Gabriel Delanne



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O doutor Avé-Lallement, que, na sua viagem ao norte do Brasil, em 1859, teve ocasião de observar várias tribos ame­ríndias, compara esses selvagens aos macacos domesticados. "Adquiri - afirma ele - a convicção de existirem também macacos bímanos."

Esta comparação, talvez um tanto exagerada, ressalta, nada obstante, de quase todas as narrativas dos viajantes. O célebre explorador W. Baker diz dos Kytches e dos Latoukas, (africa­nos) que eles mal se diferenciam dos brutos. Verdadeiros ma­cacos - acrescenta. La Gironnière, ao percorrer as montanhas de Luçon (uma das Filipinas), ficou impressionado com o ca­ráter simiesco dos Aetas, cuja voz e gestos dir-se-iam de per­feitos macacos. Darwin, na viagem do "Beagle", chegou a espantar-se quando avistou os Fueguinos.

"Ao contemplar tais seres - escreve -, é difícil acreditar sejam nossos semelhantes e conterrâneos... À noite, cinco ou seis criaturas dessa espécie, nuas e mal protegidas das intempéries de um clima horrível, deitam-se no solo úmido, enco­lhidas sobre si mesmas e confundidas como verdadeiros brutos."

Aí temos como é insignificante a diferença do homem para o macaco. Distingue-se o nosso ramo por qualquer coisa de verdadeiramente especial? A história natural e a filosofia demonstram que, nem do ponto de vista físico, nem do intelectual, não há diferença essencial. Que, entre o mais inteligente dos animais - o macaco, e o mais embrutecido dos homens haja diferenças, ninguém o negaria, ou o macaco seria um homem.

Tais diferenças, contudo, não passam de graduações ascen­dentes de um mesmo princípio, que vai progredindo a propor­ção que anima organismos mais desenvolvidos.

Estabeleçamos claramente, com exemplos, essa grande ver­dade. (24)

Similitude dos organismos humana e animal


Já sabemos que os elementos componentes dos tecidos de os seres vivos são substancialmente idênticos na composição, e, assim, que a carne de um animal, seja qual for, não se gingue da nossa. O esqueleto dos vertebrados não varia sensivelmente. A noção de um tipo uniforme tornou-se hoje banal. Sabemos todos que há sempre vértebras encimadas de um crânio mais ou menos volumoso, dois membros articulados ao tórax, dois outros à bacia: isso, tanto no homem como no macaco, na águia como na rã.

Sob esse aspecto considerada, a semelhança é tal, que, por mais estranhável que pareça, poder-se-ia conceber viver um homem com um coração de cavalo ou de cachorro. A circulação sanguínea far-se-ia em um, como em outro. Poderíamos atri­buir ao homem um pulmão de vitelo, a respirar com a mesma facilidade peculiar ao seu pulmão. O sangue, que nos parece elemento capital da vida, apresenta a mesma identidade no boi, no carneiro, no homem, e os médicos legistas ainda não encontraram método seguro que lhes permita dizer, com certeza, se a nódoa sangüínea de um pano é de origem humana ou animal.

Coração, pulmão, fígado, estômago, sangue, olhos, nervos, músculos, ossatura, é tudo análogo no homem como nos verte­brados. Há menos diferença entre um homem e um cão, do que entre um crocodilo e uma borboleta.

Diariamente as descobertas dos naturalistas estabelecem, sobre bases mais sólidas, esta profunda verdade que Aristóteles - grande mestre de coisas naturais - magistralmente exprimiu: a natureza não dá saltos. Perpétuas transições ocor­rem entre os seres vivos.

Do homem ao macaco, deste ao cão; da ave ao réptil e deste ao peixe; do peixe ao molusco, ao verme, ao mais ínfimo dos colocados nas fronteiras extremas do mundo orgânico com o mundo inanimado, nenhuma passagem é brusca. O que se dá é sempre uma degradação insensível. Todos os seres se tocam, formam uma cadeia de vida, que só nos parece interrompida, pelo desconhecimento das formas extintas ou desaparecidas, Nessa hierarquia dos seres, o homem reivindica o primeiro lugar a que tem, certo, incontestável direito; mas, isso não o coloca fora da série, e quer simplesmente dizer que ele é o mais aper­feiçoado dos animais.

Não só é impossível fazer do homem um ser destacado do reino animal, como devemos conceituá-lo também ligado aos seres inferiores, visto que, entre animais e vegetais, não há delimitação concebível.

Certo, o vulgar bom senso, como diz Charles Bonnet, dis­tinguirá sempre um gato de uma roseira; mas, se quisermos avançar no estudo dos processos vitais que diferenciam o ani­mal da planta, havemos de ver que não existem mais caracteres próprios do animal que faltem à planta. Porque, de um lado, há plantas que, como as algas, se reproduzem por meio de corpúsculos agilíssimos, e, de outro lado, animais que, no decurso de longa existência permanecem imóveis, aparentemente insen­síveis, sem terem mesmo, como a sensitiva, a faculdade de sub­trair-se às hostilidades exteriores. Ao homem é impossível viver de maneira diferente dos outros animais.

O sangue lhe circula do mesmo feitio, o ar é respirado nas mesmas proporções, mercê de idêntico mecanismo. Os alimen­tos são da mesma natureza, transformados nas mesmas vísce­ras, mediante as mesmas operações químicas, pois, como temos visto, as condições indispensáveis à manutenção da vida são idênticas para todos os seres.

O nascimento não é fenômeno particular. Nos primeiros períodos de vida fetal, é impossível distinguir o embrião hu­mano do canino, ou de outro qualquer vertebrado.

A monera que haja de produzir o "rei da criação" é, origi­nariamente, composta de um simples protoplasma, como a de qualquer vegetal.

A morte é também a mesma para toda a série orgânica. Idêntica nas causas, como nos resultados, ou seja, a desorga­nização da matéria viva, em retorno ao grande laboratório da natureza.

Resumindo: reconhecemos, com os sábios, que, por seus caracteres físicos, o homem em nada se distingue do animal, e que vã tem resultado a tentativa para estabelecer uma linha que lhe permita atribuir-se um lugar privilegiado Resta-nos examinar se as faculdades intelectuais e morais são de natureza particular e se bastam para criar um abismo intransponível entre a animalidade e a humanidade.

Estudo sobre as faculdades morais e intelectuais dos animais


Podemos estabelecer, como princípio, a impossibilidade de conhecer os fenômenos psíquicos ocorrentes no íntimo do indi­víduo por forma outra que não observando as manifestações exteriores de sua atividade. Se ele executar atos inteligentes, concluiremos que possui uma inteligência; se tais atos forem da mesma índole dos que observamos nos homens, deduziremos que essa inteligência é similar à da alma humana, de vez que, na criação, somente a alma é dotada de inteligência.

Ora, como os animais possuem, não apenas a inteligência, mas, também, o instinto e a sensibilidade; e considerando o axioma que diz que todo efeito inteligente tem uma causa inte­ligente; assim como a grandeza do efeito é diretamente pro­porcional a potência da causa, temos o direito de concluir que a alma animal é da mesma natureza que a humana, apenas diferenciada no desenvolvimento gradativo.

Freqüentemente, falando-se de inteligência animal, corre-se o risco de não ser compreendido. Algumas pessoas figuram-se que, para demonstrar a existência de faculdades intelectuais ou morais da espécie animal, importa estabelecer que os animais possam, sensivelmente, memória, discernimento, etc., no mes­mo grau que possuímos, o que, aliás é impossível, tão certo como ser o seu organismo inferior ao nosso.

Outros imaginam que admitir tal princípio equivale a re­baixar a dignidade humana.

Nós, entretanto, não vemos o que perder com esse paralelo, só a nós favorável, pois é incontestável que um dado animal não pôde, nem poderá jamais encontrar a lei das proporções definidas, ou escrever O Sonho duma noite de verão.

Trata-se, simplesmente, de assentar que, se o homem é mais desenvolvido que o animal, nem por isso deixa de ser uma verdade que a sua natureza pensante é da mesma ordem, em nada difere essencialmente e sim, apenas, em grau de manifestação.

Eis algumas narrativas de molde a evidenciar algumas faculdades dos animais, tais como: atenção, julgamento, racio­cínio, associação de idéias, memória, imaginação. (25)

Inteligência e reflexão


Certa feita um abegão, através da sua janela, lobriga de madrugada uma raposa a conduzir o ganso apresado. Chegan­do rente ao muro, alto, de 1m20, a raposa tentou de um salto transpô-lo, sem largar a presa. Não o conseguiu, porém, e veio ao chão, para insistir ainda em três tentativas inúteis. Depois, ei-la assentada, a fitar e como que a medir o muro. Tomou, então, o partido de segurar o ganso pela cabeça, e, levantan­do-se de encontro ao muro, com as patas dianteiras, tão alto quanto possível, enfiou o bico do ganso" numa frincha do muro. Saltando após ao cimo deste, debruçou-se jeitosamente até re­tomar a presa e atirá-la para o outro lado, não lhe restando, então, mais que saltar por sua vez, seguindo o seu caminho. (26)

Que os animais refletem antes de tomar decisão, é o que acabamos de verificar com esta nossa raposa. Como este, outros casos análogos poderíamos citar. Mas, neles, a ação é muito mais demorada que em nós. Vejamos: Um urso do Jardim Zoológico de Viena, querendo colher um pedaço de pão que flu­tuava fora da jaula, teve a idéia engenhosa de revolver a água com a pata e formar uma corrente artificial.

Flourens conta que, por serem assaz numerosos os ursos do Jardim das Plantas, resolvera-se eliminar dois deles.

Com tal intuito, lançaram-lhes bolos envenenados com ácido prússico, mas eis que eles, apenas cheiraram o alimento letal, puseram-se em fuga. Ninguém os suporia capazes de regressar e, contudo, atraídos pela guloseima, ei-los agora a em

Empurar os bolos com as patas para a bacia do fosso, onde os Depois, farejavam atentos e, à medida que o tóxico o evaporava, apressava-se a comê-los. Tal sagacidade valeu­-lhes a vida, foram perdoados.

Um elefante esforçava-se, debalde, para captar uma moe­da junto da muralha, quando, de súbito, pôs-se a soprar e, com isso fez deslocar-se e rolar a moeda até o ponto em que ele se encontrava, conseguindo-o admiravelmente. (27)

Erasmus Darwin atesta-nos estes dois fatos:

Certa vespa dispunha-se a transportar a carcaça da mosca, quando notou que as asas ainda presas à mesma carcaça lhe dificultavam o vôo. Que fez, então, nossa vespa? Pousou, cortou as asas da mosca e liderou-se mais facilmente com o despojo.

Um canguru, perseguido pelo cão, prestes lançou-se ao mar, e aí, sempre acossado de perto, avançou na agua até que só a cabeça emergisse. Isso feito, aguardou o inimigo que nadava ao seu encontro, agarrou-o, mergulhou-o, e tê-lo-ia infalivelmente afogado, se o dono não acudisse a socorrê-lo.

Citaremos, ainda, um traço curioso da inteligência de um macaco. (28)

Eu estava assentado com a família junto da lareira - diz Torrebianca -, enquanto os criados assavam na cinza as cas­tanhas.

Um macaco de grande estimação por suas diabruras lá estava a cobiçá-las, impaciente, e, não vendo como pescá-las sem queimar-se, ei-lo que se atira a um gato sonolento, com­prime-o vigorosamente contra o peito e, agarrando-lhe uma das patas, dela se serve, à guisa de bastão, para tirar as casta­nhas do borralho comburente.

Aos miados desesperados do bichano, todos acorrem, en­quanto algoz e vítima debandam, um com o seu furto, outro com a pata, queimada.

O curioso, acrescenta Gratiolet, é que, diante disso, o Br. Torrebianca concluiu que os animais não raciocinam.

"Confesso - diz o espiritualista e religioso Agassiz - que não saberia como diferençar as faculdades mentais de urna criança das de um chimpanzé." (29)

A curiosidade


Esta faculdade é muito desenvolvida, mesmo nas espécies menos inteligentes, quais os peixes, os lagartos, as calhandras. Ela cresce de ponto nos patos selvagens, nos cabritos monteses, nas vacas.

Superabunda, irresistível, nos macacos, indiciando já uma característica da curiosidade humana, ou seja, o desejo de compreender, de penetrar o sentido das coisas. O macaco possui a faculdade de "exame atento".

O macaco, como bem advertiu M. H. Fol, sabe, de fato, “absorver-se completamente no exame de um objeto, passando horas a fio para compreender um mecanismo, e chegando, mes­mo, a esquecer o alimento e tudo que o rodeia”.

Ora, observa Romanes, quando um macaco assim procede, não há que admirar seja o homem um animal científico. Essa faculdade de exame atento tem, evidentemente, como base pri­mária, a curiosidade, mas já de muito lhe sobreleva: - é uma das mais altas expressões da inteligência, a que visa o próprio aperfeiçoamento".

O amor-próprio


Os cães não roubam o alimento de seu dono (Agassiz) e demonstram satisfação quando aplaudidos. Sanson (30) diz estar provado, por fatos inúmeros, que o cavalo de corrida é suscetível de emulação e experimenta o orgulho da vitória. Tal o caso de Forster que, depois de um tirocínio longo e sempre invicto, ao ver-se uma vez na iminência de ser batido por Elèphant, já perto do poste de chegada, precipitou-se num salto desesperado e agarrou com os dentes o rival, no intuito de conjurar uma derrota jamais conhecida. E não foi sem muito que conseguiram seqüestrar-lhe a presa. Outro cavalo, em lições semelhantes, também agarrou o rival peloas charretes

O elefante, o cachorro, o cavalo, mostram-se assaz sensí­veis ao elogio; e, assim como o antropóide, também teme o ridículo, enfadam-se quando se lhes faz zombaria.

M. Romanes relata, a propósito, uma curiosa observação. Divertia-se o seu cão a caçar as moscas que pousavam na vi­draça, e, como muitíssimas se escapassem, ele, Romanes entrou a chacotear, esboçando um sorriso irônico a cada insucesso.

Foi quanto bastou para envergonhar o cão, que fingiu, de repente, ter apanhado uma mosca e esmagá-la de encontro ao solo. O dono, porém, não se deixou iludir, e, verberando-lhe a impostura, viu que ele partia a ocultar-se sob os móveis, du­plamente envergonhado.

A imitação inteligente


Da imitação inteligente não faltam exemplos, e tanto mais dignos de nota, quando atestam uma certa noção das relações de causa e efeito, de uma consciência da causalidade.

O orangotango e o chimpanzé, por exemplo, pronto desco­brem o 'meio de abrir as fechaduras. O macaco de Buffon aprendera, por si mesmo, a utilizar-se de uma chave. A bugia Maluca, do Jardim Zoológico de Dresde, querendo ficar livre para sair à vontade da sua gaiola, imaginou roubar e esconder cuidadosamente a respectiva chave. Cães, cabras, gatos, apren­deram por si mesmos, sem qualquer educação prévia, a tocar uma campainha ou abrir uma porta. Apontam-se vacas, mulas, jumentos, que manejaram ferrolhos para abrir porteiras.

O professor Hermann Foi conta que, na vacaria-modelo de Lancy (perto de Genebra), pouco depois de instalar-se no pátio um bebedouro, foi preciso mudar-lhe a torneira por outra só utilizável à chave, mas chave que o vaqueiro teve de carre­gar sempre consigo, porque o gado logo aprendera a manejá-la. O mesmo aconteceu em Turim, na vacaria ali instalada por Henri Bourrit.

Nos macacos, a imitação inteligente é comumente desenvol­vida ao extremo. Vários se hão visto que tiveram a idéia espontânea de cavalgar cachorros. Boitard cita um macaco roloway, que gostava de cavalgar um cão vagabundo, e Le Vaillant refere caso idêntico, de um bugio.

A abstração


A faculdade de abstrair, isto é, de tomar conhecimento dos objetos e determinar-lhes as qualidades sensíveis, quais sejam; amarelo, verde, mole, duro, rugoso, liso, etc.; a pedra, o animal, a árvore, etc.; a espécie de animal - cão, gato, homem; tal espécie de homem, bem ou mal vestido, etc.; todas essas idéias abstratas os animais as possuem, pois, assim como assinala M. Vulpian (31), é evidentemente sobre estas idéias que se exercem a sua memória, a sua reflexão, o seu raciocínio. Eles podem mesmo elevar-se à compreensão de umas tantas realidades metafísicas, como o tempo, o espaço, etc.

"Os animais têm um tal ou qual sentimento da extensão, diz Gratiolet, visto que caminham e saltam com precisão. Têm­-no do tempo decorrido, porque o sentem; do presente, porque o gozam; e até do futuro, porque há casos de previsões, temo­res, esperanças. Mas, tudo isso não passa de idéias concretas, que jamais se elevam ao grau da verdadeira abstração."

O naturalista Fisher certificou-se, mediante engenhosas experiências (Revue Scientifique, 1884), que os macacos mais inteligentes possuem a noção do número e sabe muito bem avaliar o peso.

Não é novidade que a pega pode contar até cinco, pois quando os caçadores é em número menor ela não voa, até que eles se afastem. Temos assim que, neste particular, a pega se mostra superior a muitos selvagens.

A linguagem


A linguagem articulada é apanágio do homem. Foi graças a esse poderoso instrumento de progresso que ele pôde desenvolver-se, enquanto os outros seres permaneceram quase esta­cionários. Diga-se, contudo, que os animais da mesma espécie podem se Comunicar entre si. O cão doméstico possui uma estrutura , que não a de seus ancestrais selvagens. Darwin nota que nos cães domésticos, temos o ladrido da impaciência, como se dá em caçadas; o da cólera - um rugido; o grunhido ou uivo desesperado do prisioneiro; o da alegria, quando vai a passeio, e finalmente o da súplica, para que se lhe abra a porta

A linguagem expressa por sinais ou gestos é muito desen­volvida nos animais que vivem agregados, como os cães selva­gens, os cavalos em liberdade, os elefantes, formigas, castores, abelhas, etc­

É incontestável que esses animais se compreendem. Vêem­-se, algumas vezes, as andorinhas deliberarem antes de tomar um roteiro. Sendo, porém, simples, primitivas as suas idéias, e não podendo amplificá-las pela linguagem articulada, nem coordená-las para tirar delas todo o partido desejável, é claro que se não aperfeiçoam senão com lenteza inaudita, parecen­do-nos por isso imutáveis. Contudo, uma observação atenta faz-nos ver que os instintos variam conforme as novas condi­ções criadas para os animais.

As faculdades intelectuais também aumentam com exer­cícios reiterados, sobretudo nas espécies em contacto com o homem.

A Idiotia


Se fizermos um confronto da suspensão do desenvolvimento da inteligência humana e o que ocorre com os animais, facialmente veremos que a diferença não é substancial Quando a função do espírito e tolhida pela conformação defeituosa do organismo, a alma só pode manifestar-se no exterior pelas for­mas rudimentares da inteligência. O idiotismo é disso uma prova flagrante(32).Como sabemos os idiotas dividem em três classes: completos, secundários, imbecis.
1 - Os idiotas são reduzidos ao automatismo criaturas inertes, despidas de sensibilidade, falta-lhes até instinto animal. Olhar parado, inexpressivo, não têm paladar nem olfato, não sabem comer por si, preciso se torna levar-lhes o alimento à boca e à garganta, para provocar a deglutição. Alguns há que comem com mais facilidade, mas engolem, sem distinguir, tudo o que apanham - terra, seixos, pano, fezes, etc. Temos, assim, que os idiotas desta categoria estão abaixo dos cães, dos elefantes ou dos macacos. E, contudo, são homens. A alma, assim aprisionada num invólucro inerte, deve suportar largo e cruel martírio, pela impossibilidade de movimentar seus órgãos insubmissos.

2 - Os idiotas de segundo grau têm instintos, mas a faculdade de comparar, julgar, raciocinar, é neles mais ou menos nula. Estão mais próximos dos animais, mas ainda se lhes não equiparam.

3 - Temos, enfim, os imbecis: são os que possuem ins­tintos e determinações raciocinadas. Capazes de abstrações fí­sicas muito simples, não podem, contudo, elevar-se a noções quaisquer de ordem geral, ou superior, ficando mais ou menos nivelados aos animais. O mesmo sucede com os cretinos. Esses estados precários da inteligência, podem aproxima­-los aos da nossa infância, dado que, até o terceiro ano, a crian­ça revela-se inferior aos grandes símios. Vale dizer que, do ponto de vista intelectual, a puerícia, a idiotia e o cretinismo facul­tam-nos o exemplo tangível e flagrante da evolução humana.

A evolução


Se tivermos bem de vista os fatos citados, a respeito dos selvagens, compreenderemos melhor ainda a marcha ascen­dente do princípio pensante, a partir das mais rudimentares formas da animalidade, até atingir o máximo do seu desenvolvimento no homem.

Os povos primitivos aí estão, como vestígios que demonstra as fases do processo transformista. Não esqueçamos que estes seres, que se nos figuram tão degradados, são, ainda assim, su­periores ao nosso ancestral da época quaternária, e poderemos, então, compreender que não há diferença essencial entre a alma animal e a nossa. Os diversos graus observados nas manifesta­ inteligentes, à medida que remontamos à série dos seres animados, são correlativos ao desenvolvimento orgânico das for­mas. Tanto mais o corpo se torna flexível, maneável, quanto mais as partes se lhe diferenciam e mais facilidades encontra a inteligência em exercitar-se, de sorte que, assim, sobe, da movera ao homem, sem hiatos nem solução de continuidade assinalável.

Havendo focalizado o desenvolvimento intelecto-animal, ve­remos agora que, no concernente aos sentimentos, eles nos oferecem surpreendente analogia.

Amor conjugal - Amor materno


Buffon adverte-nos que as aves representam tudo quanto se passa num lar honesto. Observam a castidade conjugal, cuidam dos filhos o macho é o marido, o pai da família, e o casal, por débil que seja, mostra-se valoroso até ao sacrifício de morte, em se tratando de defender a prole.

Não há quem ignore o zelo da galinha na defesa dos pin­tainhos. Os animais ferozes: - tigre, lobo, gato selvagem, todos têm por suas crias o mais terno afeto (33). Darwin, Brahm, Leuret, citam exemplos curiosos desse sentimento tão vivo. Aqui estão dois exemplos capazes de varrer qualquer dúvida a respeito:

Leuret conta que um macaco, cuja fêmea lhe morrera, cuidava solicito do filhote, pobre rebento esquálido, enfermi­ço. À noite, tomava-o ao colo para adormecê-lo, e, durante o dia, não o perdia de vista um instante. De resto, entre os macacos, os órfãos são sempre recolhidos e adotados com carinho, tanto pelos machos como pelas fêmeas.

Uma bugia (cinocéfalo), notável por sua bondade, recolhia macaquinhos doutras espécies e chegava a furtar cachorros e gatos pequenos, que lhe faziam companhia. Certa feita, um gatinho adotado arranhou-a, e ela, admirada, deu prova inteligência examinando-lhe as patas, e, logo, com os dentes, aparou as garras.

Amor do próximo


O Sr. Ball relatou na Revue Scientifique o seguinte fato, por ele testemunhado:

O cão de fila aventurava-se adentro do lago congelado, quando, súbito, se quebrou o gelo e ele resvalou na água, tentando em vão libertar-se. Perto, flutuava um ramo e o fila se lhe agarrou, na esperança de poder alçar-se. Uma terra-nova que, distante, assistira ao acidente, decidiu-se, rápido, a prestar socorro. Meteu-se pelo gelo, caminhando com grande precaução, e não se aproximou da fenda mais que o suficiente para agarrar com os dentes a extremidade do ramo e puxar a si o compa­nheiro, destarte lhe salvando a vida.
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