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A História como determinação, o futuro como um dado inexorável versus a História como possibilidade, o futuro problematizado



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A História como determinação, o futuro como um dado inexorável versus a História como possibilidade, o futuro problematizado

Estar no mundo, para nós, mulheres e homens, significa estar com ele e com os outros, agindo, falando, pensando, refletindo, meditando, buscando, inteligindo, comunicando o inteligido, sonhando e referindo-se sempre a um amanhã, comparando, valorando, decidindo, transgredindo princípios, encarnando-os, rompendo, optando, crendo ou fechados às crenças. O que não é possível é estar no mundo, com o mundo e com os outros, indiferentes a uma certa compreensão de por que fazemos o que fazemos, de a favor de que e de quem fazemos, de contra que e contra quem fazemos o que fazemos. O que não é possível é estar no mundo, com o mundo e com os outros, sem estar tocados por uma certa compreensão de nossa própria presença no mundo. Vale dizer, sem uma certa inteligência da História e de nosso papel nela.

Estou certo, à luz de como vimos nos experimentando hoje, ora marcados por uma compreensão preponderantemente ingênua da História e de nosso mover-nos nela, cujo princípio fundamental é o destino ou o fado, ora submetidos ã ideologia não menos fatalista embutida no discurso neoliberal, de acordo com a qual mudar é sempre difícil, quase impossível, se a mudança se acha em favor dos pobres, porque a realidade é assim mesmo, de que, numa perspectiva democrática e coerente com a natureza humana, o empenho a ser intensamente vivido por nós deve ser em favor de uma concepção da História como possibilidade. Na História como possibilidade não há lugar para o futuro inexorável. pelo contrário, ele é sempre problemático.

Sublinhe-se ainda que a inteligência da História como possibilidade implica reconhecer ou constatar a importância da consciência no processo de conhecer, de intervir no mundo. A História como tempo de possibilidade pressupõe a capacidade do ser humano de observar, de conhecer, de comparar, de avaliar, de decidir, de romper, de ser responsável. De ser ético, assim como de transgredir a própria ética. Não é possível educar para a democracia, para a liberdade, para a responsabilidade ética na perspectiva de uma concepção determinista da História.

Não é possível, por outro lado, educar para a democracia ou experimentá-la sem o exercício crítico de reconhecer o sentido real das ações, das propostas, dos projetos sem a indagação em torno da possibilidade comprovável de realização das promessas feitas sem se perguntar sobre a real importância que tem a obra anunciada ou prometida para a população como uma totalidade bem como para cortes sociais da população.

Afinal, a favor de que projeto de cidade esta ou aquela obra trabalha. É este um projeto modernizante que exclui mais do que inclui setores desvalidos da população? É um projeto que, mesmo necessário à cidade, não se constitui uma prioridade urgente em face da indigência em que se acham áreas sociais da cidade? É o caso, por exemplo, de túnel a ser construído ligando um bairro rico e embeleza­ do a outro bairro igualmente bonito e bem tratado. Mas que fazer nas áreas periféricas da mesma cidade, carentes de esgoto, de água, de praças, de transporte, de escolas? Os partidos progressistas não podem calar diante disto. Os partidos progressistas não podem emudecer, renunciando sua tarefa de dizer a palavra utópica, palavra que denuncia e anuncia. E não porque tenham raiva incontida dos chamados bem-nascidos, mas porque faz parte de sua própria natureza a briga contra as injustiças.

O debate em torno do que representa de injusto certa "política do fazer" é tão necessariamente ideológico quanto a prática de fazer coisas. Nenhum administrador se acha intocado de preferências ideológicas e políticas, angelicalmente bem-comportado quando prefere construir um túnel ligando um bairro rico a outro de sua cidade em lugar, por exemplo, de um jardim arborizado e acolhedor ou uma escola numa área periférica da cidade. Não me convencem as análises políticas que afirmam a mudança de comportamento político das classes populares ou dos eleitores em geral, recusando, dizem, os bla-bla-blás ideológicos e apoiando as políticas de fazer coisas. Em primeiro lugar, o tipo de análise ideológico e político a que me referi antes deve continuar a ser feito. Haverá, por exemplo, discurso mais ideológico do que o de certo homem público que, sem nenhuma indecisão, declarou: "Faço obras nas áreas da cidade que pagam impostos" como se as populações discriminadas da periferia não pagassem impostos e devessem ser punidas pelo poder público, por serem pobres e feias.

Minha posição é a seguinte: mesmo que esta modificação no comportamento político estivesse sendo com­provada, a posição político-pedagógica dos partidos progressistas deveria insistir na análise de a quem mais servem as obras dos que repousam sua propaganda no que fazem. O fato de fazerem não isenta quem faz da análise crítica do que fez, de por que fez, para quem, a favor de quem, por quanto fez etc. A questão fundamental na prática política não é o puro fazer coisas, mas em favor de que e de quem fazer coisas, que implica, em certo sentido, contra quem fazer coisas.

Como não é possível separar política de educação, o ato político é pedagógico e o pedagógico é político, os partidos progressistas, interessados na desocultação de verdades, precisam jogar-se, até quixotescamente, no esclarecimento de que nenhum túnel, nenhum viaduto, nenhuma alameda, nenhuma praça, se explica por si mesmos ou por si próprios. Enquanto experiência pedagógica, o ato político não pode reduzir-se a um processo utilitário, interesseiro, imediatista. É preferível, às vezes, perder uma eleição, mas continuar fiel a princípios fundamentais e coerentes com os sonhos proclamados.

O de que os partidos progressistas precisam em lugar de arquivar sua tarefa utópica de discutir esperançadamente a razão de ser das coisas é aprender com o próprio povo como melhor se comunicar com ele. Como melhor comunicar a ele a inteligência que fazem ou que estão tendo de seu tempo e de seu espaço.

Como um educador progressista nem posso perder-me em discursos descontextualizados, agressivos, inoperantes, autoritários e elitistas, nem tampouco acomodar-me a apreciações populares indiscutivelmente erradas como: "rouba mas faz". Nem posso achar que o povo é ingrato porque não votou em quem me parecia melhor nem afirmar ou aplaudir seu acerto, tomando-o como modelo de minha retificação político-ideológica. Respeito o povo na sua escolha, mas continuo na minha luta contra a falsificação da verdade.

Considerar a análise da política de fazer coisas - via­dutos, túneis, avenidas - e a indagação de a favor de que e de quem, contra que e contra quem se fazem as coisas como bla-bla-blás inoperantes e esquerdistas têm a mesma natureza ideológica do discurso neoliberal que, negando o sonho e a utopia, e despolitizando a educação, a reduz a puro treinamento tecnicista.

Para mim, por mais que se apregoe hoje que a educação nada mais tem que ver com o sonho, mas com o treinamento técnico dos educandos, continua de pé a necessidade de insistirmos nos sonhos e na utopia. Mulheres e homens, nos tornamos mais do que puros aparatos a serem treinados ou adestrados. Nos tornamos seres da opção, da decisão, da intervenção no mundo. Seres da responsabilidade.

Ética do mercado versus ética universal do ser humano
Valemos tanto quanto esteja sendo ou possa ser o nosso poder de compra. Tanto menos poder de compra quanto menos poder ou crédito tem nossa palavra. As leis do mercado sob cujo império nos achamos estabelecem, com rigor, o lucro como seu objetivo precípuo e irrecusável. E o lucro sem limites, sem condições restritivas à sua produção. O único freio ao lucro é o lucro mesmo ou o medo de perdê-lo.

Discurso que sequer poderia ser considerado ridículo por aplica dores no mercado financeiro internacional por­que absolutamente ininteligível, seria o que falasse a eles e a elas dos riscos a que sua especulação desenfreada ex­põe economias desarmadas ou menos protegidas. Menos inteligível ainda se tornaria o discurso se seu sujeito se alongasse em considerações que, ultrapassando a estreita e perversa ética do mercado e do lucro, falasse na defesa da ética universal do ser humano.

Se alguma resposta o discurso humanista provocasse seria em torno da existência concreta de uma tal ética ou não. O sujeito do discurso seria considerado um romântico, um visionário, idealista inconformado com o rigor da objetividade.

De fato, o discurso fatalista que diz: "A realidade é as­sim mesmo, que fazer?", decretando a impotência humana, sugere-nos a paciência e a astúcia para melhor nos acomodar à vida como realidade intocável. No fundo, é o discurso da compreensão da História como determinação. A globalização tal qual está aí é inexorável. Não há o que fazer contra ela senão esperar, quase magicamente, que a democracia, que ela vem arruinando, se refaça em tempo de deter sua ação destruidora.

Na verdade, porém, faz tão parte do domínio da ética universal do ser humano a luta em favor dos famintos e destroçados nordestinos, vítimas não só das secas, mas, sobretudo, da malvadez, da gulodice, da insensatez dos poderosos, quanto a briga em favor dos direitos humanos, onde quer que ela se trave. Do direito de ir e vir, do direito de comer, de vestir, de dizer a palavra, de amar, de escolher, de estudar, de trabalhar. Do direito de crer e de não crer, do direito à segurança e à paz.

Uma das certezas de que me acho certo, hoje, é que, se, realmente, queremos superar os desequilíbrios entre Norte e Sul, entre poder e fragilidade, entre economias fortes e economias fracas, não podemos prescindir da ética, mas, obviamente, não da ética do mercado.

Para a busca de uma tal ampla e profunda superação necessitamos de outros valores que não se gestam nas estruturas forjadoras do lucro sem freio, da visão individua­lista do mundo, do salve-se-quem-puder. A questão que se coloca, numa perspectiva que não seja de um lado, idealista, de outro, mecanicista, é como viver e experimentar, por exemplo, a solidariedade sem a qual não há a superação do lucro sem controle, na dependência apenas do medo de perdê-lo.

Recuso, como pura ideologia, a afirmação, tantas vezes neste texto criticada, de que a miséria é uma fatalidade do fim do século. A miséria na opulência é a expressão da malvadez de uma economia construída de acordo com a ética do mercado, do vale-tudo, do salve-se­ quem-puder, do cada-um-por-si.

Um bilhão de desempregados no mundo, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho. É muita fatalidade!

Se o mundo aspira a algo diferente como, por exemplo, entregar-se à façanha de viver uma província da História menos feia, mais plenamente humana, em que gosto da vida não seja uma frase-feita, não há outro caminho, mas a reinvenção de si mesmo que passa pela necessária superação da economia do mercado.


A questão da violência
A questão da violência não só física, direta, mas subreptícia, simbólica, violência e fome, violência e interesses econômicos das grandes potências, violência e religião, violência e política, violência e racismo, violência e sexismo, violência e classes sociais.

A luta pela paz, que não significa a luta pela abolição, sequer pela negação dos conflitos, mas pela confrontação justa, crítica dos mesmos e a procura de soluções corretas para eles é uma exigência imperiosa de nossa época. A paz, porém, não precede a justiça. Por isso a melhor maneira de falar pela paz é fazer justiça.

Ninguém domina ninguém, ninguém rouba ninguém, ninguém discrimina ninguém, ninguém destrata ninguém sem ser legalmente punido. Nem os indivíduos, nem os povos, nem as culturas, nem as civilizações. A nossa utopia, a nossa sã insanidade é a criação de um mundo em que o poder se assente de tal maneira na ética que, sem ela, se esfacele e não sobreviva.

Em um tal mundo a grande tarefa do poder político é garantir as liberdades, os direitos e os deveres, a justiça, e não respaldar o arbítrio de uns poucos contra a debilidade das maiorias. Assim como não podemos aceitar o que venho chamando "fatalismo libertador", que implica o futuro desproblematizado, o futuro inexorável, não pode­mos igualmente aceitar a dominação como fatalidade. Ninguém me pode afirmar categoricamente que um mundo assim, feito de utopias, jamais será construído. Este é, afinal, o sonho substantivamente democrático a que aspiramos, se coerentemente progressistas. Sonhar com este mundo, porém, não basta para que ele se concretize. Precisamos de lutar incessantemente para construí-lo.

Seria horrível se tivéssemos a sensibilidade da dor, da fome, da injustiça, da ameaça, sem nenhuma possibilidade de captar a ou as razões da negatividade. Seria horrível se apenas sentíssemos a opressão, mas não pudéssemos imaginar um mundo diferente, sonhar com ele como projeto e nos entregar à luta por sua construção. Nos fizemos mulheres e homens experimentando-nos no jogo destas tramas. Não somos, estamos sendo. A liberdade não se recebe de presente, é bem que se enriquece na luta por ele, na busca permanente, na medida mesma em que não há vida sem a presença, por mínima que seja, de liberdade. Mas apesar de a vida, em si, implicar a liberdade, isto não significa, de modo algum, que a tenhamos gratuitamente. Os inimigos da vida a ameaçam constante­mente. Precisamos, por isso, lutar, ora para mantê-la, ora para reconquistá-la, ora para ampliá-la. De qualquer maneira, porém, não creio que o núcleo fundamental da vida, a liberdade e o medo de perdê-la, possa ser jamais supresso. Ameaçado, sim. Da vida entendida na totalidade da extensão do conceito e não só vida humana, vida que, implicando a liberdade como movimento ou permanente busca, implica também cuidado ou medo de perdê-la. Liberdade e medo de perder a vida engendrando-se num núcleo mais fundo, indispensável à vida, o da comunicação. Neste sentido me parece uma contradição lamentável fazer um discurso progressista, revolucionário e ter uma prática negadora da vida. Prática poluidora do ar, das águas, dos campos, devastadora das matas. Destruidora das árvores, ameaçadora dos animais e das aves.
Em certo momento de O capital, discutindo o trabalho humano em face do trabalho do outro animal, diz Marx que nenhuma abelha se compara ao mais "acanha­do" mestre-de-obras. É que o ser humano antes mesmo de produzir o objeto tem a capacidade de ideá-la. Antes de fazer a mesa, o operário a tem desenhada na "cabeça" .

Esta capacidade inventiva que implica a comunicativa existe em todos os níveis da experiência vital. Os seres humanos" porém, conotam sua atividade criativa e comunicante de marcas exclusivamente suas. A comunicação existe na vida, mas a comunicação humana se processa também e de forma especial na existência, uma das invenções do ser humano.

Da mesma forma como o operário tem na cabeça o desenho do que vai produzir em sua oficina, nós, mulheres e homens, como tais, operários ou arquitetos, médicos ou engenheiros, físicos ou professores, temos também na cabeça, mais ou menos, o desenho do mundo em que gostaríamos de viver. Isto é a utopia ou o sonho que nos instiga a lutar.

O sonho de um mundo melhor nasce das entranhas de seu contrário. Por isso corremos o risco de tanto idealizarmos o mundo melhor, desgarrando-nos do nosso concreto, quanto o de, demasiado "aderidos" ao mundo concreto, submergirmo-nos no imobilismo fatalista.

Ambas posições são alienadas. A posição crítica é a em que, tomando distância epistemológica da concretude em que estou, com o que a conheço melhor, descubro que a única forma de dela sair está na concretização do sonho, que vira, então, nova concretude. Por isso, aceitar o sonho do mundo melhor e a ele aderir é aceitar entrar no processo de criá-la. Processo de luta profundamente ancorado na ética. De luta contra qualquer tipo de violência. De violência contra a vida das árvores, dos rios, dos peixes, das montanhas, das cidades, das marcas físicas de memórias culturais e históricas. De violência contra os fracos, os indefesos, contra as minorias ofendidas. De violência contra os discriminados não importa a razão da discriminação. De luta contra a impunidade que estimula no momento entre nós o crime, o abuso, o desrespeito aos mais fracos, o desrespeito ostensivo à vida. Vida que, na desesperada e trágica forma de estar sendo de certa faixa da população, se continua ainda sendo um valor, é um valor sem estimação. É algo Com que se joga por um tempo qualquer de que só o acaso fala. Vive-se apenas enquanto não morto se pode provocar a vida.

Luta contra o desrespeito à coisa pública, contra a mentira, contra a falta de escrúpulo. E tudo isso, com momentos, apenas, de desencanto, mas sem jamais perder a esperança. Não importa em que sociedade estejamos e a que sociedade pertençamos, urge lutar com esperança e denodo.

São Paulo, dezembro de 1996.
SOBRE O LIVRO

Coleção: Prismas

Formato: 12x 21 cm

Mancha: 20,5 x 41 paicas

Tipologia: Gatineau 10/13

Papel: Offset 90 g/m (miolo)

Cartão Supremo 250 g/m (capa)

1ª edição: 2002


EQUIPE DE REALIZAÇÃO

Produção Gráfica

Edson Francisco dos Santos (Assistente)

Edição de Texto

Fábio Gonçalves (Assistente Editorial)

Solange Scattolini Felix (Preparação de Original)

Luicy Caetano de Oliveira (Revisão)

Editoração Eletrônica



Lourdes Guacira da Silva Simoneli

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