Gil vicente origens do Teatro



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GIL VICENTE

Origens do Teatro

A história da arte dramática, é tão velha como a dos homens na terra.

Supõe- se que já na Pré- história eles faziam teatro sob a forma de danças guerreiras ou mágicas com as quais tentavam atrair a boa vontade dos deuses e favorecer a vitória.

Na Grécia, e, mais tarde, em Roma, o teatro atingiu uma grande perfeição e nobreza.

Grandes trágicos, como Ésquilo, Eurípedes e Sófocles ( na Grécia ) e autores cómicos como Aristófanes ( na Grécia ), Plauto e Terêncio ( em Roma ) deixaram obras imortais que ainda hoje proporcionam prazer e emoção.


A Importância do Teatro Medieval em Gil Vicente

Se considerarmos teatro como de aplicação do género dramático, poderemos considerar três períodos distintos na história do teatro português:



- o teatro pré- vicentino;

- o teatro vicentino;

- o teatro pós- vicentino.

Sendo Gil Vicente o primeiro autor a produzir textos de acordo com o género dramático e, portanto, logo na sua origem, destinados a serem representados, só com Gil Vicente é iniciado o teatro propriamente dito.

O teatro pré- vicentino, impropriamente chamado "teatro", não passava de uma "récita" feita sobretudo pela altura das festas principais do calendário religioso, o Natal e a Páscoa. As pessoas limitavam- se a extrair passagens textuais da Bíblia e "recitar" de cor aqueles acontecimentos. Actores e espectadores situavam- se todos, ao mesmo nível, dado não existir palco para tais recitações.

Recuando no tempo, é possível observar, de acordo com a intenção que presidia a tais representações, a existência de agrupamentos que podemos classificar do seguinte modo:


- as Moralidades - peças mais curtas cujas personagens eram abstracções personificadas de vícios ou virtudes.


- os Milagres - apresentavam dramatizações da vida dos santos ou situações em que eles intervinham miraculosamente.
- as Farsas - peças satíricas e muito populares. Aproximavam- se da nossa "comédia".
- as Sotties - espécie de farsas em que intervinham "parvos" a fim de permitir a crítica mais livre e mordaz.

- os Momos - são pantominas alegóricas bastante espectaculares devido ao desfile vistoso de personagens de novelas cavaleirescas ou de símbolos régios. É de notar a ausência de diálogo.


É com Gil Vicente que entramos definitivamente no teatro português. Ele é, de facto, o primeiro autor a utilizar o género dramático. E, à maneira do que já acontecia na Europa, sobretudo na Alemanha e Inglaterra, introduz nas suas representações o palco, a fim de colocar o actor acima do horizonte visual do espectador, e o cenário para recriar o espaço cénico adaptável ao conteúdo de cada peça. Por estas razões bem podemos dizer que Gil Vicente é, de facto, o pai do teatro português.



A Linguagem de Gil Vicente

Não obstante o uso do verso, Gil Vicente reproduz maravilhosamente a linguagem coloquial. O verso não serve nele para marcar a linguagem literária, a não ser em certas tiradas intencionalmente líricas. Serve, sim para fixar melhor a língua corrente para a ritmar, chamando a atenção do leitor para paralelismos ou contrastes, enfim para tirar efeitos implícitos na fala quotidiana.

Não se pode, aliás, falar de uma linguagem coloquial em Gil Vicente, antes de várias de acordo com o estilo das peças, e com a condição social das personagens. Na época de Gil Vicente há uma grande diversidade de falares, segundo não só a diversidade das regiões, mas também a das condições sociais. Gil Vicente reflectiu esta diversidade, empregando formas diferentes da mesma palavra conforme a origem social das personagens. São os rústicos que empregam exclusivamente certas formas, como por exemplo ergueja ( em lugar de igreja, que é a forma utilizada pelas personagens urbanas ), e são eles, em geral, que se exprimem em linguagem mais arcaica, da mesma forma que entoam os cantares e executam as danças que caíam em desuso nas cidades.

A sua linguagem, que representa na história da língua o ponto de transição da forma arcaica para a forma moderna revela já a influência do renovamento que se operou na era fecunda e luminosa dos Descobrimentos e conquistas.

É uma língua intencionalmente enriquecida de variantes: as mesmas palavras aparecem na sua forma arcaica e na sua forma moderna ( para a época ), nas formas populares e na sua de corte, na pronúncia portuguesa e na hispanizante.

Pode- se então afirmar que a língua vicentina foi inspirada no pulsar real da vida, confirmando a capacidade de Gil Vicente para observar a realidade a todos os níveis, incluindo o nível linguístico. A este propósito, Feliciano Ramos escreveu: "Gil Vicente" gostou de se abeirar da realidade e as suas personagens, como na vida, têm uma linguagem acomodada ao seu grau de cultura, à educação, à idade e à categoria social".

Tal como já foi dito anteriormente, a língua em Gil Vicente, a par das características ainda arcaizantes, é já reveladora de elementos da inovação - reflectindo assim uma época de transição em todos os campos. Vejamos então na obra deste dramaturgo, algumas das características da língua portuguesa de então:

Marcas do Período Arcaico:

1. Emprego de vocábulos medievais : al; aguçoso; ende; cas; samicas; quiçado; nega ; senhos...
2. Sintaxe arcaizante no uso da dupla negação:

ex:"nem de pão não nos fartamos."

3. Uso da preposição "de" com valor partitivo.
ex:" Não lhe bastará comer / Da vaca da mostarda".

4. Emprego de formas duplas da mesma palavra.


ex: "rezão" e "razão";

"assi" e "assim":

"veo" e "veio".

5. Utilização da terminação -"airo"


ex: "contrairo;" " breviairo;" " rosairo"

6. A inclusão de cantigas tradicionais.


Marcas do Período Clássico :


1. Uso de marcas e expressões familiares.
ex: "Digo que benza- vos Deus / perra excomungada, torta."

2. Recurso a linguagem erudita adequada à solenidade do assunto ( ex. "Auto da Alma" ).


3. Emprego da terminação nasal -"ão" em vez de -"om" ou de -"am".
4. Preferência pelo uso de Demonstrativos: este; esse; aquele; em vez de "aquesto", "aquesso"; aquelo.
ex: "Vi! Que ribeiros são estes?"

5. A generalização do género feminino nos nomes terminados em "-agem."


ex:" Que sua é a barcagem".
6. A adaptação às personagens e às situações
7. O realismo da observação e da crítica.
8. As referências clássicas (História, cultura e mitologia clássicas).
AUTO - termo que no séc XVI (nomeadamente na edição do teatro vicentino) se aplicava a peças de teatro ao gosto tradicional. Os assuntos podiam ser religiosos ou profanos, sérios ou cómicos.

Os autos ao mesmo tempo que divertiam moralizavam pela sátira de costumes e inculcavam de modo vivo e acessível as verdades da Fé.


AUTO DA ÍNDIA


O "Auto da Índia" é uma peça de enredo. A intriga desenrola-se ao longo de vários anos, com abreviações cronológicas que lhe imprimem um andamento ágil e vivo.(...) A heroína é uma mulher de Lisboa cujo marido parte para a Índia. Durante a sua ausência, que dura alguns anos, a mulher assim deixada sózinha leva vida divertida, com a cumplicidade da criada, e mantém ao mesmo tempo duas ligações. Enquanto um dos amantes está dentro de casa, o outro espera à porta, impaciente. Entretanto, o marido volta da Índia, tão pobre como partira, e narra as suas campanhas, que não tiveram nada de heróico nem nobilitante.

"Fomos ao rio de Meca,

pelejámos e roubámos".

A mulher, por seu lado, mentindo com tranquila imprudência, afirma que esteve roída de saudades durante a ausência do seu querido esposo. E, para terminar, marido e mulher, felizes e despreocupados, retomam pacificamente a vida em comum como se nada se tivesse passado.

O "Auto da Índia" afigura- se um contraponto das ideias feitas da moral corrente e da ideologia oficial. Em tudo feitas da moral corrente e da ideologia social o "reverso do mito dos Descobrimentos". Os heróis do Oriente são reduzidos às dimensões da humanidade mediana e as suas mulheres fazem deles maridos atraiçoados enquanto estão ausentes. O tema da infidelidade feminina, que aparece em outras farsas, é tratado com divertido cinismo.
Gil Vicente - "O Autor e a Obra," Paul Teyssier, Biblioteca Breve
Importância Histórico- Social da Obra de Gil Vicente

Se observarmos atentamente o vasto campo da Sátira vicentina, verificamos que através dela se reconstitui uma visão satírico- dramática da sociedade portuguesa do séc XVI, uma sociedade onde Gil Vicente descobriu todas as mazelas que deformavam oClero, a Nobreza e o Povo.

O ambiente social da primeira metade do séc. XVI apresentou- se ao dramaturgo enredado numa série de factores que lhe proporcionaram a matéria das suas obras. Nelas surge um Clero corrupto e mundano que não cumpria os preceitos religiosos nem vivia preocupado com o lado espiritual da vida como é perceptível na personagem alegórica "Roma" do "Auto da Feira", no ermitão que se torna amante de Inês na "Farsa de Inês Pereira", no clérigo que na mesma farsa persegue Lianor Vaz ,pois quer saber se ela é fêmea ou macho ou ainda no Frade do "Auto da Barca do Inferno " que surge no cais ao lado da sua amante pensando que o hábito lhe valerá. Também o Povo é visado e a ambição quer material, quer social, as infidelidades matrimoniais, as Alcoviteiras, a conquista de liberdade, os conflitos de gerações são aspectos que Gil Vicente não deixou escapar.

No "Auto da Índia é a ambição desmedida do Marido que parte para a Índia à procura de riqueza e que provoca o adultério de Constança então completamente livre para levar uma vida de prazeres.

Nas "Farsa de Inês Pereira" e "Quem tem Farelos" evidencia- se o tipo de moça casadoira e leviana (Inês e Isabel) que procuram no casamento a ascensão social e a libertação da tutela materna, deixando Isabel transparecer o conflito de gerações presente no desentendimento entre ela e a mãe. No "Auto da Feira" surgem as infidelidades matrimoniais entre os dois lavradores que vão à feira e as respectivas mulheres.

Igualmente a Nobreza e o plano de inferioridade em que se encontravam então muitos nobres em relação a grande parte dos burgueses ficou marcada na obra vicentina pela mordaz crítica feita aos escudeiros pobres e míseros, mas que não querendo dar provas da sua fraqueza se mostravam vaidosos e fanfarrões, procurando ostentar uma riqueza que já não possuíam. São os casos de Aires Rosado, proibido até de namorar uma plebeia, Braz da Mata, pobre, autoritário e tirano e o Lemos do "Auto da Índia", igualmente fanfarrão, pobre e oportunista.

Globalmente, podemos dizer que a obra vicentina retrata a sociedade essencialmente materialista, cujo lado moral se apresentava corrupto, decadente e espiritualmente degradado.
"A rir se castigam os costumes."
Esta era a estratégia utilizada por Gil Vicente para criticar a sociedade da época. Quais os métodos utilizados?

Para concretizar o seu objectivo, Gil Vicente serviu- se de vários processos de entre os quais se salienta o elemento Cómico agrupado em vários processos com que fez rir a Corte do seu tempo Evidenciou ao longo das suas peças o Cómico de Carácter resultante do temperamento ou personalidade da personagem- tipo (Pêro Marques, Castelhano...), o Cómico de Situação, o qual resulta da própria situação em que os tipos se inserem ou das circunstâncias criadas por eles (o contraste do comportamento do Castelhano dentro e fora de casa) e o Cómico de Linguagem, que se consegue através da ironia (a escolha dos nomes quer de Constança, quer de Tristão da Cunha), através da apresentação de provérbios, jogos de palavras, uso de calão, etc. O conjunto destes aspectos gerava o ridículo e provocava, sem dúvida, o riso.

Além de todos estes aspectos já mencionados convém ainda salientar que o teatro de Gil Vicente é um teatro de tipos, isto é, personagens que representam um grupo ou uma classe e, por tal , não têm uma individualidade marcada nem qualquer densidade psicológica.

De entre os vários tipos da obra vicentina salienta- se a personagem Ama do "Auto da Índia". Através do seu comportamento de mulher adúltera insatisfeita com o Marido e levando uma vida de prazer com dois amantes, bem como a forma como dissimula na perfeição a sua raiva quando o Marido regressa. Critica- se o adultério frequente na época, o rompimento dos laços familiares e a degradação moral da família e da sociedade. Por sua vez está bem patente nesta crítica, a denúncia do lado negativo da expansão marítima ou seja, a perda de valores morais importantes para a dignificação da sociedade.




GIL VICENTE - Intemporalidade da Obra
A obra de Gil Vicente é, sem dúvida, intemporal. Ela retrata uma época característica que apresentou determinados aspectos e condicionalismos, mas continua actual pois as mazelas que deformaram esse passado estão ainda presentes nos nossos dias, bem merecedoras da atenção de todos. Como tal, os aspectos sociais criticados mantêm- se ainda presentes, pois a ambição e o materialismo são hoje o suporte da nossa sociedade bem pouco espiritual e moralmente decadente. Também o conflito de gerações é hoje uma realidade, a conquista de aparências, a mentira, a desonestidade, o cinismo e a hipocrisia reinam nos nossos dias, tal como em séculos anteriores, pelo que toda a crítica vicentina está perfeitamente actualizada e adequada aos nossos tempos.

O "Auto da Índia" é uma farsa vicentina onde o dramaturgo retrata a sociedade da época pós- expansão, uma sociedade onde se generalizou a prática do adúltério que conduziu à degradação dos costumes e à decadência social.

Para conseguir alcançar os seus objectivos, Gil Vicente serviu- se de personagens como o Marido, através do qual denuncia a ambição sem limites que o espírito mercantilista trouxe, bem como a forma desonesta como se alcançava a riqueza fácil e rápida ("Pelejámos e roubámos"). Ao mesmo tempo, a personagem Constança materializa a prática do adultério e o rompimento dos laços familiares, uma vez que durante a ausência do Marido mantém uma ligação ilícita com dois homens : O Castelhano e o Lemos, um antigo namorado seu. Constança simboliza não só a infidelidade e a traição adúltera frequente na época, como também o carácter hipócrita e interesseiro, pois no regresso do marido mente- lhe ao dizer- se fiel , fingindo ciúmes do mesmo.

Em suma, pode dizer-se que esta farsa mostra que a expansão marítima, para além de ter trazido ao Reino a riqueza material ,trouxe- lhe o pior dos males, ou seja, a pobreza moral, a corrupção, a ambição e a decadência.


O Professor:


Carlos Vargens


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