GT: estudios de recepcióN



Baixar 80.16 Kb.
Encontro28.07.2016
Tamanho80.16 Kb.

GT: ESTUDIOS DE RECEPCIÓN



HISTÓRIA DE FAMÍLIA & ETNOGRAFIA:

procedimentos metodológicos para uma análise integrada.

Nilda Jacks/ UFRGS




Este texto apresentará os resultados de uma experiência metodológica desenvolvida no âmbito de uma pesquisa integrada- "Novas tecnologias, novo telespectador e televisão brasileira", realizada em Porto Alegre entre 1996 e 1999, com participação de três sub-projetos: I) "Novas tecnologias, capitalismo e televisão brasileira" coordenado por Sérgio Capparelli (UFRGS), II) "Television and new technology in everyday life" por Thomas Tufte (Universidade de Copenhague) e III) "Televisão, família e identidade por Nilda Jacks (UFRGS).




PEQUENO HISTÓRICO DA PESQUISA: a perspectiva adotada.

A pesquisa teve como objetivo geral entender as profundas mudanças que vive o mercado brasileiro de televisão, a partir da introdução da tv por assinatura (janeiro de 1995), a qual obviamente está modificando também o comportamento das audiências. Essas mudanças levantam numerosas questões, entre elas a relação do global e do local dentro do novo cenário e entre o micro e o macro contextos socio-culturais envolvidos neste processo.

Por sua vez, os estudos de comunicação até recentemente, independente da perspectiva adotada, ora contemplavam a análise das macroestruturas sociais e/ou político-econômicas, ora desciam ao detalhe da análise da mensagem, via semiótica, retórica, análise de conteúdo ou do discurso. Mesmo no trato da comunicação como fenômeno social, ou seja, privilegiando o primeiro eixo de análise referido, a questão ou se limitava aos ambientes empíricos da interação humana (contextos microssociais) ou às análises empíricas e críticas das mais amplas, embora abstratas, esferas do político, do econômico, da ideologia e da cultura (contexto macrossocial) (Lull, 1992:51). Foi na tentativa de superar estes limites das análises dicotomizadas, buscando um nível de discussão teórica e metodológica que contemplasse o entendimento da interrelação dos âmbitos macro e micro sociais que a pesquisa moveu-se, buscando compreender as determinações e indeterminações existentes na relação dos receptores com os meios de comunicação, ou seja, entre as estruturas e os processos de comunicação.

ARTICULAÇÕES: a trama dos três sub-projetos


Algumas propostas de compatibilizar tradições “incompatíveis” já estão em circulação na esfera acadêmica: as que buscam a interação da micro e da macrossociologia, as que aproximam o texto do contexto, as que dão à comunicação o estatuto de cultura, entre outras. Na tentativa de referendar esta discussão, a pesquisa teve como referência epistemológica as propostas de Pierre Bourdieu e Anthony Giddens, as quais inspiraram a reflexão sobre a produção social do sentido, preocupação básica da investigação, que quis pensar os sistemas e processos de comunicação à luz de uma teoria social, a qual desse conta das imbricadas relações entre micro e macro social, entre estruturas e agentes, entre campos de produção cultural e práticas cotidianas, dentre outras questões que emergem disso.

O ponto de partida foi Bourdieu, cujo contraponto aos limites de sua teoria - tida por alguns estudiosos de sua obra como uma sociologia da reprodução- foi feito através da visão sociológica de Giddens, que examina as estruturas sociais de maneira mais flexível e vê a comunicação como elemento básico para o estabelecimento das complexas relações entre agentes e instituições, integrando contextos micro e macro.

Neste ponto, os autores que contemplam a aproximação entre economia política e estudos culturais fizeram a passagem para o nível teórico, e deram o fio condutor para a articulação entre o subprojeto I, sobre o sistema de TV a cabo no Brasil e os subprojetos II e III, que privilegiaram o estudo das identidades e das práticas cotidianas da audiência .

No nível teórico-metodológico, alguns modelos já desenvolvidos orientaram a pesquisa, entre eles os propostos por James Lull, Jorge González, Granham Murdock, Martín-Barbero, Guillermo Orozco e García Canclini. Todos estes modelos, uns mais acabados e/ou suficientes que outros, pensam as relações comunicativas entre os meios e sua audiência através de uma densa trama teórica, operacionalizada por uma multimetodologia, para dar conta da complexidade de fenômenos que ocorrem nos âmbitos da produção, da mensagem e da recepção, todos contextualizados por uma realidade histórico-cultural.

Em termos amplos, o estudo macro-estrutural (subprojeto I) foi regido, em certo sentido, pela lógica das determinações e os outros (II e III) mais identificados com a lógica das mediações. Entretanto, o objetivo final foi alcançar uma problematização destas duas lógicas que imperam solitárias nas pesquisas de comunicação, através da articulação das pesquisas na tentativa de superar algumas dicotomias.

Em outras palavras poderia ser dito que, os dois projetos que privilegiaram a perspectiva da recepção buscaram de entender o processo de comunicação, enquanto que o outro procurou desvendar o sistema. Mas outra vez o que se quis foi a articulação entre estas duas instâncias, ou seja, o que interessou para a pesquisa foi romper com as analises polarizadas da comunicação, o que inclui além das já citadas (processo e sistema), as existentes entre micro e macro análise e entre o estudo das estruturas separado do estudo dos agentes e vice- versa.

O ponto de articulação dos projetos, entende-se, terá sido a cultura, entre outras razões porque põe em relação um tipo de sistema, um tipo de televisão -a brasileira- e uma audiência - os receptores gaúchos - que certamente não é homogênea, devido a todos os aspectos sócio-econômicos e histórico-culturais que a configuram, acrescido do fato de que ambas as instâncias estão sujeitas à tendência de mundialização da programação televisiva e da cultura como um todo. Isto foi entender as questões estruturais permeadas pelas culturais e não só pelas políticas e econômicas, assim como as práticas cotidianas também como práticas políticas e culturais, e sujeitas às estruturas.

E pela natureza do problema que se construiu, este ponto de cruzamento/ articulação está sob a tensão contemporânea do referencial global/ local, o que poderá em alguns casos específicos ser fortemente mediado pelo regional, como no caso em estudo1.

No âmbito dos procedimentos técnicos, os dois projetos que privilegiaram o estudo do pólo da recepção (II e III), em um sentido amplo, trabalharam articulados por um eixo sincrônico e um diacrônico. No primeiro eixo (subprojeto II), a etnografia produziu dados sobre o cotidiano e as relações sociais e familiares que revelam as práticas culturais e os usos dos meios de comunicação, em especial a TV a cabo, a qual conecta a cultura global com a local.

No segundo eixo (subprojeto III), a técnica de histórias de família garantiu a análise de três gerações, na intenção de descrever como as identidades étnica, familiar e regional se constróem e se transformam de uma geração a outra, sob a influência ou não dos meios de comunicação presentes em cada época (rádio, tv aberta, tv por assinatura). Também interessou conhecer como a instituição familiar contribui para a formação das audiências televisivas, no que diz respeito à formação do gosto por gêneros e tipos de programas, ao tipo de relação com o meio, à definição de papéis na estruturação do conhecimento, das opiniões, das visões de mundo2 etc.

ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS: o estudo das famílias


Uma família comum aos dois subprojetos (II e III) foi estudada em cada estrato sócio-cultural, conjugando também a origem étnica3, como estratégia para pensar a complementariedade das técnicas de pesquisa e o enriquecimento dos dados empíricos sobre a recepção de Tv a cabo Por isso foram pesquisadas quatro famílias.- uma de classe alta, duas de classe média e uma de classe baixa- considerando-se em duas delas apenas um dos ramos familiares e nas outras duas foram incluídas os dois. Assim, a família Alemã (A) e a Negra (N), tiveram os dois ramos estudados, quando acrescidos da família B (de origem italina) e da família L (negra), respectivamente. A família Judia por fundir-se em um só ramo4, torna-se um caso especial em termos analíticos, embora pertença ao grupo que foi tratado por apenas um dos ramos familiares.

QUADRO I- RAMO PRINCIPAL/ Ego e (informante principal)





ALEMÃ

ITALIANA

JUDIA

NEGRA

Antepassados













Terceira geração














QUADRO II- Ramo Secundário/ Ego e (informante principal)






FAMÍLIA B

FAMÍLIA L

Antepassados







Terceira geração









Esta opção metodológica, definida a partir da impossibilidade de investigar os dois ramos de todas as famílias, quando já em trabalho de campo, possibilitou explorar diferentes resultados analíticos. Um deles é a possibilidade de explorar aspectos da terceira geração, quando tem-se informações sobre os dois ramos familiares e também como se adaptam as duas “idéias-forças” familiares quando unem-se através do casamento, além de ajudar a verificar como os "egos" (principal informante em cada família) se reconstróem neste encontro de duas ideologias familiares distintas.

Como técnica a História de família é bastante utilizada em diversas áreas das ciências sociais, constituindo já uma tradição e um corpus bibliográfico bastante extenso. Nos estudos de comunicação, em especial nos de recepção, embora a família seja um grupo privilegiado (Lull, 1990; Morley, 1986; Orozco, 1992; Renero, 1995; Barrios, 1992; Rico, 1996 e 1998, entre muitos outros), a exploração desta técnica ainda é bastante escassa. Isto no sentido do rigor que a técnica exige, pois a maioria dos estudos reconhece a família como o grupo básico para estudar a recepção, mas não dispensa esforços teórico-metodológicos mais específicos para conhecer as intrincadas relações que se dão neste complexo grupo social.

A importância de estudar a família de forma mais sistematizada, mais densa, reside no fato, segundo González (1994:18), de que “esta instituición no especializada sigue siendo un micro-espacio determinante en la primera socialización, que es además el lugar de la intimidad hogareña”. Em sentido mais amplo, Bertaux5 e Bertaux- Wiame (1994: 28) dizem que as histórias de família são uma ferramenta para observar o social, pois constituem uma via de acesso muito rica para conhecer os processos de formação de trajetórias sociais, individuais e familiares: “en particular a lo que podríamos llamar los procesos internos de las familias y los indivíduos, en oposición a los procesos externos (mercado de trabajo, oportunidades, acontecimentos históricos colectivos, etc)”. Ainda segundo eles, as histórias de família ajudam a entender também as relações entre pais e filhos (ascendentes, colaterais e descendentes), além de todo o tipo de transmissão que ocorre de geração para outra: modelos de conduta e de atitude, de valores e proibições, recursos lingüísticos, perceptivos, cognitivos, comunicacionais, afetivos etc, assim como os recursos econômicos e patrimoniais. Estas transmissões são mais ou menos conscientes ou desejadas e mais ou menos incorporadas por aqueles a que são destinadas6, mas em qualquer caso também fundamentais para entender o grupo famíliar e suas relações com os meios de comunicação, por exemplo, o objeto da pesquisa em questão.

Sendo um método qualitativo, ao contrário do que se possa pensar, fazer história de família não leva somente a dados particulares, isto se dá apenas parcialmente, pois é possível encontrar muitos pontos em comum com outras famílias e com o contexto social. Para isto é necessário tornar explícitos os elementos sociológicos encontrados nos relatos familiares, através de análises comparativas entre fatores internos e externos a elas, diferenças iniciais de recursos econômicos e culturais, de contextos locais, de microclimas familiares etc. É preciso trabalhar também com informações sobre o campo de possibilidades de cada época, correspondente a cada geração e com os elementos de produção de sentido que têm dimensão social, para proceder à análise.

Neste caso, trata-se de identificar relações, processos, vínculos de causalidade, contradições etc., que levarão a uma teorização em um vai-e-vem dialético entre observação e conceitualização (Bertaux e Bertaux- Wiame, 1994: 54). Ou seja, pode-se substituir o critério de “representatividade estatística” pelo de “representação estrutural”, largamente utilizado por Bourdieu, uma vez que é possível reconstruir épocas e eventos históricos-culturais a partir de trajetórias pessoais e familiares através do estudo de poucas famílias7.

Segundo González (1995: 136), histórias de família não são outra coisa que “narraciones que nos documentan la no-linearidad de los cursos de vida y así, cada família o indivíduo no es sólo un átomo de la esquina más alejada de la sociedad, sino que con provecho puede volverse observable como un sistema a escala contenido dentro de un tejido complejo de macro estructuras que más bien se parecen a un holograma que a una cebolla: cada fragmento de aquél reproduce la totalidad de la imagen”. Em termos interpretativos há muitos níveis, alguns contraditórios, outros complementares, todos embutidos na “doxa”, que são as interpretações de primeira ordem que todos fazemos do cotidiano que vivemos. O material coletado, analisado e interpretado, deve calcar-se em fatos, e acima de tudo, no sentido dado pelas famílias.

Operacionalmente8, a técnica de histórias de família pode combinar várias etapas e várias fontes: orais, escritas, iconográficas, documentais etc., que registrem informações do maior número possível de pessoas, de no mínimo três gerações em cada família. Colhe-se múltiplos testemunhos de uma mesma família sobre diversas aspectos que a cercam: regras, valores, hábitos, atitudes, estratégias, conflitos e tudo que é transmitido de uma geração a outra.

A seleção das famílias depende principalmente do problema de pesquisa, que no caso em questão teve como critérios: 1) que o núcleo familiar-base fosse assinante de televisão a cabo, 2) que morasse em determinado bairro da cidade9 e 3) que pertencesse a uma das principais etnias que imigraram para o estado, como já foi comentado.

Na primeira fase, os informantes foram selecionados por sua capacidade de narração e pela detenção das maiores informações sobre a família, e mesmo sendo as mulheres, adultas ou anciãs as que detém esta capacidade, foram incluídos homens pela importância de sua história de vida para o grupo familiar. As regras básicas seguidas foram as do método de história oral e algumas vezes as histórias de família puderam poiar-se em uma ou outra história de vida, pois existem pessoas cujas trajetórias podem influenciar profundamente uma história famíliar. Nesta pesquisa, a entrada nas famílias deu-se pela via do conhecimento prévio ou por indicação de um dos membros da família, o que em duas delas resultou no contato inicial com homens, os quais por suas características pessoais, detinham um bom nível de informações sobre suas famílias.

De qualquer forma, a unidade de observação foi uma família extensa, ou seja, foram estudadas no mínimo três gerações, partindo de um casal- base (2 geração), no caso os assinantes de TV a cabo, acrescentando seus filhos (3 geração), além dos irmãos do casal com seus cônjuges (os cunhados e concunhados) e seus filhos (sobrinhos do casal). Na 1 geração, além dos pais do casal, podem ser incluídos os sogros dos irmãos do casal ou os tios do casal. A definição destas alternativas dependerá do problema de pesquisa, sendo que neste caso a 1 geração incluiu os pais do casal-base, mais seus irmãos.

A coleta das informações foi realizada através de entrevistas com vários membros da família, primeiramente para obter os dados biográficos, que foram registrados em fichas individuais e para casais. Os dados principais para a ficha dos casais são: nome da família, geração, nome dos cônjuges, data de casamento, tipo, separações, descendentes, residências. Para os dados individuais são: família, parentesco, nome, sobrenome paterno e materno, geração, sexo, religião, local e data de nascimento, escolaridade, profissão, casamentos, filhos e mudanças.

Estas informações apareceram cercadas de muitos relatos familiares e individuais, que segundo González, (1995) devem, neste momento, ser enfocadas nos seguintes aspectos: trajetórias, micro-culturas familiares, processos de transmissão e contextos sociais. Com estes dados foram construídos os genogramas, uma espécie de árvore genealógica, que possibilitou uma visão de conjunto das relações que se estabelecem em cada rede familiar, além de deixar ver as influências externas, vindas dos contextos sociais, uma vez que o tempo histórico-social esteve sempre presente na construção do genograma.

O tempo histórico é importante porque ajuda a localizar cada geração em sua década correspondente, além de contextualizar outros acontecimentos importantes em cada família. Assim, o genograma “nos va mostrar las relaciones parentales básicas y al mismo tiempo, la inscripción del tiempo biográfico (las vidas) en el tiempo histórico” (González, 1995:147).

Quanto à história propriamente dita, pela natureza da técnica, não há obviamente uma única e verdadeira história de família a contar, e sim muitas versões e narrativas. Portanto, depende muito do trabalho do pesquisador a história que será escrita - coerências das perguntas, quantidade e qualidade das informações, modos de sistematização, etc., recontada a partir dos relatos e informações vindas das famílias e seus membros10.

Desta forma, as quatro histórias familiares foram narradas numa primeira versão, conservando a ordem cronológica dos acontecimentos, até que, depois de algumas outras versões intermediárias, foi escrita uma final que contemplou o entendimento global de cada família estudada, evidenciando as idéias- força, segundo Gonzalez, identificadas como norteadoras de cada grupo familiar. Só então é que as questões que moveram esta parte da pesquisa puderam ser mais densamente entendidas, pois as histórias serviram de matriz heurística, construída a partir de uma visão interrelacional e estrutural dos grupos em foco, que tornou observável o que se quis ver: em linhas gerais, a importância ou não das identidades étnicas, geracionais, familiares e regional, na construção do público de televisão e, de outro lado, da TV e dos meios de comunicação na construção e reconstrução destas identidades.

Esta abordagem das trajetórias familiares serviu para contextualizar, no eixo temporal, a discussão sobre as práticas culturais dos receptores (incluídas as relações com a cultura massiva) flagradas no espaço cotidiano pela etnografia (subprojeto II) e serviu para pensar a relação das famílias com o universo local/ regional (Porto Alegre/ RS), contexto empírico do subprojeto I.


ANÁLISE INTEGRADA: para além da etnografia e da história de família.

Seguindo sugestão de Klaus Jensen11, que toma por base Miles e Huberman (1994), procedeu-se a primeira etapa da análise conjunta que consistiu na formulação de questões que ambos os pesquisadores gostariam de ver respondido pela perspectiva do outro para complementar seu quadro analítico, conjugando a dimensão diacrônica e sincrônica de maneira totalmente integrada.

Assim, as questões foram enfocadas em três tópicos, adotando a estrutura desenvolvida na narrativa etnográfica, que, seguindo o padrão, levou em conta o tempo, o espaço e a ação ao tratar da construção das identidades pelo grupo estudado.

As questões formuladas para serem respondidads pela perspectiva diacrônica foram as seguintes:

a) Tempo e identidade: 1) “identificando os momentos de mudança espacial, no passado, como isto se refletiu na organização temporal?”, 2) “como descrever o ritmo do cotidiano pretérito?”, 3) “que outros marcadores de tempo cotidiano eles tiveram no passado?” e 4)“como vem surgindo um tempo moderno urbano no cotidiano das famílias?”

b) Espaço e identidade: 1)"como foi a conquista dos novos espaços vivenciados pela família?", 2)"em que bairro moram e como eles se situam em relação a cidade?" e 3) "como foi a construção do espaço doméstico através das gerações?"

c) Práticas, relações sociais e identidade: 1) “junto a que comunidades as famílias desenvolveram seu senso de pertencimento através dos tempos?”, 2) “como isto apareceu nas práticas ou manifestações simbólicas”, 3)“como o tempo/ espaço influenciou a organização social familiar nos cotidianos passados”, 4)“que eventos, práticas, marcadores etc. esta organização social teve como configuradores da identidade grupal” e 5) “quem carregou/ articulou a idéia-força familiar em cada geração”.
As questões formuladas para serem respondidas pela perspectiva sincrônica foram as seguintes:

a) Tempo e identidade: 1) “Quais são os momentos cotidianos em que é percebido o passado convivendo com o presente e o “futuro”, em termos de práticas ou simbolismo?”2) “Há um tempo tradicional, antigo, lento, melancólico que convive com outro, ágil, moderno, fragmentado no cotidiano da família? Como acontece isto?” 3) “Quais são os tempos cotidianos que rementem à cultura étnica e quais os que remetem à cultura regional, se é que existem?” 4) “Considerando as gerações que convivem sob um mesmo teto, quem impõe seu tempo em termos de ritmo, imaginário, projetos etc?”

b) Espaço e identidade: 1) “quais são os elementos ou sinais que indicam que a família mantêm como prática ou como valor simbólico, que podem ser identificados como tradição familiar?” 2) “Existe alguém neste núcleo familiar que tenta manter a tradição do grupo? Quem? De que geração?” 3) “Nesta tradição familiar é possível detectar quais são os elementos de classe, etnia/ raça ou cultura regional?” 4) “O que é tradicional e o que é novo na configuração atual do espaço identitário familiar?”

c) Práticas, relações sociais e identidade: 1) “Considerando as relações familiares, quais são os elementos identitários que catacterizam esta família?” 2) “Considerando os aspectos étnicos/ raciais, quais são os elementos que constróem as relações sociais em torno deste eixo?” 3) “Considerando a origem (rural, interiorana, estrangeira) da família, que elementos desta origem ainda permanecem no dia-a-dia?” 4) “Considerando os aspectos geracionais e de gênero, como se estabelecem as relações sociais no cotidiano?”


Após respondidas as questões12 de cada tópico, procedeu-se à discussão de ambas as análises para ajustes, complementações e redefinições da análise integrada. Para tal, foram realizadas no mínimo duas seções para cada família, precedidas da leitura do texto contendo as questões respondidas por cada pesquisador, que depois de discutido foi retificado de acordo com os comentários recebidos e entregue ao colega para “aprovação” final.

No final de cada tópico - tempo, espaço, práticas e relações sociais- uma análise mais abstrata do processo de formação identitária, de corte vertical, foi realizada pela perspectiva diacrônica, no intuito de gerar as primeiras formulações teóricas, a qual foi complementada pela perspectiva sincrônica, descrevendo as caraterísticas atuais em conexão com as formulações diacrônicas. Esta complementação foi a primeira tentativa de formular um texto integrado, que mais tarde13 deverá conter os três aspectos interligados como forma de reestabelecer a dinâmica desta construção identitária em todos os âmbitos e circunstâncias.


Feito isto, o próximo passo foi proceder uma análise horizontal, comparando as famílias, com o objetivo de levantar hipóteses gerais sobre os processos de construção de identidades sob as condições apresentadas. Partiu-se de um quadro geral, em cada perspectiva, contendo todos os dados levantados, para visualizar todos os elementos emergidos das quatro famílias. Estes quadros foram usados como matriz para proceder as análises comparativas, captando os acontecimentos que as assemelha e as diferencia neste processo.

Um texto final baseado nestes quadros, contendo integradamente as perspectivas diacrônica e sincrônica, resultado também de categorias emergidas dos dados empíricos tratou de apontar uma síntese de toda a análise realizada.

Tendo sido entendido os processos de construção identitárias nos grupos familiares, outra forma de análise está em construção, qual seja a de entender os papéis configuradores dos elementos tempo, espaço, práticas e relações sociais na configurações identitárias em geral, contribuição mais geral que a pesquisa ainda almeja.

BIBLIOGRAFIA:

ALASUUTARI, Pertti. Researching culture. Qualitative method and cultural studies. London. Sage Publications,

1995.

ATKINSON, Robert. The life story interview. London. Sage Publications, 1998.



BERTAUX, Daniel e THOMPSON, Paul (edit). Between generations. Family models, myths and memories. Oxford.

Oxford University Press, 1993.

CÁCERES, Jesús Galindo (coord.). Técnicas de investigación en sociedad, cultura y comunicación. México. CNCA

e Addison Wesley Longman, 1998.

_________. “Del objeto percibido al objeto construído” . In Estudios sobre las culturas contemporáneas. Época II.

Vol. V. Número 9, Colima, Junio de 1999, 9-24.

CLIFFORD, James e MARCUS, George (edit). Writing culture. The poetics and politics of ethnography. Berkeley.

University of California Press, 1986

CURRAN, James, MORLEY, David, WALKERDINE, Valerie (compiladores). Estudios culturales y comunicación.



Análisis, producción y consumo cultural de las políticas de identidad y el posmodernismo. Barcelona. Paidós, 1998.

DENZIN, Norman K. Interpretive ethnography. Ethnographic practices for the 21st century. London. Sage

Publications, 1997.

________ e LINCOLN, Yvonna S. Handbook os qualitative research. London. Sage, 1994.

GIMENEZ, Gilberto. “Territorio, cultura e identidades. La región socio-cultural” In Estudios sobre las culturas

contemporáneas. Época II. Vol. V. N. 9, Colima, junio 1999, pp. 9-24.

GIELE, Janet Z. e ELDER JR., Glen H (editores). Methods of life course research. Qualitative and quantitative approaches.London. Sage Publications, 1998.

GONZALEZ, Jorge A. e CÁCERES, Jesús Galindo (coord.). Metodología y cultura. México. CNCA, 1994.

GRODIN, Debra e LINDLOF, Thomas R. (editores) Constructing the self an a mediated world. London. Sage

Publications, 1996.

HASTRUP, Kirsten. A passage to anthropology. Between experience and theory. London. Routledge, 1995.

JACKS, Nilda. Querência. Cultura regional como mediação simbólica. Um estudo de recepção. Porto Alegre.

Editora da Universidade, 1999.

JENSEN, Klaus Bruhn. La semiótica social de la comunicación de masas. Barcelona. Bosch, 1995.

_______. “Five traditions in search of the audience”. European Journal of Communication, 5(2-3): 207-38, 1990.

LONG, Elizabeth (editora). From sociology to cultural studies. Oxford. Blackwell Publishers, 1997.

MARCUS, E. George e FISCHER, Michael M.J. Anthropology as cultural critique. An experimental moment in



the humans sciences. London. The University of Chicago Press, 1986.

MARTYN, Hammersley. What´s wrong with ethnography? London. Routlegde, 1998.

MILES, M. & HUBERMAN, A. Qualitative data analysis.Thousand Oaks, C.A.. Sage, 1994.

MORGAN, Davis L. e KRUEGER, Richard A. The focus group kit. London. Sage Publication, 1998

PRIEST, Susanna Horning. Doing Media Research. An Introdution. London. Sage, 1996.

SANTOS, Boaventura Sousa. Introdução a uma ciencia pós- moderna. Rio de Janeiro. Graal, 1989.

SCHWARTZ, Howard e JACOBS, Jerry. Qualitative sociology. A method to the madness. New York. The free

Press, 1979.



SPRADLEY, James P. Participant observation. London. Harcourt Brace College Publishers, 1980.



1- Ver JACKS, Nilda. Querência. Cultura regional como mediação simbólica. Um estudo de recepção. Porto Alegre. Editora da Universidade, 1999.

2- Segundo González (1995), é importante conhecer as micro-culturas familiares porque “todas las famílias se forman, crescen y se desarrollan dentro de un universo simbólico de ideas-fuerza que orientan la acción y las interacciones. (...) Es por eso que debemos tratar de esclarecer dentro de las micro-historias que nos cuentan ¿qué tipo de valores se fomentaban? (trabajo, esfuerzo, cultura, poder, dinero, “palancas”, fé, organización, tolerancia, etc)...”

3 - Foram estudadas uma família judia, uma alemã, uma italiana e uma negra, pois foram os principais formadores da população gaúcha, através de fluxos imigratórios, que juntaram-se aos indígenas e portugueses que aqui viviam.

.- Paralelo a isto foi realizado um survey com 137 famílias que responderam um questionário, o qual foi enviado para 400 famílias assinantes de tv a cabo, cujo perfil sócio-demográfico era semelhante ao das quatro famílias escolhidas para realizar as histórias. Os questionários foram enviados em duas etapas para garantir maior número de respostas e continham perguntas abertas e fechadas, cujas respostas abertas foram “fechadas” para estruturar uma base de dados (SPHINX). Em uma segunda etapa foram realizadas entrevistas estruturadas com 40 assinantes, selecionados entre os que responderam ao questionário, explorando melhor dados sobre os hábitos culturais e as trajetórias familiares, cujas informações também compuseram a base de dados. Os critérios para seleção destas 40 famílias foram a declaração de sua etnia.

4 - Houve vários casamentos entre parentes, que fundem três vezes os dois ramos familiares, através da união entre primos e cunhados, respectivamente na primeira geração e entre os antepassados,

5 -Daniel Bertaux, juntamente com Thompson, Passerini, Ferrarotti, entre outros, são os renovadores desta técnica, propondo-a mais do que como técnica, como uma nova perspectiva para estudar as sociedades complexas, o que constituiria a terceira fase dos estudos de história oral, segundo Santamarina e Marinas (IN DELGADO e GUTIÉRREZ, 1995: 257).

6 No mesmo sentido que Bourdieu pensa a noção de habitus.

7 González (1995: 135) chama de construção da dimensão fractal o estudo da singularidade estrutural de cada caso familiar em sua relação com o social.

8 Seguiu-se o modelo proposto por Jorge González (1995).

9 Os dois primeiros e os dois últimos cabeados, para verificar a consolidação ou não de novos hábitos a partir da assinatura de tv a cabo.

10- Recomendações gerais para a escritura das histórias ver em González, 1995: 148/149.

11 - Klaus Jensen assessorou esta etapa da pesquisa, a qual foi desenvolvida na Universidade de Copenhague/ Dinamarca, como parte do projeto de Pós-doutorado, apoiado pela CAPES.

12 - Uma família foi utilizada como estratégia - piloto para o ajuste das questões, que em alguns casos precisaram ser reformuladas ou redigidas de maneira mais clara.

13 - A pesquisa está em fase de finalização, a qual ainda irá integrar o subprojeto I.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal