Fundação do Colégio dos Anjos, no município de Botucatu em 1912



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Fundação do Colégio dos Anjos, no município de Botucatu em 1912

Neise Marino Cardoso



neise_cardoso@hotmail.com
Profa. Dra. Mara Regina M. Jacomeli

Mararmj@unicamp.br


O estudo da história de instituições escolares torna-se referência substancial para entendimento da história da educação brasileira. Conhecer a complexidade histórica das relações escolares de uma localidade é relevante, pois nos faz entender o processo sociocultural e político porque passou a sociedade. O tema apresentado fez parte de um projeto de pesquisa e relatou a história de um Colégio Confessional Católico instalado em Botucatu, no Estado de São Paulo: o Colégio dos Anjos, criado em 1912.

Pertencente à Congregação Marcelina, foi instalado na cidade em 1912, no início do regime republicano, período repleto de mudanças no país, especialmente para a Igreja católica, como fim do Padroado. Durante seus 95 anos de história, o colégio desenvolveu, perante os habitantes da cidade, uma imagem de escola de qualidade e que propicia uma formação integral.

O objetivo desta pesquisa foi compreender como o colégio construiu essa imagem ao longo dos anos em que interesses estavam em jogo em sua instalação e permanência em Botucatu. Duas datas significativas delimitavam este estudo: a fundação da Congregação na Itália em 1838 e a instalação do Colégio dos Anjos em 1912 no município de Botucatu. Desse modo, este trabalho pretende contribuir com as discussões em torno do lugar social da escola e da escolaridade na primeira metade do século XX e, em âmbito específico, contribuir com o estudo para expansão das escolas católicas e sua relação com a sociedade, com as famílias e com outras instituições.

O procedimento metodológico baseou-se na análise da documentação e a partir dela na compreensão das relações sociais daquela sociedade, priorizando a instituição de ensino, que tinha como pressuposto formar mulheres. A educação recebida na Primeira República foi diferenciada depois da saída dessas meninas do lar para um colégio, e houve uma forte influência da religião e da política nesse processo.

Para isso há a necessidade de compreender as reformas da educação, pois são elas que direcionam o ensino no estado de São Paulo. È essencial tentar traçar um perfil da mulher na sociedade da Primeira República, perceber como se dá esse processo de inserção da mulher no país, além de tentar compreender a influência política em todo esse processo.

Tendo coordenado durante dez anos a Unidade II do Colégio dos Anjos e tendo realizado, ali, um estudo, algumas observações levaram-me a refletir sobre o modo como pais e professores se referiam à escola. Seus comentários sobre esse espaço relatavam-no como uma segunda casa, onde carinho e conhecimento se combinavam, onde se oferecia educação de qualidade. Fundado no início do século XX, o colégio presenciou e participou dos eventos ocorridos na sociedade da época com os ideais liberais democráticos que fizeram a República. Nacionalismo e civismo impregnavam os discursos de políticos e intelectuais na imprensa. Segundo esses ideais, para que a modernidade se concretizasse no Brasil era preciso construir uma identidade nacional civilizando as múltiplas raças que constituíam o país, disciplinando, ordenando e controlando a força de trabalho. A educação foi vista como o meio mais eficaz para isso. Ao mesmo tempo, a Igreja católica passava por um período de institucionalização e federalização, em virtude do rompimento do regime de padroado e da mudança de regime. Para que a política expansionista da Igreja se concretizasse, seu alvo também era a educação.

O Colégio dos Anjos desempenhou, ainda, significativo papel na formação de crianças, elementos diversos combinam-se nesse tema. Um colégio privado confessional católico fixa-se, algumas décadas após a Proclamação da República e o fim do Padroado, numa cidade do interior do estado, região de grandes fazendas de café e um dos centros de difusão de ideais liberais e republicanos.

Seria interessante descrever meu primeiro dia na instituição, como forma de expressar o “sentimento de domínio” que o colégio constrói.

As portas estão bem fechadas, encontro a campainha, toco. A atendente abre então o hall. Um cartaz de boas-vindas me chama de irmã. Logo abaixo desse cartaz há um aparador com uma Bíblia aberta e um pequeno ramalhete de flores artificiais. Atravesso o hall e estou em um ambiente com pouca luz, semelhante a uma sala de espera. O pé direito é alto e nestas paredes há espaço para quadros onde estão as fotos. À minha esquerda há uma imagem de Nossa Senhora, à direita uma porta que leva a um corredor escuro e à frente uma grande imagem de Cristo, iluminada por uma luz difusa que parece vir do pátio. Os bancos são confortáveis. O pátio interno da escola parece protegido pelo edifício de salas de aulas que o abraça. Conservam-se árvores no pátio: um ipê, uma mangueira, muitos vasos, bancos de cimento. Nos corredores que me levam às salas de aula, cartazes nas paredes lembram com se deve comportar um bom cristão. Os caminhos internos da escola são escuros: no entanto, as salas de aula, iluminadas, apesar da luz indireta, contrastam como o restante. Portas em folhas, altas janelas, um crucifixo em cada sala de aula, flores, o sorriso de uma irmã. Tudo aconchegante, tudo familiar e, ao mesmo tempo, tudo distante.

Como e por que este colégio foi instalado em Botucatu? Quem eram as pessoas interessadas em sua instalação? Como, ao longo dos anos, o colégio construiu a imagem de boa escola, imagem esta que perdura na memória da população da cidade?

Busquei, ao longo do desenvolvimento desta pesquisa, traçara a origem dessa instituição e as mudanças – ocorridas em seu modo de apresentar-se. Mudanças essas que acompanharam as discussões postas no campo educacional e que, por sua vez, eram influenciadas pelas mudanças na economia e na política do país.

Conto uma história que construí a meu modo e com aquilo que encontrei: cartas, notícias de jornais e fotos.

O texto da pesquisa estrutura-se em dois capítulos. No primeiro deles apresentamos o contexto histórico-social da fundação das Irmãs de Santa Marcelina e a história da vida e da obra do monsenhor Biraghi.

No segundo capítulo entenderemos a história da educação do município de Botucatu, na época da fundação do colégio.

O texto, então, desenvolve-se pelo levantamento e pela análise de fontes primárias e secundárias, referentes ao pensamento educacional do período em análise, bem como do fundador da Congregação Marcelina.

Espero que esta pesquisa contribua para pensar o estado atual do Colégio dos Anjos e da educação católica de um modo geral.

Neste estudo procurei construir a história do Colégio dos Anjos com olhar focado nas mudanças e permanências em sua imagem, nas estratégias da elaboração dessas imagens e em sua comunicabilidade. Para isso, utilizei várias fontes: seu discurso, documentos da congregação, notícias e anos comemorativos do colégio. Esta história é uma dentre inúmeras possibilidades do olhar, inicia-se com uma primeira imagem: um colégio que foi instalado na cidade de Botucatu. Como já dito no início da pesquisa as irmãs vieram a convite do 1º bispo de Botucatu, dom Lúcio Antunes de Souza, para cuidar da formação intelectual e cristã das moças de Botucatu e região.

Apresento, a fim de olhar para essa imagem com maior atenção, o Colégio dos Anjos em meio ao universo cultural do início do século XX, quando as escolas eram vistas como um dos meios mais eficazes para a resolução dos problemas sociais, como parte integrante do avanço cultural necessário aos novos tempos.

No início da República o país vivia um momento de reordenação política e econômica e ganhava ares de modernidade. As expansões culturais e demandas de escolas por parte da elite encontraram respaldo na Igreja católica, que passava por um período de reestruturação e expansão com o fim do Padroado. Uma das medidas tomadas pela Igreja, a fim de renovar e ampliar seus quadros e difundir suas doutrinas era a fundação de escolas. Difundidas com espaços culturais privilegiados, foi no início da década de 1930, com a organização do sistema nacional de educação, que as escolas foram projetadas com maior força para fora de seus muros, expondo-se publicamente. Mais uma vez, como no início do século, era exaltada nos discursos políticos e culturais, saíam para desfiles e convidavam a população para atividades internas. Eram, portanto, espaços privilegiados de sociabilidade e cultura. Esses dois momentos, o início da República e a Revolução de 1930, apresentam esforços para ampliação da rede de escolarização no país, sendo maior a ampliação após a década de 1930.

Na cidade de Botucatu, região de grandes fazendas produtoras de café, o status dado às escolas pela população não foi diferente. A cidade viveu, no início da República, um período de grandes investimentos culturais. Era preciso modernizá-la política, econômica e culturalmente. Assim, os emblemas da cidade moderna eram estampados no centro de Botucatu: estação ferroviária, luz elétrica, casarões, Igreja matriz, teatro, gabinete de leitura e um colégio católico destinado às filhas ou aos filhos da elite. A segunda imagem: o colégio bem-sucedido, um dos símbolos do progresso da cidade.

As fontes e o discurso produzidos no Colégio dos Anjos, durante o período estudado, foram coerentes, ao longo da história, e dialogavam com os ritos e discursos que a sociedade e a cultura do período acolhiam. Assim, enquanto no início do funcionamento do colégio em Botucatu eram descritas somente festas comemorativas, 1ª Eucaristia, após a década de 1930 há um aumento significativo na descrição de festas e desfiles cívicos. Estes últimos aparecem em tal quantidade que acabam por deslocar as cerimônias religiosas para o segundo plano. Acompanhando o momento político da construção da identidade nacional, o colégio assume esse discurso e envolve-se na lógica espetacular, mas sem abandonar seus projetos.

Os desfiles e as conferências eram os espaços onde as meninas, os professores e as irmãs se apresentavam, mostrando os resultados do trabalho desenvolvido no Colégio dos Anjos, sua filosofia, seu marketing. O caráter público dos eventos favorecia a amplitude da divulgação. Expunha-se, em consonância com os modelos difundidos no período, a figura da mulher baseada no eterno feminino, mas, ao mesmo tempo, preparavam-na para profissão, com conhecimento e competência, conforme divulgava o colégio. Dos eventos nas ruas ou das conferências abertas à população, hoje as cerimônias que mais se destacam são as chamadas atividades de palco e a casa aberta. O Colégio dos Anjos continua construindo sua imagem no interior da cultura. As propagandas publicadas no jornal A Gazeta de Botucatu na década de 1920 ofereciam educação completa; em 2007, podemos ler em outdoors, nas principais avenidas da cidade, o seguinte anúncio: “Entre tradição e qualidade, fique com as duas. Colégio Santa Marcelina”.

Envolvido em um meio educacional no qual a venda do conhecimento para aqueles que podem comprá-lo se tornou um espetáculo de venda de imagem, o Colégio dos Anjos, ainda hoje, desempenha papel significativo na educação em Botucatu. Em meio à modernidade de colégios como Anglo, Objetivo, La Salle e Seta, instalados na cidade, o Colégio sobrevive e marca sua presença, aliado a seu tempo, ele volta-se para o privado e adota a modernidade do campo educacional. A tensão entre adequação a seu tempo, desejos e interesses de famílias e da Igreja convivem nesse ambiente. Esta é a história de uma escola que absorveu os acontecimentos culturais, em seus aspectos cívicos e religiosos. É a história de como, em meio a eles e com sua ajuda, se construiu sua imagem trabalhando com as contradições do meio social.

A minha pesquisa teve como fonte principal, como já dito, conhecer a história da congregação Santa Marcelina. O arquivo da escola é muito rico em documentação; da fundação na Itália e a vinda da Congregação para o Brasil até 1912, período desta pesquisa, onde encontramos: informativos, revistas comemorativas, cartas do fundador, livros diversos. Além dessa documentação oficial produzida pela escola, todas elas manuscritas, temos também algumas fontes impressas que são: alguns exemplares do jornal A Gazeta de Botucatu, jornal que circulava na cidade.

A maior parte da documentação foi produzida com um caráter oficial, portanto faz-se necessário compreender a finalidade da produção dessa documentação.

Percebe-se que havia uma preocupação muito grande de possuir todas as informações ligada à escola anotada, o que facilitou muito a pesquisa sobre a instituição. Os jornais encontrados sobre a época retratada trazem notícias, sendo a mesma uma instituição cuja função era formar as jovens da cidade na doutrina cristã e na sua conduta, formando jovens prendadas, de acordo com o ideário católico.

A escola atendia na sua maioria à elite da cidade, pois a escola era particular, só quem possuía recursos financeiros poderia mandar suas filhas para a instituição; percebemos a partir dessa análise mais aprofundada o perfil da elite da cidade.



O jornal A Gazeta de Botucatu anuncia a abertura das matrículas no inicio de 1913 para a escola recém-inaugurada na cidade.

Dessa maneira, concluímos este trabalho, tentando responder à questão teórica posta logo de início, sobre o porquê e a importância de analisar a história da Congregação Marcelina para melhor entender a história de Botucatu no início do século XX.
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