Giovanni alves



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AS DIMENSÕES DA GLOBALIZAÇÃO

GIOVANNI ALVES
A Globalização Na Perspectiva dos

Clássicos da Sociologia

Em sua obra Teorias da Globalização, publicada

em 1995, Octávio Ianni procurou recuperar, de

certo modo, a perspectiva dos clássicos da sociologia

para tratar da globalização. Não apenas isso, é claro, pois a obra

contém impressões de outras vertentes teóricas da sociologia

moderna.

A trilogia sociológica e ensaística, de Octávio Ianni, publicadas

na década de 1990 - A Sociedade Global, Teorias da

Globalização e A Era do Globalismo - é uma provocação

interessante, pois contém um potencial heurístico capaz de capturar,

em seus múltiplos aspectos, o que ele denominou de era do

globalismo (em 2001, Ianni acabou de publicar Enigmas da

Modernidade-Mundo). Além, é claro, de procurar instaurar

uma problemática sociológica no limite do próprio estatuto

sociológico clássico, que surgiu vinculado a uma perspectiva

nacional, principalmente em Durkheim e Weber.

É do nosso intuito, a partir da leitura de Ianni, demonstrar

como algumas idéias sociológicas presentes nas obras de Max

Weber, Karl Marx e Émile Durkheim podem ser utilizadas para

uma interpretação da globalização. Cabe salientar que, nesse

caso, a idéia de globalização adquire o sentido essencial e mais

geral de desenvolvimento do capitalismo moderno, não

significando, portanto, a rigor, o que temos tratado até agora, ou

seja, globalização como mundialização do capital, isto é, uma

etapa sócio-histórica concreta do desenvolvimento do capitalismo

mundial caracterizada pela predominância do capital financeiro.

Numa perspectiva dialética, pode-se dizer que a globalização,

em seu sentido mais geral, tende a significar desenvolvimento



do capitalismo moderno, tal como tratado pelos clássicos da

sociologia; e em seu sentido mais particular, mundialização do



capital, um momento tardio desse desenvolvimento do capitalismo

moderno. Cabe salientar que a idéia de globalização como

processo civilizatório humano-genérico vincula-se às

determinações mais gerais da globalização como desenvolvimento

do capitalismo moderno.

Na seção intitulada Sociologia da Globalização, nos

utilizamos amplamente, inclusive com longas transcrições, do livro

Teorias da Globalização, de Octávio Ianni, para constituir uma

síntese do potencial heurística contido nas obras de Weber e

Marx para interpretar e compreender a globalização.

De certo modo, corremos o risco de incorporar alguns vieses

analíticos de Ianni, ou modos peculiares de apreender as obras

de Marx e principalmente de Weber. É o caso da sua peculiar

apreensão da contribuição sociológica de Max Weber, claramente

imbuída de um olhar marxista de cariz frankfurtiano. Por exemplo,

Ianni utiliza as categorias de valor de uso e valor de troca para

apresenta-las como algo que é intrínseca à própria lógica da

racionalização do mundo, tratada por Weber. O que demonstra,

portanto, que a leitura de Weber, realizada por Ianni, incorpora

um marxismo de linhagem ocidental, próximo de um Lukács de

História e Consciência de Classe. Mais do que uma mera

contaminação marxista da leitura de Weber, o que Ianni nos

apresenta é a demonstração de que existem pontos de contato



complementares na obra de Marx e Weber, com Marx servindo,

de certo modo, para interpretar Weber.

Por outro lado, o ensaio sobre Durkheim que apresentamos,

é independente dos demais (os que tratam de Weber e o de Marx),

apesar de prosseguir a mesma problemática: a globalização na

perspectiva dos clássicos da sociologia.

É curioso que em sua reflexões sociológicas sobre a

globalização, utilizando os clássicos da sociologia, Ianni não tenha

desenvolvido, com maior amplitude, a contribuição durkheiminiana.

Na verdade, a presença de Durkheim numa diagnóstico da

globalização apresentada por Ianni é bastante tímida. Através

do ensaio que apresentamos, procuramos mostrar que Durkheim

é mais atual que possamos imaginar.

Os ensaios sobre Marx e Weber, que ora apresentamos, são

anotações de um curso de extensão universitária intitulado O Que

é Globalização, ministrado na UNESP/Campus de Marília em 1997

e o ensaio sobre Durkheim decorre de uma palestra proferida na

mesma época.

Depois de tais esclarecimentos, resta-nos perguntar - após a

caracterização das dimensões da globalização, em que medida é

legítimo buscar uma contribuição dos clássicos da sociologia (Karl

Marx, Max Weber e Émile Durkheim) para uma interpretação

da globalização?

Em primeiro lugar, como caracterizamos na Parte I, a

globalização é uma ideologia, além de ser, é claro, um processo

sócio-histórico concreto, a mundialização do capital. O que

significa que não podemos reduzi-la meramente a outros

momentos da expansão capitalista.

Mas a globalização, por ser mundialização do capital e destilar

uma ideologia, é um processo civilizatório humano-genérico,

com um sentido essencial intrinseco à própria lógica de

desenvolvimento do capitalismo moderno.

Deste modo, a globalização possui um sentido originário, ou

seja, é um momento sócio-histórico de desenvolvimento do

capitalismo moderno. E o desenvolvimento do capitalismo

moderno tornou-se objeto privilegiado de reflexão dos clássicos

da sociologia no século XIX e na passagem para o século XX.

Por isso é que podemos dizer que, a perspectiva da globalização

que tais clássicos da sociologia nos apresentam, inclusive Marx,

com seu o olhar mais aguçado sobre a natureza do capitalismo

moderno, é a globalização não como mundialização do capital,

como temos tratado na parte I, mas uma dimensão pressuposta

originária da globalização como expansividade do capitalismo

moderno, ou seja, a globalização como o desenvolvimento



tardio do capitalismo moderno, de um processo de

modernização cujos nexos originários (e ontogenéticos) puderam

ser apreendidos, seja em sua dimensão essencial, através de Karl

Marx, seja em sua dimensão contingente, através dos clássicos

da sociologia propriamente dita: Émile Durkheim e Max Weber.

Tanto Weber quanto Durkheim são autores clássicos porque

conseguiram apreender, apesar de seus limites heurísticos e

metodológicos, a natureza plena do desenvolvimento, ou seja, da

produção/reprodução da sociabilidade do capitalismo moderno.

Em seus múltiplos aspectos contingentes, Weber e Durheim,

enquanto sociólogos, souberam traduzir os problemas da sociedade

burguesa. E não apenas isso. Apesar de seus horizontes

metodológicos limitados, conseguiram apreender os problemas

e dilemas do desenvolvimento da sociabilidade burguesa. Na

verdade, comprometeram-se com eles. Esta é a riqueza (e

miséria) dos clássicos da sociologia, excetuando-se Karl Marx,

que, a rigor, não poderia ser considerado um mero clássico da

sociologia, tendo em vista o caráter conservador, e quase



reacionário, da disciplina autônoma “sociologia”, na perspectiva

marxista.


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