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Editora Executiva

Christine Rohrig



Paulo Freire
Pedagogia da indignação

Cartas pedagógicas

e outros escritos
3° reimpressão

Editora Unesp


2000 Ana Maria Araújo Freire Direitos de publicação reservados à: Fundação Editora da UNESP (FEU) Praça da Sé, 108

01001-900 - São Paulo - SP

Tel.: (Oxx11) 3242-7171

Fax: (Oxxl1) 3242-7172

Home page: www.editora.unesp.br E-mail: feu@editora.unesp.br

Dados Internacionais de Catalogação na publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Freire, Paulo, 1921-1997.

Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos / Paulo Freire. - São Paulo: Editora UNESP, 2000. ISBN:85-7139-291-2

1. Educação 2. Freire, Paulo, 1921-1997 3. Pedagogia. Título. 00-0987 CDD-370.1
Índice para catálogo sistemático:

1. Freire, Paulo: Pedagogia: Educação 370.1


Educação óbvia

Escolhi a sombra desta árvore para

repousar do muito que farei,

enquanto esperarei por ti.

quem espera na pura espera

vive um tempo de espera vã.

Por isto, enquanto te espero

Trabalharei os campos e

Conversarei com os homens

Suarei meu corpo, que o sol queimará;

minhas mãos ficarão calejadas;

meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;

meus ouvidos ouvirás mais;

meus olhos verás o que antes não viam,

enquanto esperarei por ti.

Não te esperarei na pura espera

porque o meu tempo de espera é um

tempo de que fazer.

desconfiarei daqueles que visão ouvir-me:

em voz baixa e precavidos:

É preciso agir

É preciso falar

É preciso andar

É preciso esperar, na forma em que esperas,

porque esses recusam a alegria de tua chegada.

desconfiarei também daqueles que visão dizer-me,

com palavras fáceis, que já chegaste,

porque esses, ao anunciar-te ingenuamente,

antes te denunciam.

Estarei preparando a tua chegada

como o jardineiro prepara o jardim

para a rosa que se abrira na primavera.

Paulo Freire (Genéve - março 1971)

Sumário
Apresentação

Ana Maria Araújo Freire 9
Carta-prefácio a Paulo Freire Balduino A. Andreola 15
Parte I

Cartas pedagógicas
Primeira carta

Do espírito deste livro 29


Segunda carta

Do direito e do dever de mudar o mundo 53

Terceira carta

Do assassinato de Galdino Jesus dos Santos - índio pataxó 65


Parte 11 Outros escritos
Descobrimento da América 73
Alfabetização e miséria 77
Desafios da educação de adultos ante a nova reestruturação tecnológica 87

A alfabetização em televisão 103

Educação e esperança 111

Denúncia, anúncio, profecia, utopia e sonho 117




Apresentação
Ana Maria Araújo Freire
Entregar aos leitores e leitoras de Paulo Freire o livro que ele escrevia quando nos deixou, em 2 de maio de 1997, é um momento de grandes emoções. Certamente não só para mim, mas também para aqueles e aquelas que acreditavam que entre dezembro de 1996, quando publicou a Pedagogia da autonomia, e maio de 1997, Paulo não teria ficado sem pôr no papel as suas sempre criativas idéias. Não teria, por quase um semestre, deixado de expressar por escrito a sua preocupação de educador­político. Não se enganaram os que assim pensaram e es­peraram. Agora, se não passadas todas as angústias, dúvi­das, expectativas e tristezas por ele não estar mais entre nós, podemos comemorar com alegria a sua volta às edi­toras e livrarias, inicialmente, com o seu último trabalho.

Até então eu não tinha ainda lido as 29 páginas manuscritas das Cartas, uma das formas de comunicação que Paulo tanto gostava de utilizar.1 Eu apenas conhecia os temas tratados (e os que ele não teve tempo de escrever), pois sempre estava falando, discutindo e comentando Com alegria ou indignação os fatos sobre os quais estava construindo o seu novo discurso antropológico­ político. Foi difícil para mim iniciar a leitura dessas páginas. Tinha medo. Era como se isso fosse confirmar o fato consumado de sua ausência, tão doloroso quanto irreversível. Ler um livro incompleto de Paulo implicaria para mim estar novamente diante de sua morte. Quando uma relação amorosa como a nossa é rompida abruptamente, ficamos, os que não se foram, perplexos, espantados, estarrecidos, antes mesmo de termos consciência da dor brutal alojada para sempre dentro de nós; antes mesmo que possamos realizar em nosso espaço do sentir a perda que acabamos de sofrer. Esses instantes (dias?) são também de um sofrer que nos marca para sempre tanto quanto o luto consciente. Acreditar na ausência para sempre? Aceitar que o companheiro de todos os dias e de to­ das as horas partiu quando ainda tanto queria ficar entre nós? Minha reação inicial foi, então, essa inútil tentativa de driblar a realidade. Defendia-me, entre outras maneiras/ não lendo os seus escritos, para não enfrentar a situação de sofrimento que já estava instalada em mim, na verdade, desde o instante que soube de sua morte. Por isso fugi enquanto pude para não reafirmar a mim mesma que . além de não mais ele poder me tocar, me escutar e me olhar ele também não poderia escrever mais.

1 Sobre a preferência de Paulo Para escrever, algumas vezes, seus ensaios em forma de cartas, ver Paulo Freire, Cartas s Cristina, São Paulo:Paz e Terra, 1994, in: Ana Maria Araújo Freire, Notas: Introdução (p.237-42).

Ler esses textos, sobretudo porque eles estavam, I como sempre, escritos pelas próprias mãos de Paulo, significaria naquelas horas de dor indescritível dizer a mim ' mesma que, definitivamente, estas Cartas pedagógicas: (ele mesmo as chamou assim desde quando começou a escrevê-las) ficaram inacabadas. E inacabadas para sempre não porque ele tivesse, deliberadamente, abandona­ do o livro, pois ele tinha um prazer muito especial quando concretizava a tarefa que tivesse dado a si próprio escrever - e como o fazia belamente! O escrever era para ele como um exercício epistemológico ou como uma tarefa eminentemente política, além de um gosto, um dever. E como tal jamais se negou a esse que-fazer com seriedade e ética. 2 Ver Ana Maria Araújo Freire, Nita e Paulo, crônicas de amor, São Paulo: Olho D'Água, 1998.

Meses, muitos meses passaram-se, talvez um ano, desde aquela madrugada de perda, até o momento em que comecei a executar minhas decisões que resultam, hoje, neste livro. Somente quando ficou claro para mim tudo o que em mim se passava é que foi possível entender que era necessário enfrentar as emoções - e ler as Cartas. De­pois de analisadas sob a perspectiva de sua incompletude é que tive certeza que deveria publicá-las, que não pode­ria sonegar mais este legítimo direito dos estudiosos(as) de Paulo e, sobretudo dele próprio. Esses escritos, compreendi, são fundamentais para quem estuda a obra freireana tanto por neles estarem, de fato, as suas últimas reflexões escritas como pela importância e modo de abordagem dos temas tratados. Foi assim que me convenci desta minha tarefa e empenhei-me nela com afinco.

Inicialmente, considerei oportuno convidar alguns educadores e educadoras, todos e todas ligados à teoria e/ou práxis de Paulo para escreverem cartas-respostas a ele. Seriam cartas sobre as reflexões próprias de cada um(a) construídas a partir dos provocantes e atuais temas tratados por Paulo nas Cartas pedagógicas.

Dando tempo ao tempo, ansiosa algumas vezes, serenamente refletindo em outros momentos, pacientemente impaciente, como diria o meu marido, decidi, enfim, que estas derradeiras palavras dele deveriam formar um livro exclusivamente dele como autor. Livro com as suas palavras e idéias, com as suas emoções e preocupações, com sua sabedoria e sensibilidade e com apenas algumas palavras minhas de contextualização3 de cada uma das Cartas pedagógicas. Se, por um lado ficou muito clara esta opção, por outro considerava que as Cartas, formando, quantitativamente, um todo muito pequeno, deveriam, então, ser editadas como uma parte de um livro que se completaria com "outros escritos" do próprio Paulo. 3 Paulo já havia me pedido para fazer Notas explicativas em três de seus livros: Pedagogia da esperança, São Paulo: Paz e Terra, 1992; Cartas a Cristina, já citado, e À sombra desta mangueira, São Paulo: Olho d’Água, 1995..

Estes "outros escritos" reunidos na segunda parte do livro é uma seleção de seis textos, cinco deles escritos no ano de 1996. "Alfabetização e miséria", "Desafios da educação de adultos ante a nova reestruturação tecnológica" e "A alfabetização em televisão" foram elaborados para conferências que ele mesmo proferiu na época. "Educação e esperança", "Denúncia, anúncio, profecia, utopia e sonho" foram pensados e elaborados especialmente para publicação em livros. "Descobrimento da América", Paulo o escreveu em 1992, mas não foi divulgado no momento em que se comemorava os 500 anos da chegada do europeu ao Novo Mundo. Faz parte desta seleção pelo fato de eu ter considerado de enorme importância publicá-lo exatamente no mês e ano em que se festeja, oficial­ mente, o "Descobrimento do Brasil". Paulo mais uma vez nos está oferecendo com este texto a possibilidade de uma leitura crítica de evento tão significativo para brasileiros e brasileiras construírem sua identidade cultural verdadeira.

Como em todos estes textos escolhidos para compor este livro Paulo demonstra a sua indignação, a sua legítima raiva e a sua generosidade de amar, resolvi que o título do livro deveria corresponder a essa sua permanente atitude e inteligência perante a vida e o mundo. Está também, como podem seus leitores comprovar, claramente implícita nesses textos a sua postura, profundamente arraigada na vocação ontológica de humanidade que temos em cada um de nós exercida com clareza cidadã por! Ele, mesmo diante dos fatos tão dramáticos e difíceis tratados, de forma a não se afastar da esperança. Esta, aliás, a matriz da dialeticidade entre ela mesma, a raiva ou indignação e o amor. Assim, nomeei este livro PEDAGOGIA DA INDIGNAÇÃO.4 4 Como Paulo já escrevera um livro com o título de Pedagogia da esperança este poderia ter tido o nome de Pedagogia do amor, Optei, entretanto por Pedagogia da indignação por considerar que este título tem força maior para traduzir o que Paulo pretendeu denunciar quando escreveu os textos que o compõem. As "Cartas pedagógicas" formarão, então, a Pane'l do livro e "Outros escritos", a Parte 11.

Não podemos esquecer que Paulo sempre dizia que as verdadeiras ações éticas e genuinamente humanas nascem de dois sentimentos contraditórios e só deles: do amor e da raiva. E este livro, talvez mais do que os outros, está "empapado", como ele dizia - de seu amor humanista e de sua raiva ou indignação política que se traduziram em toda a sua obra, porque as vivia na sua existência. Quer sob a forma de antropologia política - compaixão/ solidariedade genuinamente humanista - quer sob a for­ma de uma epistemologia histórico-cultural - crença/fé nos homens e nas mulheres e certeza na transformação do mundo a partir dos oprimidos(as) e injustiçados(as) através da superação da contradição antagônica opressor/oprimido - quer ainda sob a forma de uma filosofia sociontológica com base, sobretudo, na esperança. Esta, pois, entendida em relação com o amor e a indignação. Todas como fatores dinamizadores e necessários para transformar os projetos de "inéditos viáveis" em concretudes históricas. Neste livro Paulo nos conclama para a concretização deste "inédito", desta utopia que é a democratização da sociedade brasileira, através do amor-indignação-esperança. Acreditei, portanto, que o título não poderia ser outro.

Por fim, quero que os leitores e leitoras de Paulo não considerem que esta é "uma obra póstuma" dele, como tanto se fazia e algumas vezes ainda se faz. Prefiro que esta seja considerada como a obra que celebra a sua VIDA.
NITA

Tarde de verão, de sonhos realizando-se no meio das saudades imensas.

São Paulo, 11 de fevereiro de 2000.


Carta-prefácio a Paulo Freire

Balduino A. Andreola 1


Paulo,
Recebi tuas Cartas pedagógicas, que a Nita amavelmente me enviou, pedindo-me que, depois de lê-Ias, pusesse no papel minhas reflexões sobre as mensagens nelas contidas. Foi com muita emoção que as li, pois foram as últimas cartas que escreveste às amigas e aos amigos do mundo inteiro. Muita gente me perguntou, com insistência, quando serão publicadas. Agora respondo que a Nita e a Editora UNESP estão agilizando a publicação. Pessoalmente, Paulo, penso que cartas recebidas de amigos devem também ser respondidas por carta. Foi por isso que decidi escrever-te. Quando minha carta já estava escrita, a Nita me telefonou propondo-me colocá-la como prefácio de teu livro. Ao mesmo tempo que me emocionei, levei também um susto, pois a responsabilidade é muIto grande. Todavia, Paulo, quase não modificarei o texto, para que não perca a espontaneidade e a informalidade com que resolvi falar contigo.

1 Professor Titular aposentado da Faculdade de Ciências da Educação CFACED) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor Colaborador Convidado do Programa de Pós-Graduação em educação(PPG/EDU) da UFRGS. Professor visitante da Capes no PPG/EDU da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Doutor em ciências da Educação pela Universidade católica de Louvain-la-Neuve (Bélgica).

Na primeira das tuas Cartas, te propões escrever num clima de abertura ao diálogo, de tal modo que o leitor ou a leitora pudesse ir percebendo que a possibilidade do diálogo com seu autor se acha nelas mesmas, na maneira curioso' com que o autor as escreve, aberto à dúvida e à crítica. Este propósito e esta atitude foram constantes em tua vida e em tua obra. Ao ler agora o que escreveste, sinto­me invadido por dois sentimentos dialeticamente opostos: a tristeza profunda de uma grande perda e a alegria transbordante de uma presença nova, totalmente diferente da que saboreávamos antes que partisses para a tua grande viagem transistórica. Sempre que falei de ti e de tua obra, nestes quase três anos de teu silêncio solene, lembrei uma conversa emocionante com o filósofo Paul Ricoeur, quando me foi dado o privilégio de tê-lo como vizinho, em 1983, durante o estágio de um mês na biblioteca Mounier, em Châtenay-Malabry, perto de Paris. Falando da morte de Mounier, ocorrida em 1950, ele disse:

O lado mais cruel da morte é que a gente faz perguntas ao amigo, e ele não responde mais. Lembro que a emoção lhe embargou a voz, e ele ficou olhando longamente para o chão, em silêncio. Impressionou-me constatar que estava repetindo, trinta e três anos depois, o que escrevera em 1950, para o número especial da revista Esprit2 dedicado à memória de Mounier, num texto memorável cujo primeiro parágrafo cito integralmente, não apenas por seu valor afetivo, mas também por seu profundo sentido hermenêutico. Assim escreveu Ricoeur:

Nosso amigo Emmanuel Mounier não responderá mais às nossas perguntas: uma das crueldades da morte é mudar radicalmente o sentido de uma obra literária em andamento; não só ela não mais comporta continuações, estando encerrada, em todo o sentido da palavra, como também ela é arrancada a este movimento de intercâmbio, de interrogações estas, que situava seu autor entre os vivos. Para todo o sempre ela é uma obra escrita, e somente escrita; a ruptura com seu autor está consumada; doravante ela ingressa na única história possível, a de seus leitores, a dos homens vivos que ela nutre. Em certo sentido, uma obra atinge a verdade de sua existência literária quando seu autor morreu: toda publicação, toda edição inaugura a relação impiedosa dos homens vivos com o livro de um homem virtualmente morto.
2 Paul Ricoeur, Une philosophie personnaliste. Esprit (Paris), p.860-87, déc. 1950. Texto incluído no livro Histoire et Vérité, Paris: Seuil, 1955; História e verdade, Trad. de F. A. Ribeiro, Rio de Janeiro: Forense,
Tendo reconhecido a densidade da reflexão de Ricoeur, a leitura de teus escritos, Paulo, e sobretudo de tuas Cartas, permite-me questionar, porém, esta hermenêutica do diálogo interrompido. No dia 19 de setembro de 1998, durante a festa popular de encerramento do I Colóquio Internacional Paulo Freire, no Recife, a Nita disse que não conseguia pensar em ti como ausente. Em 99 estive de novo na tua Recife encantada, e posso dizer com toda a sinceridade que o clima todo do I e do II Colóquio, bem como a pujança das realizações que tua obra continua inspirando, no Recife, em muitos outros municípios de Pernambuco e em inúmeros lugares do mundo inteiro, são evidência eloqüente de que continuas parceiro de nossas caminhadas.

Esta tua presença-permanência, Paulo, eu a percebo intensamente em numerosos eventos, dedicados ao estudo de tua obra e à discussão de inúmeras experiências que nela se inspiram, nas mais diversas regiões do mundo. Aqui no Rio Grande do Sul, o Congresso Internacional promovido pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), em 1998, congregou mais de 1.500 participantes. Em 99, a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) realizou, em Santo Ângelo, Um Colóquio Internacional com 800 participantes. No Congresso da UNISINOS fundamos o Fórum Paulo Freire, como instancia permanente de dialogo e intercambio em torno de experiências e estudos relacionados com tua obra. O 1Q Encontro do Fórum realizou-se na UNISINOS, nos dias 21 e 22 de maio de 99, contando com mais de 70 trabalhos inscritos. Em maio deste ano o 2Q Encontro anual será sediado pela Universidade Federal de Santa Maria, coordenado por nosso amigo Fábio e outros estudiosos de tua obra daquela Universidade. O Fórum Paulo Freire, nascido como criação e projeto coletivo, assim irá continuar, sendo sediado cada ano por uma cidade diversa do Estado, constituindo-se, pela dinâmica de sua organização, uma experiência muito variada, prazerosa, e ao mesmo tempo crítica e criativa, de diálogo genuinamente freireano ou "Paulino" em torno de diferentes leituras e diferentes recriações de tua obra.

Paulo, a leitura de tuas Cartas pedagógicas foi para mim como a imersão numa imensa onda cósmica de ânimo, de esperança e do sentimento de que vale a pena persistir na luta. Sinceramente há momentos em que a desesperança e a depressão parecem prevalecer. Mas ao sentir-te e ao ouvir-te inteiramente fiel até o fim na tua opção irrevogável de lutar, denunciando e anunciando com a veemência de sempre, tais sentimentos se esvaem. A Terceira carta, que permaneceu incompleta sobre tua mesa, da qual tomamos conhecimento imediatamente após tua morte pelo fragmento publicado pela Folha de S.Paulo, nos revela com eloqüência a dimensão desta tua fidelidade total ao projeto coletivo de libertação de que foste o inspirador maior e que prossegue como um dos grandes projetos de solidariedade que pertencem hoje à humanidade. Ao refletir sobre esta tua perseverança perene, lembrei-me de três insignes intelectuais que me ajudam a caracterizá-la no seu significado histórico. Teu e nosso grande amigo, parceiro incomparável de tuas lutas, Ernani M. Fiori, na última conversa que com ele tiveste, em 1984,3 disse: Paulo, estou feliz porque não paraste. Paulo Freire, Depoimento de um grande amigo. Posfácio ao v.11 dos Textos Escolhidos, de Ernani M. Fiori, Porto Alegre: L&PM, 199. p.273-87.
Aproximo esta declaração do amigo inesquecível, já próximo então da viagem derradeira, à afirmação enfática do filósofo argentino Gustavo Cirigliano.4 Tendo lido teu livro Pedagogia da esperança, ele analisa o sentido de tua obra dentro de um paradigma temporal de três momentos: o pré-tempo (período auroral de grande mobilização popular na América Latina, que precedeu as ditaduras); o contra-tempo (período de repressão, prisões, exílios e execuções), e o des-tempo. O des-tempo, ou a assíncronia foi o fenômeno que atingiu, segundo ele, quase todos os que voltaram dos diferentes exílios (ou silêncios repressivos) da longa noite dos regimes militares. Com relação a ti, porém, o ilustre filósofo proclama enfaticamente: sostengo que Paulo Freire ha quebrado el tiempo deI destiem­po porque no ha perdido Ia paIabra. Yeso es una hazana en nuestro continente.

A expressão usada por Cirigliano isto é uma façanha em nosso continente lembra-me as análises que James Petras faz com relação a um fenômeno bastante generaliza­do, que ele caracteriza como dos intelectuais em retirada, que renunciam cada vez mais ao marxismo e se tornam conselheiros políticos do status quo. No Seminário Interna­cional Emesto Che Guevara - 30 Anos, Petras5 declarou:



Yo creo que el interés que hay ahora en el Che Guevara, en parte, refleja el hecho de que el Che empezó revolucioná­rio y termina la vida revolucionário. En el mundo actual, muchos jóvenes miran, escucban y discrepan com muchos Personajes, líderes políticos, que empezaron revolucionários Y abora, de una forma u otra, arrepentidos, critican su pasado Y buscan formular proyectos de acomodamiento con el neoliberalismo. Utilizando su prestigio deI pasado, su militancia, su valentia, como un instrumento para evitar delates, críticas sobre su conducta actual. Y frente a esta manipulación de sus antecedentes, el Che manifiesta un contraste.

Paulo, achei altamente expressivo o título Pedagogia da indignação, escolhido por Nita para o livro que contém tuas Cartas pedagógicas. Penso, porém, que, mesmo ao denunciar com indignação, tu sabias ser mansamente respeitoso das pessoas. Confesso-te que às vezes não consigo imitar tua mansidão. Foi assim que num artigo meu,6 ao pensar nestas reflexões de Petras, num tom irreverente escrevi: eu me pergunto se os números os ex-revolucionários e ex-esquerdistas foram realmente revolucionários .,. Eu chego a pensar que certas vocações revolucionárias têm muito mais a ver com Freud do que com Marx. Ou seja: parece tratar-se de reprises equivocadas, ao longo da vida, de revoltas edipianas mal solucionadas, mais do que de autênticas vocações revolucionárias.

Paulo, a leitura de tuas Cartas nos oferece pistas extra­ ordinariamente ricas e desafiadoras para novas leituras de tua obra. Foi esta, aliás, a preocupação e a idéia inspiradora do I Fórum Paulo Freire. Com minhas alunas e meus alunos do Mestrado em Educação da UFPel, também realizamos, em 98, uma experiência interessante nesta linha, fazendo de teU livro Pedagogia da autonomia uma leitura temática. Cada aluna ou aluno leu o livro na ótica de seu tema preferido, de acordo com sua formação de origem e com objeto de sua pesquisa de mestrado. Nas sessões do seminário, as diferentes leituras eram socializadas e discutidas, sendo assim integradas numa leitura coletiva de teu livro. No Fórum Paulo Freire, em 99, intitulei meu trabalho Leituras proibidas de P. Freire e reli tua obra nas perspectivas da africanidade e do campo (cultura e educação do campo).

6 Balduino A. Andreola, Atualidade da obra de Paulo Freire. Tempo de Ciência (UNIOESTE, Toledo, Paraná), v.s, n.l0, p.7-13, 1998.

Uma das releituras que desejo fazer em diálogo com outros colegas é a teológico-bíblica. falei com o amigo

Danilo da UNISINOS, que aderiu logo à idéia. Trata-s,e de ler tua obra e tua trajetória de luta a serviço dos condenados da terra, dos oprimidos do mundo, na perspectiva de tua fé cristã, que não foi a fé de um cristianismo comprometido com o status quo, mas sim na linha de uma teologia da libertação e da laicidade, como preconizaram La Tour Du Pin, Ozanan, Buchez, Teilhard de Chardin, Bernanos, Péguy, De Lubac, Chenu. Um cristianismo como o queriam Lebret, Hélder Câmara, Duclerq. Um cristianismo de fortes, de lutadores, como o visualizava Mounier no seu livro-meditação L 'affrontment chrétien. Um cristianismo como o descortinou João XXIII.


A leitura de tuas Cartas pedagógicas surpreendeu-me pela variedade e riqueza de enfoques, alguns novos ou menos enfatizados em tua obra. Entre estes eu destacaria o da famz1ia, ou do tema educação e família. Ao desta­car" não posso incidir, porém, no reducionismo. Tu queres dirigir-te aos jovens pais e mães, aos filhos e filhas adolescentes, mas também a professores e professoras. Tratas dos problemas do dia-a-dia, mas ao mesmo tempo, na perspectiva ampla das grandes mudanças acontecidas em nossos tempos e daquelas que estão acontecendo, de for­ma sempre mais rápida. Na tua primeira carta, Paulo, eu revivi a fraternal conversa que tivemos, quando jantamos Juntos no Hotel Embaixador, em 1995, e o ponto de partida de nosso diálogo foram meus filhos Diego e Michel, que havia conhecido ao almoçar em nossa casa naquele dia 18 de maio. A educação de nossos filhos e de nossos alunos torna-se um desafio sempre maior, diante da magnitude crescente dos problemas que o mundo atual nos propõe. Tu não tens receitas, Paulo, e nunca foi este o sentido de tuas obras. Todavia tuas Cartas pedagógicas nos oferecem, isto sim, contribuições valiosas para todos nós, mães e pais, educadores e educadoras do novo século e do novo milênio. Obrigado, Paulo.
Não posso delongar-me em detalhes. Nomearei alguns ainda dos temas novos e dos novos enfoques de temas por ti já abordados amplamente. Se não é novo o tema da Ecologia, é novo o enfoque e a ênfase com que o tratas. Falas do amor ao mundo no contexto do amor à vida, desafiado por tua santa e veemente indignação perante o espetáculo cruel e desconcertante de cinco adolescentes brincando de matar, barbaramente, em Brasília, Galdino, o índio pataxó. O tema da Ecologia está intimamente associado ao da Ética, que perpassa tuas Cartas da primeira à última página, da mesma maneira que perpassa, na minha leitura, como tema central, idéia I geradora, tema-chave, o teu livro-testamento, Pedagogia I da autonomia. Tu contrapões nas Cartas, como naquele I livro, a ética universal do ser humano, a ética da solidariedade, à ética do mercado, insensível a todo reclamo das gentes e apenas aberta à gulodice do lucro. Paulo, há um novO modismo por aí, inclusive entre ex-revolucionários I arrependidos, propalando que não tem mais sentido, na pós-modernidade, falar as linguagens da ética e da política, "superadas" pelos delírios fatalistas da globalização e I da Internet. Que bom, Paulo, que não paraste, proclamando até o fim, com o vigor de um pedagogo-profeta, as dimensões ética e política como exigências ontológico-existenciais e históricas da pessoa e da convivência humana e, em particular, da educação.

A leitura atenta de tuas Cartas exigirá de todos nós uma releitura de tua obra. Elas acrescentam novas dimensões, ressignificando, em sua totalidade, o teu legado. Sem esquecer as perspectivas da inteligência, da razão, da corporeidade, da ética e da política, para a existência pessoal e coletiva, enfatizas também o papel das emoções dos sentimentos, dos desejos, da vontade, da decisão, da resistência, da escolha, da curiosidade, da criatividade, da intuição, da esteticidade, da boniteza da vida, do mundo, do conhecimento. No que tange às emoções reafirmas a amorosidade e a afetividade, como fatores básicos da vida humana e da educação. Com relação ã política, o problema do poder adquire novas configurações. Contra as tentações de abdicar da luta, de renunciar à utopia, de negar a esperança, denunciaste, com o mesmo vigor com que denunciaste em Pedagogia da autonomia, todas as formas de compreensão mecanicista e determinista da história, e proclamas:

Uma das primordiais tarefas da pedagogia crítica radical libertadora ... é trabalhar contra a força da ideologia fatalista dominante, que estimula a imobilidade dos oprimidos e sua acomodação ã realidade injusta, necessária ao movimento dos dominadores. É defender uma prática docente em que o ensino rigoroso dos conteúdos jamais se faça de forma fria, mecânica e mentirosamente neutra.
Baseado na convicção de que o amanhã não é algo inexorável e de que, por isso mesmo, não está dado de antemão, anuncias a viabilidade de um projeto de mun­do, e o direito das classes populares de participar dos de­bates em torno de um projeto de mundo. Paulo, tu consideras as classes populares, organizadas em seus movi­mentos próprios, portadoras do sonho viável e agentes históricos da mudança. Entre estes movimentos populares, salientas a importância histórica do MST. Depois de lembrares a trajetória de lutas dos Sem-Terra de ontem e de hoje, refletindo sobre a grande marcha que o MST do Brasil inteiro realizou em 1997, declaras:

que bom seria ... se outras marchas se seguissem à sua. A marcha dos desempregados, dos injustiçados, dos que pro­testam Contra a impunidade, dos que clamam contra violência, contra a mentira e o desrespeito à coisa pública. A marcha dos sem teto, dos sem escola, dos sem hospital, dos renegados. A marcha esperançosa dos que sabem que mudar é possível.

Paulo, não posso concluir sem voltar à tua Terceira carta. Diante do episódio da trágica transgressão da ética dos jovens assassinos do índio pataxó, em Brasília, afirmas que tal episódio: nos adverte de como urge que assumamos o dever de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais como o respeito à vida dos seres humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros, à vida dos rios e das florestas.

Paulo, tu estás defendendo o valor da vida na sua universalidade, sob todas as suas formas, com a veemência do Cristo, que expulsou os profanadores do santuário, e com a linguagem poética e mística de Francisco de Assis, eleito o maior personagem do milênio recém-findo.

Tua defesa não se inspira num sentimentalismo vago, mas sim na radicalidade de uma exigência ética que assim proclamas: Não creio na amorosidade entre mulheres e homens, entre os seres humanos, se não nos tornamos capazes de amar o mundo.

A civilização ocidental, expressa na racionalidade fria I e calculista da filosofia, da ciência e da tecnologia modernas, revelou-se incapaz de salvaguardar os valores que defendes e de articular a linguagem com que te comunicas. Degenerada num projeto de mundo identificado com o des-amor da ganância fratricida da posse, do lucro e da especulação financeira, conduziu a humanidade à beira da destruição total. Paulo, há algum tempo venho meditando que me parecias deslocar-te do ocidente para o Oriente e para o Sul. Lendo tuas Cartas confirmo-me nesta impressão de que, sem renunciar ao vigor da ciência e da filosofia, estás muito mais próximo do pensamento e da visão de mundo dos grandes mestres orientais, como também do espírito cósmico, místico acolhedor c musical dos povos africanos.

Paulo, simpatizo com a idéia de pensar o teu projeto pedagógico-político na constelação do que denomino Pedagogia das grandes convergências. Eu lembro alguns grandes mestre da humanidade que no século findo, lutaram e dedicaram suas vidas por um projeto mais humano, fraterno e solidário de mundo. Sem excluir outros
penso nos seguintes: Gandhi, João XXIII, Luther King, Si­ mone Weil 1:et, Frantz Fanon, Che Guevara, Teresa de Calcutá, Dom Helder, Mounier, Teilhard de Chardin, Nelson Mandela, Roger Garaudy, Dalai Lama, Téovédjré, Betinho, paramahansa Yogananda, Michel Duclerq, Fritjof Capra, Pierre Weil, Leonardo Boff, Paul Ricoeur e outros. Ao pensar em outros, lastimo, Paulo, que tua despedida inesperada tenha impedido um encontro já previsto com o filósofo Jürgen Habermas, por ocasião da viagem que farias à Alemanha, em 1997, para participar do Congresso Internacional de Educação de Adultos. Teria sido, com certeza, um diálogo histórico em alto nível, entre dois pensadores de estatura internacional. Cabe a nós, pois, não fundarmos clubinhos ou capelas, mas promovermos o diálogo amplo e crítico entre as grandes teorias que, contra a maré do determinismo e do fatalismo inexorável da economia de mercado, da especulação, da ganância e da exclusão, querem contribuir para um novo projeto planetário de convivialidade humana. Cabe a nós, Paulo, que aqui ficamos, derrubarmos muros e inventarmos o que venho chamando, há alguns anos, uma engenharia epistemológico-pedagógica de pontes, através das quais possamos ir e vir, ao encontro uns dos outros, sonhando com o dia em que possamos sentar à sombra desta mangueira da fraternidade global.

Se a tua voz, Paulo, fosse uma voz solitária, a esperança se tornaria difícil. Alegra-nos ver-te situado num pro­cesso histórico de grande envergadura. Tenho certeza plena de que todos os grandes mestres citados acima e dezenas de outros, assinariam o que escreveste em tuas emocionantes Cartas pedagógicas. Elas lançarão luzes novas sobre os caminhos de milhares de educadores, e de muitos milhões de pessoas, no mundo inteiro, que inspirados na tua obra, lutam para a construção histórica de um novo projeto de humanidade.

Porto Alegre, 20 de janeiro de 2000.

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