Gioconda mussolini, aluna e professora em são paulo (1920-1945)



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GIOCONDA MUSSOLINI, ALUNA E PROFESSORA EM SÃO PAULO (1920-1945).

Andrea Ciacchi

O objetivo principal deste trabalho é a reconstrução da trajetória biográfica e intelectual de Gioconda Mussolini, aluna, assistente e professora, sucessivamente, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo de 1935 a 1969. Mas, irei muito mais longe, no tempo e no espaço, para incluir nesta trajetória a chegada da Itália ao Brasil da sua família paterna, em 1886, e a sua experiência escolar, na cidade de São Paulo, nos anos Vinte e Trinta do século passado.

Gioconda Mussolini não é una anônima, mas quase. A sua relevância para a história intelectual brasileira desdobra-se em três direções. Primeiro, por ela ter protagonizado os primórdios do ensino da Antropologia, numa instituição pioneira como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, concorrendo para a formação de muitos cientistas sociais, alguns dos quais ativos até hoje; segundo, pela sua contribuição ao campo da "antropologia da doença", através da sua dissertação de mestrado, defendida na antiga Escola Livre de Sociologia e Política, em 1945; finalmente, e sobretudo, o nome dela é referência fundamental para os estudos brasileiros sobre pesca, cultura e organização social de comunidades litorâneas em geral e das populações caiçaras do litoral de São Paulo, em particular. O campo da antropologia da pesca tem no nome de Gioconda Mussolini uma espécie de "mãe fundadora". Suas pesquisas ainda orientam os estudos de muitos pesquisadores contemporâneos. Na primeira e na terceira dessas três direções, não é mais nem tanto o “pioneirismo” a ser marca de reconhecença, mas as novidades teóricas, metodológicas e epistemológicas que ela tentou introduzir na sua produção acadêmica, a despeito da sua reduzida dimensão e da dispersão a que ela foi submetida.

Como pano de fundo de tudo, aqui (a justificativa para esta pesquisa, a “participação” que provavelmente nem sempre estará disfarçada no meu observar e ouvir, a insistência e até mesmo a repetição de alguns pormenores biográficos, a busca talvez obsessiva por todos os atalhos e ligações possíveis para a rede de contatos pessoais e institucionais de Gioconda, e muito mais), está o sentimento de que já não podia mais demorar a ser revisitada a trajetória pessoal e intelectual daquela que foi a primeira mulher brasileira a fazer do ensino da antropologia social e cultural o seu destino profissional e, como veremos, existencial. Um destino que, algo teatralmente, verá a sua morte, quase em cena, por um acidente vascular ocorrido poucos minutos depois de ter ministrado uma aula nos barracões do novo e ainda precário campus da USP, em 28 de maio de 1969. Um mês havia se passado do decreto que aposentara compulsoriamente muitos docentes da Universidade de São Paulo, entre os quais alguns dos seus mais queridos amigos e ex-alunos, como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Paula Bieguelman, Paul Singer, entre outros.

* * *


Gioconda Mussolini nasceu em 15 de novembro de 1913, em São Paulo, no bairro do Bom Retiro1. Mas a sua história começa bem antes, e muito longe dali.

No dia 7 de abril de 1886, desembarcaram do navio “Washington”, no porto de Santos, Antonio (45 anos), Silvio (23 anos) e Cesare (11 anos) Mussolini. São os únicos italianos com esse sobrenome a terem chegado a esse porto no século XIX, segundo consta no “Livro de Registro de Imigrantes da Hospedaria de São Paulo”2. O cruzamento das informações contidas nos documentos sobre imigração vêneta, nas lembranças familiares e nas datas de nascimento e morte dos Mussolini sepultados no Cemitério São Paulo, em Pinheiros, permitiu saber que o avô paterno de Gioconda chamava-se Silvio Mussolini, nascido em Pádua (ou na província de Pádua) em 1860. Ele casou-se com Carolina Peretti Mussolini, nascida na província de Rovigo, em 1866. Em 1886, em Veneza, onde o casal passara a residir, nasceu Umberto Mussolini, o pai de Gioconda.

No mesmo ano de 1886, Silvio, com seu pai (e bisavô de Gioconda) Antonio (nascido em 1841) e o irmão Cesare (nascido em 1875) vieram ao Brasil, no navio Washington. Em 1888, vieram Carolina e o pequeno Umberto, então com dois anos de idade.

A emigração italiana – e, mais especificamente, vêneta – para o Brasil – é tema de inúmeras obras historiográficas e sociológicas, como se sabe. Aqui, cabe apenas lembrar que as províncias de onde provavelmente vieram os nossos Mussolini (Pádua, Rovigo, Veneza) pertencem à região do Vêneto caracterizada por planícies, ocupadas, na segunda metade do século xix, por “grandes propriedades, já com caráter capitalista”3, mas que nesse período, passaram por grave crise, a “grande depressão”, que viabilizou a passagem para o capitalismo monopolista. Nesse contexto, a proletarização do pequeno produtor agrícola “tornou-se sinônimo de expulsão”4 e de emigração. O ano da chegada dos Mussolini corresponde ao começo da “segunda fase” da grande imigração italiana. Na formulação de Zuleika Alvim5, entre 1885 e 1902, “consolida-se [no Estado de São Paulo] nova facção econômica no poder – os fazendeiros do Oeste -, enquanto o mercado de trabalho se apóia de fato na mão-de-obra livre, definindo-se, então, uma política imigratória, basicamente calcada no imigrante italiano”. Dos dois lados do Atlântico, portanto, injunções e interesses econômicos distintos, mas articulados e convergentes, fizeram com que os números acima mencionados se tornassem tão vultosos e socialmente significativos.

Sem puder nos aprofundar nos documentos e nos dados (frequentemente contraditórios) da emigração vêneta para São Paulo, temos que nos contentar com a hipótese de os nossos Mussolini terem sido expulsos a partir de um movimento migratório que, em 1886, ainda parecia incipiente, mas apontava para a explosão de 1888, aí se articulando e combinando forças centrífugas operantes no Vêneto, e forças centrípetas atuantes no Brasil no crepúsculo do regime escravocrata.

Estabelecido na cidade de São Paulo (mas não sabemos em que região), acompanhado de seu pai, Antonio, sua mulher, Carolina, e seu filho, Umberto, Silvio Mussolini abriu uma “fábrica de licores”, como relata a irmã de Gioconda, dona Ariclé. Essas atividades industriais, ainda que não documentadas, devem ter consentido uma rápida ascensão social dessa família de imigrantes, que, diferentemente da grande maioria dos seus conterrâneos vênetos, não completou a sua viagem se dirigindo para as fazendas de café no interior do Estado.

Essa vertente urbana da emigração italiana em São Paulo, embora muito menos estudada do que aquela que se dirigiu de imediato para os centros cafeeiros do interior, é muito relevante. Segundo Angelo Trento, um historiador italiano especialista em emigração italiana,
O emprego urbano dos italianos começa praticamente com as primeiras correntes migratórias, estimulado pelas transformações econômicas pelas quais o Brasil passa no período de maior afluxo. Ao chegarem num momento de transição, isto é, quando a escravidão entra em crise e se recorre ao trabalho livre, os imigrantes conseguem inserir-se num contexto urbano ainda magmático, que oferece possibilidades de empregos em fase de gestação e de definição, e, portanto, ainda não aproveitadas pelos poucos trabalhadores urbanos locais6.

Impossível não lembrar que no ano de chegada dos primeiros Mussolini, 1886, o Brasil ainda é um império, e a sua vida econômica, social e cultural ainda se encontra estruturada a partir do regime escravocrata. Nesse mesmo ano, a população da cidade de São Paulo não passava de 47 mil pessoas7. Na síntese de Franco Cenni, “naquele tempo estava se forjando o futuro do Brasil, com a abolição e a proclamação da República, grandes reformas que teriam como conseqüência uma modificação radical em todo o sistema econômico da Nação”8.

Há, de fato, numerosos registros de imigrantes que, apesar de destinados às fazendas de café, resolveram ficar na capital paulista, sobretudo nas últimas décadas de 18809. Assim, teria sido “incalculável”, nas cidades paulistas, mas sobretudo na Capital, a quantidade de “tendas de sapataria, marcenarias, fábricas de massas, de graxa, de óleos, de tintas de escrever, fundições, tinturarias, fábricas de calçados, manufaturas de roupas e chapéus que funcionam em estalagens, em fundos de armazéns, em resumo: em lugares que o público não vê”10. Muito rapidamente, como mostra Edgar Carone, na estratificação social da Primeira República se formou mesmo uma “classe média intermediária” formada por “imigrantes [...] portugueses, italianos, sírios, [que] imigraram diretamente para as cidades ou abandonam o campo pelo comércio”11. Para perfazer esse panorama, Richard Morse desenha uma espécie de cadeia de ascensão social que parte do pequeno mascate, cujo sonho teria sido o de “estabelecer-se com loja ou fábrica numa cidade, idealmente, São Paulo”12.

O mesmo adjetivo é usado, novamente, pelo mesmo observador contemporâneo, Antônio Francisco Bandeira Junior: “É incalculável o número de pequenas marcenarias em que trabalha um só homem. [...] fábricas de bebidas e de massas, vulgarmente conhecidas por ‘macarrão’”13. Lucy Maffei Hutter também relata que “a pequena indústria [...] estava, em princípios deste século, quase que inteiramente nas mãos dos italianos, os quais implantaram fábricas de cervejas, de licores, de gêneros alimentícios etc.”14.

É mais cuidadoso o olhar de José de Souza Martins, que, alertando para o perigo de se reproduzirem as representações ideológicas da época, calcadas na figura do self made man (casos como os das indústrias Matarazzo ou da família Crespi, abordados pelo autor permitem quebrar esse paradigma), também lembra que “as indústrias de imigrantes italianos eram predominantemente familiares e sobretudo de família nuclear”15 e que, “ao contrário dos descendentes de alemães, que preferiam a indústria mecânica e metalúrgica, os italianos preferiam nessa época a indústria de bens de consumo, principalmente tecidos, chapéus, calçados e alimentos”16.

Infelizmente, as lembranças familiares dos descendentes de Silvio Mussolini não permitem vislumbrar mais do que isso: como, onde e quando ele chegou a abrir a sua “fábrica de licores” e como e durante quanto tempo ela funcionou, ainda não foi possível saber. Seja como for, em pouquíssimos anos, os Mussolini tornam-se paulistanos, pertencentes a uma incipiente, mas determinada, classe média urbana. Todos, aliás, logo se naturalizam brasileiros. Essa última informação, apresentada por Ariclé, que me parece funcionar como mito de uma brasilidade específica, enquanto precoce e bem sucedida, liga-se também à política da recém instituída República Brasileira: um decreto de 14 de dezembro de 1889, considerando o “inolvidável acontecimento do dia 15 de novembro de 1889”, determinava que todos os estrangeiros residentes no Brasil no dia da proclamação da República seriam automaticamente considerados cidadãos brasileiros, salvo declaração em contrário no prazo de seis meses17.

As possibilidades de capitalização econômica, social e cultural desse núcleo inicial dos Mussolini são, como se disse, de dificílima visualização. Mesmo assim, sabemos que, na década de Noventa, o pequeno Umberto se alfabetizou com uma maestra, uma professora particular italiana e, mais tarde, estudou contabilidade (também num curso particular) e trabalhou um tempo como contador. Esteve empregado, nessa qualidade, numa grande empresa industrial de chocolate e balas do começo do século, no bairro do Bom Retiro. Talvez a experiência nessa firma, além do exemplo paterno, tenha feito surgir o desejo de ter o seu próprio negócio. Mais tarde, de fato, Umberto abriria uma fábrica de doces italianos, onde produzia panettone, torrone, balas e outras guloseimas, no Brás. Silvio e Umberto, portanto, devem ter pertencido àquele setor dos contingentes de imigrantes italianos que protagonizaram uma ascensão econômica e social considerável. O panorama é bem sintetizado por Warren Dean: os industriais imigrados “compreendiam as [...] preferências [dos seus conterrâneos] em matéria de alimentação, vestuário e habitação, e instalaram máquinas para produzir os biscoitos, a pasta, a cerveja, os óleos de cozinha [..] e outros bens que acabaram sendo aceitos também pelas classes inferiores nativas”18. O sobrenome Mussolini não aparece entre as dezenas de sobrenomes italianos citados pelos numerosos repertórios e reconstruções historiográficas voltadas para o esclarecimento da posição dos imigrantes na industrialização paulista e paulistana entre 1880 e 193019. Mas, se ele não iguala nem se aproxima, em termos de capital econômico e, muito menos, simbólico, sobrenomes como Matarazzo, Crespi ou Siciliano, mesmo assim Silvio e Umberto devem ter logrado a construção de um espaço nos interstícios da classe média da capital, como, inclusive, testemunham alguns dos endereços onde passariam a residir.

Umberto gostava muito de dançar e, num baile de carnaval, conheceu Adalgisa Vieiga (nascida em 1889, filha de pai português e mãe brasileira), com quem casaria, em 1907. Depois do casamento, Umberto e Adalgisa fixariam residência nos Campos Elísios, nas proximidades da Estrada de Ferro Sorocabana – um bairro de alto padrão, onde também morava uma parte da elite paulistana e onde, em 1911, se instalaria a residência oficial do presidente do Estado. Nesse bairro, mas numa rua não lembrada por Ariclé, nasceram as duas primeiras filhas do casal: Norma (em 1908) e Aida (em 1910). E também Silvio, que nasceu em 1911 e morreu com menos de dois anos de idade. Em 1912, a família Mussolini se mudou para uma casa maior, na Rua Doutor Rodrigo de Barros, 41 no Bom Retiro. Nessa casa, hoje derrubada, nasceram Gioconda (em 1913), e, entre 1915 e 1928, seus sete irmãos (mas só quatro irmãs sobreviveram). Em 1929, a família, a essa altura composta pelo casal, as sete filhas e o único menino, Ernani (que morreria em 1935), muda-se para uma casa na Rua dos Bandeirantes, a poucos metros da Dr. Rodrigo de Barros, da qual é praticamente a continuação, do outro lado da av. Tiradentes, ainda no Bom Retiro.

No total, os Mussolini moraram no Bom Retiro durante vinte e dois anos, entre 1912 e 1934. Nesse período, eles e os demais moradores do bairro e da cidade, passaram pelos efeitos da i Guerra Mundial, da gripe espanhola de 1918, das “revoluções” de 1924 e de 1932. A baliza de 1934, último ano de residência no Bom Retiro, marcará também o ingresso de Gioconda na Faculdade.

É oportuno lembrar que o Bom Retiro, hoje muito identificado com a comunidade judaica de São Paulo, foi, nas primeiras quatro décadas do século XX, predominantemente ocupado por famílias vênetas e de descendentes de vênetos, após pouco mais de vinte anos de “domínio” português, no final do século xix.

Em 1920, Gioconda iniciou o curso primário (antes mesmo de completar sete anos de idade) no Colégio Santa Inês, na rua Três Rios, no Bom Retiro, a poucos minutos de caminhada da casa da rua Doutor Rodrigo de Barros. Lá, com as irmãs francesas (salesianas), Gioconda começou o estudo da língua francesa, que lhe seria tão útil, mais tarde, com os professores da Faculdade de Filosofia. Em 1922, após dois anos de estudo com as freiras do Santa Inês, Adalgisa e Umberto colocam a filha numa escola pública, o “Grupo Escolar Regente Feijó”, na av. Tiradentes, 90, também no Bom Retiro, ainda mais próximo da residência dela, com vista para o Jardim da Luz.

Parece significativo o fato de a instrução da pequena Gioconda não ter passado pela “miríade de escolas primárias que surgiam e desapareciam em ritmo impressionante”20, abertas e administradas por imigrantes, nem, mais tarde, pelo “Istituto Medio Dante Alighieri”, mais conhecido, ainda hoje, como “Collegio Dante Alighieri”, inaugurado em 1912 e dirigido, inicialmente, pelo bem sucedido empresário italiano Rodolfo Crespi. A opção dos pais de Gioconda pelo ensino público, depois de dois anos no colégio salesiano, não deve ser relacionada apenas a uma injunção econômica, pois o prestígio das instituições que a menina frequentou sucessivamente remete, como será evidenciado já no final da adolescência, para uma excelente formação. Também devem ser levados em contas aspectos prosaicos que, muito provavelmente, orientaram as escolhas dos pais: no final da década de 1910, o Colégio Santa Inês era o único instituto de ensino do Bom Retiro, bairro onde residia a família. Assim que abriu um “Grupo Escolar”, público, nas vizinhanças (o “Regente Feijó”, a apenas 900 metros de casa), Gioconda foi logo matriculada nele.

Gioconda concluiria o primário na “Escola Modelo do Brás”, em 192621. Esta escolha já apontava para uma vocação voltada para o magistério:
Em São Paulo, a difusão dos ideais anarquistas nos meios operários está na base da criação de duas escolas, uma no bairro do Belenzinho, em 1912 e outra no Brás, em 1918, que têm como modelo a Escola Moderna, fundada em 1901 pelo educador espanhol Francisco Ferrer y Guardia (1859-1909). Nesses bairros - com grande concentração operária e imigrante, e um número significativo de fábricas e oficinas - funcionam, desde o fim do século XIX, algumas escolas modelos, pensadas como laboratórios para formação de professores. Como, por exemplo, a Escola Modelo do Brás, inaugurada em 1898, em edifício projetado por Ramos de Azevedo. As Escolas Profissionais Feminina e Masculina do Brás são fundadas no interior desse processo de difusão de estabelecimentos de ensino para os trabalhadores e seus filhos na Primeira República. Além da capacitação técnica e profissional, afinadas com o ideário modernizador de uma sociedade que assiste aos primeiros passos de seu processo industrial, essas escolas apostam também na função moralizadora da educação voltada para o trabalho. Além de bons trabalhadores, e da valorização do trabalho manual em um país recém-saído da escravidão, deve-se formar "bons cidadãos". Os cursos, que duram cerca de três anos, são elaborados com base em aulas teóricas - português, geografia, aritmética etc. - e práticas, realizadas nas oficinas e ateliês. O desenho constitui o núcleo central do currículo, habilitando o artesão e operário para a execução de projetos e planos. As aulas de desenhos garantem ainda a "educação pela correção da visão e firmeza da observação", articulando de modo exemplar habilitação técnica-especializada e formação moral22.

A história dessa escola é tortuosa, mas permite acompanhar a trajetória escolar de Gioconda: ou seja, permite visualizar o fato de que, na passagem do curso primário para o ensino secundário (Curso Complementar da Escola Normal e Escola Normal, de 1927 a 1932, como veremos a seguir), ela não saiu do mesmo prédio da rua Visconde de Abaeté, 154, no Brás, agora a cerca de meia hora de caminhada da casa dos Mussolini no Bom Retiro. Vamos ouvi-la na versão do Centro de Referência em Educação Mário Covas:


O Terceiro Grupo Escolar do Braz, anteriormente Seção Feminina do Grupo Escolar do Braz, foi criado por decreto de 8 de agosto de 1898, e [...] instalado no dia 11 de agosto do mesmo ano. [...] Segundo o Anuário de Ensino de 1913, esse grupo escolar, então denominado de Terceiro Grupo Escolar Modelo do Braz, funcionando no mesmo edifício da Escola Normal do Braz, teve matriculados, naquele ano, 906 alunos, com freqüência média de 609. [...] Conforme Decreto de 02.12.1938, essa escola passou a chamar-se Grupo Escolar Rocca Dordal. Por ocasião da reestruturação da rede oficial de ensino do Estado de São Paulo, na gestão do Secretário de Estado dos Negócios da Educação, José Bonifácio Coutinho Nogueira, conforme Resolução nº 24 D, de 28.01.76, o GESC Rocca Dordal foi fundido com o Instituto de Educação Padre Anchieta, para constituir a Escola Estadual de 1º e 2º Graus “Padre Anchieta” [...]. A atual EE Padre Anchieta foi criada como Escola Normal do Braz, em 24.12.1912 e instalada em 31 de março de 1913 [...]. Posteriormente recebeu os nomes de Escola Normal Feminina da Capital, Escola Normal Padre Anchieta (1920), Escola Normal e Ginásio Estadual Padre Anchieta e Instituto de Educação Padre Anchieta. Um dos edifícios onde funciona a atual EE Padre Anchieta, na rua Visconde de Abaeté, 154, no Brás, foi construído em 191223.
Ariclé lembra que Gioconda sempre foi uma menina que gostava de ler e de estudar, desde a primeira infância. Uma vez, quando ela tinha seis anos, foi acometida por sarampo e, evidentemente, ficou em casa, de cama, sem poder ir à escola. Mas, na hora do almoço, a mãe foi levar-lhe o prato e ela não estava no quarto. Depois de procurá-la por toda a parte, descobriu-se que havia se trocado e ido à escola! A avó foi até a escola, para buscá-la e ela lá estava. A professora comentou que havia estranhado o fato de Gioconda ter chegado despenteada à escola. Quando ela estava matriculada no colégio Santa Inês costumava estudar embaixo de uma laranjeira, onde havia um balanço. Certa noite, Gioconda foi encontrada pela mãe destrancando a porta da cozinha, dizendo que precisava ir estudar um ponto. A mãe, então, mandou que ela voltasse para a cama.

Em 1924, no começo da adolescência de Gioconda, São Paulo


tinha ainda os sons dos pregões dos ambulantes, dos apítos dos trens e dos sinos das igrejas. Pelas ruas de paralelepípedos ou macadame trafegavam indiscriminadamente bondes elétricos, automóveis, alguns velhos tílburis e ainda carroças de lixo puxadas por parelhas de mulas24.
Mas no meio daquele ano, a partir do dia 5 de julho, outros sons rasgariam a cidade. A “Revolução de 24” duraria vinte e três dias e atingiria São Paulo sobretudo em forma de bombardeios aéreos, que golpearam duramente bairros como os Campos Elísios, a Mooca, o Brás, Perdizes. A vida cotidiana dos moradores desses e de outros bairros da cidade foi muito afetada, evidentemente. A região onde moraram Umberto e Adalgisa, pela sua proximidade do palácio do governo, foi uma das primeiras a receber as granadas dos rebeldes. A defesa dessa área, por parte dos “legalistas”, levou o conflito para todos os bairros circunvizinhos, inclusive a Luz e o Bom Retiro, onde os Mussolini moravam já havia doze anos, com seus primeiros sete filhos, que estudavam nas redondezas. As trincheiras que se formavam eram defendidas “por metralhadoras, pistolas e granadas, dirigidas a esmo”25. Pior estava a situação na avenida Tiradentes: a poucos metros do Grupo Escolar onde estudava Gioconda, surgia o Quartel do 4º Batalhão de Infantaria, um dos principais alvos estratégicos dos revolucionários. Ali em frente ficava, então, a Escola Politécnica, a uma quadra da rua Dr. Rodrigo de Barros: foi ela que sofreu as piores consequências. “Incêndios, saques e tiroteios intensos [...] transformaram a vida dos cidadãos em um verdadeiro inferno”26. O testemunho de alguém que, mais tarde, se tornaria muito próximo de Gioconda – Paulo Duarte – é famoso: “as granadas caíam a esmo, ora aqui ora acolá [...] sem ponto certo. O bombardeio durava dias e noites sem cessar; a Santa Casa se enchia de mulheres e crianças, os cemitérios pejavam-se de cadáveres e as fileiras revolucionárias não perdiam um só homem”27. Passou...

Em 1927 e 1928 Gioconda ingressa no ensino secundário frequentando o Curso Complementar da Escola Normal “Padre Anchieta”, ainda na rua Visconde de Abaeté, 154, no Brás, e, logo em seguida, no mesmo endereço, a própria Escola Normal, onde, em 1932, portanto aos dezenove anos de idade, se formaria como “professora normalista”. Na “Padre Anchieta” teve pelo menos um mestre ilustre, Antonio Ferreira de Almeida Júnior (Biologia e Higiene), que se tornaria, em duas oportunidades, “chefe”, ainda que distante, imaginamos, de Gioconda: entre 1936 e 1938, foi Diretor de Ensino da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, e entre 1945 e 1946, foi Secretário da Educação e Saúde Pública28.

É necessário lembrar que na década de Vinte, apenas uma minoria dos meninos e, mais ainda, das meninas, no Brasil, era encaminhada para o ensino secundário:
A escassez de estabelecimentos define, é certo, o caráter altamente seletivo do ensino secundário. [...] Taxas, selos e contribuições concorrem para que as escolas secundárias – públicas e particulares -, além de reduzidas em número, sejam instituições pagas e, mais do que isto, caras. [...] Dada a situação de ordem econômica e social que, assim, se configura, são os jovens afortunados que se beneficiam do ensinos secundário. [...] Nessas condições, pode-se dizer que o ensino secundário brasileiro, encaminhando para os cursos superiores, e conseqüentemente para as carreiras e profissões de prestígio, não é senão um instrumento de manutenção do status social elevado e de ascensão a este status29.
A Reforma escolar promulgada em 1925, portanto dois anos antes de Gioconda ingressar no “Curso Complementar da Escola Normal”, determinou que o ensino secundário passasse de cinco para seis anos. Assim, Gioconda entra no Curso Complementar em 1927 e sai formada como professora normalista em 1932. Essas transformações, ainda segundo Jorge Nagle, atingem sobretudo a Escola Normal. Nessa esfera,
os cursos complementares [como o que Gioconda frequentou em 1927 e 1928] tiveram uma importância que não é demais acentuar: de um lado, representavam um aprofundamento e desenvolvimento do programa escolar primário; de outro, permitiam que a escolarização de nível primário avançasse pelo nível médio, ampliando o conteúdo de modo a se aproximar do da escola secundária30.
“Aliás, a Escola Normal foi, durante longos anos, o meio de que se serviam as moças para adquirirem cultura; eram poucas as que se matriculavam, com o intuito de fazer carreira no professorado”31. Além disso, a partir dos anos Trinta,
o ingresso das mulheres nas escolas normais, consideravelmente superior à dos homens desde o início da República, torna-se cada vez mais pronunciado, evidenciando a presença majoritária do sexo feminino no magistério primário. Em 1940, nas escolas de ensino primário havia 17.961 professores; destes, 16.322 eram mulheres. É interessante observar que a entrada das mulheres para o ensino, iniciada no final dos oitocentos, coincide com o aumento do controle da educação por meio de programas e métodos pedagógicos, além da hierarquia de diretores e inspetores, enquanto autoridades masculinas suficientes, a exigir-lhes o exato “cumprimento do dever"32.

Já em 1933, antes mesmo de completar vinte anos de idade, recém formada como professora normalista, Gioconda ingressa oficialmente no quadro do ensino público paulista, nomeada para o “Grupo Escolar de Pariquera-Assu”, então distrito rural de Jacupiranga, no litoral sul do estado, e emancipado em 1953 – a pouco mais de 200 quilômetros de distância de São Paulo. Mas a permanência na região do baixo Vale do Ribeira será logo interrompida pela admissão, ainda em 1933, no Curso (bienal) de Aperfeiçoamento de professores primários que funcionava no prédio imponente do Instituto de Educação “Caetano de Campos”, na Praça da República, e que equivalia aos dois primeiros anos do Curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia da USP. Segundo consta em relato de uma contemporânea33, Gioconda aqui também teve professores ilustres, como o filólogo Silveira Bueno (português), Carlos da Silveira (história e pedagogia) e Francisco Azzi (francês), que mais tarde se tornaria Diretor da Instrução Pública paulista, entre 1933 e 1934 (e, portanto, seria dali a pouco mais um “dirigente” político da futura jovem professora Gioconda Mussolini34). Azzi, aliás, já deixara o seu nome na educação paulista daqueles anos ao ser um dos que responderam ao inquérito promovido pelo Estado de São Paulo e conduzido por Fernando de Azevedo, em 1926.

Ao concluir o curso de aperfeiçoamento do Instituto de Educação, em 1934, na lembrança de Ariclé, Gioconda é classificada como primeira da sua turma. Por conta deste brilhante desempenho, conta ainda a sua irmã, ela é nomeada para uma cadeira de professora efetiva no Grupo Escolar da Vila Prudente, na zona sudoeste da Capital. Mas, nos termos, mais burocráticos (e, provavelmente, mais acurados do ponto de vista cronológico), do Currículo de 1965, ela é “Removida [em 1936], por concurso de notas obtidas no diploma do Curso de Aperfeiçoamento supra-mencionado, para o Grupo Escolar de Vila Prudente [...], atualmente G.E. ‘República de Paraguay’”. Na realidade, como veremos, as atividades de Gioconda como professora primária só se desenvolvem durante alguns meses de 1938. Em 1936, data da sua nomeação para a Escola da Vila Prudente, ela estava cursando o segundo ano de Ciências Sociais e Políticas, na Faculdade de Filosofia, onde fora admitida, justamente, como “professora primária comissionada”, em 1935, ou seja, logo depois da conclusão do curso de aperfeiçoamento.

1938, então, seria a data que marca o seu ingresso definitivo nos quadros da Universidade de São Paulo, como auxiliar de ensino do professor Paul Arbousse Bastide na Cadeira de Sociologia i da FFCL.

O “Caetano de Campos”, onde Gioconda freqüenta esse Curso de Aperfeiçoamento, é um marco na história da educação pública paulistana. Ele acolhia, nesses anos, jovens que se tornariam famosos, e procedentes de camadas mais abastadas, provavelmente, que a de Gioconda, como Sergio Buarque de Holanda, a futura escritora Lygia Fagundes Telles, ou duas das mulheres de Oswald de Andrade, Patrícia Rehder Galvão (Pagu) e Maria Antonieta d’Alkmin – o que confirma, de alguma forma, o aumento das possibilidades e perspectivas sociais da família Mussolini. 1933, lembremos, é o ano sucessivo à “Revolução Constitucionalista”, período em que entra em crise a atividade industrial de Umberto Mussolini, como vimos. Mas a trajetória de Gioconda, única, na frátria, a chegar tão longe nos estudos e a vislumbrar um encaminhamento profissional sólido e concreto, estava mesmo traçada e parecia mesmo sem retorno.

Na faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, na sua Secção de Ciências Sociais e Políticas, Gioconda ingressara em 1935, na segunda turma da nova instituição. Essa história também é lembrada por Ariclé:


Em 1934, uma amiga de infância de Gioconda, Carmen Kuchembuck, chegou para ela e disse que havia uma nova Faculdade de Filosofia, na cidade, e que estava abrindo vagas para normalistas. Gioconda e Carmen viraram madrugadas para estudar para o exame de admissão. Naquele carnaval de 1935, elas foram brincar a folia e, na volta, com um colchão colocado no escritório da casa da rua Pirapitingui, dormiram poucas horas, para voltar a estudar logo em seguida. Gioconda gostava de estudar, mas também de brincar o carnaval e dançar!

Ariclé lembra ainda que para entrar na Faculdade, era obrigatório um exame em uma língua estrangeira, a ser escolhida entre francês, inglês e alemão. Gioconda escolhe a língua francesa, aprendida com as freiras do “Santa Inês” e aperfeiçoada na Escola Normal, e é classificada em segundo lugar. Quem é admitido em primeiro lugar é Mário Wagner Vieira da Cunha, também um normalista35, que faz o exame de alemão.

* * *

Entre pequenos acontecimentos familiares e privados e grandes movimentos sociais e culturais, o certo é que a trajetória da família Mussolini se desdobrou nas frestas do processo de construção da São Paulo moderna, “na confluência [...] [d]a abolição da escravatura (1888), [d]a instauração do regime republicano (1889) e [d]o surto de industrialização”36. Observada mais de perto, essa família, que preparava uma das suas filhas para ladrilhar um percurso rumo a uma posição de certo destaque, na esfera cultural e institucional, também pode ser flagrada no caminho que, ainda na formulação de Carlos Guilherme Mota, a levaria para


[...] um novo setor da sociedade que não pertencia à aristocracia rural ou urbana, mas também não era proletarizada. Era uma camada social intermediária, com frações sociais de várias origens, desde a pequena nobreza decadente, profissionais de vários ramos do comércio, funcionários de lojas, banqueteiros e cozinheiras da alta sociedade, alfaiates e chapeleiros, professores e assim por diante37

Ao longo das quatro décadas que intercorrem entre a chegada de Silvio Mussolini da Itália (1886) e o ingresso de Gioconda na faculdade de Filosofia da USP (1935), a cidade de São Paulo muda o seu rosto. Os primeiros bondes elétricos, as primeiras opções de lazer “doméstico” (Ariclé, já vimos, conta com orgulho que a família Mussolini, quando residia na rua Dr. Rodrigo de Barros, foi a primeira do bairro a possuir rádio, vitrola e... enceradeira!), a inauguração de novos teatros, a Semana de Arte Moderna, os primeiros clubes de futebol, os cafés, os bailes. E a evolução das suas escolas e modelos de ensino...

Uma cidade que Gioconda aprenderia a conhecer a partir de um ponto de partida topográfico (a infância e a adolescência entre a Luz, o Bom Retiro e o Brás) e de um ponto de vista social e psicológico que inclui a somatória dos olhares de uma rede familiar da qual ela própria mais tarde se destacaria, graças a uma trajetória singular, porém toda engendrada nas próprias possibilidades dessa mesma rede no seu cruzamento com a “modernização” de São Paulo.

Gioconda é filha e neta de pequenos industriais emigrantes, que conviveram e ascenderam socialmente com “técnicas da Primeira Revolução Industrial: o bonde a burro, a iluminação a gás, manufaturas com trabalho manual, fábricas com energia a vapor”38. Mas é exatamente nessa condição que ela vai se inserir num projeto político e ideológico que, à revelia dos seus mentores, permitirá a ela, e a outros como ela, destinos diferentes dos que se esperaria. Nesse sentido, tendo transitado pelos entrelaçamentos contemporâneos da modernização conservadora implícita no projeto da “comunhão paulista”, mas, também, pela periferia desse projeto, marcada pelo Modernismo e pelos seus reflexos culturais, literários, escolares e administrativos (do Departamento de Cultura à Sociedade de Etnografia e Folclore à Escola de Sociologia e Política), a trajetória de Gioconda será paradigmática em dois sentidos: o sentido próprio e o seu avesso – o paradoxal.

Mas essa cidade reserva-lhe também sofrimentos publicamente compartilhados (a penúria dos anos da Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola de 1918, as bombas de 1924 e os combates “revolucionários” de 1932), e outros mais íntimos e secretos. Mas, também, abre-lhe as portas da Faculdade de Filosofia, encaminhando a sua trajetória para rumos não previstos. Aqui, porém, já estamos na primeira metade daquela década de Trinta que (nunca será demasiado lembrá-lo) “foi um marco histórico, daqueles que fazem sentir novamente que houve um ‘antes’ diferente de um ‘depois’”39. Penso em Gioconda Mussolini, então, como alguém que também catalisou “elementos dispersos para dispô-los numa configuração nova”40, assim como muitos dos seus colegas e das suas colegas – companheiros e companheiras de geração, de classe e de origem étnica, que reencontraremos na Faculdade de Filosofia.

Em 1935 Gioconda entra na então denominada sub-Seção de Ciências Sociais e Políticas da recém criada Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP41, como integrante da segunda turma de ingressantes naquela instituição e como “professora primária comissionada”42, ou seja, dispensada, com vencimentos, das suas atividades docentes, desempenhadas, como vimos, ora na pequena Jacupiranga ora no Grupo Escolar da Vila Prudente, mas sempre subordinadas à suas tarefas como aluna da Faculdade. Pertence àquele “grupo de jovens, animado de grande ardor para o trabalho, conhecendo perfeitamente as suas possibilidades, mas sabendo também que, antes de mais nada, são professores e que por esta razão foram enviados à Faculdade”, na definição de um dos seus mais destacados professores, o geógrafo francês Pierre Monbeig43.

Mulher, e com sobrenome44 imigrante, Gioconda Mussolini encaixa-se bem no perfil dos alunos da FFCL a partir do seu segundo ano de funcionamento, um grupo social muito diferente do preconizado pelos seus mentores, e também bem distinto do perfil daqueles que se encaminhavam para as antigas faculdades profissionais já existentes45: os filhos da elite paulista. Em depoimento, Antonio Candido narra, ainda, sobre a existência de dois grupos, na Faculdade de Filosofia:
os rapazes e moças de famílias de classe média mais ou menos arranjada, em geral filhos de profissionais liberais, fazendeiros comerciantes, altos funcionários, que só estudavam e não trabalhavam. E havia os professores primários comissionados [...] dos quais sairiam alguns dos seus [da Faculdade] mais brilhantes professores46.
E, em outra ocasião:
[A Faculdade de Filosofia] era de fato uma iniciativa da cultura burguesa, como não podia deixar de ser; era a oligarquia pagando o luxo de construir uma Faculdade de tipo franco-italiano. Mas com isso [...], abriu as oportunidades para a formação moderna de um grupo no fundo inconformado em vários níveis. Grupo crescido no flanco da sociedade burguesa, constituído não apenas pelos seus rebentos mais inquietos ou francamente insatisfeitos, que recusavam o molde aristocratizante das escolas tradicionais, mas de elementos da pequena burguesia, professores primários comissionados [...]47.
Outro depoimento, de Maria Isaura Pereira de Queiroz, proporciona mais detalhes e apresenta um contexto em que é mais fácil situar a experiência de Gioconda Mussolini:
todas as vezes que a quantidade de vagas não fosse preenchida [...] abrir-se-ia o exame para os professores normalistas que, exercendo sua profissão, quisessem melhorar de nível. Exigia-se que no exame de ingresso e naqueles que iriam prestar durante o curso obtivessem sempre nota igual ou superior a sete, caso contrário seriam remetidos de volta à escola ou ao ginásio em que trabalhavam. [...] Porém foram poucos os que persistiram e chegaram a se diplomar48.

Finalmente, Jandyra França Barzaghi, aluna da primeira turma de química na FFCL (e primeira doutora nessa disciplina, em 1942), também lembra:


Uma das finalidades da nova Faculdade [...] era formar professores primários, secundários, especialistas nas diversas matérias. [...] As professoras [comissionadas] acudiram em massa, espalharam-se por toda a Faculdade, primeiramente matriculadas em caráter condicional, logo depois convertida em matrícula regular, com aceitação do diploma de escola normal, desde que anterior a 1937; isto porque em 1936 tinha sido criado o Colégio Universitário e, daí por diante, nos anos seguintes, só os alunos que o cursavam teriam ingresso na Faculdade49.

Essa pluralidade de origens dos alunos da FFCL continuaria durante alguns anos. Maria Isaura Pereira de Queiroz, pertencente a “uma família quatrocentona”50, cinco anos mais moça do que Gioconda, mas que entraria na Faculdade só em 1946, ou seja, onze anos depois do ingresso dela, tendo sido, aliás, aluna e mais tarde colega da própria Gioconda, lembra também:


Adolescente, fiquei sabendo que não poderia freqüentar nem qualquer corso, nem qualquer baile. O corso “freqüentável era o da avenida Paulista, onde encontrava primos e primas, filhos de amigos da família – onde, em suma, permanecia no “meu meio”. No bairro do Brás havia também um corso e famosas batalhas de confete; mas era impensável que meninas de “boa família” se misturassem com imigrantes italianos e espanhóis e seus descendentes! [...] No fim dos anos 30, o corso da avenida Paulista foi se tornando cada vez mais “misturado”; em muitos dos carros, havia gente que, pela maneira de se vestir e comportar, contrariava as regras da “nossa” classe social. A “promiscuidade” se tornava intolerável e as famílias da camada superior se retiravam pouco a pouco das ruas, deixando para o “povo” a celebração carnavalescas de desfiles51.
Em outras palavras, aquela “promiscuidade”, saindo da avenida Paulista, deslocava-se para as salas de aula da Faculdade.

Mas a FFCL não possuía apenas uma diferenciação interna engendrada pelas origens sociais dos seus alunos, se prestarmos fé à reflexão memorialista de Miriam Moreira Leite: “Algumas das diferenças internas devem-se ao objetivo múltiplo de seus planejadores. A Faculdade de Filosofia seria uma unidade onde se institucionaria a ciência básica, onde os estudos lingüísticos seriam aprofundados e onde se desdobraria e se adequaria uma Pedagogia que formasse professores do ensino médio52”.

A FFCL começou a funcionar na avenida Doutor Arnaldo, no Sumaré, juntamente com a também recém-criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Em 1938, as Ciências Humanas (e a Matemática) transferem-se para o terceiro andar daquele mesmo prédio do Instituto “Caetano de Campos”, na praça da República, onde Gioconda havia freqüentado a Escola Normal. Finalmente, após mais algumas andanças pela cidade, em 1948, ocupará a sua sede “histórica”, na rua Maria Antônia. É interessante atentar para o fato de que, no imaginário e na mitologia uspianas, e da FFCL em particular, ao que me parece, o “local” por excelência é o prédio da Maria Antônia, pouco ou quase nada restando para a memória “da Praça” (a praça da República, como era metonimicamente chamado o “Caetano de Campos”). Oliveiros S. Ferreira, na sua colaboração a um dos livros que mais contribuíram no fortalecimento do mito da Maria Antônia (Maria Antônia, uma rua na contramão) é um dos poucos a lembrar: “Não se pode falar da Maria Antônia sem falar da Praça. Uma continua a outra, sendo dela a transformação que destruirá o mito forjado no seio da comunidade construída no terceiro andar da Escola Normal ‘Caetano de Campos’”53. Ferreira teve trajetória semelhante à de Gioconda: no “Caetano de Campos” frequentara o ginásio, de forma que o ingresso na Faculdade coincidia com um regresso à Praça: mas, agora, “a universidade era coisa séria para gente grande e [...] nela iriam pôr à prova o seu saber, que era pouco”54. Mas quando a Faculdade chega à Praça, em 1938, Gioconda já é auxiliar de ensino e o seu saber já havia sido posto à prova – e com sucesso – pelos professores franceses.

Maria Conceição Vicente de Carvalho, a primeira doutora em Geografia, no Brasil (orientada por Monbeig), importante referência para os trabalhos iniciais de Gioconda no litoral, também relembra:


[...] a primeira instalação [foi] nas salas da Faculdade de Medicina de São Paulo, de onde fomos violentamente expulsos, professores e alunos, debaixo de vaias dos alunos da medicina, de dentro das salas de aula até o portão de saída. Daí então a procura, as mudanças, que foram dos porões da casa de Macedo Soares na rua da Consolação até o sótão do Palacete Street, da alameda Glete; percorremos, depois, uma série de instalações, passando para o terceiro andar do Edifício da atual Secretaria de Educação, a Escola Caetano de Campos55.
Um depoimento mais circunstanciado da expulsão da FFCL do prédio da Doutor Arnaldo é de um antigo aluno de Medicina, testemunha dos fatos, e futuro reitor da USP ns seus anos mais dramáticos, Helio Lourenço de Oliveira:
Em alguns casos, partes de prédios oficiais eram-lhe [à FFCL] emprestados: isso ocorreu com o Departamento de Química, que veio a ocupar algumas salas disponíveis no 3º andar do edifício da Faculdade de Medicina. Quando, pela chegada da nova turma de estudantes, se impôs a necessidade de aumentar o espaço ocupado, e para isso se iniciou a construção de novas salas sobre o terraço disponível para eventuais ampliações, explodiu a reação dos estudantes de medicina. [...] Os atos principais foram a demolição dos andaimes erguidos para aquela construção, seguida da interrupção das aulas [...] e convite aos respectivos professores e alunos para que se retirassem do prédio da Faculdade de Medicina56.
Também, é mais uma vez Maria Isaura Pereira de Queiroz a proporcionar um depoimento significativo:
A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras estava dispersa em vários pontos, sendo o principal a então bela Praça da República, onde departamentos como os de Filosofia, Ciências Sociais e Letras se aninhavam no terceiro andar – o mais elevado – do Instituto Caetano de Campos. Este instituto possuía, nos dois primeiros andares, um jardim-de-infância, uma escola primária, um Ginásio e uma Escola Normal! Instituição conhecida e respeitada, nela tinham estudado minha mãe e minhas tias, tanto do lado materno como do lado paterno, e, em seguida, suas filhas57.
Gioconda Mussolini não poderia lembrar nada disso: ela é a primeira da sua família a continuar os estudos além da escola primária.

Ela assiste às aulas – ministradas sempre em francês58 – de alguns dos professores daquela que ficou conhecida como a “missão francesa”59: Paul Arbousse Bastide e Claude Lévi-Strauss (Sociologia), Pierre Monbeig (Geografia) e Jean Magüé (Filosofia), entre outros. São seus colegas de turma Gilda de Mello e Souza (então Moraes Rocha), Mário Wagner Vieira da Cunha, Ruy Coelho, Décio de Almeida Prado e Egon Schaden. Este, procedente de uma família de origem alemã, de Santa Catarina, é destinado a desempenhar um papel de grande relevância na vida e na carreira de Gioconda.

Se nas Ciências Sociais e a missão fundadora e a língua oficial eram francesas, em outras seções foi diferente: na Matemática, as aulas eram em italiano; na química, em alemão. Pouco se sabe sobre esse período de estudos. Antonio Candido menciona um episódio (presenciado, porém por sua mulher, Gilda60), envolvendo um mestre francês: o silêncio, demorado e constrangedor, de Gioconda, em pé, no meio da classe, numa sabatina do professor Lévi-Strauss à qual ela não consegue responder, paralisada pela angústia e pela humilhação. Curiosamente, o nome de Gioconda figura na conhecida listagem do antropólogo em Tristes Trópicos:
“[...] Pensando em vós, segundo vosso costume, por vossos nomes de batismo tão barrocos para um ouvido europeu, mas cuja diversidade exprime o privilégio que foi ainda o de vossos pais, de poder livremente, de todas as flores de uma humanidade milenar, colher o viçoso buquê da vossa: Anita, Corina, Zenaida [sic], Lavínia, Thaís, Gioconda, Gilda, Oneide, Lucilla, Zenith, Cecília, e vós, Egon, Mário Wagner, Nicanor, Ruy, Lívio, James, Azor, Achilles, Décio, Euclides, Milton [...]”61.
Alguns desses nomes desapareceram da história das ciências sociais brasileiras, outros acompanharão por inteiro a trajetória pessoal e acadêmica de Gioconda, outros, ainda, foram colaterais – testemunhas, de alguma forma, de opções diferentes, mas solidárias.

Gilda de Mello e Souza, Ruy Coelho e Décio de Almeida Prado (filho do então diretor da Faculdade, Antonio de Almeida Prado), juntamente com Lourival Gomes Machado (também colega de Gioconda no Curso de Ciências Sociais – sairá formado em 1938, mas não é citado por Lévi-Strauss), Antonio Candido (que entraria no curso em 1939, quando Lévi-Strauss já voltara para a França e Gioconda já estava trabalhando na Cadeira de Sociologia I) e Paulo Emilio Salles Gomes (aluno da Faculdade desde 1939, após um ano e meio de prisão em São Paulo e dois anos de exílio em Paris), formariam o núcleo mais expressivo e atuante da revista (e do grupo62) Clima. Dessa revista, que circulou entre 1941 e 1944, Gioconda só pode ter sido leitora interessada, e colega, algo distanciada, dos seus mentores. Assim como, mais tarde, aconteceria com Florestan Fernandes (que ingressaria na Faculdade em 1941), tratava-se de medir e administrar as distâncias com moços de um círculo socialmente, simbolicamente e culturalmente mais “capitalizado”, que lhes permitia, inclusive, um acesso, há mais tempo consolidado, a bibliotecas familiares bem abastecidas de obras em várias línguas, vivas e mortas. Numa gangorra de aproximações e distanciamentos, de atração e relutância, devem ter transcorrido as relações entre Gioconda Mussolini e alguns dos seus colegas. Mário Wagner Vieira da Cunha desabafa, defendendo a posição dos alunos oriundos – como ele – do meio normalista:


[...] houve momentos nas aulas de sociologia e filosofia [em] que a coisa erra irritante, porque havia os alunos oficiais, matriculados, que faziam os trabalhos, se esforçavam humildemente, e havia os alunos snobs, que vinham com os grandes chapéus e vestidos muito bonitos, assistiam às aulas, conversavam com os professores, convidavam para um chá e a sociologia ficava um salão literário muito importante e uma sala de aula. E nós, sempre num cantinho, empurrados dessa forma.

Entretanto, Antonio Candido esclarece o que, também, estava se desenrolando entre todos eles, marcando, já, locais de referência e destinos acadêmicos:


Nós pertencemos a uma fase heróica da Faculdade, que foi a implantação dos cursos pelos professores estrangeiros. Era o começo daquele tipo de estudos, havia ainda muito diletantismo, nós transitávamos da arte para a filosofia, da sociologia para a literatura. Mas ao nosso lado havia rapazes e moças que já se orientavam pelas exigências da especialização. Penso em gente como Lucila Herrmann, Gioconda Mussolini, Dorival Teixeira Vieira, José Francisco de Camargo, Eduardo d’Oliveira França, Egon Schaden e outros, alguns dos quais professores primários comissionados63.
As duas vertentes, entretanto, praticavam por caminhos diversos, mas não divergentes, aquilo que o autor de Os parceiros do rio Bonito, nessa mesma entrevista de 1987, definira certeiramente para a geração anterior à deles: “O Brasil começou a se apalpar”64, entre diletantismo e crítica, de um lado, e especialização e sociologia, por outro.

* * *


Terminados os três anos de bacharelado, o último dos quais se desdobraria no Curso de Didática da própria Faculdade de Filosofia, que permitia aos bacharéis se tornarem também licenciados, Gioconda (portanto em 1937) se torna aluna do Instituto de Educação da USP, justamente às vésperas do seu fechamento por parte do governo paulista (sob a intervenção de Adhemar de Barros65). O IEUSP, na realidade, teve os seus professores efetivos transferidos para a própria FFCL.
Esse intercruzamento de nomes, instituições, artigos e temas de pesquisa permite, agora, atestar que ao longo dos anos Trinta e na primeira metade da década de Quarenta Gioconda Mussolini, imediatamente antes, durante e logo depois da sua permanência como aluna da Sub-secção de Ciências Sociais e Políticas da Faculdade de Filosofia da USP, envolve-se em um campo novo e peculiar, formado por docentes, pesquisadores, saberes, atuações e sugestões teóricas e metodológicas, com uma agenda científica que está sendo definida e cumprida num espaço que inclui a mesma FFCL, a Escola Livre de Sociologia e Política, o Departamento Municipal de Cultura e a Sociedade de Etnografia e Folclore. Participam desse campo algumas figuras decisivas nesses momentos inaugurais e mesmo no destino das Ciências Sociais em São Paulo e no Brasil – e, evidentemente, no começo de carreira e no destino individual de Gioconda Mussolini. São anos em que ela recebe a forte influência dos estudos de sociologia e antropologia urbana; ao mesmo tempo em que está em contato com a forte âncora quantitativa constituída pela ciência estatística: ambas as perspectivas em fase de implantação e fortalecimento na ELSP São anos em que o tema da pobreza e das classes populares, nas múltiplas e integradas perspectivas econômica, cultural e social, afirma-se como questão prioritária tanto para as esferas administrativas e políticas paulistas (com os ardilosos reflexos ideológicos que não há espaço para abordar aqui), quanto os cientistas sociais envolvidos nessas várias instituições, quanto para a orientação pessoal de Gioconda, que – como veremos – dirigirá e transferirá essas preocupações para um setor até então quase desabitado, malíssimo freqüentado pelos cientistas sociais ativos no Brasil (com a exceção de alguns geógrafos): o das populações de pescadores do litoral de São Paulo.

Em suma, de 1934 a 1945, Gioconda Mussolini recebe o treinamento necessário ao conjunto de atividades que ela irá desenvolver autônoma e individualmente a partir de meados dos anos Quarenta66: um treinamento que se desdobra em teorias e práticas, em participação direta em investigações sociais de grande relevância, na aquisição dos instrumentos metodológicos e do desenvolvimento da reflexão teórica necessária à formação de uma cientista social moderna. Cabe enfatizar, nessa perspectiva, que esse espaço de formação, em que a participação em atividades práticas e a reflexão teórica e metodológica parecem bem equilibradas, ocupa justamente essa gama variada de instituições (FFCL, ELSP, Departamento de Cultura e SEF), de forma que, mais que uma divisão de trabalho entre tendências diferenciadas, parece delinear-se, aqui, um quadro de compartilhamentos, solidariedades e remissões.




(mestrado)
Os anos imediatamente sucessivos à defesa do Mestrado marcam o verdadeiro começo da carreira docente da professora Mussolini. São os anos melhor documentados, seja porque dispomos dos registros oficiais – bem ou mal – expedidos e conservados pela Faculdade de Filosofia, seja porque o número de testemunhas aumenta consideravelmente, ao diminuir a distância temporal que nos separa dessa época. Nesse período, Gioconda participa de pesquisas de campo coordenadas por colegas e ex-professores, desenvolve intensa atividade de sala de aula, orienta alunos do Mestrado em Antropologia e do curso de graduação em Ciências Sociais da USP, participa de várias bancas examinadoras de Mestrado da própria Faculdade da USP (como as de Eunice Ribeiro Durham, em 1964, e de Francisco Weffort, em 1965) e fora dela (entre as quais, destaco a do doutorado de Oswaldo Elias Xidieh, em Marília, ainda em 1965, de onde resultaria o seu trabalho clássico sobre as Narrativas pias populares), publica resenhas de obras antropológicas, nacionais e estrangeiras, realiza as suas próprias pesquisas de campo no litoral de São Paulo, participa de congressos e simpósios, profere numerosas conferências e palestras, no Brasil e no exterior, publica artigos em revistas científicas, colabora na feitura e do dia-a-dia editorial da Revista de Antropologia, fundada por Schaden em 1953, participa das primeiras reuniões da recém criada (1955) Associação Brasileira de Antropologia, da qual foi sócia fundadora, pertence também à Associação dos Geógrafos Brasileiros e à Sociedade de Psicologia de São Paulo, traduz livros e artigos e organiza uma coletânea de ensaios de antropologia física, por encomenda de Florestan Fernandes, substitui Schaden na direção da Cadeira por ocasião das cada vez freqüentes viagens dele, sobretudo à Alemanha, nos anos Sessenta – e se dedica à sua tese de doutoramento. Tudo, menos esta última atividade, está relativamente bem documentado. Trata-se, como se vê, de um conjunto de tarefas e ações que, embora iniciado numa época institucionalmente distante da nossa, possui muitas semelhanças com aquilo que, hoje, constitui o repertório de responsabilidades do docente de uma universidade pública de primeira linha.
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