe com meu salário. Mesmo assim, duzentos dólares era um montão de dinheiro naquele tempo.

Então, ela sorriu para nós, inclinou-se e beijou, bem devagar, as costas da criatura. Princesa não se contorceu nem nada, só ficou nas mãos da atriz, que deu um beijo com seus lábios vermelhos como coral e as pessoas da festa riram e aplaudiram.

Ela colocou o peixe de volta no lago e, por um instante, foi como se não quisesse deixar suas mãos... ficou ao lado de June, afocinhando seus dedos. Daí, começaram os fogos de artifício e Princesa nadou para longe.

Seu batom era vermelho, vermelho, vermelho, e ela deixou a marca dos seus lábios nas costas do peixe. Lá, você vê?

Princesa, a carpa branca com a marca vermelho-coral nas costas, agitou uma nadadeira e continuou com sua eterna série de jornadas de trinta segundos ao redor do lago. A marca vermelha parecia-se mesmo com lábios.

Ele polvilhou um punhado de ração sobre a água, e os três peixes moveram-se e arquejaram até a superfície.

Voltei para meu chaié, levando meus livros sobre velhas ilusões. O telefone estava tocando: era alguém do estúdio. Queriam falar sobre o meu trabalho. Um carro me pegaria em trinta minutos.

— Jacob vai estar presente?

Mas a linha já estava muda.

A reunião foi com o Alguém Australiano e seu assistente, um homem com óculos e de terno. Era o primeiro terno que eu via até então, e seus óculos eram de um azul vivo. Ele parecia nervoso.

— Onde você está hospedado? — perguntou o Alguém.

Disse-lhe.

— Não é onde Belushi...?

— Foi o que me disseram.

Concordou com a cabeça.

— Ele não estava sozinho quando morreu.

— Não?

Esfregou um dedo do lado do seu nariz pontudo.



— Havia mais duas pessoas na festa. Ambos eram diretores, tão importantes quanto você possa imaginar. Nem queira saber os nomes. Descobri sobre eles quando fazia o último filme do Indiana Jones.

Silêncio desconfortável. Estávamos numa imensa mesa redonda, apenas os três, e em frente de cada um de nós havia uma cópia do esboço que eu escrevera. Finalmente, eu disse:

— O que vocês acharam?

Ambos assentiram com a cabeça, mais ou menos juntos. Então, tentaram, da melhor forma que podiam, me dizer que tinham odiado, mas sem falar nada que pudesse me aborrecer. Foi uma conversa muito estranha.

— Temos um problema com o terceiro ato — disseram, subentendendo vagamente que o problema não era comigo, com o material, nem mesmo com o terceiro ato, mas com eles.

Queriam que as pessoas fossem mais compreensíveis. Queriam luzes e sombras nítidas, não tons de cinza. Queriam que a heroína fosse um herói. Concordei com a cabeça e tomei notas.

No final da reunião, apertei as mãos do Alguém e seu assistente de óculos de aros azuis me levou pelo labirinto de corredores até encontrarmos o mundo exterior, meu carro e o motorista.

Enquanto andávamos, perguntei se o estúdio tinha, em algum lugar, uma fotografia de June Lincoln.

— Quem? — O nome dele, conforme acabou se revelando, era Greg. Tirou um pequeno caderno de notas e escreveu algo com um lápis.

— Era uma estrela do cinema mudo. Famosa em 1926.

— Trabalhava nesse estúdio?

— Não faço idéia — admiti. — Mas era famosa. Até mais famosa do que Marie Provost.

— Quem?

"A vencedora que virou jantar de um cachorro". Uma das maiores estrelas do cinema mudo. Morreu na pobreza quando começou o cinema falado e foi comida pelo seu dachshund, Nick Lowe escreveu uma canção sobre ela.



— Quem?

"Conheci a noiva quando ela dançava rock'n'roll". Seja como for, sobre June Lincoln, será que alguém pode me achar uma fotografia?

Ele escreveu alguma coisa na caderneta. Olhou fixamente a anotação por um momento. Então, acenou afirmativamente com a cabeça. Tínhamos saído na luz do sol e meu carro estava à espera.

— A propósito — disse ele —, você devia saber que ele é só papo.

— Como?

— Só papo. Não eram Spielberg e Lucas que estavam com Belushi. Eram Bette Midler e Linda Ronstadt. Foi uma orgia de cocaína. Todo mundo sabe disso. Ele é só papo. E era só um contador júnior do estúdio, pelo amor de Deus, no filme do Indiana Jones. Como se o filme fosse dele. Babaca.



Apertamos as mãos. Entrei no carro e voltei ao hotel.

O fuso horário pegou-me naquela noite, e acordei, completa e irreversível- mente, às quatro da manhã.

Levantei-me, urinei, vesti meus jeans (eu durmo de camiseta) e saí do quarto.

Queria ver as estrelas, mas as luzes da cidade eram brilhantes demais, o ar muito sujo. O céu era de um amarelo imundo, sem estrelas e pensei em todas as constelações que conseguia ver no interior inglês; senti, pela primeira vez, profunda e ridiculamente, saudade de casa.

Senti falta das estrelas.

Queria trabalhar no conto ou continuar com o roteiro do filme. Em vez disso, trabalhei num segundo rascunho do esboço.

Diminui o número de filhos de Manson de doze para cinco e deixei ainda mais claro, desde o começo, que um deles, agora um homem, não era mau, diferentemente dos outros quatro.

Mandaram um exemplar de uma revista de filmes. Cheirava a papel velho de baixa qualidade e estava carimbada em roxo com o nome do estúdio e com a palavra arquivo embaixo. A capa mostrava John Barrymore num barco.

O artigo em seu interior era sobre a morte de June Lincoln. Achei difícil de ler e ainda mais difícil de entender: aludia aos vícios proibidos que a levaram à morte, até aí pude entender, mas era como se estivesse falando numa escrita cifrada da qual os leitores modernos precisassem da chave; ou talvez, pensando melhor, o autor do seu obituário não soubesse de nada e estivesse fazendo alusões vazias.

Mais interessantes — de qualquer maneira, mais compreensíveis — eram as fotos. Uma de página inteira, circundada em preto, de uma mulher de olhos enormes e sorriso gentil, fumando um cigarro (a fumaça tinha sido pintada com aerógrafo, a meu ver muito desajeitadamente: será que as pessoas caíam nesses truques toscos?); uma outra foto dela num abraço encenado com Douglas Fairbanks; uma pequena fotografia da moça de pé na beira de um carro em movimento, segurando dois cachorrinhos minúsculos.

Não era, pelas fotografias, de uma beleza contemporânea. Faltava-lhe a transcendência de uma Louise Brooks, a sensualidade de uma Marilyn Monroe, a elegância vulgar de uma Rita Hayworth. Era uma estrelinha dos anos vinte tão insípida quanto qualquer outra estrelinha dos anos vinte. Não vi mistério nos seus olhos enormes, seu cabelo curto. Tinha os lábios em forma de arco de cupido, perfeitamente desenhados com maquiagem. Não tive idéia de como ela se pareceria se estivesse viva e por aí hoje. Mesmo assim, era real; tinha vivido. Fora venerada e adorada pelas pessoas nos palácios do cinema. Havia beijado o peixe e caminhado pelo átrio do meu hotel setenta anos atrás: nada em termos de tempo na Inglaterra, mas uma eternidade em Hollywood.

Entrei para falar do material. Nenhuma das pessoas com quem eu havia falado antes estava lá. Em vez disso, fui levado até um homem muito jovem, num pequeno escritório, que nunca sorria e que me disse o quanto tinha adorado o trabalho e o quanto estava satisfeito pelo estúdio ter a posse do livro para o cinema.

Disse que achava que a personagem Charles Manson era particularmente legal e que, talvez — "uma vez que estivesse totalmente dimensionado" —, Manson poderia ser o próximo Hannibal Lecter.

— Mas. Humm. Manson é real. Está preso agora. Sua gente matou Sharon Tate.

— Sharon Tate?

— Era uma atriz. Uma estrela de cinema. Estava grávida e foi morta por eles. Era casada com Polanski.

Roman Polanski?

— O diretor. Sim.

Ele franziu a testa.

— Mas estamos nos associando a Roman Polanski numa negociação.

— Isso é bom. Ele é um bom diretor.

— Ele sabe sobre isto?

— Sobre o quê? O livro? Nosso filme? A morte de Sharon Tate?

Ele sacudiu a cabeça: nenhuma das alternativas acima.

— É um negócio de três filmes. Julia Roberts está semi vinculada. Você disse que Roman Polanski não sabe sobre este esboço?

— Não, o que eu disse foi...

Ele olhou no seu relógio.

— Onde você está hospedado? — perguntou. — Nós hospedamos você em um lugar bom?

— Sim, obrigado — disse eu. — A dois chalés de distância do quarto onde Betushi morreu.

Esperava outra confissão sobre mais duas estrelas; que ele me contasse que Belushi tinha esticado as botas em companhia de Julie Andrews e Miss Piggy, dos Muppets. Eu estava enganado.

— Belushi morreu? — disse. Sua jovem testa franzida. — Belushi não está morto. Estamos fazendo um filme com Belushi.

— Foi seu irmão — expliquei. — Seu irmão morreu anos atrás.

Deu de ombros.

— Parece uma bosta — disse. — Da próxima vez que vier, diga-lhes que quer ficar no Bel Air. Quer que mudemos você para lá?

— Não, obrigado — respondi. — Já me acostumei com o lugar onde estou. E sobre o material? — perguntei.

— Deixe conosco.

Eu me vi fascinado por duas velhas ilusões cênicas que encontrei nos meus livros: O sonho do artista e A armação encantada. Eram metáforas para alguma coisa, tinha certeza disso, mas a história que devia acompanhá-las ainda não estava lá. Escrevi sentenças iniciais que não viravam parágrafos iniciais; parágrafos iniciais que nunca viraram páginas iniciais. Escrevia no computador e então saía sem gravar nada.

Sentei-me no átrio e fitei as duas carpas brancas e a outra, branca e escarlate. Pareciam, pensei, desenhos de peixe do Escher, o que me surpreendeu, pois nunca me ocorrera que havia qualquer coisa, por menor que fosse, realista nos desenhos de Escher.

Piedoso Dundas estava lustrando as folhas das plantas. Tinha um vidro de polidor e um pano.

— Oi, Piedoso.

— Sinhô.

— Belo dia.

Ele fez que sim com a cabeça, tossiu, bateu no peito com seu punho e assentiu com a cabeça um pouco mais. Afastei-me dos peixes e sentei no banco.

— Por que eles não aposentaram você? — perguntei, — Você não deveria ter se aposentado quinze anos atrás?

Ele continuou lustrando.

— Claro que não. Eu sou uma referência. Eles podem dizer que todas as estrelas do céu se hospedaram aqui, mas eu conto às pessoas o que Cary Grant tomava de café da manhã,

— Você se lembra?

— Lembro nada. Mas eles não sabem disso. — Tossiu de novo. — O que está escrevendo?

— Bom, a semana passada escrevi a adaptação pra um filme. Então, escrevi outra adaptação. Agora, estou esperando por... alguma coisa.

— Então, o que você está escrevendo?

— Uma história que ainda não saiu direito. É sobre um truque de mágica da era vitoriana chamado O sonho do artista. Um artista sobe ao palco carregando uma grande tela, que coloca num cavalete. Há uma pintura de mulher nela. Ele olha a pintura e se desespera, pois acha que nunca vai ser um artista de verdade. Então, senta e adormece. A pintura cria vida, desce da moldura e lhe diz para não desistir; que continue lutando; que, um dia, será um grande pintor. As luzes diminuem. Daí, ele acorda e a mulher é uma pintura de novo...
— ... e a outra ilusão — eu disse à mulher do estúdio, que cometera o erro de fingir interesse no começo da reunião — chamava-se A armação encantada. Uma armação de janela é pendurada no ar e rostos surgem nela, mas não há ninguém por lá. Acho que há um estranho tipo de paralelo entre a armação encantada e a televisão: afinal, parece uma candidata natural.

— Eu gosto de Seinfeld — disse ela. — Você assiste a esse programa? É sobre coisa alguma. Quer dizer, há episódios inteiros sobre coisa alguma. Eu gostava do Garry Shandling antes de fazer o novo programa e ficar ruim.

— As ilusões — continuei —, como todas as grandes ilusões, nos fazem questionar a natureza da realidade. Mas também armam — trocadilho, intencional, acho — a questão daquilo em que se transformará o entretenimento. Filmes antes de haver filmes, televisão antes mesmo de haver televisão.

Ela franziu a testa.

— Isso é um filme?

— Espero que não. É um conto, se conseguir escrevê-lo.

— Então, vamos falar do filme. — Ela se agitou atrás de uma pilha de notas. Tinha uns vinte e poucos anos e parecia tão atraente quanto estéril. Eu me indagava se era uma das mulheres que estiveram no café da manhã no meu primeiro dia; uma Deanna ou uma Tina. Pareceu intrigada com uma coisa e leu: "Conheci a noiva quando ela dançava rock'n'roll".

— Ele escreveu isso? Isso não é o filme.

Ela assentiu.

— Agora, tenho de dizer que o material é um tanto... contencioso. Essa coisa de Manson... bom, não estamos certos se vai decolar. Podemos tirar?

— Mas essa é a parte essencial. Quer dizer, o livro se chama Filhos do homem; é sobre os filhos de Manson. Se ele for tirado, não sobra muita coisa, sobra? Quer dizer, esse é o livro que vocês compraram. — Levantei-o para ela ver: meu talismã. — Tirar o Manson é como... não sei, como pedir uma pizza e, depois, quando ela chega, reclamar porque é chata, redonda e coberta com molho de tomate e queijo.

Ela não deu indicação alguma de ter ouvido o que eu disse. Perguntou:

— O que você acha de Badd como título. Badd com dois d's.

— Não sei. Por quê?

— Não queremos que as pessoas pensem que é religioso. Filhos do homem. Soa como se fosse meio anticristão.

— Bom, eu realmente até que sugiro que a força que possui os filhos de Manson é, de alguma maneira, um tipo de poder demoníaco.

— Sugere?

— No livro.

Ela me olhou com um olhar penalizado, do tipo que só as pessoas que sabem que livros são, na melhor das hipóteses, propriedades dos estúdios nas quais os filmes podem vagamente se basear são capazes de lançar sobre o resto de nós.

— Bem, não acho que o estúdio veja isso como apropriado — disse.

— Você sabe quem foi June Lincoln? — perguntei-lhe.

Ela meneou a cabeça negativamente.

— David Gambol? Jacob Klein?

Mais uma vez, um pouco impacientemente, fez que não com a cabeça. Deu-me, então, uma lista datilografada de coisas que ela sentia que precisavam ser arrumadas, que era quase tudo. A lista era PARA: mim e uma série de outras pessoas, cujos nomes não reconheci, e era DE: Donna Leary.

Eu disse: "Obrigado, Donna", e voltei para o hotel.

Fiquei mal-humorado por um dia. Então, pensei em um jeito de refazer o trabalho que, supus, resolveria toda a lista de reclamações de Donna.

Outro dia pensando, mais alguns escrevendo e passei a terceira versão para o estúdio por fax.

Piedoso Dundas trouxe-me seu livro de recortes para eu ver, uma vez que tinha certeza do meu genuíno interesse em June Lincoln — batizada, descobri, conforme o mês e o presidente, nascida Ruth Baumgarten em 1903. Era um velho álbum de recordações encadernado em couro, do tamanho e peso de uma Bíblia dessas grandes.

Tinha vinte e quatro anos quando morreu.

— Queria que você pudesse ter visto a Srta. Lincoln — disse Piedoso Dundas. — Queria que alguns dos seus filmes tivessem sobrevivido. Ela era tão grande. Era a maior de todas as estrelas.

— Ela era uma boa atriz?

Ele balançou a cabeça decididamente.

— Não.

— Era muito bonita? Se era, simplesmente não estou notando.



Balançou a cabeça de novo.

— A câmara gostava dela, com certeza. Mas não era isso. A última fila do coro do teatro de revista tinha uma dúzia de garotas mais bonitas do que ela.

— Então o que era?

— Era uma estrela. — Ele deu de ombros. — É o que quer dizer ser uma estrela.

Virei as páginas; recortes, críticas de filmes dos quais nunca tinha ouvido falar — filmes cujos únicos negativos e reproduções tinham sido perdidos muito tempo atrás, largados à toa, ou destruído pelo corpo de bombeiros — negativos de nitrato são famosos pelo risco de incêndio —; outros recortes de revistas de cinema: June Lincoln encenando, June Lincoln no set de A camisa do penhorista, June Lincoln vestindo um enorme casaco de peles — que, de certa forma, datava a fotografia ainda mais do que o estranho corte de cabelo e os cigarros ubíquos,

— Você a amava?

Ele meneou a cabeça.

— Não como se ama uma mulher... — disse.

Houve uma pausa. Ele abaixou e virou as páginas do álbum.

— E minha mulher teria me matado se me ouvisse falar isso...

Outra pausa.

— Mas sim. Branquinha e magricela. Acho que amava, sim.

Fechou o álbum.

— Mas ela não está morta para você, está?

Ele sacudiu a cabeça. Então, foi embora, mas deixou o álbum para eu ver.

O segredo da ilusão de O sonho do artista era o seguinte: carregava-se a moça para o palco, que segurava com firmeza as costas da tela. A tela era sustentada por fios de arames escondidos, assim enquanto o artista carregava, casual e facilmente, a peça até o cavalete, estava também levando a moça. A pintura no cavalete era disposta como uma persiana de rolo que era enrolada para baixo ou para cima.



A armação encantada, por outro lado, era literalmente feita com espelhos: um espelho colocado em um ângulo que refletia os rostos de pessoas que ficavam fora da vista, nos bastidores.

Até hoje muitos mágicos usam espelhos em seus números para fazer você pensar que está vendo algo que não está.

É fácil, quando se sabe como é feito.
— Antes de começarmos — disse ele —, devo dizer que não leio esboços. Acho que eles inibem minha criatividade. Não se preocupe, minha secretária faz um resumo. Assim, ganho tempo.

Tinha uma barba, cabelo comprido e parecia um pouco com Jesus, apesar de duvidar de que Jesus tivesse dentes tão perfeitos. Parecia ser a pessoa mais importante com quem eu havia falado até então. Seu nome era John Ray e até mesmo eu ouvira a seu respeito, apesar de não estar totalmente certo sobre o que ele fazia: seu nome tendia a aparecer no começo dos filmes, próximo a palavras como produtor executivo. A voz do estúdio que havia marcado a reunião disse-me que eles, o estúdio, estavam muito entusiasmados pelo fato de Ray ter-se "vinculado ao projeto".

— O resumo não inibe sua criatividade também?

Ele sorriu mostrando os dentes.

— Bem, todos nós achamos que você fez um trabalho surpreendente. Formidável, Há só umas coisinhas com as quais temos problemas.

— Tais como?

— Bom, a coisa do Manson. E a idéia sobre essas crianças crescendo. Então, discutimos algumas possibilidades no escritório: uma tentativa. Tem um cara chamado Jack Badd — dois d's, idéia de Donna.

Donna inclinou a cabeça modestamente.

— Ele é preso por atos satânicos, frito na cadeira elétrica e, enquanto morre, jura que voltará e destruirá a todos. Corta e, nos dias de hoje, vemos quatro garotos obcecados por um vídeo game chamado Be Badd. A cara do Jack nele. E, enquanto jogam, ele como que começa a possuir o bando. Talvez pudesse haver algo estranho com seu rosto, como um Jason ou um Freddy.

Ele parou como se estivesse buscando aprovação. Então, perguntei:

— E quem está fazendo esses vídeo games?

Ele apontou um dedo para mim e disse:

— Você é o escritor, meu anjo. Quer que a gente faça todo o trabalho pra você?

Não falei nada. Não sabia o que dizer.



Pense cinema, pensei. Eles entendem de cinema. Falei:

— Mas, é claro, o que você está propondo é como fazer Os meninos do Brasil sem Hitler.

Ele pareceu confuso.

— Foi um filme de Ira Levin — disse eu. Nem um brilho de reconhecimento nos seu olhos.

O bebê de Rosemary — ele continuou com o olhar vago. — Sliver. Concordou com a cabeça; em algum lugar, caiu a ficha.

— Entendido — disse. — Você escreve a parte de Sharon Stone e nós moveremos céus e terras pra consegui-la pra você. Tenho um acesso ao pessoal dela.

Então, eu saí.

Estava frio naquela noite e não deveria estar frio em Los Angeles; o ar, mais do que nunca, cheirava a pastilhas para tosse.

Uma antiga namorada vivia na área de Los Angeles e resolvi tentar encontrá-la. Liguei para o número que tinha e comecei uma busca que durou a maior parte da noite. As pessoas davam-me números e eu ligava; outras me davam mais números, e eu ligava também.

Finalmente, disquei um número e reconheci sua voz.

— Você sabe onde estou? — perguntou ela.

— Não — respondi —, deram-me esse número.

— Aqui é um quarto de hospital — disse. — Minha mãe teve hemorragia cerebral.

— Sinto muito. Ela está bem?

— Não.

— Sinto muito.



Houve um silêncio estranho.

— E você, como está? — indagou,

— Muito mal — disse eu.

Contei-lhe tudo o que tinha acontecido comigo até então. Disse-lhe como me sentia.

— Por que as coisas são desse jeito? — quis saber.

— Porque eles estão assustados.

— Por que assustados? O que assusta essa gente?

— Porque você é apenas tão bom quanto os últimos sucessos aos quais você pôde vincular seu nome.

— Hein?

— Se você disser sim a alguma coisa, o estúdio pode fazer o filme e gastar vinte ou trinta milhões de dólares. Se for um fracasso, você terá seu nome vinculado a ele e perderá status. Se disser não, não vai correr esse risco.



— Sério?

— Mais ou menos assim

— Como você sabe tanto sobre isso? Sua área de trabalho é música, não filmes.

Ela riu entediada.

— Eu moro aqui. Todos que vivem nesta cidade conhecem esse troço. Já tentou perguntar às pessoas sobre os roteiros delas?

— Não.


— Tente alguma hora. Pergunte a qualquer um. O frentista do posto de gasolina. Qualquer um. Todos têm um.

Alguém falou alguma coisa para ela, ela respondeu e disse:

— Olha, preciso ir — e desligou.

Eu não consegui encontrar o aquecedor, se é que o quarto tinha um, e estava congelando no meu chalezinho, igual àquele em que Belushi tinha morrido, a mesma tinta insípida na parede, sem sombra de dúvida, e a mesma umidade gelada no ar.

Tomei um banho quente para me esquentar, mas fiquei ainda mais gelado depois que acabei.

Peixes ornamentais brancos deslizando para a frente e para trás na água, esquivando-se e voando entre as folhas de lírio. Um deles tinha uma marca escarlate nas costas e poderia, supostamente, ter tido a forma perfeita de lábios; o estigma miraculoso de uma deusa quase esquecida. O céu cinza da manhã refletia-se no lago.

Olhei para ele, melancolicamente.

— Você está bem ?

Virei-me. Piedoso Dundas estava ao meu lado.

— Está de pé cedo.

— Dormi mal. Frio demais.

— Você devia ter ligado para a recepção. Eles teriam mandado um aquecedor e mais cobertores.

— Não me ocorreu.

Sua respiração soava estranha; respirava com dificuldade.

— Você está bem ?

— Claro que não. Sou velho, Quando você chegar à minha idade, garoto, também não vai se sentir bem. Mas eu vou estar aqui quando você tiver ido. Como vai o trabalho?

— Sei lá. Parei de trabalhar no material e estou obcecado por O sonho do artista, a história que estou criando sobre mágica de palco da era vitoriana. Acontece num balneário do litoral inglês, enquanto chove, com o mágico fazendo mágicas no palco, o que, de alguma forma, muda a platéia. Toca seus corações.

Ele balançou a cabeça vagarosamente.

— O sonho do artista... — disse. — Então, você se vê como o artista ou o mágico?

— Não sei — respondi, — Não acho que seja nenhum deles.

Virei-me para ir, mas algo me ocorreu.

— Seu Dundas — perguntei —, você tem um roteiro? Um que tenha escrito?

Ele balançou a cabeça.

— Você nunca escreveu um roteiro?

— Não eu — disse ele,

— Jura?


Ele riu, arreganhando os dentes.

— Juro — garantiu.

Voltei para o meu quarto. Manuseei meu exemplar capa-dura de Filhos do homem publicado no Reino Unido e me perguntei por que publicaram algo escrito tão desajeitadamente; indaguei-me por que Hollywood o havia comprado e por que não o queriam, agora que o tinham.

Tentei escrever O sonho do artista de novo e falhei miseravelmente. As personagens estavam congeladas. Pareciam incapazes de respirar, de se mover ou de falar.

Fui até o banheiro e mijei um jorro amarelo-brilhante contra a porcelana. Uma barata correu pela prata do espelho.

Voltei ao meu quarto, abri um novo documento e escrevi:

Penso na Inglaterra sob chuva,

Estranho teatro no cais, um rastro

De medo, magia, memória turva.
Medo quem sabe da vil loucura,

Magia eloqüente, qual o bardo

Penso na Inglaterra sob chuva.
Solidão... enigma além da curva –

Vazio que abriga meu fracasso,

De medo, magia, memória turva.
Eu penso numa atiaga recurva

Em magos, mentiras... num abraço

Penso na Inglaterra sob chuva...
Sobreposição de formas duras:

Espada, mão e um graal em aço

De medo, magia, memória turva.
O mago age com desembaraço,

Encena verdades, qual palhaço.

Penso na Inglaterra sob chuva

De medo, magia, memória turva.


Não sabia se era bom ou ruim, mas não importava. Tinha escrito algo novo e diferente que não escrevera antes e senti-me maravilhoso.

Liguei para o serviço de quarto e pedi café da manhã, um aquecedor e dois cobertores extras.

No dia seguinte, escrevi um esboço de seis páginas para um filme chamado Os Badd, no qual Jack Badd, um assassino serial, com uma enorme cruz talhada na testa, é morto na cadeira elétrica e volta num vídeo game para se apossar de quatro jovens. O quinto rapaz derrota Badd ao queimar a cadeira elétrica onde ele havia sido morto, que agora, conforme eu tinha decidido, estava em exposição no museu de cera onde a namorada do jovem herói trabalhava durante o dia. À noite, ela era uma dançarina exótica.

A recepção do hotel passou o material para o estúdio por fax e eu fui para cama.

Dormi com a esperança de que o estúdio o recusasse formalmente e que eu pudesse voltar para casa.

No teatro dos meus sonhos, um homem de barba e de boné de baseball carregava uma tela de cinema para o palco e depois ia embora. A tela ficava pendurada no ar, sem nada que a sustentasse. Um filme mudo começou a bruxulear sobre ela: uma mulher saía dele e me fitava. Era June Lincoln que tremeluzia na tela e foi June Lincoln quem desceu da tela, sentando-se na beira da minha cama.

— Você vai me dizer para não desistir? — perguntei-lhe.

De alguma forma, tinha idéia de que era um sonho. Lembro, vagamente, de entender por que aquela mulher era uma estrela, lembro de lamentar que nenhum dos seus filmes tenha sobrevivido. Ela era realmente linda no meu sonho, apesar da marca lívida ao redor do seu pescoço.

— Por que faria isso? — perguntou. No meu sonho, ela cheirava a gin e a celulóide velho, embora não me lembre do último sonho que tive no qual consegui sentir qualquer cheiro.

— Eu saí, não saí?

Daí, levantou-se e andou pelo quarto.

— Não acredito que este hotel ainda esteja de pé — disse. — Eu costumava trepar aqui. — Sua voz era cheia de estalos e chiados. Voltou para a cama e me fitou, como um gato faz com um buraco de rato.

— Você me venera? — indagou.

Balancei negativamente a cabeça. Veio até mim e tomou minha mão de carne na sua de prata.

— Já não se lembram de mais nada. É uma cidade de trinta minutos.

Havia algo que eu tinha de lhe perguntar:

— Onde estão as estrelas? — quis saber. — Olho para o céu, mas elas não estão lá.

Ela apontou para o chão do chalé.

— Você tem procurado nos lugares errados — explicou.

Eu não havia notado que o chão do chalé era uma calçada e cada pedra do calçamento continha uma estrela e um nome — nomes que eu não conhecia: Clara Kimball Young, Linda Arvidson, Vivian Martin, Norma Talmadge, Olive Thomas, Mary Miles Minter, Seena Owen...

June Lincoln apontou para a janela do chalé:

— E lá fora.

A janela estava aberta, e por ela eu podia ver toda a Hollywood espalhada aos meus pés — a vista das colinas: uma infinita extensão de luzes cintilantes multicoloridas.

— Não são melhores que estrelas? — perguntou.

E eram. Percebi que podia ver constelações nas ruas, lâmpadas e carros. Concordei com a cabeça.

— Não se esqueça de mim — sussurrou, mas o fez de uma forma triste, como se soubesse que eu me esqueceria.

Acordei com o telefone tocando estridentemente. Atendi, rosnei um resmungo no bocal.

— Aqui é Gerry Quoint, do estúdio. Precisamos ter uma reunião de almoço com você.



Resmungo alguma coisa, resmungo.

— Vamos mandar um carro — disse. — O restaurante é mais ou menos a meia hora daí,


O restaurante era arejado, espaçoso e verde; estavam me esperando.

A essa altura, eu teria me surpreendido se reconhecesse alguém. John Ray, fui informado entre aperitivos, tinha "desistido do projeto em virtude de discordância contratual", e Donna tinha "obviamente" ido com e!e.

Os dois homens usavam barba e um tinha a pele ruim. A mulher era magra e parecia agradável.

Perguntaram-me onde eu estava hospedado e, quando lhes disse, um dos barbudos contou-nos (primeiro fazendo-nos concordar que aquilo não sairia dali) que um político chamado Gary Hart e um dos músicos da banda Eagles estavam se drogando com Belushi, quando ele morreu.

Depois disso, disseram-me que estavam esperando pela história.

Perguntei:

Filhos do homem ou Os Badd? — disse-lhes — porque tenho um problema com o último.

Eles se mostraram confusos.

Era, contaram-me, para Conheci a noiva quando ela dançava rock'n'roll, que era, explicaram, tanto um Alto Conceito quanto um Sentir-se Rem. Também era, acrescentaram, Muito Atual, o que era muito importante numa cidade onde uma hora atrás é considerado História Antiga.

Disseram-me que seria bom se nosso herói pudesse resgatar a jovem senhora do seu casamento sem amor e que, no final, dançassem rock'n'roll juntos.

Expliquei-lhes que teriam de comprar os direitos para o filme de Nick Lowe, que escrevera a canção, e, em seguida, que não, não sabia quem era seu agente.

Deram um sorriso largo e me asseguraram que aquilo não seria um problema. Sugeriram que eu ponderasse sobre o projeto antes de começar o esboço e cada um citou um casal de jovens atores para eu ter em mente quando estivesse bolando a história. Apertei a mão de todos e lhes disse que certamente faria assim. Mencionei que poderia trabalhar melhor no projeto de volta à Inglaterra. E eles disseram que tudo bem.

Alguns dias antes, tinha perguntado a Piedoso Dundas se alguém estava com Belushi na noite em que ele morreu. Se alguém soubesse, imaginei, seria Dundas.

— Morreu só — disse Piedoso Dundas, velho como Matusalém, sem piscar. — Corto meu pescoço se alguém estava com ele. Morreu só.

Senti-me estranho em deixar o hotel. Fui até a recepção:

— Vou fechar a conta esta tarde.

— Muito bem, senhor.

— Seria possível para você... o, hã, o jardineiro. Seu Dundas. Um senhor idoso. Não sei. Não o vejo há dois dias. Gostaria de dizer adeus.

— Um dos jardineiros?

— Sim.


Ela me olhou confusa. Era muito bonita e seu batom era cor de amora. Indaguei-me se estava esperando para ser descoberta. Pegou o telefone e falou, mansamente.

E então:


— Sinto muito, senhor. Seu Dundas não aparece há alguns dias.

— Você poderia me dar o telefone dele?

— Sinto muito, senhor. Não é nossa política.

Ela me olhou profundamente enquanto falava, deixando-me ver que realmente sentia muito...

— Como vai o seu roteiro? — indaguei.

— Como você sabe? — perguntou.

— Bem...

— Está na mesa de Joel Silver — explicou. — Meu amigo, Arnie, que escreve comigo e é um mensageiro especial, ele o deixou no escritório do Joel Silver, como se tivesse vindo do escritório de um agente ou de outro lugar.

— Boa sorte — disse-lhe.

— Obrigada — retribuiu e sorriu com seus lábios de amora.

Havia dois Dundas, P. na lista telefônica, o que pensei ser tanto incomum e disse algo sobre os Estados Unidos, ou pelo menos Los Angeles. O primeiro número revelou uma Persephone Dundas. O segundo, quando perguntei por Piedoso Dundas, uma voz de homem indagou:

— Quem é?

Disse-lhe meu nome, que estava hospedado no hotel e que tinha algo que pertencia ao Senhor Dundas.

— Moço, meu avô morreu. Morreu a noite passada.

O choque faz com que os clichês aconteçam de verdade: senti o sangue sumir do meu rosto; prendi a respiração.

— Sinto muito. Eu gostava dele.

— É

— Deve ter sido bem repentinamente.



— O vovô era velho. Estava com tosse.

Alguém perguntou com quem o rapaz estava falando, e ele respondeu "ninguém", então disse:

— Obrigado por ligar.

Senti-me atordoado.

— Olha, estou com o álbum de recordações dele. Ele deixou comigo.

— Aquela coisa de filmes velhos?

— Exato.

Uma pausa.

— Pode ficar. Aquela coisa não serve para nada. Escute, moço, tenho de ir.

Um clique e a linha ficou muda.

Fui guardar o livro na minha sacola e fiquei espantado, quando uma lágrima salpicou a capa de couro descorado, ao descobrir que estava chorando.

Parei ao lado do lago ornamental pela última vez para dizer adeus a Piedoso Dundas e a Hollywood.

Três carpas fantasmas vagavam, agitando, vez por outra, as barbatanas no eterno presente do lago.

Lembrei-me dos seus nomes: Buster, Fantasma e Princesa, mas não havia mais jeito de alguém ser capaz de distingui-las.

O carro estava esperando por mim, na entrada do hotel. Foi uma viagem de trinta minutos até o aeroporto, e eu já começava a me esquecer.

A ESTRADA BRANCA


"...Queria que viesses visitar-me algum dia,

na minha casa.

Há vistas que queria te mostrar."
Minha pretendida baixou os olhos e, sim, ela treme.

Seu pai e os amigos dele gritaram e aplaudiram.


"Isso não se trata de um caso, Senhor Pox", ralha uma mulher pálida

no canto da sala, seu cabelo claro como trigo,

seus olhos do cinza das nuvens, came em seus ossos,

ela recurva-se e ri, dobrada e divertida.


"Madame, eu não sou um contador de casos", curvo-me e pergunto.

"Talvez tenhas uma história para nós?", ergo o sobrolho.

Seu sorriso permanece.
Ela inclina a cabeça e levanta-se, seus lábios movem-se:
"Uma moça da cidade, menina simples, foi traída por seu amante,

um erudito. Quando seu sangue não mais fluiu,

e seu ventre inchou sem mais poder disfarçar,

ela foi até ele e verteu lágrimas quentes. Ele afagou seu cabelo,

jurou que se casariam, que fugiriam,

de noite,

juntos,

até a casa da tia dele. Ela acreditou no que ele disse;

apesar de ter visto os olhares que, na sala,

ele dirigia à filha do seu patrão,

que era bela e rica,

ela acreditava nele.

Ou acreditava que acreditava.
Havia algo dissimulado em seu sorriso,

seus olhos tão negros e agudos, seu cabelo ruivo. Algo

que a fez chegar mais cedo ao local de encontro,

debaixo do carvalho, ao lado do espinheiro,

algo que a fez subir na árvore e esperar.

Subir numa árvore, e na sua condição.

Seu amor chega ao anoitecer, esquivando-se no lusco-fusco,

trazendo um saco,

de onde ele tira uma enxada, pá e faca.

Trabalha com vontade, ao lado do espinheiro,

debaixo do carvalho,

assobiando mansamente e cantando, enquanto cava a cova dela,

aquela velha canção...

Querem que eu a cante para vocês, minha boa gente?"


Ela fez uma pausa, e em uníssono aplaudimos e gritamos

— ou quase em uníssono:

minha pretendida, seu cabelo tão escuro, suas faces tão rosadas,

seus lábios tão vermelhos,

parecia distraída.
A bela menina (quem é ela? Uma hóspede da estalagem, arrisco) canta:
Uma raposa saiu mima noite brilhante

E pediu à lua que lhe desse sua luz

pois ela tinha muito o que andar naquela noite

antes de chegar à sua toca-A!

Toca-A! Toca-A!

pois ela tinha muito o que andar naquela noite antes de chegar à sua toca-A."
Sua voz era doce e bela, mas a voz da minha pretendida era ainda mais bela.
"E quando seu túmulo estava cavado —

Um pequeno buraco, pois pequena era ela,

mesmo com filho, pequena era —

ele andou debaixo dela, para frente e para trás,

ensaiando suas palavras assim:

'Boa noite, minha gatinha, meu amor,

minha... mas tu pareces um regalo ao luar,

mãe do meu filho que esta para nascer. Venhas, deixa-me abraçar-te.'

E abraça o ar da meia-noite com uma mão

e com a outra, segurando sua faca, curta mas cruel,

apunhala e apunhala a escuridão.


Ela tremia no carvalho acima dele. Respirava vagarosamente,

mas ainda assim tremia, Uma vez, ele olhou para cima e disse:



'Corujas, aposto’, e noutra hora, 'Xô! É um gato lá em cima?

Aqui, bichano...' mas ela estava imóvel,

imaginando-se um galho, uma folha, um broto. Ao amanhecer

ele apanha sua enxada, pá e faca, e parte

rosnando, ressentido com sua presa.


Encontraram-na vagueando, a razão

a tinha abandonado. Havia folhas de carvalho em seu cabelo,

e ela cantava:
O galho dobrou

O galho quebrou

Eu vi o buraco

Que a raposa cavou
Juramos amar

Juramos casar

Eu vi a lâmina

Que a raposa estava a carregar
Contaram que seu bebê, quando nasceu,

tinha uma pata de raposa, não uma mão.

O medo é escultor, afirmavam as parteiras. O erudito fugiu."
E ela senta e o aplauso é geral.

O sorriso crispa, esconde-se em seus lábios: sei que está lá,

espera em seus olhos cinzas. Ela me fita, divertida.
"Li que no Oriente as raposas seguem sacerdotes e eruditos,

disfarçadas de mulheres, casas, montanhas, deuses, procissões,

sempre descobertas pelas suas caudas —" assim começo eu,

mas o pai da minha pretendida intervém:

"Falando em fábulas, minha queiida, tu disseste que sabias uma?"
Minha pretendida cora. Não há pétalas de rosas,

a não ser nas suas faces. Ele meneia a cabeça e diz:


"Minha história, meu pai? Minha história é a de um sonho que sonhei."
Sua voz é serena e suave, silenciamos para ouvir,

fora da estalagem há somente sons noturnos: uma coruja pia,

mas, como diz a velha gente, vivo perto demais do bosque

para me apavorar com uma coruja.


Ela olha para mim.
"Tu, senhor. No meu sonho, tu cavalgaste até mim e chamaste:

'Vem, minha doce, pela estrada branca.

Há paisagens que queria te mostrar'

Perguntei como acharia tua casa, pela estrada branca de calcário,

pois é uma estrada longa e escura, sob árvores

que tornam a luz verde e dourada, quando o sol vai alto,

mas envolvem-na em penumbra, em outras horas. À noite,

é negra como breu; não há luar na branca estrada...


E tu disseste, Senhor Fox — e isso é deveras curioso, mas sonhos

são traiçoeiros, intrigantes e sombrios —,

que tu cortarias o pescoço de uma porca

e voltarias para casa, fazendo-a andar atrás do teu belo garanhão.


Tu sorriste,

sorriste, Senhor Fox, com teus lábios vermelhos e teus olhos verdes,

olhos que poderiam capturar a alma de uma donzela, e teus dentes amarelos,

que poderiam comer seu coração..."


"Deus me livre", sorri. Todos os olhos estavam em mim, então, não nela,

apesar de ser dela a história. Olhos, que olhos.


"Então, no meu sonho, tornou-se meu capricho visitar tua grande casa,

como tu tinhas sempre me rogado fazer,

para andar pelas clareiras e sendas, para ver as lagoas,

as estátuas que tu trouxeste da Grécia, os teixos,

a alameda de alamos, a gruta e o caramanchão.

E, como fosse somente um sonho, não quis

levar uma dama de companhia

— uma ameixa seca já sem sumo

que não gostaria da tua casa, Senhor Fox; que

não apreciaria tua pele pálida,

nem teus olhos verdes,

nem teus modos insinuantes.


Assim, cavalguei a estrada branca de calcário, seguindo a

[trilha vermelha de sangue,

montando Retsy, minha potranca. Acima, as árvores eram verdes.

Doze milhas em linha reta e, então, o sangue

me levou por campinas, sobre valas, até uma senda de cascalho

(agora, porém, precisava aguçar os olhos para ver o sangue —

uma gota, um pingo: a porca já devia ter morrido).

Puxei as rédeas da minha potranca em frente à casa.

E que casa. Um deleite palladiano, imensa,

uma paisagem por si só, janelas, colunas,

um monumento em pedra branca à verticalidade, vasta.
Havia uma escultura no jardim, ante a casa,

uma criança espartana, a raposa roubada, meio escondida em sua túnica,

mordia o estômago do menino, roendo seus órgãos vitais,

a estóica criança bravamente calada —

O que poderia dizer, mármore frio que era?

Havia dor em seus olhos, e se erguia

sobre um plinto, no qual oito palavras estavam gravadas.

Andei ao seu redor e li:



Seja audaz,

seja audaz,

mas não tão audaz.
Amarrei a pequena Betsy no estábulo,

entre doze garanhões negros como a noite

cada qual com sangue e fúria nos olhos.

Não vi ninguém.

Caminhei até a frente da casa e subi os grandes degraus.

A enorme porta estava trancada,

nenhum criado veio me saudar quando bati.

No meu sonho (pois não te esqueças, Senhor Fox, que esse foi

meu sonho. Pareces tão pálido), a casa me fascinou,

o tipo de curiosidade (sabes disso,

Senhor Fox, vejo em teus olhos) que mata

o gato.
Encontrei uma porta, uma pequena porta, abri o trinco

e entrei.

Caminhei por corredores, alinhados com carvalho, com prateleiras,

com bustos e quinquilharias.

Caminhei, meus pés silenciosos sobre o tapete escarlate,

até chegar à grande sala.

Estava lá de novo, em pedras vermelhas que fulgiam,

posta no branco mármore do chão,

dizia:


Seja audaz,

seja audaz,

mas não tão audaz.

Ou então o sangue da tua vida

Frio esvair-se-á.
Havia escadarias, largas, atapetadas de escarlate,

que saíam da grande sala,

e as subi, silenciosamente, silenciosamente.

Portas de carvalho: e agora

estava na sala de jantar, ou assim me pareceu,

pois os restos de uma ceia medonha

jaziam abandonados, frios e cobertos de moscas.

Aqui, uma mão meio comida, lá, crispado e debicado,

um rosto, um rosto de mulher que em vida, temo,

parecia com o meu."


"Os Céus nos protejam desses sonhos sombrios", gritou seu pai.

"Podem tais coisas proceder?"


"Não é assim", assegurei-lhe. O sorriso da mulher loira

rutilou por trás dos olhos cinzas. As pessoas

precisam de segurança.
"Além da sala de jantar havia um quarto,

um quarto enorme, no qual esta estalagem caberia,

promiscuamente abarrotado de anéis e braceletes,

colares, pingentes de pérola, vestidos de baile, estolas,

anáguas de renda, sedas e cetins. Botas de senhoras,

regalos e boinas: uma caverna do tesouro e quarto de vestir —

diamantes e rubis debaixo dos meus pés.
Além daquele quarto, vi-me no inferno.

No meu sonho...

Vi muitas cabeças. Cabeças de jovens mulheres. Vi uma parede

onde membros mutilados estavam pregados.

Uma pilha de seios, um monte de tripas, fígados, luzes,

os olhos, os...

Não, não posso dizer. E por todo o lugar as moscas zuniam,

um zunido baixo e monótono:



Belzebuzebuzebu, zuniam. Não conseguia respirar,

corri de lá e solucei encostada numa parede."


"O covil de uma raposa, sem dúvida", disse a loira.

("Não era assim", murmurei).

"São criaturas desmazeladas, espalham em

suas tocas os ossos, peles e penas

das suas presas. Os franceses a chamam de Renard,

Os escoceses de Tod."


"Ninguém tem culpa do seu nome", diz o pai de minha pretendida.

Ele está quase arquejando, todos estão:

na luz do fogo, o calor do fogo, sorvendo suas cervejas.

A parede da esíalagem coberta com gravuras de caçadas.


Ela prossegue:

"De fora ouço um estrondo, um estardalhaço.

Corri de volta pelo caminho de onde tinha vindo, pelo tapete vermelho,

desci a larga escadaria — tarde demais! — a porta da frente se abria!

Joguei-me debaixo das escadas — rolando, tropeçando —

enfiando-me desesperadamente debaixo de uma mesa,

onde esperei, tremi, orei."
Ela me apontou: "Sim, tu, senhor. Tu entraste,

escancaraste a porta com um estrondo, cambaleaste para dentro, tu, senhor,

arrastando uma jovem

pelo cabelo vermelho e pela garganta.

Seu cabelo era comprido e solto, ela gritou e lutou

para se libertar. Tu riste, do fundo da tua garganta,

estavas todo suado e rias de orelha a orelha."
Seu olhar me dardejava. Suas faces coradas.

"Puxaste uma velha e curta espada de folha larga, Senhor Fox,

e, enquanto ela berrava,

tu rasgavas seu pescoço de orelha a orelha.

Ouvi o borbulhar do sangue, os suspiros, os guinchos,

e fechei meus olhos e rezei até ela parar.

E ela parou após muito, muito, muito tempo.
E te olhei. Tu sorrias, erguias tua espada,

tuas mãos manchadas de sangue."


"No teu sonho", disse-lhe.
"No meu sonho.

Ela jazia no mármore enquanto tu cortavas,

talhavas, arrancavas, ofegavas e apunhalavas.

Tiraste sua cabeça dos ombros,

enfiaste tua língua entre seus rubros lábios úmidos.

Cortaste suas mãos. Suas mãos brancas e pálidas.

Abriste seu corpete à faca, retiraste seus seios.

Então começaste a soluçar e a uivar.

De repente,

agarrando sua cabeça, que levaste pelos cabelos,

cabelos vermelhos qual chamas,

correste escada acima.


Tão logo saíste de vista,

corri pela porta aberta.

Cavalguei minha Betsy de volta para casa, pela estrada branca”.
Todos os olhos estavam sobre mim. Pus minha cerveja

sobre a madeira da velha mesa.

"Não é assim",

Disse a ela,

disse a todos eles.

"Não foi assim, e

Deus me livre

que assim seja. Foi

um sonho ruim. Não desejo tais sonhos

para ninguém."


"Antes de fugir da capela mortuária,

antes de cavalgar a pobre Betsy até ela espumar,

antes de fugirmos pela estrada branca,

o sangue ainda vermelho

(foi de uma porca que cortaste o pescoço, Sehhot Fox?)

antes de chegar na estalagem de meu pai,

antes de cair ante eles sem fala,

meu pai, irmãos, amigos —“


Todos honestos fazendeiros, caçadores de raposa.

Batiam suas botas, suas botas negras.


"— antes disso, Senhor Fox,

peguei do chão, do chão sangrento,

sua mão, Senhor Fox. A mão da mulher

que decepaste ante meus olhos."


"Não é assim —"
"Não foi um sonho. Sua criatura. Seu Barba Azul."
"Não foi assim —"
“Seu Gilles-de-Rais. Seu Monstro"
"E Deus me livre que assim seja!"
Ela sorria agora, sem alegria ou calor.

O cabelo castanho caindo em cachos ao redor de seu prato,

rosas enroscadas num caramanchão:

Duas manchas vermelhas estão a queimar nas suas faces.


"Vê, Senhor Fox! A mão dela! Sua pobre mão pálida!"

Ela a tira de entre seus seios (delicadamente sardentos,

tinha sonhado com aqueles seios),

a joga sobre a mesa.

Jaz na minha frente.

Seu pai, irmãos, amigos,

fitam-me famintos,

e eu pego aquela coisinha.


O pêlo era realmente vermelho e viçoso. A pata e as garras

eram ásperas. Havia sangue em uma extremidade,

mas tinha secado.
"Isso não é uma mão", disse-lhes. Mas o primeiro punho

me arranca o fôlego,

um porrete de carvalho acerta meu ombro,

enquanto cambaleio,

a primeira bota negra me chuta para o chão.

E, então, uma chuva de pancadas cai sobre mim,

curvo-me, choramingo, rezo e agarro a pata

com toda a força.


Quiçá choro.
Então a vejo,

a moça loira e pálida, sorriso nos lábios,

sua saia tão longa, enquanto ela desliza, olhos cinzas,

divertida, sem compostura, para fora da sala.

Tem muitas milhas para andar esta noite.

E, enquanto ela se vai,

da minha posição privilegiada, caído no chão,

vejo a cauda de raposa, o rabo entre suas pernas;

teria gritado avisando,

mas não podia mais falar. Esta noite, ela estará a correr

sobre quatro patas, certamente, pela estrada branca.
E se os caçadores vierem?

E se eles vierem?


Seja audaz, sussurrei antes de morrer. Mas não tão audaz...
E, então, minha história terminou.

A RAINHA DAS FACAS

O reaparecimento da moça é uma questão de gosto pessoal

WILL GOLDSTON, TRICKS AND ILLUSIONS

Quando era menino, de tempos em tempos,

ficava com meus avós

(gente velha: sabia que eram velhos —

os chocolates na sua casa

não eram comidos até que eu viesse para ficar com eles;

isso era, então, ficar velho).

Meu avô sempre preparava o desjejum ao nascer do sol:

um bule de chá para ela, ele e eu,

algumas torradas e geléia

(a Pedaço de Prata e a Dourada). Almoço e jantar,

isso era para minha avó fazer, a cozinha

era novamente seu domínio, todas as panelas e colheres,

o moedor de carne, as batedeiras e facas, seus súditos leais.

Ela preparava a comida com eles, cantando suas musiquinhas:



Daisy, Daisy, responda-me,

ou às vezes,



você me fez te amar, eu não queria,

eu não queria.

Não tinha uma boa voz, digna de menção.

As coisas eram muito vagarosas.

Meu avô passava seus dias na parte de cima da casa,

no seu minúsculo quarto escuro onde não me deixavam ir,

trazendo rostos de papel da escuridão,

sorrisos sem graça dos feriados de outras pessoas.

Minha avó me levava em caminhadas cinzas pelo passeio público.

A maioria das vezes, eu explorava

o pequeno espaço de grama molhada atrás da casa,

as amoreiras e o depósito do jardim.
Era uma semana dura para meus avós

forçados a entreter um garoto de olhos vivos; então

uma noite me levaram ao Teatro do Rei. Teatro de...
Variedade!

As luzes se apagaram, cortinas vermelhas se ergueram.

Um comediante popular da época

subiu ao palco, gaguejou seu nome (seu modo de chamar atenção)

tirou uma folha de vidro e colocou metade do seu corpo atrás dela,

erguendo o braço e a perna que podíamos ver;

refletido,

parecia voar — era sua marca registrada,

e todos rimos e demos vivas. Contou uma piada ou duas,

muito mal. Seu jeito infeliz, sua deselegância,

era o que tínhamos ido ver.

Confuso, ficando careca e de óculos,

ele lembrava um pouco meu avô.

E, então, o comediante acabou.

Algumas moças dançaram suas pernas pelo palco.

Um cantor cantou uma música que eu não conhecia.


A platéia era de velhos,

como meus avós, cansados e aposentados,

todos rindo e aplaudindo.
No intervalo meu avô

ficou na fila para comprar sorvete de chocolate.

Tomamos nossos sorvetes enquanto as luzes se apagavam.

A cortina de segurança ergueu-se e, depois, a cortina de verdade.

As moças dançaram pelo palco de novo

e, então, ribombou um trovão, fumaça foi soprada,

e o mágico apareceu e se curvou. Aplaudimos.
Uma moça veio ao palco, sorrindo dos bastidores:

cintilava. Tremeluzia. Sorria.

Olhamos para ela e, naquele momento, flores brotaram,

e sedas e flâmulas tombaram dos dedos do mágico.


As bandeiras de todas as nações, disse meu avô me cutucando.

Estavam na sua manga.

Desde que era jovem

(não conseguia imaginá-lo criança)

meu avô tinha sido, por mérito próprio,

uma das pessoas que sabiam como as coisas funcionam.

Tinha construído sua própria televisão,

minha avó me contou, quando eram recém-casados;

era enorme, mas a tela era pequena.

Isso foi antes de haver programas de TV;

mesmo assim eles assistiam,

sem saber se o que viam eram pessoas ou fantasmas.
Ele tinha também uma patente, para algo que inventou,

mas que nunca foi fabricado.

Foi submetido à assembléia consultiva da sua cidade,

[mas ficou em terceiro lugar.

Podia arrumar um barbeador ou um rádio,

revelar seu filme, ou construir uma casa de bonecas.

(A casa de bonecas era da minha mãe. Ainda a tínhamos em casa;

velha e batida, ficava lá fora, na grama, molhada de chuva e esquecida.)


A moça cintilante empurrou uma caixa sobre rodas.

A caixa era alta: do tamanho de um adulto e preta.

Ela abriu a frente.

Eles a viraram e bateram nos fundos.

A jovem entrou na caixa, ainda sorrindo.

O mágico fechou a porta.

Quando a caixa foi aberta, a moça tinha sumido.

Ele se curvou.



Espelhos, explicou meu avô. Ela ainda está lá dentro.

Num gesto, a caixa desmoronou reduzida a madeira para fósforos.



Um alçapão, assegurou meu avô;

vovó o fez se calar com um psiu.


O mágico sorriu, seus dentes eram pequenos e numerosos;

caminhou, vagarosamente, até a platéia.

Apontou para minha avó, curvou-se

numa saudação da Europa Central

e a convidou para subir com ele ao palco.

As outras pessoas aplaudiram e deram vivas.

Minha avó objetou. Eu estava tão perto

do mágico que podia sentir o cheiro da sua loção pós-barba

e sussurrei "eu, ah, eu..." Mesmo assim,

ele estendeu seus longos dedos para a minha avó.



Pearl, levante-se, disse meu avô. Vá com o homem.
Minha avó devia ter que idade? Sessenta?

Tinha acabado de parar de fumar

e tentava perder peso. Tinha orgulho

dos seus dentes, que, apesar de manchados de tabaco, eram todos seus.

Meu avô tinha perdido os dele, quando jovem,

andando de bicicleta; teve a brilhante idéia

de se segurar num ônibus para pegar velocidade.

O ônibus virou,

e vovô beijou o chão.

Ela mascava bala de alcaçuz, assistindo à TV à noite,

ou chupava caramelos duros, talvez para irritá-lo.
Ela se levantou, então, meio devagar.

Deixou o cone de sorvete pela metade,

a colherinha de madeira —

seguiu pelo corredor, subiu a escada.

E estava no palco.
O mágico a aplaudiu mais uma vez —

Um bom gênio. Era o que ela tinha. Um bom gênio.

Outra mulher cintilante veio dos bastidores,

trazendo outra caixa —

esta era vermelha.
É ela, disse meu avô balançando a cabeça, a que

desapareceu antes. Vê? É ela.

Talvez fosse. Tudo o que podia ver

era uma mulher que faiscava, de pé ao lado da minha avó.

(que mexia no seu colar de pérolas e parecia constrangida).

A moça sorriu e nos encarou, então congelou,

uma estátua ou um manequim de vitrine.

O mágico puxou a caixa,

facilmente,

até a frente do palco, onde minha avó esperava.

Um momento ou dois de bate-papo;

de onde ela era, seu nome, esse tipo de coisa.

Já haviam se encontrado? Ela negou çom a cabeça.
O mágico abriu a porta,

minha avó entrou.


Talvez não seja a mesma, admitiu meu avô,

[após refletir.



Acho que a outra moça linha cabelo mais escuro.

Eu não sabia.

Estava orgulhoso da minha avó, mas também constrangido,

esperando que ela não fizesse nada que me provocasse mal-estar,

que não cantasse alguma das suas canções.
Ela entrou na caixa. Trancaram a porta.

O mágico abriu um pequeno compartimento no alto,

[uma portinhola. Vimos

o rosto da minha avó. Pearl? Você está bem, Pearl?

Vovó sorriu e assentiu.

Ele fechou a porta.


A moça deu-lhe um estojo comprido,

ele abriu. Tirou uma espada

e enfiou-a através da caixa.
E então outra e mais outra

e meu avô exultou e explicou,



a lâmina desliza para dentro do punho da espada e, então, outra, falsa,

sai do outro lado.
Daí, o mágico mostrou ao público uma folha de metal que

enfiou na caixa até a metade,

cortando-a em dois.

A mulher e o homem, levantaram a metade

de cima da caixa e separaram-na, colocando-a no palco,

com metade da minha avó dentro.


A metade de cima.
Ele abriu a portinhola de novo, por um instante.

O rosto da minha avó brilhava para nós, confiante.



Quando o mágico fechou a porta antes,

ela desceu um alçapão

e agora está de pé num degrau.

Meu avô confidenciou.



Ela vai nos contar como isso é feito, quando tudo acabar.

Eu queria que ele parasse de falar: precisava de mágica.


Duas facas agora, através da meia caixa,

na altura do pescoço.



Você está aí, Pearl? Perguntou o mágico. Queremos saber

você conhece algumas canções?

Minha avó cantou Daisy, Daisy.

O mágico pegou a parte da caixa

com a portinhola — a parte da cabeça —

e andou pelo palco enquanto ela cantava.



Daisy, Daisy, primeiro de um lado do tablado,

depois do outro.


É ele, disse meu avô, ele está imitando sua voz.

Parece a vovó, disse eu.

É claro que parece, insistiu. É claro que parece.

Ele é bom, disse. Ele é bom, É muito bom.
O artista dividiu a caixa novamente,

agora do tamanho de uma de chapéu. Vovó tinha acabado Daisy, Daisy

e prosseguia com uma música que dizia:

Meu bem, aqui vamos nós, o motorista está bêbado e o cavalo empacou,

estamos voltando, estamos voltando,

de volta de volta para Londres.
Ela tinha nascido em Londres. Contava-me histórias sinistras,

de vez em quando,

da sua infância. De crianças que entravam correndo na loja do seu pai

gritando Shonky shonky judeu, fugindo;

não me deixava usar camisa preta porque,

dizia, lembrava-se das marchas pelo East End.

Camisas negras de Moseley. Sua irmã ficou com um olho roxo.
O mágico pegou uma faca de cozinha,

enfiou-a vagarosamente pela caixa de chapéu vermelha.

Então, a cantoria parou.
Juntou as caixas novamente,

tirou as facas e espadas, uma a uma,

Abriu o compartimento no alto: minha avó sorriu para nós,

constrangida, mostrando seus velhos dentes.

Fechou a portinhola, tirando-a de vista.

Arrancou a última faca.

Abriu a porta principal de novo,

e ela havia desaparecido.

Um gesto e a caixa vermelha desapareceu também.

Está na sua manga, explicou meu avô, mas não parecia tão seguro.
O mágico fez dois pombos voarem de um prato em chamas.

Um jato de fumaça e ele também desapareceu.


Ela está debaixo do palco agora, ou atrás,

explicou meu avô,



tomando uma xícara de chá. Voltará com flores,

ou com chocolates. Eu torci para que fosse com chocolates.
As dançarinas de novo.

O comediante, pela última vez.

E todos eles vieram ao palco juntos no final.

O grand finale, disse meu avô. Olhe bem,

talvez ela volte agora.

Mas não. Eles cantaram:



quando você está

na crista da onda

e o sol brilha no céu
A cortina desceu, e andamos devagar até o saguão.

Matamos o tempo um pouquinho.

Daí fomos até a saída do palco

e esperamos minha avó.

O mágico saiu com roupas comuns;

a mulher cintilante parecia tão diferente numa capa impermeável.


Meu avô foi falar com ele. Ele deu de ombros,

disse-nos que não falava inglês, fez aparecer

uma moeda atrás da minha orelha,

sumiu no escuro e na chuva.


Nunca mais vi minha avó.
Voltamos para a casa e continuamos com a vida.

Meu avô tinha de cozinhar para nós, agora.

E assim, no café, almoço, jantar e no lanche

comíamos geléia prata, torrada ouro

e xícaras de chá.

Até eu voltar para casa.


Ele envelheceu tanto depois daquela noite,

como se os anos tivessem vindo depressa demais.



Daisy, Daisy, cantava ele, responda-me.

Se fosses a única garota no mundo e eu o único rapaz

Meu velho dizia: "Siga a ala da frente".

Meu avô era quem tinha boa voz na família,

diziam que poderia ter sido cantor,

mas havia fotos para revelar,

rádios e barbeadores para consertar...

seus irmãos foram uma dupla de cantores: os Rouxinóis,

tinham aparecido na televisão no seu tempo.
Ele suportou bem tudo isso. Apesar de, bem tarde uma noite,

eu ter acordado, lembrando-me das balas de alcaçuz na copa;

desci a escada.

Meu avô estava lá, descalço.


E, na cozinha, sozinho,

vi que enfiava uma faca numa caixa.

Você me fez te amar.

Eu não queria fazer isso.

MUDANÇAS




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