Gênero e Ciências Humanas Coleção Gênero Volume 5



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Gênero e Ciências Humanas
Coleção Gênero Volume 5
Volume 1 - Gênero, Corpo, Conhecimento Volume 2 - O Exercício da Paternidade Hoje Volume 3 - Amor, Desejo e Escolha Volume 4 - Para Além do Falo

Neuma Aguiar


Gênero e Ciências

Humanas
desafio às ciências desde a

perspectiva das mulheres
RosA Dos

TEmpos


C11`-Brasil Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.


Gênero e ciências humanas: desafio às ciências

desde a perspectiva das mulheres / organizado por

Neuma Aguiar. - Rio de Janeiro. Record. Rosa dos

Tempos, 1997.

(Coleção Gênero, v. 5)

Inclui bibliografia

ISEIN 85-01-04950-6

1, Feminismo, 2, Mulheres - Estudos. 1 Aguiar,

Neuma 1ª Série

CDD - 305,42

97-1626 CDU - 396
Copyright (C 1997 by Neuma Aguiar
Direitos exclusivos de publicação desta edição adquiridos pela EDITORA ROSA DOS TEMPOS Um selo da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina

171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 585-2000


Impresso no Brasil
ISBN 85-01-04950-6
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL

Caixa Postal 23.052

Rio de Janeiro, RJ -20922-970 EDITORA AELLIADA

À nova geração de estudantes

de gênero e de mulheres

Introdução 9


PARA UMA REVISÃO DAS CIÊNCIAS HUMANAS

NO BRASIL DESDE A PERSPECTIVA

DAS MULHERES
A pesquisa associada ao ensino, que em nível de graduação teria reduzido a propensão para a militância política estudantil, é hipótese comum enunciada em alguns

departamentos de Ciências Humanas no Brasil. Do mesmo modo, analisa-se a relação existente entre pesquisa e estudos universitários de mulheres, quando se discute

a melhor maneira de observar o lugar das mulheres nas Ciências Humanas, se por intermédio da pesquisa, do ensino, ou de ambos. A pesquisa reduziria o interesse político

de estudantes na militância feminista? Curiosamente esta interpretação vem sendo formulada tanto no meio acadêmico quanto no movimento social. Associar desinteresse

político com o conhecimento científico, no entanto, representa uma simplificação dos fatos. Novas questões, contudo, necessitam ser levantadas, antes que se procure

uma resposta para esta indagação inicial.

Seria o feminismo uma ideologia política ou uma perspec-
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tiva crítica do conhecimento que, superando os preconceitos de gênero nas relações sociais, teria um lugar importante na revisão de ciências que omitem as mulheres.

Nesta situação, isto é, enquanto ideologia, estaria o feminismo divorciado do conhecimento científico? Por outro lado, enquanto crítica do pensamento excludente,

não seria esta mesma perspectiva uma contribuição à análise das ideologias, possibilitando um distanciamento dos preconceitos e, portanto, um aprimoramento das práticas

científicas? Subjacente a essas perguntas encontra-se uma outra: vencida a etapa de politização nas universidades, haveria lugar para o feminismo na formação em

nível superior? Seria esta uma nova forma de militância política semelhante à do passado? Ou um arranjo derivado de condições fragmentárias correntes no processo

de participação política?

A visão de que o feminismo não tem lugar no espaço institucional das universidades é uma perspectiva que se apreende tanto no movimento feminista quanto

na área acadêmica. Encontram-se, atualmente, pelo menos duas posições no movimento social referentes às contribuições de feministas para a educação de terceiro grau.

A primeira lança suspeitas sobre qualquer relação entre práticas institucionalizadas - nas universidades ou em outros espaços - e o feminismo, endossando a perspectiva

de que a razão derrota a paixão. A segunda postura admite a participação das mulheres universitárias no feminismo, uma vez que nem sempre a paixão dá conta da diversidade

encontrada em um país do porte do Brasil, notório por suas desigualdades sociais. Assim sendo, só uma aliança com professoras e pesquisadoras universitárias poderia

colocar em relevo toda a variedade de condições de vida das mulheres, subsumindo essa outra posição no mote de que a paixão desinformada não enxerga muito longe.

já nas universidades, enfatiza-se a possibilidade de o conhecimento despertar um desejo de mudança, por intermédio da


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consciência de gênero que este evocaria nas mulheres, com as utopias libertárias vigentes nesse contexto - embora observe-se dois tipos de tendência: uma que rejeita

o iluminismo como formulador de ideais enviezados por um recorte masculino; e outra que observa a importância destas visões emancipadoras para que as demandas por

elas suscitadas resultem no crescimento da participação das mulheres na sociedade civil. Quaisquer das estratégias têm resultado em substantiva produção de novas

perspectivas. O conhecimento, portanto, também é gerador de utopias e de paixões.

A última leva do movimento feminista no Brasil estabelece-se com a criação de grupos de consciência - uma proposta de auto-reflexão, por intermédio da qual

as mulheres rompem as barreiras da privacidade nas relações de gênero, quando trocam experiências com as demais participantes nessa forma de organização. A contribuição

mais importante da estratégia consiste em se ter por base um elo pragmático e expressivo entre as esferas pública e privada. Tornar público aquilo que fica oculto

na subjetividade, ou recluso entre as quatro paredes da vida cotidiana, institui uma proposta de construção de nova identidade da mulher brasileira, não apenas como

perspectiva individual - pertinente a cada participante da experiência - mas também como projeto coletivo, sendo esta uma das bases do movimento social. A perspectiva

de erguimento de um novo sujeito traz à tona alguns projetos políticos, em que se destaca o de apropriação, pelas mulheres, da gestão sobre seus corpos. Na prática,

para o caso brasileiro, em um primeiro momento, isto representa um combate à violência doméstica, resultante de crimes praticados contra mulheres e movidos por ciúme,

em que criminosos saem impunes por serem esses atos caracterizados, por seus advogados, como legítima defesa da honra, com base no Código Civil vigente. Tirar a

vida é diagnosticado, pelo movimento, como uma forma de apropriação do destino destas mulheres por seus maridos, ou companhei-


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ros, que se representam como donos-do-corpo de suas cônjuges. A gestão sobre o próprio corpo ainda é parte da agenda política do movimento de mulheres, e fonte de

conflitos, até o momento, como, por exemplo, na proposta de descriminalização do aborto. O projeto libertário ignora as fronteiras políticas e, através de discussões

que se processam no âmbito das democracias liberais, as perspectivas do liberalismo político são retomadas, criticadas e reativadas no âmbito do movimento internacional

de mulheres.

A emergência de grupos de consciência com uma agenda política para a mudança de práticas que permanecem na reclusão doméstica, bem como o projeto de reapropriação

do próprio corpo pelas mulheres, são temas resultantes do movimento feminista em muitas partes do mundo, assumindo diferentes características em cada lugar e em

cada espaço social, incluindo-se, aí, a universidade. Paralelamente ao processo de reflexão em grupos e da politização do privado, observamos, no contexto universitário

internacional, o nascimento de pelo menos dois processos influenciados pelo feminismo: o primeiro refere-se à constituição de novas práticas pedagógicas que recriam

a questão da consciência de gênero nas atividades de ensino, e utiliza-se da experiência das alunas e alunos, para preencher os vazios de ordem teórica e empírica

sobre o tema. Desta maneira, foram levantadas questões sobre os limites do conhecimento humano para dar conta da condição de vida das mulheres, bem como do relacionamento

de gênero, uma vez que essas mulheres pouco foram contempladas no âmbito das Ciências Humanas, apesar dos pressupostos universalistas que geralmente incorporam os

campos teóricos de suas disciplinas. Essas práticas de ensino incluem a democratização da sala de aula, quando o corpo docente busca encorajar a criatividade e a

independência analítica de estudantes, e se depara com a omissão das mulheres, excluídas dos vários campos de conhecimento.


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As pedagogias feministas originam-se dos programas universitários de estudos de mulheres no contexto norte-americano, e não possuem equivalência no Brasil.

Neste, as metodologias de transmissão de informações ocorrem principalmente dentro do

próprio movimento de mulheres, fora do espaço institucional acadêmico. Às vezes,

ministradas em cursos de pequena duração e levadas adiante em diferentes contextos como sindicatos, agências de fomento ao desenvolvimento, delegacias de polícia

etc., às vezes, por meio de inúmeras outras formas populares de transmissão de conhecimento, como cartilhas, histórias em quadrinhos e recursos audíovisuais de tecnologia

variada, essas informações quase sempre redundam num conteúdo de tal maneira simplificado que chegam a estereotipa-lo, sendo, assim, malvistas pela prática acadêmica,

como inibidoras da reflexão. O contexto universitário, no caso brasileiro, serviu mais para deflagrar questões de identidade, gerando, assim, poucas iniciativas

de alteração radical das práticas de ensino. Pode-se afirmar, até mesmo, que existe, no Brasil, um rechaço à própria noção de Pedagogia, identíficada, de antemão,

por alguns, com o poder autoritário do sistema de formação escolar; o segundo processo refere-se ao movimento feminista tomado como objeto de reflexão acadêmica,

fato que ocorre em muitos países, particularmente naqueles de origem anglo-saxã como é o caso dos EUA, Inglaterra e Austrália. É nestes países que surge a indagação,

desde a Academia, das bases do pensamento sociopolítico que origina a proposta do movimento de mulheres de apropriação do próprio corpo, e de uma redefinição das

relações entre público e privado.

já no Brasil a última leva do feminismo começa a se expressar no contexto da ditadura militar, época em que se expande o sistema universitário e as mulheres

ampliam, de forma marcante, seu ingresso nos estabelecimentos de ensino superior em busca de uma formação. Essa também é a época da institucionalização do divórcio,

o que situa novos parâmetros


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de vida para as mulheres da classe média brasileira, à procura de um projeto de identidade e autonomia. Num estudo recente de Jenny Vaitsman intitulado Flexíveis

e Plurais: Identidade, Casamento e Família em Circunstâncias Pós-Modernas (Rio de janeiro: Rocco, 1994), a autora demonstra a relação entre formação universitária

e projeto feminista, propondo, ainda, que o meio acadêmico leva a uma reflexividade sobre a condição feminina, inclusive quanto ao casamento e a um novo projeto

de identidade social para as mulheres. Esta forma de problematização adquire um caráter distinto daquele que ocorre nos contextos universitários de outros países,

quando a própria universidade se transforma mediante o questionamento feminista.

O processo de expurgo das atividades políticas no meio universitário pode agora ser lembrado como um contexto para a análise desta discussão. A Reforma Universitária

ocorre em 1968, durante um dos governos militares que edita, logo em seguida, o Ato Institucional Número 5, inaugurando o período mais repressivo com relação às

liberdades individuais. Pelo mecanismo de reestruturação das universidades, é decretado o desaparecimento do sistema de cátedras, e fixado o de departamentos, buscando

a combinação de ensino e pesquisa. Nesta mesma ocasião, são reorganizados os cursos de graduação que passam a compreender um ciclo de formação básica e um de

profissionalização. junto a este último são concedidos incentivos à pesquisa, de tal modo que a universidade passa a priorizar a formação de pesquisadores e pesquisadoras,

nas


mais diversas áreas do conhecimento. Seguindo esta trajetória, é criado um grande número de núcleos de estudos, voltados a temas especializados de pesquisa. As mulheres

não ficam de fora deste processo, formando-se então núcleos para estudar mulheres/relações de gênero - que já somam mais de quarenta em todo o país. A iniciativa

ganhou impulso graças ao patrocínio de diversas instituições nacionais e internacio-
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nais que a endossam e apóiam financeiramente. Um bom exemplo do estímulo à pesquisa reside na criação, pela Fundação Carlos Chagas, de concursos de pesquisas sobre

a mulher, o que inspira o surgimento de vários outros, como o da Capes (Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que criou um concurso, embora

de curta duração, de teses de mestrado e doutorado sobre mulheres e relações de gênero.

Não obstante a imensa produção de trabalhos de pesquisa, os núcleos de estudos de mulheres têm tido pouco sucesso na modificação dos currículos universitários,

particularmente na dos cursos teóricos. À universidade urge reconhecer a pesquisa como uma contribuição significativa para a comunicação mais ampla do conhecimento

científico, com a incorporação das diferenças de gênero, dos estudos de mulheres, bem como das análises de constituição das subjetividades (feminina ou masculina).

Uma das questões, levantadas em debate e origínária do presente texto, reside nas opções para o avanço do conhecimento sobre a temática, entre estudos de mulheres

e de relações de gênero. Priorizar este último tema, acreditam algumas, evitaria lançar as mulheres num campo sem interlocução, isto é, isolado. Todavia, os estudos

de gênero com freqüência também são vistos como estudos de mulheres, apesar de seu enfoque relacional. A dificuldade atual consiste, qualquer que seja a opção -

estudos de mulheres ou de relações de gênero -, em evitar um diálogo com o corpo teórico substantivo das disciplinas em que essas áreas de conhecimento se inserem.

Esquivar-se deste desafio consiste em deixar as mulheres à margem das Ciências Humanas, sem conseguir demonstrar os particularismos e preconceitos que permeiam o

conhecimento tradicional. Portanto, o isolamento existe e continuará a existir a não ser que surja uma crítica construtiva das Ciências Humanas, a partir dos estudos

de mulheres e de gênero.


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Desde o período de imenso crescimento econômico vivenciado pela sociedade brasileira, durante os governos militares, as mulheres começam a ingressar em massa

nas universidades. Várias carreiras, como nos casos da Medicina, Farmácia e Comunicação, invertem seu recrutamento preferencial por homens, e passam a incorporar

um número crescente de mulheres - embora este recrutamento se distribua de forma desigual, no interior das especialidades. Disciplinas como as de Serviço Social,

Letras, Enfermagem e Pedagogia, que já contavam com um contingente feminino substantivo, passam a ampliar ainda mais seu recrutamento de mulheres.

O recrutamento feminino tem sido mais amplo em carreiras com baixo valor de mercado, levando à conclusão apressada de que a formação buscada pelas mulheres

estaria sendo colocada em segundo plano. Possivelmente as prioridades ainda sejam por elas concedidas ao casamento, apesar da lei do divórcio já ter mais de uma

década. O desempenho acadêmico das mulheres tem sido melhor do que o dos homens. Essa expansão no recrutamento feminino permanece apenas como um potencial de mudança,

caso não ocorra simultaneamente a abertura dos currículos, com o sentido de incluir as mulheres no conhecimento.

As carreiras fêminizadas têm apresentado um desempenho diferenciado: vistas como adequadas às mulheres, com freqüência exibem um excesso de demanda, o que

representaria sua menor valorização. Algumas, tipicamente femininas, no entanto, têm sido objeto de ampla criatividade como, por exemplo, pelas contribuições para

o movimento pós-modernista na Literatura, despertado com a obra de Clarice Lispector, a partir da análise desta e de outras narrativas.

Participantes dos núcleos de estudos de mulheres passam, então, a oferecer prioridade à questão do ensino como fator acadêmico de relevância, buscando inovar

o conhecimento, e criar uma comunidade de referência, para debater os resul-


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tados de suas reflexões. Para estas mulheres é de grande importância a oportunidade de desenvolver cursos sobre o conteúdo teórico das disciplinas, avaliando em

que medida os autores clássicos possibilitaram remeter as mulheres ao centro de interesse do conhecimento. Sabe-se que esta prioridade, subseqüentemente, terá repercussões

positivas sobre as pesquisas.

Como as disciplinas acadêmicas lecionadas (muitas vezes pelas próprias participantes dos núcleos) analisam as mulheres? Há margem para o tratamento do contingente

feminino?

Um seminário que resultou na criação de uma rede de intercâmbio entre núcleos de estudos, professoras(es) e pesquisadoras(es) participantes destes núcleos

e pesquisadoras(es) independentes possibilitou enfrentar a questão sobre a falta de uma discussão teórica sobre os conteúdos das disciplinas e sobre a aplicação

das teorias à pesquisa, o que resulta em uma dificuldade de reconhecimento das disciplinas sobre as contribuições do feminismo para o conhecimento acadêmico.

Outra dificuldade identificada por ocasião do seminário reside na confusão entre a aplicação do conhecimento, por intermédio das organizações de serviço,

e a atividade dos núcleos de estudos de mulheres. Sem descurar da importância das organizações não-governamentais, como elementos importantes para a difusão de práticas

democraticas, a ausência de uma diferenciação entre estas e os núcleos de estudos tem desviado a atenção da contribuição principal que o feminismo pode representar

para as universidades que é a de repensar a ciência do ponto de vista das mulheres. Lourdes Bandeira analisa a questão em um texto publicado com o Relatório Final

das atividades da RedeFem intitulado "O Fiel da Balança: O Papel dos Núcleos de Estudos de Mulheres nas Universidades".


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Inicia-se, então, um balanço das disciplinas em que tem surgido uma produção significativa: Sociologia, Antropologia, Demografia, Economia, História, Psicanálise

e Literatura. Além disso, um debate teórico possibilita a inclusão de uma análise sobre os conceitos de sexo, gênero e mulher, discutindo as ambigüidades, dificuldades

e avanços que cada um destes conceitos possibilita enunciar para o feminismo. Outras carências foram identificadas nos campos da Pedagogia, Geografia, Arquitetura,

Ciência Política, Serviço Social, Enfermagem e, até mesmo, Engenharia de Produção, que precisam ser enfrentadas. O esforço evidencia distinções e paralelismos teóricos

entre os vários levantamentos e possibilita observar a importância do estabelecimento de novos encontros, em um trabalho constante de discussão das premissas do

feminismo nas universidades.

Podemos revisar as contribuições substantivas trazidas para o debate e sua importância para a construção de um currículo sobre estudos de mulheres. Um dos

recursos utilizados para identificar as questões substantivas, necessitando de aprofundamento, reside em averiguar como cada campo disciplinar permite a aproximação

das mulheres como sujeito e objeto do conhecimento. Outro recurso consiste em debater os enfoques de gênero e o das diferenças para efetuar este mesmo percurso.

Vários textos interpretaram a natureza das dificuldades encontradas: (1) Os teóricos clássicos avançaram categorias bipolares que não dão conta da variedade

de condições de vida das mulheres. As principais oposições discutidas são os pares - natureza e cultura (Suárez; Piscitelli); público e privado (Aguiar; Soihet);

doméstico e mercado (Aguiar; Melo e Serrano); micro e macro (Goldani; Soihet) - que são superpostos às categorias de masculino e feminino. (2) Os mesmos textos que

empregam essas categorias bipolares também priorizam a família, a reprodução ou o parentesco, compreendendo as


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mulheres por suas funções biológicas e não por seu lugar social, ou, melhor dizendo, subsumindo o lugar social ao das funções biológicas. Por vezes a dificuldade

apontada não se refere a um dualismo da natureza humana, mas a um monismo explicativo, cuja resultante é a mesma omissão, ou redução teórica empobrecedora, que esconderia,

assim, a persona feminina (Lo Bianco e Almeida).

Uma saída mais contemporânea tem sido a de trabalhar com o conceito de gênero (Soihet; Goldani). Todavia, como este compreende as relações de poder que se

estabelecem socialmente entre homens e mulheres, seu emprego deixa intocado o conceito de sexo que também é socialmente construido, não devendo, portanto, representar

uma reafirmação da oposição entre natureza e cultura (Piscitelli). Outra limitação constituise no fato de que o conceito geralmente é empregado como substituto de

um outro, o de família, e raramente se destina a reunir as dimensões micro e macro do comportamento social (Soihet). O conceito de gênero, portanto, poderia estabelecer

pontes com a teoria clássica, desde que se tivesse conhecimento de suas limitações.

Uma visão alternativa, endossada por participantes do seminário, consiste em trabalhar com a diferença do outro. Todavia, um dos riscos principais deste

enfoque está no restabelecimento da oposição entre natureza e cultura/sexo e gênero (Goldani) sem problematizar a construção dos conceitos de sexo e natureza (Piscitelli).

Outra dificuldade, ainda, reside na extrema fragmentação que pode ocorrer, em função de intermináveis diferenças que enumeram os elementos da identidade social,

até chegarem, no limite, a um sujeito único, empírico, sem elementos em comum com outros sujeitos e com a vida social.
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Enfoques Feministas e a Antropologia


O campo da Antropologia é examinado por Mireya Suárez quando observa que a distinção entre homens e mulheres é objeto central da disciplina, embora o recorte empregado

seja o da classificação elementar desta diferença, possibilitadora da vida social, e não como elemento explicador da construção dessas distinções sociais entre homens

e mulheres. A visão influenciou o marxismo, quando a civilização é atingida, no dizer de Engels, reinterpretando Morgan, na medida em que os membros das gens passam

a ser definidos através da descendêncía masculina. Sendo assim, ao matriarcado suceder-seia o patriarcado. já Lévi-Strauss, lembra a autora, tomaria as diferenças

entre homens e mulheres como a base de um sistema de comunicação, em que as trocas matrimoniais representam o princípio da organização social. As mulheres aparecem

como domesticadas nessa análise, sendo assim ínvisibilizadas, como um sujeito englobado, no dizer de Dumont. Dessa forma Mireya Suárez enseja o exame da literatura

antropológica clássica desde os primórdios da análise de parentesco, possibilitando caminhar pelas correntes marxistas e estruturalistas em Antropologia Social.

Outros percursos, aponta a autora, são empreendidos por Malinowski, Bateson e Margareth Mead. Malinowski chega às diferenças entre homens e mulheres pela tematização

da cultura da sexualidade. O conceito de gênero, todavia, não havia ainda sido cunhado e a diferença entre o biológico e o cultural fica apenas sugerida por aquele

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