Graças a Deus sou ateu



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Graças a Deus sou ateu”:

filosofia, cristianismo e fé cristã

Omar Lucas Perrout Fortes de Sales

Doutorando em Teologia Sistemática

Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia

Órgão promotor: CAPES

Resumo: A afirmação de Gianni Vattimo: “graças a Deus sou ateu1”, comporta ambiguidades e suscita questionamentos. Perfila-se em sintonia com a constatação do crescente enfraquecimento da objetividade metafísica. Situa-se no horizonte da difusão da falência da visão unitária de mundo, outrora porto seguro a ancorar a realidade. Alude à passagem da História da Salvação à história da interpretação, advogada por Vattimo e prenunciada por Nietzsche. Por sua vez, também permite constatar que as bases filosóficas do ateísmo, liquidadas pelo fim da metafísica e pela morte de Deus, implicam reflexão acerca das transformações culturais e religiosas em voga.

A partir dessas provocações propõe-se elucidar, num primeiro momento, a relação entre a filosofia e o cristianismo no pensamento de Vattimo no intuito de se alcançar o significado da afirmação do autor: “Graças a Deus sou ateu”. Em seguida, importa depreender as interpelações desse posicionamento perante o cenário atual marcado por uma nova sensibilidade pelo sagrado e pelo pluralismo pós-moderno a evocar o posicionamento cristão. Por fim, intenta-se compreender esses elementos como condições de possibilidade, segundo o próprio autor, de encontro com a fé cristã.


Palavras-chave: Gianni Vattimo; Filosofia; cristianismo; ateísmo.


Introdução
Gianni Vattimo, filósofo italiano de grande destaque na atualidade, propõe reflexão filosófica a contemplar o universo religioso com enfoque privilegiado voltado para as discussões acerca da relação entre o cristianismo e a cultura. O autor busca depreender em que medida os elementos constitutivos da mensagem cristã permeiam a formação da visão de mundo ocidental e permitem a compreensão filosófica do fim da metafísica.

O presente texto propõe analisar, ainda que de maneira introdutória, a relação entre a filosofia e o cristianismo no pensamento de Vattimo, no intuito de depreender a contribuição da mensagem cristã em prol do fim da metafísica. Tal dinâmica de “esquecimento do ser” se insere no processo das mudanças de perspectiva constatadas ao longo da história, enquanto marcada pela perda da força da objetividade metafísica. História cada vez mais caracterizada como história de diversas interpretações divergentes acerca do dado objetivo e determinado de outrora.

O mote de Vattimo: “Graças a Deus sou ateu”, permite ampliar a reflexão acerca da afirmação acerca do enfraquecimento da verdade e evidencia a postura do autor ao constatar a irrupção de novas possibilidades de vivência do fenômeno religioso. Por fim, importa indicar e situar em linhas gerais o cenário e as causas da emergência da busca pelo sagrado.

1- Relação filosofia e cristianismo no pensamento de Gianni Vattimo
Nos escritos de Vattimo sobressai a reflexão acerca do cristianismo a partir de pressupostos filosóficos, contemplada em várias obras a discutir propriamente o cristianismo, bem como sua relação com a filosofia2. Trata-se de uma tarefa empreendida pelo autor no intuito de explicitar em que medida os elementos culturais-religiosos-normativos do cristianismo compõem a tessitura da formação e concepção de mundo que marca o modus vivendi do sujeito ocidental. Discussão frutífera não interessada meramente em questionar a validade dos elementos constitutivos do cristianismo, mas centrada na pergunta fundamental acerca da medida em que esses mesmos elementos perpassam e desenham as mudanças em marcha, tais como o fim da metafísica, a propagação da secularização e o enfraquecimento da legitimidade e força das grandes instituições, dentre elas a Igreja.

O interesse de Vattimo pela temática religiosa tem origem na frequência constante à paróquia, durante a infância, bem como na educação marcada pelo acento cristão católico. Os valores cristãos (sobretudo católicos), tradicionalmente comum a tantos contemporâneos cuja formação se assemelhava, compuseram o horizonte modelar de atitudes e grande fomento ao interesse social que marcaram o período de formação do jovem Vattimo. Geograficamente, o universo italiano significativamente regido sob o peso da moralidade do báculo do sumo pontífice afetou existencialmente a compreensão de Vattimo acerca das relações sociais, políticas e humanas.

Na afirmação do próprio autor, o estudo da filosofia se dá no intuito de se “contribuir para a formação de um novo humanismo cristão, livre tanto do individualismo liberal, quanto do coletivismo e do determinismo marxista. Foi na época em que nós, jovens católicos, estudávamos as obras de Jacques Maritain... De Maritain herdei a desconfiança em relação a certos dogmas da modernidade...” (VATTIMO: 2004, p. 8-9).

Na busca de estabelecer o diálogo provocativo entre cristianismo e filosofia alguns temas são recorrentes nos escritos do autor, dentre os quais sobressaem a herança cristã do niilismo e a encarnação do Verbo versus secularização. Em linhas gerais, a encarnação traduz a kênosis divina como atitude de enfraquecimento do Deus que se “recolhe” no intuito de se autocomunicar ao homem. Constitui evento fundamental da história cristã da salvação a irrupção de Deus na história enquanto abertura do sagrado ao mundo. O verbo encarnado, vítima perfeita do sacrifício, confere novo significado ao mecanismo expiatório das religiões pagãs, uma vez que ele próprio é uma vítima inocente a se oferecer num sacrifício definitivo. Tal atitude demonstra mudança de perspectiva ao subverter a lógica de até então. Por sua vez, a postura de Jesus frente ao judaísmo já se impõe como interpretação da tradição religiosa judaica. Daí o cristianismo apresentar-se essencialmente já como uma interpretação cuja racionalidade perpassa a gênese da história do Ocidente. O questionamento jesuânico acerca da verdade absoluta (a lei do sábado, por exemplo) em contraposição à primazia da misericórdia divina e da prática da caridade comporta as raízes do niilismo contemporâneo enquanto abertura a outras possíveis interpretações da realidade. A criação vista à luz da tradição cristã, para além da dinamicidade relacional entre criatura e Criador, constitui genuína afirmação da distinção entre a divindade de Deus e a transitoriedade do mundo. A visão pagã de toda a criação divinizada (o Sol, a lua, as montanhas...) dá lugar à tomada de consciência do lugar da criação perante o seu Criador, como ponto de partida do processo de secularização. Daí o fato de Vattimo atribuir ao cristianismo dinâmica vocação secularizante a difundir seus veios pela cultura ocidental. O declínio da metafísica enquadra-se nessa perspectiva, já que quanto mais secularizado o mundo se encontra, tanto menos há necessidade de se perguntar por uma vida após a morte ou pela finalidade última da vida, ou seja, por uma instância transcendente a garantir a ordem natural do mundo. O destino de enfraquecimento do ser, pensado filosoficamente como ontologia do declínio, encontra suas raízes últimas na constatação do cristianismo como mensagem a difundir a secularização como destino.


2- Da História da Salvação à história da interpretação
A História do Ocidente pode ser compreendida, segundo Vattimo, como história do enfraquecimento do ser caracterizada pelo processo da crescente dissolução da visão unitária da história. Tal processo compreende mudanças de perspectivas a englobar passagens sucessivas demonstradas por Vattimo por meio de três momentos específicos.

Num primeiro momento predomina a concepção da história universal, à luz da herança judaico-cristã como história da Salvação. Tal racionalidade antecede a modernidade e tem a marca da afirmação de verdades objetivas e pautadas na existência de uma lei natural a ordenar a realidade. Garante a moralidade e a ordem vigente, bem como justifica os sofrimentos do presente, uma vez que ao final de tudo pode-se alcançar um grande prêmio. Com o advento da modernidade e o desenvolvimento e aprimoramento da técnica, passa-se da história da salvação à história do progresso. A teleologia da salvação cede espaço aos ideais imanentistas do desenvolvimento técnico, da valorização do mundo e do homem, com a inversão da visão de outrora: “a modernidade também pode ser representada como reivindicação da autonomia do homem em relação ao sacro, como voltar o olhar para a realidade terrena, etc” (VATTIMO: 2004, p. 93). Entretanto, também a racionalidade moderna apresenta sinais de falência, classificados por Vattimo como a dissolução dos valores da modernidade. O esgotamento das pretensões da razão iluminista, a perda do sentido do progresso imerso na busca de constante superação de si mesmo, bem como a crise da técnica, exacerbada pela vitimização da vida pelas grandes guerras, promovem o questionamento do modelo de mundo apregoado pela modernidade. A morte de Deus anunciada por Nietzsche e o fim da metafísica atestado por Heidegger emolduram o cenário do fim das pretensões absolutas da razão. Indicam a ausência de valores transcendentes e objetivos a assegurar uma ordem metafisicamente estabelecida. O fim da metafísica inaugura a idade da interpretação: “a interpretação é o único fato de que podemos falar: nele, como escreveu um dos clássicos da hermenêutica novecentista, Luigi Pareyson, ‘o ‘objeto’ se revela na medida em que o ‘sujeito’ se exprime, e vice-versa’” (VATTIMO: 2006b, p. 64)3.

A existência da verdade única encontra seu esgotamento na emergência e afirmação de diversas possíveis interpretações acerca da realidade. Os estudos de Gadamer e Pareyson influenciam Vattimo no reconhecimento da pós-modernidade4 compreendida como história da interpretação. No plano religioso a história da interpretação fomenta o fenômeno da secularização substancialmente compreendido como produto interno do cristianismo (VATTIMO; GIRARD: 2010b, p. 6ss.). Por um lado a secularização indica o processo de emancipação do mundo moderno ocidental das determinações do cristianismo; por outro, remete também à contribuição do cristianismo para a formação da cultura e da sociedade.

A secularização possibilita a existência da história da interpretação na medida em que abre caminho para a contestação da verdade e afirma a autonomia humana diante do sagrado, destituído do poder coercitivo e legitimador até então lhe outorgado.

No plano filosófico Vattimo apregoa a ontologia débil ou ontologia do enfraquecimento e do declínio como “encarnação concreta” dos veios constitutivos da história da interpretação. Configura o cenário do mundo contemporâneo a diversidade de oculares e consequente interpretações da realidade. A VERDADE dos metarrelatos dilui-se em fracos relatos e narrativas despretensiosas em relação à garantia de uma única verdade objetiva.

Tais considerações oferecem os pressupostos filosóficos para a reflexão de Vattimo acerca do ateísmo, como se demonstra a seguir.



3- “Graças a Deus sou ateu”: a negação dos absolutos metafísicos
A afirmação de Vattimo: “graças a Deus sou ateu” (VATIMO: 2006, p. 14), não deve ser compreendida como mera negação do Deus cristão ou apenas como aparente apologia ao ateísmo. O filósofo confere grande valor à tradição cristã, constitutiva da racionalidade da cultura ocidental, e de modo algum nega seus elementos constitutivos. A kênosis divina (em termos religiosos configurada como secularização e em termos filosóficos ontologia fraca) oferece chave interpretativa de compreensão do fenômeno de indebolimento (enfraquecimento) das estruturas estáveis do ser, como escreve:

“Se me pergunto, ou nos perguntamos, por que uma visão da história do ser como destino de enfraquecimento nos parece (como, pelo menos, acredito) persuasiva, a resposta que nos vem à mente é: como somos herdeiros de uma tradição que se nutriu de valores ‘cristãos’, como a fraternidade, a caridade, a recusa da violência, todos fundados em uma doutrina que tem por centro a ideia da redenção e a ideia da encarnação, ou como São Paulo a denomina, da kénosis de Deus” (VATTIMO: 2004, p. 34, grifo do autor).


Vattimo lê tal processo em marcha como resposta histórica positiva em prol da abertura ao diálogo e à tolerância em oposição à violência da verdade metafísica. Nessa perspectiva, Vattimo se posiciona: “Quando repito o meu mote preferido, ‘graças a Deus sou ateu’, quero dizer que afortunadamente Jesus Cristo me libertou das crenças nos ídolos, na divindade, nas leis naturais etc., e, portanto, nesse sentido me defino como ateu, mas obviamente somente no que diz respeito ao Deus dos filósofos, isto é, o deus ‘ato puro’, conhecimento e assim por diante” (VATTIMO: 2010b, p. 54-55). Trata-se de afirmar a possibilidade da autonomia do sujeito perante a coerção metafísica, bem como trazer à tona as brechas de abertura a outros relatos a interpelar o humano, advindos da falência da racionalidade unívoca.

No tangente à possível apologia ao ateísmo, Vattimo se opõe à afirmação de absolutos, dentre eles a defesa da não existência de Deus. Afirmar categoricamente: Deus não existe, implica considerar nova verdade objetiva. O “ateísmo vattimiano” deve ser compreendido, de modo geral, como ateísmo niilista, por afirmar como princípio a dissolução da verdade já dada e definitiva, bem como constatar a perda da força de instâncias legitimadoras da ordem vigente (dentre elas “Deus”). Por sua vez, o ateísmo exaltado por Vattimo implica a reconhecimento da nova postura filosófica perante a temática, advinda da constatação da “morte de Deus”, assim como advoga a retomada da discussão haja vista a emergência da questão de Deus mediante o crescente interesse pelo sagrado na contemporaneidade.


De forma muito mais radical, o fim da metafísica e a morte de Deus moral liquidaram as bases filosóficas do ateísmo. Os filósofos hoje parecem ser, em sua maioria, irreligiosos ou anti-religiosos somente por inércia e não em função de fortes razões teóricas... Deus era negado ou porque não verificável por meio da experimentação científica ou porque reconhecido como uma fase irremediavelmente superada do processo de iluminação da razão. Agora, sobretudo, estas metanarrativas saíram de circulação com o fim da metafísica. A esta liberação da metáfora e à queda das razões filosóficas para o ateísmo corresponde – mas obviamente sem nenhuma ligação de dependência causal – o renascimento do religioso no seio da sociedade industrial avançada (VATTIMO: 2004, p. 27).
Na perspectiva política e cultural, o enfraquecimento dos regimes totalitários e das manifestações populares hegemônicas, favorece a emergência de outras concepções e paradigmas. No plano religioso, possibilita o advento de manifestações outrora consideradas marginais, bem como a exaltação da busca por práticas e princípios religiosos capazes de corresponder e às novas demandas existenciais advindas da crise de sentido pós-morte dos absolutos. Neste cenário paradoxal, “... o retorno da religião parece depender da dissolução da metafísica, isto é, do descrédito em qualquer doutrina que pretenda valer absoluta e definitivamente como descrição verdadeira das estruturas do ser” (VATTIMO: 2004, p. 28). De forma mais contundente pode-se afirmar que o renascimento da religião na era pós-metafísica liga-se intimamente à tradição religiosa do Ocidente e ao pensamento do ser como evento e como destino de enfraquecimento (VATTIMO: DdC, p. 34). Isso porque, o anúncio da morte de Deus, ou o fim das metanarrativas não exclui o surgir ou o renascer de muitos outros deuses, antes o legitima.

Vattimo alerta para o fato de grande parte das especializações filosóficas de hoje dedicarem-se quase exclusivamente a temáticas epistemológicas, historiográficas, lógicas, etc., e esquivarem-se de discutir a problemática do universo religioso, fonte de grande violência na sociedade atual. “A minha tese é que, se a filosofia reconhece que não mais pode ser ateia, deve, também encontrar em tal consciência a base sobre a qual assumir um comportamento crítico com relação ao renascimento da religião e dos seus perigosos traços fundamentalistas” (VATTIMO: 2010b, p. 111).




4- A busca pelo sagrado e a emergência de nova sensibilidade para o campo religioso
Como se tem insistido, o anúncio da morte de Deus não implica necessariamente o fim da experiência religiosa, muito menos encerra definitivamente o discurso acerca da religião. Pelo contrário: “O renascimento da religião na cultura contemporânea não pode deixar de representar um problema para a filosofia que se habituou a não mais considerar relevante a questão de Deus” (VATTIMO: 2010b, p. 110)5. O retorno às religiões, bem como a efervescência do religioso na cultura atual deve-se, em certa medida, à necessidade humana de resgate das verdades definitivas e à busca da transcendência. O sujeito pós-moderno, imerso no sentimento de vazio e na angústia niilista, típicos da era da ausência de referenciais, clama por um porto seguro ao qual possa se agarrar. Além disso, os problemas emergentes relativos ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, bem como a crise dos valores éticos e a crise ecológica, abrem espaço à presença da religião cada vez mais reconhecida como via de significação do drama da existência humana. Aqui emerge o papel da religião: “o significado de que se reveste a religião para grupos sociais à procura de uma identidade que os salve da situação de ‘anomia’ – usando um termo de Durkheim – na qual a evolução do mundo tardo industrial os jogou” (VATTIMO: 2010b, p. 1086).

Nessa perspectiva, cabe se falar de uma nova sensibilidade humana para com o religioso ou para com o sagrado, bem como para com o universo simbólico, inaugurada por esse sentimento pós-moderno de errância e carência de sentido. O que não significa necessariamente uma “sede de Deus”, como canta o salmista7 ou ainda uma busca do humano pelo Deus cristão. Antes corresponde a uma inquietude pautada pelo desejo de solução imediatista de problemas e conforto existencial marcado por forte acento egocêntrico. Os traços peculiares que caracterizam a prática e vivência da emergência do religioso na cultura pós-moderna justificam essa afirmação, dentre os quais se enfatiza: construção individual da identidade religiosa, baixo sentimento de pertença a uma comunidade/Igreja, a relativização dos dogmas e a secularização de modo geral a estender sua racionalidade não apenas em solo europeu, mas também na América Latina (ROMANO: 2010, p. 13)8.

Às instituições religiosas compete aproveitar tal efervescência e inovar na evangelização, uma vez que “sob a luz da nossa experiência pós-moderna, isto significa que justamente porque este Deus-fundamento último, que é a estrutura metafísica do real, não é mais sustentável, torna-se novamente possível uma crença em Deus” (VATTIMO: 2004, p. 12)9. Grande desafio se abre às Igrejas acostumadas a exprimirem grandes verdades, agora não mais assim compreendidas por seus fiéis que por vezes as relativizam e as conjugam num caleidoscópio de formas e cores de dissonantes interpretações. Por outro lado há o choque de uma pluralidade de discursos religiosos a exigir a abertura das igrejas ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

O cenário atual marcado simultaneamente pela crise e pela busca, constitui condição de possibilidade de encontro com a fé cristã, na medida em que suscita uma demanda de sentido que o cristianismo pode oferecer. Cabe à fé cristã criticamente se posicionar perante aos desafios do niilismo. Compete oferecer-lhe as bases não para a afirmação de uma totalidade unívoca de sentido (a VERDADE), mas para propor horizonte capaz de significar a existência do sujeito atual, no respeito e abertura a outros possíveis discursos. A grande tarefa das igrejas reside no esforço de dissipar a violência presente em seus discursos autoritários, saudosos da legitimidade garantida pela ordem metafísica. Tal trabalho implica o que Vattimo classifica, à luz da tradição bíblica, como promoção da caridade - caminho de abertura às diferenças e da coexistência pacífica entre a diversidade.



5- Conclusão
O presente percurso abre a discussão e provoca o leitor a se situar diante da problemática do ateísmo e das afirmações que a este se ligam. Demonstraram-se os arranjos filosóficos e hermenêuticos que cerceiam a afirmação do ateísmo vattimiano, intrinsecamente ligado à “morte de Deus” e ao fim da metafísica. Contraditoriamente, esse mesmo ateísmo abre espaço à emergência da busca pelo sagrado, uma vez que a falência das grandes narrativas, associada à crise da técnica e à dissolução dos valores da modernidade, provocam grave crise do humano.

Compreender esse jogo dialético protagonizado pela história da interpretação ou do enfraquecimento do ser, situado entre a ausência de referenciais e a crise de sentido, possibilita a análise da complexidade existencial na qual se encontra imerso o sujeito contemporâneo. Delimitar e compreender os meandros que constituem a realidade possibilita a intervenção da fé cristã. Nesse horizonte, segue a missão do cristianismo em rota de colisão com a missão das demais igrejas cristãs, a saber, oferecer respostas interpelantes e coerentes ao homem de hoje.




Referências
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1 VATTIMO, G; GIRARD, R. Verità o fede debole? Dialogo su cristianismo e relativismo. Massa: Transeuropa, 2006, p. 14.

2 Merecem destaque Credere di credere (VATTIMO: 1999) e Depois da cristandade (VATTIMO: 2004).

3 Vattimo remete o leitor à seguinte referência: PAREYSON, L. Verdade e interpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

4 Para o autor o pós de pós-moderno não indica a realização plena da modernidade, mas justamente porque ruíram os valores modernos, pode-se falar de uma superação indicada pelo prefixo pós enquanto dissolução da categoria de novo, “como experiência de ‘fim da história’, mais do que como apresentação de uma etapa diferente, mais evoluída ou mais retrógada, não importa, da própria história” (VATTIMO: 2002, p. IX).

5 Vattimo não desconsidera o esforço de autores como Lévinas e Ricoeur que propõem Deus como questão filosófica. Sobre tais autores escreve: “Mesmo as filosofias que, recentemente, parecem fugir a esta descrição – refiro-me a Lévinas, mas, também, a Ricoeur, por exemplo – encaixam-se no quadro que delineei, pelo menos conquanto a sua ‘teologia’ é puramente negativa: concedem um espaço à experiência religiosa, ou até falam de Deus (como é o caso de Lévinas), porém somente como de uma diversidade e de um vazio que não se pode deixar de admitir, e que, contudo, não falam positivamente ao pensamento filosófico e sobre o qual o pensamento filosófico não fala. Tanto que, até mesmo e, sobretudo, em Lévinas, o nome de Deus parece evocar simplesmente a afinidade característica da existência humana” (VATTIMO: 2010b, p. 108-109). A busca pelo religioso demonstrada por Vattimo distancia-se da abertura para o totalmente outro refletida por Lévinas (visão ainda presa à metafísica, segundo considerações do autor).

6 Ao analisar a conjuntura europeia Vattimo afirma: “Os motivos desta renovada vitalidade e atualidade da religião são vários, contudo, alguns deles parecem ser mais evidentes. No que concerne à Igreja Católica, há que se registrar o fato específico do papel desempenhado pelo papa na queda do comunismo do Leste europeu” (VATTIMO: 2010b, p. 106).

7 Salmo 62,2: “Só em Deus a minha alma repousa, dele vem a minha salvação”.

8 Para o filósofo Roberto Romano a corrosão “de alto a baixo” no caráter de indivíduos e grupos, bem como a supervalorização do mercado são traços peculiares do niilismo em terras brasileiras.

9 Vattimo atenta para a importância do estudo desse novo boom religioso no contexto geral das relações sociais e advoga a necessidade das ciências humanas darem-lhe a devida atenção: “Deve-se retornar à antropologia, à psicologia, e estudar as relações humanas melhor do que se tem feito até agora” (VATTIMO: 2010b, p. 63).



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