Giles Deleuze – a lógica do sentido: 30ª série: Do Fantasma



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Giles Deleuze – A lógica do sentido: 30ª série: Do Fantasma


Fantasma – Três características principais:

  • 1ª. Puro acontecimento – não representa uma ação nem uma paixão

Fantasmas no momento em que são efeitos e porque são efeitos diferem em natureza de suas causas reais – causas endógenas1 (constituição hereditária, herança filogenética, evolução interna da sexualidade, ações e paixões introjetadas) não menos que causas exógenas. P. 217.

“É que o fantasma, à maneira do acontecimento que representa é um ‘atributo noemático’2 que se distingue não somente dos estados de coisas e de suas qualidades, mas do vivido psicológico e dos conceitos lógicos”. P. 217, 218.



Fantasma-acontecimento submetido à dupla causalidade, remetendo de um lado as causas internas e externas de que resulta em profundidade, mas de outro à quase-causa que o “opera” na superfície e o faz comunicar com todos os outros acontecimentos-fantasmas. P.218

Fantasmas - Nem ativos nem passivos, nem internos nem externos, nem imaginários nem reais – impassibilidade e idealidade do acontecimento. P.218

Impassibilidade que nos inspiram uma espera insuportável, a espera daquilo que vai resultar, daquilo que já se acha em vias e não acaba de resultar. E de que nos fala a psicanálise [...] – senão de acontecimentos puros? Todos os acontecimentos em Um, como no ferimento? Totem3 e Tabu é a grande teoria do acontecimento e a psicanálise em geral a grande teoria do acontecimento: com a condição de não se tratar o acontecimento como alguma coisa de que é preciso procurar e isolar o sentido, pois que o acontecimento é o próprio sentido, na medida em que se isola ou distingue dos estados de coisas que o produzem e em que se efetua. P.218.

Como ciência dos acontecimentos puros, a psicanálise é também uma arte das contra-efetuações, sublimações e simbolizações. P. 219.


  • 2ª Sua situação com relação ao eu, ou antes, a situação do eu no próprio fantasma – ponto de partida no eu fálico do narcisismo secundário4 p.219 – O que aparece no fantasma é o movimento pelo qual o eu se abre a superfície e libera as singularidades acósmicas, impessoais e pré-individuais que aprisionava. Ao pé da letra, ele abandona como espórios e explode neste desastre. (P220) A individualidade do eu se confunde com o acontecimento do próprio fantasma; desde que o acontecimento representado no fantasma seja apreendido como uma série de outros indivíduos pelos quais passa o eu dissolvido. (p. 220). O fantasma é, assim, inseparável dos lances de dados ou dos casos fortuitos que coloca em cena. Transformações gramaticais5. Reencontramos aqui a ilustração de um princípio da distância positiva, com as singularidades que a escalonam e de um uso afirmativo da síntese disjuntiva (e não síntese de contradição). P.221

  • 3ª. Fantasma acontecimento distingue do estado de coisas correspondente, real ou possível – representa o acontecimento segundo sua essência – atributo noemático. P.221

O Fantasma é inseparável do verbo infinitivo e dá testemunho assim do acontecimento puro. [...]. É a partir deste infinitivo puro não determinado que se faz o engendramento das vozes, dos modos, dos tempos e das pessoas, cada um dos termos engendrados na disjunções representando no seio do fantasma uma combinação variável de pontos singulares.... P.221. Tentamos mostrar de uma maneira análoga...segundo um ‘perspectivismo’ gramatical generalizado. 222

Tarefa que se impõe - Determinar o ponto de nascimento do fantasma e sua relação real com linguagem – questão nominal ou terminológica da palavra fantasma. Mélanie Klein emprega a palavra fantasma para indicar a relação com os objetos internos introjetados e projetados na posição esquizóide, em um momento em que as pulsões sexuais estão vinculadas as alimentares; é então forçoso que os fantasmas não tenham com a linguagem senão uma relação indireta e tardia e que, quando são verbalizadas ocorre sob as espécies de formas gramaticais já feitas... pg. 222

Mélanie Klein faz uma observação importante, apesar de seu uso extensivo da palavra fantasma: ocorre a ela freqüentemente dizer que o simbolismo6 está na base da palavra fantasma e que o desenvolvimento da vida fantasmática é impedido pela persistência das posições esquizóide e depressiva. Para Deleuze o fantasma encontra sua origem no eu do narcisismo secundário com o ferimento narcísico, com a neutralização, a simbolização e a sublimação que se seguem. Neste sentido não é somente inseparável das transformações gramaticais, mas do infinitivo neutro, como matéria ideal destas transformações. Eis porque preferimos a palavra simulacro para designar os objetos das profundidades (que já não são mais “objetos naturais”), assim como o devir que lhes corresponde e as inversões que o caracterizam. Ídolo, para designar o objeto das alturas e suas aventuras. Imagem, para designar o que concerne às superfícies parciais corporais, inclusive o problema inicial de sua concordância fálica (a boa intenção). Pg. 223.


Trigésima Primeira Série: Do Pensamento


Extrema mobilidade do fantasma. Capacidade que se ligam dois traços fundamentais: ..................p.225

Começo do fantasmaferimento narcísico ou traçado de castração. Com efeito, conforme a natureza do acontecimento, e é aí que aparece um resultado da ação completamente diferente da própria ação. [...] p.225. Esta situação seria sem saída se a castração não mudasse ao mesmo tempo a libido narcísica em energia dessexualizada7 p.226.

O traçado da castração como sulco mortal torna-se fenda do pensamento, que marca sem dúvida a impotência em pensar, mas também a linha e o ponto a partir dos quais o pensamento investe sua nova superfície. [...]. ...a castração está como entre as duas superfícies , ela não sofre esta transmutação sem carregar também a metade a que pertence, sem abaixar de alguma forma ou projetar toda a superfície corporal da sexualidade sobre a superfície metafísica do pensamento. P.226. O fantasma se volta sobre o seu começo que lhe permanecia exterior (castração); mas como este começo ele próprio resulta, ele se volta também para aquilo de que o começo resulta (sexualidade das superfícies corporais); enfim, cada vez mais ele se volta sobre a origem absoluta de onde tudo procede (as profundidades). Dir-se-ia agora que tudo, sexualidade, oralidade, analidade, recebe uma nova forma sobre a nova superfície, que não recupera e não integra somente as imagens, mas mesmo os ídolos, mesmo os simulacros. P.227.

O que significa recuperar, integrar? Chamávamos de sublimação8 a operação pela qual o traçado de castração torna-se linha do pensamento, logo também a operação pela qual a energia sexual e o resto se projetam na superfície do pensamento. Simbolismo a operação pela qual o pensamento reinveste sua própria energia tudo o que acontece e se projeta sobre a superfície p.227

Da castração ao pensamento, mas o pensamento reinveste a castração como fissura cerebral, linha abstrata. Precisamente o fantasma vai do figurativo ao abstrato. O fantasma é o processo de constituição do incorporal, a máquina para extrair um pouco de pensamento, repartir uma diferença de potencial nas bordas da fissura, para polarizar o campo cerebral. Ao mesmo tempo em que se volta sobre seu começo exterior (a castração mortal), ele não cessa de recomeçar seu começo interior (o movimento da dessexualização). P. 228. Propriedade de contato do exterior com o interior. Eterno retorno.

A metamorfose do pensamento que investe ou (reinveste) o faz sob as espécies do acontecimento. Esplendor do incorporal do acontecimento como entidade que se dirige ao pensamento e que somente ele pode investir, Extra-ser. P.228.

Fizemos como se fosse possível falar de acontecimento...P.228. Isso não é exato: é preciso esperar pela segunda tela, a superfície metafísica. Antes não há senão simulacros, ídolos imagens, mas não fantasmas como representações de acontecimentos. Os acontecimentos puros são resultados, mas resultados de segundo grau. É verdade que o fantasma reintegra, retoma tudo na retomada de seu próprio movimento. Mas tudo mudou. P.228 (final da página). [...]. Em suma, a metamorfose é o isolamento da entidade não existente para cada estado de coisas, o infinitivo para cada corpo e qualidade, cada sujeito e predicado, cada ação e paixão. A metamorfose (sublimação e simbolização) consiste para cada coisa no isolamento de um aliquid que é ao mesmo tempo o seu atributo noemático e o exprimível noético, eterna verdade, sentido que sobrevoa e plana por cima dos corpos. [...]. Pois o acontecimento não se inscreve bem na carne, nos corpos, com a vontade e a liberdade que convêm ao paciente pensador senão em virtude da parte incorporal que contém o seu segredo, isto é, o princípio, a verdade e finalidade, a quase-causa. P.229.

A castração tem pois uma situação muito particular entre aquilo que resulta e o que faz começar. Mas não é somente a castração que está no vazio, entre a superfície corporal da sexualidade e a superfície metafísica do pensamento. Superfície sexual intermediária entre profundidade física e a superfície metafísica. P 229. [...].

Somente a vitória do cérebro, se ela se produz, libera a boca para falar, libera-a dos alimentos excrementais e das vozes retiradas e a nutre uma vez todas as palavras possíveis. P.230

Trigésima Segunda Série: Sobre as diferentes espécies de séries

Mélanie Klein série intermediária corresponde à sublimação menos bem sucedida9. Mas é toda a sexualidade que, já de si mesma, é uma sublimação “menos sucedida”: ela é intermediária entre os sintomas de profundidade corporal e as sublimações de superfície incorporal e se organiza em séries precisamente neste estado de intermediário, sobre sua própria superfície intermediária. A própria profundidade não se organiza em séries [...]. De um lado apresenta blocos de coexistência, corpos sem órgãos ou palavras sem articulação; seqüências de objetos parciais...Estes dois aspectos, seqüência e bloco, representam respectivamente o deslocamento e a condensação em profundidade da posição esquizóide. É com a sexualidade, isto é, com o isolamento das pulsões sexuais, que começa a série, porque a forma serial é uma organização de superfície. P. 231.

Diferentes momentos da sexualidade considerados precedentes, distinguir espécies de séries bastante diferentes. Em 1º lugar, as zonas erógenas na sexualidade pré-genital. [...]. A forma serial sobre as zonas erógenas e fundada numa matemática dos pontos singulares ou numa física das quantidades intensivas. [...]. Em todos estes sentidos, uma série ligada a uma zona erógena parece ter uma forma simples, ser homogênea, dar lugar a uma síntese de sucessão que pode se contrair como tal e de qualquer maneira constitui uma simples conexão. Em 2º lugar o problema da concórdia fálica das zonas erógenas vem complicar a forma serial: sem dúvida, as séries se prolongam umas às outras e convergem em torno do falo10 como imagem sobre a zona genital. Esta zona genital tem ela própria sua série. P. 231. Mas não é separável de uma forma complexa que subsume agora séries heterogêneas, uma condição de continuidade ou de convergência tendo substituído a homogeneidade; ela dá lugar a uma síntese de coexistência e de coordenação e consitui uma conjunção das séries subsumidas. P.231.

Em 3º lugar a concordância fálica das superfícies é acompanhada necessariamente por empreendimentos edipianos que se referem a imagens parentais. No desenvolvimento próprio a Édipo, estas imagens entram por sua conta, em uma ou várias séries - ...Mas ainda, esta ou estas séries entram em relação com as séries pré-genitais, com as imagens que lhes correspondiam. Nesta relação entre imagens de origem diferente, edipianas e pré-genitais, que se elaboram as condições de uma “escolha de objeto” exterior. Relação que anima a teoria freudiana de acontecimento que consiste primeiro em mostrar que um traumatismo supõe pelo menos a existência de dois acontecimentos independentes, um infantil e outro pós-pubertário, entre o quais se produz uma espécie de ressonância. Sob uma segunda forma, os dois acontecimentos são antes apresentados como duas séries, uma pré-genital, a outra edipiana e sua ressonância como o processo do fantasma. O acontecimento como ressonância no fantasma das duas séries, uma pré-genital, a outra edipiana. O essencial está na ressonância das duas séries independentes, temporalmente disjuntas. P. 233.

Terceira figura serial o falo – como instância de convergência e de coordenação.

Na sua evolução e na linha que traça não cessa de marcar um excesso e uma falta, de oscilar entre os dois mesmos e mesmo de ser os dois ao mesmo tempo. Ele é essencialmente um excesso, que se projeta sobre a zona genital da criança da qual vêm duplicar o pênis e ao qual inspira o empreendimento edipiano. O falo como objeto de castração faz ressoar as duas séries. É ele, o não senso de superfície, duas vezes não-senso, que distribui o sentido às duas séries, repartindo-o como sobrevindo a uma e como insistindo na outra (é pois forçoso que a 1ª série não implique ainda uma compreensão daquilo que está em questão). P.235.

O problema é: como o objeto de castração, faz ressoar as séries? P. 235. O fantasma não é outra coisa, pelo menos em seu ponto de começo: a ressonância interna entre as duas séries sexuais independentes, na medida em que esta ressonância prepara o surgimento do acontecimento e anuncia a sua compreensão. Pó isso na sua 3ª espécie, a forma serial se apresenta sob uma forma irredutível às precedentes: síntese disjuntiva de séries heterrogêneas...P. 236. Se considerarmos o conjunto das três espécies seriais, síntese conectiva sobre uma só série, síntese conjuntiva de convergência, síntese disjuntiva de ressonância, vemos que a terceira revela ser a verdade e a destinação das outras, na medida em que a disjunção atinge seu ponto afirmativo; a conjunção das zonas deixa ver então a divergência já presente nas séries que coordenava globalmente e a conexão de uma zona a multiplicidade de detalhe que continha já na série que homoneiza aparentemente. P. 236.

Teoria de uma origem sexual da linguagem (Sperber). Devemos considerar a posição sexual enquanto intermediária e enquanto produz sob seus diferentes aspectos (zonas erógenas, estágio fálico,, complexo de castração) os diversos tipos de séries: ...P.236. [...] a primeira etapa da gênese, ia da posição esquizóide à posição depressiva, ia dos ruídos à voz: dos ruídos como qualidades, ações e paixões dos corpos em profundidade à voz como instância das alturas, retirada nesta altura, exprimindo-se em nome daquilo que preexiste, ou antes, colocando-se como preexistente. P.236. [...]. No fluxo contínuo da voz que vem do alto a criança recorta os elementos de diferentes ordens arriscando-se a dar-lhes uma função ainda pré-linguistíca em relação ao conjunto e aos diferentes aspectos da posição sexual.

Da posição esquizóide de profundidade à posição depressiva de altura, passa-se dos ruídos a voz. Mas, com a posição sexual de superfície, passa-se da voz à palavra. É que a organização de superfície física sexual tem três momentos que produzem três tipos de sínteses ou de série: zonas erógenas e sínteses conectivas recaindo sobre uma série homogênea; concordância fálica em traçado da castração e síntese conjuntiva recaindo sobre séries heterogêneas, mas convergentes e contínuas; evolução de Édipo, transformação da linha fálica em traçado da castração e síntese disjuntiva recaindo sobre séries divergentes e ressoantes. P.239.




1 Endógeno [Do gr. Endogenês] Adj. - Originário do interior do organismo, ou por fatores internos; endógene. [antôn.: exógene]- Dic. Aurelio

2 Relativo a noema. Noema. [Do gr. Noema, ‘percepção’] S. f. Filos. Na fenomenologia, aspecto objetivo da vivência, i. e., o objeto, considerado pela reflexão em seus diferentes modos de ser dado: o percebido, o pensado, o imaginado, etc. / Noese. [do gr. noésis, ‘pensamento inteligência’.] S.f. Filos. Na fenomenologia, aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos que tendem a apreender o objeto: o pensamento, a percepção, a imaginação, et.. Dic. Aurelio.

O regresso às próprias coisas - Husserl manifesta a vontade de descrever simplesmente – antes de qualquer tentativa de explicação – a forma como uma coisa se apresenta à consciência, o modo como as coisas se manifestam. Isto é, elas existem como fenômenos. É por isto que Husserl designa o seu método como “fenomenologia”. Todavia, é necessário precavermo-nos do contra-senso que consistiria em interpretar os fenômenos como meras aparências, cuja essência seria necessário captar. Pelo contrário, a fenomenologia é uma descrição das essências. Ela descreve o que se passa quando a consciência visa um objecto. Para isso, utiliza aquilo a que Husserl chama a “variação eidética” (do grego eidos, ideia) que consiste em fazer variar imaginariamente as percepções da essência de forma a fazer surgir a invariante.
Por exemplo, o triângulo não seria um triângulo se tivesse mais que três lados, etc., mas a essência do triângulo não existe independentemente do acto de consciência que o visa. Se a visão da essência (neste caso do triângulo) é bem originária, e não derivada – como pretende o empirismo ou o psicologismo – a essência não é separável do acto que a visa, como afirma o platonismo ou os defensores de um realismo das essências. Para acentuar a correlação entre o acto de consciência que visa um objecto – isto é, a intencionalidade – e o objecto visado, Husserl utiliza, aliás, os termos de “noese” para o primeiro e de “noema” para o segundo. Não há transcendência do objecto visado em relação ao sujeito que o visa. R.Dart http://marketingaxiologico.blogspot.com/2004_12_01_marketingaxiologico_archive.html



3 Narcisismo em Freud - Em Totem e Tabu, 1912, aparece como um processo de retração da libido ao ego;  e como uma série de atitudes, estados ou traços atribuídos ao narcisismo, como a megalomania e a onipotência do pensamento. http://geocities.yahoo.com.br/jcdaraujo/narcisismo.html - José Carlos de Araújo.

Totem. [De or. Algonquiana] S.m.. 1. Animal, vegetal ou qualquer objeto considerado como ancestral ou símbolo de uma coletividade (tribo, clã), sendo por isso protetor dela e objetivo de tabus e deveres particulares: “E é de supor que, primitivamente, foi a cigarra, como a formiga, totem de alguma tribo, do qual se conserva reminiscência, no emblema, através da mitologia”. (Alberto Faria, Acendalhas, p.57). 2 Representação desse animal, vegetal ou objeto. [F. paral.:tóteme]. Dic. Aurelio.



4 Sobre o narcisismo: A partir de 1914, o narcisismo toma feição estrutural na concepção psicanalítica, quando Freud esclarece a noção de libido narcísica. No artigo intitulado “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud estabelece a diferença entre narcisismo primário e secundário. O narcisismo primário vinculado a idéia de um eu completamente investido pela libido, enquanto o narcisismo secundário aparece como um retorno a essa posição de investimento libidinal no eu, quer dizer, a libido retirada do mundo externo, dos objetos e voltando a ser investida no eu. Primeiramente Freud coloca o eu como uma espécie de reservatório da libido, revendo essa posição apenas em 1923 no seu artigo intitulado “O eu e o isso” quando afirma: “Na origem, toda a libido está acumulada no isso, ao passo que o eu está ainda em curso de formação ou débil. O isso emite uma parte dessa libido para investimentos dos objetos eróticos e mais tarde

o eu, que se forteleceu, procura se apoderar dessa libido de objeto e a se impor ao isso como objeto de amor. O narcisismo do eu é, portanto um narcisimo secundário, retirado dos objetos”.

Em Lacan, o narcisismo não resulta apenas do investimento na imagem de si mesmo (assim como em Freud), mas também da formação dessa imagem, quer dizer, a constituição mesma da imagem do eu. Nesse ponto, ele nos presenteou com o “Estádio do espelho” através do qual enfatiza a relação entre o olhar que foi, inicialmente, dirigido ao sujeito e a formação da imagem do eu como uma identificação.

http://www.congressodeconvergencia.com - Narcisismo e transferência - Sandra Walter

Freud já fazia uso do conceito de narcisismo antes de introduzi-lo em 1914 em Sobre o narcisismo: uma introdução, onde o articula mais profundamente na teoria psicanalítica.  O termo narcisismo aparece em sua obra pela primeira vez em 1910 (Três Ensaios), para explicar a escolha de objeto nos homossexuais. Freud afirmou que estes tomam a si mesmos como objeto sexual, já que procuram jovens que se pareçam com eles, e a quem possam amar como suas mães o amaram. Em Leonardo Da Vinci e uma lembrança da sua infância (1910), o conceito narcisismo vem fundamentar um tipo de identificação quando, ante a perda de um objeto, o ego se transforma à imagem e semelhança daquele. (Narcisismo e relação narcísica de objeto - João Carlos de Araújo) - http://geocities.yahoo.com.br/jcdaraujo/narcisismo.html



5 O inconsciente estruturado com uma linguagem. Que o inconsciente seja estruturado com uma lnguagem permite enunciar o complexo de Édipo sob as modalidades do significante. Particularmente, a homofonia, a lógica e a gramática são pontos nodais da prática freudiana que o trabalho do sonho e do chiste confirmam. Assim, o inconsciente (condensação e deslocamento, metáfora e metonímia) se apreende na palavra que se decifra nos três registros do real, do simbólico e do imaginário.

Complexo de édipo - conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente com relação aos pais. Sob a sua forma dita positiva, o complexo apresenta-se como na história de Édipo-Rei: desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob a sua forma negativa, apresenta-se de modo inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto. Na realidade, essas duas formas encontram-se em graus diversos na chamada forma completa do complexo de Édipo. Segundo Freud, o apogeu do complexo de Édipo é vivido entre os três e cinco anos, durante a fase fálica; o seu declínio marca a entrada no período de latência. É revivido na puberdade e é superado com maior ou menor êxito num tipo especial de escolha de objeto. O complexo de Édipo desempenha papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano.Para os psicanalistas, ele é o principal eixo de referência da psicopatologia; para cada tipo patológico eles procuram determinar as formas particulares da sua posição e da sua solução. A antropologia psicanalítica procura encontrar a estrutura triangular do complexo de Édipo, afirmando a sua universalidade nas culturas mais diversas, e não apenas naquelas em que predomina a família conjugal.

http://www.psicopedagogia.com.br/atuacao/glossario.asp?



A hipótese lacaniana da letra encontra aÌ sua extensão, em quanto que o ato psicanalítico coloca ao trabalho o objeto a, o qual representa a dimensão pulsional da linguagem. http://convergencia.aocc.free.fr/argum_p.htm - Guy Dana, Virginia Hasenbalg, Robert Lévy, René Lew, Jean Szpirko y Hector Yankelevich (Comitê de Enlace de Paris).

6 Simbolismo - Em sentido amplo, modo de representação indireta e figurada de uma idéia, de um conflito, de um desejo inconsciente; neste sentido, em psicanálise, podemos considerar simbólica qualquer formação substitutiva. Em sentido restrito, modo de representação que se distingue principalmente pela constância da relação entre o simbolizado inconsciente; essa constância encontra-se não apenas no mesmo indivíduo para outro, mas nos domínios mais diversos (mito, religião, folclore, linguagem, etc.) e nas áreas culturais mais distantes entre elas. http://www.psicopedagogia.com.br/atuacao/glossario.asp?

7Segundo Jurandir Freire para Freud: o narcisismo é o estado psíquico resultante da localização no ego dos investimentos libidinais. A articulação do Ego com a problemática narcísica nasce da preocupação de Freud em responder aos impasses de sua teoria, suscitados em boa parte pelo desafio lançado à sexualidade por Adler e Jung. Estes dois ex-discípulos de Freud insistiam em mostrar que a psicanálise, hipnotizada pela sexualidade, esquecia que o Ego também podia ser fonte de "traumatismo psíquico", por assim dizer. Para Adler a prova da patogenicidade do Ego encontrava-se no complexo de inferioridade; para Jung a patologia das psicoses delirantes crônicas não-esquizofrênicas mostrava que os complexos sexuais, nestes casos, eram secundários diante dos "complexos" de um Ego grandioso, reivindicante e sensitivo. Adler nunca importou muito a Freud, assim o que quer que ele pensasse era de pouca monta. Jung, não; era seu preferido. Por isso Freud não via com bons olhos a querela em torno do Ego. Na origem da polêmica estava o dedo de Bleuler e da Escola de Zurich, que disputavam com o pai da psicanálise os favores intelectuais de Jung. Nesta disputa, o papel do Ego nas psicoses não-esquizofrênicas, representava o primeiro lance vitorioso do mestre suíço. Obrigado a convir que a dinâmica das neuroses esbarrava na psicose, Freud recuou. Admitiu a importância do Ego. Mas logo tratou de mostrar quem detinha a última palavra sobre o assunto: "Eu não sei o que fazer com a personalidade, nem tampouco com o ego bleuliano. Penso que são conceitos de superfície". Este trecho da correspondência com Jung é eloqüente. O recado era claro: Bleuler descreve, mas só Freud explica. Qual a explicação? O argumento resumidamente era o seguinte: se o Ego tem o papel que se vê na psicose é porque deixou de ser o sensato representante dos interesses da autoconservação para tornar-se joguete das pulsões sexuais. Por acaso não era isto que ocorria com Shreber, com o Homem dos ratos ou com os "primitivos" de Totem e Tabu? A megalomania infantil e a onipotência das idéias, analisadas naqueles estudos, não ilustravam este funcionamento sexual do Ego, que recebe sua plena formulação com a teoria do narcisismo? Seria demais afirmar que a psicanálise, de modo implícito, sempre sustentou a idéia de um Ego narcísico? A teoria analítica não precisava de Bleuler para entender o valor do Ego na vida psicopatológica. Bleuler é que precisava da psicanálise para compreender por que o Ego enlouquecia, arrastando o sujeito para a psicose. O quebra-cabeças parecia decifrado. O ego engrandecido da psicose era o Ego sexualizado. A deusa libido estava vingada. As respostas de Freud às questões levantadas pela nova concepção do Ego são à primeira vista desconcertantes. Quanto ao futuro do narcisismo, duas soluções são propostas. Na primeira, Freud afirma que o narcisismo egóico da primeira infância tem como destino normal os ideais. Nestas formações psíquicas devem concentrar-se os investimentos sexuais do Ego. A fixação na posição libidinal passada significa psicopatologia à vista. A distinção entre Ego Ideal e Ideal do Ego é posterior a Freud. No estudo sobre o narcisismo o que é dito é que o circuito dos Ideais e os investimentos objetais são a forma não patológica de metabolizacão do narcisismo infantil.

Na Segunda solução proposta, Freud defende a hipótese de que desde o início a captura do Ego pela sexualidade faz-se às custas de uma metamorfose da libido. Os investimentos libidinais dirigidos ao Ego seriam dessexualizados ou sublimados na própria estrutura egóica. Esta energia, uma vez neutralizada em seu teor sexual, estaria em Segunda hipótese à disposição dos ideais. Narcisismo em tempos sombrios - Jurandir Freire  



8 Sublimação - Processo postulado por Freud para explicar atividades humanas sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na força da pulsão sexual. Freud descreveu como atividades de sublimação principalmente a atividade artística e a investigação intelectual. Diz-se que a pulsão é sublimada na medida em que é derivada para um novo objetivo não sexual e em que visa objetos socialmente valorizados. http://www.psicopedagogia.com.br/atuacao/glossario.asp?


9 A teoria kleiniana estrutura-se sobre dois conceitos: o da posição esquizoparanóide, que combate de forma ilusória, mas violenta, toda perda, e o da posição depressiva, na qual a perda é realmente comprovada. Essas duas posições referem-se à perda, ao trabalho de luto e à reparação, consecutivos, de dois objetos psíquicos parciais e primordiais, dos quais todos os demais nada mais são do que substitutos metonímicos: o seio e o pênis. Ambos os objetos parciais entram em jogo em uma cena imaginária inconsciente, chamada por M.Klein de “cena materna”.
Nesse teatro do “eu-nascente”, sobre essa outra cena onde são representadas sua existência e sua atribuição, tais objetos irão surgir ou voltar às coxias e a seu depósito de acessórios. Nele, suas representações psíquicas encontram os índices de realidade, os traços reais e as representações que servem para lhes dar uma identidade familiar e perceptível, pois correspondem a outros objetos reais, que são os sujeitos parentais. M.Klein fornece, desses travestimentos identificatórios, elaborados pela psique do “infans” – esse imaginário irá, de fato, conhecer sua quintessência entre os três e os dez meses- graças aos quais o “infans” irá se encontrar, no estranho dos outros, um belo exemplo literário, em uma obra de M.Ravel, a respeito de um texto de Colette (1925): “L’enfant et les sortilèges”. Assim, a realidade exterior não é, em sua teoria, nada mais do que uma “Weltanschauung” da própria realidade psíquica. Porém, ela permite que uma criança muito pequena se assegure uma certa identidade de percepção e de pensamento entre seus objetos imaginários e outros mais reais; a seguir, adquire, progressivamente, juízos de atribuição e de existência a seu respeito, a fim de constituir um domínio das angústias com as quais é confrontada pelas pulsões de vida e de morte, pois essas pulsões exigem dela, para sua satisfação, objetos reais ou substitutos imaginários.

A teoria kleiniana desenvolve uma elaboração interessante. Esses objetos, que são para a criança o seio e o pênis, bem como seus desdobramentos reais, parciais ou totais (pais, irmão, irmã, meia-irmã, etc.), poderia o “infans” entrega-los, sem discernimento, à exigência pulsional, mesmo que representem para ele uma fundamental aposta atributiva, existencial e identificatória, e mesmo que, pela identificação com eles, poderia ele próprio se entregar às pulsões? Não o poderá fazer sem discernimento, mas em que consiste esse discernimento? Adquire a consistência de “dois operadores defensivos”, aos quais sucede, quando operam, “uma série de processos de tipo sublimatório”. Os dois operadores são, um deles, de ordem quantitativa e, outro, de ordem qualitativa.


Quantitativamente, o objeto é fracionado, dividido, fragmentado e multiplicado, por uma espécie de clivagem (clivagem do objeto); qualitativamente, é uma espécie de mínimo divisor comum que divide tudo o que está clivado em duas únicas categorias: a do bom e a do mau. Esses dois operadores defensivos, que, portanto, são a multiplicação por clivagem e as divisões pela classificação, a seguir, dão acesso a processos de tipo sublimatório: a introjeção para si, a projeção para fora e a identificação com aquilo que é introjetado ou projetado, podendo esses processos se combinar, para produzir, particularmente, identificações projetivas e introjetivas. Esses processos são sublimatórios, pois mediatizam as relações do sujeito com a pulsão, cuja satisfação precisa operar desvios suspensivos, desvios esses justamente impostos por estes processos.



10 Falo. [Do gr. Phallós, pelo lat. Phallus.] S. m. 1. Representação do pênis, adorado pelos antigos como símbolo da fecundidade da natureza. 2. O pênis.





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