Giovana Scareli – unopec, fe/unicamp



Baixar 44.99 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho44.99 Kb.


LEITURA E HQ – LENDO ALGUMAS TIRAS1

Giovana Scareli – UNOPEC, FE/UNICAMP

Este trabalho constitui-se parte da dissertação de mestrado orientada pela Profa. Dra. Cristina Bruzzo, apresentada em fevereiro de 2003 na Faculdade de Educação da Unicamp. Durante a pesquisa, foram lidas muitas revistas da Turma da Mônica, tiras de jornais e visitado com freqüência seu site oficial (http://www.monica.com.br). Neste site, está disponível, para o leitor, uma série de histórias, tiras e muitos outros produtos. Ao entrar na parte “tirinhas”, há algumas opções de leitura. Todas as tiras possuem um número, provavelmente de produção, no canto inferior direito, e um outro número, que talvez seja o de sua inserção no site. Primeiramente, podemos escolher um personagem e, em cada tira, haverá um número que a acompanha. A partir daí, podemos sair e entrar em outra história deste mesmo personagem, ou escolher outro, podemos ainda seguir uma outra opção que é dada: ler em seqüência numérica, em ordem crescente ou decrescente.

Ao entrarmos em uma das tiras do Chico Bento e “passeando” pelas que estavam próximas, encontramos um conjunto de tiras, que se dispõem numa seqüência numérica, do número 194 ao 200, e que abordam temas “ecológicos”. Estão presentes, nestas tiras, personagens do grupo do Chico Bento, do Papa Capim, do Penadinho, do Cebolinha e da Mônica.

Com a pesquisa foi possível observar que as histórias, protagonizadas pelos personagens Chico Bento e Papa Capim, parecem ser aquelas, nas quais o autor toma a natureza e as ameaças, decorrentes da ação humana, de forma mais explícita.

Optamos por trabalhar com as tiras, em que os elementos de linguagem são utilizados de maneira a enfatizar uma mensagem educativa e que convirjam para uma moralidade. Sendo assim, deixamos de lado duas delas, nas quais o humor estava mais presente. A comodidade de acesso ao site e as possibilidades de leitura que este suporte (meio eletrônico) oferece também influenciaram na escolha.

Porém, no decorrer do trabalho, a disposição das tiras foi mudada, formando uma nova ordem. Ao ordenar as tiras de outra maneira, foi possível perceber como estas se prestam a compor conjuntos que reiteram preceitos de comportamento ligados ao ambiente. As tiras sugerem preocupações com a natureza e fazem uso dos elementos de linguagem de forma reiterada e convergente, para criar um tipo de “mensagem”, que, se olhadas em determinados conjuntos, podem formar narrativas. Neste conjunto de tiras que selecionamos e reordenamos para este trabalho, ficou intensificado este aspecto “educativo”.


As tiras escolhidas são as que seguem:

Tira 1

Fig. 26 – Chico Bento, tira n°194
A imagem desta tira está concentrada num único retângulo, que possui um traçado contínuo. Ela é composta por um lenhador, com um machado erguido pelas mãos; pelo personagem Chico Bento, que aponta para uma placa, na qual contém a frase: “Proibido Caçar!”; e por um conjunto de árvores desenhadas com braços, pernas e rosto, lembrando os seres humanos.

Há 2 linhas curvas – ((– paralelas na lâmina do machado, que está voltado para trás do corpo do lenhador, mais 2 linhas curvas no rosto do lenhador e duas na cabeça do Chico Bento. Há também dois sinais em cima da cabeça do lenhador e uma massa em cima da cabeça do Chico Bento. Há ainda linhas onduladas e paralelas contornando as árvores, e duas gotas próximas ao “rosto” das árvores.

Nesta tira, que não tem nenhum diálogo, aparecem apenas duas palavras que fazem parte da imagem da placa, com os dizeres “Proibido Caçar!” O personagem Chico Bento aponta para a placa, seu semblante está tenso, as linhas curvas, na lateral de sua cabeça, indicam este estado de tensão e repreensão que faz ao lenhador indicando a placa. A massa, que está acima da sua cabeça, infere sentido de chamamento, repreensão, sobre a provável atitude do lenhador. A outra mão do Chico está com os dedos fechados, com o punho cerrado, indicando raiva.

O lenhador pára diante da atitude do Chico, ação demonstrada pelos pés do lenhador paralelos e fixos ao chão, enquanto o corpo fica mais à frente, indicando que havia movimento. Seu semblante é de surpresa, estagnação. Ele ainda não entendeu o que está acontecendo, e isto vem demonstrado pelas duas linhas acima de sua cabeça, que sugerem o espanto, assim como as duas linhas curvas à frente de seu rosto e, novamente, próximo ao machado.

Há duas árvores menores, que seguram suas “mãos” nas árvores maiores, como as crianças que, quando estão com medo, seguram-se em seus pais. Uma das árvores está toda contornada por linhas paralelas onduladas, que representam o tremor, e duas gotas estão próximas do “rosto” da árvore, indicando suor. Todas as árvores estão com os dentes cerrados e à mostra. O clima sugerido é de tensão e muito medo, intensificado pelos elementos expressivos utilizados pelo autor.

Esta única tira poderia ter apresentada em dois retângulos e não apenas um, como está feito. Se o corte estivesse logo depois da placa apontada pelo Chico, daria um efeito de suspense, que, freqüentemente, é utilizado nas histórias em quadrinhos. Porém, do jeito que a tira foi construída, há uma convergência criada pelos olhares, pelo dedo do Chico Bento apontando para a placa, pelo destaque dado ao Chico no centro da tira. Caso fossem utilizados mais retângulos, possivelmente haveria uma perda na sua dramaticidade, reduzindo o efeito buscado na tira original.

A frase “Proibido Caçar!” cria um impacto no leitor. Utilizamos este verbo, geralmente, quando nos referimos aos animais, e ele sugere uma perseguição. Da forma como as árvores foram desenhadas, lembram seres humanos, entretanto, não estão no lugar deles, senão elas poderiam sair correndo, ou atacar o lenhador, o que seria possível no universo dos quadrinhos. A possível identificação do leitor com as árvores está no reconhecimento do “sentimento” de medo e aflição, que o autor lhes confere através dos recursos utilizados.

Tira 2

Fig. 27 – Penadinho, tira n° 198


No retângulo sinuoso que contorna a tira, há dois personagens do Maurício de Sousa que são fantasmas: D. Morte e o Penadinho. A primeira segura uma foice na mão, e o Penadinho, que está ao seu lado, diz: “É Dona Morte... parece que aquele machado ali é mais perigoso que a sua foice!” O balão que contém esta frase também é sinuoso. Geralmente, quando a tira ou a história é protagonizada pelos personagens desta turma, o requadro e os balões aparecem desta forma. Há, ainda nesta tira, a imagem de troncos de árvores cortadas, alguns “matinhos” no canto esquerdo da tira, um lenhador com um machado nas mãos, cortando uma única árvore ainda em pé, porém, já com um corte eminente.

Aparecem vários traços curvos no rosto da D. Morte, no Penadinho, em torno da copa da árvore, e duas grandes linhas curvas que vão do corpo do lenhador, que está próximo à árvore, até o machado, que está acima da sua cabeça.

Os traços curvos, que são colocados próximos à cabeça da D. Morte e à frente do rosto do Penadinho, assim como as duas gotinhas ao lado de sua cabeça, intensificam a expressão de surpresa, espanto, e tristeza destes personagens, que são somados ao comentário que aparece no “balão-ligado”. Este e as reticências entre as frases sugerem uma pausa do leitor, que dá ênfase ao texto contido neste balão e à própria cena.

Já os dois traços curvos, que aparecem próximos ao ombro do lenhador, dão um sentido de virilidade e aumentam a força feita pelas suas mãos grandes para segurar o machado. Seu porte é grande e imponente. Aparece com um boné na cabeça e não mostra com clareza o rosto, talvez escurecido pelos traços que sugerem a presença de uma barba. Na aparência do primeiro lenhador, da Fig.26, dá para ver o rosto, ele mostra os olhos, não tem um porte físico como este, parecendo ser mais fraco. É um lenhador “americanizado”, tanto é que podemos aproximá-lo dos personagens de alguns filmes americanos quando aparece um ator cortando lenha num acampamento ou numa casa de férias no alto de uma montanha....

O boné impede que seus olhos sejam vistos e os traços, que sombreiam seu rosto, não permitem vê-lo com clareza, assim como a maioria dos marginais que escondem seus rostos diante das pessoas. No entanto, nesta tira, não se trata de um marginal, mas, aparentemente, de um trabalhador. Se não houvesse o boné, o lenhador poderia ver o Penadinho e a D. Morte? Eles estariam no seu campo de visão. Isto poderia constituir um elemento dispersivo nesta tira, que procura concentrar seus elementos, convergindo-os para o centro, que, associado ao texto presente no balão, dará uma certa dramaticidade à cena.

Os traços que vão das pernas do lenhador até a lâmina do machado, que está acima da sua cabeça, sugerem o movimento realizado pelo instrumento. As linhas, traços e outras formas, próximas da árvore e do lenhador, representam as lascas que saíram com o impacto do machado sobre a árvore. As linhas em forma de “V”, e as linhas sinuosas, que contornam as folhas das árvores, lembram o balanço feito pela árvore sob efeito deste impacto. A frase contida no balão intensifica a cena dramática.

A foice, que a personagem D. Morte segura, é associada à morte há muito tempo e assim está no imaginário das pessoas. Ela ceifa vidas, anuncia a morte, tira a vida dos seres humanos na hora que eles têm que morrer. A comparação da foice com o machado do lenhador, associado à imagem da única árvore que ainda está em pé, pois todas as outras já foram destruídas, parecem querer suscitar sentimentos no leitor, que podem ser de tristeza, espanto, raiva, ou outros.

Tira 3

Fig. 28 - Papa Capim, tira n°200.


Esta tira é composta por três quadros, que parecem indicar uma idéia de início, meio e fim. No primeiro quadro, não há um traçado contínuo em todos os lados, a parte inferior é aberta, porém o chão e o desenho de uma cobra dão a impressão de fechá-lo. Neste requadro, temos um plano geral mostrando o Papa-Capim e seu amigo correndo, os pés dispostos um à frente e outro atrás, o corpo levemente à frente, uma pequena nuvem próxima a um dos pés. Este sinal gráfico indica a poeira levantada pela corrida dos personagens. Compõem o cenário uma cobra no chão, a lua no céu, alguns arbustos e pequenos traços, que dão a idéia de haver uma árvore.

A árvore sugerida pelo desenho só é entendida como tal, porque estamos a todo o tempo procurando dar sentido às coisas. Os elementos visuais, aliados ou não a um texto, são o que permitem compreender as histórias em quadrinhos. Sabemos que este desenho é de uma árvore, porque há um traço na vertical, que é mais largo em baixo, posteriormente fica mais fino e, acima, aparecem duas linhas paralelas, que entendemos ser um galho, e, abaixo do traçado que forma o “balão-fala” do personagem Papa Capim, há o desenho de folhas.

Geralmente, nas histórias do Maurício de Sousa, são utilizadas cores em tons mais escuros para indicar que a tira é ambientada no período noturno. Neste caso, sabemos que é noite porque o dedo da mão esquerda do Papa Capim aponta para o céu, e ele diz: “Ei Kava! Você sabia que os caraíbas chamam jaci de lua... e m’boi de cobra?” O texto do balão somado ao desenho ajudam a indicar em que período se passa a cena. O contentamento é expressado por um sorriso no rosto de cada personagem.

No segundo quadro, o retângulo está contínuo, não há nenhum lado aberto. O plano fecha-se nos dois personagens, e Kava aponta para a cena seguinte. Sua boca está aberta, indicando espanto. Papa Capim tem sua boca representada por apenas um traço, com as laterais caídas em sinal de tristeza. Ao lado de sua cabeça, aparecem as duas linhas curvas, também chamando a atenção do leitor para o que ele está dizendo. Kava aponta: “E aquilo, Papa-Capim? Como os caraíbas chamam aquilo?” Neste requadro, também há um “balão-ligado”, indicando uma possível parada entre as duas frases.

No terceiro e último quadro, há novamente um plano geral, com uma divisão clara no solo. Papa Capim e Kava estão numa parte, que apresenta uma vegetação rasteira. Na outra parte, só há os troncos de árvores cortadas. A expressão dos personagens, diante do que estão vendo, sugere surpresa, tristeza ou indignação, demonstradas pelo desenho dos lábios de cada um e pelos seus ombros caídos. A Lua continua no céu, e há 3 linhas verticais e contínuas acima das árvores que foram cortadas. Estes sinais podem representar a alma das árvores, agora mortas, tentando alcançar o céu, como também pode ser apenas um meio de chamar a atenção para este impacto.

Em todos os quadros, a indicação de que há estrelas no céu é desenhada por pequenos pontos e círculos. Neste último quadro, as duas linhas curvas estão desenhadas tanto próximas ao Papa-Capim quanto do Kava e têm a função de intensificar a expressão desoladora de ambos.

Pode-se criar um suspense, um impacto no leitor, com a história formada por três quadros. No primeiro, vemos os personagens correndo, felizes, num espaço com árvores, arbustos e animais, onde aparentemente tudo está em equilíbrio e harmonia. No segundo quadro, um close nos personagens mostra seus semblantes assustados, surpresos e tristes. No terceiro, não há árvore, nem animal, nem arbustos, apenas inúmeras árvores cortadas. Os personagens estão paralisados, desolados.

Uma leitura possível é imaginar as árvores cortadas como túmulos em um cemitério. Neste ambiente de morte, sem vida, o aspecto é duro, a vida foi ceifada, as almas estão ascendendo aos céus.

Na montagem de uma história, há a tentativa de “capturar” a atenção do leitor e, com isto, espera-se conseguir alguns efeitos. Este, desde o início, já viu a cena inteira, pois nosso campo de visão nos permite ver o todo, mas se deixa levar pela narrativa quadro-a-quadro, própria da linguagem dos quadrinhos, e, devido à concentração de elementos presentes para causar um impacto e dirigir a leitura, sente-se desolado como os personagens em questão.

Tira 4

Fig. 29 - Chico Bento, tira n°195.

Esta tira é composta por dois quadros.

No primeiro retângulo, o Zé Lelé está com um pé à frente, e outro atrás, dando a impressão de movimento, como se estivesse chegando. A posição das suas mãos parecem estar batendo “palmas”, seu semblante parece feliz, há um sorriso em seus lábios. Duas linhas curvas estão atrás de sua cabeça. Num balão duplo, aparecem os seguintes dizeres: “Oba, Oba! Prantando uma árvre nova, Chico?! Essa aí é di quê? Di goiaba? Di jaca? Di Manga?”

No mesmo quadrado, Chico Bento está de joelhos, olhar concentrado. Numa mão, segura uma muda de árvore, a outra está na terra, como se a estivesse empurrando para plantar a muda.

No momento seguinte, um pseudo retângulo é composto pelo personagem Zé Lelé, que, no momento anterior, estava andando e, neste, está com as duas plantas dos pés à mostra, como se tivesse “freado”. Dois traços curvos estão nos seus calcanhares, intensificando o movimento de parar. Seu corpo está ligeiramente para trás, as duas linhas curvas, que anteriormente estavam atrás da cabeça, agora estão próximos ao braço. Quatro traços retos estão acima e à frente da sua cabeça, seus olhos estão arregalados, e o traço que forma sua boca é reto, levemente curvado para baixo, o que representa tristeza.

O personagem Chico Bento continua próximo ao chão, com as mãos nos joelhos, e ombros caídos. Olha para o Zé Lelé. Dois traços curvos estão à frente de seu rosto, sua boca ligeiramente aberta, também diz através de um balão duplo: “Não! Di isperança...”

A árvore já está plantada, e o cenário agora mostra muitas árvores cortadas, algo que não mostrava no primeiro quadro. O cenário do 1º quadro não possuía nenhuma planta, o segundo mostra tudo o que tinha no primeiro, mais um desenho da devastação. Oito traços retos estão desenhados acima das árvores cortadas.

O mesmo tipo de traço do 1º quadro, que está acima da árvore, aparece no segundo quadro, mas acima da cabeça do Zé Lelé e das árvores cortadas. Porém, em cada um deles, indica coisas diferentes. O primeiro demonstra vida, é a planta nova, que está sendo plantada, crescerá, dará frutos, não interrompendo o ciclo de vida. Nela, está contido todo o potencial da criação, da vida, do mundo. No segundo, em que aparece acima da cabeça do Zé Lelé, elas são utilizadas para intensificar o “susto”, levado pelo personagem, ao ver o desmatamento.

Aqui nesta tira podemos também imaginar estes troncos como túmulos num cemitério. Os traços que aparecem acima destes túmulos, seriam, então, as almas das árvores ascendendo ao céu.

Podemos também destacar o vazio que ficou neste bosque, pois os traços estão desenhados bem acima dos troncos e, entre eles, não há nada, só um vazio acentuado.

Tira 5

Fig. 30 – Penadinho, tira n°199.


Esta tira é composta por três quadros. O primeiro é contornado por um traço sinuoso, assim como o terceiro. O quadro do meio, porém, não possui delimitação. As linhas sinuosas dos requadros laterais, a assinatura do Maurício, a linha que sai do seu braço e contorna sua cabeça até o outro braço e um traço sobre o peito do Penadinho são o que sugerem um contorno para o quadro.

No primeiro requadro, há uma composição, em primeiro plano, do Fantasma e do Penadinho. Algo, no canto inferior direito, ainda não é possível de ser identificado, mas será o terceiro personagem da história. Ao fundo, observamos uma cerca e uma cruz indicando um túmulo. O Fantasma está contando de que forma morreu, seus braços estão esticados para o alto, com a boca bem aberta. Há alguns traços próximos às mãos, que dão sentido de movimento, apelando para uma expressão assustadora. Penadinho, olhando para o Fantasma, ouve a história que este personagem conta. Sua boca é desenhada com apenas um pequenino traço. Parece triste ou comovido.

No segundo quadro, Penadinho está em destaque. Um sorriso em seus lábios indica uma expressão aparentemente feliz. Ele pergunta, a um “amiguinho”, de que forma ele morreu. São curiosas as expressões do Penadinho. No primeiro quadro, parecia estar triste ao ouvir a história que aquele Fantasma contava sobre a sua morte. E, num segundo momento, ao perguntar ao outro personagem de como havia sido a sua morte, aparece com um semblante, que nos permite imaginar que ele está contente. Não esperaria outra resposta trágica, talvez.

No terceiro quadro, o cenário é composto pela cerca e pela cruz, que aparecem também no primeiro quadro, e por mais uma cruz, causando a impressão de se tratar de um cemitério. O Fantasma está com os ombros caídos, mãos nos joelhos, olhando para baixo. Um pequeno tracinho representa sua boca. O Penadinho está com os olhos separados, dando a impressão de espanto, que é enfatizada pelos vários traços, acima de sua cabeça, e por sua boca, que está tão pequena quanto a do Fantasma. Ambos ouvem uma Árvore, que possui pernas, braços, rosto. Há vários traços em seu “corpo”, seus galhos estão pretos, com várias linhas e pontinhos próximos a eles. Ela conta que havia morrido da mesma forma que o primeiro personagem – carbonizada, porém acentua não ter sido acidente, como no caso do Fantasma.

O conjunto de elementos, que compõem esta história, busca dirigir o leitor a se comover com a história da morte da árvore. Para isso, o cenário alude a um cemitério, cujo ambiente não é engraçado. Os personagens parecem tristes, os traços no “corpo” da árvore, seus galhos escuros, e aquelas linhas, que saem da sua cabeça, permitem-nos fazer uma leitura de que ela acabou de ser queimada, por isso ainda está saindo fumaça. No entanto, o requadro central, com o personagem Penadinho, quebra um pouco o clima melancólico e tenta provocar uma surpresa no leitor.

A tentativa do autor da tira pode ter sido a de criar uma identificação, por intermédio de sentimentos, entre o leitor e o personagem, mostrando o sofrimento provocado, na Árvore, pelas queimadas, muitas vezes causadas propositalmente ou por negligência humana.


Alguns aspectos comuns entre as tiras...
Neste conjunto de tiras examinado, há alguns elementos que são recorrentes. Um deles é a árvore, que, inteira ou cortada, está presente em todas as tiras. A partir da seqüência, reordenada para este trabalho, podemos criar uma narrativa em torno deste elemento.

Na primeira tira, ela aparece com algumas características humanas. Sente medo do lenhador, que está com um machado nas mãos. Na segunda tira, todas as árvores já foram cortadas, restou apenas uma, que está recebendo machadadas. Na terceira, constata-se que todas as árvores foram cortadas, a aparência lembra um cemitério. Na quarta, as árvores também já estão todas cortadas, porém o personagem Chico Bento está plantando uma nova árvore. Na quinta e última tira, uma árvore conta que morreu devido a uma queimada, e que esta não foi acidental, mas provocada.

Fazendo diferentes relações entre a tiras, outro aspecto que pode ser observado é a divisão de dois campos de força, que podemos averiguar nas tiras 1 e 2. Na tira 1, a divisão estaria na placa, então teríamos, de um lado, o lenhador e o Chico Bento e, do outro, as árvores. Ou seja, de um lado, a ameaça de corte sugerida pelo lenhador, do outro, a aflição das possíveis vitimas. E o Chico, que está ao centro, tenta impedir o corte. Na tira 2, a divisão pode estar na árvore, que é a vítima do lenhador. Desta forma, há uma separação entre o mundo dos vivos e dos mortos.

Mais uma característica comum é a presença dos morros na tiras 3 e 4, repletos de sinais de devastação. A tira 3 é formada por três quadros, com uma tentativa de provocar um susto no leitor ao criar a expectativa do que virá no próximo quadro. Também quer despertar um sentimento no leitor, como indignação ou tristeza pelo desrespeito à natureza.

Outra leitura possível nas tiras é a polarização entre o certo e o errado, e então temos os bons exemplos, assim como as más condutas, que geram problemas que ameaçam a ecologia.

Também é marcante a individualidade existente neste conjunto. Na primeira tira, há um lenhador, que ameaça cortar as árvores, e um defensor da natureza. Depois, temos um lenhador cortando a última árvore. Um pouco mais adiante, o Chico Bento plantando uma muda de árvore, sinal de esperança, porém ele é o único a fazer isso. Ao tratar de questões como estas, em nível individual, a responsabilidade de tudo passa a ser de cada um, não mais de um conjunto de fatores, nos quais a sociedade está envolvida.

Pelo que pudemos perceber, há um conjunto de “mensagens” sugerido por estas tiras. Em todas elas, vemos uma concentração de dizeres voltada para a preocupação com a natureza, expondo-se algumas “normas de bom comportamento”. Nesta possibilidade de leitura, podemos destacar possíveis mensagens de cada tira: “não cortem as árvores!”; “não devaste a natureza!”; “plante uma árvore!”; “não jogue fósforos ou cigarros acesos próximos às matas”. E, na atitude de “enfrentar” o lenhador e no gesto de plantar mais árvores, exemplos de bom comportamento.

Por último, como as tiras estão constituídas para transmitir algumas “mensagens educativas”, há uma concentração de recursos visuais e textuais para que se dê o entendimento específico. Há uma subordinação, dos elementos, ao conteúdo que se quer tratar, de modo que não haja muitas dispersões. Com esta preocupação, ocorre um empobrecimento nas possibilidades de leituras e entendimentos que o universo dos quadrinhos permite. Quando há a tentativa de fazer algo mais “dirigido”, abordando um tema mais “sério”, primeiramente, deixa-se o humor de lado e faz-se uso dos elementos de maneira a reiterar a idéia central. Os desenhos são mais simples, quase não há cenário, a não ser que seus elementos reforcem a idéia. A história passa a ser menos complexa e concentrada em alguma cena mais “forte” ou num personagem principal.


Este foi o conjunto de tiras que selecionamos para examinar com mais atenção. As tiras que não examinamos são estas:




Fig. 31 – Cebolinha, tira no. 196



F
ig. 32 – Magali, tira no. 197

1 Gostaria de fazer um agradecimento especial à Profa. Dra. Cristina Bruzzo, que orientou a Dissertação de Mestrado, do qual foi extraído este texto.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal