G 12 o ministério carismático internacional e o pensamento teológico brasileiro contemporâneo



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G 12

O MINISTÉRIO CARISMÁTICO INTERNACIONAL E O PENSAMENTO TEOLÓGICO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO

*Edvar Gimenes de Oliveira


SUMÁRIO

Introdução

II. MCI e o pensamento teológico brasileiro contemporâneo 02

III. O Histórico da MCI...................................02

IV. As Estratégias de Crescimento da MCI..................04

4.1. Definindo metas.......................................04

4.2.Definindo o nome da Igreja............................05

4.3.Definindo a estrutura da igreja.......................05

4.3.1. Forma de governo episcopal........................05

4.4.Definindo a liturgia dos cultos.......................06

4.5.Definindo o modelo dos doze...........................07

4.6.Definindo o modelo celular............................07

4.7.Definindo grupos homogêneos...........................08

4.8.Definindo a visão do especialista.....................08

4.9.Definindo a consolidação dos novos convertidos –

Encontros.............................................09

V O perfil teológico da MCI................................11

5.1. Misticismo............................................11

5.1.1. Misticismo na vida pessoal de Castellanos...........11

5.1.2. Misticismo na vida pessoal da co-pastora Cláudia....11

5.1.3. Misticismo e reprodução do ministério de Jesus......12

5.2.A pessoa de Deus e a comunicação com Ele..............12

5.3.Salvação..............................................12

5.3.1.Salvação e "Encontro"..............................13

5.3.2.Salvação e Batismo.................................13

5.4.Maldição..............................................13

5.4.1.Maldição Hereditária...............................14

5.4.2.Maldição e libertação..............................14

5.4.3.Maldição e bênção..................................14

5.5.Prosperidade.........................................15

5.6.Atuação demoníaca....................................15

5.6.1.Atuação demoníaca e louvor.........................15

5.6.2.Atuação demoníaca e regressão...................15

6.Atuação Social.......................................16

6.1.1.Estratégia de Acesso ao Senado Colombiano............16

6.1.2.Visão Política.......................................16

6.1.3.Concepção de prosperidade nacional...................17

7.Considerações finais.................................17

Bibliografia..............................................22

INTRODUÇÃO

O trabalho que segue é uma tentativa de esclarecer a origem, estratégias, e perfil teológico de um movimento que passou a ocupar o centro das atenções de líderes eclesiásticos evangélicos no Brasil, nos últimos meses, popularmente chamado de G12.


Analisamos a Missão Carismática Internacional, criadora do G12, a partir de uma única fonte de pensamento do seu dirigente - o livro "Sonha e ganharás o mundo", de César Castellanos - e em materiais escritos ou por seus discípulos ou por seus críticos.
Entendemos que a finalidade do texto de Castellanos e os conceitos nele apresentados, principalmente os subjacentes às experiências por ele vividas, precisariam ser mais aprofundados por ele, para alcançarmos a extensão de suas crenças e para que o nosso propósito - entender seu pensamento - pudesse ser alcançado com mais precisão. Porém, trabalhamos com o que está disponível, uma vez que o movimento, no Brasil, ainda é muito recente.
Não é o nosso propósito atacá-lo, tomando partido em disputas religiosas. Também não é propósito nosso caçar heresias no seu pensamento, numa espécie de caça às bruxas, até porque se todos escrevêssemos o que cremos ou estivéssemos em destaque e fôssemos julgados, também não escaparíamos de muitas críticas. Procuramos nos ater aos pontos cuja divergência é significativa diante de parcelas consideráveis da população cristã.
Reconhecemos a limitação da análise, diante das limitações de linguagem de quem escreve; das diferenças entre experiências e conceitos e da distância entre o período em que livro foi escrito e as discussões atuais no Brasil. Reconhecemos também a relativa precariedade de se buscar conceitos numa literatura que teve por finalidade compartilhar experiências e não fazer um tratado de teologia. Reconhecemos finalmente, a possibilidade permanente de reformulação de crenças de quem escreve. Por isso, reafirmamos que tentamos julgar os conceitos que se revelam nas práticas descritas no livro citado e não a pessoa de Castellanos, pastor da MCI.


  1. A Missão Carismática Internacional e o pensamento teológico brasileiro contemporâneo

A rigor não poderíamos falar em contribuição ao pensamento teológico brasileiro, da Missão Carismática Internacional, doravante tratada neste trabalho por MCI, uma vez que, primeiro, a preocupação desta igreja, no Brasil, não aparenta ser com a implementação de um pensamento teológico e sim com o crescimento numérico de fiéis através da união com igrejas já estabelecidas no país que se disponham a dar seqüência à sua visão expansionista; segundo, porque há somente um livro da referida Igreja publicado no Brasil, fato que dificulta a análise do seu pensamento oficial. Além disso, a maior parte das informações disponíveis, advém de contatos pessoais que líderes brasileiros mantiveram com ela ou artigos escritos sobre ela e divulgados via Internet. Porém, não podemos ignorar os efeitos de sua presença no meio evangélico brasileiro, seja por Ter se dado através da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, dirigida por Valnice Milhomens, com presença semanal na mídia televisiva, seja por apresentar, através de alguns de seus seguidores, uma estratégia de crescimento e conteúdos doutrinários que estão causando fortes reações por parte das igrejas estabelecidas. Nela surgiu a Igreja em Células no Modelos dos Doze, popularmente, sob protesto de alguns, conhecido como G12. Além disso, mesmo que aparentemente não seja seu propósito, a formulação de um pensamento teológico, sua prática eclesiástica representa e é fundamentada em um pensamento teológico em crescente ascensão em todo o mundo cristão, particularmente no Brasil, como veremos neste trabalho.





  1. O Histórico da Missão Carismática Internacional

A MCI foi fundada na cidade de Bogotá, na Colômbia, pelo Pr. César Dominguez Castellanos. Não encontramos informações mais detalhadas sobre o referido pastor além de que teria se convertido ao evangelho em 1972, através da leitura da Bíblia. Segundo ele, seu interesse pela Bíblia se deu em função de um professor de filosofia que argumentava contra alguns dogmas da Igreja, com a Bíblia nas mãos. Esta postura do professor fez com que ele se interessasse pela leitura bíblica, com o objetivo de rebater as argumentações do professor. E, lendo a Bíblia, a partir do livro do Gênesis, teve sua experiência de conversão. Conquanto não saibamos o nome da denominação original a que pertencia, sabemos que iniciou suas atividades ministeriais como evangelista em lugares concorridos de Bogotá. Em 1976 casou-se com Cláudia Fajardo que viria a ser co-pastora da Missão. Segundo Castellanos, o papel dela foi determinante na definição da visão que se estabeleceu na Missão pois, além de outras formas de atuação, seu desempenho junto às mulheres fez surgir mais de dez mil células.


Falando sobre os primeiros anos do seu pastorado ele diz: "Durante os primeiros seis anos de nosso ministério éramos pastores comuns e triviais, apegados a certos tradicionalismos e conceitos errados, como pensar que não podíamos viver do ministério, tendo que trabalhar duro para abençoar a igreja, confundir humildade com pobreza e chegar a crer que o pastor devia andar no veículo mais velho e viver na casa mais deteriorada; ...pensava que o ingresso na universidade...ia contra a santidade"1 .

Sobre a origem da Missão, ele conta: "numa noite de férias de 1983, estando na Costa Atlântica Colombiana , ao lado de minha família, balançava-me à beira mar quando senti a presença de Deus como nunca havia experimentado. Naquele dia sua voz se fez ouvir no profundo do meu ser, dizendo-me: 'Sou o ancião de Dias! Prepara teu coração em adoração porque eu vou te usar'. Naquele momento entrei num nível de adoração muito mais intenso, diferente do que estava acostumado. Rendi cada átomo de minha existência ao Senhor. Logo escutei-o dizer: ' Vou mover teu assento'. Aquietei-me esperando que ele o fizesse, porém como não acontecesse, eu mesmo comecei a me mover até que escutei novamente Sua voz dizendo-me: 'Eu posso mover teu assento, porém prefiro fazê-lo através de ti. Coloquei-te como pastor. Sonha, sonha com uma igreja muito grande porque os olhos são a linguagem do meu Espírito. Porque a igreja que hás de pastorear será tão numerosa como as estrelas do céu e como a areia do mar, que de multidão não se poderá contar.'2 A partir desta visão ele iniciou, na sala de sua casa, com apenas oito pessoas, em março de 1983, a Missão Carismática Internacional.

Durante os primeiros anos, o ministério da Igreja foi fortemente influenciado não somente pelos escritos mas também pela visita que fez a igreja do pastor Pr. Paul Yonggi Cho, na Coréia, quando diz ter ficado "assombrado com o auditório de luxo com capacidade para umas vinte mil pessoas por reunião, e rodeado de outros edifícios destinados a atividades da igreja"3
A influência Coreana, forte em sua vida, se deu também através da leitura do livro " O mundo é dos sonhadores" de Kim Woo-choong. Conquanto reafirme seu apreço pelo ministério do Pastor Cho, ressalta por diversas vezes que o modelo não produziu os resultados numéricos por ele desejado. Nos primeiros sete anos, mesmo tendo trabalhado muito, a igreja atingiu apenas setenta células e, até os nove anos de existência ela era considerada pequena por ele. Somente a partir de 1991, a Missão passaria a experimentar um crescimento extraordinário, fato atribuído a uma revelação que teria recebido de Deus, num período prolongado de oração, no sentido de implementar, como estratégia de crescimento, o modelo dos doze. Três anos depois, o resultado, em termos de crescimento numérico, era tão grande que o casal passou a ser convidado para compartilhar a visão, as experiências e ensinar a estratégia em diversos outros países. Nesta época um fato importante aconteceu na vida do casal e da Missão: a pastora Cláudia, que estudou Direito e Ciências Políticas, ocupa um espaço político nacional, ocupando uma vaga, como Senadora, no Senado Colombiano, após ter sofrido duas derrotas políticas ao candidatar-se à Câmara da Cidade e à Presidência da República. O período na política, segundo Castellanos, "foi o tempo em que o Senhor nos estava entregando a capacidade e o poder para influenciar, como cristãos, nas esferas administrativas do país"4 . Porém, por apenas cem votos, a reeleição de Cláudia não ocorreria.
Em dezembro de 1996 a MCI iniciou sua trajetória na televisão e em 25 de maio de 1997, o casal sofreria um atentado à balas, no trânsito de Bogotá, interpretado como uma arma usada por Satanás para calar suas vozes. Este ano, o último dos quais conseguimos informações sobre o histórico da Missão, foi considerado um ano de grandes colheitas.



  1. As estratégias de crescimento da Missão Carismática Internacional




    1. Definindo metas

A utilização de um linguajar místico para fundamentar práticas e, talvez, legitimar a autoridade espiritual, faz parte do estilo Castellanos, como soe ocorrer com pastores de correntes carismáticas ou pentecostal. A exemplo do citado no item 5.6.2. quando substitui o linguajar da psicologia por um linguajar místico, no campo da administração o fato se repete. Qualquer autodidata em administração aprende de início o papel das metas no desenvolvimento de uma organização. No caso de Castellanos, tal descoberta é fruto de revelação espiritual. Assim ele se pronuncia: "Ao iniciar a MCI, o senhor me revelou a importância de definir metas... nossa primeira grande meta era chegar a reunir 200 pessoas... outra de nossa metas foi...fazer uma cruzada de milagres e curas em um estádio da cidade...outras metas se associam ao trabalho celular"5 Foi o Senhor quem perguntou: "que queres? E em quanto tempo queres?6 Suas metas são arrojadas, como ele mesmo informa: "Sonho também com trinta mil células para finais de 1997, 100 mil grupos e um milhão de membros no ano dois mil."7




    1. Definindo o nome da Igreja

A definição do nome de sua igreja foi fruto de uma estratégia de marketing. Porém, foi explicada com um linguajar místico: "Deus ministrou a unção da criatividade em nossas mentes, levando-nos a uma mudança total, que se iniciou na escolha do nome da igreja. Parecia-nos estratégico não colocar nenhum termo que se associasse com o evangélico, para que não produzisse rejeição ou apatia, e a estratégia funcionou".8 A preocupação, portanto, foi encontrar um nome que não provocasse reação contrária "no mercado consumidor".





    1. Definindo a estrutura da igreja

Para Castellanos, a estrutura da igreja para o novo século deve ser empresarial. Ele diz que: "a igreja do século XXI é aquela em que o pastor terá uma responsabilidade que demandará maior eficiência, o que o impulsionará a trabalhar com um conceito empresarial, pois a igreja é a empresa mais importante de uma nação , pelo que o mesmo crescimento exigirá que haja dois setores no interior da igreja: um de caráter administrativo, com todos os departamentos necessários em qualquer companhia, e outro relacionado com o cuidado pastoral onde se achará uma equipe de pastores especializados"9




      1. Forma de governo episcopal

A forma de governo da igreja deve ser a episcopal e não a congregacional. A justificativa para tal concepção é um convencimento pessoal. Ele diz: "A época das assembléias e dos comitês de anciãos para dar passos importantes na igreja, já passou na história. Estou convencido de que Deus dá a visão ao pastor e nessa medida é a ele que o Espírito Santo fala, indicando-lhe até onde deve mover-se"10




    1. Definindo a liturgia dos cultos

Castellanos informa: "deixamos de lado os coros tradicionais, colocamos música moderna, uma equipe de danças bem organizada e os resultados não se fizeram esperar."11 E critica lamentando: "É triste ver que ainda existem igrejas cristãs apegadas a certos costumes do século passado, como os corais com batas, que saem do contexto, e outras nas quais o novo crente está quase obrigado a aprender os mesmos hinos dos tempos passados."12




    1. Definindo o modelo dos doze

Castellanos esclarece como se deu a idéia do modelo dos doze: "Durante os sete primeiros anos do ministério tentei implementar o modelo do Pr. Cho...Pouco depois abriu um véu em minha mente, dando-me o entendimento em algumas áreas das Escrituras e perguntou-me: 'Quantas pessoas Jesus treinou?' Começou desta maneira a mostrar o revolucionário modelo da multiplicação através dos doze"13. Diz ainda: "O conceito dos doze é claro nas Escrituras. O número doze sempre aparece na Bíblia como símbolo de plenitude administrativa e de autoridade espiritual, de excelência quanto a organização do povo."14 E continua: "Deus o justificou, recordando-me o modo como Jesus havia trabalhado com doze discípulos. Jesus não preparou nem onze, nem treze. Ele reproduziu seu caráter em doze e eles, por sua vez, deveriam reproduzir a visão do Senhor ao mundo inteiro."15 E num ato de gratidão à sua mãe diz:: "E a mulher que iniciou a visão dos doze, a doce anciã "Chavela", a qual ao ter estes doze filhos (dos quais eu sou o oitavo) estava dando início a um dos princípios que tem inspirado a renovação da Igreja no mundo inteiro."16


Ainda sobre a fundamentação do número doze, Valnice Milhomens acrescenta: "Podemos notar que o número doze, nas Escrituras, é o número de autoridade e governo... O dia tem 24 horas, que são dois tempos de doze. Cada ano tem doze meses. O relógio não pode ser de 11 ou de 13 horas. Deve ser de doze horas, para que possamos administrar o tempo. Não foi um capricho de Jesus escolher doze homens. Ele sabia que estava ali a plenitude do ministério. Os fundamentos requeriam doze apóstolos".17 Mas esta fundamentação não é pacífica. Certo autor afirmou: "Penso que não há necessidade de se criar uma aura mística ao redor do número doze, pois há outros números na Bíblia que também despertam a atenção. Pense, por exemplo no número três. Três é o número da Trindade. Três foram os presentes que os magos do Oriente ofertaram a Jesus. Três foram os principais patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. Três foi o número dos discípulos mais íntimos de Jesus: Pedro, Tiago e João. O número sete também é bastante sugestivo. Em sete dias Deus fez o mundo. Durante sete dias, o povo de Israel marchou em volta da cidade de Jericó, até conquistá-la. Instruído por Eliseu, Naamã mergulhou sete vezes no rio Jordão para ser curado de lepra. Sete foi o número dos diáconos escolhidos pelos apóstolos (Atos 6.5). Sete foram também as igrejas do Apocalipse. Agora, pense no número 40. Por 40 o povo de Israel peregrinou no deserto. Moisés esteve no monte durante 40 dias, jejuando e orando na presença de Deus. Jesus jejuou 40 dias no deserto, por ocasião de sua tentação"18 .
Quanto ao modelo, é simples: escolhe-se doze pessoas para reproduzir nelas a visão ministerial e crenças teológicas. Cada uma delas escolhe outras doze com o mesmo propósito de reprodução e assim sucessivamente. Não havendo quebra no processo, a multiplicação é excepcional.


    1. Definindo o modelo celular

A visão do modelo dos doze veio depois do modelo de células. O modelo dos doze seria um aperfeiçoamento do modelo celular. Trata-se de "grupos de, no máximo doze pessoas, (que) congregam-se a qualquer hora hábil do dia, para estudar a Palavra de Deus, enquanto a visão é transmitida."19


Percebemos que células de doze e células com qualquer número convivem paralelamente como estratégia de crescimento da Missão. Uma confirmação disso, é o caso do Ministério Internacional da Restauração, com sede em Manaus, dirigido pelo Pr. Renê de Araújo Terra Nova que, juntamente com Valnice Milhomens, divide a liderança do movimento no Brasil20. Em entrevista à Revista Videira, ele confirma a convivência das células de doze, com células de qualquer número e informa que chegou a ter células de oitenta pessoas.21
Para Castellanos, "através do trabalho celular...todos os membros da congregação adquirem a importância que merecem e recebem a oportunidade de desenvolver seu potencial de liderança."22 Para ele, "o melhor método para que uma igreja cresça é através das células ou reuniões nos lares."23 Diz ainda: ”as células não são um programa da Igreja , são o programa da igreja"24 E conclui: "...a colheita só poderá ser alcançada por aquelas igrejas que tenham entrado na visão celular. Não há alternativa: a igreja celular é a igreja do século XXI."25
4.7. Definindo Grupos homogêneos
Nesta estratégia, a visão é agrupar as pessoas por área de interesse ou afinidade, mas sempre girando em torno das células. Ele diz: "Observamos que trabalhando mediante grupos homogêneos o fortalecimento do trabalho celular seria extraordinário e, por conseguinte, as projeções de crescimento superariam os limites."26

4.8. Definindo a visão do especialista


Castellanos defende a idéia de que cada crente deve ser um especialista em sua área de atuação no ministério. Isto significa o ideal de que cada pessoa faça o melhor naquilo que se propõe a fazer. Ele diz: "Tenho a visão de que cada indivíduo vinculado à MCI se converta em um especialista."27
4.9. Definindo a consolidação dos novos convertidos - Encontros
Este é o ponto estratégico mais criticado dentro do conjunto de estratégias adotadas por Castellanos para o desenvolvimento de sua Igreja, pela inclusão de Encontros. Segundo Castellanos, os Encontros “São retiros de três dias, durante os quais o novo crente compreende a dimensão exata do significado do arrependimento, recebe cura interior e é liberto de qualquer maldição que tenha imperado em sua vida. Logo a seguir se capacita como guerreiro espiritual, com a ministração do enchimento do Espírito Santo(o grifo é meu)." São retiros espirituais nos quais “mediante conferências, palestras, vídeos e práticas de introspecção, se leva o novo convertido ao arrependimento, libertação de ataduras e sanidade interior.28 Os detalhes do processo de consolidação são esclarecidos por Valnice Milhomens: “CONSOLIDAÇÃO - É uma estratégia recebida em oração para acelerar o processo do discipulado. Em que consiste a Consolidação?

  1. Verificação - Após a decisão no momento do apelo no culto, o decidido recebe uma palavra sobre o plano de salvação. Um cartão de decisão é preenchido e um livreto com verdades básicas do evangelho lhe é presenteado.

  2. Fonovisita - O decidido recebe um telefonema dentro das próximas quarenta e oito horas, quando é marcada uma visita e recebe uma palavra de estímulo e oração.

3. Visita - O decidido é visitado e convidado a freqüentar a célula.

4. Pré-Encontro (o grifo é meu)- Quatro palestras doutrinárias sobre verdades básicas para a vida cristã.

5. Encontro (o grifo é meu) - Em um fim de semana o decidido é levado a um retiro espiritual no qual é profundamente ministrado com vistas a ter um real encontro com Cristo e não ser um simples decidido que não passou pelo verdadeiro arrependimento e novo nascimento. É uma forma de acelerar seu crescimento espiritual

6. Pós Encontro (o grifo é meu)- Dez palestras para consolidação de verdades bíblicas que ajudarão o novo crente a firmar-se ainda mais na fé: Como Enfrentar o Mundo; Como Falar com Deus; Vida Social; A Palavra Fonte de Vida; Sexualidade; A Igreja Refúgio de Deus; Vida Equilibrada; O Batismo um Passo de Obediência; A Música e Sua Influência em Nossa Vida; Como Conhecer a Vontade de Deus.

ESCOLA DE LÍDERES - Três trimestres, uma vez por semana, por duas horas.

No primeiro trimestre são estudadas doutrinas bíblicas básicas e seminários de acordo com o grupo (homens, mulheres, casais, jovens). Tudo de um modo simples e prático, com vistas à formação, que tem o seu forte na célula, sob o discipulado do líder. Nesta fase o ensino é voltado para a vida com Deus e o caráter cristão. No segundo trimestre os estudos giram em torno da Célula e no terceiro, do Líder. Depois vem uma tese também prática por um período de três a seis meses. A seguir vem a Escola de Mestres, quando o líder é treinado em um nível mais elevado.

O que se Ministra no Encontro? De acordo com um pequeno livreto distribuído durante a última Convenção Anual em janeiro último, em Bogotá, transcrevo os temas e objetivo. A bibliografia são livros da coleção de autoria do Pr. César, Tão Firmes Como a Rocha, que abordam as doutrinas básicas conforme Hebreus 6:1-2.

Onde se realiza o Encontro? O ideal é que seja num local apropriado para retiros espirituais. Custo?: Depende do lugar. Em São Paulo temos conseguido até por R 45,00 o fim de semana, incluindo transporte e alimentação. A insinuação de que alguém lucre com isso é falsa.
(Programação do encontro)

SÁBADO -

1. O Amor Paternal de Deus - Deus é Meu Pai. Visa conduzir cada pessoa a um genuíno arrependimento, conhecendo o amor do Pai. (Baseado na parábola do Filho Pródigo).

2. Graças a Deus Pelo Perdão - Visa confrontar a pessoa com o seu pecado. Suas causas e conseqüências (Baseado no pecado de Davi)

3. Vi a Deus Face a Face (O Peniel) - Quebrantamento e reflexão acerca da vida de cada pessoa diante de Deus (Baseado na experiência de Jacó)

4. Plano Redentor de Deus Para o Arrependido. Jesus é meu amigo - Ter uma visão do cancelamento de todos os pecados na cruz.

5. Vídeo "A cruz" - Sentir uma dor profunda por haver ofendido a Deus

6. Ministração da Cruz - Confessar os pecados, renunciá-los e romper as maldições

DOMINGO

1. Fé Para Curar a Alma - Cura para a alma ferida

2. Imerso no Espírito - Que conheçam a pessoa do Espírito Santo.

3. Batismo nas Águas - Levar as pessoas a se batizarem

4. Como Obter Êxito - Dar a conhecer a visão da M.C.I., mediante a escada do sucesso (ganhar, consolidar, discipular e enviar) Onde se realiza o Encontro? O ideal é que seja num local apropriado para retiros espirituais. Custo?: Depende do lugar. Em São Paulo temos conseguido até por R 45,00 o fim de semana, incluindo transporte e alimentação. A insinuação de que alguém lucre com isso é falsa.

O que se espera que aconteça no encontro?

1. Profundo arrependimento de pecados

2. Entendimento profundo do sacrifício de Cristo na cruz do Calvário e seus benefícios

3. Libertação das cadeias

4. Perdão a todos

5. Cura das feridas emocionais

6. Enchimento do Espírito Santo

7. Contato com a visão de se transformar em um líder formador de discípulos.

8. Comunhão com outros membros do Corpo.

9. Batismo nas águas dos que estejam preparados para tanto.”29

V. O perfil teológico da Missão Carismática Internacional
Não temos conhecimento se a MCI dispõe de um "Manual de doutrinas", porém, pelo perfil histórico e teológico de César Castellanos, percebido no livro já citado, somos levados a deduzir que, se houver, deve ser fruto de sua compreensão particular das Escrituras e não de um consenso democrático da "igreja".
O perfil teológico da MCI se aproxima do perfil encontrado nas Igrejas classificadas como neopentecostais30, ou seja: mantém fundamentos teológicos presentes nas igrejas pentecostais clássicas, porém apresenta diferenças, por exemplo, em estratégias de crescimento, estilo litúrgico, costumes, inserção na sociedade e estrutura organizacional empresarial. Destacamos a seguir alguns aspectos teológicos que percebemos nos escritos de César Castellanos:
5.1. Misticismo
O misticismo, em suas práticas, parece ser exagerado, ainda que Castellanos, falando sobre Jesus diga: "não vejo nEle nenhum rasto de misticismo, nem que saísse do normal, com atitudes excêntricas"31. Vejamos alguns pontos que confirmam a percepção que tivemos:

5.1.1. Misticismo na vida pessoal de Castellanos


Começando por sua vida pessoal, ele torna público que, para ter certeza de que Cláudia deveria ser sua futura esposa, fez o seguinte acerto com Deus: "Se a minha relação com Cláudia vem de ti, peço-te que me fales através do versículo oito do lado esquerdo da minha Bíblia"32 . Ao abrir a Bíblia, deparou-se com Marcos 10.8, que se refere ao fato de serem, homem e mulher, uma só carne, no casamento.
5.1.2. Misticismo na vida da Co-pastora Cláudia Fajardo
Sua esposa, a co-pastora da Missão, também demonstra seu misticismo pessoal ao relatar sua experiência no Rio Jordão: "Nessa ocasião fui sensível à voz de Deus quando me disse que fosse ao Jordão para ser batizada novamente e, inclusive, me mostrou quem havia de fazê-lo: um missionário mexicano que logo me compartilhou que, quando sua mãe estava grávida dele, um profeta orou mostrando: 'Este menino que vai nascer, terá o ministério de João Batista!'... Quando sai das águas do Jordão, senti literalmente no espírito que os céus se abriram e que Deus enviava seu Espírito Santo; foi quando minha vida mudou" 33



      1. Misticismo e reprodução do ministério de Jesus

O perfil místico do casal de pastores da igreja revela um fato interessante: há uma série de experiências que revelam, talvez até de forma inconsciente, sua necessidade de reproduzir experiências vividas por Jesus com é o caso do batismo da esposa no Jordão, através de alguém que incorporou a missão de reproduzir o ministério de João Batista; a necessidade de passar provações no deserto; os ataques de Satanás; a escolha de doze pessoas para desenvolver o ministério e a presença de um "traidor" no grupo inicial34 .





    1. A pessoa de Deus e a comunicação com Ele

O Espírito Santo, como soe acontecer nos grupos pentecostais, ocupa o espaço de destaque, sendo alvo de gratidão no início do seu livro. Para Castellanos, '"os sonhos são a linguagem do Espírito Santo de Deus"35. Porém, como o fundamento de suas práticas tem muito a ver com o Velho Testamento, Deus (o pai?) é o mais citado, inclusive mais do que Jesus Cristo. Constantemente quando se refere a ouvir a voz de Deus, aquilo que Deus lhe disse aparece entre aspas, como se indicasse a literalidade da palavra dita, tornando-a inquestionável. Segundo ele, "santidade e integridade de coração são dois conceitos que se unem no processo para poder escutar a voz de Deus."36




    1. Salvação

Quanto à salvação, a crença exposta é a de que ela significa "a proteção espiritual, física e material que Deus tem para seus filhos, e estende aos seus familiares"37; a confirmação da salvação extensiva à família pode ser notada na narração da experiência de conversão de sua esposa, aos catorze anos, quando diz que sua família foi liberta de muitas maldições. Ela assim se expressa: "a partir dessas poucas palavras dirigidas a Deus, minha família foi liberta de muitas maldições na época que começou a preparação para a liderança que, sem suspeitar de nada, empreenderia posteriormente com César."38 Finalmente, confirma uma crença comum aos evangélicos de que, na salvação, "há uma transformação radical em todas as áreas do nosso ser"39


5.3.1. Salvação e "Encontro"
Mesmo tendo feito uma decisão por Jesus Cristo, como Salvador, Castellanos ensina que a participação num ENCONTRO40 é necessária ao novo crente pois "viver as experiências de Jesus no Getsêmani e na cruz, em um retiro, leva a pessoa a ser curada de todas as feridas emocionais produzidas pelo episódio, receber libertação do opróbrio, da humilhação, da insegurança e do temor; entender a obra perfeita de Jesus na cruz, cortar todas as maldições que venham por descendência e compreender com exatidão quem é Deus."41
5.3.2. Salvação e Batismo
A narrativa da experiência do segundo batismo nas águas (o grifo é meu), da Co-pastora Cláudia Fajardo abre espaço para uma dúvida sobre o papel do batismo na vida cristã, uma vez que afirma a mudança de sua vida a partir de tal experiência, como podemos ler: "Quando sai das águas do Jordão, senti literalmente no espírito que os céus se abriram e que Deus enviava seu Espírito Santo; foi quando minha vida mudou"42


    1. Maldição

A ênfase na questão da maldição, forte nos Escritos Vétero-testamentários, pode ser verificada quando, ao falar em ser abençoados como Abraão, Castellanos afirma: "tivemos que experimentar que não havia possibilidade de alcançar esta promessa sem antes reconhecer a influência de maldições sobre nossas vidas ou na de nossos familiares e dispor-nos a quebrá-las, mediante um processo de libertação"43




      1. Maldição hereditária

A maldição "é o castigo pronunciado por Deus, como conseqüência do pecado."44 Porém, não seria apenas fruto dos pecados da própria pessoa mas também seria hereditária, isto é, conseqüência de pecados cometidos por antepassados, como ele mesmo esclarece: "...o Senhor foi nos mostrando pouco a pouco, todos os principados que impediam o crescimento e a prosperidade. Não era só o problema do alcoolismo e as drogas, mas no passado houvera separações, divórcios, muita idolatria. Compreendemos que os problemas financeiros derivavam de que alguns de nossos avós não haviam levado vidas retas. A medida que observávamos uma prisão, nós a quebrávamos. Deus tem sido fiel, e por isso agora vemos nossas famílias rendidas a seus pés e entregues a seu serviço. Na área financeira propusemo-nos a derrubar o gigante da escassez. Atualmente são treze anos vivendo em prosperidade"45




      1. Maldição e libertação

Para Castellanos, parece que o sacrifício de Cristo não é suficiente para libertar a pessoa da maldição do pecado. Ele diz que "um processo de quebra de maldições que em nossa igreja praticamos é...sugerir o desfazer-se de qualquer objeto ruim quem possua e que esteja relacionado com a causa da maldição"46


5.4.5. Maldição e benção
Na compreensão de Castellanos, até mesmo um pastor pode ser um instrumento de maldição. Ele não deixa claro o que um certo pastor fazia para ser instrumento de retenção de bênçãos mas cita-o como exemplo. Na verdade, ele mesmo afirma que "não tínhamos argumentos para dizer-lhe que era um rebelde."47 Afirma também que se o comentário sobre o tal pastor viesse de outro ser humano, dificilmente seria aceito, porém "era o Senhor quem me alertava diretamente."48 O problema alegado foi que o tal pastor substituiu-o por algum tempo no pastorado e, tendo sentido o gosto do poder, por imaturidade espiritual isto lhe subiu à cabeça, "permitindo em sua vida um espírito de ambição."49

O tal pastor foi transferido para uma outra sede que nunca cresceu sob o seu comando e, mesmo depois que saiu, estando tal sede sob o comando de outro líder, o trabalho não progredia. O problema, segundo Castelhanos, era que as bênçãos divinas estavam retidas, "por causa do pastor anterior."50




    1. Prosperidade

Há uma aparente contradição em sua concepção de prosperidade. Em dado momento ele diz: "Compreendemos que os problemas financeiros derivavam de que alguns de nossos avós não haviam levado vidas retas. A medida que observávamos uma prisão, nós a quebrávamos. Deus tem sido fiel, e por isso agora vemos nossas famílias rendidas a seus pés e entregues a seu serviço. Na área financeira propusemo-nos a derrubar o gigante da escassez. Atualmente são treze anos vivendo em prosperidade."51 Por outro lado, numa visão menos mística, afirma que "devemos evitar cair no engano do inimigo de considerar que a prosperidade vem da noite para o dia; ela chega paulatinamente, com trabalho consistente, com uma clara visão do futuro e uma meta específica."52


5.6. Atuação demoníaca
Há uma classificação de diferentes tipos de demônios que atuam em áreas específicas da vida humana que impedem, inclusive o desenvolvimento da vida cristã autêntica. "Está comprovado que espíritos demoníacos controlam as vidas, impedindo-as de se desenvolverem como cristãos autênticos."53
5.6.1. Atuação demoníaca e Louvor
Para Castellanos o uso do louvor como amuleto, expresso no velho ditado popular que diz que "quem canta seus males espanta" pode ser confirmado quando afirma que "O louvor nos protege de qualquer poder demoníaco."54
5.6.2. Atuação demoníaca e regressão
A regressão ao passado da vida de uma pessoa (não a vidas passadas como defende correntes do espiritismo) no sentido de ajudá-la a libertar-se, comum e fundamentada teoricamente na psicologia, é descrita por Castellanos com uma linguagem mistificada. A palavra Insight é substituída por revelação e a causa de traumas emocionais é interpretada como entrada de espírito no corpo da pessoa. É o caso de uma lésbica que foi ajudada por ele e após ter descoberto a causa do problema - interpretado como espiritual e não emocional - ele diz: "Encontrei-me então fazendo uma oração que nunca havia praticado, orando por ela desde que estava no ventre da mãe, porque a Bíblia diz: ' como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo' (Ef. 1.4)."55



  1. Atuação Social

A atuação social da MCI se enquadra perfeitamente na conclusão da análise feita por Ricardo Mariano sobre o neopentecostalismo quando diz: " A função social dessa religião é eminentemente 'nomizadora', para usar termo caro a Peter Berger(1985). Cumpriria o papel de capacitar o crente para enfrentar a pobreza, as agruras dos empregos de baixa qualificação, os efeitos angustiantes das mudanças socioculturais e do impersonalismo típico das relações interpessoais nos grandes centros urbanos."56




    1. Estratégia de acesso ao Senado

Fazendo jus à sua formação acadêmica e revelando conhecimento estratégico, sua esposa Cláudia Fajardo diz: "Por esta decisão me converti em candidata à Câmara de minha cidade e à Presidência da República, processos nos quais não obtive vitória, mas que faziam parte da preparação, servindo para alcançar uma imagem a nível nacional (o grifo é meu) , que logo foi base para me converter na primeira senadora cristã no parlamento colombiano."57




    1. Visão política

Castellanos não deixa claro qual é o seu projeto político. Dá a entender que tem um quando, referindo-se à sua esposa, afirma: "Sua experiência no campo político seria canalizada por Deus para apoiar nossa visão esta área..." 58 Mas não apresenta sonhos diferentes de qualquer cidadão de países terceiro-mundistas quando diz: "Sonho com uma Colômbia totalmente transformada...sonho com uma nação sem pobreza onde os políticos não usem o poder para benefício pessoal, senão que administrar justiça, juízo e equidade ao povo que os tem elegido, senão com uma nação estável financeiramente e não falo de impossíveis, porque temos exemplos dignos de imitar como a Coréia, que ressurgiu de suas cinzas em só quarenta anos, e hoje é uma nação onde praticamente não se vê pobreza, e se Deus fez o que fez lá, também pode fazê-lo na Colômbia e em todos os países, porque o nosso Deus é o mesmo deles"59


6.3. Concepção de prosperidade nacional
Castellanos não deixa claro qual é a sua percepção de nação abençoada por Deus. Ao mesmo tempo em que enfatiza a estabilidade e prosperidade financeira como sendo o alvo desejável, informa uma chamada recebida por ele e esposa para curar o governo dos Estados Unidos, país estável e próspero financeiramente, onde o judiciário não deixa impune os desobedientes às leis. A chamada teria vindo através de Bill Hammond e Cindy Jacobs que disseram: "assim com saro a este governo, vou usar esse conhecimento para que vás curar os Estados Unidos... os dois devem ir juntos para ajudar a sarar os Estados Unidos."60
Sua leitura da realidade econômica e política, no que se refere aos culpados pelos problemas sociais parece ser inversa e até ingênua ao afirmar que "como colombianos temos uma dívida para com o mundo. As duas últimas décadas têm sido marcadas por uma influência nefasta de compatriotas em outras nações e não falamos unicamente daqueles envolvidos no narcotráfico, como também de todos os que, atuando ilicitamente, têm afetado a estabilidade de nossos irmãos do resto do mundo"61

VII. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Teologicamente, percebe-se nas práticas adotadas por Castellanos que a ânsia pelo crescimento sufoca a preocupação com a clareza nas bases teológico-doutrinárias de sustentação. Algumas práticas são de difícil sustentação em bases bíblicas. Um exemplo que destaco pela importância, é a confusa concepção de salvação(ver 5.3., 5.3.1. e 5.3.2.), estritamente terrena, que hora aparece numa experiência sacramentalista de batismo, hora parece depender da participação em Encontros e da libertação de pecados dos antepassados. É curioso destacar que, em nenhum momento do livro aqui analisado ele faz referência à salvação em seu sentido escatológico.

Outro exemplo, ligado ao anterior, é o da maldição(5.4.;5.4.1.;5.4.2.5.4.3.). As observações feitas pelo Dr. Josué Salgado são bastante oportunas e lúcidas: "'Maldição é a autorização dada ao diabo, por alguém que exerce autoridade sobre outrem, para causar dano à vida do amaldiçoado.' Esse é o conceito popular sobre maldição. Um outro aspecto é da maldição hereditária, que implica em problemas e sofrimentos originados por problemas e pecados dos antepassados e herdados hereditariamente. A maldição era primeiro uma defesa ou arma mágica. A prática foi plenamente utilizada pelos povos vizinhos de Israel. A maldição tinha o propósito de desestimular ou desencorajar a quebra da lei e do juramento em Israel (Dt. 27-28, Lv 26.14-39). A fórmula de responsabilidade dos membros de visitar a culpa dos pais nos filhos (netos e bisnetos), até a terceira e quarta geração (Ex 20.5, Nm 14.18, Dt 5.9), deve ser vista e interpretada a partir da organização do povo de Israel em clãs (grande família). Um clã abrangia até quatro gerações, como era a família de Jacó. Caso alguém quebrasse a lei, toda a família sofreria os danos decorrentes do pecado dessa pessoa (Dt 24.16, II Rs 14.6, Ez 18.20)Maldição era juízo divino. Estar sob maldição é estar em rebeldia contra Deus (DT. 11.26-28, 30.1,19, Js 8.34, Is 24.5,6, Ml 2.2). Em Gal 3.10-14 se diz que: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que aos gentios viesse a bênção de Abraão em Jesus Cristo, a fim de que nós recebêssemos, pela fé, a promessa do Espírito.”



Traumas de infância são uma possibilidade real na vida de alguém, mas estes não podem ser confundidos com traumas hereditários. Traumas hereditários são absurdos que só se coadunam com a doutrina de reencarnação. 'Confundir danos psicológicos com maldição ou praga rogada é, no mínimo, falta de discernimento e sabedoria'

O Ensino da Bíblia é claro:

  1. A responsabilidade é pessoal – Ez. 18.1-32

  2. A conversão a Cristo transmite o perdão para os pecados e Deus declara justo ao que crê, de modo que este fica livre de toda e qualquer acusação (Rm 8.33, 34, Ef. 1.7)

  3. Aquele que se converte é transportado do império das trevas para o império da luz, do controle do Diabo para o reino do amado Filho de Deus (Cl. 1.13). No Reino da luz aquele que se converteu está em Cristo, assentado nas regiões celestiais (Ef. 2.6) e em total segurança, nas mãos de Cristo (Jo 10.28,29). O Novo Testamento deixa claro que os que estão em Cristo, estão selados com o Espírito Santo (Ef. 1.13,14) que zela pelos seus com ciúmes (Tg 4.5) e oferece total segurança pois é maior o que está nos cristãos do que o que está no mundo (1 Jo 4.4). O Maligno não lhes toca (I Jo 5.18).

  4. Já somos filhos de Deus mas ainda não é manifesto o que haveremos de ser (1 Jo 3.2). Estamos sendo transformados de glória em glória (2 Co 3.18). Embora salvos ainda não estamos prontos".62

Eclesiologicamente, podemos afirmar que a MCI não apresenta nenhuma novidade positiva para a realidade eclesiástica brasileira. A diferença é que enquanto os batistas, por exemplo, se multiplicam organizando igrejas autônomas com número ilimitado de membros, a MCI organiza células subordinadas a um poder central. Portanto, não parece ser uma igreja local - concepção neotestamentária - mas uma nova denominação. Sua força está na centralização do poder, concentração de recursos e manutenção da uniformidade de visão, em função de uma liderança forte e competente em seus propósitos. E por serem as células grupos pequenos, com estrutura simples, a possibilidade de se “rebelarem” e se tornarem autônomas é quase zero.



A opção por esta forma de governo não está firmada em bases bíblicas que podem ser verificadas. Enquanto a democracia batista, por exemplo, se sustenta, entre outros, no Sacerdócio Individual do Crente e na Livre Interpretação das Escrituras, a forma de governo da MCI se sustenta no convencimento pessoal de Castellanos, como ele mesmo diz: "A época das assembléias e dos comitês de anciãos para dar passos importantes na igreja, já passou na história. Estou convencido de que Deus dá a visão ao pastor e nessa medida é a ele que o Espírito Santo fala, (o grifo é meu) indicando-lhe a onde deve mover-se"63. Assim, é o convencimento pessoal e não uma reflexão bíblico-teológica coletiva, por exemplo, sobre a relação entre governo congregacional e o Sacerdócio Individual do Crente que define a forma de governo. Logo, é algo subjetivo, pessoal, que não pode ser verificado e muito menos questionado. É o Espírito Santo quem fala. E quem ouve é o pastor, porta-voz da mensagem, autoridade a ser seguida. A orientação bíblica, passível de verificação é substituída pela revelação subjetiva do Espírito, restando somente à igreja, obedecer ou ser considerada rebelde.
Do ponto de vista social, a implementação das estratégias de Castellanos em igrejas do Brasil não apresenta perspectivas de que os principais problemas sociais identificados no país poderiam sofrer alterações. Tomemos por exemplo, para fundamentar tal percepção, sua visão dos problemas da Colômbia em relação ao resto do mundo. Se é verdade que a Colômbia tem sido o centro do mundo em produção de narcotráfico é verdade também que isto ocorre porque há um mercado consumidor no resto do mundo, principalmente nos Estados Unidos - o maior do mundo. Há corruptores porque há quem que tenha motivos para se deixar corromper. Um não existe sem o outro e, portanto, ambos são, em tese, igualmente culpados pela proliferação das drogas. Além disso, parece que a influência nefasta das políticas econômicas do Primeiro Mundo, em relação à Colômbia e ao Terceiro Mundo, não são consideradas. Parece, portanto, que seu sentimento de culpa merece maior reflexão e aprofundamento em termos sociológicos.
Concordamos em parte com ele quando, referindo-se aos problemas da Colômbia, diz: "As vezes se comete o erro de lançar queixas contra o governo, mas a culpa não é deles, é nossa..."64 É verdade que dependência paternalista não soluciona problemas sociais e que a responsabilidade não é só dos governos. Porem, daí a assumir "como pessoais, os pecados da nação"65 como forma de superar os problemas sociais da Colômbia é um profundo equívoco teológico e sociológico. Equívoco teológico porque não há fundamentação bíblica, em bases hermenêuticas sólidas, que justifique tal ato. Sociológico, porque se é verdade que a postura espiritual é importante no desenvolvimento sócio-econômico dos povos, é verdade também que tal desenvolvimento não está vinculado necessariamente ao alinhamento doutrinário-religioso da população. Isto pode ser comprovado nos casos de países em que predomina uma população declaradamente atéia, na teoria ou na prática, ou países não cristãos, cuja situação econômico-financeira e estabilidade social é de fazer inveja a qualquer um.
Pedagogicamente o modelo se enquadra na educação tradicional que visa reproduzir formas de pensar e agir, inibindo o princípio teológico da livre interpretação das Escrituras, à medida que cada líder reproduz sua visão aos liderados. Por conseqüência, é sócio-politicamente conservador pois, em vez de contribuir para uma cidadania autônoma e livre, se fundamenta na reprodução do pensamento que é a forma mais antiga de dominação.
Do ponto de vista estratégico não vemos maiores dificuldades com o modelo adotado por Castellanos. Percebemos porém, que ele não tem nada de novo. É uma reprodução aperfeiçoada (ou adaptada) do modelo do coreano Paul Cho, bastante badalado no Brasil, no início da década de oitenta. A diferença do seu sucesso está na determinação que o moveu e em sua habilidade pessoal para aperfeiçoar o modelo de Cho e implementar o projeto. A história mostra que dificilmente tais experiências de sucesso se reproduzem pelo simples fato de serem copiadas. Também não é novidade a susceptibilidade de líderes eclesiásticos a novos modelos. Os motivos para isso são diversos e, por isso, não podemos enquadrar todos num único padrão e muito menos depreciar suas motivações.

A única novidade é o equívoco de Castellanos ao afirmar que "está em pé toda uma explosão, a igreja celular é o paradigma da congregação mais poderosa do mundo. Pode-se dizer que um pastor que não entre nessa dimensão, está matando o progresso do evangelho em sua área."66 Em outras palavras, matar o progresso do evangelho foi o que se fez nos últimos dois mil anos e ninguém percebeu...



BIBLIOGRAFIA:
CASTELLANOS, César Dominguez. Sonha e ganharás o mundo, Palavra da Fé

Produções, São Paulo, 1999


MILHOMENS, Valnice. Plano Estratégico para Redenção da Nação, 107
CASTELLANOS, Cézar Dominguez. Liderazgo de éxito, 386, Apud. SALGADO,

Josué Mello. Dessacralizando a “Visão”, Brasília, DF, S/E, S/D


MILHOMENS, Valnice. A verdade sobre o modelo dos doze, p.2,3, S/E, S/L, S/D
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais, Sociologia do no pentecostalismo no Brasil,

Edições Loyola, São Paulo, 1999



*Pastor da ‘Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem’, Recife, PE
Interação: gimenes@elogica.com.br

1 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 51

22 Ibid., 20

3 ibid., 35

4 Castellanos, Sonha e ganharás o mundo, 59

5 ibid., 150

6 ibid., 21

7 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 152

8 ibid., 51

9 ibid., 146

10 ibid., 147

11 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 51

12 ibid., 161

13 ibid., 78

14 ibid., 80

15 ibid., 59

16 ibid., 04

17 Valnice Milhomens, Plano Estratégico para Redenção da Nação, 107

18 autor desconhecido

19 Castellanos, Sonha e ganharás o mundo, 75

20 Vale registra que os dois líderes do movimento no Brasil tem formação batista. A Pastora Valnice que atua no Sul do país, é ex-aluna do Seminário de Educação Cristã e o Pr. Renê, que atua no norte do país, é ex-aluno do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil.

21 Tivemos acesso a entrevista, através de cópia pela Internet, sem que haja referência ao número da Revista Videira a que se refere. Ainda assim decidimos incluir a informação neste trabalho por não tratar-se de informação dolosa

22 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 73

23 ibid., 74

24 Castellanos, Sonha e ganharás o mundo, 75

25 ibid., 143

26 ibid., 153

27 ibid. 106

28 Castellanos, Liderazgo de éxito, 386, Apud. SALGADO, Josué Mello. Dessacralizando a “Visão”, Brasília, DF, S/E,S/D


29 Valnice, A verdade sobre o modelo dos doze, 2 e 3, S/E, S/L, S/D

30 Segundo Ricardo Mariano,(1999:37) "não são todas as denominações formadas em meados dos anos 70 em diante, ou seja, a partir do surgimento da terceira onda, que podem ser classificadas de neopentecostais...o que justifica a divisão entre pentecostalismo clássico e deuteropentecostalismo é, sobretudo, o corte histórico-institucional, os quarenta anos que os separam...são suas consideráveis distinções de caráter doutrinário e comportamental, suas arrojadas formas de inserção social e seu ethos de afirmação no mundo".

31 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 103

32 Ibid., 30

33 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 56

34 Este aspecto, presente por exemplo nas páginas 23,24,25,60,80 e 145 do livro Sonha e ganharás o mundo, juntamente com outros materiais a serem pesquisados, é interessante para ser analisado por especialistas da área de psicologia, uma vez que, se é comum nas igrejas o anseio de ser discípulo de Jesus, de cumprir a missão por ele conferida com base em imperativos explícitos, não é comum líderes tentando repetir experiências vividas por Jesus.

35 Castellanos, Sonha e ganharás o mundo, 05

36 ibid., 53

37 ibid., 41

38 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 45

39 ibid., 15

40 Retiro, também conhecido como ENCONTRO é semelhante aos Retiros de Carnaval realizados pela maioria das igrejas evangélicas.

41 Castellanos, Sonha e ganharás o mundo, 92

42 ibid., 56

43 ibid., 94

44 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 96

45 ibid., 95

46 ibid., 97

47 ibid., 60

48 ibid., 60

49 ibid, 60

50 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 61

51 ibid., 95

52 ibid., 127

53 ibid., 90

54 ibid., 115

55 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 113

56 Ricardo Mariano, Neopentecostais, sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, 225

57 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 46

58 ibid, 40

59 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo,151 e 152

60 ibid., 140

61 ibid., 169

62 Josué Mello Salgado, Dessaclarizando a "Visão", Brasília, DF, S/E, S/D, p. 9 e 10

63 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 147

64 Castellanos, Sonhas e ganharás o mundo, 101

65 ibid., 102

66 Castellanos, Sonha e ganharás o mundo, 145




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