FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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— É segunda-feira, querido. Nunca abrimos às segundas-feiras.

Então, entrou no restaurante e fechou a porta atrás de si, deixando Ben com frio e fome do lado de fora.

Ben tinha sido criado numa cidade seca no norte do Texas: a única água era a das piscinas dos quintais e a única forma de viajar era em pick-ups com ar-condicionado. Portanto, a idéia de caminhar pelo litoral num país onde falavam um certo tipo de inglês o atraíra. A cidade natal de Ben era duplamente seca: orgulhava-se de ter banido o álcool trinta anos antes de o resto da América ter aderido à Lei Seca e de nunca ter voltado atrás. Assim, tudo o que Ben sabia sobre pubs é que eram lugares pecaminosos, como bares, apenas com um nome mais atraente. A autora do Uma viagem a pé pela costa britânica tinha, no entanto, dito que os pubs eram bons lugares para ver as cores locais e obter informações, que alguém sempre "pagaria a rodada" e alguns deles serviam comida.

O pub de Innsmouth chamava-se O livro dos nomes mortos e a placa sobre a porta informou Ben que o proprietário era um A. Al-Hazred, que tinha licença para vender vinhos e bebidas alcoólicas. Ben perguntou-se se isso significava que serviam comida indiana, que havia provado na sua chegada em Bootle e tinha gostado muito. Parou diante das placas que o orientavam ao Bar Público ou ao Saloon, imaginando que os bares públicos britânicos eram particulares, como as escolas públicas. Então, foi para o Saloon, também porque soava mais como algo que se veria num filme de cowboy.

O Saloon estava quase vazio. Cheirava a cerveja derramada uma semana antes e a fumaça de cigarro de anteontem. Atrás do bar, estava uma mulher gorducha de cabelo loiro-garrafa. Sentados em um canto, havia dois cavalheiros vestindo longas capas de chuva cinzas e cachecóis. Jogavam dominós e bebericavam cerveja escura com uma densa espuma em canecões.

Ben foi até o bar:

— Vocês servem comida aqui?

A moça do bar coçou o canto do nariz por um instante e admitiu, de má vontade, que poderia fazer um "lavrador" para ele.

Ben não fazia idéia do aquilo queria dizer e desejou, pela centésima vez, que o Uma viagem a pé pela costa britânica tivesse um capítulo de frases americano-britânicas no final.

— É comida? — perguntou.

Ela assentiu com a cabeça.

— Certo. Vou querer um.

— E para beber?

— Uma Coca, por favor.

— Não temos Coca.

— Então, Pepsi.

— Não temos Pepsi.

— Bom, o que você tem? Sprite? 7UP? Gatorade?

Ela pareceu ainda mais alheia do que antes. Então, disse:

— Acho que tem uma garrafa ou duas de cherryade nos fundos.

— Está bom.

— São cinco libras e vinte pence e eu trago seu lavrador quando estiver pronto.

Ben decidiu, sentado numa mesa pequena e um tanto grudenta, bebendo algo gasoso e vermelho-brilhante que parecia e tinha gosto de produto químico, que um lavrador era, provavelmente, algum tipo de bife. Chegou a essa conclusão, colorida pelo desejo, sabia ele, imaginando lavradores rústicos, talvez até bucólicos, conduzindo seus bois gordos através de campos recém-arados ao pôr-do-sol e porque ele poderia naquele momento, com equanimidade e apenas com uma pequena ajude de outras pessoas, comer um boi inteiro.

— Aqui está. Lavrador — disse a moça do bar; colocando um prato na sua frente.

O lavrador acabou revelando-se uma lâmina de queijo de gosto acre, uma folha de alface, um pequeno tomate com uma impressão digital gravada, um montículo de uma coisa molhada e marrom que tinha gosto de geléia azeda e um pãozinho pequeno, duro e dormido, e foi uma triste decepção para Ben, que já tinha resolvido que os britânicos encaravam a comida como algum tipo de castigo. Mastigou o queijo e a folha de alface e amaldiçoou todos os lavradores da Inglaterra por escolherem jantar tal lavagem.

Os dois cavalheiros de capa de chuva, que estavam sentados no canto, acabaram seu jogo de dominó, pegaram suas bebidas e vieram se sentar ao lado de Ben.

— O que você está bebendo? — perguntou um deles, com curiosidade.

— Chama-se cherryade — disse-lhes. — Tem gosto de algo feito em uma fábrica de produtos químicos.

— Interessante você dizer isso — disse o mais baixo dos cavalheiros. — Interessante você dizer isso, porque tenho um amigo que trabalha numa fabrica de produtos químicos que nunca bebe cherryade.

Fez uma pausa de forma dramática e, então, deu um gole da sua bebida marrom. Ben esperou que ele prosseguisse, mas parece que aquilo era tudo. A conversa tinha acabado.

Num esforço para parecer bem educado, Ben perguntou, por sua vez:

— O que vocês estão bebendo?

O mais alto deles, que até então tinha parecido lúgubre, iluminou-se:

— É uma extrema gentileza da sua parte. Um quartilho de Shoggoth's Old Peculiar para mim, por favor.

— E para mim também — disse seu amigo. — Poderia matar uma Shoggoth’s. Ei, acho que dava um bom slogan publicitário, "poderia matar uma Shoggoth’s". Quem sabe eu escrevo pra eles sugerindo. Aposto que iam ficar muito contentes com minha sugestão.

Ben foi até a moça do bar planejando pedir dois quartilhos de Shoggoths Old Peculiar e um copo de água para ele, mas descobriu que ela já havia servido três quartilhos da bebida escura. Bom, pensou ele, tanto faz se for ovelha ou cordeiro, estando certo de que não podia ser pior do que o cherryade. Deu um gole. A cerveja tinha o tipo de sabor que, suspeitava ele, os publicitários descreveriam como encorpada, apesar de que, se pressionados, admitiriam que o corpo em questão seria o de uma cabra.

Pagou a moça do bar e manobrou de volta até seus novos amigos.

— Então, o que está fazendo em lnnsmouth? — perguntou o mais alto. Suponho que você seja um dos nossos primos americanos que veio ver a mais famosa aldeia inglesa.

— Batizaram uma cidade da América com o nome da nossa, sabia? — disse o mais baixo.

— Tem uma lnnsmouth nos Estados Unidos? — perguntou Ben.

— Devo dizer que sim — disse o homem baixo. Ele escreveu sobre ela o tempo todo. Ele cujo nome não mencionamos.

— Como? — disse Ben.

O homenzinho olhou sobre seu ombro e então sibilou, bem alto:

— H. P. Lovecraft!

— Falei pra não mencionar esse nome — disse seu amigo e deu um gole da cerveja marrom escura.

— H. P. Lovecraft. H. P. maldito Lovecraft. H. maldito P. maldito Love maldito craft. — Parou para tomar um fôlego. — O que ele sabia, hein? Quero dizer, que diabos ele sabia?

Ben bebeu um gole da sua cerveja. Esse nome era vagamente familiar. Lembrava-se dele inspecionando pilhas de LPs de vinil de músicas de estilo antigo no fundo da garagem do seu pai.

— Não eram um grupo de rock?

— Eu não tava talando de um grupo de rock. Eu falava do escritor.

Ben deu de ombros.

— Nunca ouvi falar — admitiu. — Na verdade, leio, a maior parte das vezes, apenas histórias de cowboy. E manuais técnicos.

O homenzinho cutucou seu amigo.

— Ouviu, Wilf? Nunca ouviu falar dele

— Bom, não há mal nisso. Eu costumava ler aquele Zane Grey — disse o mais alto.

— Sim. Bom. Não é nada pra se orgulhar. Este cara, como é que você disse que se chamava?

— Ben. Ben Lassiter. E você é...?

O homenzinho sorriu, parecia muito com uma rã, pensou Ben.

— Eu sou Seth — disse. — E o meu amigo aqui chama-se Wilf.

— Muito prazer — disse Wilf.

— Oi — disse Ben.

— Francamente — falou o homenzinho —, concordo com você.

— Concorda? — perguntou Ben, perplexo. O homenzinho fez que sim com a cabeça.

— Sim. H. P. Lovecrafl. Não sei por que tanta confusão. Ele não sabia escrever.

Deu um grande gole na sua cerveja e, então, lambeu a espuma dos seus lábios com a língua comprida e flexível.

— Digo, para iniciantes, veja as palavras que ele usava. Peculiar, sabe o que quer dizer peculiar?

Ben sacudiu a cabeça. Parecia que estava discutindo literatura com dois estranhos num pub inglês enquanto bebia cerveja. Perguntou-se por um instante se tinha se transformado em outra pessoa, enquanto não estava olhando. O gosto da cerveja ficava menos ruim a medida que o copo esvaziava e estava começando a tirar o gosto de cherryade que permanecia em sua boca.

— Peculiar, quer dizer esquisito. Peculiar. Amaldiçoadamente estranho. É isso o que quer dizer. Procurei no dicionário. E giboso?

Ben sacudiu a cabeça de novo,

— Giboso quer dizer que a lua está quase cheia. E aquela com a qual ele sempre xingava a gente, hein? Coisa. Que nome. Começa com b. Tá na ponta da língua...

— Bastardos? — sugeriu Wilf.

— Não. Coisa. Você sabe. Batráquio. É isso. Quer dizer parecido com rã.

— Espera aí — disse Wilf. — Pensei que fosse uma espécie de camelo.

Seth sacudiu a cabeça vigorosamente.

— Sem sombra de dúvida, rã. Camelo, não. Rã.

Wilf deu um grande gole na sua Shoggoth's. Ben bebericou a sua, cuidadosamente, sem prazer.

— E então? — disse Ben.

— Têm duas corcovas — interpôs Wilf, o alto.

— Rãs? — perguntou Ben.

— Não. Batráquios. Ao passo que o camelo dromedário comum tem só uma. É pra viagens longas através do deserto. É isso o que comem.

— Rãs? — perguntou Ben.

— Corcovas de camelo. — Wilf olhou Ben com um olho amarelo esbugalhado. — Escuta, rapaz. Depois de estar num deserto sem trilhas por três ou quatro semanas, um prato de corcova de camelo assada começa a parecer particularmente delicioso.

Seth olhou com desdém:

— Você nunca comeu corcova de camelo.

— Poderia ter comido — disse Wilf.

— Tá, mas não comeu. Você nunca esteve num deserto.

— Bom, digamos, apenas supondo que eu tenha ido a uma peregrinação ao Túmulo de Nyarlathotep...

— Está falando do rei negro dos antigos, que vem do leste à noite e a quem você não vai reconhecer?

— Claro que é dele que estou falando.

— Só pra saber.

— Pergunta idiota, se me permite dizer.

— Você poderia estar se referindo a outra pessoa com o mesmo nome.

— Bom, não é exatamente um nome comum, é? Nyarlathotep. Não haverá dois deles, não? "Olá, meu nome é Nyarlathotep. Que coincidência te encontrar aqui. Engraçado haver duas pessoas com este mesmo nome", acho que não exatamente. Enfim, estou me arrastando pela vastidão sem trilhas, pensando com meus botões que poderia matar uma corcova de camelo...

— Mas você não estava, estava? Você nunca saiu da enseada de Innsmouth.

— Bom... não.

— Aí está. — Seth olhou para Ben, triunfante. Então, inclinou-se e sussurrou ao seu ouvido:

— Infelizmente, ele fica assim quando toma alguns tragos.

— Eu ouvi isso — disse Wilf

— Que bom — disse Seth. — De qualquer forma, H. P. Lovecraft ia escrever assim uma de suas malditas sentenças. Hã-hã. "A lua gibosa brilha baixa sobre os peculiares, e batráquios habitantes da escamosa Dulwich", O que ele quer dizer, hein? O que ele quer dizer? Eu te digo que diabos ele quer dizer. O que quer dizer é que a maldita lua tava quase cheia e que todas as pessoas que moravam em Duiwich eram rãs estranhas pra dedéu. É isso o que ele quer dizer.

— E aquela outra coisa que você disse?

— O que?


— Escamosa? O que isso quer dizer?

Seth deu de ombros.

— Não faço a mínima idéia — admitiu. — Mas ele usava muito isso.

Houve outra pausa.

— Eu sou estudante — disse Ben. — Vou ser um metalúrgico.

De alguma forma tinha conseguido acabar todo seu primeiro quartilho de ShoggotIh’s Old Peculiar, que tinha sido, percebeu agradavelmente chocado, a primeira bebida alcoólica que bebera na vida.

— O que vocês fazem?

— Somos acólitos — falou Wilf.

— Do Grande Cthulhu — disse Seth orgulhosamente.

— É — falou Ben. — E o que exatamente isso representa?

— Minha rodada — informou Wilf. — Esperem um pouco. — Wilf foi até a moça do bar e voltou com mais três quartilhos. — Bem — disse — o que representa agora, tecnicamente falando, não é muito. Ser acólito não é realmente um emprego trabalhoso no meio da temporada movimentada. Isso, claro, é porque ele está dormindo. Bom, não exatamente dormindo. Mais como, se você preferir, morto.

"Na sua morada em Sunken R’lyeh Cthulhu está dormindo" — interpôs Seth. — Ou, como disse o poeta: "Não está morto aquele que se deita eternamente..."

"Mas em Estranhas Eras..." — cantou Wilf,

— ...e por Estranho ele que dizer pra lá de peculiar...

— Exatamente. A gente não está falando, de modo algum, de Eras normais aqui.

"Mas, em Estranhas Eras, até a Morte pode morrer".

Ben estava levemente surpreso ao se descobrir bebendo outro quartilho encorpado de Shoggoth's Old Peculiar. De alguma forma, o gosto desagradável de cabra estava menos ofensivo na segunda vez. Deliciado, percebia-se sem fome, sem dores nos pés cheios de bolhas e na companhia de homens encantadores e inteligentes, cujos nomes estava tendo dificuldade de discernir. Não tinha experiência com álcool o suficiente para perceber que aquele era um dos sintomas de estar no segundo quartilho de Shoggoth’s Old Peculiar.

— Por isso, nesse momento — disse Seth, ou possivelmente Wilf —, o negócio está um pouco leve. Consiste principalmente em esperar.

— E orar — disse Wiff, se é que não foi Seth.

— E orar. Mas muito em breve, tudo vai mudar.

— É — perguntou Ben. — Como?

— Bom — confidenciou o mais aito. — A qualquer dia, o Grande Cthulhu (no momento, temporariamente falecido), que é o nosso chefe, acordará nos seus aposentos submarinos.

— E então — disse o mais baixo — ele vai se espreguiçar, bocejar e se vestir.

— Provavelmente, vai ao banheiro. Eu não ficaria surpreso, de modo algum.

— Talvez leia o jornal.

— E tendo feito isso tudo, virá das profundezas do oceano e consumirá o mundo todo.

Ben achou aquilo indescritivelmente engraçado.

— Como um lavrador — disse

— Exatamente, exatamente. Bem colocado, jovem cavalheiro americano. O Grande Cthulhu devorará o mundo como um prato de lavrador, deixando apenas o pickles Branslon de lado.

— Aquela coisa marrom? — perguntou Ben. Asseguraram-lhe que sim, e ele foi ao bar e trouxe mais três quartilhos de Shoggoth’s Old Peculiar.

Não conseguiu lembrar-se muito da conversa que se seguiu. Lembrava-se de ter acabado seu quartilho e de seus amigos terem-no convidado para uma volta a pé pela aldeia, mostrando-lhe as inúmeras vistas.

— É lá que alugamos nossos vídeos, e aquele grande edifício ao lado é o Templo Inominável dos Deuses Indizíveis e, aos sábados de manhã, há um bazar na cripta...

Explicou-lhes sua teoria sobre o guia de viagem a pé e lhes disse, emocionado, que Innsmouth era tão cênica quanto encantadora. Disse-lhes que eram os melhores amigos que jamais tivera e que Innsmouth era agradável.

A lua estava quase cheia e, sob o claro luar, seus dois novos amigos lembravam incrivelmente rãs enormes. Ou possivelmente camelos.

Os três caminharam até o fim do cais enferrujado e Seth e/ou Wilf apontaram as ruínas de Sunken R'lyeh na baía, visível ao luar, sob o mar, e Ben foi acometido pelo que explicou como sendo um ataque repentino e imprevisto de maresia e ficou violenta e interminávelmente enjoado sobre as grades de metal, vomitando no negro mar, abaixo...

Depois disso, tudo ficou um pouco estranho.


Ben Lassiter acordou numa colina fria com a cabeça latejando e um gosto ruim na boca. Sua cabeça estava sobre a mochila. Havia, em ambos os lados, uma charneca rochosa e nenhum sinal de estrada e nem de aldeia, fosse cênica, encantadora, agradável ou mesmo pitoresca.

Tropeçou e mancou por quase uma milha até a estrada mais próxima e andou por ela até chegar a um posto de gasolina.

Disseram-lhe que não havia nenhuma aldeia nas redondezas chamada Innsmouth. Nenhuma aldeia com um pub chamado O livro dos nomes mortos.

Contou-lhes sobre dois homens chamados Wilf e Seth e um amigo deles chamado Ian Estranho, que estava profundamente adormecido em algum lugar, se não estivesse morto, debaixo do mar. Disseram-lhe que não gostavam muito de hippies americanos que vagavam pelo interior tomando drogas e que ele provavelmente se sentiria melhor depois de uma boa xícara de chá e de um sanduíche de atum e pepino, mas, se estivesse com o firme propósito de vaguear pela região tomando drogas, o jovem Ernie, que trabalhava no turno da tarde, ficaria feliz em ihe vender um saquinho de cannabis cultivada em casa, se pudesse voltar depois do almoço.

Ben tirou seu livro Uma viagem a pé pela costa britânica e tentou encontrar Innsmouth nele, para provar que não tinha sonhado com a aldeia, mas não foi capaz de localizar a página onde havia a informação — se é que, de algum modo, ela esteve realmente ali. A maior parte de uma página, no entanto, tinha sido rasgada, grosseiramente, mais ou menos na metade do tivro.

Então, Ben telefonou para um táxi, que o levou para a estação de trem de Bootle, onde pegou um trem que o levou até Manchester, onde embarcou num avião que o levou a Chicago. De lá, mudou de avião para Dallas, onde tomou outro avião até o norte, alugou um carro e foi para casa.

Achou muito reconfortante saber que estava a mais de 600 milhas do oceano, apesar de mais tarde, durante sua existência, mudar-se para Nebraska a fim de aumentar a distância do mar: havia coisas que tinha visto, ou julgava ter visto, debaixo do velho cais naquela noite que nunca seria capaz de tirar da cabeça. Havia coisas que espreitavam debaixo de capas de chuva cinzas que não eram para o Homem saber. Escamoso. Não precisava procurar no dicionário. Sabia. Eles eram escamosos.

Duas semanas depois de chegar em casa, Ben enviou pelo correio seu exemplar anotado de Uma viagem a pé pela costa britânica à autora, aos cuidados do seu editor, com uma extensa carta contendo várias sugestões úteis para futuras edições. Também pediu à autora se ela podia lhe enviar uma cópia da página que havia sido rasgada do seu guia, para apaziguar sua mente, mas ficou secretamente aliviado, quando os dias viraram meses e os meses viraram anos e os anos décadas e ela nunca respondeu.


VÍRUS
Havia um jogo de computador que ganhei,

foi um dos meus amigos que me deu, ele jogava esse jogo,

disse: é brilhante, você deve jogar,

e joguei, e era.
Copiei-o do disquete que ele me dera

para outros, queria que todos jogassem.

Todos deveriam se divertir daquele modo incrível.

Enviei-o online a BBSs

mas principalmente o distribuí a todos os meus amigos.
(Contato pessoal. A maneira que me fora dado.)
Meus amigos eram como eu: alguns tinham medo de vírus,

alguém dá a você um jogo num disquete,

[na semana seguinte ou na sexta-feira 13

ele reformata o seu disco rígido ou corrompe sua memória.

Mas esse aqui nunca fez isso. Era muito seguro.

Até mesmo meus amigos que não gostavam de computadores

[começaram a jogar:

quanto mais você melhora, mais difícil fica o jogo;

talvez nunca vença, mas você fica muito bom.

Eu sou muito bom.


É claro que gasto muito tempo jogando.

Também meus amigos. E os amigos deles.

E as pessoas que você encontra, podem-se vê-las,

andando por velhas estradas,

ou esperando na fila, longe dos seus computadores,

longe das casas de diversões eletrônicas que surgem durante a noite,

jogam, entrementes, esse jogo nas suas cabeças,

combinando formas,

montando quebra-cabeças com contornos, pondo cores ao lado de cores,

torcendo sinais em novas seções de tela,

ouvindo a música.
É claro, as pessoas pensam sobre o jogo, mas principalmente jogam-no.

Meu recorde é dezoito horas de uma vez.

40.012 pontos, três fanfarras.
Você joga entre lágrimas, dor no pulso, fome, depois de um tempo

tudo vai embora.

Tudo menos o jogo, devo dizer.
Não há mais espaço na minha mente; espaço para outras coisas.

Copiamos o jogo, demos aos nossos amigos.

Transcende a língua, ocupa nosso tempo,

às vezes acho que esqueço coisas do agora.


Pergunto-me o que houve com a TV. Havia TV.

Pergunto-me o que acontecerá quando acabar minha comida enlatada.

Pergunto-me onde foi tudo mundo. Então, percebo como —

se for bastante rápido — posso colocar um quadrado

[preto ao lado de uma linha vermelha,

refletindo-o e girando-o, assim ambos desaparecem,

deixando vago o bloco da esquerda

para uma bolha emergir...


(Assim ambos desaparecem.)
E, quando a energia acabar, então

jogarei esse jogo na minha mente até morrer.

PROCURANDO A GAROTA
Eu tinha dezenove anos em 1965, com minhas calças de boca estreita e meu cabelo descendo discretamente até o colarinho. Toda vez que você ligava o rádio, os Beatles estavam cantando Help! e eu queria ser John Lennon com todas as garotas gritando por mim, sempre pronto com um gracejo cínico. Foi o ano em que comprei meu primeiro exemplar da Penthouse, numa pequena tabacaria na King's Road. Paguei com meus xelins dissimulados e fui para casa com a revista recheando meu blusão. Vez por outra, baixava os olhos para ver se ela tinha queimado o tecido e feito um furo.

A revista foi jogada fora há muito tempo, mas sempre me lembrarei dela: cartas sérias sobre censura; um conto de H. E. Bates e uma entrevista com um romancista americano do qual nunca tinha ouvido falar; a onda de moda de ternos mohair e gravatas de paisley, tudo para se comprar na Carnaby Street. E, melhor de tudo, havia garotas, é claro; e melhor do que todas as garotas, havia Charlotte.

Charlotte também tinha dezenove anos.

Todas as garotas daquela revista há muito desaparecida pareciam idênticas, com sua carne perfeitamente plástica; nenhum fio de cabelo fora do lugar (você quase conseguia sentir o cheiro do laquê); sorrindo de maneira saudável para a câmara fotográfica, enquanto semicerravam os olhos para você através de cílios espessos como florestas: batom branco, dentes brancos, seios brancos, biquíni desbotado. Nunca tinha pensado sobre as estranhas posições em que recatadamente se colocavam para evitar mostrar o menor fio ou sombra de pêlo púbico — eu não saberia o que estava olhando, de qualquer forma. Tinha olhos apenas para seios e nádegas pálidos; seus olhares castos, mas convidativos.

Então, virei a página e vi Charlotte. Ela era diferente das outras. Charlotte era sexo; ela vestia sexualidade como um véu translúcido, como um perfume intoxicante.

Havia texto ao lado das fotografias, que li numa confusão; "a extasiante Charlotte Reave tem dezenove anos... uma individualista ressurgente e poeta beat, coiaboradora da revista FAB...".

Frases grudavam na minha mente enquanto estudava cuidadosamente as fotografias: ela posou e fez beicinhos num apartamento em Chelsea — o do fotógrafo, presumo —, e eu sabia que precisava dela.

Tinha a minha idade. Era destino.

Charlotte.

Charlotte linha dezenove anos.

Eu comprei a Penthouse regularmente, desde então, esperando que ela aparecesse de novo. Mas não apareceu. Não naquela época.

Seis meses depois, minha mãe achou uma caixa de sapatos debaixo da minha cama e olhou seu conteúdo. Primeiro fez uma cena, depois jogou fora as revistas, finalmente me pôs para fora de casa. No dia seguinte, consegui um trabalho e um lugar para dormir em Earl's Court, sem muito problema, considerando-se tudo.

Meu emprego, o primeiro, era numa oficina elétrica, numa travessa da Edgware Road. Tudo o que sabia fazer era mudar a tomada, mas, naqueles tempos, as pessoas podiam pagar um eletricista para fazer só isso. Meu chefe disse que eu poderia aprender.

Durou três semanas. Meu primeiro serviço foi sem dúvida emocionante — mudar a tomada do abajur do criado-mudo de um astro do cinema inglês que tinha ficado famoso por sua interpretação de lacônicos Casanovas cockneys. Quando cheguei, lá estava na cama com duas belezocas. Mudei a tomada e fui embora. Não pude ver um mamilo nem de relance, quanto mais ser convidado para me juntar a eles.




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