FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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I.
Mais tarde, mostrariam a morte da sua irmã, o câncer que comeu sua vidinha de doze anos, tumores do tamanho de ovos de pato no seu cérebro, e ele um garoto de sete anos, ranho no nariz e cabelo à escovinha, vendo-a morrer no hospital branco com seus grandes olhos castanhos, e eles diriam "isso foi o começo", e talvez tenha sido.

Em Reiniciar (diretor Robert Zemeckis, 2018), o bioépico, cortam para sua adolescência, e ele está vendo seu professor de ciências morrer de AIDS, depois de terem discutido sobre a dissecação de um grande sapo de estômago pálido

— Por que temos de desmembrar o bichinho? — diz o jovem Rajit, enquanto a música aumenta. — Em vez disso, não deveríamos dar-lhe vida?

Seu professor, representado pelo falecido James Earl Jones, parece envergonhado e, então, inspirado, ergue a mão do leito de hospital e toca o ombro ossudo do garoto.

— Bem, se alguém pode fazer isso, Rajit, esse alguém é você — diz num resmungo baixo.

O garoto assente com a cabeça e nos fita com uma dedicação em seus olhos que beira o fanatismo. Isso nunca aconteceu.


II.
É um dia cinzento de novembro e agora Rajit é um homem de quarenta e poucos anos, de óculos de aros escuros, os quais não está usando no momento, A falta dos óculos enfatiza sua nudez. Sentado na banheira enquanto a água esfria, ensaia a conclusão do seu discurso. Ele encurva os ombros no dia-a-dia, embora não esteja encurvado agora, e considera suas palavras antes de falar. Não é um bom orador.

O apartamento no Brooklyn, que divide com outro cientista e com um bibliotecário, está vazio hoje. Seu pênis está encolhido e parece uma noz na água tépida.

— Isso significa — diz devagar em voz alta — que a guerra contra o câncer foi vencida.

Então, faz uma pausa, ouve a pergunta de um repórter imaginário que está do outro lado do banheiro.

— Efeitos colaterais? — pergunta numa voz que ecoa pelo banheiro. — Sim, há alguns. Mas, até onde pudemos averiguar, nada que crie mudanças permanentes.

Ele sai da banheira de porcelana gasta e anda, nu, até o vaso sanitário, onde vomita, violentamente, o medo da platéia trespassando-o como uma faca de estripar. Quando não há mais nada para vomitar e quando a ânsia cede, Rajit enxágua sua boca com Listerine, veste-se e pega o metrô até o centro de Manhattan.


III.
É, conforme a revista Time salientará, uma descoberta que "mudaria a natureza da Medicina tão fundamentalmente e teria um efeito tão importante quanto a descoberta da penicilina".

— E — diz Jeff Goldblum, fazendo o papel do Rajit adulto no bioépico — se você pudesse simplesmente reajustar o código genético do corpo? Muitas doenças acontecem porque o corpo se esqueceu do que deveria fazer. O código ficou embaralhado. O programa se corrompeu. E se... você pudesse consertar?

— Você é louco — replica, no filme, sua loira e encantadora namorada; na vida real a vida sexual de Rajit é uma série de transações comerciais intermitentes entre ele e os jovens da Agência de Acompanhantes AAA-Ajax.

— Ei — diz Jeff Goldbluin, explicando melhor do que Rajit jamais faria —, é como um computador. Em vez de arrumar os erros causadas por um programa corrompido um a um, sintoma a sintoma, você pode simplesmente reinstalar o programa. Toda a informação está lá. Temos apenas de dizer para nossos corpos verificarem novamente o RNA e o DNA, reler o programa se você preferir, e, então reiniciar, como um computador,

A atriz loira sorri e o cala com um beijo, divertida, impressionada e apaixonada.
IV.
A mulher tem câncer no baço, nos nodos linfáticos e no abdome: linfoma não-Hodgkin. Também tem pneumonia. Concordou com o pedido de Rajit de se submeter a um tratamento experimental. Também sabe ela que a afirmação de que se pode curar o câncer é ilegal nos Estados Unidos. Era uma mulher gorda até recentemente. Perdeu peso, lembrando a Rajit um boneco de neve ao sol: a cada dia derretia, a cada dia ficava, ele percebia, menos definida.

— Não é uma droga conforme o que se entende por droga — diz ele. — É um conjunto de informações químicas.

Ela não tem expressão. Ele injeta duas ampolas de um líquido claro nas suas veias.

Logo ela dorme.

Quando acorda, está livre do câncer. Mas morre de pneumonia logo depois disso.

Rajit passou os dois dias que antecederam sua morte indagando-se como explicaria o fato de que, como a autópsia demonstrou sem sombra de dúvidas, a paciente agora tinha pênis e era, em todo aspecto funcional e cromossômico, um homem.


V.
Vinte anos mais tarde, num minúsculo apartamento em Nova Orleans (embora pudesse muito bem ser em Moscou, Manchester, Paris ou Berlim). Esta noite será a grande noite e Jo/e vai causar estardalhaço.

A escolha é entre um vestido de corte francês do século XVIII, no estilo Polonaise, de crinolina (anquinha de fibra de vidro, corpete escarlate bordado com decote e armação de arame) e uma réplica da roupa de corte de Sir Phillip Sydney em veludo negro e fios de prata, completada com gola de tufos engomados e enchimento sobre os órgãos sexuais. Finalmente, e depois de avaliar todas as opções, Jo/e opta por prexeca em detrimento do bilau.

Doze horas para sair; Jo/e abre o vidro com as pílulas vermelhas, cada comprimidinho marcado com um X, e toma dois. São dez da manhã, e Jo/e vai para a cama, começa a se masturbar, pênis semi-ereto, mas adormece antes de gozar.

O quarto é muito pequeno. Roupas penduradas em qualquer superfície, uma embalagem vazia de pizza no chão. Em geral, Jo/e ronca alto, mas quando está livre-reiniciando não faz qualquer ruído. Aparentemente, está em coma.

Jo/e acorda às dez da noite, sentindo-se renovado. No começo, quando Jo/e começou a freqüentar festas, cada mudança deflagrava um severo exame em si mesmo(a), perscrutando nevos e mamilos, prepúcio ou clitóris, vendo quais cicatrizes tinham desaparecido e quais persistido. Mas Jo/e havia se acostumado. Então, veste a anquinha e o vestido, seios novos (altos e cônicos) apertados um contra o outro, anágua arrastando pelo chão, o que significa que Jo/e pode calçar o par de botas Doctor Martens de quarenta anos de idade por baixo da saia (nunca se sabe quando será preciso correr, andar ou chutar; e chinelos de seda definitivamente não cooperam).

Uma peruca alta, de aparência empoada completa o visual. Em seguida, um borrifo de colônia. Então, a mão de Jo/e manuseia desajeitadamente a anágua, enfia um dedo entre as pernas (Jo/e não veste calcinhas, pretendendo uma autenticidade que as botas Doe Martens contradizem) e aplica a secreção como se fosse perfume atrás da orelha, talvez para dar sorte ou, quem sabe, seduzir. O táxi toca a campainha às 11:05h, e Jo/e desce. Jo/e vai ao baile.

Amanhã à noite, Jo/e tomará outra dose; a identidade profissional de Jo/e durante a semana é rigorosamente masculina.
VI.
Rajit nunca viu a ação de reprogramação de sexo do Reiniciar como algo além de um efeito colateral. O prêmio Nobel era destinado a trabalhos anticâncer (a reprogramação funcionava para a maioria dos casos de câncer, descobriu-se, mas não para todos).

Para um homem inteligente, Rajit era incrivelmente sem visão. Havia algumas coisas que ele não conseguia perceber. Por exemplo: que haveria pessoas que, mesmo sofrendo de câncer, prefeririam morrer a experimentar uma mudança de sexo; que a Igreja Católica opor-se-ia ao gatilho químico de Rajit, a essa altura vendido sob a marca Reiniciar, principalmente porque a mudança de sexo fazia com que o corpo da mulher reabsorvesse a carne do feto quando se reprogramava: homens não conseguem conceber. Várias outras seitas religiosas opunham-se ao Reiniciar, a maioria delas citando Gênesis 1:27 "E então Ele criou o homem e a mulher", como motivo.

Seitas que se mostraram contra o Reiniciar incluíam: o Islamismo, Ciência Cristã, a Igreja Ortodoxa Russa, a Igreja Católica Romana (com algumas vozes discordantes), a Igreja da Unificação, Adeptos Ortodoxos da Jornada, Judaísmo Ortodoxo, a Aliança Fundamentalista dos Estados Unidos da América,

Seitas que se mostraram a favor do uso do Reiniciar, quando um médico qualificado julgava ser o tratamento apropriado incluíam: a maior parte das budistas, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Igreja Ortodoxa Grega, a Igreja da Cientologia, a Igreja Anglicana (com algumas vozes discordantes), Nova Adeptos da Jornada, Judaísmo Liberal e Reformado, Coalizão da Nova Era da América.

Seitas que, inicialmente, mostraram-se a favor do uso do Reiniciar de forma recreativa: nenhuma.

Ao mesmo tempo que Rajit percebia que o Reiniciar tornaria a cirurgia de mudança de sexo obsoleta, nunca lhe ocorreu que alguém poderia tomá-lo por vontade, curiosidade ou fuga. Assim, não foi capaz de prever o mercado negro do Reiniciar e de gatilhos químicos semelhantes, nem de antever que, em quinze anos de liberação comercial do Reiniciar e aprovação da FDA, o comércio ilegal de cópias mais baratas da droga (piratas, como logo ficaram conhecidas) venderia, grama por grama, acima de dez vezes mais do que a heroína e a cocaína.


VII.
Em vários dos Novos Estados Comunistas da Europa Oriental, a posse das drogas piratas implicava sentença de morte.

Na Tailândia e na Mongólia, houve relatos de que meninos eram forçosamente reprogramados como meninas para aumentar seu valor na prostituição.

Na China, meninas recém-nascidas eram reprogramadas como meninos: famílias davam todas as suas economias por uma única dose. Os velhos morriam de câncer como antes. A crise subseqüente na taxa de natalidade não foi percebida como um problema até ser tarde demais; as soluções drásticas propostas mostraram-se difíceis de serem implementadas e levaram, a seu modo próprio, a revolução final.

A Anistia Internacional relatou que, em vários países Pan-Árabes, homens que não conseguiam demonstrar facilmente que haviam nascido do sexo masculino e que não eram, de fato, mulheres fugindo da obrigatoriedade do véu estavam sendo encarcerados e, em muitos casos, estuprados e mortos. A maior parte dos líderes árabes negava que qualquer fenômeno estivesse ocorrendo ou tivesse jamais ocorrido.


VIII.
Rajit está com sessenta e poucos anos quando lê no The New Yorker que a palavra mudança está adquirindo conotações de profunda indecência e tabu.

Estudantes riem constrangidos quando encontram frases como "preciso mudar", ou "hora de mudança", ou "os ventos da mudança", nos seus estudos de literatura anteriores ao século XXI. Em uma aula de inglês em Norwich, risos obscenos saúdam a descoberta de um colega de quatorze anos de que "uma mudança é tão boa quanto um descanso".

Um representante da Sociedade Inglesa do Rei escreve uma carta ao jornal The Times, deplorando a perda de outra palavra perfeitamente útil na língua inglesa.

Vários anos mais tarde, um jovem em Streatham é processado por vestir em público uma camiseta com o slogan SOU UM HOMEM MUDADO claramente escrito.


IX.
Jackie trabalha no Blossoms, uma danceteria na zona oeste de Hollywood. Há dúzias, senão centenas, de Jackies em Los Angeles, milhares por todo o país, centenas de milhares pelo mundo. Algumas trabalham para o governo, outras para organizações religiosas ou comerciais. Em Nova Iorque, Londres e Los Angeles, pessoas como Jackie ficam na porta de lugares onde as multidões se aglomeram.

Isto é o que ela faz. Jackie observa a multidão entrando e pensa: nasceu H agora é M, nasceu M agora é H, nasceu H agora é H, nasceu H agora é M, nasceu M agora é M...

Nas "Noites Naturais" (cruamente, não-mudados) Jackie diz: "sinto muito, hoje você não pode entrar" muitas vezes. Pessoas como Jackie possuem uma taxa de exatidão de 97 por cento. Um artigo na revista Scientific American sugere que essa capacidade de reconhecimento do sexo de nascença pode ser herança genética: uma habilidade que sempre existiu, mas não tinha valores para sobrevivência até agora.

Jackie é emboscada de madrugada, depois do trabalho, nos fundos do estacionamento da Blossoms. E a cada bota que chuta ou pisa o rosto, o peito, a cabeça e a virilha de Jackie, ela pensa: nasceu H agora é M, nasceu M agora é M, nasceu M agora é H, nasceu H agora é H...

Quando Jackie sai do hospital — visão em apenas um olho, rosto e peito um único, enorme, hematoma roxo-esverdeado — há uma mensagem, mandada junto com um grande arranjo de flores exóticas, dizendo que a vaga para seu trabalho ainda está aberta.

Entretanto, Jackie pega o trem-bala para Chicago e, então, o comum para Kansas City e por lá fica, trabalhando como pintora de paredes e eletricista, profissões que Jackie aprendera há muito tempo. Ela não volta mais.


X.
Rajit tem agora setenta e poucos anos. Mora no Rio de Janeiro. É rico o suficiente para satisfazer qualquer capricho; no entanto, não faz sexo com ninguém. Tomado por desconfiança, observa as pessoas da janela do seu apartamento, fitando os corpos bronzeados em Copacabana. Está pensativo.

As pessoas na praia pensam tanto nele quanto um adolescente com clamídia agradece a Alexander Fleming. A maioria imagina que Rajit já deve estar morto. De qualquer forma, ninguém se importa.

Aventa-se que alguns tipos de câncer evoluíram, ou sofreram mutação para sobreviver à reprogramação. Muitas doenças bacteriológicas e viroses podem sobreviver à reprogramação. Algumas até mesmo desenvolvem-se em função da reprogramação e levanta-se a hipótese de que uma delas — uma variedade de gonorréia — usa o processo em sua transmissão, permanecendo inicialmente em repouso no corpo hospedeiro e tornando-se infecciosa apenas quando a genitália se reorganiza em sexo oposto.

Mesmo assim, a média da expectativa da vida humana no Ocidente está aumentando.

O motivo pelo qual alguns livre-reprogramadores — usuários do Reiniciar com fins recreativos — parecem envelhecer normalmente, enquanto outros não demonstram indícios de envelhecimento, é algo que confunde os cientistas. Alguns afirmam que o último grupo está realmente envelhecendo em termos celulares. Outros mantêm que ainda é cedo demais para se concluir e que ninguém sabe coisa alguma com certeza.

A reprogramação não reverte o processo de envelhecimento; entretanto, há evidências de que, para alguns, ela pode deter tal processo. Muitas pessoas da geração mais velha, que até agora têm resistido à reprogramação por prazer, começam a tomar a droga regularmente — livre-reiniciação —, tendo ou não condições médicas que as permitam fazê-lo.


XI.
O processo de tornar diferente ou alterar é agora conhecido como troca. O mesmo se dá quando se deixa de morar em uma casa para fixar residência em outra.
XII.
Rajit está morrendo de câncer de próstata no seu apartamento no Rio de Janeiro. Tem noventa anos. Nunca tomou o Reiniciar; agora a idéia o amedronta. O câncer espalhou-se pelos ossos da sua pélvis e testículos. Ele toca a campainha. Há uma curta espera para que a novela diária da sua enfermeira seja desligada, a xícara de café seja posta de lado. Finalmente, a enfermeira vem,

— Leve-me para fora, para o ar — diz para a enfermeira, sua voz rouca. A princípio, ela não aparenta entender. Ele repete, no seu mau português. A enfermeira nega com a cabeça.

Ele se arrasta para fora da cama — uma figura encolhida, tão inclinada que é quase corcunda, e tão frágil que parece que uma tempestade o levaria — e começa a andar até a porta do apartamento.

Sua enfermeira tenta, sem sucesso, dissuadi-lo, então, ela caminha com ele até a entrada do apartamento e segura seu braço enquanto esperam pelo elevador. Rajit não saía do apartamento havia dois anos; mesmo antes do câncer, não deixava o apartamento. Está quase cego.

A enfermeira o guia até o sol flamejante, atravessam a rua e chegam à areia de Copacabana.

As pessoas na praia olham fixamente o velho, careca e podre, no seu surrado pijama, olhando ao redor com olhos opacos, que já foram castanhos, através dos óculos de aros escuros, grossos como fundo de garrafa.

Ele os encara também.

São todos dourados e lindos. Alguns dormem na areia. A maioria está nua ou veste um tipo de traje de banho que enfatiza e pontua sua nudez.

Rajit os conhece, então.

Mais tarde, muito mais tarde, fazem um outro bioépico. Na seqüência final, o velho cai de joelhos na praia, como o fez na vida real, e o sangue pinga da abertura do seu pijama, empapando o algodão manchado e formando uma poça escura sobre a areia macia. Ele fita as pessoas fixamente, olhando de uma para outra com estupefação no rosto, como um homem que finalmente aprendeu a encarar o sol.

Disse apenas uma palavra enquanto morria, cercado pelas pessoas douradas, que não eram homens, que não eram mulheres. Disse "anjos".

E as pessoas que assistiam ao bioépico, tão douradas, tão lindas, tão mudadas quanto as pessoas na praia, sabiam que era o fim de tudo aquilo.

E, não importa a maneira como Rajit tivesse entendido, realmente seria.

A FILHA DAS CORUJAS


Do The Remaines of Gentilisme & Judaisme

por John Aubrey, R.S.S (1686-1687), (pp. 262-263)


Ouvi esta história do meu amigo Edmund Wyld, escudeiro, que a ouviu do Senhor Farringdom, que disse já ser velha no seu tempo. Na cidade de Dymton, uma menina recém-nascida foi deixada, uma noite, na escadaria da igreja, onde o sacristão a encontrou na manhã seguinte, de posse de algo curioso, a saber: uma pelota de coruja4, que quando esmigalhada apresentava a composição usual de uma pelota de coruja assim: pele, dentes e pequenos ossos.

As velhas esposas da cidade disseram o que se segue: que a menina era a filha das corujas e que deveria ser enterrada viva, pois não havia nascido de uma mulher. Não obstante, os sábios Líderes e Barbas Grisalhas prevaleceram e o bebê foi levado para o convento (pois isso aconteceu logo após os tempos papistas e o convento tinha sido abandonado porque a gente da cidade julgava ser um lugar de diabos e coisas que tais, pios de mochos e guinchos de corujas e, de fato, muitos morcegos faziam seus ninhos na torre) e lá ela foi deixada, e uma das esposas da cidade ia todo dia ao convento e alimentava o bebê etc.

Foi prognosticado que o bebê morreria, o que não aconteceu: em vez disso, ela cresceu ano após ano até chegar a ser uma donzela de quatorze primaveras. Era a mais bela coisa que jamais se viu, uma linda rapariga que passava dias e noites por detrás de altos muros de pedra com ninguém para admirá-la, exceto uma esposa da cidade que até lá ia todas as manhãs. No dia do mercado, a boa esposa falou alto demais sobre a beleza da menina e também sobre o fato de ela não dizer palavra, pois nunca aprendera como fazê-lo.

Os homens de Dymton, os Barbas Grisalhas e os jovens, conversavam dizendo: se a visitarmos, quem saberia? (querendo dizer com visita que queriam, de fato, violentá-la).

Assim foi combinado: os homens iriam sair para caçar, num único grupo, na próxima lua cheia. Quando isso aconteceu, eles saíram em silêncio, um a um, das suas casas e encontraram-se no convento. O reverendo do Dymton destrancou o portão e eles entraram, um a um. Encontraram-na escondida no porão, assustada com o barulho.

A donzela era ainda mais bela do que tinham ouvido: seu cabelo era ruivo, o que era incomum, e vestia apenas um camisão branco. Quando os viu, teve muito medo pois nunca havia visto homens, apenas as mulheres que traziam alimentos para ela. Fitou-os com olhos enormes e soltou gritinhos, como se implorasse para que não a machucassem.

As gentes da cidade apenas riram, pois tencionavam o mal e eram homens malvados e cruéis. Avançaram sobre ela sob o luar.

A menina começou a guinchar e a gemer, mas isso não fez com que eles abandonassem seu propósito. Então, a grande janela escureceu, a luz da lua havia sido tapada, e ouviu-se o som de asas gigantescas, mas os homens nada viram, intencionados como estavam de estuprá-la.

A gente de Dymton, nas suas camas naquela noite, sonhou com pios de mocho, guinchos e uivos. Sonhou com grandes pássaros e que todos haviam virado camundongos e ratinhos.

De manhã, quando o sol estava alto, as boas esposas da cidade saíram por Dymton a procurar, de um lado a outro, seus mandos e filhos. Quando chegaram ao convento, encontraram pedras, as pelotas de coruja, no porão. Nas pelotas descobriram cabelo, fivelas, moedas e pequenos ossos, além de um pouco de palha sobre o chão.

Os homens de Dymton nunca mais foram vistos. Entretanto, alguns anos depois, algumas pessoas disseram que haviam visto uma donzela em lugares elevados, como nos mais altos carvalhos e campanários, sempre ao anoitecer ou tarde da noite, e ninguém sabia dizer se era ela ou não.

Era uma figura branca, mas o Senhor E. Wyeld não consegue se lembrar se ela estava vestida ou nua.)

A verdade dessa história desconheço, mas é um caso aprazível, o qual escrevo aqui.

SHOGGOTH’S OLD PECULIAR


Benjamin Lassiter estava chegando à inevitável conclusão de que a mulher que escrevera Uma viagem a pé pela costa britânica, o livro que trazia na mochila, nunca havia feito qualquer tipo de viagem a pé e que, provavelmente, não reconheceria a costa britânica mesmo que ela entrasse dançando no seu quarto, à frente de uma banda num desfile, cantando "Eu sou a costa britânica" numa voz alta e alegre, acompanhando-se ao kazoo5.

Ele tinha seguido seus conselhos por cinco dias e não havia ganho nada, exceto hematomas e dor nas costas. Todos os balneários litorâneos britânicos possuem um número de hospedarias familiares que terão muito prazer em recebê-lo fora de temporada, era um desses conselhos. Ben o havia riscado e escrito na margem, ao seu lado: Todos os balneários litorâneos britânicos contêm um punhado de hospedarias familiares cujos donos viajam para a Espanha ou Provença no último dia de setembro, trancando as portas dos seus estabelecimentos ao saírem.

Ele tinha acrescentado várias outra notas nas margens, como "não repita, sob qualquer circunstância, o pedido de ovos fritos num café de beira de estrada" e "o que é essa coisa com o peixe e fritas?" e "não, não é". Este último foi escrito ao lado de um parágrafo que afirmava que, se havia algo que os habitantes de uma pitoresca aldeia na costa britânica gostavam de ver, era um jovem turista americano numa viagem a pé.

Por cinco dias infernais, Ben havia andado de aldeia em aldeia, bebido chá doce e café instantâneo em cantinas e cafés, observado vistas de pedras cinzentas e o mar cor de ardósia. Tinha tremido sob seus dois grossos blusões de moletom, ficado molhado e não conseguira ver nenhuma das paisagens prometidas.

Numa das noites, sentado no abrigo de ônibus, onde tinha desenrolado seu saco de dormir, começou a traduzir palavras-chave usadas nas descrições: encantador, resolveu, queria dizer não descrito; cênico queria dizer feio, mas com uma bela vista se a chuva passar; agradável provavelmente queria dizer nunca estivemos aqui nem conhecemos ninguém que esteve. Também tinha chegado à conclusão de que quanto mais exótico o nome da aldeia, mais monótona ela era.

Assim Ben Lassiter chegou, no quinto dia, a algum lugar ao norte de Bootle, na aldeia de Innsmouth, que não estava classificada nem como encantadora, nem como cênica, nem como agradável, no seu guia. Não havia descrições do ancoradouro que enferrujava, nem dos montes de gaiolas de pesca de lagostas apodrecendo sobre os seixos da praia.

Na rua que dava para o mar, havia três hospedarias familiares, uma ao lado da outra: Vista do Mar, Mon Repose e Shub Niggurath, cada uma delas com a placa de néon VAGAS na janela da sala da frente apagada; todas com o aviso FECHADA DURANTE A TEMPORADA preso com um percevejo na porta da frente.

Não havia cafés abertos na rua defronte ao mar. O solitário restaurante de peixe e fritas tinha um aviso de fechado. Ben esperou do lado de fora até que abrisse, enquanto a luz cinza da tarde transformava-se em lusco-fusco. Finalmente uma mulher pequena, com uma cara de sapo, desceu a rua e abriu a porta do restaurante. Ben perguntou quando abririam para o público e ela olhou para ele, confusa, e disse:




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