Fundamentos históricos da terapia ocupacional e a tragetória da educaçÃo superior em sorocaba



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FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA TERAPIA OCUPACIONAL E A TRAGETÓRIA DA EDUCAÇÃO SUPERIOR EM SOROCABA


Tatiana Doval Amador

Universidade Federal de São Carlos - UFSCar.

Terapia Ocupacional

A enxovia

Fascina

A peneira



Colorida

A gaiola


De taquara

O boneco


De engoço

O riso


Dos presos

O embaixo

Da vida.

A enxovia

Dando para o ar livre

Casamento de luz e miséria

Imanta o menino

A voz do assassino

É um curió suave

Propondo a venda

De um girassol de trapo.

(Drummond de Andrade)



APRESENTAÇÃO

Este trabalho consiste em um dos desdobramentos da dissertação de mestrado defendida na Universidade de Sorocaba - UNISO, no Programa de Pós-Graduação em Educação, intitulada “Terapia Ocupacional e Educação Escolar em Sorocaba. O propósito do presente artigo é discutir e problematizar os projetos políticos pedagógicos do curso de Terapia Ocupacional da UNISO. Tal estudo se dá a partir de dois focos distintos, mas complementares entre si. No primeiro foco, “A Terapia Ocupacional no Município de Sorocaba”, trataremos da trajetória histórica da Terapia Ocupacional no município de Sorocaba/SP. No segundo momento, “O Curso de Terapia Ocupacional da UNISO”, trataremos da educação superior em Terapia Ocupacional, através dos estudos dos projetos políticos pedagógicos do Curso de Graduação em Terapia Ocupacional da UNISO. Ao final apontamos algumas considerações finais no sentido de levantar novas problematizações.



A TERAPIA OCUPACIONAL NO MUNICÍPIO DE SOROCABA

Existem poucos estudos realizados sobre a Terapia Ocupacional no município de Sorocaba. Os poucos estudos existentes estão na UNISO, e nenhum deles destaca a história sorocabana da Terapia Ocupacional, por isso fez-se necessário entrevistar terapeutas ocupacionais da cidade. As informações contidas neste sub-item foram constituídas, basicamente, a partir dos depoimentos dos terapeutas ocupacionais, atuantes na educação superior. Vale pontuar que esses profissionais se formaram em gerações distintas, que vão desde o ano de 1979 até o de 1992.

A primeira notícia que se tem da prática da Terapia Ocupacional em Sorocaba, como não poderia deixar de ser, é junto aos hospitais psiquiátricos. Esse fato não surpreende, na medida que é do conhecimento público que a cidade concentra o maior foco de leitos psiquiátricos da América Latina, aproximadamente 3.500 leitos. (BRANÇAM, LIMA e ROSA, 2004).

Segundo o relato da terapeuta ocupacional R. (2005), até o final dos anos 70 e meados de 80, havia grande desconhecimento da atividade do terapeuta ocupacional no município. Tal desconhecimento partia, inclusive, dos profissionais da saúde. A terapeuta ocupacional relata que a primeira profissional da cidade de Sorocaba foi “Helenice”, sua colega de classe, formada em 1979, pela segunda turma de Terapia Ocupacional da Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP. Sua prática profissional era no Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, situado na região periférica da cidade. A terapeuta ocupacional M. (2005) diz que em 1982 fez estágio num dos hospitais psiquiátricos da cidade. O estágio realizado no Setor de Terapia Ocupacional, curiosamente não contava com nenhuma profissional terapeuta ocupacional.

Nessa época, novos profissionais, formados por escolas da região, tais como Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP - e UNIMEP, chegam a Sorocaba e ampliam as ações da Terapia Ocupacional na cidade. Segundo os relatos, os profissionais, em sua maioria recém-formados, iniciavam suas atividades nos hospitais psiquiátricos, embora já houvesse algumas práticas em outras áreas, como reabilitação física, principalmente em consultórios particulares e atenção ao deficiente mental, em instituições filantrópicas, como Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais - APAE.

É notável como a história da Terapia Ocupacional se desenvolve em Sorocaba com as mesmas características das suas origens no Brasil, mesmo após quase 30 anos de desenvolvimento no país. Dentre essas características, destacamos a feminização da profissão, a formação realizada no modelo reducionista e sua prática voltada à recuperação das incapacidades físicas e/ou mentais.

Nesse período podemos observar a despolitização dos profissionais terapeutas ocupacionais. De acordo com M. (2005), esses se encontravam uma vez ao ano, no entanto o propósito do encontro não era discutir a Terapia Ocupacional, mas sim os “Jogos da Primavera”, ainda existentes. A atividade era promovida pelos hospitais psiquiátricos da cidade e os terapeutas ocupacionais responsáveis pela organização das equipes do local em que trabalhavam, tendo em vista a referida competição.

Por volta de 1985, o Estado de São Paulo promove o concurso público abrindo várias vagas para terapeutas ocupacionais no Estado. O município de Sorocaba recebe um desses profissionais, além de um profissional da Fonoaudiologia. O intuito desse concurso era compor uma equipe multidisciplinar para atuar no Ambulatório de Saúde Mental, tratava-se do primeiro serviço, no município, de atenção ao doente mental, desvinculado do sistema hospitalocêntrico1. Esse serviço, inicialmente vinculado ao governo do Estado, na década de 90 passa à tutela do governo municipal.

Ainda nesse período, o serviço de fiscalização aos hospitais psiquiátricos passa a ser mais severo, desencadeando um processo de contratação em massa de técnicos, não só terapeutas ocupacionais, mas também psicólogos, pedagogos, professores de Educação Física. M. (2005) relata esse período como o da “prostituição”2 da Terapia Ocupacional. Talvez, esse tenha sido um importante momento da Terapia Ocupacional no município mascarando uma proposta político-ideológica de intervenção.

Segundo o relato da terapeuta ocupacional B. (2005), no início da década de 90 a fiscalização volta com rigor e esses episódios voltam a acontecer. Ao contrário da década de 80, quando os profissionais terapeutas ocupacionais, recém-formados estavam retornando à cidade, nos anos 90 parece haver certo esvaziamento de profissionais na cidade de Sorocaba, o que favoreceu a contratação de pessoas vindas de outras cidades.

No que se refere à organização da categoria, de modo geral, os terapeutas ocupacionais, do município de Sorocaba, nunca se reuniu para discutir a profissão. O primeiro sinal de agrupamento de terapeutas ocupacionais, com fins científicos, foi a formação de um grupo para supervisão, coordenado por uma terapeuta ocupacional vinda da cidade de São Paulo, Gilda.

Esse grupo, em 1996 promove o “1º Encontro de Terapia Ocupacional de Sorocaba e Região”. O encontro tinha o objetivo de reunir terapeutas ocupacionais para uma discussão de suas práticas, desafios e perspectivas da Terapia Ocupacional na região.

A adesão ao encontro foi pequena, tanto que no ano seguinte, 1997, o reitor da UNISO, Aldo Vannucchi, dado o interesse pela implementação do Curso de Terapia Ocupacional na Universidade, contatou M. a fim de reunir terapeutas ocupacionais de Sorocaba e região para discutirem a proposta curricular do curso, surpreendendo-se ao constatar que os terapeutas ocupacionais estavam desenvolvendo suas práticas de forma isolada e ofuscada.

Diante deste fato a UNISO, interessada na implantação do Curso de Graduação de Terapia Ocupacional, se propõe a patrocinar a 2ª e a 3ª Jornada de Terapia Ocupacional e Região, respectivamente 1997 e 1998. Apesar da importância do evento para a categoria dos terapeutas ocupacionais é só durante os primeiros anos de fundação do Curso de Terapia Ocupacional da UNISO que se poderão ver os primeiros sinais de reunião e organização dos profissionais dedicados a atividade da Terapia Ocupacional na cidade de Sorocaba e região.

Até que em 2004, duas terapeutas ocupacionais de Sorocaba se juntam a fim de desenvolver um grupo de estudos que pudessem reunir profissionais, terapeutas ocupacionais, não só da cidade de Sorocaba, mas de toda a região. Dentre os principais objetivos do grupo, ainda em funcionamento, estão: “permanecer como um espaço para encontro dos terapeutas ocupacionais com trocas de informações e vivências; buscar o fortalecimento da categoria; divulgar a profissão, o trabalho e o papel do terapeuta ocupacional nos diferentes campos de atuação; proporcionar momentos de estudos, organizados por temas, bimestralmente”. Este fato evidencia a vontade política dos terapeutas ocupacionais pelo desenvolvimento da profissão.

O CURSO DE TERAPIA OCUPACIONAL NA UNISO

Apesar da forte ligação da Terapia Ocupacional com a saúde mental no município de Sorocaba, o Curso de Terapia Ocupacional na UNISO, criado em 1997, resolução do Conselho Universitário nº 005/97, publicada em 16/09/1997, não orienta a sua proposta inicial para essa direção. Daí, talvez, seu caráter mais aberto, é voltado para o desenvolvimento de atuação de natureza mais multidisciplinar.

É importante registrar que o momento da implantação do Curso de Terapia Ocupacional é o mesmo de quando a UNISO buscava sua consolidação como universidade. É bom lembrar que se constituía em exigência para a obtenção do status universitário que suas atividades de ensino, pesquisa e extensão se desenvolvessem nas áreas de Humanas, Exatas e Biológicas.

Se bem que não tenha sido possível precisar exatamente o motivo para a escolha do Curso de Terapia Ocupacional, é certo que a ausência ou a falta de um curso deste tipo na região motivou a UNISO lançar o Curso de Terapia Ocupacional.

A primeira turma do Curso de Bacharelado em Terapia Ocupacional na UNISO teve início em 1998, com aulas no período noturno, das 19h às 22h40min.. Segundo o primeiro Projeto Político Pedagógico – PPP – instituído em 1998, o objetivo do curso era “formar profissionais para atuar no campo da saúde, visando implementar o atendimento e contribuir, juntamente com os demais cursos da área na melhoria da qualidade de vida do cidadão”.

A proposta envolvia apenas o Projeto de Estrutura Curricular elaborado de acordo com o currículo formal mínimo - Parecer nº 622/82, homologado pela Resolução nº 4/83, em 1997, pela enfermeira Dra. Carmem Silvia Gardenal, especialista em currículos. O projeto, neste sentido, não apresentava novidades, propunha 4.000 horas, divididas em quatro ciclos de disciplinas, distribuídas em oito semestres. No Ciclo I, se contemplavam as disciplinas biológicas3, no Ciclo II, as disciplinas de formação geral4, no Ciclo III as matérias pré-profissionalizantes5 e por fim, no Ciclo IV6, as disciplinas profissionalizantes.

A opção preferencial pelas disciplinas com maior ênfase no desenvolvimento humano não pode ser vista, no ambiente, como um desprendimento radical das relações da Terapia Ocupacional com a medicina. Como é o caso da disciplina de Dermatologia, conforme as observações feitas por M. (2005), em consonância com o compromisso da UNISO, enquanto universidade comunitária, de assistir às necessidades da comunidade local e regional, os componentes curriculares de Terapia Ocupacional Aplicada à Dermatologia recebia destaque. Esse fato se dava, principalmente, porque o município de Itu, situado na região de Sorocaba, abriga um hospital de longa permanência para os casos de tratamento de hanseníase.

Essa proposta de estrutura curricular continha ementas de disciplinas baseadas em propostas curriculares de outras instituições de ensino superior, tais como: PUCCAMP, PUC – SP e UFSCar e Universidade de Fortaleza – UNIFOR, além da Universidade Católica de Brasília - UCB, mesmo sem o Curso de Terapia Ocupacional.

É importante destacar que essa proposta pedagógica teve curta duração não sustentando se quer por um ano. Verificando retrospectivamente essa situação pode-se verificar que nem bem instalado, o Curso de Terapia Ocupacional com a sua proposta médico-reducionista se dá intenso processo de discussão entre os professores, que estavam à frente do curso, dando novos rumos para a proposta pedagógica. No novo modelo que surge desse processo de discussão se percebe uma maior ênfase nas disciplinas voltadas ao desenvolvimento humano e nas ações cotidianas do que nas disciplinas relacionadas às patologias.

Talvez a proposta inicial modificada rapidamente pelo processo de discussão instituído pelos professores do Curso possa ser explicada por dois tipos de influência. Primeiramente, pelo espírito de se ater fielmente as exigências oficiais impostas pelo Ministério da Educação – MEC – e em seguida pelo fato de a elaboração do plano do curso ter sido de autoria de uma profissional da enfermagem.

É curioso observar como o desenvolvimento desse processo de renovação da estrutura curricular trouxe à tona o movimento da categoria dos terapeutas ocupacionais, motivado pela busca da autonomia da atividade em relação à medicina, proposta na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB – de 1998.

No fim do ano de 1998, parte da equipe docente, formada por quatro terapeutas ocupacionais, assessoradas pela também terapeuta ocupacional Dra. Maria Luiza Guilelmon Emmell (UFSCar), discutem a proposta curricular do Curso de Terapia Ocupacional e optam por revisar e reestruturar o seu Projeto Político Pedagógico.

Com isso foi possível responder a algumas das necessidades teóricas quanto a concepção ideológica-filosófica do curso, bem como algumas definições quanto as questões operacionais do curso, tais como: carga horária, componentes curriculares, período das aulas (noturno), abertura de campos para aulas práticas (parcerias com instituições da cidade), entre outras.

M. (2005) é convicta de que essa mudança foi de grande impacto não só para a política pedagógica do curso, mas, principalmente, para a formação do futuro profissional de terapeutas ocupacionais, tendo em vista o seu foco principal ter sido dirigido para a formação do aluno voltada às questões contemporâneas da Terapia Ocupacional. Esta postura vem de encontro com as convicções de Medeiros (2003, p. 176) para quem essa forma de conceber a formação de terapeutas ocupacionais implica “posturas mais abertas, atentas, menos esteriotipadas”. A autora reforça ainda mais essa opinião ao destacar que a ação da Terapia Ocupacional não pode ser isolada do contexto sociopolítico-econômico em que ela se desenvolve. A mesma diretriz, portanto, perseguida pelas mudanças empreendidas no final do ano de 1998.

Assim sendo, entra em vigor em 1999 a nova matriz curricular. Observa-se, neste momento, grande empenho dos profissionais terapeutas ocupacionais envolvidos em romperem as relações de dependência da Terapia Ocupacional em relação a medicina. Exemplo prático desta postura é facilmente verificável na diminuição relativa dos componentes curriculares baseados nas patologias em relação ao conjunto das disciplinas que compõem a grade curricular do curso.

É bom que se note que as mudanças realizadas contemplavam em boa parte as novas Diretrizes Curriculares Nacionais estabelecidas para o Ensino de Graduação em Terapia Ocupacional. Por estas diretrizes a nova proposta curricular passa a ser compreendida em dois núcleos, sendo o primeiro Núcleo de Conhecimentos Básicos, subdividido em Área Biológica7 e Área de Humanas8, e o segundo Núcleo de Conhecimentos Específicos, subdividido em Área de Formação Específica9 e Área de Formação em Serviço10.

Uma característica interessante do Curso de Terapia Ocupacional é que essa revisão da sua estrutura curricular não foi a única, o que mostra certo dinamismo e a possibilidade de tentar atender às questões contemporâneas da Terapia Ocupacional. A segunda mudança no PPP ocorre em 2001, com redução de 20 horas/aula no curso. No ano seguinte, em 2002, a UNISO propõe um novo roteiro de elaboração dos projetos pedagógicos dos cursos, “permitindo assim a atualização dos mesmos e a possibilidade de discussão de novas propostas que permitem cada vez mais a formação de profissionais críticos e agentes transformadores da Sociedade”. Neste PPP aparece Saraceno (1999) referendando a justificativa do Curso.

Com isso, parece ficar mais intenso o processo de autonomização da Terapia Ocupacional, uma vez que, inspirado na Reabilitação Psicossocial, trazida pelo referido autor, o PPP norteia a proposta de intervenção pedagógica, clínica e institucional em Terapia Ocupacional.

Dessa forma, observamos que os conteúdos dos componentes curriculares do Curso de Terapia Ocupacional passam a centrar-se no “processo saúde-doença do cidadão, da família e da comunidade, integrado à realidade epidemiológica e profissional, proporcionando a integralidade das ações do cuidar em Terapia Ocupacional”. (PPP, 2002).

É evidente que a primeira revisão no PPP, de 1998, foi a mais radical, tendo em vista a profundidade das mudanças no sentido de que se passa de um modelo altamente técnico para um modelo social-crítico. Assim sendo, as mudanças seqüentes procuraram apenas aprofundar e definir com mais precisão a formação crítica dos profissionais de Terapia Ocupacional.

O que parecia ser uma tendência acabou se consolidando, as mudanças ocorridas vieram fielmente ao encontro das posições sustentadas por Medeiros (2003, p. 137), para quem

O terapeuta ocupacional, como profissional da saúde pertence a um campo multiprofissional e deve engajar-se em práticas que correspondam a uma demanda determinada pelas reivindicações de saúde da população e não como resposta às políticas “econômicas” (medicinas de grupos, indústrias farmacêuticas, consumo de tecnologia, etc.).

O novo Curso de Terapia Ocupacional que emerge, ao menos na intenção, parece interessado em responder às demandas do sujeito, entendido este como um sujeito social historicamente determinado. O que está subjacente a toda esta questão de mudança de diretriz, consolidada no PPP não é a formação de um profissional terapeuta ocupacional neutro, mas ao contrário, é um tipo de profissional crítico engajado na realidade política e social do país. Como aponta Brançam (2003 p. 83),

A formação generalista deve contemplar de forma equilibrada conhecimentos gerais nas áreas biológicas e humanas, conhecimentos específicos no campo da Terapia Ocupacional além de atividades de complexidade crescente que envolvam a observação, a prática autônoma supervisionada nas diferentes áreas, equipamentos e níveis de atuação, proporcionando, desta forma, condições para o desenvolvimento de um profissional crítico e reflexivo, capaz de atuar nas áreas clássicas da terapia ocupacional ou sob novas perspectivas, como agente transformador da realidade local. O ensino de graduação deve ser entendido como uma etapa inicial de um processo de formação continuada e permanente.

O PPP 2006 vem atender a solicitações da própria UNISO de uma nova proposta de estrutura curricular, com componentes curriculares organizados em créditos divididos em três grupos. O primeiro grupo contempla as Ciências Biológicas e da Saúde11, que totaliza 22 créditos em 440 h/a, o segundo grupo é o das Ciências Sociais e Humanas12, com 22 créditos também em 440h/a, e o terceiro, das Ciências da Terapia Ocupacional13, com 136 créditos, em 2720 h/h, totalizando 3.600 horas.

No PPP 2005/2006, o objetivo do curso é proporcionar a formação generalista, assim como o PPP 2002, mas vai além, na medida que estabelece o propósito de formar profissional humanista, crítico e reflexivo.

O terapeuta ocupacional deve conhecer os fundamentos históricos, filosóficos e metodológicos da Terapia Ocupacional, seus diferentes modelos de intervenção e atuar com base no rigor científico e intelectual.

Sua formação deverá atender ao sistema de saúde vigente no país, a atenção integral da saúde no sistema regionalizado e hierarquizado de referência e contra-referência e o trabalho em equipe.

Coincidentemente com Medeiros (2003, p. 150), o PPP aponta para a necessidade de formação de um novo profissional terapeuta ocupacional, que seja “consciente das intencionalidades políticas subjacentes à sua prática clínica, mediante análise cuidadosa das propostas institucionais”. Nesse sentido, o Curso de Terapia Ocupacional da UNISO se mostra empenhado em formar profissionais na área da Saúde, comprometidos com “questões da qualidade de vida no processo das ocupações humanas”.

No entanto, em 2008, dada a necessidade de reestruturação do Curso, uma nova matriz curricular é aprovada e passa a vigorar para os alunos ingressantes neste ano. Os componentes curriculares são organizados em dois eixos: eixo componentes curriculares comuns14 dos cursos da saúde e biológicas15, e eixo componentes curriculares específicos de Terapia Ocupacional16. Vale salientar que, dado o fato dessa mudança ser recente, não nos atermos à análise dessa matriz.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando a relevância deste estudo muito mais no sentido de levantar questões sobre o ensino de Terapia Ocupacional do que pontuar conclusões únicas e absolutas apontamos novas problematizações a fim de fomentar futuras pesquisas acerca dessa temática. É importante a observação das diretrizes curriculares para os cursos de Terapia Ocupacional, pois este documento direciona a formação de profissionais segundo demandas contemporâneas, por isso passou por várias revisões.

É evidente que a primeira revisão no PPP, de 1998, foi a mais radical, tendo em vista a profundidade das mudanças no sentido de que se passa de um modelo altamente técnico para um modelo social-crítico. Assim sendo, as mudanças seqüentes procuraram apenas aprofundar e definir com mais precisão a formação crítica dos profissionais de Terapia Ocupacional.

Apesar disso, as atuais diretrizes curriculares de Terapia Ocupacional ainda se pautam, em sua maioria, em componentes curriculares essencialmente reducionistas, principalmente, à medida que se coloca como campo de estágio profissional obrigatório a saúde física e a saúde mental. É notável que houve avanço, mas a tendência, conforme os depoimentos, é que estejamos caminhando para uma nova proposta curricular para os cursos de Terapia Ocupacional no Brasil, direcionados a campos de intervenção interdisciplinar, como as ações na educação, saúde do trabalhador, no social, na gerontologia, na infância, dentre outras.

Apesar de o curso da UNISO, de acordo com as diretrizes curriculares, privilegiar a formação generalista, segundo análise da grade curricular, trata-se de ações fragmentadas e independentes. Um caminho possível talvez seja a articulação entre os componentes curriculares, tanto do ponto de vista teórico quanto prático.

Segundo Medeiros (2003, p. 146), a Terapia Ocupacional requisitada na atualidade é a “Terapia Ocupacional da ‘ocupação’. A Terapia Ocupacional da ‘ocupação’ é a que entende que a atividade por si só tem caráter terapêutico como reguladora do homem – homem este que tem por essência uma natureza ativa”.



Em profundidade o que podemos perceber no Curso de Terapia Ocupacional da UNISO é que ele se introduz como parte importante e estruturante de uma proposta universitária, caracterizada pelo ensino/pesquisa/extensão, e permite que sua inserção na sociedade sorocabana ultrapasse o simples limite de uma escola superior de Terapia Ocupacional.


Terapeuta ocupacional, formada pela Universidade de Sorocaba - UNISO, mestre em Educação pela UNISO e professora do Departamento de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. E-mail: tatianadoval@yahoo.com.br.

1 Modelo de intervenção centrado em ações hospitalares.


2 Período em que grande número de terapeutas ocupacionais era contratado pelos hospitais psiquiátricos a fim de desenvolverem suas práticas somente durante a fiscalização ao serviço.


3 Análise de Atividades I, II, III, História da Terapia Ocupacional, Cinesiologia, Atividades e Recursos Terapêuticos I, II, III e IV, Cinesioterapia e Reeducação Funcional, Métodos e Técnicas de Avaliação em Terapia Ocupacional I e II.


4 Introdução ao Pensamento Teológico, Antropologia Filosófica, Metodologia do Trabalho Científico I e II, Psicologia, Sociologia, Introdução à Saúde Humana e Saúde Pública, Métodos e Técnicas de Pesquisa em Terapia Ocupacional (Bioestatística), Ética e Legislação I, Ética e Deontologia.


5 Análise de Atividades I, II, III, História da Terapia Ocupacional, Cinesiologia, Atividades e Recursos Terapêuticos I, II, III e IV, Cinesioterapia e Reeducação Funcional, Métodos e Técnicas de Avaliação em Terapia Ocupacional I e II.


6 Disciplinas Institucionais - Introdução ao Pensamento Teológico II, Métodos e Técnicas de Pesquisa II, Trabalho de Conclusão de Curso I e II; Disciplina Complementar Obrigatória - Administração em Serviço de Saúde I e II; e Prática Supervisionada - Prática Supervisionada I, II, III, IV, V, VI, VII e VIII, Terapia Ocupacional Aplicada à Infância e Adolescência I e II, Terapia Ocupacional Aplicada à Dermatologia, Terapia Ocupacional Aplicada à Ortopedia e Traumatologia I, II e III, Terapia Ocupacional Preventiva e Social, Terapia Ocupacional Aplicada às Deficiências Sensoriais e Mentais, Terapia Ocupacional Aplicada à Neuropsiquiatria da Criança e Adolescência, Terapia Ocupacional Aplicada à Geriatria e Gerontologia I, II e III, Terapia Ocupacional Aplicada à Clínica Geral e Cirúrgica, Terapia Ocupacional Aplicada à Saúde Coletiva e do Trabalhador, Terapia Ocupacional aplicada à Neurologia e Pediatria, Terapia Ocupacional Aplicada à Psiquiatria, Arteterapia, Recreação e Lazer Aplicado à Terapia Ocupacional, Terapia Ocupacional Aplicado à Reumatologia, Terapia Ocupacional Aplicada à Saúde Mental e Reinserção Social.


7 Biologia, Anatomia Humana, Fisiologia Humana, Bioquímica e Biofísica, Fundamentos de Patologia e Patologia Aplicada.


8 Sociologia, Antropologia Filosófica, Psicologia, Psicomotricidade, Desenvolvimento Humano, Metodologia do Trabalho Científico, Métodos e Técnicas de Pesquisa, e Ética.


9 Fundamentos e História da Terapia Ocupacional, Atividades e Recursos Terapêuticos, Cinesiologia, Cinesioterapia, Administração em Serviços de Saúde, Dinâmica e Atividade Grupal, Formação e Desenvolvimento Profissional, Métodos e Técnicas de Pesquisa em Terapia Ocupacional, Métodos, Técnicas e Procedimentos de Intervenção em T. O., Saúde Ocupacional, Próteses, Órteses e Adaptação, e Trabalho de Conclusão de Curso.


10 Prática em Terapia Ocupacional I, II, III e IV, Terapia Ocupacional em Disfunções Sensoriais, Geriatria e Gerontologia, Infância e Adolescência I e II, Saúde Física I e II, Saúde Mental I e II, Saúde do Trabalhador, Estágio Profissional – Módulo A (ênfase em Saúde Física ou Mental), módulo B (ênfase em Saúde Física ou Mental), Módulo CI e CII – outras áreas.


11 Inclui os conteúdos (teóricos e práticos) de base moleculares e celulares dos processos biológicos normais e alterados, da estrutura e função dos tecidos, órgãos, sistemas e aparelhos, compreendendo estudos de Biologia Humana, Anatomia, Fisiologia, Patologia Geral e Aplicada. (PPP, 2006).


12 Abrange o estudo dos seres humanos e de suas relações sociais, do processo saúde-doença nas suas múltiplas determinações, contemplando a integração dos aspectos psicossociais, culturais, filosóficos, antropológicos e epidemiológicos norteados pelos princípios éticos. Também deverão contemplar conhecimentos relativos às políticas sociais compreendendo estudos de Sociologia; Antropologia; Psicologia Geral, da Personalidade e do Desenvolvimento; Práticas de Pesquisa em Terapia Ocupacional; Filosofia; Ética; Administração em Serviços de Saúde e Planejamento e Gestão de Serviços. (PPP, 2006).


13 Inclui os conteúdos referentes aos Fundamentos de Terapia Ocupacional, as Atividades e Recursos Terapêuticos, a Cinesiologia, a Cinesioterapia, a Ergonomia, aos Processos Saúde-Doença, Saúde Coletiva, aos estudos de Grupos e Instituições e à Terapia Ocupacional em diferentes áreas de atuação. (PPP, 2006).


14 Os Cursos da Saúde e Biológicas são: Terapia Ocupacional, nutrição, Farmácia e Bioquímica e Biotecnologia.


15 Este eixo compreende os seguintes componentes curriculares: Anatomia, Citologia, histologia e embriologia, Fisiologia I e II, Fundamentos de Bioquímica, Neuroanatomia, O Homem na Sociedade, Patologia, Patologia Aplicada, Psicologia e Saúde, Saúde Coletiva, Planejamento e Gerenciamento de Serviços de Saúde, Língua Portuguesa: texto e contexto, Cultura, religiosidade e mudança social. (Matriz Curricular, 2008).

16 Este eixo compreende os seguintes componentes curriculares: Ações e Processos Terapêutico Ocupacionais, Atividades e Recursos Terapêuticos, Atividades Expressivas e Recursos Terapêuticos, Atividades Plásticas e Recursos Terapêuticos, Atividades Tecnológicas e Recursos Terapêuticos, Cinesiologia, Cinesioterapia, Desenvolvimento Infantil, Desenvolvimento adulto, Dinâmica e Atividade Grupal, Processos Grupais, Estágio Profissional em Terapia Ocupacional 1 e 2, Ética e Formação e Desenvolvimento Profissional em Terapia Ocupacional, Fundamentos e História da Terapia Ocupacional, Introdução à Prática em Terapia Ocupacional, Métodos, Técnicas e Procedimentos de Intervenção em Terapia Ocupacional, Prática de Pesquisa I, II e III, Práticas Comunitárias de Terapia Ocupacional I e II, Práticas de Terapia Ocupacional em Instituições I e II, Práticas e Vivências em Terapia Ocupacional, Próteses, Órteses e Adaptações, Psicomotricidade e Desenvolvimento Humano, Saúde Ocupacional, Seminários em Terapia Ocupacional I e II, Técnicas de Observação em Terapia Ocupacional, Terapia Ocupacional e Sociedade, Terapia Ocupacional em Disfunções Sensoriais, Terapia Ocupacional em Saúde Física, Terapia Ocupacional em Saúde Mental I e II, Terapia Ocupacional em Saúde do Trabalhador, Terapia Ocupacional na Infância I e II, Terapia Ocupacional na Adolescência e Juventude, Terapia Ocupacional na Saúde do Idoso.

REFERÊNCIAS

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