Globalização e contemporaneidade Rosival Carvalho



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Encontro29.07.2016
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Globalização e contemporaneidade

Rosival Carvalho

Professor de Filosofia do

Curso de Direito da UNIFACS.

“Essa globalização não vai durar. Primeiro, ela não é a única possível, segundo, não vai durar com está, porque como está é monstruosa, perversa. Não vai durar, porque não tem finalidade. Para que nós estamos globalizando, para aumentar a competitividade? Para que serve isso? O mercado global, o que é isso? Quem já viu esse mercado global? É o cachorro correndo atrás do rabo”.

Prof. Milton Santos
Entender o processo da globalização na contemporaneidade, ou pelo menos buscar compreender o processo de formação histórica, social e cultural de um mundo globalizado, pode parecer a priori uma tarefa extremamente simples. Porém, à medida que se aprofunda na investigação dos fatos, percebe-se que os caminhos percorridos pelo homem ao longo da história, sempre foram marcados pela complexidade do entendimento das relações interpessoais e por conseguinte, toda e qualquer tentativa de elucidar fenômenos inerentes a um período, um momento, uma época, deve ser marcada pela seriedade e imparcialidade na reflexão, a fim de preservar com clareza e objetividade todas as informações que servirão de sustentáculo para estudos e pesquisas que busquem novas definições sobre os caminhos trilhados pela humanidade ao longo da história.

De qualquer modo, a grande dificuldade do tema proposto, ou melhor, sua efetiva intranspossibilidade ou irresolubilidade, é que seu título sugere que estamos mergulhados na globalidade enquanto desafio contemporâneo e por estarmos nessa posição, teremos sempre a impressão que as incógnitas serão sempre ultra significativas, provocando cada vez mais incertezas e inseguranças.

Para Rodríguez Gómez (1995), o termo “globalização” descreve uma gama de transformações que se tem registrado no âmbito econômico, político, tecnológico e cultural e que tem em comum sua difusão e mútua relação em nível de sistema mundial. No plano econômico, o perfil preponderante é a conformação de um mercado de recursos, produtos e serviços de alcance mundial; na área política, o termo se justifica pela intensificação da tomada de decisões em um marco mundial e pela internacionalização de conflitos locais e regionais; no plano tecnológico, principalmente pelo desenvolvimento de fases do processo que implicam a desintegração do processo de produção e a deslocalização; no plano cultural, o fenômeno se refere em essência à integração de formas de comunicação e difusão de informações de alcance mundial, assim como os efeitos culturais desse processo. A globalização tem lugar e marco histórico que se caracterizam pela sua dificuldade, cuja descrição obriga a simplificar um grande número de processos e eventos em uma limitada enumeração de aspectos paradigmáticas. Quanto aos países do Terceiro Mundo, estão inseridos nesse contexto a mando do grande capital e sem perspectiva de melhoria a curto ou médio prazo. Afastados da modernidade, empobrecidos, endividados e sem recursos para investir em áreas prioritárias, esses países estão com as mãos atadas, seguindo as determinações do Fundo Monetário Internacional. Cabe registrar que as mudanças neoliberais se intensificaram a partir das reformas de Gorbachev na União Soviética, em 1985, e praticamente culminaram com o esfacelamento da unidade do leste Europeu. “Em los últimos años de la década de los ochenta y en los primeros noventa, el factor de mayor peso em la coytura internacional se conformó por la crisis econômica, seguida del desplome político, de los regímenes socialistas en la ex-union soviética y en Europa Oriental” (Rodriguez Gómez, 1995, p.146).

Para poder competir em nível mundial, os países da América Latina são obrigados, a curto e médio prazo, a estabelecer austeros programas de privatização em praticamente todas as áreas. Uma série de questões devem ser levantadas sobre a problemática. A privatização não gera necessariamente novos empregos, preços mais acessíveis ao consumidor, investimentos e benefícios regionais, reestruturação, modernização e eficácia nas empresas. Privatizar não significa necessariamente redução da carga fiscal, eliminação da corrupção, acesso ao mercado internacional, aumento de produtividade etc.

O modelo econômico-político adotado pelo Brasil tem em sua essência características neo-coloniais, pois estamos impedidos de chegar ao clube dos “países ricos” e continuamos dependentes e submissos aos interesses dos países desenvolvidos. Utilizamos um discurso de pós-modernidade, mas a concretização do processo e dissociada da realidade.

As intenções neoliberais nem sempre são explícitas, nem seus efeitos sempre imediatos. Sabe-se que as grandes decisões são centradas em empresas transnacionais; que são formados blocos econômicos para centralizar o capital; que a natureza do emprego é substituída, provocando desemprego, trabalho informal e exclusão social; e que a presença das organizações sociais, a exemplo do FMI é apenas regulamentadora. Evidencia-se através de dados estatísticos de diferentes organismos, que uma minoria cada vez menos representativa tem acesso aos avanços oriundos da ciência e da tecnologia, ao capital, ao trabalho, à escola, à universidade, à saúde e à aquisição de mercadorias nacionais e internacionais.

Diante desse perfil é inevitável que venha à mente a condenação fichtiana da “época da pecaminosidade consumada” e também a denúncia mais recente do “futuro bloqueado”, no diapasão sartriano da subjetividade compulsiva, que tinha por escopo nos sacudir contra nossa época e nunca, como foi assimilado por muitos, nos deixar apodrecer debaixo da própria pele. Em verdade, tais remissões, próprias e necessárias, já não bastam, mesmo porque nunca foram resolutivas.

Mas não é o fim dos tempos, é apenas um tempo de crises, no que estas tem de doloroso e promissor; tanto quanto expressões de falências, as crises são enunciadas e geratrizes de novas formas de existência. Elas vêm recebendo denominação variada e abundante. Desde algum tempo, é até mesmo lugar-comum referir crises de toda espécie: social, política, econômica, moral ou dos costumes, cultural ou das mentalidades, da arte e da ciência, do direito e do meio ambiente, e assim por diante, envolvendo o conjunto dos aspectos que compõem a vida atual. Conjunto minado, que também é aludido, sinteticamente, como a crise do nosso tempo. Ou numa expressão mais antiga e rica de experiência e conteúdo, que afirma sem pudores o nosso profundo “mal-estar-no-mundo”, que também já foi referido por Husserl como a crise da humanidade européia, hoje generalizada pela sua própria universalização. Somos, queiramos ou não, saibamos ou não, gostemos ou não, os homens desse processo, agentes e pacientes, beneficiários ou vítimas, somos e não podemos deixar de ser a humanidade presente no momento em que a lógica do capital cumpre sua lei mais essencial e imanente, cobrindo o planeta com sua face e com suas formas de vida de um lado reluzente, e do outro, para dizer o mínimo, inquietante.

A globalização como efeito da acumulação de capital principiou com a formação dos estados nacionais a partir das cidades-estado. Desde então, do Renascimento aos dias atuais, desdobraram-se diversos estágios, a formação dos mercado nacionais, o alargamento do espaço de dominação por meio do colonialismo. Na seqüência tivemos o imperialismo econômico, e agora a expansão alcança a circunscrição de todo espaço planetário. Em todo esse itinerário atua a lógica intrínseca à acumulação ampliada, natureza e essência da ordem do capital, que tem a força de um fenômeno natural.

Desse modo a globalização não é uma política, nem a prática política tem força e capacidade para engendrar a globalização e, o que é ainda mais decisivo, as forças produtivas que, mais do que tudo subjazem a esse processo; assim, a política não é capaz de engendrar ou se contrapor à globalização. Por isso a política, na transição para a globalização, ou se torna seu agente, esperto, inteligente ou brutal, ou então, por incompreensão ou interesse subalterno, econômico ou político, se manifesta como agente perturbador de curto fôlego.

Nesse sentido, e com a intenção de provocar, digo que o neoliberalismo e a globalização como ideologia estão mortos, vencidos em seus próprios berços originários, mas a globalização é imperecível como lógica do capital. Quem procurar se excluir ou vier a ficar de fora por debilidades incontornáveis fará o papel de aprendiz de feiticeiro, pois deixará de existir como expressão de humanidade civilizada, tenderá a regredir e degenerar, multiplicando no isolamento seus próprios problemas, ou seja, sofrerá a miséria do atraso, o que em nada é melhor do que sofrer as lepras da civilização.

Todavia, o processo de instauração da economia globalizada, tal como ocorreu nas etapas precedentes da história do capital, mas de maneira especialmente aguda e profunda, é também um tempo gerador de enormes problemas e graves tensões. Esse é um dos aspectos mais evidentes e dolorosos do período de transição entre o momento da economia pré-globalizada e a face efetivada de sua globalização. Dores e comprometimentos que ferem de modo brutal a muitos, em especial a grande maioria dos segmentos sociais do trabalho assalariado, enquanto se dá a irradiação mundial, em escala diversa e combinada, das novas tecnologias e a plena configuração mundial dos mercados integrados. Contudo, tensões e comprometimentos dilacerantes, ainda que impotentes, geram reações, e estas poderiam ser elevadas a força política, na medida que compreendem a lógica fundamental dos acontecimentos e não a pretendam simplesmente contrariar, mas tirar proveito das contradições políticas da marcha de sua complexa transição. Força política que seria posta a navegar no mar encrespado de correlações de forças desfavoráveis, nas quais não poderia ser jamais hegemônica, mas bastante expressiva para deslocar um pouco o epicentro das decisões, de modo que as maiorias desfavorecidas fossem menos sacrificadas. É tudo que podem almejar, e não é pouco, uma vez reconhecida a dinâmica e a tendência irrefreável do momento.

Não é nada difícil alinhar os graves problemas gerados pelo inaudito desenvolvimento tecnológico atual, que só tende à aceleração, e que é a base propulsora da mundialização da economia. Esse raciocínio coaduna com o principio de que estamos avançando tecnologicamente, porém este avanço não corresponde com o empobrecimento coletivo, com a fome absoluta, com a falta de perspectiva. Ressalto que, esta velocidade tem a marca do imediatismo, do esvaziamento da teoria, da fragmentação do real, da reificação da vida. O mundo globalizado faz crescer a “geração do espetáculo” e neste caso, acrescento que a crença absoluta na automação e na robótica faz crescer ainda mais as distâncias entre ricos e pobres, entre os que detém poder e os que aceitam o poder. As benesses do progresso estão à disposição de poucos. A forma como o capital se impôs ( os assalariados, os subempregados, os desempregados, os refugiados, os exilados etc.). As contradições deste modelo de organização social estão sempre a incomodar a uns mais, a outros menos – a população de telespectadores. Há um foco lutente de insatisfação que nos momentos de crise chega a seu ponto crítico. A possibilidade de um desequilíbrio de forças é, então uma ameaça permanente, pairando no ar.

Deixando de lado perspectivas e voltando, simplesmente, ao presente, o diagnóstico provável é que o nível atual de desenvolvimento das forças produtivas, isto é, humanas, não se acomoda e, provavelmente, nunca poderá, a rigor, se acomodar com a estrutura da sociedade civil oriunda do passado e com o estatuto e as funções supostas da sociedade política, também derivada de um nível anterior e inferior de desenvolvimento histórico. Ou seja, a capacidade humana alcançada para a produção de seu mundo próprio se mostra superior é mais potente do que a orgânica social que os homens permanecem vivendo e agindo. Cabe dizer, dimensões diversas da obra dos homens estão desajustadas e estão colidindo. Em outros termos, estão em choque a capacidade humana de realização e a forma de sua organização ou convivência. Parte do humano se realiza e parte é negada ou destruída, seja na forma de supressão direta da parcela da própria humanidade, seja por aniquilação da potência autoprodutora da individualidade humano-societária, acentuando alienações antigas e criando novos redutores.

Numa palavra, os homens aguçaram ao máximo a capacidade de apropriação produtiva da natureza e estão no limiar do domínio da vida de seu gênero e de todo o planeta, o que dá feição própria a seu mundo, o que significa a explicitação de suas forças vitais de efetuação de mundo, mas ainda não alcançaram o desenvolvimento das forças vitais necessárias à produção de si mesmos, qie é sua forma mais elevada de produção. Sabem lidar e moldar os predicados do ser material, mas não as categorias do ser social.

Recorrendo à lembrança histórica, convém lembrar do pensamento e das idéias de Thomas Malthus e de David Ricardo. Ambos afirmavam que o capitalismo industrial alacançaria um tal nível de desenvolvimento que os recursos naturais do planeta se esgotariam e as populações seriam assoladas pela fome. Alfred Murshull, alertava para a degradação dos níveis de vida da humanidade, com o aumento constante do trabalho árduo, da falta de instrução e saúde e da baixa expectativa de realização pessoal.

Com a apresentação dessas idéias e orientações, a impressão aparente radiografa uma sociedade absolutamente paradoxal. Se por um lado nos acostumamos a identificar a fina estrutura da matéria, a estrutura do micro-chip, por outro, nos acorrentamos ao atraso do subdesenvolvimento. Vemos que as diferenças marcantes passaram a ser observadas nas “estratégias de sobrevivência” dos setores sociais mais beneficiados pelos diversos projetos de modernização e dos da grande massa dos excluídos. Se entre os primeiros, alustraram-se os padrões de consumo, novas formas de intersubjetividade, padrões estéticos, entre os últimos, passaram a ser cada vez mais frequentes práticas não condizentes coma condição humana. Enquanto nos grandes centros urbanos há em certos meios sociais níveis de vida e de consumo iguais aos dos países desenvolvidos em suas periferias vivem populações em condições de vida infra-humanas, submetidas constantemente ao caos absoluto. Toda essa contradição nos remete a repensar a modernidade, seus mitos e suas pretensões.

Por outro lado o pós-moderno troca o ideal moderno da travação auto-suficiente dos grandes princípios e relatos pela epistemologia pós-moderna da indeterminação, da descontinuidade, do pluralismo teórico e ético, da proliferação de modelos e projetos. Aceita o efêmero e descontínuo, sem qualquer intenção de restabelecer o e o universal. Substitui a perfectibilidade do homem pela variabilidade humana e pela ampliação de todas as perspectivas.

O pós-moderno minimiza o sentido emancipador diante da história que o moderno dá ao homem, através dos mitos do progresso da salvação e da construção da própria história. Não é negado este sentido, mas sua municidade. O acento é posto em na multiplicidade de sentidos, na desconfiança em relação a toda explicação abrangente ou de pretensões exaustiveis. Esta perda do sentido único foi desencadeada já na própria modernidade pela tecnologia, pela comunicação de massa e pela informação intensa e instantânea. Este conjunto que atua sobre as pessoas a partir de pessoas nos faz perder os referenciais: acentuou a fragmentação da realidade moderna. Tecnologia e média, produtos da modernidade, conduzem à necessidade de sua própria superação. Esta implica ir mais além do estilo funcional-operativo, eficiente e quantificado, que caracteriza o moderno. Dentro do mundo globalizado esses fenômenos são plenamente justificados pela necessidade imperiosa do homem, que busca cada vez mais o conhecimento pleno das coisas e das causas. Ressalto todavia, que toda a complexidade que envolve o processo exige discernimento e boa vontade, pois a mudança de paradigma e a reinvenção da nova ordem dó poderão acontecer quando houver uma mudança radical em relação as ações e atitudes.

De forma direta, apresento a grandeza e a miséria do homem contemporâneo. Foi capaz, até aqui de criar as bases materiais da liberdade humana, mas se encontra destituído da condição de produtos de si mesmo. Entendo que invariavelmente a intelectualidade, o discurso prolixo, a sapiência concentrada e todas as reengenharias reunidas não resolvem absolutamente nada, caso não estejam atreladas a uma disposição interna de mudança. Essa disposição deve ser gerada a partir da vontade do “eu individual” e para que seja alcançada com sucesso, tem que atingir a consciência plena do homem, pois através dessa nova visão de mundo é que o mesmo conseguirá conviver com todo esse processo da dita modernidade, da globalização, da aldeia, da linha de montagem “que não deve parar”.

O maior desafio consiste em resgatar as coisas mais simples e a partir daí, descobrir possibilidades e possibilidades de conviver num mundo que exige cada vez mais respostas para os seus conflitos e questionamentos.

Referências bibliográficas


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SANTOS, Jair Ferreira – O que é o pós-moderno. 6. São Paulo, Brasiliense, 1989.


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