Gabriela de oliveira ribeiro mariana rotili mateus cavalcanti melo



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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO – CCE/FAED

CURSO DE HISTÓRIA

DISCIPLINA DE HISTÓRIA E ORALIDADE

PROFESSOR LUIS FELIPE FALCÃO

ACADÊMICOS: ALFREDO MAGRON NETO

GABRIELA DE OLIVEIRA RIBEIRO

MARIANA ROTILI

MATEUS CAVALCANTI MELO

“A qualidade de uma universidade pode ser medida pela quantidade de bares ao seu redor.”

(Provérbio Faediano)
Diferente da UFSC, que localiza-se entre diversos bares, a UDESC não conta com tantas opções para os boêmios de plantão. Como os bares são locais de sociabilidades e discussões sobre questões acadêmicas e coisas do cotidiano, o bar torna-se uma válvula de escape dos altos muros de conhecimento da Universidade.

Sexta-feira, sete horas da noite. As aulas estão terminando, mas a vontade de estar junto permanece. Após algumas sugestões sobre o que fazer à noite, a grande favorita é quase sempre a mesma: tomar umas cervejas no Bar do “Capenga”. Os alunos saem em caravana, alistando mais alguns companheiros, mesmo alguns que deveriam estar em aula. Atravessamos o bambuzal da FAED, alguns precisam passar na reitoria para tirar dinheiro, pois a noite pode ser longa e dispendiosa. O trajeto até o bar é feito sempre a pé, pois não tem como ir de carro. Escondido atrás os blocos de prédios do Itacorubi e o Supermercado do Rosa, o bar do “Capenga” para aos novatos é bem difícil de encontrar. O acesso se dá através de um beco que vai dar no riacho, que muitos identificam como esgoto, devido ao mau cheiro. Atravessamos a ponte para chegar, e de longe já enxergamos um pessoal que se adiantou e chegou mais cedo. Já deviam estar lá desde o inicio da tarde. Alguns nos avistam e já chamam o nosso nome, intimando para um “sinuquinha” e/ou “cervejinha”.

O lugar é, como poderei dizer, já sei, capenga, mas foi melhorando com o tempo. As cadeiras são de plásticos, mas tem algumas de madeira que não inspiram confiança para ninguém. Para quem chega mais tarde, só resta mesmo sentar na escada ou na mureta de concreto. Tem duas mesas de sinucas, tortas, que disputam espaço com as paredes. O bar não tem decoração, a não ser os pôsteres do Avai e Santos, os troféus de futebol, um radio bem antigo e uma televisão de plasma que foi obtida numa rifa. O banheiro é bem apertado, e nos dias de muito fluxo, fica meio insalubre. A trilha sonora, favorita do seu Joao, é um bom sertanejo. Quando o pessoal toma o controle da TV, toca algum rock underground, blues, samba, bossa nova, enfim, estilos variados, mais próximos ao “cult” do público universitário. Os copos sujos são lavados apenas com água e logo em seguida oferecidos para os clientes. Não há tempo para rodeios, já que o objetivo final é sempre o mesmo: beber. Como confidencia à freqüentadora Andreia Seganfredo, estudante de História da FAED, “eu só venho aqui para encher a cara mesmo”. No entanto, o bar não pode ser visto como espaço associado apenas a beberagem. Afinal, trata-se de um espaço complexo de comunicação e sociabilidades, pois os freqüentadores são bem sortidos.

A vizinhança do bar já criou o hábito de passar no seu João para tomar um “martelinho” antes, depois ou durante a jornada de trabalho. Na sua maioria homens (na verdade nunca observamos nenhuma mulher que não fosse do pessoal da faculdade), eles se encontram para jogar sinuca e conversas sobre o futebol, principalmente, mas também para dividir com os amigos de bar suas concepcoes sobre família, sobre o seu bairro, seu trabalho. As conversas são sempre rodeadas de muitos gritos e risadas. “É a turma do bairro ai né, vem aqui pra jogar, tomar cerveja, ai a turma da UDESC começou a vir aqui. A turma da UDESC começou a vir faz uns 4 anos. “ Essa fala nos surpreendeu bastante pois acabou, de certa forma, comprovando uma teoria que tínhamos antes de fazer a entrevista. Segundo o próprio Seu João “a turma da UDESC começou a vir faz uns 4 anos”, exatamente o mesmo tempo de existência do atual prédio da FAED no campus I, Itacorubi. Dessa forma podemos concluir que a grande leva dos boêmios universitários que freqüentam o bar do Capenga são oriundos da FAED pois é justamente nesse meio tempo que o proprietário do bar identifica “a turma da UDESC”. Evidente que o CEART e a ESAG já estavam no campus I há muito tempo, no entanto seus alunos não deveriam freqüentar o recinto com tamanha freqüência. Os alunos da ESAG são raramente vistos pelas redondezas e os do CEART devem ter se encorajado a freqüentar mais o local juntamente com a mudança do prédio da FAED, visto que os dois centros costumam ter relações bem amistosas. Grande parte da popularidade do bar do Capenga deve-se a esses dois centros (CEART e FAED), e principalmente a dois eventos promovidos por estes: de um lado o “samba do CEART” e do outro a “Maratoma” do curso de História. O primeiro desses eventos se consistia de uma iniciativa do pessoal do curso de música licenciatura da UDESC que se reuniam toda quarta-feira a noite para promover uma bela roda de samba. As quartas-feiras costumavam ser bem cheias em decorrência disso. Infelizmente, de uns tempos para cá esse evento não está mais acontecendo, por motivos a nós desconhecidos. O segundo evento é a “Maratoma”, promovido pelo curso de História. A “Maratoma” simboliza o final da semana (as) de trote dos calouros do curso de História, trata-se de uma corrida rústica onde os participantes devem fazer paradas em alguns bares e beberem cervejas antes de poder prosseguir o caminho. Tradição desde 2007-2, todas as “Maratomas” passaram pelo bar do Capenga (que costuma ser a primeira parada). Além disso, os cursos de Geografia da FAED, Artes Cênicas e Artes Plásticas do CEART também costumam celebrar seus trotes na presença do ilustre Seu João.

E é justamente isso que realmente torna o bar especial, além das pessoas que freqüentam e dos preços compatíveis com o valor da bolsa da UDESC, é a figura lendária que nos observa por detrás do balcão, o Seu João. Proprietário do bar à aproximadamente quinze anos, ele se aproxima da figura do típico “manezinho”. Durante nossa primeira conversa com ele sobre esta pesquisa e a possibilidade de fazermos uma entrevista, ele mostrou-se receoso. Foi difícil aproximarmo-nos de sua subjetividade: “Eu não tenho nada de interessante para falar, eu só tenho o bar aqui, fico aqui o dia todo”. Procuramos então explicar para ele o objeto do nosso trabalho, e que com certeza ele teria muitas coisas importantes para contribuir. Marcamos então a entrevista para um dia à tarde, quando ele poderia dar mais atenção a nós.

O seu Joao nasceu no ano de ???, aqui mesmo em Florianopolis. Aos dezenove anos vai para Santos tentar a vida, mas alguns anos depois volta para a ilha para trabalhar na padaria do irmão. “Trabalhei 5 anos com ele depois compramos uma lancha e ficamos pescando no Pântano do Sul. Dae lá na Ilha do Campeche, lá, lá pra fora, ele morreu.A viúva vendeu a padaria, dae pedi as contas e fui trabalhar no Pão de Açúcar”. Suas histórias giram em torno dos seus diversos trabalhos e sobre a relação com a sua família e filhos. Pelo menos foi dessa forma que ele nos narrou.

Depois de sair do seu ultimo emprego, resolve não trabalhar mais para os “outros”, e começa a fazer sonho recheado e pastel. “Ai vendendo essas coisas arrumei um dinheiro e montei o bar.” A fundação do bar acontece durante a década de oitenta, período em que podemos observar algumas mudanças significativas no bairro onde encontra-se o bar, o bairro do Itacorubi. “Não tinha nada ali no bairro até a entrada da CELESC.” O bairro do Itacorubi era constituído de propriedades particulares, muitas vezes pequenos sítios, rodeados de diversas sociabilidades, entre casas, sítios, vendas, padarias. A paisagem mudou muito de lá para cá, já que o bairro agora tem um caráter bastante comercial, empresarial.

O ano de 1995 foi marcado por um episodio bastante triste que marcaria a história do bairro e do bar: “ai veio a enchente e cagou tudo! Levou três geladeiras, as bebidas, ai fiquei sem nada”.O primeiro bar do Seu João se localizava no terreno à direita do atual bar, onde hoje é uma casa residencial. Com esforço feito em conjunto com a família, o estabelecimento foi reconstruído logo ao lado do anterior sobrevivendo até hoje às intempéries do clima ilhéu. Nota-se que o segundo bar, o atual, é uma construção um pouco mais elevada em relação ao nível do solo tanto é que existe um lance de dois degraus para se adentrar no bar (na falta de bancos esses degraus costumam servir como “cadeiras”). Não chegamos a perguntar isso a ele mas é possível supor que o novo bar tenha sido construído dessa forma por temor a uma nova enchente.

Perguntamos a ele qual era o nome bar, afinal não tem placa nem nada na frente. Seu João também não sabe, “O bar não tem nome não, mas dae o pessoal da universidade chama de bar do Capenga. Inventaram ai , mas antes aqui tinha um pé de bergamoteira. Dae era o bar da bergamoteira.” A bergamoteira que Seu João fala é uma imagem forte na lembrança dos freqüentadores mais antigos do bar. Por mais que a maior parte das pessoas não lembre especificamente que era uma “bergamoteira”, todos lembram que lá havia uma árvore e embaixo dessa uma mesinha e banquinhos de cimento, que hoje não estão mais lá. Ambos foram retirados em prol das reformas do bar que foram acontecendo ao longo dos anos.

Em cima do local onde foi construído o bar Seu João mora com a sua esposa, já que os filhos já estão todos casados. O namoro com a esposa começou quando ela tinha apenas treze anos, e já era viúva. Ele já era mais velho, tinha vinte anos. “Ah quando eu vi de Santos ela morava lá em cima lá, lá em Santo Amaro mas, o pai dela tinha um terreno aqui, ai o marido dela morreu, quando eu vim de Santos ela tinha 13 anos. Ai se encontremo num baile pequeno ai, baile lá da Trindade, no baile da Laranja e tudo, e ai rolou”. Aqui podemos notar certa incoerência na fala de Seu João, que afirma ter ido embora de Florianópolis para ir a Santos com 19 anos no começo da entrevista e nesse momento afirma ter se casado, aqui em Florianópolis com 20 anos. Teria passado tão pouco tempo em Santos, ou se confundiu com as datas? Por esse mesmo motivo fica muito difícil de calcularmos com exatidão a idade de Seu João. Do casamento bem sucedido nasceram 13 filhos, porém, apenas sete vivem até hoje. Seu João, ao contar o fato com certa naturalidade, de certa forma nos deixou um pouco impressionados, afinal na época atual não estamos acostumados a lidar com altos níveis de mortalidade infantil. Na época do seu João ,no entanto, devido as condições muitas vezes precárias de saneamento básico da cidade, bem como à falta de recursos existentes na época, principalmente para as pessoas de vida mais simples, faziam os índices de mortalidade de bebes serem bastante altos. “Não veio mais uns 4 porque comecei a tomar umas bagas”. Os filhos e filhas de Seu João moram em diversas partes de Florianópolis, inclusive uma das filhas mora ali mesmo com ele, em cima do bar.

A vida do Seu João, como ele mesmo afirma, se resume ao bar. Contudo, como todo ser humano, ele sempre dá suas escapadas. “Quarta-feira tem baile na Lagoa. Mas a mulher não vai no baile, ela não dá pra dançar. Casei com ela, ela tinha 13 anos, era novinha. Naquela época não tinha bailinho, não tinha nada, é né, não tinha nada disso, hoje ela tá com 64 anos, é velha, não sabe dançar, então eu fecho o bar aqui e vou sozinho né”. E ainda complementa, deixando escapar um pequeno sorriso: “É que lá sempre tem umas “costelas” que eu quero passar a mão!”

Além do baile, seu João adora futebol. “Assisti ao jogo do Pelé lá na Vila, jogo do Santos. O Pelé lá, o Teco, o Zico, a turma toda do Santos, todo domingo eu ia dar um giro lá. Domingo, quarta-feira. Já fui no estádio do Grêmio, já fui no Maracanã 3 vezes, hoje em dia sou torcedor do Avaí, é sou manezinho. Eu torço pro Avaí e seco o Figueirense”. Quando começamos esse papo sobre futebol – que obviamente durou certo tempo – Seu João acabou lembrando que naquela mesma semana iria acontecer um jogo Avaí X Santos, pelo campeonato Sul – Americano “Essa quarta tem Avaí e Santos. Gabi: o senhor vai torcer pra quem? Vou torcer pro Avaí né nêga.” Com essa fala podemos perceber que por mais que Seu João tenha morado em Santos, na grande fase do time, na fase brilhante de Pelé, mesmo assim seu time do coração ainda é o Avaí, pois é o time de sua cidade natal, time de “manezinho”.



Quando perguntamos sobre a questão da relação dos vizinhos com o bar, se esses se incomodavam e coisas do tipo, Seu João nós falou: “Até às 22:00 horas até vai barulho. É que 22:00, 23:00 horas aqui com barulho e folia dae eles podem chamar a polícia e fechar o bar.” Entretanto é fácil evidenciar que Seu João não leva muito ao pé da letra aquilo que nós falou pois as aulas do período noturno dos cursos da FAED só acabam 22:30, mesmo assim, se você for ao Seu João depois desse horário é muito possível que irá encontrar o bar ainda aberto. O bar costuma manter seu funcionamento até 00:30 ou 1:00, embora isso seja muito relativo, em verdade o bar só fecha quando Seu João decidi fechá-lo. Isso levanta algumas dúvidas acerca da relação com os vizinhos ser tão amistosa ou não.

Com isso concluímos as partes de nossa entrevista com Seu João que achamos dignas de análise. Conseguimos realizar uma entrevista com um ícone dessa universidade por mais que provavelmente ele nunca deva ter entrado na UDESC. Vale também ressaltar que ouvir a entrevista não foi uma tarefa nada fácil, Seu João é famoso por falar de um jeito “peculiar” do qual os mais novatos não costumam entender além do mais ele não iria conceder uma entrevista a qualquer um, foi necessário certa “intimidade” prévia dos membros de meu grupo para com o dono do estabelecimento. Realizamos, enfim, um trabalho acadêmico com o homem por trás do balcão mais badalado da faculdade, – e digo isso porque as pessoas pensam em fazer trabalhos sobre o bar o tempo todo – dono do melhor e mais aconchegante espaço de sociabilidade das redondezas da UDESC, dono de uma fala muito diferente e das cervejas mais acessíveis (e geladas), dono, enfim, de um bar. Ou melhor, dono “do” bar, mas não usemos o termo “Capenga” aqui, pois muitas vezes esse é usado de forma pejorativa, melhor seria dono do bar do “Seu João”, patrimônio histórico da UDESC desde 2007-2.
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