Gt 11: pessoa, corpo e saúde



Baixar 110 Kb.
Página1/6
Encontro24.07.2016
Tamanho110 Kb.
  1   2   3   4   5   6


xxiv encontro anual da anpocs

gt 11: pessoa, corpo e saúde


sessão 1: sofrimento psíquico, representações e experiência

remete: regina coeli machado e silva

universidade estadual do oeste do paraná (unioeste)

endereço para correspondência:

rua do angico, 178 – vila b

cep: 85.855-100 – foz do iguaçu – pr

telefone: (0xx45)524-2594

e-mail: machadoesilva@fnn.net

o stress e os sofrimentos psíquicos da pessoa no trabalho 1


Regina Coeli Machado e Silva

Unioeste /Paraná/ Brasil

O stress vem se evidenciando como uma das "patologias" presentes no âmbito do trabalho desenvolvido nas organizações industriais contemporâneas. O argumento deste trabalho é que, sob a perspectiva da ideologia individualista, esse problema é derivado de diferentes impedimentos para a singularização/totalização do indivíduo. O mais importante deles é a idéia do "sofrimento psíquico", visto como uma chave explicativa para compreender a "vinculação patológica" da Pessoa na empresa. Sob este aspecto, o stress seria resultante, primeiro, de uma forma de dominação obtida de "dentro", pelo controle da psique e do corpo e, depois, concebido como resultante dos conflitos entre as pressões da empresa e as necessidades "internas" da Pessoa. O tema do sofrimento, como evidenciou Luiz Fernando Dias Duarte, 1998, é parte de um complexo sistema de representações sobre a relação da Pessoa com o mundo que, inserida na tensão estruturante2 própria à origem dos saberes sobre o humano na cultura moderna, herda da tradição cristã a ênfase na dor, na paixão e no sacrifico de si como acesso ao Valor, no caso, à proximidade ao divino, como o mito de Cristo evidencia.

A idéia do sofrimento psíquico da Pessoa no trabalho vem sendo retomada no campo etnográfico como uma das “dimensões esquecidas" ou "negligenciadas"3 pelas organizações industriais contemporâneas e parece estar ligada a uma conjunção de fatores. O primeiro deles, aponta para a problematização dos efeitos da modernidade: a valorização e tendência de generalização de um modelo das organizações econômicas, orientado pelo privilégio da lógica formal e instrumental e pela excessiva confiança na tecnologia e na especialização. O segundo, que lhe é correlato, aponta para as formas de subjugação impostas pela razão “universalista”, que contrariam o ideal iluminista de “autonomia” humana. É através desta última problematização que o tema da dominação e da exploração do trabalho nas organizações industriais ganha visibilidade, pelo viés do sofrimento psíquico.

O terceiro fator que contribui para a tematização do sofrimento psíquico é o reconhecimento daquele dilema constituidor dos saberes sobre o humano, remetido ao universalismo e ao romantismo. Uma vez acolhido, o reconhecimento desse dilema ajudaria a “superar” ou “unir o que estava separado” nas “fragmentações” e “oposições” entre “razão” e “afetos”, “objetividade” e “subjetividade” e “exterioridade” e “interioridade”. O resultado, para analisar o sofrimento da Pessoa em sua vinculação no trabalho, será a exploração sistemática do segundo pólo das oposições referidas, modo pelo qual os temas daí derivados se impõem como reflexões pertinentes ao campo pesquisado, nos termos da Psicanálise, domínio de saber que lhes era até então refratário.

Convém mencionar que tais dualidades “inauguram” um objeto de reflexão ocidental sobre a Pessoa Moderna nos dois últimos séculos, em que a construção da idéia do Sujeito da Razão é concomitante ao desenvolvimento dos temas ligados à "não-razão” - sob a forma de exposição dos sujeitos à “paixão” e às “emoções” - reflexão corporificada no esforço limite e fundamental de compreensão da própria construção da noção de “loucura” (cf. Duarte, 1986, 1995)4. Essa reflexão se amplia e se aprofunda, afirmando-se cada vez mais no que singulariza o “indivíduo psicológico” como um modelo para a construção da Pessoa - desenvolvido a partir do pensamento de Freud – sendo íntima e necessariamente ligada à ideologia individualista moderna ( op.cit.)5.

Quanto às razões evocadas nas formulações do campo etnográfico para pensar a “experiência humana” nas organizações, a partir das contribuições dos saberes psicológicos e da Psicanálise, encontra-se a necessidade de melhor compreender o “aparelho psíquico” do indivíduo, tomado como um “fundamento imprescindível” para a manutenção das “novas formas de relações de trabalho nas organizações industriais”, caracterizadas pelas empresas pós-fordistas. Baseadas em uma “estrutura” que incentiva a “participação individual” e o “espírito de equipe” (cf. Enriquez, 1997), essas novas formas correspondem ao que vem sendo denominado como um processo de individualização das relações de trabalho. Seus mecanismos parecem aprofundar os mecanismos disciplinares de controle estudados por Foucault (1977), pois a ênfase recai não sobre uma sujeição constante, impondo relações de obediência e de utilidade por métodos de controle coletivo da organização do trabalho, mas sobre um desempenho centrado num tipo de controle individual que enfatiza a “responsabilidade pessoal”, a “iniciativa” e a “autonomia” no desempenho das funções (cf. Coriat, op.cit.). Trata-se de tematizações endereçadas a um segmento profissional dedicado à tarefa de pensar, sistematizar e transmitir concepções diretamente ligadas à coordenação e ao gerenciamento, posição na divisão técnica do trabalho que oferece um campo envolvente de problematização de questões relativas às condições de possibilidades humanas de intervenção no mundo através do trabalho.

Os saberes organizacionais concebem a “Psicanálise” como “ciência da subjetividade”, embora “social” pelas próprias relações que constroem essa "subjetividade". Também é entendida como “ciência das interpretações” (Sicotte & Lapierre, 1995), ou “ciência das interações entre os diferentes outros” (Enriquez, 1997), com função de desvendar “o psiquismo do ser humano, a riqueza de seu teatro interior, ou do seu universo mental” (cf. Kets de Vries, 1993). O conteúdo desse “psiquismo” ou “mundo interior” são as “emoções”, as “paixões” e as “relações conflitantes”, resultantes de uma teoria que concebe a “interioridade” igualmente como “una” e “dividida”. A “interioridade”, portanto, circunscreve um campo semântico englobador, sendo identificada com uma concepção que “valoriza”, “amplia” e “diversifica” os significados do “mundo interno”: “mundo iniciado na infância, permanentemente (re)edificado sobre pulsões contraditórias6 em suas relações determinantes e determinadas pelo “externo”. Daí provém os significados envolvidos no sofrimento psíquico que vincula a Pessoa na empresa.

De uma maneira geral, os saberes psicológicos são percebidos como uma alternativa de compreensão às abordagens que enfatizam o “econômico”, o “quantitativo” e as “próprias organizações no centro da nossa sociedade” principal recurso para romper com a “orientação tecnocrática” nos estudos organizacionais. A justificativa é que essa orientação limita-se a manter o “sistema de controle de inspiração taylorista ou burocrática”, reduzido a simples técnicas capazes de assegurar a “obsessão pela eficácia, pelo desempenho, pela produtividade, e pelo rendimento a curto prazo” (cf. Chanlat, 1993). Como contrapartida, torna-se necessário “reabilitar o ponto de vista do sujeito, seu desejo em face das suas atividades profissionais e a contribuição essencial do trabalho para uma construção equilibrada de seu ser”. Isto significa colocar “em relevo o papel e o equilíbrio psíquico das pessoas”, bem como a “compreensão das particularidades do ambiente” ( op.cit.,p.8) e, sobretudo, uma maneira de reverter a situação do “economicismo” - que transformou o “trabalho em um meio de acumular riqueza” - tornando as organizações industriais um “lugar propício ao sofrimento, à violência física e psicológica, ao tédio e mesmo ao desespero, não apenas nos escalões inferiores mas também nos níveis médios e superiores” (cf. Sicotte e Lapierre, 1995). A Psicanálise teria, desse modo, um papel importante para ajudar na diminuição do “sofrimento psíquico” nas organizações, desvendando os “processos psíquicos” que “subtendem toda palavra, todo discurso e toda ação” (cf. Chanlat, 1993).

  1   2   3   4   5   6


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal