Gilda maria cunha pereira



Baixar 161.98 Kb.
Página2/3
Encontro22.07.2016
Tamanho161.98 Kb.
1   2   3

1.1 Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha

Em Valente, a Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha foi criada no início de 1996, quando agricultores associados da Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira (APAEB), insatisfeitos com o modelo escolar que formava seus filhos, preocupados com a possibilidade do êxodo rural e sofrendo com a dificuldade no deslocamento dos estudantes residentes no campo para as escolas da sede do municípios, organizaram-se para buscar uma alternativa que permitisse aos jovens uma educação de qualidade sem se deslocar da comunidade. Em 1992, membros da APAEB visitaram as experiências de EFA de Riacho de Santana, Brejões e Inhambupe. Considerando a experiência pertinente com os desejos dos agricultores, membros da APAEB, em reuniões com os pequenos agricultores e entidades organizadas da região, começaram a considerar a possibilidade da implantação desse modelo de escola em Valente para atender jovens campesinos do município e região.

Foram dois anos de trabalho intenso, quando funcionários da APAEB dedicaram-se a construção do projeto EFA, para, finalmente, em 25 de fevereiro de 1996, inaugurar a Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha, que recebe esse nome em homenagem a senhora Avani, líder comunitária, que em sua trajetória no movimento social sonhou com um modelo de escola que incentivasse os estudantes a valorizar o campo. Nesta data, deu-se início à formação da primeira turma, que somente concluiria o ensino Fundamental em 1999.

Para a escola funcionar e atender os primeiros alunos, de Valente e região, foi necessário firmar algumas parcerias com entidades ao longo dos anos, entre elas a própria APAEB, a Superintendência da Agricultura Familiar do Estado da Bahia (SUAF), Fundação APAEB, através do convênio com o Instituto de Cooperação Belgo-brasileiro de Desenvolvimento Social – DISOP-Brasil, Bovespa Social, dos padrinhos dos educando da Alemanha, através da organização Zukunftsstiftung Entwicklungshilfe e mais recentemente com o Governo do Estado, através do convênio firmado com as EFA do estado.

O fato da escola estar situada em uma cidade onde o clima é semiárido, faz com que ela assuma uma responsabilidade que vai além da formação. Durante muitos anos, o sertão foi considerado inviável, e muitos jovens precisaram abandonar o campo para viver em outras regiões. A implantação da escola na cidade foi uma resposta do movimento social organizado a este problema. Atualmente a EFA- Valente é de grande importância para a comunidade e para cidades da região, pois consegue atender filhos de agricultores familiares de muitas cidades da região. Em 2013 a escola atendeu um montante de oitenta alunos, vindos de setenta famílias das cidades de Valente, Santa Luz, Nova Fátima e Retirolândia.

A capacidade de preservar a cultura campesina do estudante é outro fator que torna esse modelo de escola um exemplo. Os jovens que ingressam na escola aprendem, além dos conhecimentos práticos e teóricos, também a importância de ser um cidadão que conhece seus direitos e cumpre seus deveres, pois dentro da programação educativa da escola, os estudantes têm aulas das disciplinas do currículo comum, aprendem a administrar sua propriedade com a disciplina de Administração Rural, as técnicas de convivência com o semiárido respeitando a natureza com a disciplina de Agricultura e, como cuidar e fazer a criação adequada de animais que se adaptam ao clima local com a disciplina de Zootecnia.

Nas atividades práticas, os estudantes têm como objetivo cuidar da fazenda Madeira, espaço onde a escola está situada, a 12km da sede do município de Valente, ao tempo que aprendem novas técnicas que serão desenvolvidas em suas propriedades. As atividades vão desde cuidar dos caprinos de corte e leite, organizarem os aviários, pocilga, horta e até cuidar das abelhas criadas em um espaço anexo à escola. Na EFA, os estudantes estão sempre realizando alguma ação educativa, e todos os horários são programados de forma que as atividades teóricas não sejam prejudicadas, e sem que eles percam também o senso da necessidade de realização de atividades práticas que fazem parte do dia-a-dia da maioria das pessoas. Por isso, a responsabilidade pela arrumação dos dormitórios, higienização dos banheiros, limpeza do pátio e auditório, salas de aula, abastecimento dos bebedouros e lavar os pratos é dos estudantes.

Durante as noites são realizados os serões, momentos reservados para o desenvolvimento de atividades lúdicas ou palestras, oficinas e seminários sobre temas ligados a espiritualidade, cidadania, sustentabilidade e tantos outros temas que fazem parte da formação do estudante e que não têm um tempo especifico dentro das aulas. Assim, esses temas ganham espaço de forma dinâmica e atrativa. As atividades geralmente são desenvolvidas por pessoas da comunidade, que assumem a responsabilidade proposta pela escola e vão até o espaço dar sua parcela de contribuição para a formação dos jovens; essa metodologia é necessária, pois uma das propostas da escola é também contribuir com a formação de jovens capazes de desenvolver diversas competências, porque a tendência é que eles sejam os futuros líderes comunitários e responsáveis pelo desenvolvimento da comunidade de origem.

Além de todos esses momentos formativos, o estudante tem ainda o horário reservado para o lazer; é quando os estudantes não têm atividades programadas e podem ficar a vontade para realizar atividades recreativas ou descansar; geralmente os meninos realizam jogos na quadra e no campo, e as meninas, por falta de opção, vão para os dormitórios, pois a escola não conta com atividades lúdicas que interessam as meninas, e poucas gostam de futebol, que é atividade realizada pelos meninos no campo e quadra. O momento de lazer não tem acessoria dos educadores, por isso não existem atividades programadas que contemplem especialmente as meninas. O grande problema desse momento é a falta de atividades e materiais que permita às meninas realizarem outras atividades além do futebol.

Essa primeira aproximação permitiu o levantamento de dados importantes sobre a organização do espaço escolar. Diferente das escolas convencionais do campo, a EFA apresenta uma estrutura física diferenciada e conta com uma experiência pedagógica que permite uma relação próxima entre o estudante, a escola e a comunidade, o que facilita o desenvolvimento das atividades propostas pelo modelo escolar em que ela se enquadra.

. Atualmente a escola conta com oito espaços amplos onde funcionam: no primeiro prédio os dormitórios masculino, no segundo as salas de aulas, no terceiro estão a secretaria, biblioteca, sala de informática e sala dos professores, no quarto está o auditório, no quinto o refeitório, no sexto a casa dos monitores, no sétimo a casa do caseiro e no oitavo o dormitório feminino.

A estrutura física da escola é bastante conservada, a biblioteca, sala dos professores e secretaria passaram por uma reforma no final de 2012, o espaço onde funcionava a sala de leitura deu espaço à secretaria, a secretaria cedeu espaço para a sala dos professores, que agora é biblioteca, enquanto a biblioteca foi adaptada para se transformar num laboratório de informática, o que é bastante empolgante, pois nesses dezessete anos de escola será a primeira vez que os estudantes terão acesso a computadores com rede banda larga, através da PANGEA CENTRO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS. Os estudantes estão bastante esperançosos e ansiosos para manipular o material, pois, apesar da escola contar com uma quantidade razoável de computadores e com acesso a internet, o acesso aos computadores eram restritos aos professores e direção por diversos motivos que serão discutidos ao longo dessa pesquisa. O fato é que com a implantação do novo centro digital a tendência é que o uso dos computadores e internet seja livre para todos os estudantes. A proposta da escola é realizar aulas de tecnologias, oportunizando aos estudantes, além do acesso livre às maquinas, um trabalho de conscientização sobre o bom uso, o desenvolvimento de novos conhecimentos e a interação com estudantes do mundo. Também é importante destacar que diferente de muitas escolas do campo, a EFA de Valente atualmente conta com uma grande quantidade de produtos tecnológicos: são cinco computadores de mesa que servem a professores e à direção, três impressoras multifuncional, três data show, uma TV pendrive, três televisores convencionais, duas antenas parabólicas de TV, dois notebooks, uma filmadora analógica e uma câmera digital, material que poderia estar disponível aos estudantes, mas que sofrem serias restrições por diversos motivos, que vão desde a necessidade de conservação dos equipamentos, pois, segundo alguns educadores, os estudantes podem danificar o material, até a quantidade reduzida de equipamentos, argumento utilizado para evitar o acesso dos estudantes aos computadores.

No que diz respeito ao uso das tecnologias de comunicação e informação nas atividades pedagógicas, motivo desse trabalho, existe uma mistura de posições, ideias, conceitos e propostas para o uso das TIC que a escola possui e até mesmo para as que os estudantes trazem de casa, como é o caso dos celulares e notebooks, que dividem a opinião dos educadores quanto à permissão ou não da entrada desses equipamentos no espaço escolar.

Capítulo 2. As tecnologias de informação e comunicação na Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha

A escola Família Agrícola é uma das poucas do município que possui uma quantidade significativa de dispositivos tecnológicos. Atualmente a escola conta com uma sala de informática com cerca de dez computadores, conexão banda larga via satélite do programa federal GESAC que permite aos professores que possuem notebooks conectar-se à internet pelo sinal wi-fi, o qual possui alcance de até 100 metros, além de outros aparelhos que podem ser usados no dia a dia dos professores, como data show, máquinas fotográficas, aparelhos de DVD e TV pendrive.

Desde sua fundação, em 1996, a EFA conta com apoio de entidades sociais nacionais e internacionais, o que viabilizou o crescimento da escola, especialmente no que diz respeito ao acesso às TIC, porém mesmo com todo apoio, o corpo docente ainda tem dificuldade para trabalhar com esses equipamentos. Em 1998, por exemplo, quando escolas urbanas de Valente, até mesmo as particulares, ainda não consideravam o uso dos computadores na escola e tampouco a inserção dos mesmos nas aulas, a EFA já contava com dois computadores doados pela APAEB para aulas de informática. Obviamente, as aulas de informática eram voltadas apenas para o uso das máquinas, na perspectiva de ensino de atalhos e comandos, não existia uma discussão sobre a função desses equipamentos e da importância de utilizá-los como um aliado na formação integral,pois, “o conhecimento não está na palavra, nos livros, ou na Internet; o conhecimento se produz quando os sujeitos se relacionam entre si, envolvidos em processos interativos, utilizando algum tipo de linguagem para construir significações.” ( Bonilla, 2003, pag 21). Os demais professores que não atuavam diretamente nas aulas de informática, ao receber as tecnologias, que até então não faziam parte do seu cotidiano, acabavam por sentir dificuldade para usar esses equipamentos em sala de aula.

Em 2003 a escola foi contemplada com o projeto INTERNET CIDADÃ do Governo Federal, que oferecia uma conexão com a internet via GESAC, ao tempo a APAEB doou mais três computadores que seriam direcionados para o acesso dos estudantes em horários que eles não estivessem realizando atividades pedagógicas. Segundo a direção da escola, os estudantes tinham acesso aos computadores, porém o problema era que eles não usavam conforme a orientação dos educadores. Segundo a diretora da EFA até o ano de 2011, “(...) fomos contemplados com a INTERNET CIDADÃ do Governo Federal, daí a APAEB conseguiu mais três computadores, colocou na Biblioteca para uso dos alunos... a questão era tempo... no início era usado nas manhãs de sábados, depois se fez um cronograma das 12:30 às 13:30 e, no horário do lazer ,enquanto uns brincavam outros ficavam nos computadores.Esses alunos eram monitorados no que acessavam, e isso sempre foi problema, pois o que a EFA dizia que eles podiam era sempre o que eles não queriam acessar.”

Aos poucos as TIC foram inseridas no espaço da escola através de parcerias e convênios com entidades. Em 2007 foi firmado um convênio com a Superintendência da Agricultura Familiar SUAF e a escola recebeu o primeiro Data Show; em 2010 foi solicitado ao FAED a utilização da sobra de recursos para a compra de um Notebook; nesse mesmo ano a escola recebeu de estudantes do curso de Biologia da Universidade Estadual de Feira de Santana uma câmera digital. Em meados de 2011 a escola foi contemplada com uma TV pendrive via Governo do Estado, e em 2012 recebeu o projeto Ponto de Leitura do Governo Federal e uma parte do recurso foi utilizada para a compra de mais um data show, uma câmera digital e um Notebook, e com recursos próprios adquiriu mais uma câmera digital, uma antena parabólica para TV e mais duas TV de 14 polegadas tela plana. Porém, o que tem causado uma grande expectativa nos estudantes é a instalação dos equipamentos doados pela PANGEA CENTRO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS: um Servidor, dez Computadores e uma Impressora Xerox Phaser 3130; com esses equipamentos será montado o Centro de Informática que permitirá aos estudantes acesso a internet nos horários de lazer.

2.1 É proibido proibir! Não é possível separar comunicação de educação!

Desde as primeiras observações do espaço escolar, em 2008, foi possível perceber elementos importantes no que diz respeito ao uso dos computadores. Em 2008 a escola contava com quatro computadores, dois ficavam na diretoria, um ficava à disposição dos professores para a pesquisa e elaboração de atividades, o outro para o acesso dos estudantes. O acesso a esse computador era bastante problemático porque precisava passar pela permissão de professores e da direção, e quando os estudantes tinham acesso às maquinas, outro empecilho entravava: o fato de as máquinas serem extremamente defasadas, com um processador muito lento, que não permitia ao estudante um acesso rápido às informações desejadas, no curto espaço de tempo reservado para o acesso. Outro problema era a orientação de que aqueles computadores eram somente fonte de pesquisa, e não era permitido o uso das redes sociais; havia uma espécie de bloqueio e todas as vezes que o endereço de redes como o Orkut era digitado na barra de endereço aparecia uma mensagem informando que somente o administrador poderia liberar. Por outro lado, a maioria dos professores e até mesmo pessoas ligadas ao quadro administrativo da escola acessavam as mesmas redes sociais sem nenhuma restrição, o que despertou nos estudantes um desejo de burlar essa regra. Como os adolescentes têm sempre a curiosidade de descobrir todas as possibilidades que as tecnologias oferecem, eles descobriram que ao colocar a palavra Orkut na barra de pesquisa do Google apareceriam diversas possibilidades de acesso, escolhendo o link do endereço, imediatamente era direcionado para a pagina do Orkut. A noticia rapidamente se espalhou entre os estudantes, que marcavam hora para usar o computador com a desculpa de fazer uma pesquisa ligada às disciplinas, quando na verdade estavam acessando o Orkut. Como nem todos os professores ficavam na sala de informática durante as pesquisas, os estudantes aproveitavam para se organizar no acesso ao Orkut, enquanto um acessava o outro vigiava a vinda do professor para avisar ao colega, que imediatamente fechava a página. Quando a direção finalmente descobriu essa alternativa encontrada pelos estudantes, bloqueou os computadores de forma que não fosse mais possível acessar nem mesmo pelo buscador do Google. Os estudantes ficaram chateados e questionaram, porém não houve solução, o acesso foi proibido.

Com essas primeiras observações foi possível constatar que durante esses anos existia certa resistência em permitir o acesso dos estudantes a algumas ferramentas oferecidas pelas TIC, como a internet. Alguns educadores, inclusive, atribuíam à internet a responsabilidade pela indisciplina dos estudantes, pois, segundo eles, a internet influenciava no comportamento dos estudantes, e as redes sociais eram as principais responsabilizadas. A escola não aceita as possibilidades que a internet oferece e o professor tem dificuldade de entender as mudanças que essas tecnologias apresentam, especialmente por que as TIC não excluem as antigas tecnologias utilizadas em sala de aula, elas apenas apresentam uma nova perspectiva no processo educacional a partir das Tecnologias de Comunicação e Informação que já fazem parte da vida dos estudantes, não sendo mais possível o professor furtar-se de conhecer e trabalhá-las em sala. Ramal (2002) citada por Mateus e Brito (2011) traz uma importante consideração sobre o professor e os espaços virtuais e suas relações com a sala de aula:

Hoje conhecemos um novo espaço de leitura e escrita. As letras concretas e palpáveis se transformam em bites digitais; a página em branco é o campo do monitor; a pena é o teclado e há uma estranha separação entre nosso corpo, real, e o texto, virtual. Até não ser impresso, o texto pode ficar indefinidamente nessa outra materialidade. (RAMAL, 2002, p. 65 apud MATEUS e BRITO 2011)

Assim como na maioria das escolas brasileiras, a introdução das tecnologias na EFA aconteceu sem uma discussão prévia com a equipe a respeito dos novos equipamentos que os professores receberiam para o desenvolvimento do seu trabalho. A inserção das TIC na escola não provocou nenhuma mudança na postura do professor, que, quase ignorando a presença dos novos equipamentos, os percebiam apenas como móveis na composição do espaço da biblioteca escolar. Até mesmo as tecnologias mais usadas em seu cotidiano, como por exemplo, o DVD, era usado sem uma proposta inovadora, era apenas para a reprodução de filmes ou vídeo aulas, dentro dos moldes convencionais que a escola sempre trabalhou. No entanto, com a inserção das TIC na escola, o corpo administrativo esperava oferecer a professores e estudante novas possibilidades para buscar conhecimentos, e fazer um trabalho pedagógico diferenciado; a expectativa era de uma dinamização nas aulas, ofertar ao estudante conhecimento em áreas que são do seu interesse. Porém, não basta apenas levar os equipamentos para o espaço escolar; Bonilla (2002) traz considerações importantes a respeito de como as TIC são inseridas no espaço escolar

Mas, para que isso aconteça não basta apenas introduzir a Tecnologia na Escola; a presença física das máquinas não é suficiente. A tendência é realizar-se o processo de adaptação da inovação às concepções que os sujeitos têm de Educação. É necessário, portanto, provocar a comunidade escolar para que haja uma intensificação na dinâmica, no movimento da configuração de sentidos, o que vai possibilitar a mudança que se espera na educação. (Bonilla, 2002 p 19)

A inserção dos computadores em 2003, sem um dialogo prévio com o corpo docente e sem a conscientização da necessidade de um trabalho diferenciado, acabou provocando poucas mudanças na vida escolar, uma vez que as TIC não faziam parte do cotidiano de todos os educadores, por isso poucos conseguiam explorar as várias possibilidades que os computadores e a internet oferecem.

Enquanto alguns professores permaneciam nessa perceptiva, muitas vezes alheios presença das TIC, os estudantes, no dia a dia das suas comunidades, já adquiriam noções mais complexas e, quando solicitados que organizassem seminários, e era permitida a confecção de slides, os jovens davam show de criatividade com textos ilustrados e dinamizados. Obviamente, a apresentação era bem tradicional, pois mesmo com um material dinâmico, alguns preferiam reproduzir a postura do professor de fazer apenas a leitura do material produzido.

Outro fato interessante, que precisa ser considerado, era o momento de instalação do computador e data show na sala. Como a maioria dos professores simplesmente não sabia instalar, acabavam por recorrer aos estudantes que já dominavam essas tecnologias. Analisando essa situação, é possível perceber uma contradição na postura do educador, pois ao tempo que proíbe o estudante de acessar as tecnologias e desenvolver seu conhecimento dentro da escola, recorre ao estudante quando precisa utilizá-las.

É difícil para um adolescente, seja ele do campo ou não, entender a ideia de proibir o acesso a materiais que fazem parte da vida de qualquer jovem moderno, uma vez que computadores, celulares, tablets e diversos outros instrumentos tecnológicos já são parte da sua vida. Atualmente, mesmo as comunidades mais distantes, de cidadezinhas do interior, já possuem sinal de celular e acesso à internet.

Uma das redes sociais mais badaladas da atualidade é o Facebook, espaço altamente interativo onde o estudante pode postar informações que vão desde o seu estado de espírito naquele momento, até mensagens literárias altamente sofisticadas. O fato de permitir ao usuário expressar-se assusta muitos educadores, pois o estudante tem liberdade de falar aquilo que deseja e imediatamente aquela mensagem é transmitida para milhares de pessoas. Em fevereiro de 2013, na primeira semana de aulas na EFA, um aluno do 9º ano postou, via celular, de dentro do espaço escolar, a seguinte mensagem: “Último ano nesse presídio chamado EFA”, causando indignação e questionamento de alguns educadores. Porém, em uma conversa com o estudante, foi possível entender que essa foi a forma encontrado pelo jovem para expressar seu sentimento de prisão, uma vez que precisaria passar uma semana no espaço escolar sem a possibilidade de uso do celular. Obviamente, para um jovem conectado, não existe maneira mais dura de tirar-lhe a liberdade do que privando-lhe do uso do seu equipamento predileto, o celular. Na verdade, o que aconteceu com esse estudante não é um caso isolado; desde que as redes sociais começaram a se disseminar, não são raros os casos de estudantes que se aproveitam desses espaços para expressar seu sentimento sobre a escola e o relacionamento com seus professores. Quando o Orkut era a rede social do momento, foram criadas cerca mil comunidades que tratavam dessa relação. Em seu artigo “ Adoro odiar meu professores: Orkut, os alunos e a imagem dos mestres”, Antônio Zuin (2006) traz uma análise interessante sobre a relação que é estabelecida em sala e como ela é anunciada no Orkut; se na escola o estudante não pode expressar seu sentimento, é possível fazê-lo tranquilamente nas redes sociais.

E quando o tema das discussões virtuais envereda para a relação professor/aluno, são estes mesmos jovens que encontram “espaço” para poder expressar aquilo que verdadeiramente pensam de seus professores. São mais de mil comunidades virtuais do Orkut que discutem o tema: Professor, sendo que este número cresce cada vez mais a cada dia. (ZUIN 2006 p 11.)

Enquanto alguns professores se negam a conhecer esses espaços em que os estudantes estão inseridos, os jovens aproveitam para expor seu pensamento a respeito da postura do educador, dentro da sua perspectiva, pois nesse espaço não existem as mesmas regras impostas pela escola e o estudante pode expressar aquilo que deseja, da forma que considera melhor. O problema da ausência dos educadores nesses espaços e da não abertura para o diálogo é o mal estar causado por publicações ofensivas dos estudantes para o professor, reflexo da relação criada no espaço escolar. Ou seja, a rede social é apenas o espaço onde o estudante expõem o seu sentimento a respeito dos acontecimentos de sala de aula, quando o professor nega-lhe a oportunidade de expor seu conhecimento, colocando-se na postura de dono do saber, fechando-se para o diálogo com os estudante.

Quando o educador aproxima-se das redes sociais pode criar espaços de diálogos com os jovens, permitindo-se a ter um bom relacionamento com seus educandos. Como as redes sociais, os celulares também causam polêmica na escola. Como a EFA trabalha com a Pedagogia da Alternância, sua metodologia solicita que os estudantes fiquem uma semana na escola, em internato, e outra em casa. Durante a semana que permanecem na escola, precisam atentar-se para algumas regras de convivência, uma lista de nove itens que foram elaborados na assembleia de pais, indicando a forma como os estudantes devem se comportar sobre o respeito com os colegas, meio ambiente, cuidado com o espaço escolar, namoro, uso dos celulares e aparelhos sonoros. Segundo a direção, essa regra foi incluída em 2010, quando os professores começaram a reclamar dos problemas causados pelo uso desses aparelhos no espaço escolar. Entre os principais problemas estavam: a comunicação com os colegas em horário inadequado, o fato dos estudantes ligarem para os pais por conta dos problemas que surgiam entre os colegas, sem antes comunicar a direção, o acesso às redes sociais, a reprodução de músicas com o volume alto no horário de dormir, atrapalhando os colegas, atenderem o telefone e jogarem no celular durante a aula e a reprodução de músicas que usam termos pornográficos no espaço escolar. Todos esses motivos foram apresentados aos pais em uma assembleia para que eles votassem a permanência ou não do uso dos celulares na escola. Após muitas discussões, ficou encaminhada a suspensão do uso dos aparelhos celulares e caixas de som. Nada mais justo numa sociedade capitalista, onde a própria história ensina que o jeito mais fácil de resolver problemas, especialmente ligados à questão da juventude, é proibindo seu acesso aos instrumentos que possam lhe causar problemas.

Atribuir às redes sociais e aos celulares a responsabilidade pelos problemas é no mínimo injusto, pois o que causa a distração dos alunos é o desinteresse na aula e não a existência de um telefone celular. Quanto ao déficit de atenção dos estudantes, não está diretamente ligada à presença dos celulares, porque se fosse verdade, a escola não teria problemas com a desatenção dos estudantes antes da presença dos aparelhos. Esse problema está ligado a elementos bem mais significativos, como o próprio fato da escola não se renovar, e, no caso da EFA, tem um outro agravante, que é o fato de que boa parte do corpo docente da escola interage pouco com as TIC, e não buscam novas alternativas para a utilização pedagógica de todos os equipamentos que a escola possui.

Na verdade, a ideia de proibir o uso dos celulares na escola poderia ser aceita sem questionamentos se a escola não trabalhasse com crianças na faixa etária de 10 a 11 anos, residentes em comunidades de cidades vizinhas, que ao chegarem em seu município correm o risco de perder o transporte para a comunidade, precisando de um dispositivo de comunicação para entrarem em contato com os pais. Outro agravante é o fato dos pais dos alunos novos não aceitarem facilmente a proibição e o fato de precisarem passar uma semana sem falar com seus filhos, uma vez que o celular da escola, único disponível para a comunicação dos estudantes com a família, é de uma determinada operadora, enquanto alguns pais utilizam outras operadoras, dificultando assim a comunicação, pois a comunicação entre operadoras diferentes é mais cara. Estes foram os problemas que surgiram ao longo desses três anos de proibição. Por causa desses questionamentos, várias possibilidades foram consideradas, a primeira era dos estudantes levarem os celulares para a escola e, no primeiro dia de aula, entregar na secretaria, para serem guardados numa caixa, e só receberiam de volta no dia de retornarem para suas casas. Essa proposta implicou em outro problema, os professores não queriam assumir a responsabilidade de guardar esses celulares, por diversos fatores: tinham alguns celulares de última geração, muito caros, e seria muito arriscado para os professores ficarem com a guarda desses aparelhos, pois, no caso de algum problema, precisariam arcar com os prejuízos; outro problema é que os estudantes começaram a dizer que os professores estavam usando seus celulares, acabando assim com seus créditos, causando um constrangimento entre a equipe. Várias outras alternativas foram pensadas. Então, a escola voltou a proibir o uso dos celulares, e novamente houve questionamentos dos pais pelo fato de que os estudantes ao chegar à comunidade não tinham como comunicar-se com os pais para avisar os horários de chegada. Então, o corpo docente decidiu permitir que os estudantes levassem os celulares para o espaço escolar, desde que não os utilizassem na sala de aula, nem nos momentos que a dinâmica da escola exigia silêncio. Porém, mais uma vez os estudantes descumpriram as regras e a direção decidiu voltar a proibir. Atualmente os estudantes podem levar o aparelho para a escola, porém no primeiro dia de aula entregam na secretaria e só pegam os aparelhos de volta na hora de retornarem para suas comunidades.

A questão é: se antes o jovem não sentia falta desses equipamentos, hoje esses são elementos vitais, uma pessoa que possui um celular não consegue ficar ao menos uma manhã sem seu aparelho, e quando fica, certamente a pergunta que passa pela sua cabeça durante aquele período de tempo é: será que alguém me ligou? Será que recebi alguma mensagem? Nada mais normal, se os adultos precisam estar em constante comunicação com o mundo, por que negar ao jovem essa possibilidade? E como explicar que aquela é a melhor alternativa? É muito difícil, se não impossível, querer obrigar o jovem a não se comunicar via celular, internet e tantas outras tecnologias em um século onde a necessidade da comunicação rápida emerge e torna-se cada vez mais necessária. Proibir ou dificultar o acesso dos estudantes a essas tecnologias seria retroceder e exigir aos estudantes voltarem para um período que eles nem eram nascidos. É uma situação complicada, exigir que o estudante vivencie algo que não faz parte de suas vidas, uma vez que estes já começaram suas vida numa sociedade onde a comunicação rápida e interativa predomina. No caso da EFA, é ainda mais grave por que os estudantes passam uma semana na escola, crianças e adolescentes na faixa etária dos 10 aos 16 anos, que sentem necessidade constante de comunicar-se com sua e família e amigos.

A presença dos celulares em sala de aula é um tema bastante polêmico e que causa diversos debates em nível nacional. Alguns estados e cidades como o Rio de Janeiro, Cuiabá, São Paulo, Paraíba e Brasília já possuem leis próprias que impedem a utilização dos aparelhos celulares, e, em nível nacional, o deputado Pompeo de Mattos (PDT/RS) apresentou um projeto de lei que visa proibir o acesso a celulares e outros aparelhos eletrônicos em sala de aula, com o argumento de que a utilização dos aparelhos em sala atrapalha o rendimento dos estudantes.

O celular é colocado como vilão na educação, muitos professores não concebem de forma nenhuma o celular durante suas aulas, afirmando que os estudantes se aproveitam dos celulares para atrapalhar as aulas. No entanto, todos os problemas que os celulares causam são anteriores à presença do aparelho. Carlos Walter Dorlass e Fagner Cantuária Simille Marques, no artigo Por que e como utilizar um celular para dar aula, trazem uma série de problemas que já eram comuns entre os estudantes, e que permanecem, independente do instrumento que eles utilizam:

Existem professores que afirmam que os alunos usam os telefones celulares para, propositalmente, “atrapalharem” as aulas, alguns professores são considerados alvos ou para chamar a atenção dos colegas. É verdade! E eles também atrapalhariam nessas mesmas aulas sem os celulares: jogando aviõezinhos, bolinhas de papel, fazendo piadinhas e outras criativas travessuras possíveis. Não é o celular que incentiva o aluno à indisciplina e sim o desejo dele de confrontar-se com o professor. A solução para esses casos não tem nenhuma relação com o telefone celular, assim como não tem nenhuma relação com os aviõezinhos de papel (ou também proibiremos os alunos de trazerem cadernos na escola porque eles tiram folhas e fazem aviõezinhos de papel?). (MARQUES E DORLASS. P. 03)

Porém, se por um lado existem aqueles que discordam do uso dos celulares na sala, existem os educadores que defendem o celular como instrumento que pode colaborar, em muito, com o desenvolvimento das atividades pedagógicas, cabendo ao professor a responsabilidade de pesquisar as melhores formas de conduzir a introdução dos aparelhos no desenvolvimento das aulas.

A questão é que a proibição de tal equipamento não resolve os problemas educacionais apresentados pelos estudantes. Mateus e Brito trazem uma consideração interessante a respeito da proibição de tais equipamentos no espaço escolar.

Para os pesquisadores Viana e Bertocchi (2009) sataniza-se o equipamento, o celular, e destaca-se o quanto os alunos envolvem-se por tudo o que esta tecnologia de informação e comunicação possibilita, deixando assim de se interessarem pelas aulas dos seus professores. Os autores pontuam que perde a sociedade e perde a educação com a censura desses equipamentos em sala de aula. Essa proibição não inibe os alunos, que são hábeis, inteligentes e antenados o suficiente para burlar tais leis.(MATEUS & BRITO ano2011 p 6)

O grande problema da escola é a dificuldade de alguns professores para inserir as tecnologias nas aulas. Em muitos casos, ao invés de entender as tecnologias como parceiras, as coloca como um empecilho no desenvolvimento das atividades pedagógicas. Com essas observações é possível perceber que a inserção das tecnologias na EFA não aconteceu de forma que possibilitasse ao professor compreendê-las como aliadas e sim como as vilãs, responsáveis por desconstruir toda a ordem que estaria estabelecida no espaço escolar. No entanto, é necessário levarmos em consideração que problemas de disciplina com estudantes existem desde que as primeiras escolas foram criadas, quando o jovem não se interessa pela escola, ou pela forma como a escola organiza o conhecimento, e, portanto, a tendência é que eles procurem formas de distrair-se e não participar das atividades que a escola propõe.

Alguns professores reclamam que os telefones celulares tiram a atenção dos alunos. É verdade. Mas antes dos telefones celulares eles também se distraíam. A única diferença é que as distrações eram motivadas por outras coisas; como aliás, ainda ocorre nas escolas onde os telefones celulares foram proibidos. (MARQUES E DORLASS p4)

Não é possível negar a presença e a importância das tecnologias de comunicação e informação nas escolas, pois mesmo de forma rústica os professores já as utilizam em suas aulas. O que é colocada como uma demanda urgente nesse caso é a formação do professor, não apenas técnica; é necessária uma formação política e pedagógica no sentido de mostrar ao professor a função social das TIC, para que aos poucos ele perca essa “resistência” no uso dos equipamentos e busque formas de se atualizar a respeitos das novidades na área de tecnologias.

O desafio é despertá-lo para a necessidade de fazer um trabalho diferenciado, aproximando os estudantes desses equipamentos, pensando além da técnica, utilizando das potencialidades que cada equipamento tem para oferecer, entendendo que a internet e as redes sociais podem ser tão aliadas dos educadores quanto os livros didáticos, que os celulares, tão questionados pelos educadores, também podem ser instrumentos pedagógicos, pois não existe uma razão concreta para a proibição desses recursos nas escolas; o que existe é um preconceito impregnado na cabeça dos educadores, veiculado pelas mídias de massa, que reproduzem o conceito de que internet afasta os jovens da vida social, tornando-os mais agressivos, que o celular na sala de aula atrapalha, levando o professor a rejeitar as potencialidades que esses equipamentos trazem para o espaço escolar. E não são poucas as possibilidades: encontrar amigos que já não moram mais na mesma cidade, construir projetos com estudantes de diversas partes do mundo, divulgar ações da escola, construir redes de troca de conhecimentos. A internet é um mundo, que tal qual o presencial, oferece diversas possibilidades, boas e ruins. É importante a presença de alguém que problematize esse mundo digital, e isso exige orientação da escola, cabendo ao professor essa função.

Na verdade, a presença das TIC na escola ainda é um problema para muitos educadores e precisa ser debatida. Os professores não sabem como conduzir o uso de tecnologias como a internet, conforme Bonilla apresenta:

Em função disso, o que se percebe é que, ao chegar à escola, essa tecnologia está sendo recebida e usada de acordo com os significados que foram construídos em torno da tecnologia anterior - lápis e papel. Os sentidos que a maioria dos professores atribuem à rede Internet, e que são fruto também das interações realizadas em outros ambientes sociais que não a Escola, são de que ela é mais um recurso ou mais uma ferramenta a serviço da educação, contribuindo apenas para facilitar o acesso às informações, sem provocar qualquer mudança no modelo educacional instituído. ( Bonilla.2002 p.18)

O grande problema, conforme já foi apresentado, é o desconhecimento dos professores, e em função disso não buscam alternativas, também porque isso demanda um tempo que muitas vezes eles não têm. Se levarmos em consideração que o salário do professor ainda é muito baixo, o que os obriga a trabalhar em várias escolas, é compreensível a desmotivação para a busca de propostas inovadoras, e o fato de poucos procurarem atualizar-se sobre as novidades ligadas às TIC, evitando-as, e prevalecendo a ideia de que é mais fácil proibir as redes sociais a aceitá-las e usá-las a favor da educação. Não é difícil entender essa dificuldade do professor para aderir as TIC, não é uma questão de gosto, o grande problema é a ausência de políticas públicas que ofereça aos professores uma condição de vida que os permita buscar novos conhecimentos. O professor Nelson Pretto, em seu artigo sobre as tecnologias na escola, trás a necessidade de políticas públicas que permitam ao professor buscar formação

Precisamos, imediatamente, de professores bem pagos e continuamente formados, como também de escolas bem equipadas e, principalmente, conectadas para que, em rede, articulando-se uns com os outros, possam os professores montar uma verdadeira cruzada de transformação radical da educação em nosso país. Mais ainda, necessitamos de projetos e políticas que fortaleçam os locais, as regiões, e não que sejam elaborados por especialistas iluminados e distribuídos em broadcasting para o conjunto dos brasileiros que estão na escola e fora dela. (PRETTO, 2011)

A área das tecnologias exige uma atualização constante, pois as tecnologias estão em constante movimentação, portanto não adianta substituir os instrumentos pedagógicos, se não houver um apoio para os educadores buscarem formação. Quando não há um esclarecimento inicial acerca da forma como esses instrumentos devem ser conduzidos em sala de aula, a escola corre o risco de cair na mesmice e os equipamentos que poderiam servir como uma forma interativa de produzir conhecimento, servirem unicamente para transmitir conhecimento dentro das metodologias ultrapassadas utilizadas por professores que não quiseram, ou não tiveram a oportunidade de conhecer uma forma mais dinâmica, divertida e interativa de conduzir a educação, trazendo o estudante para o lugar de sujeito colaborador do desenvolvimento do seu próprio conhecimento.


1   2   3


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal