Gabriel Delanne



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Por que se morre?


Com Claude Bernard, temos constatado a originalidade de processos da matéria organizada para fabricação das substân­cias necessárias ao funcionamento vital, atribuindo essas pro­priedades aos órgãos dotados de uma virtude especial, inencontrável nos corpos brutos. A existência de uma força animante do organismo torna-se, porém, mais evidente ainda, ao exami­narmos a evolução de todos os seres vivos.

Tudo o que tem vida nasce, cresce e morre. É fato geral que quase não padece exceção (13). Mas, por. que morrer? Exce­tuando-se os casos de acidentes, ou de enfermidades que des­troem irremediavelmente os tecidos, como se dá que, mantendo constantes as mesmas condições gerais, indispensáveis ao entretenimento da vida, isto é, a água, o ar, o calor e os alimentos, o ser depereça até à dissociação total?

Dizer que os órgãos se gastam é indicar apenas uma fase da evolução, é demonstrar um fato. Neste caso, pergunta-se: mas, por que se gastam os órgãos, e por que se mantém per­feitos na idade viril, do mesmo passo que aumentam de energia na juventude?

São interrogativas diante das quais a ciência materialista emudece. Sem embargo, uma explicação se oferece e nós vamos expor.

Desde que admitamos na célula fecundada uma certa quantidade de força vital, tudo se torna compreensível.

A vida total de um indivíduo é o resultado de um trabalho a completar-se, trabalho esse mensurável pelas incessantes reconstituições da matéria desgastada pela função vital, e a força para isso necessária pode considerar-se como uma função con­tínua, que aumenta, atinge um máximo e baixa a zero.

Projetam-se no ar uma pedra, comunicamos à pedra a força dos nossos músculos. A pedra eleva-se rápida, a despeito da atração centrípeta, até que as duas forças contrárias se equilibrem. Depois, a atração predomina, a pedra cai, e, quan­do chega a ponto de partida, toda a energia a ela comunicada tem desaparecido.

Pode conceber-se que algo de analógico se passe com os seres vivos. O reservatório de energia potencial, proveniente dos genitores, e que se encontra na célula original, transforma-se em energia natural, à medida que organiza a matéria. De co­meço, a ação é assaz enérgica, a assimilação, o agrupamento das moléculas, ultrapassam a desassimilação, o indivíduo cres­ce; a seguir, vem o equilíbrio de perdas e ganhos: é a maturi­dade, a estabilidade do corpo, até que, chegada à senectude, esgotada a força vital, não mais suficientemente alimentados os tecidos, a morte sobrevém, o organismo desagrega-se, a matéria retorna ao mundo inorgânico.

Assim, pois, acreditamos haja uma certa quantidade de força vital distribuída por toda criatura que surge na Terra; e, como a geração espontânea não existe em nossa época (14), é por filiação que se transmite essa força, aliás, só manifesta nos seres animados.

Mas, não só na matéria e no seu condicionamento residem as propriedades da vida orgânica. Há que lhe presumir, ainda, uma força vital renovadora, ou seja, refletiva das partes des­truídas. Daí, o absoluto erro dos sábios, que imaginam surpreender o segredo da vida em promovendo a síntese da matéria orgânica. Suponhamos que, em conseqüência de manipu­lações químicas, tão sábias e complicadas quanto as possamos imaginar, e movimentando todos os agentes físicos - calor, ele­tricidade, pressão, etc. -, chegássemos a fabricar protoplasma artificial...

Mas... a vida? Tê-la-ia tal produto? Não, certo, porque o que caracteriza a vida é a nutrição reparadora do dispêndio. Essa massa protoplásmica há de ser inerte, insensível às excitações exteriores, qual se não dá com a massa viva. Mas, ainda supondo que assim não fora, só pudéramos justificá-lo em detrimento da estrutura íntima, destruindo-se. Essa massa artificial poderia subsistir a título precário, mas, uma vez exausta, não haveria como se reproduzir, não viveria mais.

Citamos o protoplasma porque ele representa a matéria ?simples por excelência; mas, se tomássemos uma célula, a complicação aumentaria, visto que a célula tem forma determinada e a Ciência é absolutamente incapaz de explicar essa forma, como veremos dentro em breve.

Aqui, importa definir precisamente o que pensamos, para que fique bem clara a nossa concepção.

Máquina delicada e complexa é o corpo humano; os tecidos que o formam originam-se de combinações químicas muito instáveis, devido aos seus componentes; e nós não ignoramos que as mesmas leis que regem o mundo inorgânico regem os seres organizados. Assim, sabemos que, num organismo vivo, o tra­balho mecânico de um músculo pode traduzir-se em equivalente de calor; que a força despendida não é criada pelo ser, e lhe provém de uma fonte exterior, que o provê de alimentos.

A utilidade fisiológica do perispírito


Estabelecemos de princípio, por experimentações espiríticas, que os Espíritos conservam a forma humana, e isto não só por se apresentarem tipicamente assim, como também porque o perispírito encerra todo um organismo fluídico-modelo, pelo qual a matéria se há de organizar, no condicionamento do corpo físico.

Vamos consolidar essa grande verdade estudando o desenvolvimento uniforme de cada ser, segundo o seu tipo particular, e mostrando, depois, a necessidade do duplo fluídico para hierarquizar a matéria e diferenciar-lhe as propriedades, segundo as necessidades dos diferentes órgãos.

Em primeiro lugar, vejamos a força que modela a matéria.

Idéia diretriz


Em cada ser, desde a sua origem, pode comprovar-se a exis­tência de uma força que atua na direção fixa e invariável, se­gundo a qual se edificará o plano escultural do recém vindo, ao mesmo tempo em que o seu tipo funcional.

Na formação da criatura vivente, a vida não fornece como contingente senão a matéria irritável do protoplasma, matéria amorfa, na qual é impossível distinguir que mínimo rudimento de organização, ó mais insignificante indício do que venha a ser o indivíduo. A célula primitiva é absolutamente idêntica em todos os vertebrados. Nada se lhe encontra que indique o nas­cimento de um ser que não outro, de vez que a composição é sempre uma e única para todos.

E forçoso admitir, portanto, a intervenção de um novo fator que determine as condições construtivas do edifício vital.

Precisamos recorrer ao perispírito, pois ele é que contém o desenho prévio, a lei onipotente que servirá de regra inflexí­vel ao novo organismo, e que lhe assinará o lugar na escala mor­fológica, segundo o grau de sua evolução no embrião que se executa essa ação diretiva. Eis aqui, com efeito, a marcha do fenômeno, na opinião de Cl. Bernard:

Quando consideramos a evolução completa de um ser, vemos claramente que sua existência é resultante de uma lei orgânica que preexiste numa idéia preconcebida e se transmite por tradição orgânica de um a outro ser. No estudo experimental dos fenômenos de histogênese e organização, poder-se-ia encon­trar justificativa às palavras de Goethe comparando a natureza a um grande artista. É, na verdade, que a natureza e o artista procedem por maneira idêntica na manifestação da idéia criadora. No desenvolvimento do embrião vemos, antes de tudo, um simples esboço, precedente a toda e qualquer organização. Os contornos do corpo e dos órgãos são, antes, simples lineamentos, a começarem pelos aprestos orgânicos provisórios que hão de servir de aparelhos temporários ao feto. Nenhum tecido ainda se distingue. Toda a massa apenas se constitui de células plasmáticas e embrionárias. Entretanto, nesse bosquejo está traçado o desenho ideal de um organismo ainda invisível, e que tem assinado a cada”. partícula e a cada elemento o seu lugar, a sua estrutura e as suas atribuições. Lá onde hajam de estar vasos sangüíneos, nervos, músculos, ossos, etc., as células embrionárias se transformam em glóbulos de sangue, em tecidos arteriais, venosos, musculares, nervosos, ósseos."



Então, o ilustre fisiologista define, assim, o que pensa:

"O que diz essencialmente com o domínio da vida e não pertence à química, nem à física, nem ao que mais possamos imaginar, é a idéia diretriz dessa atuação vital. Em todo o gérmen vivo há uma idéia dirigente a manifestar-se e a de­senvolver-se na sua organização. Depois, no curso de toda a sua vida, o ser permanece sob a influência dessa força cria­dora, até que morre quando ela não mais se pode efetivar. É sempre o mesmo princípio de conservação do ser que lhe reconstitui as partes vivas, desorganizadas pelo exercício, por acidentes ou enfermidades." (15)

Tomemos, por exemplo, várias sementes de espécies dife­rentes. Analisando-as quimicamente, não poderemos encontrar a menor diferença em sua composição: temo-Ias absolutamente iguais.

Plantemo-las, após, no mesmo terreno, e veremos cada qual submetida a uma idéia diretiva -especial, diferente da de sua convizinha. Durante a vida da planta, essa idéia diretriz con­servará a forma característica da planta, renovar-lhe-á os tecidos segundo o plano preconcebido, e conforme ao tipo que lhe foi de origem assinado.

Sendo a matéria primária idêntica para todas as plantas, como idêntica é a força vital para todos os indivíduos, importa exista uma outra força que origine e mantenha a forma. Ao perispírito atribuímos esse papel, no reino vegetal, como no animal.

Essa idéia diretriz nós a encontramos tangivelmente realizada no invólucro fluídico da alma. Ela é que corporifica a matéria, vela pela reparação das partes destruídas, preside às funções gerais e mantém a ordem e a harmonia no turbilhão das permutas incessantemente renovadas.

O funcionamento orgânico


Chamamos mui particularmente a atenção do leitor para este ponto, talvez um tanto abstrato, mas de capital importância para a nossa teoria.

Se, precedendo à vida fetal, comprovamos a necessidade do perispírito para modelar a matéria, melhor ainda lhe com­preendemos a importância, ao examinarmos o conjunto das funções do organismo animal, sua autonomia, e a solidariedade que as reúne - todas - em sinergia de esforços tendentes à conservação do ser.

A irritabilidade, sinal distintivo da vida, pertence ao protoplasma celular. Na série dos seres que se hão escalonado da maneira ao homem, a célula primitiva diversificou-se, especifi­cou-se, por maneira que cada tecido evidenciou uma das propriedades desse protoplasma. Entretanto, os atos e as funções vitais não pertencem senão a órgãos e aparelhos, ou seja o conjunto de partes anatômicas. A função é uma série de atos ou fenômenos agrupados, harmonizados, colimando um resultado.

A digestão, por exemplo, requer intervenção de uréia série de órgãos, tais como a boca, o esôfago, o estômago, o intesti­no, etc., postos sucessivamente em atividade para transformar os alimentos.

Vemos, portanto, que, para desempenho da função, inter­vêm atividades inúmeras de elementos anatômicos; mas, a fun­ção não é a soma bruta das atividades elementares de células justapostas, porque se compõem e perpetuam uma pelas outras, harmonizadas e entrosadas de molde a concorrerem para um resultado comum.

O resultado entrevista pelo Espírito constitui o laço e a unidade. É ele quem promove a função.

Esta, a função, é, pois, algo de abstrato e intelectual, de modo algum representado, materialmente, por qualquer das propriedades elementares.

Há uma função respiratória, uma função circulatória, mas não há, nos elementos múltiplos que nelas concorrem, uma propriedade respiratória ou circulatória. Tem a laringe uma fun­ção vocal, mas não há nos músculos propriedades vocais, e assim por diante.

O corpo de um animal superior é organismo complexo, for­mado por um agregado de células diversamente reunidas, no qual as condições vitais de cada elemento são respeitadas, mas cujo funcionamento subordina-se ao conjunto. É como se dissemos - independência individual, mas obediente à vida total.

Cada órgão tem sua vida própria, sua autonomia, pode desenvolver-se e reproduzir, independente de outros tecidos. Autônomo, no sentido de não apropriar, nem dos tecidos vizinhos, nem do conjunto, as condições essenciais de sua vida, porque estas, ele as possui em si mesmo, por sua natureza protoplásmicas. Por outro lado, liga-se ao conjunto por sua função, ou pelo produto desta.

Uma simples comparação far-nos-á melhor compreender esse duplo caráter dos órgãos.

Figuremos o ser complexo, animal ou planta, qual uma cidade com a sua fisionomia especial, que a distingue de todas as outras. Os habitantes dessa cidade representam os elementos anátomo-orgânicos: todos esses habitantes vivem, respiram, alimentam-se do mesmo modo e possuem as mesmas faculdades gerais do homem - (autonomia dos órgãos, quanto as condi­ções essenciais à vida).

Entretanto, cada qual tem seu ofício, sua indústria, aptidões ou talentos, mediante os quais compartilha da vida social e dela, depende - (subordinação de cada órgão ao conjunto, par seu funcionamento) .

O pedreiro, o padeiro, o açougueiro, o industrial, o artesão, fornecem produtos tanto mais variados e copiosos, quanto mais alto for o grau de progresso da sociedade em apreço.

E o que se dá com o animal complexo.

O organismo, a exemplo da sociedade, é de tal modo cons­truído que as condições da vida elementar, ou individual, sejam respeitadas. Tais condições são as mesmas para todos, mas, sem embargo, cada membro depende, até um certo limite, por sua função, do lugar que ocupa no organismo, no grupo social. A vida é, pois, comum a todos, e só as funções são distintas.

Essas funções tão variadas, que se harmonizam para con­correr vida total , são necessariamente dirigidas por uma força consciente do fim a realizar. Não é o acaso que preside a essa tão sábia multiplicidade, a essa coordenação, pois os mesmos órgãos, as glândulas por exemplo, não obstante constitutiva­mente semelhantes entre si, fornecem secreções variadas, conforme o lugar que ocupam no organismo.

Ha, portanto, uma hierarquia nesses aparelhos, uma ordem preestabelecida e rigorosamente mantida no curso da vida.

Ora, esse estatuto vital não está impresso na matéria mutável, permutável, incessantemente renovada; antes, reside nessa estrutura fixa, invariável, que denominamos duplo fluídico.

Esse perispírito, cuja realidade a experiência tem demonstrado, é indispensável à estabilidade do ser vivente, no meio de toda essa complexidade das ações vitais, dessa efervescência perpétua e resultante da cadeia_ de decomposições e recomposições químicas ininterruptas na trama, enfim, de nervos, músculos, glândulas a se entrecruzarem, a circularem, a se in­terpenetrarem de líquidos e gases, em desordem aparente, mas da qual sairá, contudo, a mais estupenda regularidade.

As Grande operações de digestão, da respiração, das secreções; as ações tão variadas dos sistemas nervos-motores, sensi­tivos, ganglionares, não serão perturbadas. Cooperando, sem tréguas, para entreter o meio orgânico, elas lhe fornecem os materiais da síntese assimiladora, e todas essas ações tão multiplicadas, tão diversas, e, todavia, tão constantes, se completam, a despeito da renovação ininterrupta de todas as moléculas que formam esses variados órgãos.

As matérias novas, carreadas pelos alimentos, parecem dar tes­temunho de uma inteligência perfeita quanto aos fins colima­dos; mas, quando consideramos que todas essas moléculas são passivas, desprovidas de qualquer espontaneidade, somos necessariamente levados a indagar da força que dirige esses inume­ráveis produtos químicos, utilizando as suas propriedades pe­culiares na manufatura grandiosa da harmonia vital.

Retomando o exemplo anterior, é como se cada indiví­duo - pedreiro, padeiro, etc. - sucumbisse depois de haver feito uma só vez a sua tarefa, e fosse imediatamente substituído por um homem qualquer.

Haveria necessidade de alguém que indicasse ao substituto o que lhe cumpria fazer, o gênero de trabalho a ele destinado. Isso que, no plano social, só poderia conseguir-se mediante prévia educação, a natureza o realiza de improviso.

Todas as moléculas orgânicas, semelhantes entre si, vão realizar tarefas diferentes, segundo a colocação que tiverem no organismo.

É que a função pertence a um conjunto e não às unidades que o compõem. Esse conjunto resulta de uma lei que se liga à sua própria estrutura, mantida esta pela idéia diretriz que con­formou, externa e internamente, o indivíduo, pelo perispírito.

Uma circunstância capital, que jamais devemos esquecer, é que, real e positivamente, todas as partes do corpo se transmudam sem cessar. Não há no ser humano a mais insignifi­cante partícula de tecido que não seja passível de substituição e renascimento perpétuo.

Já dissemos que a mesma matéria jamais aproveita duas vezes à manifestação vital, e que, ao fim de poucos anos, toda a matéria foi integralmente renovada. Nem uma só molécula antiga subsiste, todos os membros dessa república cederam o lugar aos sucessores, e, sem embargo, as funções jamais se interromperam, a vida continuou a engendrar, na mesma ordem imperturbável, os fenômenos de sua evolução, de vez que a sua lei orgânica. reside no corpo incorruptível e imponderável - o perispírito.

Deveras surpreendente é o pauperismo das conclusões a que chegam inteligências robustas, quando afrontam esses fenômenos, cuia explicação se lhes torna impossível, para ficarem adstritos a idéias preconcebidas. Aqui temos um, não dos menores, Maudsley, ao esbarrar de frente com a identidade pessoal, persistente através do turbilhão vital. Vejamos como ele se safa da dificuldade:

Se me viessem assegurar que não há uma só partícula do meu corpo de há trinta anos; que a sua massa mudou radical­mente e que absurdo é, neste caso, falar de identidade, tor­nando-se imprescindível presumir o corpo habitado por uma entidade imaterial, que lhe mantenha a identidade pessoal através das mudanças perpétuas e dos acasos estruturais - eu responderia que as pessoas que me conheceram, dos tempos de moço até hoje, não têm, mais do que eu mesmo, a certeza cons­ciente da minha identidade e, todavia, dela estão convencidos, quanto eu mesmo, ainda que me tivessem pelo maior menti­roso deste mundo, e não acreditassem em uma só palavra do meu testemunho subjetivo. Diria, mais, que essas pessoas estão igualmente convictas da identidade pessoal dos seus cães ou dos seus cavalos, cujo testemunho subjetivo é nulo na espécie, e, finalmente, que, atribuindo-me uma substância imaterial, é forçoso admitir tenha ela sofrido tantas mudanças que me dei­xam inseguro de que algo lhe reste do”. que”. fora a trinta anos, de sorte que, na melhor das intenções, não vejo a necessidade, ou o benefício, a tirar da suposta identidade, ao meu ver supérfluas."



O benefício? - mas, é justamente o de explicar o que sem ela se torna incompreensível.

E comum esta objeção: se todo o organismo é radicalmente destruído para dar lugar a outro, o segundo será semelhante, mas não idêntico ao primeiro. E, neste caso, a persistência mnemônica, por exemplo, é inexplicável. O nosso filósofo responde que, uma vez que os outros o reconhecem, é que ele não mudou. É a famosa história da faca de Janot, a que tiraram sucessivamente a lâmina e o cabo, e ficou sendo a mesma para quantos a contemplavam, posto que radicalmente mudada.

Maudsley diz, simplesmente, na espécie: "todo o mundo reconhece a faca de Janot, logo, é quanto basta para que seja ela mesma".

Confessemos que, para um filósofo, esse raciocínio não é lá grande coisa e que ele poderia ter encontrado algo melhor. Depois, aquela premissa de que, existente a alma, já não po­deria ser a mesma... Mas, em suma, por que não? Não o diz, nenhuma explicação nos fornece a respeito. São simples afir­mativas que em nada afetam o problema e, antes, evidenciam a impotência em que se encontram os materialistas, quando abor­dam as questões inerentes à alma e ao seu papel no corpo humano.

De fato, como não compreender a necessidade de um orga­nismo fluídico, não submetido às mutações materiais, a fim de conservar e aplicar as leis orgânicas, cuja continuidade necessárias está em oposição à mobilidade e à instabilidade características das ações vitais?

Por que prodígio se manteria o tipo individual? Em que parte do corpo se guardariam tradições raciais, hereditárias? Em que recanto misterioso do móvel edifício haveriam de refu­giar-se os caracteres, tão constantes e inalteráveis, que diferen­ciam os seres entre si, tanto do ponto de vista individual como do zoológico?

O perispírito não é concepção filosófica imaginada para dar conta dos fatos; é um órgão indispensável à vida física, reconhecível pela experimentação. Foi no estudo da materialização dos Espíritos que o seu papel se revelou, pondo em destaque as suas propriedades funcionais. Essa descoberta explica fenômenos que a ciência registrava apenas, sem poder justificá-los.

Esse esboço do ser, preexistente a toda organização, essa reparação perpétua dos tecidos, mediante regras fixas, essa ordem que se não altera, apesar dos sucessivos afluxos de ele­mentos novos, essa evolução cuja lei domina, em todo o curso da vida, o conjunto das trocas materiais, de modo a modificá-las profundamente conforme a idade; tudo isso se torna compreensível com a teoria espírita. Sem ela, ao invés, indecifrável obscuridade se estende sobre todos os fenômenos que de tão perto nos tocam. Admita-se a existência do perispírito, e tudo se esclarece e se compreende; a lógica dos fatos torna-se evi­dente é uma explicação racional no lugar do mistério, descoberta que nos leva a dar um passo a mais no conhecimento tão difícil de nós mesmos.

Até aqui, não encaramos senão o lado material da questão, mas, do ponto de vista anímico, a necessidade do papel do perispírito insinua-se com tal autoridade, que não haveria como recusá-lo. É uma convicção de brecha fácil, desde que estude­mos a vida. intelectual do homem.

O papel psicológico do perispírito. - A identidade


A vida psíquica de todo ser pensante apresenta uma con­tinuidade assecuratória de sua identidade. É por não sentirmos lacuna em nossa vida mental, que nos certificamos de ser a mesma, sempre, a individualidade em nós residente. A memória religa, de forma ininterrupta, todos os estados de consciência, da infância à velhice. Sob a forma de lembranças, podemos evocar eventos do passado, dar-lhes vida fictícia, julgar-lhes as fases, dar-nos conta de que, mal grado todas as vicissitu­des, lutas, abalos morais, desfalecimentos ou triunfos da vontade, é sempre o mesmo eu que odiou ou amou, gozou ou sofreu. Numa palavra: - que somos idênticos.

Enfim que parte do ser reside essa identidade?

Evidentemente, no espírito, pois é ele que sente e quer. Na Terra, as faculdades intelectuais estão ligadas, em suas mani­festações, a um certo estado do corpo, e o cérebro é o órgão pelo qual o pensamento se transmite ao exterior. O cérebro, porém, muda perpetuamente, as células dos seus tecidos são incessantemente agitadas, modificadas, destruídas por sensações vindas do interior e do exterior. Mais do que as outras, essas células submetem-se a uma desagregação rápida, e, num período assaz curto, são integralmente substituídas.

Como conceber, então, a conservação da memória, e, com esta, a identidade?



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