Graciliano ramos, o escritor e o intelectual e sua dimensão humana



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GRACILIANO RAMOS, O ESCRITOR E O INTELECTUAL E SUA DIMENSÃO HUMANA.

Aurélio Ricardo Filho1

O intelectual sempre ocupou lugar de destaque na história do pensamento humano. Sua voz é tomada sempre como objeto de análise quando algum mal assola a humanidade. Figura incômoda com suas opiniões, o intelectual é aquele que no dizer de Jean-Paul Sartre (1972), mete-se onde não é chamado. Em todas as manifestações culturais ele doou-se em favor de interpretações dos fenômenos. A grande questão em relação a ele é quem é essa figura e qual lugar ele ocupa na sociedade? Em que se arvora o seu discurso? Segundo Edward Said (2006, p. 33),

o intelectual deve ser um amador e dissidente atuando à margem do poder, e não especialista confinado em sua área de pesquisa ou atuação,cooptando o ponto e se calar ou dizer apenas meias verdade, quando não mentiras sobre guerras, massacres e questões políticas”, o que reforça a ironia de Sartre.


O intelectual Graciliano Ramos apresenta em suas narrativas, reveladas na fala e modos de ser das personagens, a problemática da indignação pessoal, estimulando sua revolta contra as desigualdades sociais e a necessidade de salvar, pelo discurso literário, de uma mediocridade nacional, inerte, desleixada o homem de seu fracasso, gerando condições, a partir da autoconsciência, de se pensar sobre o que se lhes passa. Há, na atitude do escritor, o gesto de emprestar sua arte para a conscientização dos indivíduos viventes em desigualdade social, através da ampla visão que possui, oriunda de um homem que fala como sua personagens, que se considera parelho a elas, pois também é um sujeito que tocado pelas injustiças reinantes.
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Mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS

Graciliano Ramos utiliza a literatura como meio para atuar como intelectual, e corresponde àquilo que pensa Said (2006), atuando à margem do poder, suas idéias reverberam a expectativa de uma transformação social. É como obra final, póstuma, Memórias do cárcere, lançado em 1953, que o escritor

expande a sua autonomia para falar em nome próprio, movendo-se a falar de problemas humanos e sociais brasileiros.

Preso em 1936, durante a ditadura Vargas, sem que jamais tenha sido levantado qualquer processo contra ele, Graciliano Ramos passou dez meses no cárcere, de onde emergiu um pensamento altamente disciplinado e comprometido.

Como um intelectual, sem filiações, Graciliano Ramos enfrentou repressão e perseguição numa ditadura instalada pelo do Estado Novo, de Vargas. Atuou como político sem passear pelos gabinetes de figuras influentes, quis ser anônimo, mas não se ausentou de certa responsabilidade de cuidar pelos interesses de uma classe, de executar planos de educação, de incutir na memória nacional quais eram as principais chagas que maculavam a nação, tendo a literatura como instrumento. Seu estilo, seu modo de pensar delinearam sua presença pessoal e sua forma de agir sobre o mundo. É pelo discurso literário que se submete ao perigo do cárcere, e também é verdade que é por ele que se expressa, mesmo quando fragmentado em tipos que lhe delineiam o perfil.

Como diz Sartre (1972), em relação ao intelectual, o escritor tem sempre alguma coisa a dizer, seja a seu respeito ou não. Ele é sempre um sujeito dotado de alto grau de conscientização sobre os processos de formação do pensamento humano ou do modo de viver dos homens. Graciliano Ramos traduziu-se em leitor de dramas que foram vivenciados por ele mesmo. Dessa forma constituiu-se num escritor-leitor da crise humana. A seu modo, interpretou dramaticamente o modo de viver de cada uma das suas criaturas, com a consciência de um dever que o move e uma incapacidade que o estanca.

Parece haver nas narrativas de Graciliano Ramos, por via de suas personagens, a antecipação de um processo memorialístico que o irá completar enquanto sujeito quando, por fim, são transformadas em matéria literária. O escritor é um ser social e histórico, mesmo sendo amador, pois, de toda sorte, ele tem responsabilidade sócio-histórica ao se valer do discurso para emissão de uma mensagem. O que ele escreve e espalha, amiúde, espelha seu modo de ver o mundo, quer seja o mundo objetivo ou ideológico. Ele é sempre um pensador que tem a escrita seu meio de existência histórica, mas que também a usa para determinar-se enquanto ser social, pensante, atuante. A experiência pessoal revelada em memórias do cárcere completa o mosaico que vinha sendo montado desde caetés e se firma

Narrar as Memórias do Cárcere é uma experiência transformadora; tanto do ponto de vista pessoal quanto da práxis literária. Memórias do cárcere é um tipo de narrativa que se desdobra do testemunho ao documento histórico; das memórias à autobiografia. Um livro que, por sua densidade, requer paciência; ou, conforme Antônio Cândido, talvez convenha ao leitor aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo de uma experiência que se desdobra em etapas. (CÂNDIDO, 1992, 13). A sua decisão de escrever é uma oportunidade para fazer ponderações, tomar consciência de si e do mundo.

Para Sartre, escrever é uma ação de desvendamento. O escritor, ao escrever, revela o mundo, e em especial o homem, para aos outros homens, a fim de que estes assumam em face do objetivo, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade (SARTRE, 21, 1993). Escrever é posicionar-se diante do mundo; é emprestar sua voz aos que dela carecem; “Seres tristes e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; sobra do refugo humano” (RAMOS, 1980, I, 197). Não se trata de gesto caritativo; mas imperativo. Para “quem dormiu no chão, e pretende espantar males, escrever é uma exigência fixa, dominante. Na memória estão fatos e sujeitos conhecidos, além da experiência e da angústia que o fazem sujeito da ação narrativa. Em Graciliano a escritura se dá por meio de “um discurso tão curiosamente engendrado que equivale ao silêncio; ” (SARTRE). Mas um silêncio apelativo.

Para Graciliano Ramos, escrever é uma oportunidade de ver suprimidos certos preconceitos, vencidas certas barreiras, aproximando-o dos homens em suas inteirezas e em suas igualdades, num autêntico desvendamento. Esse desvendamento é descrito por Sartre como uma derrubada da máscara que nos encobre, e que o escritor, mediante experiências vividas, porá por terra. O escritor, como diz Sartre, é um falador; designa, demonstra, ordena, recusa, interpela, suplica, insulta, persuade, insinua (SARTRE, 1993). Em face disso abandona as alegorias e decide-se a representar a realidade o mais verossímil possível – escrevendo “talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze. (RAMOS, I, 34).

[...] Quando vi pela primeira vez esses indivíduos baixarem-se para colher no chão uma ponta de cigarro, vexei-me em excesso, virei a cabeça, fingi não reparar no procedimento vil. Depois me indignei e enojei. (RAMOS, 1980: II, 111). As minhas conclusões eram na verdade incompletas e movediças. Faltava-me analisar aqueles homens, buscar transpor barreiras que me separavam deles, vencer este nojo exagerado, sondar-lhes o íntimo, achar lá dentro coisa superior às combinações frias da inteligência. (RAMOS, I, p. 311.)

Os fatos ali revelados adquirirão um significado: Os relatos demonstrarão sua recusa quanto à imposição de uma ordem vigente e degradante. Ao ver de Sartre, o escritor nesse instante, vítima de mazelas da ditadura, se escreve sobre a degradação física e moral do homem, deverá escrever a partir do vê e vivencia.

O ato de escrever soa como tentativa de recriar uma realidade, que mesmo pejada de amargura pudesse ser exibida ao mundo num tempo posterior, e que fosse capaz de modificar as estruturas da sociedade humana. Graciliano entende que escrever é compromisso, engajamento, é um mobilizar-se propício para alterar o que se estabelece dentro do campo real. Assim, ele abandonou o sonho impossível de fazer uma pintura imparcial da sociedade e da condição humana (SARTRE, 1993, 21). Exigente consigo mesmo, admite-se pequeno às exigências da empreitada de narrar suas memórias; achava matéria superior às suas forças. Nesse sentido, debruça-se num trabalho cuidadoso, pois sabe, suas memórias estão destinadas a um público futuro.

... sem dúvida, o escritor engajado pode ser medíocre, pode até mesmo consciência de sê-lo, mas como não seria possível escrever sem o propósito de fazê-lo do melhor modo, a modéstia com ele encara sua obra não deve desviá-lo da intenção de construí-la como se ela devesse atingir a máxima ressonância” (SARTRE, 1993 21).

Pelo visto, a resposta à primeira pergunta de Sartre, diremos: escrever é agir; escrever é, ao mesmo tempo, apelo e compromisso: apelo da alma, compromisso da consciência.

O autor escreve para se dirigir à liberdade dos leitores, e a solicita para fazer existir a sua obra. Mas não se limita a isso e exige também que eles retribuam essa confiança neles depositada, que reconheçam a liberdade criadora do autor e a solicitem, por sua vez, através do apelo simétrico e inverso. (SARTRE, 1993,43)

Os meses transcorridos no cárcere deram o narrador uma maior consciência acerca da liberdade. Quando um escritor se envolve em narrar fatos semelhantes aos passados nas Memórias do cárcere, não se há de ter dúvida do motivo precípuo da sua narrativa, e um dos principais motivos da criação artística é certamente a necessidade de sentirmos essenciais em relação ao mundo. (SARTRE, 1993). Porque indivíduos como ele escrevem? Escrevemcontra um poder que se exercia discricionário, simultaneamente justiça e execução, regido por leis próprias, reconhecidas e inapeláveis” (RAMOS, 1980, I, 326). Escreve-se como forma de estender-se aos homens como alento e alerta. Escreve-se por convicção política. No entanto, importa que uma obra literária não perca sua qualidade literária ofuscada por uma tomada de posição política do escritor.

a tendência de uma obra literária só pode ser correta do ponto de vista político quando for também correta ponto de vista literário. Isso significa que a tendência politicamente correta inclui uma tendência literária. Acrescento imediatamente que é essa tendência literária e nenhuma outra, contida implícita ou explicitamente em toda tendência política correta que determina a qualidade da obra. Portanto, a tendência política correta de uma obra inclui sua qualidade literária, porque inclui sua tendência literária. (BENJAMIN, 2006, p.123)

O que faz Memórias do cárcere uma grande obra é o fato de assumir essa forma correta; pois é, no tocante ao juízo literário, antes uma grande obra literária que política. Escrever naquele momento é um duplo de vocação: político e literário.

Memórias do Cárcere, além de expressar o pensamento, as impressões daquele que narra, estabelece-se como uma atividade constitutiva do sujeito histórico e existencial. O relato das experiências repartidas com presos políticos e comuns a bordo do navio Manaus realça mais que a mera subjetividade do narrador. È um falar e alçar de muitos. Graciliano seleciona fatos guardados em sua memória. Sua capacidade de memorização é uma potente demonstração da importância da narrativa. A memória é a mais épica das faculdades, diria Walter Benjamim. Quem tenha a oportunidade de ler as Memórias do Cárcere, ao chegar às últimas páginas carregará consigo um ar de liberdade sobre si; ar que vem carregado de consciência e completude. Liberdade que o autor, paradoxalmente, encontrou na cadeia.

Certos escritores se desculpam de não haverem, forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de Ordem Pública e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. (RAMOS I, 34)

Com Graciliano Ramos, a memória funda-se como elemento essencial na construção de projeto identitário do sujeito que se quer histórico. Ele não recusa o passado, que, “se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido”. Nesse sentido, a memória - que escoa em boa parte de sua obra – é um mecanismo de fixação de um tempo no qual descortinam-se os primeiros traços de um sujeito que cresce historicamente no tempo a partir da elaboração de um discurso literário representativo de da identidade e pensamentos de um escritor que se faz como próprio personagem de uma história.

Graciliano Ramos, no âmbito da sua ação intelectual preocupou-se em discutir a literatura e o papel do escritor no âmbito de sua ação política, entendendo-a não como manifestação partidária. A literatura, assim como questões sociais, tornaram-se, dentro da sua obra, problemas deliberados, num instante em que, no Brasil, ainda havia, em termos estéticos, uma preocupação com vanguardas, que, ao seu modo de ver, eram insuficientes para debater questões nacionais mais aprofundadas.

Talvez não se devesse usar aqui diretamente a expressão engajado para o escritor Graciliano Ramos, porque ele não se declarava existencialista ao molde de Jean-Paul Sartre, usaríamos por mera conveniência. Mais apropriado estaria o termo operativo, talhado por Walter Benjamim. Graciliano Ramos é um escritor político, que surge como quem se coloca no plano da dominação para melhor compreender a as atitudes humanas. É com o olhar do crítico que relata a migração da família de Fabiano, visando compreender o caminho histórico do subdesenvolvimento do Brasil e as relações que imperam entre capital e trabalho.

Graciliano Ramos foi um escritor que, antes disso, era um grande leitor, razão que certamente ampliou sua visão sobre a literatura no plano da necessidade de discussão dos problemas humanos. E na sua exigência, foi talvez o maior crítico de si mesmo. Essa atitude de criticar a si mesmo evidencia, contudo, um alargamento da crítica que o escritor fazia sobe a própria literatura no plano estético e fundamental, para ele a literatura, ainda insuficiente, deveria atuar como elemento constitutivo de alterações nas relações sociais. A obra literária havia de estar ligada ao comprometimento social. Nesse sentido, enquanto escritor, deveria questionar a si mesmo, tanto quanto a literatura havia de ser questionada.

Compreendemos que Graciliano tornou-se um dos pouco escritores capazes, ou com compromisso, de tecer paralelamente crítica à literatura e à realidade social. E isso de modo autônomo, tomando-se ciência de que àquela, início do século XX, sua voz não era representativa de nenhum segmento classista ou facção ideológica, senão eminentemente humana. A questão é que Graciliano Ramos é um escritor- intelectual que participa de um projeto de reavaliação do que era ser escritor e que tipo de contribuição poderia dar. Assim, mais que uma solução, a literatura passa a ser um problema a ser elucidado, como fizera Jean-Paul Sartre, ao questionar o papel do escritor em 1948.

Seu questionamento é, até que ponto a linguagem literária é suficiente para resolver o problema das classes desfavorecidas? Essa desilusão está presente e, parte de sua obra, estando,aliás, na essência dela. Basta que vislumbremos caetés, são Bernardo angústia e, bem característico, vidas secas. Assim, seria possível a literatura representar o mundo? Não é sem razão que sua obra tem em certo sentido, a marca da desilusão.

O silêncio que se alarga em Fabiano parece-nos oriundo de um estado de espírito quem vem do próprio Graciliano Ramos. Em ambos há um embrutecimento, guardadas as devidas especificidades, do real e do ficcional, mas que tanto pode ser estreitado quando se avalia o conjunto de sua obra, se ele, escritor se insinua pelo que pensa. Em vidas secas, o discurso intelectual é do narrador que se posiciona ao lado do homem rude e iletrado para compreender seu modus vivendi.

Na estreita relação entre escritor e sua obra, os questionamentos lançados pelas personagens ressoam em conformidade com os mesmos lançados pelo escritor. O intelectual utiliza-se do discurso literário, deixando que pelas vozes das personagens falem sujeitos lançados a um desconforto social, seja o letrado ou o iletrado, como é o caso específico de Vidas secas, com seu narrador e Fabiano e sua gente. Ao que nos parece, Graciliano Ramos vem como um porta-voz, um representante desses sujeitos.

Para Hermenegildo Bastos, “a obra assim construída pôde dar conta do projeto?”, mas tanto isso é possível que os tipos criados por ele são frutos de análise, e, mais evidentemente ainda, Memórias do cárcere, se constitui numa ação metalingüística da literatura, mas que não se deixa esgotar nisto, porque o ambiente ali criado permanecia aberto a questionamentos humanos e intelectuais, mas que não abrangentes apenas no delimitado espaço nacional, mas no entorno do mundo. Há aí não apenas uma análise de si mesmo, mas da literatura e de como ele se pôs no processo escritural de dois de seus maiores trabalhos, no caso este último citado e Angústia. Nesse seu projeto, são postas em evidência as limitações da literatura e do escritor enquanto intelectual. Se, como disse Antonio Cândido em relação à similaridade entre Graciliano Ramos e alguns de seus personagens, Graciliano Ramos não tenha pretendido a identificação, nesse sentido teria – positivamente – fracassado, haja vista que nos liames entre realidade e literatura tenha o autor deixado marcas suas

Graciliano trabalha como uma espécie de procurador do personagem, que está legalmente presente, mas ao mesmo tempo ausente. O narrador não quer identificar-se ao personagem, e por isso há na sua voz certa objetividade de relator. Mas quer fazer as vezes do personagem, de modo que, sem perder a própria identidade, sugere a dele. ( CANDIDO: 2006, 107 )

O espectro de frustração que se expande nas personagens aproxima-se de Graciliano Ramos escritor e intelectual, que se revela consciente dos dramas humanos, fazendo insurgir, dessa relação, dessa proximidade, uma espécie de ressurreição: o homem, o escritor, o intelectual apagado, que se sente necessitado em ser apresentado a publico, mas que, em razão dos estreitos da gramática e da lei, opta-se em representar o papel de narrador ou de personagem num livro autobiográfico, num projeto consciente e político, mas que não se leia político com ênfase ao partidarismo, isso porque se quer isento de vinculação a qualquer sectarismo.

Na ausência, impossibilidade ou qualquer outro motivo que distancie o homem Graciliano Ramos a agir livremente, em favor de uma classe de sujeitos desvalidos, então é um sujeito que se quer histórico que terá a oportunidade de falar.
O narrador assume este papel de agente da conscientização, mas bem observado, Graciliano se distancia da esquerda de seu tempo. A ironia contida na narrativa, que instala a defasagem, nos remete a uma outra perspectiva: não é o personagem que aprende, mas também o narrador. O intelectual tem a aprender. Tampouco o narrador (leia-se o intelectual) detém aí o conhecimento de todos os elementos envolvidos no processo da exploração e das formas de luta pela emancipação. (BASTOS: 2006, 03 )
Se se considerar Memórias do Cárcere como uma releitura que o escritor faz de sua obra, encontrando defeitos, não se há de negar que há, também, a proposição de releitura dele sobre si mesmo. O espírito de jornada suscitado por Antônio Cândido para quem se proponha à leitura da obra de Graciliano Ramos já seria justificadamente suficiente para que se dê ao intento de ler sua narrativa dos dias no cárcere. Na extrema profusão de temas e preocupações, Graciliano Ramos realiza um estágio reflexão sobre os passos de sua obra e d literatura dentro do panorama nacional, sendo ela, da forma em que era professada, incapaz, ainda que necessária. Assim como faz Sartre ao questionar o papel do escritor em 1948, faz Graciliano Ramos ao questionar a sua ação enquanto escritor.

Não restam dúvidas de que Memórias do cárcere foi um projeto muito bem delimitado pelo escritor, que passa a ser sujeito e objeto da literatura. Ambos com o intento de constituir a face pública do intelectual, escritor, crítico literário, através da autorrepresentação.


Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limite a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. Não será impossível acharmos nas livrarias libelos terríveis contra a república novíssima, às vezes com louvores dos sustentáculos dela, indulgentes ou cegos. Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos... Ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu de escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício. (RAMOS, 1980, p. 34 )
Na ampla perspectiva em que se propôs diante dos conflitos humanos, Graciliano Ramos vê a prisão, como já observou Antonio Candido, é a metonímia do mundo. A decisão derradeira de não mais optar pela ficção plena é um ato deliberado de coragem, ou, noutra perspectiva, de angústia na vida de um autor/personagem e do seu mundo histórico. Assim, a literatura para Graciliano Ramos constitui-se como negatividade, problema, autonegação e autoquestionamento. O autoquestionamento, mesmo das personagens, ou o questionamento que o intelectual faz da literatura é sempre uma forma de evidenciar-se. Menos preocupado com um naturalismo orgânico, por assim dizer, ou um realismo com ênfase num psicologismo, sendo ser da existência, Graciliano nos apresenta personagens debruçados num mundo objetivo, do qual ele – escritor – faz parte – mas intenta distanciar-se, neutralizar-se como prerrogativa de assumida pequenez e incapacidade de solucionar todos os problemas atinentes à ação humana.

Antonio Candido, em seu ensaio: Ficção e Confissão, fala do conjunto da obra de Graciliano Ramos da ficção à memória, estabelecendo proximidade entre sujeito e obra, como se tudo decorresse de um projeto lançado inicialmente já em caetés, nos quais os escritor vai questionando ao longo da obra a questão política vigente e o seu próprio fazer literário.

Como arte e política valiam bem pouco, mas talvez enxergassem nela dinamite. A crítica policial era tão estúpida que julgava a produção artística não pelo conteúdo, mas pelo nome do autor. Eu vivera numa sombra razoável, quase anônimo: dois livros de fôlego curto haviam despertado fraco interesse e alguma condescendência desdenhosa. Era um rabiscador provinciano detestado na província, ignorado na metrópole. Iria analisar-me os romances, condená-los, queimá-los, chamar para eles a atenção da massa? Ou lançar-me-iam, tacitamente culpado, no meio de criminosos, indivíduos que sempre desejei conhecer de perto? (RAMOS, 1980, p.97 )
A literatura era o seu mecanismo de protesto e de sua sobrevivência. Se para Antonio Candido “os romance de Graciliano Ramos são experiências de vida ou experiências com a vida... manipulando realidade.”, isso termina por comprovar que Memórias do cárcere são o testemunho do autor que se quer evidenciado pela história, escrevendo, como disse Nelson Werneck, um libelo,um testamento humano, literário e intelectual.

As razões e as características apresentadas ao longo da história fazem de Graciliano um intelectual. Isento de compromissos senão com o de avaliar a natureza humana, Graciliano Ramos assumiu consigo mesmo um compromisso de interpretar, avaliar e revelar aspirações e sonhos de indivíduos que, como ele – homem angustiado – embatiam-se com o sentido do ser-no-mundo e de estar-no-mundo. Enquanto intelectual, tentara compreender e expressar as máximas de significação e dos anseios individuais e coletivos. De pequeno-burguês frustrado a escritor consciente do papel combativo que seu ofício requisitava, tornou-se um leitor, um tradutor de vontades alheias. Ancorava em sua alma o sentido do descontentamento com as desrazões das classes dominantes; fosse ela em qualquer segmento: político, social, intelectual ou econômico. E é justamente desse descontentamento que se amplia a figura do intelectual humanista, sobrepondo-se ao escritor.

È como intelectual que Graciliano envolve-se com questões de ordem social, política e humana. Na prisão há um entregar-se à observação de seres até pouco tempo desconhecidos por ele: bandidos, ladrões, pederastas. O submundo do porão do Navio Manaus tornou-se um grande laboratório, não para experimentalismo, mas para análise do que ali se lhe apresentava tão naturalmente. O intelectual Graciliano Ramos, muito mais que o escritor, ainda que as funções fossem paralelas, ambicionava entender a alma humana e os conflitos existenciais pelos quais passavam ele e seus companheiros de cárcere.

A tomada de posição assumida por ele, enquanto intelectual, implicará no que, à luz do existencialismo de Jean-Paul Sartre, entender-se-á como escritor engajado. Uma postura política como resposta às vicissitudes lançadas pelas estruturas dominantes. O posicionamento político de Graciliano, enquanto compromisso diferia dos mecanismos de Sartre e Gramsci, divergia pelo fato de que ele não se enquadrava nas fileiras de um partido político – no caso, o Comunista – só vindo a inscrever-se posteriormente à sua saída da prisão. Divergia, não pelos propósitos, mas pelos comportamentos, o que sobrelevava a sua condição de humanista. Convicto de suas idéias e seus ideais, seria tranquilamente compreendido como o que Milton Santos (2002), em autodefinição entendia por intelectual outsider (porque não se filiara a nenhum partido, e porque por nenhum deles fala; e, além disso, não responde por nenhum grupo acadêmico ou segmento ideológico.

Graciliano se sabia intelectual e assumia riscos pelo que proferia em seus discursos e em suas narrativas literárias. É possível que, por essa assunção de responsabilidades, tenha preferido lançar-se com nome próprio e verdadeiro, escrevendo em suas memórias as verdades que julgava imprescindíveis de serem (d)escritas. Por extremo rigor aos princípios morais, e em nome de valores que devem ser comuns a todos os homens, assumiu o compromisso ético para falar em nome da justiça e da verdade, com a ambição de ver suprimidas a injustiça e a desigualdade sociais

Sujeito arredio desde a infância, sua trajetória intelectual, diversa do que se consideraria a essa figura, foi lenta e distante dos meios acadêmicos. Um sertanejo rude, como se entendia. No entanto, uma criatura que se envolvia cuidadosamente no processo de busca, superação e evolução no processo laborativo do conhecimento. Insatisfeito, chegava à acidez em relação a si mesmo. Sua existência continuamente fora um processo de insatisfação e superação. Sob uma aparente natureza irritadiça, firmou-se como um homem combativo. Atarefado com a lucidez e com a sensibilidade próprias de um grande espírito, tornou-se ainda em vida um dos maiores nomes da literatura nacional, o que é raro, num país de mentalidade tacanha, que valoriza o que está além, senão os mortos.

Se como escritor tornou-se sujeito histórico, fez do seu ofício trincheira por onde lançaria seu pensamento intelectual. È comum perceber-se, numa espécie de bifurcação, autor e personagem irmanados num mesmo propósito, despiciendo aludir à figura de Luís da Silva em relação à de Graciliano.

Intelectual convicto, Graciliano nos deu um livro que, embora se apresente no plural – memórias do cárcere – se tornou singular em nossa literatura. Integro, pusera-se a narrar com isenção de vaidade fatos que corroíam as estruturas de um país alienado e desagregado. Como nos diz Nelson Werneck Sodré, só mesmo um homem da inteireza de Graciliano Ramos poderia juntar o pensamento literário ao intelectual, com tamanha competência e descrição.

Historicamente, a figura do intelectual está vinculada à erudição, fato adquirido através das leituras às quais o sujeito se lance. Pode-se, portanto, também, entender que a formação intelectual seja em certo grau resultado das relações sociais a que se desdobre o sujeito. O intelectual Graciliano Ramos, ainda que em muito tenha se doado voluntariamente à busca, formou-se dentro dessas possibilidades. Sua erudição é oriunda de suas bases de leitura, bases que, conforme cita em Infância, vieram das indicações de pessoas mais velhas que ele, mas que percebiam a potencialidade havida na garoto Graciliano Ramos.

Mário Venâncio foi um dos poucos que lhe aliviaram as tensões de uma leitura encrencada, vexado diante de uma cartilha, vendo traços confusos numa linha, e com o pai a lhe dizer tratar-se de armas terríveis para quem as dominasse. Ácido, muitas vezes exageradamente, chegando a ser extravagante, tornou-se um crítico severo sobre tudo o que se lhe passava, não só no aspecto humano, e, do mesmo modo, com a literatura e com o pensamento político de seu tempo.

Dono de extrema disciplina intelectual, Graciliano buscou na matéria exposta na realidade cotidiana motivos para escrever. Consciente de sua ação política, escreveu em nome dos menos favorecidos.[...] Fabiano, Luis da Silva, João Valério são exemplares de Graciliano Ramos. O comportamento desses personagens é, em certa medida, o desconforto e o desencanto de escritor diante de uma sociedade civil desorganizada, ou, na melhor das hipóteses, organizadas em faixas divisórias de classes.

Do menino de Infância, que não sabia ler e atrapalhava-se com o seu Ter-te-ão ao escritor dedicado a uma ideologia reformista, a consciência política de Graciliano, e que ele tentava esboçar em suas personagens, às vezes até negando-a como é o caso de Fabiano, era o instrumento político que o escritor utilizava na expectativa de ser possível a transformação social a partir da transformação humana. E que ele bem pode atestar ao converter-se num leitor critico, repudiando o mundo do barão de macaúbas ou as fantasias descabidas do romantismo, apostando numa literatura cursada na experiência da vida diária.

Especulativo, tornou-se um homem e um escritor dotado de conhecimento, consciência e sensibilidade. Escritor que soube reconhecer pela própria experiência o sentido do termo humanismo, e em favor deste produzir uma obra capaz de condensar razão valor estético. Graciliano tentou, com seus livros criar uma nova ordem social como possibilidade de ver suprimidas desigualdades. Suas convicções enquanto homem e escritor acenderam-no como intelectual que, partindo da análise das atitudes humanas buscou transcrever e transcrever-se, eliminando excessos que corroessem a dignidade do homem enquanto humano e sujeito histórico

O intelectual Graciliano Ramos é o político Graciliano Ramos, confluídos num mesmo propósito. A consciência humana e a consciência política eram as base fundamentais. O que se pretende aqui [é contemplar a figura do escritor e do intelectual Graciliano Ramos. Homem de extrema dignidade e sinceridade, colocou-se em marcha através da literatura em favor de criaturas apagadas. A literatura de 1930, da qual Graciliano figura entre os maiores, privilegiou uma geração de escritores voltados a serem mediadores de culturas e posições políticas. Apropriando do código literário, produziu uma literatura até certa instancia subversiva. E aí está uma das possíveis causas da prisão do escritor em 1936, isso porque “ele é humanista desde a infância: isso significa que o fizeram acreditar que todos os homens eram iguais. Ora, quando ele se vê, toma consciência de ser,em si mesmo,a prova da desigualdade das condições humanas”. (Sartre, 1972, p. 24)

Entende-se, sempre, que o intelectual esteja sempre no limiar de um embate. Suas opiniões são contestatórias. Suas ações estão alicerçadas no campo da linguagem, no discurso que profere. Graciliano Ramos bem soube utilizar esse expediente. Se na prisão sua voz é abafada por uma corrente de indivíduos que se mostram mais representativos por razões várias – corporação militar, classe social, formação acadêmica – o intelectual Graciliano pouco a pouco vai condensando idéias a partir das experiências que ali no cárcere vivencia

Crítico compromissado com a face verdadeira da história, Graciliano mostrou-se como intelectual de prestígio na história do país. Memórias do Cárcere – da veia memorialística à autobiográfica – tornou-se um assentamento de fatos que foram literalmente lançados num porão, assim como fora o escritor e vários outros pensadores perseguidos pela ditadura Vargas. Analista, mediador, compromissado, intelectual, a capacidade reflexiva adquirida, sobretudo no cárcere, neo permite que o homem Graciliano ignore o seu papel social, tanto no que diz respeito a produtor cultural e artístico, quanto político, porque sua arte se transforma num instrumento específico para a reivindicação. A literatura, nesse sentido, mais do que em qualquer outro momento, em Graciliano, assume uma função específica como prática libertadora. A voz do intelectual perpassa pela escrita do memorialista.

Como escritor, investido de intelectual, ele problematiza o ato de escrever, colocando-se como personagem, questiona ainda sua própria condição de escritor, e questiona também... Graciliano prezava pelo fazer artístico – contrariando a visão do editor que via no livro apenas um objeto de mercado. A literatura era para ele local de ataque e defesa; autodefesa. Num processo paralelo de questionamento e autoquestionamento, revelava o que havia de mais subliminar nos indivíduos e na esfera social. È como meio que a literatura se estabelece e se institucionaliza enquanto espaço – lócus; logos – para avaliação dos problemas humanos e como palco de discussão contra a força opressora do homem sobre o homem. È ainda a própria literatura que se imporá como ponto de discussão sobre o que é ela mesma, sua função. A literatura é um trabalho exaustivo que corporifica magia, arte técnica e política, fazendo-se alusão a Walter Benjamim. Graciliano valorizava o artifício, o primor estético e a efetiva sensibilidade no ato de escrever; sensibilidade absolutamente isenta de autocomiseração ou pieguice que ofendesse a qualidade artística de seus textos. Se o efeito estético não fosse o primeiro que lhe incomodasse, concorria, no entanto, para não ser o último.

Sartre, citando Roland Barthes, indicia uma diferenciação entre o escritor e o escrevente. Cremos que na figura de Graciliano Ramos, na prática resoluta do sujeito histórico que se impõe e se expõe na e pela literatura, seja possível assimilar tanto um quanto o outro – escritor e escrevente. Tanto um como o outro preferiam a narrativa escorreita, a frase bem trabalhada, a sintaxe bem ajustada,cada palavra no período sendo uma peça de uma engrenagem prefeita: a mensagem.

O fazer literário na vida de Graciliano ramos se estende aos seus personagens. É com freqüência que notamos um ímpeto desenfreado pela palavra escrita como redenção. João Valério tenta escrever um romance histórico; Paulo Honório toma a empreitada da produção de um livro pela divisão do trabalho; numa sociedade organizada sob certas regras de condutas cada um tem sua função especifica.

Invariavelmente, a literatura de Graciliano Ramos pode ser entendida como produção de quem se reconhece como funcionário social, de escritor a intelectual, ou vice-versa. Em amplo aspecto, sua obra se processa com determinada especificidade de quem se vê encarregado a produzir um discurso que possa servir de parâmetro e de ponto de partida para a reformulação do pensamento social, mas que se viu obstado entre a literatura e a lei.

REFERENCIAS:
BASTOS, Hermenegildo. Memórias do Cárcere: literatura e Testemunho. Ed. UnB. Brasilía. 1998.

Benjamim, Walter. Magia e Técnica, arte e política. E. Brasiliense. São Paulo. 1985

CÂNDIDO. Antônio. Ficção e COnfissao. Ouro sobre Azul. Rio de Janeiro. 2006

RAMOS, Graciliano. Angústia. Ed. Record. Rio de Janeiro. 1980

RAMOS, Graciliano. Infância. Ed. Record. Rio de Janeiro. 1980

RAMOS, Memórias do Cárcere. Ed. Record. Rio de Janeiro. 1980

RAMOS, Vidas Secas. Ed. Record. Rio de Janeiro. 1980

SAID, Edward. Representações do intelectual.Companhia das Letras. Rio de Janeiro. 2006

SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura? Ed. Ática. Rio de Janeiro. 2006

SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos Intelectuais. Ed. Ática. Rio de Janeiro. 1972





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