FumaçA e Espelhos contos e ilusõES



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Três semanas mais tarde, fui despedido e perdi minha virgindade no mesmo dia. Era um lugar elegante em Hampstead, vazio a não ser pela empregada, uma mulherzinha de cabelo escuro um pouco mais velha do que eu. Ajoelhei-me para trocar a tomada e ela subiu numa cadeira do meu lado para espanar o alto de uma porta. Olhei para cima: sob a saia, vestia meias, ligas e, Deus me ajude, nada mais. Descobri o que acontecia nas partes que as fotografias não mostravam.

Assim, perdi a inocência debaixo de uma mesa de jantar em Hampstead. Não se vêem mais empregadas domésticas. Seguiram o mesmo caminho que o fusca e o dinossauro.

Foi depois disso que perdi meu emprego. Nem mesmo meu chefe, convencido como estava da minha total incompetência, acreditou que eu pudesse levar três horas para trocar uma tomada — e eu não contaria que tive de passar duas dessas horas escondido debaixo da mesa da sala de jantar quando o dono e a dona da casa chegaram sem que esperássemos, não é?

Tive uma sucessão de pequenos empregos depois disso: primeiro como impressor, depois como compositor de tipografia antes de acabar numa pequena agência de publicidade em cima de uma lanchonete na Old Compton Street.

Continuava comprando Penthouse. Todos pareciam extras de Os vingadores, mas eram daquele jeito na vida real. Artigos sobre Woody Allen e a ilha de Sappho, Batman e Vietnã, dançarinas de strip-tease em ação brandindo chicotes, moda, ficção e sexo.

Os ternos ganharam colarinhos de veludo e as garotas desarrumaram seus cabelos. Fetiche era moda. Londres balançava, as capas das revistas eram psicodélicas e, se não havia ácido na água potável, agíamos como se houvesse.

Vi Charlotte de novo em 1969, muito depois de ter desistido dela. Pensei ter-me esquecido de sua aparência. Então, um dia, o chefe da agência jogou uma Penthouse na minha mesa — havia uma propaganda de cigarro que tínhamos colocado na revista e ele estava particularmente contente com isso. Eu tinha vinte e três anos, uma estrela em ascensão, dirigindo o departamento de arte como se soubesse o que estava fazendo; algumas vezes até que sabia.

Não me lembro de muito sobre o assunto em si; tudo de que me recordo é Charlotte. Cabelo selvagem e castanho claro, olhos provocantes, sorrindo como se conhecesse todos os segredos da vida e os mantivesse próximos aos seus seios nus. Seu nome não era Charlotte, era Melanie ou algo parecido. O texto dizia que tinha dezenove anos,

Eu estava morando com uma dançarina chamada Rachel nessa época, num apartamento em Camden Town. Rachel era a mulher mais bela e mais adorável que jamais conheci. Fui para casa cedo com as fotos de Charlotte na minha pasta, tranquei-me no banheiro e me masturbei como se estivesse embriagado.

Rachel e eu nos separamos um pouco depois.

A agência progrediu subitamente — tudo nos anos sessenta progredia subitamente — e, em 1971, foi-me dada a tarefa de encontrar "O rosto" para uma etiqueta de roupas. Queriam uma garota que encarnasse tudo o que fosse sexual; que vestisse suas roupas como se fosse rasgá-las em mil pedaços — se algum homem não fizesse isso primeiro. E eu conhecia a garota perfeita: Charlotte.

Liguei para a Penthouse. As pessoas da revista disseram que não sabiam do que eu estava falando, mas, relutantemente, me puseram em contato com os dois fotógrafos que a haviam fotografado no passado. O homem da Penthouse não parecia convencido quando eu lhe disse que era a mesma garota as duas vezes.

Falei com os fotógrafos, tentando localizar a agência dela.

Disseram-me que a moça não existia.

Pelo menos, não de uma maneira que fosse possível localizá-la, não mesmo. Claro, ambos conheciam a garota de quem eu falava. Mas, como um deles me disse, ela tinha ido até eles — um "tipo meio esquisito". Pagaram-lhe uma taxa de modelo e venderam as fotos. Não, não tinham endereço algum para me dar.

Eu tinha vinte e seis anos e era um tonto. Percebi imediatamente o que estava acontecendo: aquela turma estava me enrolando. Uma outra agência de publicidade a tinha obviamente contratado, planejado uma grande campanha com ela e pago os fotógrafos para ficarem quietos. Amaldiçoei os caras e gritei com eles pelo telefone. Fiz ofertas financeiras ultrajantes.

Mandaram que eu me fodesse.

E, no mês seguinte, ela estava na Penthouse. Não mais uma revista psicodélica provocante de meio pêni, tinha ficado mais classuda — as garotas deixavam mostrar pêlos púbicos e tinham brilhos devoradores de homens nos olhos. Homens e mulheres faziam travessuras numa abordagem amena em trigais, rosa contra o dourado.

Seu nome, dizia o texto, era Belinda. Uma negociante de antigüidades. Era Charlotte, eu tinha certeza, apesar do cabelo escuro e armado em grandes cachos sobre a cabeça. O texto também dava sua idade: dezenove anos.

Liguei para o meu contato na Penthouse e consegui o nome do fotógrafo, John Felbridge. Liguei para ele. Como os outros, afirmou não saber de nada, mas agora eu tinha aprendido uma lição. Em vez de gritar pelo telefone, dei-lhe um trabalho numa grande conta, para fotografar um garotinho tomando sorvete. Felbridge tinha cabelo comprido, uns trinta e oito anos, com um casaco maltrapilho de pele e tênis desamarrados, cujos cadarços se agitavam, mas era um bom fotógrafo. Depois da seção de fotos, levei-o para beber e conversamos sobre o tempo ruim, fotografia, moeda decimal, seu último trabalho e Charlotte.

— Bom, você disse que viu as fotos na Penthouse, não é? — disse Felbridge.

Assenti com a cabeça. Estávamos ambos um pouco bêbados.

— Te conto sobre aquela garota. Sabe de uma coisa? Ela é a razão porque quero desistir do glamour e fazer trabalhos decentes. A moça disse que se chamava Belinda.

— Como vocês se conheceram?

— Eu chego lá, pode deixar! Pensei que ela fosse de uma agência, sabe? Bate na porta, penso uau! e a convido pra entrar. Aí, disse que não era de agência alguma, que estava vendendo...

Enrugou sua testa, confuso.

— Não é estranho? Esqueci o que ela estava vendendo. Vai ver, não estava vendendo nada. Sei lá. Ainda vou esquecer meu próprio nome. Mas tava na cara que ela era especial. Perguntei se queria posar, disse que era ponta firme, que eu não estava com más intenções. Aí, a menina concordou. Clique, flash! Cinco rolos, assim. Logo que a gente acabou, ela se vestiu de novo e foi pra porta, bonita que só vendo. "E o seu dinheiro?", perguntei. "Manda pra mim depois", ela falou e desceu as escadas. Logo, tomou seu rumo.

— Então você tem o endereço dela? — perguntei tentando não demonstrar interesse,

— Não, malandro. Acabei deixando o dinheiro de lado no caso de ela voltar.

Lembro de ficar me perguntando, com decepção, se seu sotaque cockney era real ou simplesmente modismo.

— Mas o que eu queria dizer é que, quando as fotos voltaram, sabia que... bom, no que diz respeito a tetas e buças, não... no que diz respeito a esse papo de fotografar mulheres, eu parei. Ela era todas as mulheres, sabia? Não, cara! Não tem mais por que continuar. Não, não, deixa que eu pago. Minha rodada. Bloody Mary, não é? Vou te contar, bicho, eu estou ansioso pra gente trabalhar junto de novo...

Não trabalharíamos juntos de novo.

A agência foi comprada por uma firma mais antiga, maior, que queria nossas contas. Incorporaram as iniciais da empresa no seu nome e mantiveram uns poucos criadores, mas dispensaram o resto de nós.

Voltei para meu apartamento e esperei que as ofertas de trabalho começassem a chover, o que não aconteceu. Mas o amigo da namorada de um amigo começou a bater um papo comigo tarde da noite em um bar (estava se apresentando um cara de quem eu nunca tinha ouvido falar chamado David Bowie; vestia-se como um homem do espaço e o resto da sua banda usava roupas prateadas de cowboys; nem cheguei a ouvir as canções) e minha ocupação seguinte foi gerenciar minha própria banda de rock, a Diamonds of Flame. A não ser que tenha estado na cena dos bares de Londres no começo dos anos setenta, você nunca terá ouvido falar dela, apesar de ter sido ótima. Afinada, lírica. Cinco caras. Dois deles estão em supergrupos mundialmente famosos, hoje em dia. Um é encanador em Walsall; ainda me manda cartões de Natal. Os outros dois morreram quinze anos depois: overdoses anônimas. Bateram com as botas com uma semana de diferença um do outro, e isso detonou a banda.

Detonou comigo também. Pulei fora — queria ir o mais longe que pudesse da cidade e daquele estilo de vida. Comprei uma pequena fazenda no País de Gales. Estava feliz no meu canto, com as ovelhas, cabras e repolhos. Provavelmente continuaria lá até hoje, se não tivesse sido por ela e pela Penthouse.

Não sei de onde veio. Uma manhã saí de casa e encontrei a revista no quintal, na lama, com a capa virada para baixo, Tinha quase um ano.

Ela não usava maquiagem e posava num lugar que parecia ser um apartamento de altíssimo nível. Pela primeira vez, vi seus pêlos púbicos, ou poderia ter visto se a foto não tivesse sido artisticamente alterada e um pouco fora de foco. Parecia que ela saía da bruma.

Seu nome, dizia o texto, era Lesley. Tinha dezenove anos.

Depois disso, não pude mais continuar longe. Vendi a fazenda por uma ninharia e voltei para Londres nos últimos dias de 1976,

Passei a viver do seguro social, morava num apartamento da câmara municipal em Victoria, acordava na hora do almoço, ia para os pubs e permanecia até que fechassem à tarde, lia os jornais na biblioteca até que os pubs abrissem de novo e, então, rastejava por eles até a hora em que fechavam. Vivia do dinheiro do seguro e bebia da minha caderneta de poupança.

Tinha trinta anos e me sentia muito mais velho. Comecei a viver com uma punk loira anônima do Canadá que conheci num bar na Greek Street. Servia bebidas no bar e numa noite, depois de fechar, disse-me que estava sem ter onde morar, então ofereci-lhe o sofá de casa. Revelou ter só dezesseis anos e acabou nunca dormindo no sofá. Tinha pequenos seios, como romãs, uma caveira tatuada nas costas e o penteado da noiva do Frankenstein. Disse que havia feito de tudo e não acreditava em nada. Falava horas a fio sobre como o mundo estava entrando numa condição de anarquia, afirmava que não havia esperança nem futuro, mas trepava como se tivesse acabado de inventar a foda. E eu achei isso ótimo.

Vinha para cama sem nada além de uma coleira de couro preto com pontas de ferro e um monte de maquiagem preta desalinhada nos olhos. Às vezes, ela cuspia, simplesmente escarrava na calçada enquanto andávamos, o que eu odiava, e me fazia levá-la aos clubes punks para vê-la escarrar, xingar e pular. Aí é que eu me sentia mesmo um ancião. Apesar disso, gostava de algumas músicas: Peaches, coisas assim. E vi os Sex Pistols tocando ao vivo. Eram podres.

Daí a punk me largou, dizendo que eu era um velho escroto e chato, e se meteu com um principezinho árabe extremamente gordo.

— Achei que você não acreditava em nada — disse-lhe enquanto ela entrava no carro que ele mandara para apanhá-la.

— Eu acredito em centenas de boquetes por grana e lençóis de pele de vison — respondeu, uma mão brincando com um fio de cabelo do seu penteado de Noiva do Frankenstein. — E num vibrador de ouro. É nisso que eu acredito.

Assim, ela partiu para uma fortuna de petróleo e um novo guarda-roupa. Eu chequei minhas economias e descobri que estava quebrado — praticamente sem um tostão. Ainda comprava Penthouse esporadicamente. Minha alma dos anos sessenta estava profundamente chocada e muito impressionada pela quantidade de carne agora exposta. Não sobrava nada para a imaginação, o que, ao mesmo tempo, me atraía e me repelia.

Então, perto do final de 1977, ela estava lá de novo.

Seu cabelo estava multicolorido, minha Charlotte, e sua boca estava tão escarlate como se tivesse acabado de comer framboesas. Deitava-se sobre lençóis de cetim com uma máscara de jóias no rosto e uma mão entre as pemas; estática, orgásmica, tudo o que sempre quis: Charlotte.

Apareceu com o nome de Titania e estava adornada com penas de pavão. Trabalhava, fui informado pelas letras negras que rastejavam como insetos ao redor das suas fotografias, numa agência imobiliária no sul. Gostava de homens honestos, sensíveis. Tinha dezenove anos.

E, meu Deus do céu, ela parecia ter dezenove anos. E eu estava quebrado, vivendo do seguro do governo, como um milhão de outras pessoas, e não ia a lugar algum.

Vendi minha coleção de discos, meus livros, todos exceto quatro exemplares da Penthouse, e a maior parte da minha mobília e comprei uma câmara fotográfica razoavelmente boa. Então, telefonei para quase todos os fotógrafos que tinha conhecido quando trabalhava em publicidade, quase uma década antes.

A maioria deles não se lembrava de mim, ou disse que não se lembrava. E os que se lembraram não queriam um jovem assistente ansioso, que já não era tão jovem e não tinha experiência. Mas continuei tentando e finalmente entrei em contato com Harry Bleak, um velho garotão de cabelos grisalhos que tinha seu próprio estúdio em Crouch End e um pelotão de namoradinhos caros.

Disse-lhe o que queria. Ele nem parou para pensar a respeito.

— Esteja aqui em duas horas.

— Não brinca.

— Duas horas. Não mais do que isso.

Eu estava lá em duas horas.

No primeiro ano, limpei o estúdio, pintei telas de fundo e saía pelas lojas e ruas locais para implorar, comprar ou emprestar acessórios apropriados. No ano seguinte, ajudei com as luzes, montava fotos, soprava pelotas de fumaça e gelo seco ao redor do estúdio e fazia o chá. Estou exagerando — só fiz chá uma vez; faço um chá horrível. Mas aprendi muito sobre fotografia.

De repente, era 1981 e o mundo estava novamente romântico. Eu tinha trinta e cinco anos e sentia cada minuto disso. Bleak disse-me para cuidar do estúdio por algumas semanas enquanto ele ia ao Marrocos para um mês de devassidão bem merecida.

Ela estava na Penthouse daquele mês. Mais recatada e cerimoniosa do que antes, esperando por mim ordenadamente entre propagandas de estéreos e scotch. Chamava-se Dawn, mas ainda era a minha Charlotte, com mamilos como contas de sangue nos seus seios bronzeados, cabelo escuro felpudo entre suas eternas pernas, fotografada numa praia em algum lugar, tinha só dezenove anos, dizia o texto. Charlotte. Dawn.

Harry Bleak morreu voltando do Marrocos: um ônibus caiu em cima dele.

Na verdade, não é engraçado — ele estava numa balsa voltando de Calais e pôs o corpo pela janela para pegar seus charutos, os quais tinha deixado no porta-luvas da Mercedes. O tempo eslava ruim, e um ônibus turístico (que pertencia, li nos jornais e fui informado por um namorado lacrimoso, a uma empresa de compras em Wigan) não tinha sido acorrentado apropriadamente. Harry foi esmagado contra a lateral da sua Mercedes prata.

Ele sempre deixava aquele carro brilhando.

Quando o testamento foi lido, descobri que o velho safado tinha me deixado seu estúdio. Chorei até dormir aquela noite, fiquei bêbado como um gambá por uma semana e, então, abri o estúdio para trabalhar.

Aconteceram coisas desde aquele tempo até hoje. Casei-me. Durou três semanas, então achamos melhor cada um ir para o seu lado. Acho que não sou do tipo que se casa. Apanhei de um bêbado de Glasgow num trem certa noite, os outros passageiros fingiram que não estava acontecendo. Comprei duas tartarugas aquáticas e um tanque e as coloquei no apartamento sobre o estúdio; chamei-as de Rodney e Kevin. Tornei-me um bom fotógrafo. Fiz calendários, propagandas, moda e trabalho de glamour, garotinhas e grandes estrelas, ou seja, arregacei as mangas.

E, num dia de primavera, em 1985, encontrei Charlotte.

Estava só no estúdio numa terça-feira de manhã, sem fazer a barba e descalço. Era um dia livre e eu pretendia passá-lo limpando o estúdio e lendo os jornais. Tinha deixado as portas abertas, permitindo que o ar fresco entrasse para substituir o fedor de cigarros e vinho derramado na seção da noite anterior, quando uma voz de mulher disse:

— Bleak Estúdio Fotográfico?

— Sim — disse eu sem me virar —, mas Bleak está morto. Eu toco o negócio agora.

— Quero posar para você — disse ela.

Virei-me. Ela tinha quase um metro e setenta de altura, cabelos cor de mel, olhos verde-azeitona, um sorriso como água fria no deserto.

— Charlotte?

Ela inclinou a cabeça para um lado.

— Se você quiser. Gostaria de tirar fotos minhas?

Assenti com a cabeça tolamente. Liguei os guarda-chuvas na tomada, coloquei-a de pé contra uma parede de tijolos e tirei duas fotos de teste com Polaroid. Sem maquiagem especial, sem cenário, apenas algumas luzes, uma Hasselblad e a garota mais bonita do mundo.

Depois de um tempo, começou a tirar suas roupas. Não pedi que tirasse. Não me lembro de ter dito coisa alguma para ela. Despiu-se e continuei tirando fotografias.

Sabia tudo. Como posar, ajeitar-se, olhar. Silenciosamente, flertava com a câmara e comigo atrás dela, fotografando. Não me lembro de ter parado para nada, mas devo ter trocado de filme porque acabei com uma dúzia de rolos, no fim do dia.

Você deve achar que, depois de as fotos terem sido tiradas, eu fiz amor com ela. Bom, eu seria um mentiroso se dissesse que nunca azarei modelos e que, por isso, algumas delas me azararam. Mas não a toquei. Ela era meu sonho e, se você toca num sonho, ele desaparece, como uma bolha de sabão.

De qualquer forma, simplesmente não podia tocá-la.

— Quantos anos você tem? — perguntei um pouco antes de ela sair, quando estava vestindo o casaco e pegando sua bolsa.

— Dezenove — disse-me sem olhar em volta e, então, já tinha saído pela porta.

Não disse adeus.

Mandei as fotos para a Penthouse. Não pude pensar em nenhum outro lugar para mandá-las. Dois dias depois, recebi um telefonema do editor de arte.

— Adorei a garota. Realmente uma coisa tipo a cara dos anos oitenta. Quais são os dados dela?

— Seu nome é Charlotte — disse-lhe. — Tem dezenove anos. Agora tenho trinta e nove anos, um dia terei cinqüenta e ela ainda terá dezenove. Mas outra pessoa tirará as fotos.

Rachel, minha dançarina, casou-se com um arquiteto.

A punk loira do Canadá administra uma cadeia multinacional de moda. Faço algum trabalho fotográfico para ela de vez em quando. Seu cabeío está curto, com uma nesga grisalha, e ela é lésbica hoje em dia. Disse-me que ainda tem os lençóis de vison, mas que inventou a história do vibrador de ouro.

Minha ex-mulher casou-se com um otário simpático, dono de duas vídeo locadoras e mudaram-se para Slough. Têm garotos gêmeos.

Não sei o que aconteceu com a empregada.

E Charlotte?

Na Grécia, os filósofos estão debatendo, Sócrates está bebendo cicuta e ela está posando para uma escultura de Erato, musa da poesia e dos amantes, e tem dezenove anos.

Em Creta, ela está untando seus seios com óleo e pulando sobre os touros na arena enquanto o Rei Minos aplaude. Alguém está pintando sua beleza numa jarra de vinho e ela tem dezenove anos.

Em 2065, ela está esticada no chão móvel de um fotógrafo holográfíco que a registra como um sonho erótico em Living Sensolove, aprisionando a visão, o som e seu cheiro numa minúscula matriz de diamante. Ela tem só dezenove anos.

E um homem das cavernas desenha os contornos de Charlotte com um galho queimado na parede da cavema-templo, preenchendo sua forma e textura com terra e corantes de frutos silvestres. Dezenove anos.

Charlotte está lá, em todos os lugares, todos os tempos, deslizando pelas nossas fantasias, para sempre uma menina.

Desejo-a tanto que, às vezes, dói. É quando pego suas fotos e apenas as olho por um tempo, perguntando-me por que não tentei tocá-la, por que nem mesmo falei com ela quando estava lá, jamais chegando a uma resposta que pudesse entender.

Suponho que esse seja o motivo por que escrevi tudo isso.

Esta manhã, percebi outro fio de cabelo branco em minha têmpora.

Charlotte tem dezenove anos. Em algum lugar.
APENAS O FIM DO MUNDO NOVAMENTE
Foi um dia ruim: acordei nu na cama com uma cólica no estômago, sentindo-me mais ou menos um caco. Alguma coisa na qualidade da luz, estendida e metálica, como a cor de uma enxaqueca, disse-me que era de tarde.

O quarto estava congelando, literalmente: havia uma fina camada de gelo na parte de dentro da janela. Os lençóis ao meu redor estavam rasgados e dilacerados. Havia pêlo de animal na cama. Coçava.

Pensei em ficar na cama até a semana seguinte — sempre fico cansado depois de uma transformação — mas uma onda de náusea me forçou a me desembaraçar dos cobertores e ir aos tropeços, rapidamente, até o minúsculo banheiro do apartamento.

A cólica atacou-me de novo quando cheguei à porta do banheiro. Apoiei-me na soleira da porta e comecei a suar. Talvez fosse febre; esperei não adoecer.

A cólica estava aguda nas minhas tripas. Senti minha cabeça rodar. Caí, retorcendo-me no chão e, antes que pudesse levantar meu rosto o suficiente para alcançar o vaso sanitário, comecei a vomitar.

Vomitei um líquido ralo, amarelo e fétido; nele havia uma pata de cachorro — achei que fosse de um doberman, mas não entendo muito de cachorros; algumas cenouras cortadas em cubo e milho, pedaços de carne meio mastigada, crua, e alguns dedos. Eram dedos bem pequenos e pálidos, obviamente de uma criança.

— Merda.

As cólicas melhoraram e a náusea cedeu. Deitei no chão com uma baba fedorenta saindo da minha boca e nariz, com as lágrimas que escorrem quando se está doente secando nas minhas bochechas.

Assim que me senti um pouco melhor, peguei a pata e os dedos da poça de vômito, joguei-os no vaso sanitário e dei a descarga.

Abri a torneira, enxagüei com a água salobra de Innsmouth e cuspi o líquido na pia. Limpei o vômito o melhor que pude com pano de chão e papel higiênico. Então, liguei o chuveiro e fiquei na banheira como um zumbi enquanto a água quente me lavava.

Ensaboei meu corpo e cabelo. A espuma escassa ficou cinza; eu devia estar imundo. Meu cabelo estava coberto com alguma coisa que parecia sangue seco e a esfreguei com o sabonete até sumir. Daí, fiquei de pé sob o chuveiro até a água tornar-se gelada.

Havia uma nota da senhoria debaixo da minha porta. Dizia que eu lhe devia duas semanas de aluguel. Dizia que todas as respostas estavam no Apocalipse. Dizia que eu tinha feito muito barulho ao voltar para casa de madrugada e que ela me agradeceria se eu fosse mais silencioso no futuro. Dizia que, quando os velhos Deuses se erguessem do oceano, toda a escória da Terra, todos os descrentes, todo o lixo humano, os vadios e parasitas, seriam eliminados e que o mundo seria limpo pelo gelo e pela água profunda. Dizia que sentia que devia me lembrar que designara uma prateleira na geladeira para mim quando eu havia chegado e que me agradeceria se, no futuro, me limitasse apenas a ela.

Amassei o bilhete e o larguei no chão, onde caiu ao lado das embalagens de Big Mac e de pizza e suas sobras há muito secas.

Era hora de ir trabalhar.

Eu estava em Innsmouth havia duas semanas e não gostava da cidade. Cheirava a peixe, Era um povoado claustrofóbico: pântanos a leste, penhascos a oeste e, no centro, uma enseada que continha alguns barcos pesqueiros que apodreciam e que não era cênica nem mesmo ao pôr-do-sol. Os yuppies tinham vindo a Innsmouth nos anos oitenta e comprado suas pitorescas cabanas de pescador com vista para a enseada. Os mesmos yuppies partiram alguns anos atrás e as cabanas na baía estavam desmoronando, abandonadas.

Os habitantes de Innsmouth viviam aqui, ali, por aí e em estacionamentos de trailers que ficavam ao redor da cidade, cheia de casas-móveis úmidas que nunca iam a lugar algum.

Vesti-me, calcei minhas botas, pus meu casaco e saí do quarto. Minha senhoria não estava em lugar algum. Era uma mulher baixa de olhos arregalados que falava pouco, apesar de me deixar extensos bilhetes presos com alfinetes nas portas ou em lugares em que eu os pudesse ver; mantinha a casa cheirando a frutos do mar cozidos: panelas enormes sempre fervendo no fogão da cozinha, cheias de coisas com muitas pernas e outras sem perna alguma.




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